IGREJA METODISTA DE VILA ISABEL
Fundada em 15 de Junho de 1902


Boulevard Vinte e Oito de Setembro, 400
Vila Isabel - Rio de Janeiro - RJ
CEP: 20551–031     Tel.: 2576–7832


Igreja da Vila

Aniversariantes

Metodismo

Missão

Artigos e Publicações

Galeria de Fotos

Links


Biografias – Personagens da História da Igreja
Rio, 26/11/2007
 

Vedanayagam Samuel Azariah - primeiro bispo anglicano na Índia

VEDANAYAGAM SAMUEL AZARIAH
1874-1945

(O presente texto é uma biografia inserida pelo Bispo Stephen Neill no livro "Contribuição Cristã", escrito pelo Bispo Azariah e publicado na língua portuguesa pela Imprensa Metodista em 1968)

DENTRE os grandes líderes que as Igrejas mais novas produziram no século XX, nenhum foi maior do que Vedanayagam Samuel Azariah, primeiro Bispo de Dornakal, e primeiro bispo indiano da Igreja Anglicana da Índia. Dele escreveu um amigo: "Depois que o bom Deus fez Azariah, quebrou o molde". Outros líderes têm sido iguais a ele de um modo ou de outro; poucos, entretanto, possuíram tantos e tão variados dons. Azariah tinha ao mesmo tempo forte fé em Deus, grandes poderes como mestre e líder de homens, visão, coragem, palavra eloqüente e profunda vida espiritual. Todas essas coisas juntas é que fizeram dele o que ele era.

Nasceu no dia 17 de agosto de 1874, em Vellanvilai, no Distrito de Tinnevelly, cerca de oitenta quilômetros do extremo sul da Índia, onde seu pai, Thomas Vedanayagam, era pastor da aldeia. Sua família não era de origem pária, como algumas vezes se disse; mas de origem nadar. Os nádares não são admitidos nos templos hindus, por isso os hindus os consideram como classe inferior na escala social; mas eles são povo vigoroso e inteligente, e sob a influência do Evangelho têm produzido muitos homens e mulheres de escol. Justamente porque o hinduísmo não os aceita, ouvem prontamente o Evangelho, e centenas de milhares deles têm-se tornado cristãos. Azariah, o grande bispo do Movimento de Massa, foi, ele mesmo, produto de um movimento de massa.

Em 1833 o missionário gaulês John Thomas chegou a Megnanapuram, "a aldeia da Verdadeira Sabedoria", naquela época uma vilazinha em deserto arenoso. No ano seguinte o pai de Azariah foi batizado. Em 1870, quando John Thomas faleceu, a Igreja se havia estabelecido em centenas de vilas, e já havia erigido um grande templo central, com capacidade para 1.500 pessoas, cuja torre media cinqüenta e oito metros de altura. Como se poderia cuidar daqueles milhares de novos cristãos? Foi o próprio John Thomas que certo dia teve a idéia de "um ministro de aldeia para um povo de aldeia". Pensava-se, antes disso, que os ministros indianos deveriam conhecer inglês, grego, hebraico e toda sorte de teologia, e como resultado, em 1846 havia dezoito clérigos missionários no Distrito de Tinnevelly e apenas um ministro indiano. Com o conselho de Thomas, decidiu-se escolher alguns dos melhores obreiros das aldeias, ministrar-lhes breve curso de habilitação em sua própria língua e depois ordená-los. Os seis primeiros homens foram ordenados em 1849. Trabalharam tão bem, que depois disso não se sentiu mais dificuldade em escolher outros; muitos foram ordenados, e entre os escolhidos estava o pai de Azariah, Thomas Vedanayagam, ordenado em 1869 com trinta e um outros, na maior ordenação que já se realizou na Índia.

Esta história é importante porque, sessenta anos mais tarde, Azariah teve de fazer em Dornakal o que havia sido feito em Tinnevelly. Nas redondezas algumas outras missões estavam trabalhando com o outro plano. Para o ministério escolhiam somente homens de bom preparo; como resultado havia mais missionários europeus do que clérigos indianos. Azariah seguiu o método de Tinnevelly; chamou homens fiéis, que haviam trabalhado bem nas aldeias, e embora fossem de pouco preparo, ordenou-os. Quando se tornou bispo, em 1912, havia apenas seis clérigos indianos em sua diocese; em 1945, quando morreu, havia mais de cento e cinqüenta.

Eram boas todas as influências que cercavam o jovem Azariah. Seu pai era homem simples, prudente, piedoso, que vivia o que ensinava. Mas influência muito maior recebeu de sua mãe. Ela pertencia àquele maravilhoso tipo de mulher, ainda encontrado naquela área, para quem o único livro é a Bíblia, sabido de cor, manifestando Deus consigo em tudo o que faz, tornando-o real a todos os circunstantes. Não obstante ser Azariah filho único, ansiosamente desejado, nascido após treze anos de espera, ela não o estragou com mimos e carícias. Naquela casa, dever era dever, ordem era ordem, e ela sabia ser bem severa quando se fazia alguma coisa errada.

Quando menino, Azariah foi enviado ao famoso ginásio de Megnanapuram, escola que se orgulha de haver produzido mais ministros ordenados do Evangelho do que qualquer outra escola em todo o Oriente. O diretor era o Rev. Ambrose Thomas, meio-irmão de Azariah, muito mais velho que este. Era homem admirável, autodidata; por si mesmo aprendera grego e sânscrito. No ensino aos alunos ele encarecia muito o uso correto das palavras e acurada compreensão de seu significado, lição essa de que Azariah nunca se esqueceu. Mas, sobretudo, na escola como no lar, a atmosfera era bíblica. Todo fim de semana os rapazes tinham de aprender, de cor, um capítulo da Bíblia, e esse capítulo tinha de ser conhecido. Certo colega de Azariah recordou-se: "Antes de eu completar doze anos, já sabia de cor toda a epístola aos Colossenses; naturalmente eu não a compreendia, mas foi grande coisa ter tanto da Bíblia em minha cabeça".

Azariah foi da primeira turma a inscrever-se para exames na Universidade de Madrasta. Isto lhe possibilitou continuar dois anos de curso colegial em Tinnevelly, e ainda mais dois no grande Colégio Cristão em Madrasta. Então seguiu no seu primeiro período de serviço cristão, como Secretário da Associação Cristã de Moços. Já era conhecido como cristão de valor, com penetrante desejo de ganhar outros para Cristo. Seu trabalho na Associação Cristã de Moços (A.C.M.) durou mais de dez anos. Nesse período, viajou por toda a Índia e além, falando, pregando, tentando ativar a vida do Espírito, especialmente entre os estudantes e os jovens.

Aqueles anos trouxeram-lhe a amizade de um jovem americano, Sherwood Eddy, também Secretário da A.C.M., amizade essa que foi de muitíssimo valor a ambos.

Eddy estava em condições de ajudar Azariah na solução de dois profundos problemas, cada um dos quais ligados a um conflito entre as boas coisas que ele havia recebido do passado e outras igualmente boas que, a seu ver, Deus lhe estava mostrando para o futuro.

Exatamente ao tempo do nascimento de Azariah, a Igreja de Tinnevelly passava pelas primeiras experiências em conseqüência de ter concedido mais autoridade na igreja aos indianos. Novos deveres e poderes tinham sido dados a homens que não estavam preparados para isso e deixados sem a orientação e ajuda dos missionários. Resultou daí cair a igreja em grande desordem, e muitos males lhe entraram na vida. Azariah estava bem a par desses problemas. Talvez por isso foi que, mais tarde, ele insistia em que tais mudanças se fizessem gradualmente: de outro modo, poderiam causar mais mal do que bem. Decorridos dez anos, chegou novo grupo de missionários. Gastaram vinte anos de duro labor para restaurar a ordem na Igreja. Eram grandes homens e grandes santos. Mas tiveram de exercer controle rigoroso a fim de fazerem o trabalho; tal experiência lhes reduziu de muito a confiança na capacidade de os indianos assumir responsabilidades e dirigir os negócios da Igreja. Eles foram mais governadores do que amigos do povo. Azariah havia aprendido a admirá-los e reverenciá-los. No entanto já se havia convencido de que esse estado de coisas devia mudar; os indianos nunca se desenvolveriam, sem que lhes desse autoridade, deixando-os tomar suas próprias decisões e, se for o caso, até cometer seus próprios erros.

Eddy mostrou a Azariah que era possível aos indianos e ocidentais serem amigos em perfeita igualdade de termos. Os dois amigos tinham aprendido a repartir tudo; desse modo, Azariah chegou a ser um dos poucos indianos que compreenderam o modo por que trabalha a mente ocidental, e se habilitou a formar essa amizade de igual para igual. Aprendeu que discordar de um amigo, algumas vezes opor-se a ele, mesmo descobrir faltas nele, não é deslealdade — é parte da amizade. Assim chegou a ver que era possível amar os velhos missionários, honrá-los por seu grande trabalho por Cristo, e ao mesmo tempo sentir que procederam erradamente em muitos dos seus métodos, e que grandes mudanças deveriam realizar-se na vida da Igreja.

Estes velhos missionários mantinham rígida visão da Bíblia como Palavra de Deus: para eles, cada palavra era verdadeira, e duvidar disso era pecado. Esta era a visão em que Azariah foi instruído, e que seus pais também mantinham. A Bíblia significava tanto para Azariah, que não lhe era fácil aceitar idéias modernas, que sustentam a verdade da Bíblia de modo diferente daquele que lhe ensinaram quando jovem. De novo Eddy estava em condições de ajudá-lo muito: mostrou-lhe quanta nova verdade o moderno sistema de estudar a Bíblia trouxe à luz, ainda que levasse aqueles que o aceitam a abandonar algumas velhas idéias; garantiu-lhe que era possível, sem deslealdade à Bíblia, aceitar novas vistas e novos métodos de estudo e usá-los para compreender melhor a Bíblia. Mais tarde, como bispo, Azariah insistira em que todos os seus estudantes de teologia deviam ler a Bíblia como revelação gradual da vontade de Deus, e não tomar tudo no Antigo Testamento como se tivesse a mesma autoridade que tem o Novo.

Dois grandes acontecimentos ocorreram na vida de Azariah enquanto trabalhava na Associação Cristã de Moços. O primeiro foi seu casamento em 1898. Azariah foi feliz em achar a mulher que lhe seria a perfeita ajudadora, tanto no lar como no trabalho; a Sra. Azariah era mulher educada, de fina inteligência, e não menos devotada ao trabalho do Senhor quanto seu esposo. Quatro filhos e duas filhas vieram aumentar a felicidade do lar. Três dos filhos — um clérigo, um médico e um técnico de agricultura — estão hoje ativos no serviço da Igreja.

Em 1903 Azariah tomou a liderança na fundação da Sociedade Missionária Indiana de Tinnevelly. A Índia havia recebido tanta ajuda do Ocidente, que pareceu a Azariah e a seus amigos haver chegado o tempo em que os indianos deveriam demonstrar sua gratidão e sua própria capacidade de servir, organizando seu próprio trabalho missionário, com dinheiro e homens da Índia. Escolheu-se um campo de trabalho num canto do Domínio de Nizã, onde se fala o télugo, e a sede foi localizada perto da junção da estrada de ferro de Dornakal. Naquele tempo o nome Dornakal, hoje famoso em todo o mundo, era quase desconhecido. Grande parte da região era selva, recanto de tigres e outras feras. A maior parte do povo era pobre, e ninguém, por ali, ouvira falar do Evangelho.

Azariah andou pela Índia, de um lado para outro, fazendo conhecido esse novo trabalho, e convidando os jovens a entregarem-se inteiramente ao serviço de Cristo, especialmente na obra missionária entre os não-cristãos. Numa reunião, quando Azariah fez um desses apelos, certo estudante lhe perguntou: "Por que não vai o senhor mesmo?" A desafio tal, só se poderia dar uma resposta. Azariah decidiu-se ir a Dornakal como missionário. A muitos de seus amigos pareceu uma decisão estranha. A Igreja indiana tinha poucos líderes como ele; já era bem conhecido e de grande influência nas igrejas. Seria justo que ele fosse sepultar-se nas selvas de Dornakal? Azariah não tinha dúvida quanto ao seu dever. Foi ver o Bispo Henry Whitehead, de Madrasta. Este aceitou prazerosamente a oferta de serviço e aconselhou-o que fosse ordenado.

Henry Whitehead, mais do que qualquer outro homem, espalhou nas igrejas a idéia de que os Movimentos de Massa entre os párias eram plano de Deus para conquistar o coração da Índia. Quase todos os primeiros missionários se dirigiram primeiramente às mais altas castas, e conseguiram poucos conversos entre eles. Quando milhares de párias começaram a forçar as portas da Igreja, muitos missionários e líderes indianos se preocuparam com os resultados. Os párias eram ignorantes e sujos, e tinham muitos hábitos maus; sentia-se que se a Igreja se enchesse deles, ela seria combatida pelas castas superiores, e isso tornaria ainda mais difícil ganhá-las para Cristo. Dizia-se até: "Se todos os cinqüenta milhões de párias da Índia se convertessem, isso não abreviaria, de modo algum, a conversão da Índia como um todo". O Bispo Whitehead não concordava. Ele havia lido no Novo Testamento que não muitos poderosos, não muitos nobres foram chamados; pensava que, como no Império Romano, podia ser da vontade de Deus que a Índia se convertesse de baixo para cima.

O Bispo Whitehead e sua esposa receberam Azariah em seu lar e o trataram quase como filho. Por alguns anos o casal Whitehead sentiu haver chegado o tempo em que a Igreja indiana deveria ter bispo indiano; não passou muito tempo e se convenceram de que Deus lhes havia trazido o homem que podia ser o primeiro bispo da Igreja Anglicana da Índia. Em junho de 1909 Azariah foi ordenado diácono; na noite anterior o Bispo Whitehead disse-lhe de sua esperança para mui próximo futuro. Foi sob o peso quase esmagador desse possível futuro que Azariah entrou para a obra do ministério.

Quando se soube que o Bispo Whitehead estava planejando ter um bispo indiano como assistente, levantou-se forte oposição em muitos lugares. Muitos missionários achavam que a Igreja não estava pronta para dar tal passo. Alguns deles não confiavam pessoalmente em Azariah. Os cristãos indianos procedentes das chamadas castas superiores estavam indignados por que tal honra fosse conferida a um nadar; muitos anos mais tarde um daquele grupo disse: "Com apenas uma exceção, nunca ouvi um cristão de casta superior fazer boa referência a respeito do Bispo Azariah". Mas Whitehead foi adiante, pacientemente, com seus planos, e aos poucos a idéia chegou a ser aceita. O velho sábio Bispo Copleston, de Calcutá, insistiu em que o primeiro bispo indiano devesse ter diocese própria, ainda que pequena, e um título, para evitar o desenvolvimento da idéia de que a posição natural de um bispo indiano seria a de assistente de um europeu. E assim se arranjou para que, da área missionária da Sociedade Missionária, fosse criada uma nova diocese, a de Dornakal, e que em adição, o novo bispo deveria ajudar o Bispo Whitehead nas áreas de língua télugo, da vasta diocese de Madrasta.

Enquanto prosseguiam todas essas discussões, Azariah conquistou fama em outra esfera. Em 1910 reuniu-se em Edinburgo a grande Conferência Missionária Mundial. Tal conferência foi quase totalmente ocidental; das mil e trezentas pessoas presentes, apenas dezoito eram das igrejas mais novas. Porém Azariah era uma dessas dezoito, e foi ele o orador escolhido para falar sobre as relações entre missionários e seus colegas das igrejas mais novas. Falou com profundo sentimento, e terminou com estas palavras: "Através dos tempos vindouros a Igreja indiana se levantará em gratidão para atestar o heroísmo e o trabalho altruístico do corpo missionário. Tendes dado vossos recursos para alimentar o pobre. Tendes dado vossos corpos para serem queimados. Pedimos também amor. Dai-nos amigos".

Isto de fato era notório e era injusto; parecia negar o amor e a amizade dos quais havia muita evidência no século anterior ao discurso de Azariah. Mas as palavras fizeram os missionários e seus amigos por todo o mundo ver com acuidade que havia chegado o tempo de grandes mudanças nas relações. Azariah estava longe de estar sozinho em sua opinião que em muitas sedes missionárias as relações entre missionários e seus colegas estavam muito abaixo do nível cristão.

Afinal tudo estava pronto. No dia 29 de dezembro de 1912, todos os onze bispos Anglicanos na Índia juntos impuseram as mãos sobre a cabeça de seu primeiro colega indiano, e Vedanayagam Samuel Azariah, com trinta e oito anos de idade, era Bispo de Dornakal. Dez dias mais tarde tomou posse de sua pequena diocese, com seis clérigos indianos e cerca de oito mil membros. Como ele mesmo costumava dizer bem mais tarde, o Bispo Whitehead, tentando romper a oposição à sua indicação, tinha dito: "Afinal de contas, é uma área muito pequena; e se ele vier a fazer um angu de tudo aquilo, não tem muita importância".

Desde o início o novo bispo deixou claro em sua "área muito pequena" que, cônscio como estava da autoridade que Cristo lhe havia dado como bispo na Igreja de Deus, ele viera para governar. Obreiro incansável e fiel, nunca pôde tolerar a inatividade e auto-indulgência dos outros. Os Metodistas, em outro Movimento de Massa numa área próxima, contemplavam com admiração a obra deste jovem bispo indiano que governava seu campo muito mais severamente do que qualquer missionário ousaria governar. Muitos anos mais tarde um de seus colegas disse: "Não há dúvida de que o bispo é grandemente temido".

Azariah era tão perfeitamente senhor de si mesmo que somente os que o conheciam muito bem teriam visto qualquer sinal das aperturas e lutas interiores que ele tinha de enfrentar. Mas aquela calma interior só foi conquistada a um alto preço. É claro que naqueles primeiros dias Azariah não estava seguro de si mesmo; ele sabia que muitos olhos, nem todos amigos, o vigiavam, e sentia que precisava conservar-se sob forte controle todo o tempo, e guardar-se de cometer enganos. Posteriormente, quando sua posição se firmou mais, ele se tornou mais gentil e delicado. Mas nunca animou qualquer intimidade por parte daqueles com quem trabalhava, temendo talvez que alguma desvantagem pudesse advir desse fato. Enquanto o bispo europeu de sua cidade natal, Tinnevelly deixava saber que aceitaria com prazer convites, quando em viagem, para tomar refeições na residência paroquial, Azariah nunca tomou alimento na residência de um clérigo indiano, e esta regra ele observou até o fim da vida.

Todavia aqueles métodos severos tiveram sua recompensa. Os cristãos da área de Dornakal aumentaram rapidamente e receberam nova vida. Era evidente que o novo bispo era líder de real poder espiritual, capaz de agüentar muito maior responsabilidade do que aquela que lhe fora dada no início. Desde o princípio ele foi auxiliar do Bispo Whitehead nos distritos de língua télugo, da diocese de Madrasta. Sua autoridade aumentou, gradualmente, até se tornar quase completamente responsável por aquelas áreas. Quando, em 1930, a Igreja Anglicana da Índia se tornou independente, a posição se regularizou, e Azariah viu-se bispo de uma diocese tão grande quanto a Inglaterra, com mais de cem mil cristãos naquele tempo.

Mesmo antes dessa data, o bispo estava habilitado a fazer grandes mudanças na ordem da sua diocese. Em 1922 o Bispo Waller, de Tinnevelly, havia decidido aumentar grandemente a responsabilidade dada aos indianos em sua área; o cargo de "missionário distrital" devia ser eliminado e os clérigos indianos de maior liderança seriam colocados à frente de todas as igrejas, escolas e trabalho evangelizante nas vilas.

Azariah, que sempre esteve em contacto com sua cidade natal, decidiu dar o mesmo passo em Dornakal; aqui era mais difícil, pois o trabalho era quase cem anos mais novo do que o de Tinnevelly, mas Azariah achou que devia arriscar e fazer a experiência.

Havia, porém, grande diferença. Em Tinnevelly, os europeus, com exceção do bispo, tinham pequena parte na obra comum da igreja; em Dornakal, até o fim, Azariah conservou os europeus em muitas das mais importantes posições da diocese. Um grupo de grandes missionários — Elliot, Tanner, Gledstone, Emmet, Spear e outros — trabalharam em estreita camaradagem com o bispo; livraram-no de todos os assuntos marginais da diocese — finanças e administração; supervisionaram os clérigos e lidaram com muitos problemas que de outro modo teriam chegado ao bispo. Contentes sempre em permanecer ocultos e permitir que o bispo tivesse o crédito de tudo, levaram pesadas cargas, que de outra maneira ele teria de suportar, e deixaram-no livre para realizar o trabalho que somente ele poderia realizar. Em outro aspecto Azariah teve vantagem especial. Achava-se que o primeiro bispo indiano devia ter a melhor oportunidade possível para boa administração; e assim se fizeram arranjos para levantar dinheiro na Inglaterra para Dornakal; enquanto outras dioceses anglicanas sofriam terrivelmente por falta de recursos, e estavam encerrando suas atividades. Dornakal esteve todo o tempo em condições de expandir e levar o trabalho avante.

Antes de tentarmos retratar o bispo na execução do "trabalho que somente ele poderia realizar", devemos olhar-lhe a vida particular e interior mediante a qual aquela obra se tornou possível. Como quase todos os bons cristãos na Índia, Azariah acostumou-se a se levantar muito cedo, antes das cinco horas da manhã. Passava longo período em oração, antes que clareasse o dia. Era seu hábito orar diariamente, mencionando o nome de todos que tinham qualquer posição importante na diocese; como a diocese cresceu, isto deve ter significado orar por uma centena de colegas cada dia, além dos muitos outros assuntos para oração, que devem ter-se acumulado sobre ele.

Até ao fim, Azariah foi realmente homem muito simples. Para ele, Jesus Cristo era Salvador e Senhor; seu desejo era ser semelhante a Ele. Todo propósito de sua vida, como bispo, pode resumir-se nas palavras "Para que em todas as coisas Deus seja glorificado". Mas também era homem de considerável poder intelectual, verdadeiro estudante. O centro e foco de todos os seus estudos era a Bíblia. Desde a meninice ele a sabia quase de cor, na língua tâmil. Agora havia acrescentado a esse simples conhecimento, cuidadoso estudo dos melhores livros em inglês, reforçado por bom conhecimento de grego; hebraico nunca estudou. Tinha a grande vantagem de poder ler em qualquer parte, e a qualquer hora; uma longa jornada de trem proporcionava-lhe grande alegria, pois, livre de interrupção, exceto o calor e pó, com que ele não se importava muito, podia assentar-se hora após hora com seus livros, absorvendo e relembrando o que lia.

Azariah era mestre nato, e muito do seu ministério como bispo foi realizado através do ensino. Ele acreditava que o mais simples pária podia entender a Bíblia, e que se devia ajudá-lo a compreendê-la, para que pudesse viver como cristão. Tinha a grande vantagem de ter sido aldeão e saber como pensa o povo de aldeia.

Antes de um culto em que se houvesse confirmação, ele sempre passava longo tempo com os candidatos, tentando descobrir o que sabiam, ajudando-os a compreender o passo que estavam dando, e tornando-lhes real a glória de ser cristão. Algumas vezes seus esforços para colocar-se ao nível do povo simples lhe trouxeram dificuldades. Costumava contar como, em um daqueles grupos, nos tempos passados, perguntou a um dos candidatos: "Bem, velho amigo, de que aldeia vem você?", e recebeu como resposta: "Confirmação é o rito em que, pela imposição das mãos do bispo...". Demorou algum tempo para que os clérigos de aldeia e professores compreendessem que tal aprendizado de cor, sem muita compreensão do que estava sendo aprendido, não era lá muito do sabor do bispo.

Azariah sabia bem que muito do tesouro da memória de um povo deve ser achado em seus cânticos. Mesmo que o povo não possa aprender o Evangelho ouvindo, deverá aprendê-lo cantando. Por essa razão estimulou o preparo de músicas e poesias de toda espécie para o povo. Télugo é língua bonita e os telugoenses são uma dos povos mais musicais da Índia. Gradualmente se organizou ali grande conjunto de cânticos cristãos sobre a vida de Cristo e outros assuntos da vida cristã. Os cânticos para as orações matutinas e vespertinas foram reescritos em forma indiana e cantados com músicas indianas. Escreveram-se dramas e pequenas peças sobre assuntos bíblicos, que eram representados nas vilas. Por todas essas formas o Evangelho estava-se tornando familiar ao povo.

Azariah tinha grande fé no seu povo de vila. Não pensava muito no que eles tinham sido ou no que eram, mas no que poderiam ser pelo poder de Cristo a operar neles. Portanto, desde o início insistia em que eles podiam e deviam ser testemunhas de Cristo. A seu pedido, a Igreja indiana acrescentou às três promessas usualmente feitas pelo candidato à profissão de fé — renúncia do mal, fé e obediência — uma quarta promessa, de ser fiel testemunha de Cristo. Ele dizia aos candidatos que pusessem as mãos na cabeça e dissessem: "Ai de mim se não pregar o Evangelho de Cristo!".

Algumas vezes perguntavam ao bispo como podia ser possível as pessoas tão simples e ignorantes serem testemunhas; sua resposta era: "Se um homem conhece só uma história bíblica, ele pode ir e ensinar essa história a alguém mais, e depois volta e aprende outra história".

Foi sobre este princípio que o bispo planejou a grande semana de testemunho, que se realiza anualmente, no verão, quando não há muito trabalho nos campos. Então, milhares de cristãos saem pelas vilas ao redor, contando o que Cristo fez por eles. Era desejo do bispo que cada comungante tomasse parte nesse trabalho.

Houve um ano em que trinta e seis por cento tomaram parte nessa obra, porém ele não estava nada satisfeito com isso; mas em que outra parte do mundo mais do que um terço dos comungantes toma parte num testemunho ativo por Cristo?

Era regra que os pastores e obreiros pagos preparassem o povo para a obra de testemunho, e eles mesmos não pregariam durante a semana dessa prática; toda palestra seria feita pelos membros comuns das igrejas, homens e mulheres. Tal testemunho provou ser poderoso.

Anteriormente se acreditava que a conversão de todos os párias numa região não levaria à conversão um homem sequer de casta superior. Agora começou a dar-se o milagre. Os indivíduos de casta superior não podiam deixar de ver a mudança nos cristãos. Os cristãos de Dornakal, como em outros lugares, estão longe de ser perfeitos; mas quando a bebedeira é abandonada, o cântico de hinos toma o lugar das discussões e palavreado torpe, e a desordem dá lugar à ordem, outros, certamente, fazem suas indagações, e tentam descobrir o que é que traz mudanças tão importantes. Assim foi lá. Cada ano, após a semana de testemunho, vinham párias das vilas pedir ensino a respeito desta nova e estranha doutrina, e alguns homens de casta superior expressavam seu desejo de conhecer mais.

Parte do trabalho de Azariah consistiu em escrever livros. Geralmente escrevia em tâmil. Embora falasse bem o télugo, não era esta a sua língua materna, por isso não tinha confiança em si mesmo para usá-la na escrita; deixava, então, aos outros, o trabalho de traduzir. Mesmo escrevendo em tâmil, não tinha estilo clássico, mas havia aprendido a expressar-se com clareza, numa terminologia bem aplicada.

Pela leitura de seus livros, bem se vê como, à medida que ia envelhecendo, ia crescendo de força em força. O primeiro livro, Santo Batismo, é um tanto obscuro; a maior parte foi tomada de conhecidos livros em inglês, e pouca coisa representa fruto da própria fé e experiência do bispo. Mais tarde tudo mudou. Escreveu breves estudos sobre alguns livros da Bíblia, como Jó, I Contíntios, II Coríntios e Apocalipse. Embora aqui use os melhores livros em inglês para ajudá-lo, agora escreve a respeito do que sabe, do que ele já viveu; tudo tem vida e é visto com relação às necessidades da Igreja indiana. Depois passou para os problemas de ordem prática. Ficou preocupado com o baixo nível da moralidade sexual entre seu povo, e com as idéias errôneas e não-cristãs referentes ao casamento; por isso escreveu o livro Casamento Cristão, baseado na Bíblia e na sua própria experiência de quase quarenta anos de feliz vida conjugal cristã.

Contribuição Cristã não é obra de erudito, produzida num escritório. É um livro que nos dá o pensamento de quem conheceu, por experiência própria, todos os meios certos e errados de levantar dinheiro, e havia relacionado a questão financeira diretamente à da viva fé em Deus.

Azariah foi líder no auxílio à Igreja indiana quando ela teve de enfrentar o problema de sua própria manutenção. Viu, e diz neste livro, que as idéias errôneas sobre sustento próprio poderiam causar grande mal à vida espiritual da Igreja; mas também estava certo de que se os cristãos viessem a aprender idéias certas sobre a contribuição cristã e a alegria proveniente disso, cedo todos contribuiriam e dariam ainda mais do que a Igreja precisava para seu trabalho.

Quando chegou a estudar a vida do seu povo, em Dornakal, parecia-lhe que, apesar de o povo ser pobre, não era tão pobre como os missionários pensavam que fosse. Os missionários tinham-se compadecido a tal ponto da pobreza do povo que o ensinou a receber em lugar de dar. Azariah estava certo de que tudo isto precisava ser mudado. E a mudança começou com as mulheres. Pediu-lhes que, sempre que fossem cozinhar, quando pusessem o cereal na panela, separassem dele mão cheia para Deus. No momento de separar o primeiro punhado não se podia perceber que essa dádiva significasse alguma coisa, mas após semanas e meses, o que fora amontoado representava grande soma. Isto era muito prático e muito indiano.

O método foi adotado em muitos lugares; e ver as mulheres vindo uma vez por mês à igreja, com suas sacolas ou cestas de cereais, é cena muito familiar em centenas de vilas indianas.

Em Dornakal, o Bispo Azariah tinha vizinhos e amigos entre as missões Metodista, Congregacional e Luterana. Desde os primeiros tempos ele se interessara pela unidade da Igreja de Cristo na Índia. Em 1919 esteve presente na famosa Conferência de ministros indianos, realizada em Tranquebar, a qual enviou um desafio a todas as confissões evangélicas na Índia.

Sua mensagem pode resumir-se em poucas palavras: "Somos fracos por causa de nossas divisões; unamo-nos a fim de podermos lançar-nos à tarefa de conquistar um quinto da raça humana para Cristo". Desde aquela época até sua morte, Azariah fez parte do Comitê encarregado de tentar trazer as Igrejas Anglicana, Presbiteriana, Congregacional e Metodista, unidas numa grande Igreja. Isto não era, de modo algum, fácil tarefa. Azariah tinha grande amor às demais confissões evangélicas; mas, à medida que seu ministério ia crescendo, foi reconhecendo certo valor mais alto na riqueza da vida de sua própria Igreja. Ele havia resolvido firmemente que, unindo-se as Igrejas, nenhuma daquelas riquezas deveria ser posta de lado ou desperdiçada. Porém estava certo de que a união devia realizar-se. Infelizmente ele não viveu para ver o dia quando, em setembro de 1947, mais de dois anos após sua morte, veio a existir a Igreja do Sul da Índia. Mas o esquema da união foi devido, em grande parte, à sua sabedoria e paciência. Jamais a Igreja do Sul da Índia se esquecerá daquele que esteve entre os maiores de seus realizadores.

Muitas homenagens foram prestadas a Azariah, mesmo fora de sua diocese. Por longos anos foi presidente do Conselho Nacional Cristão da Índia, Birmânia e Ceilão. A Universidade de Cambridge conferiu-lhe o grau de Doutor em Leis. Na Conferência de Lambeth (na qual os bispos anglicanos de todo o mundo se encontram uma vez de dez em dez anos) foi ele ouvido com afeição e respeito. Viajou por toda parte — Europa, América, Austrália — e por onde quer que fosse, suas palavras impunham consideração. O filho do pastor da aldeia de Vellalanvilai tinha-se tornado um dos maiores e mais honrados cristãos do mundo. Mas em seu coração sempre foi aquele rapaz simples de aldeia, que aprendera de sua santa mãe as primeiras lições bíblicas.

Um dos maiores dias de sua vida foi o 6 de janeiro de 1939, quando, na presença de bispos e outros líderes dos cinco continentes, e de vasta multidão de cristãos indianos, foi consagrada a Catedral de Dornakal. A diocese havia crescido mais do que a diocese-mãe, a de Tinnevelly, e nela havia mais cristãos arrolados do que em qualquer outra diocese da Igreja indiana.

A Catedral, construída em estilo indiano, combinava traços hindus, muçulmanos e cristãos. Para o seu levantamento, recebeu ofertas de quase todas as partes do mundo. Mil e quinhentos comungantes tomaram parte no serviço da Sagrada Comunhão. Houve muitas comemorações em memória dos centenas de missionários e obreiros da Igreja indiana que tornaram possível aquele dia. Mas o lugar central no pensamento de todos estava reservado àqueles dois que, num sentido real e profundo, foram os pais da diocese — o Bispo Azariah e sua esposa.

Os últimos anos de Azariah foram marcados por uma boa dose de tristeza. A vida familiar continuou tão feliz como sempre, e o nascimento de um neto após outros adicionava-lhe alegria. Entretanto, muitos dos velhos amigos haviam falecido ou deixado a Índia. Certa vez o bispo me disse: "Penso que você é a única pessoa viva que me chama de Azariah" — todos os demais se dirigiam a ele usando títulos de distinção.

A obra na diocese apresentou novas dificuldades. Não fora possível conservar o entusiasmo dos primeiros dias, quando tudo era novo e o crescimento rápido. Cristãos de segunda geração e terceira são diferentes dos recém-convertidos.

O cristianismo chega a eles como herança, e não como assunto de escolha pessoal. Eles têm problemas diferentes, e têm de ser tratados de modo diferente. O bispo viu-se mais desambientado com aqueles jovens do que com seus avós, e algumas vezes até foi rude em seus julgamentos a respeito deles. Alguns, entre os elementos de maior preparo, não se mostraram contentes com os métodos paternais de governar, que podiam ter sido muito bons trinta anos antes; críticas indelicadas foram dirigidas ao bispo, contrastando os métodos ainda adotados em Dornakal com o sistema muito mais democrático que se havia desenvolvido em sua terra natal, Tinnevelly.

Azariah andava triste com tanta demora em efetivar a união da Igreja, pela qual ele havia trabalhado tanto tempo. Muitas vezes, quando parecia que a união estava às portas, mais uma vez vem o adiamento. Aqueles que o conheciam havia muito tempo achavam-no menos paciente agora do que antes; nem sempre dava ouvidos ao que os outros diziam, e nem sempre examinava o problema para apreciar seus argumentos.

Ele estava, certamente, ficando velho. Mas ninguém, nem mesmo aqueles que lhe eram mais chegados, tinha qualquer idéia de que o fim estava tão próximo. Por ocasião do Natal, em 1944, Azariah, que havia já passado seu septuagésimo aniversário, saiu, como de costume, para uma visita às vilas, pregando, recebendo crentes à comunhão da Igreja, administrando a Santa Comunhão. Como sempre, sentia-se feliz e cheio de vigor neste trabalho. No dia 28 de dezembro ele voltou para casa com febre, mas na Índia isto não é coisa fora do comum, por isso não se fez alarde. Cedo, porém, tornou-se evidente que os longos anos oração e de trabalho o haviam consumido; ele não tinha força para resistir à enfermidade e não ficaria melhor. Lá pelo meio-dia do primeiro de janeiro de 1945 ele entrou calmamente no descanso eterno.

Durante o dia, milhares de pessoas vieram vê-lo, deitado, tranqüilo. Apreciavam a aparência de felicidade na face do grande homem de Deus, que por tanto tempo tiveram como seu pai em Cristo. À tarde depositaram-no no jardim da grande Catedral que ele havia construído.

"Não sabeis que hoje caiu um príncipe e um grande em Israel?". São já passados nove anos, mas é ainda com lágrimas que escrevo estas sentenças, quando penso de novo em meu amigo e companheiro.

Azariah tinha grandes dons, que dedicou inteiramente a Deus; nunca hesitaria ele um momento em testemunhar: "Pela graça de Deus eu sou o que sou". Se ainda mui poucos nas igrejas mais novas são os que têm chegado à altura de suas realizações, não será, talvez, porque não aprenderam igualmente a lição da plena submissão à vontade de Deus? Quem, então, se levantará agora, não para imitar Azariah, pois ele nunca o teria desejado, mas para seguir a Jesus Cristo como Azariah experimentou segui-lo, e assim participar, como ele participou do estabelecimento da Igreja, que é, na terra, o corpo de Jesus Cristo?

Voltar


 

Copyright 2006® todos os direitos reservados.