IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Biografias – Leigos e Leigas Metodistas
Rio, 21/4/2007
 

Anita Betts Way e Mário Way

Pr. Ronan Boechat de Amorim

Anita nasceu em 3 de dezembro de 1931 em Uruguaiana, Rio Grande do Sul, filha de missionários metodistas americanos servindo à Igreja Metodista do Brasil desde 1919. Estudou no Brasil até concluir o segundo grau. De 1952 a 1956 foi cursar a universidade nos Estados Unidos, formando-se em música sacra e educação cristã. Em seguida foi para uma escola de treinamento missionário para leigos, pois planejava regressar ao Brasil como missionária. Foi onde conheceu o Mário.

Mário nasceu em 29 de dezembro de 1930, na Carolina do Sul, Estados Unidos, filho de família metodista. Participou no movimento Estudantil Universitário Metodista dos Estados Unidos, cujo um dos objetivos era o fim da segregação racial e a construção da justiça e fraternidade entre todas as etnias e povos. Em 1951 formou-se em Pedagogia. Na Igreja trabalhou em muitos ministérios e tarefas. Também em 1951 ficou sabendo que a Igreja estava procurando jovens que tivessem experiência no trabalho com juventude para serem enviados a trabalhar em várias partes da África. Sentindo o chamado de Deus na sua vida, foi enviado pela Igreja para trabalhar em Angola, então uma colônia portuguesa na parte sul do continente africano. Sua tarefa era basicamente organizar sociedades de jovens, promovendo acampamentos, congressos, treinamentos; ajudando as igrejas locais a formarem grupos de jovens. Participava regularmente de equipes de pastores, professores, enfermeiras, etc... que visitavam as aldeias.

Serviu à Igreja Metodista de Angola (fruto missionário da Igreja Metodista dos Estados Unidos) até 1955, quando então retorna aos Estados Unidos para se fazer seu mestrado em Serviço Social, e candidatar-se a ter um ministério permanente como missionário. Foi nessa época que conheceu Anita. Como mencionamos, estudaram na mesma escola para missionários. Anita e Mário casaram-se em 1957 em Porto Alegre, Brasil, e passaram a lua de mel no Rio de Janeiro. Foi quando visitaram o Instituto Central do Povo (ICP) e o Acampamento Clay. "Foi amor a primeira vista", dizem em relação ao ICP e ao Brasil. "Se não houvesse o compromisso com Angola, gostaria de trabalhar aqui", o Mário disse na ocasião.

Mas, compromisso é compromisso. E assim em 1958 o casal vai para Angola (onde Mário servira como Missionário) para trabalhar no Centro Comunitário em Luanda. Desenvolveram lá um trabalho sobretudo na área de educação e música. Começava a efervescência do movimento de emancipação nacional em Angola. E as igrejas evangélicas, e em especial a Igreja Metodista, eram acusadas de "instigar" os angolanos a trabalhar pela independência. Muitos pastores e líderes leigos foram presos ou mortos, e outros tiveram de fugir para o Zaire. Em 1961 Mário foi preso, junto de um grupo de missionários, acusado de "conspirar" e "trabalhar abertamente" a favor da "causa" da independência de Angola. Ficou preso por 2 semanas num prisão especial para "presos políticos", até ser transferido para Portugal, onde, após 3 meses de prisão e sem uma acusação formal, foi posto em liberdade e expulso do país. Mário conta que a expulsão foi um "privilégio" para ele por causa de sua nacionalidade estrangeira (americana), pois a grande maioria dos que eram presos eram torturados e assassinados por grupos de extermínio ou repressão pró-governo de Portugal.

Eles dizem que a independência de Angola era a bandeira do povo angolano, particularmente do povo evangélico que, diferentemente da Igreja Católica, não tinha qualquer aliança com o governo colonialista. A grande maioria da liderança do movimento de independência tinha sido educada em escolas evangélicas. Houve uma repressão muito dura contra os evangélicos em 1961. Na prisão Mário conversava com os outros missionários presos. Todos temiam que com a prisão e morte da liderança, o povo evangélico não agüentasse tanta repressão e que a Igreja fosse dispersada. Mas graças a Deus isso não aconteceu. "Os jovens metodistas usavam aquele distintivo da cruz de malta, seria muito fácil eles tirarem aquele símbolo para não serem reconhecidos. Mas eles faziam questão de usá-lo. Muitos deles "desapareceram", outros foram mortos", diz Anita.

Anita estava grávida quando Mário foi preso. "A casa já tinha sido apedrejada. Muitas pessoas refugiavam em nossa casa, fugindo do país. E muita gente trazia carta e material que eles queriam que saísse do país para nós entregarmos aos missionários que estavam saindo do país. Até o dia que a polícia veio, revistaram a casa e disse pro Mário em inglês: "Este é o seu dia!" Nós tínhamos uma porção daquelas cartas e eu tive de escondê-las na roupa. E eles levaram o Mário nesse dia. Depois passaram noutro lugar, e prenderam mais três missionários." - conta Anita.

Anita continua: "Apesar de sermos todos evangélicos e metodistas, havia desde que chegamos uma nítida distância entre os irmãos angolanos e nós missionários. A luta era deles negros angolanos e nós missionários lembrávamos o branco europeu invasor e colonizador. Mas naquele mesmo dia que o Mário foi preso, aquela barreira Deus derrubou por terra. Recebemos uma inesperada visita de um grupo de mulheres que vieram com o intuito de solidariedade e consolo. Era como se elas dissessem: "agora sabemos que vocês estão do nosso lado e vocês sabem o que nós sofremos!" E a casa foi apedrejada novamente naquele momento, mas não havia medo, somente fé e solidariedade. Estabeleceu-se um vínculo de cumplicidade". "Não dá pra ser neutros no processo de libertação e de fazer prevalecer a justiça de Deus", dizem.

"Ficamos sabendo do terrorismo da repressão. Tínhamos, por exemplo, um pastor amigo nosso que num domingo de manhã enquanto pregava, sua igreja foi invadida por um grupo de fazendeiros e arrancaram ele do púlpito e ali defronte da igreja bateram tanto nele que ele veio a falecer. Os cristãos metodistas oravam para que pudessem ser fiéis a Deus a ponto de amar a quem torturava, matava e os tratavam tão mal. Tinham a preocupação de serem fiéis ao Evangelho também durante este período difícil de perseguição! É por isso que eu não aceito e até me revolto com essa tal teologia da prosperidade, que apregoa que é só ter fé, que Deus vai tornar-nos ricos. Então me vem à mente a vida de tantos irmãos e irmãs que tiveram tamanha fé e sofreram prisões, tortura e até mesmo a morte" - diz o Mário.

Falando sobre barreiras raciais Mário testemunha: "Trabalhar em Angola foi uma grande mudança em minha vida. Eu era adolescente na igreja dos brancos que não se misturava com a Igreja dos negros. Creio que foi no movimento universitário a primeira vez que convivi, comunguei e partilhei com irmãos e irmãs negros. Aliás, foi esse movimento universitário que colocou a Igreja Metodista como pioneira na luta contra o racismo e que estabeleceu como bandeira a aproximação e integração entre brancos e negros metodistas. Hoje em dia a Igreja Metodista nos EUA chama-se Igreja Unida, e tem um só governo, uma só estrutura. E estão acontecendo nos últimos anos as primeiras experiências de pastores negros pastorearem as chamadas "Igrejas de brancos" e de pastores brancos pastorearem as chamadas "igrejas de negros". Temos bispos negros e bispos brancos". E Anita confirma: "Não havia diferenças para mim e Mário capazes de nos impedir a comunhão e o amor, de estabelecer racismo. E as crianças, graças a Deus, não vêem isso. E era muito lindo ver nossa filha loira brincar com todas aquelas crianças negras. Amamos profundamente nossos irmãos e irmãs angolanos."
Como os dois falavam o português, foram enviados em 1962 pela Junta Geral de Missões da Igreja como missionários à I Região EcIesiástica da Igreja Metodista no Brasil, onde servem na qualidade de Diáconos da Igreja ao Instituto Central do Povo (ICP). Mário continua no ICP até hoje. Anita em 1984 foi transferida para servir no Instituto Metodista Ana Gonzaga (IMAG), com a responsabilidade pela educação cristã e outros serviços de apoio às crianças internas.

Anita em 1995 foi nomeada para a Equipe Regional de Trabalho com as Crianças da Região. E Mário desde 1983 também participa da Assessoria de Projetos da nossa Região. O casal tem 3 filhos nascidos em países e continentes diferentes. Evelyn nasceu em Angola, África; Steve nasceu nos Estados Unidos e Dine, nasceu no Brasil. Os três netos são nascidos no Brasil.

Ficam tristes quando ouvem alguém dizer que os missionários metodistas americanos que trabalharam na década de 60 no Brasil estavam a serviço da CIA (central de espionagem americana) e trabalhando pelo golpe de 1964. Mário afirma que "como parte do contrato da Junta Geral de Missões, é estipulado que os missionários metodistas americanos não nenhum contato com a CIA ou outro órgão similar. Dos missionários metodistas americanos que conheci nesses anos todos, tanto aqui como em Angola, não sei de nenhum que prestou esse papel. Pelo contrário, nós nos opomos a esse tipo de coisa. Pode ser que isso tenha acontecido com outros

missionários, inclusive americanos, mas não com os metodistas. Mas eu pessoalmente nunca conheci e nem soube de nenhum. Pelo contrário, tivemos foi um dos nossos missionários aqui no Brasil expulso pelo governo militar por ser considerado subversivo após publicar alguns artigos sobre a brutalidade dos militares e das prisões de estudantes, por exemplo".

Sobre este mesmo tema Anita conta que em abril de 1965 recebeu uma carta de uma tia dos EUA onde num parágrafo ela queria saber notícias da família Way porque estava preocupada por ouvir muitas notícias sobre o que anda acontecendo no Brasil. Já num outro parágrafo ela comenta que estava muito contente porque o Bispo Dossey estava nos EUA e fazendo tanto pela Causa. "Só isso que ela falou. Ai quando eu vi isso, que engraçado, Já fazia tanto tempo que o Bispo Dossey já tinha ido, por que ela estava escrevendo isso agora? Foi então que reparei que a carta havia sido escrita em abril de 1964 e ela havia sido aberta pela censura. A carta estava até com fitas transparentes fechando a carta. Então com essas todas achei que o Mário estivesse numa nova lista de subversivos, agora na lista do governo militar do Brasil, porque estava trabalhando pela "Causa" em 1964. Eles ficaram com nossa carta durante um ano!"

Falando de sonho... Um grande sonho do Mário é ver o ICP e o Acampamento crescerem e servirem melhor à comunidade e à Igreja. Anita está contente de ver a música em nossa Igreja melhorando; tornando-se mais brasileira, com novas e belas composições, ao mesmo tempo há grupos resgatando a beleza e novidade dos hinos que integram nossa história desde há muito tempo ("os hinos do nosso hinário"). Mas seu grande sonho é ver o IMAG com casas-lares e que realmente cuidasse das crianças de uma maneira que quando elas saíssem de lá fossem pessoas preparadas para a vida, com capacidade de aproveitar oportunidades ou até mesmo de criar suas próprias oportunidades, com futuro e uma contribuição significativa para que nossa sociedade possa ser melhor.

Em julho de 1997 aposentaram-se oficialmente e apesar de duas filhas estarem residindo nos EUA, continuam vivendo no Brasil e trabalhando na causa do Evangelho tão animada e integralmente como antes. "Aqui estão os amigos; uma boa parte da vida!"

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