IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Biografias – Leigos e Leigas Metodistas
Rio, 21/4/2007
 

João Pedro de Oliveira, um evangelista

EVANGELISTA JOÃO PEDRO DE OLIVEIRA (*)

Ronan Boechat de Amorim

Essa História Viva pode ser considerada um desdobramento da História Viva publicada pelo AVANTE em sua edição de Janeiro/98. É só ler para entender...

O Evangelista João Pedro de Oliveira que aceitou Jesus nasceu num 24 de maio de 1927, filho de Antônio Joaquim e Altamira Maria, em Natividade, RJ. É pai de 4 filhos (Jacira, Gênis, Janira e Gelza) e de 5 netos. É pregador Metodista há 52 anos e esse é o seu tempo de convertido a Jesus e de Metodista. Sua experiência de conversão ao Senhor Jesus Cristo como ele mesmo define “ foi uma coisa interessante”. Começou a assistir a Escola Dominical na casa do Sr. Oscar Magalhães, na Fazenda da Conceição, num lugarejo em São José da Avahy, em Itaperuna. “Como na roça a gente tinha pouco movimento, eu participava das reuniões na casa do Sr. Oscar mais interessado em namoro do que propriamente nas coisas da crença. Era sempre aos domingos. Das 9h às 11h era a Escola Dominical e às 19h era o culto. Quando eu comecei a freqüentar essas reuniões na casa do Sr. Oscar eu já estava de paquera com a Maria, hoje minha esposa”, ele lembra.

“Minha intenção em estar na Igreja não era outra coisa senão namoro, mas acabei tendo contato com as revistas com as lições bíblicas. Havia ali um irmão chamado Francisco Paixão, sobrinho do Sr. Oscar e pai da Maria que eu na época paquerava, e ele todas as vezes que as revistas chegavam e iam ser distribuídas aos alunos da Escola, ele reservava uma para mim. Eu para não fazer feio acabei estudando uma lição e outra, não faltando às aulas da Escola, pegando gosto, me entusiasmando, ao ponto de chegar o dia em que eu senti Deus agindo na minha vida e me chamando para uma obra. Eu tinha de 19 para 20 anos, garoto muito farrista, gostava de festas e de freqüentar bailes bem agitados. Saia na 6ª e só voltava pra casa na manhã da segunda-feira. As pessoas de família, sobretudo as mulheres, não participavam dessas coisas. Mas para um jovem era coisa boa e divertida. Resolvi abrir mão de tudo isso, pois essas coisas passaram a não ter importância para mim. Conversei com o Sr. Oscar e a liderança da congregação e acabei sendo batizado e me tornando membro da Igreja. Quem me batizou foi o Rev. Manoel Custório, pai do Bispo Almir e do Rev. Nadir Pedro dos Santos. E as pessoas vendo a minha conversão, meu entusiasmo e alegria com ela, acabaram me convidando para pregar um dia. Foi uma experiência tão abençoada que nunca mais deixaram de me convidar para pregar e eu nunca mais deixei de pregar. Esse era o meu dom e a minha igreja reconheceu isso em mim”, partilha o irmão João Pedro.

As reuniões eram muito animadas. Vinha gente de todo lado. Era gente de charrete, no lombo de cavalo e à pé. Lembro do Sr. Gumercindo, e de famílias da Ponte Alta, Capelinha e Valão. Nossa congregação era dirigida pelo irmão Oscar e estava ligada à Igreja Metodista de Eugenópolis. As revistas que usávamos na Escola Dominical eram as da Imprensa Metodista, ou melhor, da Confederação Evangélica. Assuntos muito bons e que falavam ao coração da gente. Atendia tanto as pessoas mais cultas como também as mais simples. Hoje as revistas estão muito atrás daquelas, caíram muito de qualidade.

Os candidatos a membro da Igreja eram orientados pelo Sr. Oscar ou pelo Francisco Paixão. Era um trabalho de muita responsabilidade. Lembro que recebi orientações sobre as responsabilidades de ser membro da Igreja. Falaram sobre santificação, doutrina, testemunho cristão, amor ao próximo, responsabilidade e assiduidade na Obra do Senhor.

O Francisco Paixão, sobrinho do Sr. Oscar, casado com D. Cota, era o pai do Moisés, da Isaura, Marta e João, todos eles, membros fundadores da Igreja Metodista de Fonte Carioca, em São João de Meriti. A congregação na Fazenda Conceição começou com a conversão do Sr. Oscar através de uma Bíblia dada pela D. Mariana, que por sua vez havia se convertido através da leitura de um Bíblia comprada meio às escondidas de um daqueles vendedores ambulantes. Praticamente toda a família e parentela do Sr. Oscar lhe seguiu na decisão de aceitar a Jesus Cristo como Senhor. Era um total de mais ou menos 20 pessoas. Ele tinha vindo de Estrela Dalva, MG, perto de Além Paraíba, para trabalhar na Fazenda da Conceição. Ele chegou lá solteiro e muito jovem. Foi lá que conheceu a sua esposa, também chamada Maria, companheira de trabalho, de fé e de toda vida. O Sr. Oscar faleceu em 1997 aos 101 anos de idade, D. Maria já é falecida há alguns anos.

O irmão João Pedro que procurara a Igreja só com o intuito de arranjar uma namorada, logo tinha entre as pretendentes a D. Maria Madalena Batista Paixão, hoje sua esposa. “Da convivência ao namoro foi um pulo. Não tinha essa coisa de enrolação... Foram 3 anos de namoro e noivado até o casamento. O Sr. Oscar era um líder responsável, amoroso, dedicado, mas também severo. Não permitia em hipótese alguma que os namorados se sentassem juntos durante as reuniões. Eu e Maria nos sentávamos separados”, lembra.

O casamento do irmão João Pedro e de D. Maria aconteceu no cartório no centro de Itaperuna num 01 de outubro de 1949. Quem oficiou o casamento foi um juiz, mas a palavra religiosa foi dada pelo Pastor José de Freitas, da Igreja Metodista de Eugenópolis. Vieram pra cidade de caminhão. Os noivos vinham na buléia, na cabine, junto com o motorista. As testemunhas e convidados vinham arrumados e perfumados, mas lá na carroceria. A festa era na roça, na fazenda. Era uma festa de casamento com muita fartura: frango, cabrito, leitão, etc... Foi só depois de casados que o casal pode sentar-se junto durante as reuniões da Igreja.

Como tinha época certa para o plantio e para a colheita, entre um período e outro muitos agricultores vinham para o Rio a fim de trabalhar e arrumar um dinheirinho a mais. Segundo o irmão João Pedro, a vida na roça nunca foi fácil. Com a situação difícil (seca, improdutividade), no fim da década de 40 o Francisco Paixão e sua esposa D. Cota vieram definitivamente para o Rio. Na verdade foram morar em Fonte Carioca, bairro de São João de Meriti. Ali logo deram jeito de começar um trabalho Metodista, e foi assim que nasceu a Congregação de Fonte Carioca, ligada à Igreja Central de Caxias, que em 1951 passou a ser uma Igreja Local.

O irmão João Pedro morava na roça e também era agricultor. Também no período entre o plantio e a colheita da lavoura passou a vir para o Rio trabalhar temporariamente em construções. Era um excelente carpinteiro. Mas chegou a trabalhar também com o Moisés Paixão na grande fábrica da Bayer, recém inaugurada em Belford Roxo, naquele tempo um bairro periférico de Nova Iguaçu mas localizado perto da rodovia Presidente Dutra. Cada vez que vinha para o Rio ficava por volta de 7 a 8 meses, quando então ficava morando nas dependências da Congregação de Fonte Carioca. Depois voltava pra família, pra Congregação da Conceição e pra lavoura. Foi numa de suas passagens pelo Rio que, trabalhando e morando numa obra de construção civil na Praia do Flamengo, passou a freqüentar sempre que podia a Igreja de Vila Isabel. Eram pastores os Revs. Arcendino e Baggio. Foi numa dessas suas visitas à Vila Isabel que presenciou a belíssima e maravilhosa conversão do hoje missionário metodista em Portugal, o Otelino Macedo. Otelino era carpinteiro e trabalhava na mesma obra com o João Pedro. “Otelino passava pela 28 de setembro em direção à Praça Sete (hoje Barão de Drumond), onde pretendia dar cabo de sua vida. Mas passando defronte da nossa Igreja de Vila Isabel, cantava-se naquele instante o hino “Manso e bonsoso eis Jesus nos chamando”, e ele sentiu-se compungido e arrastado por uma força divina para dentro da Igreja, onde sentiu o amor e o poder de Deus, e entregou-se a Deus sem quaisquer reservas. Deus salvara naquele instante sua vida e sua alma. Deus salvara ali não apenas o Otelino, mas todas as vidas e almas a quem Otelino foi mensageiro do amor e do Evangelho Salvador. E com certeza não foram e nem são poucas”.

Desejoso de estudar um pouco mais (só tinha o antigo primário, ou seja a 4ª série concluída), foi no início dos anos 50 que largou definitivamente a vida na roça, mudando-se para Itaperuna com a família. Ali fez a antiga Admissão (pré-ginásio), Ginásio e o Segundo Grau, formando-se num curso relacionado com Comércio. Em Itaperuna começou a trabalhar no DER (Departamento Estadual de Estrada de Rodagens). “Comecei fazendo o serviço de capinar as margens das estradas. Pegava minha enxada e lá ia eu. Mas procurei o engenheiro responsável, Dr. Maurício de Oliveira, pedindo uma transferência para trabalhar na Residência (a garagem do DER) ali mesmo no centro de Itaperuna, porque eu gostaria muito de estudar. Ele me ajudou muito e acabou conseguindo minha transferência. Assim, como todo jovem pobre, trabalhava de dia e estudava à noite. Lá estava eu lutando para estudar, e concluir o 1º e 2º graus. Não foi fácil! Certo dia, em horário de trabalho, eu me sentei na buléia de um caminhão para estudar para as provas e cochilei. Aí o engenheiro responsável, o tal Dr. Maurício, me pegou dormindo. Ele já chegou com um memorando prontinho e pediu que eu assinasse. Assinei o documento que me penalizava com 5 dias de suspensão do trabalho e conseqüentemente com um desconto equivalente a 5 dias no salário. Isso tinha acontecido por volta das 15h. Uma hora mais tarde quando saí do trabalho, ao invés de ir pra casa, fui direto à casa do engenheiro. Ele me atendeu: “João Pedro, o que que há?” Eu disse então que estava ali para pedir desculpas, e expliquei que estudava à noite, e que ia dormir por volta da meia-noite ou uma hora da manhã, e que agora as coisas estavam mais apertadas porque era tenho de provas e que eu não podia perder aquele dinheirinho do desconto dos 5 dias no salário porque o orçamento era muito apertado e eu precisava comprar 2 livros que estavam me faltando. Explicado então o acontecido, o engenheiro disse: “João Pedro, eu sei da sua luta e é bom ver um jovem se esforçar, mas quando você precisar dormir, fala comigo e eu te libero e você vai pra casa, o que eu não posso permitir é que você durma no serviço. Vou rasgar o memorando e me deu 4 diárias extras, uma bonificação, que hoje em dia corresponderia mais ou menos a uns R$ 80,00 (oitenta reais). Comprei os livros e ainda sobrou um dinheirinho”, diz João Pedro.

“Eu e minha família não viemos sozinhos da roça. Muitas famílias estavam deixando a roça. Inclusive muita gente da nossa Congregação na Conceição. Boa parte veio para Itaperuna. Como aqui não tinha Igreja e nem r\trabalho Metodista, começamos uma série de cultos nas casas dessas nossas famílias. Esses cultos, na verdade, já aconteciam antes de eu e Maria virmos para cá. Mas eu era um dos membros lá da Congregação da Conceição que vinha dar assistência aos cultos em Itaperuna. Vinha a cavalo e não poucas vezes à pé. Do Avahy onde morávamos até o centro de Itaperuna eram uns 10 km”.

“Foi em 1982 que tive a oportunidade de fazer o curso de evangelista em Santo Antônio de Pádua. O curso durou 7 meses e aconteceu todos os sábados, o dia todo. Depois que terminei o curso recebi pelo menos dois convites para ser pastor. Um foi do Pastor e Superintendente Distrital, Rev. Moacyr Correa, que estava pastoreando 4 Igrejas. Quando terminei o curso ele disse que eu ia ajudá-lo tomando conta da Igreja de Monte Alegre. O Bispo Paulo Ayres também me convidou para pastorear o Campo Missionário de Angra dos Reis. Nas duas situações eu orei a Deus, e muito alegre respondi que Deus havia me chamado não para o ministério pastoral, mas para ser evangelista. Para o Bispo Paulo Ayres lembro que disse que não convém tirar a junta de bois de guia, que fica à frente das demais juntas de boi do carro de boi, para colocar atrás. É desperdiçar a capacidade da junta que guia, e é colocar uma junta despreparada pra guiar. O carro não vai andar”.

“Já preguei em muitas Igrejas, já até perdi a conta. Regularmente sou convidado para pregar em muitas Igrejas aqui da nossa I Região quanto da IV Região. Para se ter uma idéia, saio para trabalhos especiais e séries de pregação pelo menos dois finais de semana por mês.”

“Como pregador e evangelista já andei por toda parte e graças a Deus nunca tive a experiência de ser discriminado por causa da cor negra da minha pele. Graças a Deus sempre fui bem acolhido e respeitado. E já tive o privilégio de lidar e conviver com gente pobre, gente da roça, gente da cidade, doutores, etc... Mas eu também não dou muita atenção para isso, eu me imponho e me faço respeitar. Eu sou uma pessoa que também, graças a Deus, não sofri a também difícil experiência de ter complexo de inferioridade, por vir da roça, por ser pobre ou por ser negro. Eu sou uma pessoa. E isso é o que conta. O Racismo é uma coisa dolorosa, ainda mais se acontece dentro da Igreja, no meio dos remidos do Senhor.”

“Sou um dos membros fundadores da nossa Igreja de Itaperuna. Estive presente no primeiro culto realizado com a intenção de criar a Igreja. Vi esta nossa comunidade ainda embrião, recém-nascida, menina, adolescente e agora ainda é uma Igreja bem jovem e animada. Sou professor da Escola Dominical praticamente desde a fundação da Igreja. Fui presidente da mocidade por 12 anos seguidos e Guia-Leigo por 32 anos ininterruptos, até que os cânones de 1992 extinguiram com essa função na vida da Igreja. Hoje, além de professor da Escola Dominical, sou evangelista consagrado a esse ministério”

Hoje aposentado do seu serviço profissional, dedica-se ainda mais de corpo e alma à Obra do Senhor. Às 6h da manhã já está na Igreja orando e lendo a Palavra, preparando-se para a jornada evangelística durante o dia. De fato seu grande prazer é exercer seu ministério: orar, visitar e falar do amor de Deus para todas as pessoas. “Quando é oportuno a gente fala do amor de Jesus, quando não é a gente faz a oportunidade”, sentencia o evangelista que já leu a Bíblia de Gênesis a Apocalipse diversas vezes e que guarda um carinho e amizade todo especial por todos os pastores que já passaram por Itaperuna, mas de forma especial pelos Revs. Eugênio Sias Filho, Ermil Correa e Antônio de Sá Neto.


(*) Joâo Pedro de Oliveira faleceu alguns meses após a publicação da sua História Viva no Avante, o Jornal da Igreja Metodista no Estado do Rio de Janeiro.

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