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Rio, 26/10/2007
 

A Teologia da Prosperidade (Isaltino Gomes Coelho Filho)

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A TEOLOGIA DA PROSPERIDADE
Isaltino Gomes Coelho Filho (adaptado)


Há tempos atrás houve em Brasília um congresso que mostrava os princípios para enriquecer. Um dos temas foi "Como se apossar das riquezas dos incrédulos". Parece que o curso praticou o oporto também: um jornal secular disse quem ficou rico foi seu ministrador. Ou seja, se apossou das riquezas dos "crédulos" (crentes) também.

Uma senhora, de formação acadêmica superior e bem de vida material, discutiu comigo que crente tem que ficar rico ("pois isso é até evidência de sua salvação!") e o incrédulo tem que ficar pobre. Eis seu argumento: "Meu Pai é dono de todas as coisas. Não é cabível que deixe as riquezas nas mãos dos incrédulos e que eu, filha do Rei, seja pobre". O argumento é falacioso, enganoso. Ele se estrutura sobre uma ilação desconexa e ignora o ensino bíblico. Aliás, impressiona como se fazem afirmações teológicas sem respaldo bíblico.

Quando se é rico? E quando se é pobre? Porque, onde a renda per capita for R$ 11.000,00 quem tem renda de apenas R$ 3.000,00 é "pobre". Onde for de R$ 1.500,00 a renda per capita, uma pessoa com renda de R$ 3.000,00 é "rica". Quantos bens e riquezas precisamos ter para sermos "ricos"? E uma questão mais: qual o valor maior da vida? Qual a perspectiva cristã? As palavras de Jesus são claras: "...porque a vida de um homem não consiste de abundância das coisas que possui" (Lc 12:15). São bens materiais o valor maior da vida? É por acaso a riqueza uma das virtudes do fruto do Espírito Santo?

John Stott argumenta em "O cristão numa sociedade não cristã" que uma das razões pelas qual o evangelho nos Estados Unidos perdeu muito de sua preocupação social deveu-se a sua penetração na classe média. Amaciou as reivindicações sociais e exibiu bens como prova de espiritualidade. Não tê-los era fé escassa. A posse de bens, jóias, ações, dólares, luxuosos carros do ano, casa própria, casa de praia, casa de campo, etc, passou a evidenciar boa situação espiritual. Os pobres deixaram de ser necessitados e passaram a ser pessoas em pecado. Isso também acontece conosco. Estamos nos acostumando a identificar o crescimento econômico dos evangélicos com sua fidelidade espiritual.

Os evangélicos também penetraram na classe média. As Igrejas passaram a ter pessoas melhor aquinhoadas economicamente. Assim, as reivindicações sociais como mundo justo, trabalho seguro, salário digno, e muitas outras, foram preteridas por um discurso de acomodação social e de legitimação do estilo de vida consumista. Começamos com gente de recursos escassos, na grande maioria de nossas Igrejas. Pais pobres, lavradores ou empregados mal remunerados, se esforçaram para dar condições aos filhos de crescerem. Há uma geração de classe média em nossas Igrejas. Os crentes de hoje têm mais recursos que os de ontem. Mas temos a tendência de amoldar o evangelho à nossa situação, em vez de analisá-la a partir do Evangelho. Chegamos à Bíblia com pré-compreensões, como diz o Profo Don Price, de São Paulo. Tais pessoas associam seu progresso econômico com sua fé. E formam o conceito: o crente prospera. Se alguém não prospera, não é crente. Faz-se um princípio geral a partir de casos pessoais.

Fiquei sabendo de uma associação evangélica que reúne pessoas bem sucedidas economicamente e que não aceita pobres em seus cultos. A pessoa que me passou os dados informou-me que seu desejo de levar uma doméstica a uma reunião dessas foi vetado: aquelas pessoas só têm interesses na evangelização de classe média alta e já estavam organizando uma igreja assim. O esquema desse pessoal é simples: quem é crente fiel é abençoado materialmente. Se não é abençoado é porque lhe falta vida cristã. Quem tem fé fica rico. Quem não fica, não tem fé.

Mas não foi isso que Jesus nos ensinou. A Bíblia e a experiência cristã nos ensinam:

Primeiro: é um erro pensar que Deus só abençoa crentes. As bênçãos são sobre todos os homens. "Ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos" (Mt 5:45). Uma coisa é a benção da salvação. Outra coisa é a benção do cotidiano, do lugar comum, que muitas vezes depende de habilidades e circunstâncias, de aplicação e preparo, de entusiasmo para a vida; o que nem todos têm.

Segundo: a fé não produz riquezas. A Bíblia não respalda isso. A parábola do rico e do Lázaro nos deixa, ainda que secundariamente, este ensino. Pense ainda neste texto: "Ora, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, e nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados" (I Co 1:26). Argumenta-se com a riqueza dos Estados Unidos. Mas com todo respeito: Quanto dela foi tomado ou pilhado de nações mais fracas? Muito, muito da riqueza americana, por exemplo, vem da exploração pelas multinacionais da mão de obra barata dos trabalhadores e dos altos juros ("agiotagem oficial") cobrados da dívida dos países pobres onde milhares de crianças morrem de fome. Quantos ficaram rico por causa do trabalho escravo? Por causa do comércio de bebidas e até do tráfico de drogas e do contrabando de armas? Por outro lado, como explicar a riqueza do Japão de uma enorme população não cristã?

Terceiro: a ausência ou presença de dificuldades não tem a ver com fé ou com espiritualidade. o Rei Davi recebeu de Deus o título de "o homem segundo o meu coração" (At 13:22). E como este homem sofreu! Alguns dos seus salmos são gritos arrancados do fundo da alma!

Quarto: o sofrimento é parceiro da fé. Paulo exortou os cristãos de Listra, Icônio e Antioquia, "mostrando que, através de muitas tribulações, nos importa entrar no Reino de Deus" (At 14:22). A igreja de Esmirna, fiel e sofredora, o Senhor Jesus anunciou mais sofrimentos (Ap 2:10). As igrejas do Apocalipse que não sofriam eram Sardes e Laodicéia. A primeira quase totalmente imprestável . O próprio Jesus foi chamado de "Homem de dores e que sabe o que é padecer" (Is 53:3). Seria Jesus um homem sem fé?

Quinto: se riquezas e prosperidade são sinal de fé, o que diremos aos ricos deste mundo, duros de coração, empedernidos? Paulo, que não era adepto desta postura, disse algo aos ricos deste mundo. Vamos ler ITm 6:17. Os adeptos desta teoria nada têm a dizer aos ricos perdidos. E tampouco podem consolar os pobres. Jesus podia. Qual o lugar de um Barnabé ou de um Francisco de Assis nesta ótica bíblica?

Sexto: a teologia da prosperidade é parente próximo de alguns modernismo teológicos. Sobretudo daqueles que querem tirar o significado da cruz de Cristo. A teologia da prosperidade quer tirar a cruz do crente: "Se alguém que vir após mim, negue-se a si mesmo toma cada dia a tua cruz e siga-me" (Lc 9:23). Seguir a Cristo implica em duas cruzes: a de Cristo e a do seguidor(a). Seguir a Jesus e continuar sua Missão implica em assumir os ricos e as perseguições que Jesus enfrentou e que acabou por levá-lo à morte de Cruz. Tomar a cruz é saber que o Evangelho de Jesus ameaça os "senhores deste mundo", aos poderosos e ricos que confiam em suas riquezas e no próprio poder. Tomar a cruz é lembrar que a "porta" do seguimento de Jesus é a "porta estreita". O Senhor e Salvador Jesus não foi um empresário bem sucedido; nem deve ser reduzido a patrono de empresários bem sucedidos. Jesus nasceu num curral, numa estrebaria. Não havia lugar para ele. Jesus é o Servo Sofredor de Isaías e nos chama a lutarmos com Ele pelo Reino, sofrendo com Ele as conseqüências dessa luta. Somos chamados a participar da glória de Cristo, mas também dos seus sofrimentos (1 Co 1:4-7). Pode até ser que a fidelidade traga sofrimentos e não prosperidade, como se lê em Mateus 5:10-12.

Não se trata de masoquismo espiritual. Não é o Evangelho que nos traz sofrimento, mas o fechamento dos corações e as perseguições por quem se sente ameaçado por este Evangelho. "No mundo tereis aflições..." (Jo 16:33). "E na verdade todos os que querem viver piamente em Cristo Jesus padecerão perseguições" (2Tm 3:12). Alguém perguntará: "Então, para que seguir a Cristo?". Bem, nossa primeira palavra é esta: não se deve seguir a Cristo por causa de bênçãos materiais. Jesus desestimulou gente assim: "Em verdade, em verdade vos digo que me buscais, não porque vistes sinais, mas porque comestes do pão e vos saciastes" (Jo 6:26). Nossas Igrejas têm gente interesseira. Temos poucos heróis da fé, mas muitos utilitaristas da fé.

Seguir a Cristo não pode ser dimensionado em termos de "qual a vantagem?". Jesus merece o nosso amor pelo que Ele é. Digamos como Tomé: "Vamos também para morrermos com ele" (Jo 11:16). Se o que Jesus podia oferecer a Tomé era a morte, Tomé a aceitava. Seguir a Cristo é dispor-se a viver por ele, mesmo que isso implique em sofrimento e até em morte.

Na dor, o seguidor de Jesus tem certeza da companhia divina pelo Espírito Santo que nele habita. É maravilhoso o texto de Daniel 3:15-26 que nos conta a experiência de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego na fornalha: Deus não nos livra das dificuldades, mas entra nelas conosco! Também, o mesmo Jesus que disse que no mundo teríamos aflições nos disse: "Mas tende bom ânimo, eu venci o mundo". E nos deixou outra afirmação fundamental à nossa fé: "Eis que estou convosco todos os dias" (Mt 28:20).

A teologia da prosperidade é alienante, parcial, injusta, setorial e elitista. A idéia de que riquezas pessoais são resultado de nossa espiritualidade agrada muito a quem tem bens. Pois, dessa forma não são desafiados a se converterem como Zaqueu, a serem missionários como Barnabé e a amarem seu próximo, alimentando-o, vestindo-o, etc... A teologia da prosperidade massageia o ego e a vaidade: "Deus está contente comigo. Estou enriquecendo!". Mas o que essa mesma teologia diz aos cristãos de Biafra, da Etiópia, do Haiti? Aos que sofrem com a guerra de Angola ou na Bósnia? Aos flagelados da seca do nordeste ou aos milhares de favelados brasileiros? Os perseguidos, mártires da fé, são maus crentes? Os crentes que vivem em condições precárias não têm fé ou são marginalizados do processo social? Somos melhores crentes por causa do que temos?

Claro, a riqueza pode acontecer. Mas ela deve ser encarada como de Deus. Deve ser repartida, deve ser usada em favor do Reino, do próximo. Somos apenas administradores de Deus (no livro "Ser e Fazer Discípulos", da editora Loyola, Juan Carlos Ortiz, um pastor argentino, trabalha de forma muito inspirada sobre este assunto). Atribui-se ao fundador do Metodismo a seguinte frase acerca do dinheiro, da riqueza: "Devemos ganhar tudo que pudermos, economizar tudo que pudermos e darmos aos pobres tudo que tivermos". Possivelmente Wesley tenha experimentado a sábia oração de Provérbios 30:8-9.

Irmãos e irmãs, a pobreza é resultado de um mundo desumano construído no pecado da ambição e da falta de misericórdia. Pessoas que não sabem repartir e cuidar umas das outras. Por isso não podemos fazer apologia da pobreza e da miséria. Mas não podemos de modo nenhum concordar com o que prega a teologia da prosperidade. O cristão não vive de fantasias e de mentiras teológicas. Não nutre expectativas irreais. Sabe que a vida é dura e enfrenta com coragem no poder que Cristo concede para vencer. E Deus é honesto conosco: quem se envolver com Ele há de enfrentar dificuldades. Ele não é um Papai Noel que traz presentes para os bons meninos (os membros da igreja) e penúrias a outros. Ele nos declara que seguir a Cristo é um projeto sério e não pode ser feito por gente sem fibra. Só os fortes podem seguí-lo. Ou os fracos que ele fortalece. A vida cristã é luta. E luta renhida.

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