IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 15/11/2007
 

Po amor entre estranhos

ZZ Outros Colaboradores ZZ


 

Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos.


Pão é amor entre estranhos.

A Repartição dos Pães, Clarice Lispector

http://www.releituras.com/clispector_paes.asp

Nesta véspera de eleição coloco diante de mim meus motivos políticos. Conheço os índices, estudei os programas, ouvi os discursos... mas prometi pra mim mesma e para a companheirada com quem eu aprendo a luta que não vou me deixar levar pelo voto útil.

Os motivos nossos não se concretizam na limitação do voto e na fé na representação política liberal.

Sempre dissemos - mesmo quando deixamos de ouvir a história! - que a organização popular é começo, meio e fim de um novo começo, que a revolução é permanente, que a luta de classes é feia porque é luta e bela porque inevitável, que @s trabalhador@s são mais que o partido. Qualquer.

Meu motivo político é fome zero não como ternura ou paixão piedosa de um programa compensatório. Pra mim o Pão é amor entre estranhos (desculpa, Clarice...). Temos de dar conta de uma organização social que garanta o pão como chão onde nós todos avançamos... mesmo entre estranhos, mas não desiguais! Pão feito fruto da terra coberta de seres vivos e sua existência: reforma agrária, agroecologia, meu prazer que entende o seu, a vida! Solene abundância.

A tarefa diante de nós é comer com a honestidade de quem não engana o que come: negar os atravessadores entre a boca e o pão, os que enriquecem desonestamente enganando processos de gestão do pão, desonestos no orçamento do pão, nas trocas objetivas e subjetivas de fazer o pão e distribuir o pão. Fazem o povo comer o nome... mas negam o pão. Fazem o povo fazer o pão... e negam o pão! Enfrentar a mídia, o capital e as elites como exercício fundamental de defender a existência que já existe.

A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. A mesa da maioria, a política da maioria que vale a terra em que vive, a colheita que entrega, a comida que come, a fome que zera. Ninguém precisa da bondade, da ternura, da piedade de ninguém: aquilo tudo pertence. Materialismo rude, feliz e austero: Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é.

O Pão é amor entre estranhos porque filho da terra - do trabalho - da saúde - da segurança alimentar - da educação - do prazer. Organizar assim a sociedade para que ninguém fique com fome é garantir estruturas de participação direta, mecanismos efetivos de distribuição da riqueza, preservação de territórios, preservação de diferenças mas não desigualdades. Estranhos alimentados.

O governo Lula disse o nome... mas ainda não serviu a mesa! Quem serve a mesa é o povo organizado.

Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ninguém, era bom. Sem nenhum sonho. E nós pouco a pouco a par do dia, pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, à altura da vida possível. Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa. (Clarice Lispector)

Ninguém fala em nome de ninguém nessa eleição! Cada umuma fala no seu nome próprio, sua fome própria: a fome de sua classe. Sem nenhum sonho, à altura da vida possível. Porque um outro mundo é possível.

Eu vou votar contra o PSDB, as elites e os interesses do capital estrangeiro.

Eu vou votar contra a burocracia partidária (?) e estatal.

Eu vou votar no Lula sem saudade alguma, sem uma palavra de amor.

Meu voto não é útil, porque um segundo mandato de um governo Lula vai me encontrar mais forte junto aos movimentos sociais, na defesa dos direitos conquistados e por conquistar!

Meu voto não é útil porque existe vida inteligente e organizada para além dele.

Eu não quero formar a vida e a luta: já existem como um chão onde nós todos avançamos.

Venceremos!


OBS: Texto publicado originalmente na Adital em 9 de outubro de 2006.


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