IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Natal
Rio, 15/11/2007
 

Do Egito a Nazaré, o filho do homem – o Messias – não teve onde reclinar a cabeça (Mateus 2.13-23)

Bispo Paulo Lockmann


 


Os evangelhos da infância de Jesus

O texto apresentado para estudo neste Natal é de uma riqueza de detalhes e mensagem impressionante. Representa uma tradição exclusiva de Mateus acerca do nascimento de Jesus. Os relatos do nascimento e da infância de Jesus, encontrados em Mateus e Lucas, têm sido chamados de evangelho da infância. São textos ligados a tradições da Igreja Primitiva, mas com lugares e trajetórias bem diversas.

Enquanto em Mateus há uma abordagem centrada no nascimento de um Messias Rei, em Lucas, a abordagem é de um Messias Salvador dos povos, inclusive dos gentios (Lc 2.30-32). Por outro lado, em Mateus, há uma abordagem em que, além do menino, José, o pai, é a figura fundamental. Em Lucas, Maria, a mãe, é a figura fundamental. Isso pode ser percebido claramente. Tais enfoques mostram horizontes histórico-sociológicos diferenciados.

Na verdade, o que os dois evangelhos fazem é nos ajudar a perceber, sob diversos ângulos, o nascimento do Messias, o qual dá início a uma vida e ministério itinerantes e sem lugar para reclinar a cabeça. Quero refletir sobre três elementos dos relatos: os anjos (haja vista, hoje, estarem em moda), a fuga para o Egito e a morte dos inocentes, e a itinerância como estilo de movimento e missão.

Os anjos no quadro do nascimento de Jesus

Nos relatos dos evangelhos de Mateus e Lucas, são ao todo seis aparições de anjos. Em Mateus, são todas a José (Mt 1.20; 2.13; 2.19), no estilo de uma das escolas judaicas do Antigo Testamento, chamada “elohista”, onde as aparições de anjos ocorrem predominantemente em sonhos. Em Lucas, as aparições se dão no templo, a Zacarias, pai de João Batista, em seu turno de sacerdote. Na ocasião, é anunciado o nascimento de João Batista como um profeta que seria grande em Israel, cabendo-lhe a função de precursor do Messias. A outra aparição se dá a Maria, anunciando o nascimento de Jesus, afirmando que Ele reinaria para sempre e seria Filho do Deus Altíssimo.

Aqui, há a ênfase na concepção virginal pelo Espírito Santo, à semelhança de Mateus, mas como revelação a Maria e não a José. Os anjos também aparecem aos pastores nas campinas de Belém; um anúncio ao povo humilde, que ansiava pela vinda do Messias. O anúncio aqui é acompanhado de uma multidão da milícia celestial que louvava a Deus. Há um evidente caráter apocalíptico nesta última aparição. O quadro da visão dos pastores em Lucas é semelhante à visão de Isaías 6.1-8, ou a algumas das visões de João no Apocalipse.
A visão de anjos na Bíblia é sempre uma forma de Epifania, que quer dizer o divino, o celestial, intervindo na história e na vida humana para dar uma mensagem direta e inquestionável, ou para providenciar livramento. Nós, metodistas, cremos, como João Wesley, na existência de anjos, mas a ação deles é predominantemente invisível, conforme nos ensina a Bíblia. Não podemos aceitar as vulgarizações de grupos esotéricos, que manipulam e inventam infinidade de coisas sobre anjos. Tampouco as pessoas demasiadamente místicas que afirmam ver anjos por toda parte. O perigo desses dois grupos de pessoas é que, se damos crédito, elas, em nome de anjos, podem afirmar qualquer doutrina, pois, afinal, procederia dos anjos. Sempre é bom lembrar as advertências de Paulo aos Coríntios: “E não é de admirar; porque o próprio Satanás se transforma em anjo de luz” (2Co 11.14). Ou ainda a séria advertência de Paulo aos cristãos da Galácia: “Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que temos pregado, seja anátema” (Gl 1.8).

Com essas advertências, não queremos pregar descrença na existência dos anjos de Deus, mas recolocá-la no contexto bíblico. De acordo com a Palavra de Deus, as aparições são inusitadas, extemporâneas, enfim trata-se de ato extraordinário de Deus, o epifânico, nunca o corriqueiro e o vulgar. Por fim, se em sua casa ou igreja ocorrer uma aparição, ou visão, ou sonho, a mensagem do anjo, que procede de Deus, sempre é confirmadora e orientadora da revelação já dada na Bíblia e na revelação de Deus em Jesus Cristo, também já descrita na Bíblia; portanto, confirma o já revelado, nada a mais para ser revelado para a salvação.

A fuga para o Egito

A mensagem do anjo a José foi: sai e foge para o Egito, pois Herodes quer matar o menino. O texto diz que José obedeceu prontamente à mensagem.

Egito era o país clássico do refúgio político por ser província romana. Havia ali muitos judeus, colônias crescentes e que costumavam dar refúgio e socorro aos seus conterrâneos. Diversos autores enumeram longa lista de cidades egípcias onde havia colônias judaicas.

Aqui, devemos sublinhar a infinidade de semelhanças com tradições do Antigo Testamento, as quais influenciaram definitivamente o relato. Tal fato, entretanto, não põe em discussão, necessariamente, a historicidade dos fatos, mas, sim, que a Igreja de Mateus recolheu o máximo possível de relatos sobre Jesus que pudessem ser vinculados às tradições do Antigo Testamento e falassem da salvação de Deus e da promessa do Messias. Com o visível objetivo de anunciar aos judeus que Jesus era o Messias esperado.

Há evidentes relações entre o relato de Mateus e os relatos que envolvem o Êxodo. Isso nos mostra que a história do texto é iluminada pela vida do povo nos relatos do Êxodo, e ilumina a vida da igreja de Mateus, também perseguida. A perseguição de Moisés, a morte dos filhos dos judeus por ocasião do nascimento de Moisés, tem um correspondente na ordem de Herodes para a matança das crianças de Israel no tempo do nascimento de Jesus.

A morte dos inocentes – as crianças

Em meio ao sofrimento da morte dos meninos, do exílio, há um sinal de esperança. Não é à toa que o exílio do menino Jesus e o choro das mães em Belém são relacionados, no uso da profecia de Jeremias (31.15) com o choro das mães no exílio em Babilônia, usando a imagem simbólica de Raquel como a mãe de Israel, inclusive porque, segundo a tradição, ela foi sepultada em Belém. “Em Ramá se ouviu uma voz, lamentação, choro e grande pranto: Raquel chorando os seus filhos, e não querendo ser consolada, porque já não existem”. O uso do texto de Jeremias nos aponta a certeza de que Deus traria de volta do exílio; o tempo da opressão seria substituído pelo tempo de libertação; essa era a mensagem desse texto de Jeremias.

O drama de José, de Maria e do menino Jesus é o drama do migrante nordestino no Brasil: exilado em sua própria terra. Era o drama da comunidade de Mateus vivendo no sul da Síria. Desse mesmo jeito, como migrantes, vendo a morte dos inocentes, seguem caminhando os pobres em nossa América Latina, em especial, as crianças que nas ruas são vítimas de todo tipo de violência. Até quando, irmãos e irmãs?

Do menino ao Salvador: a caminhada continua

Hoje, quando ando nas estradas do interior do Brasil, vejo acampamento dos sem-terra, já que os sem-teto vemos todos os dias.

Algumas vezes vejo-os andando em grupos, e em meio ao grupo sempre há mulheres com crianças no colo, fico quebrantado, sinto-me mal, impotente. É como se estivesse vendo Maria com o menino Jesus no colo, caminhando para o Egito. Nós nos afirmamos itinerantes, mas na maioria das vezes evitamos que os nossos caminhos se confundam com os dos sem teto, sem terra, dos imigrantes exilados em sua própria terra.

A máxima da missão iniciada em Belém é a celebração da desinstalação, “...não havia lugar na hospedaria...” (Lc 2.7); “... o filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça ...” (Lc 9.58), e não teve sepultura sua, pois era cedida de um amigo de José de Arimatéia (Mc 15.43-46). Sublinho isso, não para que mudemos de residência, mas para que andemos mais junto do povo que sofre e geme, do qual fez parte José, Maria e Jesus. Caminhar com eles é celebrar um Natal no caminho do Messias. Amém!

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