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Rio, 15/11/2007
 

Por que Jesus manda odiar os pais? (Carlos Mesters)

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“Se alguém vem a mim e não odeia seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs e até sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,26).

Uma das coisas em que Jesus mais insiste junto aos que querem segui-lo é abandonar pai, mãe, mulher, filhos, irmãos, irmãs, casa, terra, abandonar tudo por amor a Ele e ao Evangelho (Lc 18,29; Mt 19,29; Mc 10,29). Manda até odiar os pais: “Se alguém vem a mim e não odiar seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs e até mesmo sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,26). E Jesus dirige suas exigências não para alguns mais esforçados, mas para todos e todas que querem segui-lo (Lc 14,25-26.33).

Por outro lado, ele critica os fariseus pelo fato de eles, em nome da Tradição dos Antigos, desfazerem o quarto mandamento que manda honrar os pais (Mc 7,8-13). Jesus ensina que, para entrar na vida eterna, se deve observar os mandamentos, e enumera explicitamente o quarto mandamento (Mc 10,17-19). Ele mesmo deu o exemplo e se fez obediente aos pais (Lc 2,51).

Parecem duas atitudes contraditórias: odiar os pais, honrar os pais. O que significam essas exigências tão severas? Elas significam o que as palavras sugerem: largar a família e assumir uma vida itinerante para seguir Jesus. Esta foi a vida do próprio Jesus e do grupo de seus discípulos. “Nós abandonamos tudo e te seguimos!” (Mc 10,28). Foi também a vida das mulheres que o acompanhavam desde a Galiléia (Mc 15,41; Lc 8,1-3; 23,49). Mas esta não foi a vida das multidões às quais Jesus tinha feito o mesmo convite. Não é possível imaginar que Jesus tenha exigido de todos os homens e mulheres do interior da Galiléia que abandonassem suas famílias, suas terras, suas aldeias para segui-lo. Aliás, isto não aconteceu, a não ser com o pequeno grupo de seguidores e seguidoras. Então, como entender aquelas palavras de Jesus?

A exigência de abandonar a família e de “odiar os pais”, quando colocada dentro do contexto social e religioso da época, revela um outro significado bem mais fundamental e bem mais atual para nós hoje.

1. A desintegração do tecido social no tempo de Jesus

No antigo Israel, o clã, isto é, a grande família (a comunidade), era a base da convivência social. Era a proteção das famílias e das pessoas, a garantia da posse da terra, o veículo principal da tradição, a defesa da identidade. Era a maneira concreta do povo daquela época encarnar o amor de Deus no amor ao próximo. Sua expressão mais bonita era a lei do Goêl ou do resgate, pela qual o parente próximo ou o irmão mais velho, chamado goêl, procurava impedir a desintegração do clã no caso de alguém da sua família correr o perigo de perder sua terra ou de ser escravizado (Lv 25,23-55; Dt 15,7-18). Defender o clã, a comunidade, era o mesmo que defender a Aliança.

Na Galiléia do tempo de Jesus, por causa do sistema implantado pela política helenista do governo de Herodes Antipas (4 aC a 39 dC), tudo isto já não existia mais, ou cada vez menos. O clã estava enfraquecendo. Já não conseguia realizar o seu objetivo. Por maior que fosse a boa vontade das pessoas, elas estavam perdendo as condições objetivas de poderem exercer seu dever de goêl ou de resgate1. A necessidade de comprar mercadoria e de comer; a obrigação de pagar os impostos e os tributos, as taxas e os dízimos, tanto ao governo como ao Templo; a ameaça crescente de desemprego; o empobrecimento assustador; a impossibilidade de pagar as dívidas que aumentavam; o perigo constante de ser forçado a acolher os soldados dos exércitos em trânsito pelo país e dar-lhes hospedagem; as freqüentes ameaças de repressão violenta da parte dos romanos; a escassez de semente para o plantio na primavera; os problemas cada vez maiores de sobrevivência; a mentalidade individualista da ideologia helenista, tudo isto levava as famílias a se fecharem sobre si mesmas e a se isolarem dentro das suas próprias necessidades. Na prática, o clã deixou de existir como fator de união e de defesa das pessoas e das famílias. Em caso de doença, pragas, má colheita, incapacidade de pagar as dívidas ou outros desastres, as famílias e os indivíduos ficavam sem ajuda, sem goêl.

Sem o contexto protetor do clã, a pequena família deixou de ser um lugar de acolhimento e de partilha e tornou-se fator de exclusão e de marginalização, sobretudo para os mais fracos. Antes, a única segurança dos pobres era o clã, a comunidade. Agora, é exatamente esta segurança que estava faltando. Aquilo que devia ser o remédio, acabou sendo uma ameaça à saúde! Faltava o goêl, porque o próprio goêl estava sem recursos para exercer o seu dever. Era uma situação de “salve-se quem puder”.

Este enfraquecimento dos valores tradicionais (clã, partilha, organização das aldeias, posse comunitária da terra, função do goêl) transparece nas parábolas que Jesus contava para o povo. Por exemplo: Os trabalhadores desempregados à espera de um biscate (Mt 20,1-6). O patrão que mora longe, deixa tudo entregue ao caseiro (Mt 21,33). O dono de terra se apropria dos bens dos seus empregados e exige deles mais do que pode e deve (Mt 25,26). O clima de violência e de revolta entre os empregados (Mt 21,35-38). O povo, cheio de dívidas e sem goêl, é ameaçado de ser escravizado (Mt 18, 23-26). O desespero leva o pobre a explorar o próprio companheiro (Mt 18,27-30; Mt 24,48s). A insegurança das estradas por causa dos assaltos (Lc 10,30). Funcionários corruptos se enriquecem e se beneficiam com os bens dos outros (Lc 16,1-7). Riqueza que ofende os pobres (Lc 16,19-21).

2. O contexto religioso no tempo de Jesus

A atitude de fechamento das famílias, causada pela política do Governo, era reforçada pela ideologia religiosa. Alguns costumes ligados ao Templo e à observância da Lei de Deus contribuíam para enfraquecer a força integradora do clã. Por exemplo, quem dedicava sua herança ao Templo podia deixar seus pais sem ajuda. Já não era obrigado a observar o quarto mandamento que era a espinha dorsal do clã (Mc 7,8-13). A insistência na lei do Sábado deixava o povo sem defesa e sem ajuda (Lc 13,10-17). A observância das normas de pureza e a preocupação com a genealogia eram fatores de marginalização e de exclusão para muita gente: mulheres, crianças, samaritanos, estrangeiros, leprosos, possessos, publicanos, doentes, mutilados, paraplégicos. Sobretudo os pobres que não tinham condições de conhecer nem de observar todas aquelas normas (Jo 7,49). Assim, tanto a conjuntura política e econômica como a ideologia religiosa, tudo conspirava para desintegrar o clã, deixar sem força a comunidade local e, assim, impedir a manifestação do Reino.

Os evangelhos mostram como a desintegração do clã repercutia na marginalização e no “escândalo dos pequenos” (Lc 17,1-2; Mt 18,6-8; Mc 9,42). Escândalo indica uma ruptura. Ser motivo de escândalo para os pequenos significava ser a causa pela qual os pequenos perdiam a fé em Deus ou se desviavam do bom caminho. No tempo de Jesus, a situação social e religiosa era tal que muita gente pequena já não tinha condições de crer em Deus por causa do testemunho contrário dado pela sociedade que se dizia praticante (cf. Rm 2,24).

A expressão “pequenos” (elachistoi, mikroi e nepioi), às vezes, indica “criança”, outras vezes, indica os setores excluídos da sociedade. Não é fácil discernir. Às vezes, o que é “pequeno” num evangelho, é “criança” no outro. A criança pertencia à categoria dos “pequenos”, dos excluídos. Além disso, nem sempre é fácil discernir entre o que vem do tempo de Jesus e o que é do tempo das comunidades para as quais foram escritos os evangelhos. Mesmo assim, o que resulta claro é a imagem que as primeiras comunidades conservavam de Jesus, e o contexto de exclusão social que vigorava na época.

Concluindo. Na terra de Jesus, o sistema tanto político como religioso impedia o povo de observar a lei de Deus que dizia: “entre vocês não haja pobres!” (Dt 15,4) A religião, do jeito que era organizada e praticada, tornou-se motivo de exclusão de um número cada vez maior de pessoas. Este era o escândalo! “Por vossa causa o Nome de Deus está sendo blasfemado” (Rm 2, 24). O clã deixou de funcionar como força integradora, protetora e acolhedora das pessoas e das famílias.

3. A reconstrução da comunidade iniciada por Jesus

A nova experiência de Deus como Pai marcou a vida de Jesus e deu a ele olhos novos para perceber, avaliar e enfrentar a realidade social do seu tempo. No Antigo Testamento Deus é chamado Pai 15 vezes. No Novo Testamento, 245 vezes! Na sua ação evangelizadora Jesus vai revelar a vontade do Pai. “O Pai não quer que um destes pequeninos se perca” (Mt 18,14).

Para os tempos do Messias, “antes da vinda do grande Dia de Javé”, o povo esperava que o profeta Elias viesse “reconduzir o coração dos pais para os filhos e o coração dos filhos para os pais” e “restabelecer as tribos de Jacó” (Ml 3,24; Eclo 48,10). Esperavam que o clã fosse reconstruído e que o relacionamento entre as pessoas se tornasse, novamente, fraterno e não excludente. Pois, sem a reconstrução da casa, do clã, da comunidade, o povo estaria ameaçado de desintegração total (Ml 3,24).

Com a pregação de João Batista esta esperança começou a realizar-se (Lc 1,17). Jesus reconhece que Elias veio na pessoa de João Batista. Mas João foi rejeitado. O sistema foi mais forte que o testemunho do profeta (Mc 9,11-13; Mt 17,10-13). Depois de João Batista, o próprio Jesus continua a missão messiânica de reconstrução do clã, da comunidade. Ele insiste no acolhimento a ser dado aos pequenos, aos excluídos e marginalizados. “Quem acolhe a um destes pequenos em meu nome é a mim que acolhe” (Mc 9,37). Quem dá um copo de água a um destes pequenos não perderá sua recompensa (Mt 10,42). Ele pede para não desprezar os pequenos (Mt 18,10). E no julgamento final os justos vão ser admitidos no Reino porque deram de comer a “um destes mais pequeninos” (Mt 25,40).

Se Jesus insiste tanto no acolhimento a ser dado aos pequenos, é por que havia muita gente pequena sem acolhimento! Com efeito, mulheres e crianças não contavam (Mt 14,21; 15,38), eram desprezadas (Mt 18,10) e silenciadas (Mt 21,15-16). Até os apóstolos impediam que elas chegassem perto de Jesus (Mt 19,13; Mc 10,14). Em nome da lei de Deus, mal interpretada pelas autoridades religiosas, muita gente boa era excluída. Em vez de fortalecer o clã e de acolher os excluídos, a lei de Deus era usada para legitimar a exclusão e a divisão. Havia muitas divisões injustas, legitimadas pela religião oficial, que marginalizavam muita gente.

Jesus, com palavras e gestos bem concretos, ignorou estas divisões e as denunciou com força: a divisão entre próximo e não-próximo (Lc 10,29-37); judeu e estrangeiro (Mt 15,21-28); santo e pecador (Lc 19,1-10; Mc 2,15-17); puro e impuro (Mt 23,23-24; Mc 7, 8-23; Mc 7,19); obras santas e profanas (Mt 6,1-18); tempo sagrado e profano (sábado) (Mc 2,27; Jo 7,23); lugar sagrado e profano (templo) (Jo 4,21-24; 2,19; Mc 13,2); rico e pobre (Lc 16,13; Lc 9,58). Denunciando estas divisões injustas, Jesus convida as pessoas a se definirem frente aos novos valores do amor e da justiça, e as convoca a refazer as relações da convivência comunitária.

Jesus veio para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Ele anunciava o Reino para todos! Não excluía ninguém, mas o anunciava a partir dos excluídos. Jesus oferecia um lugar aos que não tinham lugar na convivência social. Acolhia os que não eram acolhidos. Recebia como irmão e irmã aos que a religião e o governo desprezavam e excluíam: os imorais: prostitutas e pecadores (Mt 21,31-32; Mc 2,15; Lc 7,37-50; Jo 8,2-11); os hereges: pagãos e samaritanos (Lc 7,2-10; 17,16; Mc 7,24-30; Jo 4,7-42); os impuros: leprosos e possessos (Mt 8,2-4; Lc 11,14-22; 17,12-14; Mc 1,25-26); os marginalizados: mulheres,crianças e doentes (Mc 1,32; Mt 8,17;19,13-15; Lc 8,2s); os colaboradores: publicanos e soldados (Lc 18,9-14;19,1-10); os pobres: o povo da terra e os pobres sem poder (Mt 5,3; Lc 6,20.24; Mt 11,25-26).

É neste contexto mais amplo da reconstrução do clã ou da comunidade, que devem ser situadas e entendidas as exigências de Jesus de abandonar a família e de odiar os pais.

4. Romper o isolamento da família nuclear e abrir-se para a comunidade

O contexto econômico, social, político e religioso produzia medo nas pessoas, enfraquecia o clã e o impedia de realizar o objetivo para o qual foi criado, a saber, oferecer uma proteção real e verdadeira às famílias e às pessoas, preservar a própria identidade como povo de Deus, defender a posse da terra, impedir a exclusão e acolher os excluídos e os pobres. O fechamento das famílias sobre si mesmas e sobre o seu pequeno mundo impedia as pessoas de se unirem em comunidade e de exercer o seu dever de Goêl.

Ora, para que o Reino de Deus pudesse manifestar-se novamente na convivência humana, era necessário romper este círculo vicioso. As pessoas tinham de ultrapassar os limites estreitos da pequena família nuclear e abrir-se, novamente, para a grande família, para a Comunidade. As famílias não podiam fechar-se. Os excluídos e os marginalizados deviam ser acolhidos dentro da convivência e, assim, sentir-se acolhidos por Deus (cf Lc 14,12-14). Este era o caminho para realizar o objetivo da Lei que dizia: “Entre vocês não pode haver pobres” (Dt 15,4). E é por este caminho que Jesus orienta a sua presença e atividade no meio do seu povo.

Jesus tenta reverter o processo de desintegração do clã. Como os grandes profetas do passado, procura reforçar a vida comunitária nas aldeias da Galiléia. Ele retoma o sentido profundo do clã, da família, da comunidade, como expressão da encarnação do amor de Deus no amor ao próximo. Por isso pede a quem quer ser discípulo ou discípula, que tenha a coragem de romper o individualismo interesseiro que, ameaçado pela situação, se fecha dentro do círculo estreito da sua própria família e já não se preocupa com os outros. As pessoas devem abrir-se para os outros, para a comunidade. Aqui está o motivo mais profundo da exigência de abandonar pai, mãe, mulher, irmão, irmã, casa, tudo! E Jesus garante: “Em verdade vos digo que não há quem tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou terras por minha causa ou por causa do Evangelho, que não receba cem vezes mais desde agora, neste tempo, casas, irmãos e irmãs, mãe e filhos e terras, com perseguição, e no mundo futuro a vida eterna” (Mc 10,29-30).

Realmente, quem tem a coragem de sair do seu pequeno mundo e de dar o passo para a vida em comunidade, reencontrará, dentro do clã, dentro da comunidade, cem vezes tudo aquilo que abandonou: irmão, irmã, mãe, filho, terra! Jesus realiza aquilo que o povo esperava para os tempos messiânicos: reconduziu o coração dos pais para os filhos e dos filhos para os pais, reconstruiu o clã, refez o tecido social.

Ele mesmo deu o exemplo. Quando sua própria família tentou apoderar-se dele para levá-lo de volta para casa, reagiu e disse: “Quem é minha mãe e meus irmãos?” E olhando para os que estavam sentados ao seu redor, disse: “Eis a minha mãe e os meus irmãos! Quem fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mc 3,33-35). Alargou a família. Criou comunidade. As pessoas que ele atraía e chamava eram os pobres, os excluídos (Lc 4,18; Mt 11,25). Jesus não permitiu que o interesse particular da sua própria família se colocasse acima do bem comum, impedindo a manifestação da fé de que Deus é Pai de todos e de que, portanto, todos somos irmãos e irmãs, uns dos outros.

Neste contexto, a expressão “odiar os pais” significa rejeitar esse fechamento individualista da pequena família nuclear sobre si mesma que estava impedindo a formação da comunidade e, por conseguinte, estava impedindo a manifestação do amor no amor ao próximo e no acolhimento aos excluídos.

5. Jesus, o Goêl, o irmão mais velho

Jesus foi o goêl do seu povo, o irmão mais velho, o primogênito. Um dos títulos mais antigos e mais bonitos que os primeiros cristãos usaram e guardaram para interpretar e expressar a Boa Nova que Jesus lhes anunciava foi o de Goêl. O termo hebraico goêl é tão rico que não tem tradução única. No Novo Testamento ocorrem termos como libertador, redentor, salvador, consolador, advogado, paráclito, defensor, parente próximo, irmão mais velho, primogênito (cf. Lc 2,11; Jo 4,42; At 5,31; 13,23; Ef 5,23; etc). Todos estes termos, usados para designar Jesus, referem-se, de uma ou de outra maneira, a este costume antigo de Goêl. Jesus é o nosso “parente mais próximo”, o irmão mais velho, que veio cumprir o seu dever como defensor dos direitos do clã, da comunidade. Ele não tinha dinheiro nem era rico para poder pagar as dívidas e resgatar os escravos. Mas entregou o que tinha, a sua própria vida: “Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão” (Jo 15,13). São Paulo formulou-o da seguinte maneira: “Ele me amou e se entregou por mim!” (Gl 2,20). Jesus veio resgatar seus irmãos e suas irmãs para que pudessem viver novamente em fraternidade. Veio restaurar a convivência do jeito que Deus a quis quando chamou o seu povo do Egito. Se Deus é Pai, então todos temos que testemunhar esta fé convivendo como irmãos e irmãs.

Às vezes, a maneira de Jesus realizar esta missão assume formas surpreendentes. Por exemplo, nas aldeias da Galiléia, alguns escribas e fariseus eram funcionários do governo de Herodes como professores, juízes e fiscais. Tinham os mesmos vícios da elite de Herodes: amor ao dinheiro, exploração do povo e dominação autoritária. Jesus critica-os fortemente (cf. Mc 12,40; Lc 20,45-47; 11,43; Mt 23,6-7). Ao mesmo tempo, porém, ele atrai funcionários do governo. Por exemplo, chama um publicano para ser membro da sua comunidade (Mc 2, 13-14). Provoca a conversão do publicano Zaqueu, que devolve quatro vezes o que roubou e chega a dar a metade dos seus bens aos pobres (Lc 19,8). Come na casa de publicanos e pecadores (Mc 2,15). Acolhe o pedido de um chefe de sinagoga (Mc 5, 22), de um centurião (Lc 7,2), de um funcionário do rei (Jo 4,46), dos próprios anciãos judeus (Lc 7,3-5) e de uma prostituta (Lc 7,39). Critica e acolhe ao mesmo tempo. Como entender esta ação de Jesus?

Agindo assim, ele desestabiliza a força de penetração tanto do Governo como da ideologia religiosa junto do povo. Nas aldeias da Galiléia, o controle social era muito rígido. Era muito difícil, quase impossível, alguém do povo criar um movimento de renovação ou de oposição. Ele seria devorado como “cordeiro no meio de lobos” (Lc 10,3). Ora, relativizando pela crítica a autoridade de escribas e fariseus e, ao mesmo tempo, atraindo para o seu lado pessoas que, em nível local, eram as autoridades, representantes do governo, Jesus cria um espaço de liberdade, onde é possível realizar um novo tipo de convivência de acordo com a Boa Nova do Reino, sem o perigo de ser logo esmagado ou eliminado. Ele recria o espaço para o povo poder reconstruir o clã, a vida comunitária, e retomar os valores como a hospitalidade, a partilha, a comunhão de mesa e a função de Goêl.

A mensagem de Jesus não era uma mensagem que todos aceitavam sem mais. Pelo contrário, na mesma medida em que Jesus combatia e criticava o fechamento das famílias e a influência nefasta da ideologia do governo helenista e da religião ritualista, nesta mesma medida surgiam tensões e conflitos. A sua mensagem encontrava resistência e provocava perseguição e divisão dentro das próprias famílias: pai contra filho, mãe contra filha, sogra contra nora (Lc 12,51-52). Uns aceitavam e outros rejeitavam. Jesus se tornou um sinal de contradição (Lc 2,34). Por isso, no evangelho de Marcos se diz: “Eu garanto a vocês: quem tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, filhos, campos, por causa de mim e do Evangelho, vai receber cem vezes mais. Agora, durante esta vida, vai receber casas, irmãos, irmãs, mãe, filhos e campo, junto com perseguições” (Mc 10,29-30). De fato, numa sociedade onde muitos são os excluídos, sem condições de terem vida de gente, esta mensagem de Jesus só se faz presente na contra-mão e quem a leva a sério terá perseguições. Pois Deus não se coloca do lado dos que crucificam, mas sim do lado dos crucificados.

Carlos Merters


Livros consultados ou que podem ser consultados para aprofundar este assunto:

1. GOODMAN, M. A Classe dirigente da Judéia> As origens da revolta judaica contra Roma 60-70 dC. Rio de Janeiro: Imago, 1994.

2. MOXNES, H. A Economia do Reino. Conflito social e relações econômicas no Evangelho de Lucas. São Paulo: Paulus, 1995.

3. KIPPENBERG, H. G. Religião e formação de classe na antiga Judéia. São Paulo: Ed.Paulinas, 1989.

4. A.C.O. Jesus, sua terra, seu povo, sua proposta. Rio de Janeiro: ACO, 1990.

5. THEISSEN, G. A sombra do Galileu. Petrópolis: Vozes, 1988.

6. THEISSEN, G. Sociologia do movimento de Jesus. Petrópolis: Vozes, 1989.

7. SAULNIER, S. e ROLAND, B. A Palestina no tempo de Jesus. Paulinas: São Paulo, 1986.

8. MORIN, E. Jesus e as estruturas do seu tempo. São Paulo: São Paulo, 1984.

9. VOLKMANN, M. Jesus e o Templo. São Leopoldo: Sinodal, 1992.

10. NOLAN, A. Jesus antes do cristianismo. São Paulo: Paulinas, 3a. edição, 1987.

11. CROSSAN, J. D. O Jesus Histórico. A vida de um camponês judeu do Mediterrâneo. Rio de Janeiro: Imago, 2ª edição, 1994.

12. HOORNAERT, E. O Movimento de Jesus. Petrópolis: Vozes, 1994.

13. JEREMIAS, J. Jerusalém no tempo de Jesus. São Paulo: Paulinas, 1983.


OBS: Texto estraído do site do Instituto Teológico Franciscano. Endereço: http://www.itf.org.br/index.php?pg=conteudo&revistaid=4&fasciculoid=135&sumarioid=1947.



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