IGREJA METODISTA DE VILA ISABEL
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Vida Cristã
Rio, 19/11/2007
 

As quatro portas e os caminhos que temos

Bispo Paulo Lockmann


 


1) Novo ano, novas escolhas.

No encerramento do Concílio Regional, iniciei um sermão que intitulei de "as três portas". Não estava sendo criativo, pois li um artigo de David Bryant sobre as dificuldades para levar uma vida de oração, onde ele mencionava as três portas. Mas o desenvolvimento do sermão seguiu numa abordagem que Deus me deu para o mesmo; usei especialmente os títulos e os dois primeiros textos: Apocalipse 3.20 e 4.1.

O tema pareceu sugestivo por ser "a porta" um símbolo forte na Bíblia. Jesus se intitulou, em João, de: "eu sou a porta das ovelhas". E, mais adiante, ele vai dizer: "eu sou a porta". A continuação é clara: "se alguém entrar por mim, será salvo; entrará, e sairá, e achará pastagem". Assim a porta é um lugar de decisão, de escolha; ou a mantemos fechada, ou abrimos, ou abrem para nós. (Jo 10.7-9).

Nesse conjunto, Deus me mostrou outra porta mencionada por Paulo em 1Co 16.8-9, que é a porta das missões. Desse modo, o sermão começado no encerramento do Concílio Regional, está sendo registrado nesta carta pastoral, como uma reflexão para nossa caminhada missionária, na qual dependemos muito das escolhas que faremos, ou se quiserem, das portas que abriremos, e entrarmos. Sim, entre os caminhos que temos pela frente, uns são de vida, outros de morte. Que Deus nos dê sabedoria para fazermos as escolhas certas em 2006.

2) A porta fechada.

"Ao cair da tarde daquele dia, o primeiro da semana, trancadas as portas da casa onde estavam os discípulos com medo dos judeus ..."(Jo 20.19).

Esta é uma porta triste, é uma porta que nos assusta, queremos fazer dela uma segurança, queremos pôr-lhe fechaduras fortes e seguras, pois ela deve nos proteger dos inimigos, e dizemos: "O nosso medo é o nosso refúgio, e esta porta trancada é a nossa proteção". Trágico engano, pois para esta atitude, diz Charles Allen: "Sempre que dissermos que uma pessoa ou situação não tem esperança, é o mesmo que bater a porta na cara de Deus" .

O que estava acontecendo naquele domingo de ressurreição era exatamente isto: A porta fechada, apontava para a aparição sobrenatural, ou seja, Jesus não pôde entrar pela porta que estava fechada. Jesus havia ressuscitado na madrugada (imaginemos 5 horas da manhã), já eram cerca de 5 da tarde; o texto diz: "Ao cair da tarde daquele dia..." E no domingo glorioso da ressurreição, foram 12 horas vividas pelos discípulos, sem o gozo da vitória da vida sobre a morte, tudo porque fecharam a porta na cara de Deus. O medo, a falta de fé nas promessas de Deus através dos profetas, e nas próprias palavras de Jesus (Lc 9.22), trouxe trevas e temor à vida dos discípulos.

Irmãos e irmãs, as portas e janelas precisem ir se abrindo, Deus não nos tem dado espírito de covardia, mas temor e moderação e intrepidez. Deus é o nosso refúgio e fortaleza, nele faremos proezas.

Quantos têm mantido a porta fechada, e perdido a oportunidade de desfrutar da bênção da presença do Cristo ressuscitado.

3) A porta que abre para dentro.

"Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa, e cearei com ele e ele comigo." (Ap 3.20).

As condições históricas e espirituais mudaram. No dia da ressurreição, os discípulos mantinham a porta fechada com medo, perderam por horas a bênção da presença do Senhor Ressurreto, mas Ele veio ao encontro em misericórdia, como que anunciando que a profecia se cumpriu. "Paz seja convosco". Sem temor, eu ressuscitei. Feito o anúncio, herdadas as promessas, a Igreja prosseguiu na obra do Reino de Deus, anunciando e sinalizando por Jesus. Agora, já no final do século primeiro, debaixo da perseguição do Imperador Domiciano, com uma Igreja em parte consolidada, especialmente na Ásia Menor, que é parte do que hoje é a Turquia, ali ficavam as 7 igrejas da Ásia, a quem o Senhor dirige, através do Apóstolo João, as cartas com mensagens de desafio, que, na verdade, se dirigiam a toda a Igreja do Senhor, ontem e hoje.

Considero o texto acima um grande escândalo, pois retrata a condição da igreja de Laodicéia, a qual é, hoje, igual em várias partes, se reúne e elabora sua teologia sobre a revelação de Deus no Cristo ressurreto, celebra o culto ao Senhor, o povo canta, ora, o pastor prega, mas Jesus, o Cristo, está do lado de fora. É como se Ele, Jesus, seguisse morto; invoca-se o Deus Onipotente, Ressuscitado, sim, o Todo-Poderoso, mas Ele está do lado de fora; o texto diz que: o ambiente era morno, e eles estavam prestes a serem vomitados (cf. Ap 3.15-16).

Por isso, o Senhor, do lado de fora, batia à porta da igreja de Laodicéia. Trágico! No mundo de hoje, há igrejas de portas fechadas, algumas abriram para ser um teatro; outras, casas de show religioso, os pastores e músicos são tão talentosos, empolgantes, que dispensam a sobrenatural presença de Deus. Ou algumas estão mais para capela funerárias, elaboram e lamentam um morto, nada mais pode acontecer, nada se espera, é pura desolação. De vez em quando, acontece um evento para "animar" a igreja. Deus nos livre disto!

Na verdade, esta porta abre para dentro, porque o Senhor não quer violentar nossa vontade, é você meu irmão, irmã, sou eu, somos nós, Igreja do Senhor, que abrimos esta porta, o trinco está pelo lado de dentro. Temos que, diariamente, convidar Cristo a entrar em nossa vida, dizendo: "Senhor Jesus, entra nos problemas da minha vida, da minha família, da minha igreja".

Esse convite é extraordinário, porque coloca dentro de nossa vida e da Igreja, aquele descrito por João em Apocalipse 1: "Achei-me em espírito, no dia do Senhor, e ouvi, por detrás de mim, grande voz, como de trombeta. A sua cabeça e cabelos eram brancos como alva lã, como neve; os olhos, como chama de fogo; os pés, semelhantes ao bronze polido, como que refinado numa fornalha; a voz, como voz de muitas águas. Tinha na mão direita sete estrelas, e da boca saía-lhe uma afiada espada de dois gumes. O seu rosto brilhava como o sol na sua força. Quando o vi, caí a seus pés como morto. Porém ele pôs sobre mim a mão direita, dizendo: Não temas; eu sou o primeiro e o último e aquele que vive; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos, e tenho as chaves da morte e do inferno. Voltei-me para ver quem falava comigo e, voltado, vi sete candeeiros de ouro." (Ap 1.10;14-18;12) Este é o teu, o meu Salvador, o Todo-Poderoso; deixá-lo entrar faz toda a diferença na nossa vida, na vida da Igreja e na vida do mundo. Digamos: Maranata: Vem, Senhor Jesus!


4) A porta que abre para fora.

"Depois destas coisas, olhei, e eis não somente uma porta aberta no céu, como também a primeira voz que ouvi, como de trombeta ao falar comigo, dizendo: Sobe para aqui, e te mostrarei o que deve acontecer depois destas coisas." (Ap 4.1).

Depois que abrirmos nosso interior, e o da Igreja, ao Senhor Jesus, e permitirmos que Ele ocupe o centro da nossa vida, e seja o Senhor, Jesus abre, então, uma porta do mundo celestial para nós; esta é a porta que abre para fora, e então passamos a ser como diz Paulo: "... a saber, que os gentios são co-herdeiros ... e co-participantes das promessas em Cristo Jesus..." (Ef 3.6). Em Cristo, ingressamos no mundo das promessas de Deus, somos constituídos seus filhos, feitos povo de Deus, e com isto: "Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo." (Ef 1.3).

Gosto da palavra que o Apóstolo João recebeu: "... Sobe para aqui". É um convite a ingressar num mundo novo, que não necessariamente nos aliena do mundo do dia-a-dia, mas que nos abre os olhos para ver além da dimensão meramente material, ou intelectual, aquela que discerne os significados dos fatos históricos. Sim, é perceber pelo Espírito de Deus, e compreender o significado dos fatos históricos na perspectiva de Deus, é cruzar a verticalidade das coisas que vemos ao ingressar na porta que abre para fora, e que só Deus em Cristo nos abre, com a horizontalidade das coisas do nosso cotidiano, da história humana. Com isso, passamos a enxergar como em 1Reis 6.14-17, quando o discípulo de profeta que servia a Elizeu, num primeiro momento, só via o exército do rei da Síria. Em seu pavor diante do quadro histórico que o assustava, disse: "Ai, meu Senhor! Que faremos? Elizeu respondeu: "Não temas, porque mais são os que estão conosco do que os que estão com eles." Concretamente, o que se podia ver era o imenso exército do rei da Síria, vencedor de tantas batalhas, cercando a cidade, onde Elizeu estava. Mas Elizeu, pela fé, via a presença de Deus, e suas promessas, e então orou pelo jovem: "...Senhor, peço-te que lhe abras os olhos para que veja. O Senhor abriu os olhos do moço, e ele viu que o monte estava cheio de cavalos e carros de fogo, em redor de Elizeu." (2 Re 6.14-17).

Esta é a grande e decisiva diferença, entre ver só a contingência histórica, quase sempre limitadora dos propósitos de Deus, desencorajadora até dos cristãos, e, por outro lado, subir para junto do Senhor, por meio de Cristo, e ingressar pela porta que Ele nos abre, e descobrir, pela fé, e enxergar mesmo, os atos de Deus, que trazem à existência as coisas que não existem. (Rm 4.17; Hb 11.27).

Pois, irmãos e irmãs , Deus quer nos introduzir em muito mais do seu Filho e do seu Reino do que já conhecemos até aqui. Paulo descreve isto em sua carta aos Efésios de maneira exemplar no capítulo 3, onde ele termina, dizendo: "...e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus. Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na Igreja e em Cristo Jesus..." (Ef 3.19-21). Sim, Deus abre essa porta todos os dias a cada cristão e cristã que, em sua fé, entra, busca, clama por uma vida em Deus e para Deus. Nossa perseverança na Palavra e na oração, nos faz possuir as gloriosas e eternas promessas do Senhor.


5) A porta larga e aberta das missões.

"Ficarei porém em Éfeso até o Pentecostes; porque uma porta grande e oportuna para o trabalho se me abriu; e há muitos adversários." (1Co 16.8-9).

Quem ingressa na realidade do Reino de Deus adquire a mente de Cristo (cf. 1 Co 2.16), passa a ter um coração comprometido com a expansão do Reino, com o serviço ao mundo, torna-se servo de Cristo e de seu Reino, como Paulo descreve em seu discurso aos presbíteros da Ásia Menor: "Porém, em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus." (At 20.24).

Precisamos reconhecer que uma vida em Deus e para Deus é que nos faz ingressar nos lugares celestiais e não deve fazer nos esquecer deste mundo; pelo contrário, nos compromete com a aflição do mundo, como Deus revelou a Moisés: "... Certamente, vi a aflição do meu povo, que está no Egito, e ouvi o seu clamor por causa dos seus exatores. Conheço-lhe o sofrimento: por isso, desci a fim de livrá-lo..." (Ex 3.7-8). Paulo foi arrebatado aos lugares celestiais, e isso o fez mais comprometido com a aflição e sofrimento do povo (cf. 2Co 5.14s). Jamais, o ingressar no mundo celestial, tirou de Paulo a visão do compromisso da missão.

Nossa intimidade com o Senhor, com seu Espírito, nos faz trasbordar do seu amor, porque Deus é amor (1Jo 4.8), e o fruto do seu Espírito é o amor (cf. Gl 5.20). Assim, o amor passa a ser a nossa marca; quem não ama a todos com o amor de Cristo, no mínimo é um cristão incompleto, ou não é cristão de fato. Pois, "quanto mais puro e perfeito for seu amor por outros, tanto mais semelhante a Cristo você mostra ser" . É esse amor de Cristo que nos faz sentir o compromisso com a missão com a luta e sofrimento de um mundo sem Cristo. Esse amor enche nosso coração, mantém viva nossa gratidão pelo que Cristo fez por nós, e dizemos como Paulo: "O amor de Cristo nos constrange". Com isso, nós sentimos profunda paixão por Cristo, e profundo amor e paixão pelas vidas sem Cristo, pelo mundo que nos cerca; nenhuma necessidade nos passa despercebida". Não se trata de um simples compromisso de ortodoxia ou de dever "eclesiástico missionário; trata-se da alegria de sentir, viver e praticar o amor de Deus. Esta escolha nos faz entrar pela porta larga da missão, que o Senhor abriu a Paulo e a sua Igreja. E nós somos parte disso.

Quando Paulo escreve à igreja de Corinto, ele está em meio a um ministério de cerca de três anos em Éfeso (cf. Atos 20.31), mas seu zelo com a obra o fazia enxergar a missão que estava por vir, o Espírito lhe dava a visão estratégica de onde estava e para onde devia ir, sua paixão por Cristo e pela missão o colocava permanentemente na missão. É bom sublinhar que a porta larga que Deus abriu a Paulo, e segue abrindo a nós, não aponta um caminho fácil, pois Paulo é claro, quando diz que, junto a esta porta, "há muitos adversários" (cf. 1Co 16.9). Isto é, há sofrimento, há dor na caminhada missionária, o que nos espanta, diante da pregação do "Evangelho do Sucesso", que vem sendo pregado, numa negação escandalosa do caminho da Cruz, do Evangelho da Porta estreita (cf. Mt 7.13s). Vejam um exemplo da história do Metodismo que une, visão celestial, paixão por Cristo e prática missionária, o exemplo é de João Wesley ; ele tinha 74 anos de idade:

"Sexta-feira, 9 de maio, cavalga de Osmotherly, a vinte e três quilômetros de Malton, Yorkshire, sofrendo intermitentes ataques de febre. Ele prega. Ouvindo dizer que E. Ritchie está muito doente, parte após o serviço, e chega a Otley, setenta e dois quilômetros de distância, às quatro horas da madrugada no sábado.

Depois de ver o inválido, volta a Malton, tendo cavalgado, como diz, cento e quarenta e cento e sessenta quilômetros. Descansa uma hora, e depois cavalga trinta e três quilômetros para Scarborough, e prega à noite. No domingo de manhã, está tremendo com febre. Deitado entre cobertores, bebe limonadas quentes, transpira, e dorme durante meia hora; levanta-se e prega. Depois, encontra-se com a sociedade. Na segunda-feira, está pregando em Bridlington. Na terça-feira, está pregando em Beverly, de manhã, e à tarde em Hull, tendo cavalgado cinqüenta e quatro quilômetros naquele dia. Na quarta-feira, cavalga trinta e nove quilômetros para Pockington, prega, cavalga dezoito quilômetros mais longe para York, e prega outra vez. Admite sentir seu "peito fora de ordem", e alegremente descansaria. Mas é esperado em Tadcauster. Às nove horas da manhã, na quinta-feira, está num coche, que se quebra. Pede emprestado um cavalo fogoso de cujos movimentos, Wesley alegremente diz, "eletrificam-no", e ele se sente melhor! Prega, e, naquela mesma noite, volta dezoito quilômetros para York. No dia seguinte, toma a diligência para Londres."

No inverno de 1745, quando era muito mais moço, com quarenta e dois anos de idade, no norte da Inglaterra, uma pesada neve bloqueou todos os caminhos: "vento, granizo e neve fazem do país uma camada de gelo intransitável. Os cavalos caíam e tinham de ser guiados por Wesley e seus companheiros. No próximo inverno, este estava "endurecido dos pés à cabeça por um violento nevoeiro".

Esta energia não era um movimento inútil. Antes de o sol sumir-se, ele havia feito trabalho de diversos dias. Ele era compelido pelo seu desejo de ajudar e salvar as pessoas. Há um belo tributo a um pregador metodista do século 19: Hugo Price Hughes. Dizia-se dele que "ele tomou antiga paixão pelas almas dos homens e a colocou na corrente da vida moderna". Isso era o que os primeiros líderes metodistas fizeram. É uma necessidade apostólica de todas as eras.

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