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Rio, 20/11/2007
 

Jacó: o homem que se tornou nação (Suzel Tunes)

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Uma interpretação da história de Jacó que nos ensina a superar as intolerâncias e eliminar os preconceitos étnicos, políticos e sociais.

Jacó seguia com suas mulheres, filhos, criados e bens de volta à terra natal. Do planalto de Galaad, região da Transjordânia, desceu até a garganta do rio Jaboque, um afluente do Jordão. Ele resolveu atravessar toda a comitiva antes do pôr-do-sol e ficou por último. Foi então que surgiu aquele homem misterioso. Já estava escuro quando começaram a lutar. A luta se estendeu até o raiar do dia. Finalmente, o estranho pediu para ser solto, mas Jacó exigiu, antes, uma benção. O homem deu-lhe a vitória e um novo nome: Israel, aquele que luta com Deus. E Jacó chamou aquele lugar de Peniel (de panim, face e El, Deus), dizendo: “Vi a Deus face a face”.

Assumindo a identidade de Israel, Jacó tornou-se o antepassado epônimo do povo judeu, ou seja, aquele que empresta seu próprio nome à nação – assim, em sua história revela-se a identidade de todo um povo. “A imagem do patriarca epônimo condiciona, necessariamente, a imagem que o povo forma de si mesmo”, explica o teólogo espanhol José Luis Sicre Díaz, doutor em Sagrada Escritura pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma e professor na Faculdade de Teologia de Granada. Talvez por isso a figura de Jacó seja a mais contraditória de todos os patriarcas, e a mais rica em significados. Mentira e verdade, ingenuidade e astúcia, medo e fé são elementos que se alternam para descrever um patriarca humano, acima de tudo.


Disputa na barriga da mãe

Depois do estranho episódio da luta com Deus no rio Jaboque, Jacó iria se encontrar com seu irmão gêmeo Esaú. Eles tinham contas antigas a ajustar. A disputa começou antes mesmo do nascimento. Conta-se que os gêmeos já lutavam dentro do ventre da mãe, Rebeca. Esaú nasceu primeiro, mas Jacó veio logo atrás, segurando no calcanhar do irmão. Daí a origem de seu nome: Ya´acov , que deriva da palavra hebraica ekev, calcanhar. Jacó cresceu como um homem pacato, o preferido de Rebeca. Esaú, que era um valente caçador, era o preferido do pai, Isaque.

Certo dia, Esaú voltava faminto da caça e viu Jacó fazendo um cozido de lentilhas. Pediu a comida e Jacó propôs um negócio: o cozido pelo direito de primogenitura. Dizia a lei que o primogênito tinha direito ao dobro de tudo o que fosse destinado aos outros irmãos. Esaú concordou com a troca: “Estou a ponto de morrer; de que me aproveitará o direito de primogenitura?”. Para os antigos israelitas, mais valiosa do que a herança era a benção que o pai reservava ao primogênito antes de morrer. E das palavras sagradas de seu pai à beira da morte, Esaú não queria abrir mão. Contudo, quando Isaque já estava velho e cego, Rebeca e Jacó usaram de um estratagema para obter a benção paterna: o rapaz vestiu-se com as roupas de Esaú e cobriu as mãos e o pescoço com pele de cabrito, para parecer peludo como o irmão.

Quando Esaú descobriu o “roubo” ficou furioso e prometeu matar Jacó. Aconselhado por Rebeca, Jacó fugiu para a casa do tio materno, Labão, na Mesopotâmia. Acolhido na casa de Labão, casou-se com as primas Lia e Raquel e lá permaneceu os 20 anos seguintes. Então, resolveu voltar para Canaã. Antes, porém, quis se reconciliar com Esaú. Na noite anterior ao encontro, ocorreu a estranha luta no rio Jaboque e a mudança do nome. No dia seguinte, os irmãos se encontraram e fizeram as pazes.


O crente que não larga do pé de Deus

Para o teólogo Mauro Meister, pastor da 1ª Igreja Presbiteriana de Goiânia e professor do Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, o evento sobrenatural ocorrido no rio Jaboque é a peça chave para a compreensão do patriarca Jacó: “ele nos ensina que a eleição de Deus prevalece até mesmo sobre o caráter do homem”. Segundo o pastor Meister, Jacó precisou da interferência direta do próprio Deus para assumir, efetivamente, a aliança feita com seu avô e seu pai. Contudo, no episódio da luta, revela-se, também, um papel ativo na busca do sagrado. Para Meister, a melhor tradução para o nome Israel, não seria o que luta, mas o que “persevera” com Deus. “O nome Yisra’elé derivado do verbo sara, persistir ou perseverar”,diz o teólogo.


A auto-afirmação de Israel

“Quando se diz que Deus está, agora, com Jacó, significa que Deus está, agora, com Israel do Norte” (veja box), afirma José Luís Sicre, da Faculdade de Teologia de Granada. O teólogo espanhol lembra que os êxitos e méritos do patriarca são, por associação direta, reivindicados para o próprio povo de Israel. Contudo, ao mesmo tempo em que Gênesis mostra um patriarca abençoado por Deus, também faz um retrato nem sempre elogioso de sua conduta. “O relato de Gênesis não é maniqueísta’, afirma o teólogo. “Em uma cultura onde se valoriza o viril, e a atividade e o temperamento empreendedor, não parece demasiado elogioso dizer que Jacó é um homem tranqüilo que gosta de cozinhar e é preferido de sua mãe, e não do pai”, completa. Além disso, embora cumprindo uma promessa (Deus havia dito a Rebeca, ainda grávida, que o filho mais novo sobrepujaria o mais velho), o fato é que Jacó, efetivamente, engana seu pai e seu irmão. Mais tarde, na casa de Labão, é ele a vítima de fraude, quando pensa que está se casando com a amada Raquel e recebe Lia como esposa (veja box). Torna-se, também, objeto de uma “transação” entre as esposas: Raquel cede uma noite com o marido em troca de mandrágoras, flores vinculadas com fertilidade, colhidas pelo filho de Lia (Gn 30.14-16) – algo, no mínimo, estranho em se tratando de uma sociedade machista... “Ou seja, a imagem de Jacó tem aspectos positivos e negativos, como podemos esperar de qualquer ser humano. Porém, na visão de Gênesis, o positivo vem diretamente de Deus, não se deve aos méritos do patriarca”, lembra Sicre.

Só que uma imagem tão humana é difícil de ser aceita pela mentalidade religiosa, que tende a mitificar seus personagens favoritos, considera o teólogo. Assim, teria surgido com o passar do tempo uma repulsa dessa identidade, por meio de dois mecanismos distintos: o de relegar Jacó a um segundo plano (exaltando, em seu lugar, o patriarca Abraão) ou o de exaltar a figura de Jacó, à custa da depreciação de Esaú, por meio da elaboração de novos relatos. Segundo o teólogo, um exemplo significativo da exaltação de Jacó é o livro apócrifo dos Jubileus, escrito provavelmente entre os anos de 160 e 140 a.C. “A situação política da época, a rebelião dos Macabeus (contra os conquistadores gregos, que tentavam impor sua cultura), cria no autor um espírito nacionalista”, explica Sicre. Como resultado, o livro de Jubileus cria um “super-patriarca” perfeito sob todos os aspectos, pela omissão de eventos citados no Gênesis (como a cena das mandrágoras), substituições ou adições de novos fatos. Assim, por exemplo, é o avô Abraão, e não a mãe Rebeca, quem prefere Jacó; e na troca da primogenitura pelo cozido, Jacó não diz “vende-me”, mas “entrega-me”. “Mas o pior é o final da história”, conta o teólogo. Esaú não perdoa Jacó e o relacionamento entre os irmãos termina de maneira trágica, com Jacó matando Esaú com uma flechada no peito (Jub.38.2). “A exaltação de Jacó produz-se à custa de Esaú, ou melhor, à custa da fraternidade”, lamenta o teólogo. Pessoalmente, o professor Sicre fica com o relato de Gênesis.“Prefiro a imagem do patriarca ambicioso e egoísta, calculador e frio, mas também sofredor e paciente, aberto a todos os povos e culturas, em cuja história resplandece, com luz própria, a ação de Deus.”


Esaú, edomitas e palestinos

O gêmeo de Jacó é descrito na Bíblia como uma antítese do irmão. O nome Esaú, derivado de “peludo”, descreve um tipo físico oposto ao de Jacó, que é “liso”.Enquanto Jacó é “pacato”, Esaú é um “perito caçador, homem do campo”. Impulsivo, não hesita em trocar o seu direito de primogenitura por um cozido de lentilhas vermelhas (por isso, ele é chamado também de Edom, “vermelho”) e, depois, intenta matar o irmão que lhe rouba a benção paterna. Mas, quando o encontra, anos mais parte, corre em sua direção, abraça-o e, chorando, o perdoa.

Contudo, se os textos bíblicos são quase simpáticos ao filho que despreza a promessa de descendência feita à família, relatos posteriores pintarão um quadro muito mais negro da figura de Esaú. À medida em que crescia o nacionalismo judeu, aumentava a tendência maniqueísta de reforçar as qualidades de Jacó e os defeitos de Esaú. No livro apócrifo dos Jubileus, chega-se a omitir o perdão de Esaú, que é descrito como perverso e violento, lembra o teólogo espanhol Luís Sicre. “A política influenciou muito esta mudança. Esaú é considerado o pai dos edomitas, que acabaram se convertendo em um dos maiores inimigos de povo de Israel”, afirma o teólogo.

Hoje, há quem associe os edomitas aos palestinos, uma vez que Esaú teria se casado com filhas de Ismael, o pai dos árabes. Contudo, essa vertente, embora popular, não tem respaldo histórico. Os edomitas teriam sido dizimados como nação. Segundo alguns historiadores, a Iduméia (monte de Seir) foi invadida pelo rei caldeu Nabucodonosor no sexto século a.C. Depois, no segundo século, os poucos edomitas que restaram na região teriam se convertido ao judaísmo.


Raquel e Lia: as irmãs rivais

Jacó chega à casa de seu tio Labão e vê Raquel pastoreando as ovelhas. Ela é “formosa de porte e de semblante”. De sua irmã, Lia, diz-se apenas que “tinha olhos meigos” (mas alguns tradutores entendem a palavra original “rak” como “fraco”, ou “sem brilho”). Segue-se uma das histórias de amor mais famosas da literatura.

Jacó apaixona-se por Raquel e, para obtê-la, deve oferecer a Labão sete anos de trabalho. Contudo, ao final do prazo combinado, é Lia quem o pai conduz à cama do sobrinho, no escuro da noite. Lia é mais velha e deve se casar primeiro, ele argumenta. Jacó não desiste de Raquel e trabalha mais sete anos, que lhe parecem “como poucos dias, pelo muito que a amava”.

Mas o clima familiar torna-se ruim. Lia é desprezada e tenta conquistar o marido pelos méritos da maternidade. Raquel é amada, mas estéril, e sente-se profundamente infeliz. “Dá-me filhos, senão morrerei”. Segundo a historiadora holandesa Athalya Brenner, professora de Antigo Testamento na Universidade de Amsterdam e autora do livro “A Mulher Israelita”, os textos bíblicos mostram uma mulher insegura e competitiva, que só se realiza pela maternidade. Ciúme e rivalidade seriam consideradas características inerentes à condição feminina desde tempos imemoriais. “Os homens são vistos de forma diferente, muito mais maduros socialmente”, afirma a pesquisadora.

Para o rabino e historiador francês Josy Eisenberg, autor do livro “A mulher no tempo da Bíblia”, o foco central dos relatos sobre as matriarcas é a esterilidade recorrente. O objetivo é demonstrar que existe uma força espiritual capaz de vencer todos os obstáculos, até mesmo as impossibilidades da natureza. “Se fosse deixado por conta da natureza, o povo de Israel jamais viria à luz”. Segundo Eisenberg, o nascimento do povo é descrito como um longo e doloroso parto. “Em hebraico, o mesmo termo toledot designa a história e o parto”, diz ele. Assim, a ação de Deus conjuga-se com a vontade humana de “gerar” história, uma vontade que se expressa, em primeiro lugar, através das mulheres. Na visão judaica, as matriarcas seriam, portanto, as verdadeiras “mães portadoras” da História.


Suzel Tunes (publicado originalmente no livro Os Patriarcas, Editora Abril).

Texto extraído de http://www.metodista.org.br/index.jsp?conteudo=5592

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