IGREJA METODISTA DE VILA ISABEL
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Oração
Rio, 23/11/2007
 

Senhor, ensina-nos a orar: João Wesley e a oração

José Carlos Barbosa


 

Em julho de 1789, quase no final de seu ministério, John Wesley escreveu um rigoroso e melancólico sermão procurando explicar as “causas da ineficiência do Cristianismo”. Baseando-se no texto de Jeremias 8,22, ele indaga sobre o pouco benefício produzido ao mundo pelo cristianismo e, mais especificamente, sobre a ineficácia do movimento metodista que não estava conseguindo cumprir os seus objetivos fundamentais. Após assinalar que no início a caminhada foi muito mais consistente e prometedora, mas que após certo tempo houve uma acentuada e perigosa acomodação, ele assinala que no seio do próprio Cristianismo essa tendência fragilizante também sempre esteve presente. Os movimentos de renovação começam com muita vitalidade e aos poucos vão-se debilitando e se tornam opacos. Preocupado com essa “coisa tão espantosa” ele ressalta que se não houver a possibilidade de coibir tal processo, que historicamente tem-se mostrado tão inevitável, será a confirmação da própria inconsistência da religião cristã.

JW procura entender e até apresenta soluções para corrigir essa “coisa tão espantosa” que estava fragilizando o movimento metodista. Se na época ele pudesse contar com as explicações de Émile Durkheim (que só vão aparecer a partir do final do século XIX, época em que Durkheim publica o seu primeiro trabalho sobre o assunto), provavelmente teria mais facilidade para compreender essa “inconsistência” do metodismo e do próprio cristianismo. O autor de Formas Elementares da Vida Religiosa gostava de frisar que uma religião não é tanto um sistema de idéias, mas um sistema de forças que se desdobra inevitavelmente numa determinada forma de organização social. Para que haja essa trajetória e desdobramento, assinala ele, há sempre necessidade de dois tipos de forças, uma bastante explosiva que possibilite colocar em órbita o movimento e outra, subsequente, que possibilite a sua gravitação e sobrevivência.

Em resumo, Durkheim diria que se trata de um percurso inevitável na história de todos os movimentos religiosos. O carisma original fundante não consegue sobreviver sem a imposição de alguns cadeados de segurança, que são as normas doutrinárias e as regras de uma administração burocrática. Isto porque um movimento pode desaparecer caso se perpetue tão somente em torno da sua experiência carismática original, sem conseguir se expressar organizativamente e sem ter essa necessária força gravitacional. Entretanto, seguindo a mesma lógica esboçada por J.W. para lamentar a ineficácia do metodismo, tais cadeados de segurança podem se tornar tão estranguladores a ponto de não mais permitirem que a experiência religiosa irrigue e rejuvenesça suficientemente a organização. Ou seja, o mesmo remédio que produz a sobrevivência de um movimento religioso também pode se tornar o seu veneno autofágico.

Esse mesmo raciocínio pode ser aplicado à própria história do cristianismo. A experiência do Pentecostes foi a força propulsora necessária que permitiu aos discípulos de Jesus colocarem em órbita o nascente movimento religioso. Logo a seguir surgiram os cadeados de segurança, a inevitável organização burocrática do movimento, a conseqüente necessidade de utilização de uma força mais gravitacional. No livro de Atos dos Apóstolos há evidências obvias destes dois estágios. At 2,42-43 diz: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos”. At 6,1-7 fala sobre a eleição dos sete diáconos. O primeiro texto reproduz o período inicial pujante do cristianismo, época em que a experiência Páscoa/Pentecostes ainda permanecia bastante viva na memória da comunidade e propiciava uma vigorosa prática religiosa. O segundo já reflete um outro tempo, quando se organiza uma nova instituição (diaconia) para remediar determinados conflitos que proliferavam no seio da comunidade e também para resgatar aquela essência que estava ficando para trás.

No sermão referido acima, mas principalmente no texto Pensamentos sobre o Metodismo, escrito em 4 de agosto de 1786, Wesley receita a solidariedade para com os pobres como o mais eficaz remédio para curar esse desgaste natural, essa “inconsistência”. Temeroso de que o metodismo seguisse o mesmo itinerário de outras organizações religiosas, utilizando sua força gravitacional como mero recurso garantidor de sua sobrevivência, Wesley declara expressamente preferir o eventual desaparecimento do movimento do que vê-lo transformado numa instituição sem vitalidade, sem alma, sem a essência do verdadeiro cristianismo. Acha que o metodismo não deve jamais perder ou abandonar a sua razão de ser, a finalidade que motivou o seu surgimento, e explica que todos os seus modos de expressão organizacional, tais como pregação leiga, classes e sociedades, foram impostos pela necessidade e estavam revestidos de uma natureza extraordinária com o propósito único de alcançar e oxigenar aquela motivação primeira fundamental, e de forma alguma podem se tornar malhas corriqueiras de uma organização religiosa.

É evidente que nós, povo chamado metodista, praticamente nunca seguimos com rigor e seriedade a receita wesleyana. Na verdade, se ela não permaneceu “escondida” em meio ao amontado dos seus numerosos textos, foi interpretada como afirmação excêntrica que não precisa ser atendida “ao pé da letra”, a exemplo de inúmeras afirmações do próprio Jesus que submetidas à nossa implacável e esvaziadora exegese acabam perdendo toda sua radicalidade.

Esta solidariedade ativa e radical é a grande matriz de convergência que à maneira de um alimento, de uma seiva, de um influxo vital, ilumina toda a teologia wesleyana e serve como remédio para curar qualquer tipo de “inconsistência” religiosa. A doutrina da santificação, considerada pelo próprio Wesley como o mais importante tesouro dado por Deus ao povo metodista, é o coração vivo do movimento e só pode ser compreendida a partir deste compromisso generoso com os “pequeninos” de Jesus.

Somente a expectativa da santificação/perfeição cristã nesta vida é capaz de nutrir e dar sentido e direção à caminhada cristã. Se tal alvo for removido a transformação gradual desaparecerá, haverá desgastes e comprometedoras acomodações. “Destrua essa esperança e a salvação se imobiliza, senão diminui diariamente”, diz John Wesley.
De forma alguma a santidade pode ser compreendida como resultado de uma aritmética religiosa. Entretanto, como atleta da virtude, Wesley ensina que a utilização disciplinada e regular dos meios de graça tem a capacidade de dar ao cristão uma força estabilizadora, ajuda a corrigir eventuais empobrecimentos, contribui para o crescimento na fé e no conhecimento de Deus, em suma, orienta no caminho da santificação.

Para o fundador do movimento metodista, os meios de graça são “sinais exteriores, palavras ou ações ordenadas e instituídas por Deus com o fim de serem canais ordinários por meio dos quais possam comunicar à criatura humana sua graça antecipante, justificadora e santificadora”. No sermão “Os meios de graça”, John Wesley explica que na igreja apostólica os cristãos estavam de acordo em que Cristo havia instituído certos meios exteriores para comunicar sua graça às pessoas.

A prática constante estabeleceu uma determinada conduta revelada no texto de Atos dos Apóstolos: “todos os que creram estavam juntos, e tinham tudo em comum (...) perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações”.(At 2, 42-44). E baseando-se neste texto e em diversos outros, considera que tais disciplinas espirituais dividem-se em duas categorias básicas: os meios de graça “instituídos” ou “dados”, e os meios de graça “prudenciais” ou “flexíveis”. Os primeiros foram estabelecidos por Cristo e são características imutáveis da comunidade cristã. São eles: oração, estudo das Escrituras, participação nos sacramentos, jejum e “consulta cristã. Os meios de graça “prudenciais” são aquelas estruturas adaptáveis da comunidade cristã, necessárias ao seu relacionamento com um mundo em constantes mudanças. Era o caso das sociedades e das diversas classes implantadas no movimento metodista, vistas por Wesley como vitais para a realização da missão.

O propósito deste texto é tratar sobre os meios de graça que alimentam a nossa vida espiritual, mas desde o início fica o alerta lembrando que sem solidariedade não há remédio que possa oxigenar a vida cristã. A solidariedade é o ponto geométrico que dá vigor e qualidade aos meios de graça. Não é possível escamotear a realidade da fé cristã. Pelo menos não se pode escamotear tanto, desvinculando-a dos seus princípios básicos. Quando isso ocorre, e desgraçadamente a exceção pode tornar-se regra, o cristianismo se transforma em um arremedo caricato. E pensando exatamente nessas infelizes e estéreis escamoteações, John Wesley nos alerta dizendo que se estes meios estiverem separados de seu objeto, se não guiarem ao conhecimento e amor de Deus, são “vaidade e abominação”, “separados de Deus são como uma folha seca, como uma sombra”.

O objetivo principal da utilização dos meios de graça é aperfeiçoar e aprofundar a amizade com Deus e desenvolver a prática da solidariedade. Sem eles há ruína e esclerose espiritual. Sem eles a Igreja perde a sua essência básica e se transforma numa estrutura ameaçadora, quase adversária do projeto salvífico de Deus. Assim sendo, o primeiro tema a ser abordado será amizade. A seguir trataremos sobre oração, leitura da Bíblia, Santa-Ceia, jejum, confissão de pecados, serviço cristão e vida em comunhão.

Assim como Wesley lamenta profundamente a ineficácia do movimento metodista, mas nem por isso fica desanimado a ponto de desistir da caminhada, também nós somos desafiados a resgatar o nosso autêntico papel de “sal e luz no mundo”. Se uma lição permanece dessa avaliação severa, que seja a de resgatar a importância dos tradicionais meios de graça na busca de uma verdadeira santidade, que seja a de reconhecer que esses meios de graça devem ser experimentados e vividos com fé, esperança e amor.


“SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR.”


A Bíblia menciona que os fiéis se levantavam cedo, para buscarem a Deus e executarem a sua ordem: Abraão (Gn 19,27; 22,3), Jacó (Gn 28, 18), Moisés (Ex 9,13), Josué (Js 3,1; 6,12). Jesus também tinha esse costume, como destaca Mc 1,35: “Tendo-se levantado alta madrugada, saiu, foi para um lugar deserto, e ali orava”.

Os discípulos de Jesus estavam acostumados a vê-lo orando. Em Cafarnaum, logo após realizar muitos e extraordinários sinais, ele se levanta de madrugada, vai “para um lugar deserto e ali ora” (Mc 1,35). A caminho da cidade de Betsaida ele se separa do grupo de discípulos, sobe ao monte e permanece bom tempo em oração (Mc 6,45-46). No Monte das Oliveiras Jesus ora de joelhos, com extremo fervor (Lc 22,41).

Além de orar com regularidade Jesus também ensinou seus discípulos a orarem. No Sermão do Monte ele recomenda: “amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5, 44). Ainda no mesmo contexto do Sermão do Monte ele afirma que o modelo de oração deve estar distante da hipocrisia daqueles que gostam de “orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças” para serem notados e vistos. Jesus revela que a oração não é, por si só, nenhuma obra ou virtude meritória. Oração é encontro silencioso e secreto entre o fiel e Deus.

A prática da oração adotada por Jesus aguçou o interesse dos discípulos. Certo dia, um deles se aproximou e fez o seguinte pedido: “Senhor, ensina-nos a orar, como João ensinou a seus discípulos”(Lc 11,1). Jesus atendeu e deu-lhes o Pai-nosso, um modelo de oração, a mais perfeita oração já pronunciada.

Os Evangelhos procuram mostrar que os discípulos fizeram pouco uso do grande tesouro que receberam. Receberam uma oração mas não aprenderam a orar. Tiveram o maior de todos os mestres, viram o seu exemplo, mas não conseguiram imitá-lo. Jesus exortou-os diversas vezes, denunciando o pouco interesse que tinham pela oração. O exemplo mais claro ocorreu no Getsêmani, (Mt 26, 36-46), quando Jesus estava enfrentando o momento mais decisivo e difícil de sua vida. Escolhe e convida três discípulos, Pedro, Tiago e João, para o acompanharem e enquanto Ele, angustiado e triste, ora ao Pai, suplicando forças para enfrentar aquela difícil provação, os discípulos dormem tranquilamente, incapazes de compreender a seriedade e a importância do momento. O texto diz que foram três vezes convidados a acompanhar Jesus na oração e em todas fracassaram. Tinham os “olhos pesados de sono” (Mt 26,43) e não conseguiram resistir. Só após o Pentecostes é que aprenderam a orar.


Orar - respirar

A oração é fundamental. João Wesley chamou a oração de “fôlego da nossa vida espiritual” e sugeriu que do mesmo modo como uma pessoa não pode parar de respirar, também não pode parar de orar. Valorizar a oração é ser fiel à Palavra de Deus, é seguir o exemplo de Jesus e de muitos heróis da fé. O apóstolo Paulo oferece o seguinte conselho: “Orai sem cessar” (1 Ts 5,17). Para essa mesma comunidade ele diz o seguinte: “não cessamos de orar por vós...” (2 Ts 1,11).

Muitos cristãos vivem uma vida espiritual esclerosada e árida porque se descuidam da oração. Ela é o grande dom, o principal meio da graça divina, a melhor forma de aproximação com Deus. Através dela mantemos o relacionamento com Deus e tornamos saudável e fecunda a nossa vida espiritual.

Jesus Cristo ensina que nada substitui a oração. Nenhuma outra coisa pode ser colocada em seu lugar, nem mesmo a prática da solidariedade. É a oração que completa, dá vigor e qualidade a todas as demais facetas da vida cristã.

A oração é o termômetro da vida espiritual. Todos nós estamos sujeitos a “chuvas e trovoadas”. Enfrentamos problemas difíceis e passamos por crises complicadas. Através da oração ficamos mais fortes e recebemos de Deus a sabedoria necessária para enfrentar toda e qualquer situação. Com ela tomamos consciência que “somos mais que vencedores” (Rm 8,37) e levamos a sério a exortação de Jesus: “ Vigiai e orai, para que não entreis em tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26, 41).


O dia inteiro para o Senhor

Quando se fala que devemos dedicar tempo para oração é preciso que se tenha em conta que viver é um ato espiritual. Não se pode pensar que oração seja apenas aquele período formal de concentração. O apóstolo recomenda aos Tessalonicenses “orar sem cessar”, mesmo, e principalmente, reconhecendo que eles viviam uma vida normal dedicada ao trabalho, à família e à sociedade. Paulo achava possível pedir esse tipo de coisa porque tinha uma visão ampla do significado da oração.

No texto Caráter de um metodista, John Wesley explica que “orar sem cessar” não significa articular palavras piedosas ou estar sempre na igreja, ainda que o fiel deve aproveitar todas as ocasiões possíveis para estar na Casa de Deus. A essência da oração, diz ele, está em elevar sinceramente o coração a Deus. E isto pode ser feito, sem dificuldades, em qualquer momento, quer a pessoa esteja só ou acompanhada, descansando ou trabalhando. Nada e ninguém pode interromper sua oração (Obras de Wesley, Tomo V, p.21-22).

Todos os minutos do dia devem ser dedicados à oração. Henri Nouwem está coberto de razão ao dizer: “ Se eu não posso encontrar a Deus no meio do meu trabalho - onde as minhas preocupações, dores e alegrias estão - não faz sentido procurar encontrá-lo nas horas livres, na periferia da minha vida. Se a minha vida espiritual não pode crescer e aprofundar-se no meio do meu ministério, como pode ela crescer nas margens?” É preciso ser coerente, entendendo que os momentos “ livres” são fundamentais para enriquecer e dar qualidade aos momentos de “ocupação” e atividade.

Jesus vivia em oração não apenas naqueles momentos de comunhão íntima com o Pai, mas nas mais diversas situações. Ele estava em oração quando discutia com os fariseus a respeito do sábado (Mc 2,23-28), quando instruía seus discípulos para a missão (Mc 6,7-13), quando curava um cego em Betsaida (Mc 8, 22-26), quando no monte, transfigurado, falava com Moisés e Elias (Mc 9, 2-8) ou quando, na cruz, dizia: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mc 15,34).


Oração como sinal de amizade

John Wesley e muitos outros cristãos trataram a oração como espaço privilegiado para o aprofundamento da amizade com Deus.

Oração não é diálogo interior, como se fosse recapitulação, revisão ou introspeção. Também não é relação com um princípio divino abstrato, com uma força superior ou com uma divindade imprecisa. A oração é o cultivo de uma amizade, é uma relação, um trato entre duas pessoas. É relacionamento com um Deus pessoal, histórico, que age na minha vida e na vida do mundo.

A experiência essencial e original da oração cristã é o amor. O amor de Deus por mim, o amor que eu ofereço. A oração progride como progresso da experiência do amor, como amadurecimento da amizade. Assim, o valor primordial da oração não está em descobrir idéias, em conhecer-se melhor ou em saber mais religião, mas em amar a Deus e ser seu amigo. Orar não é pensar muito, mas amar muito, dizia Teresa de Jesus. O critério básico para avaliar a qualidade da oração está no aprofundamento da amizade e do amor. Fundamental não é a emoção, a sensibilidade, mas a disposição de fazer a vontade de Deus, de seguir o exemplo de Jesus Cristo.

É evidente que na amizade o que mais importa é a qualidade e a permanência da atitude que desenvolvemos para com o amigo, muito mais que o número de vezes que com ele encontramos. Entretanto, se o fundamental é a qualidade do relacionamento não se pode de forma alguma desprezar a quantidade. Fidelidade periódica e habitual revela a nossa disposição de cultivar a amizade. Trata-se de algo que está à nossa disposição, sob a nossa responsabilidade e depende apenas de nós. Mais que um dom, trata-se de uma virtude possível e reveladora. Assim como a amizade só sobrevive se houver compartilhamento constante e quando não se separa tempo para o amigo a amizade decai e pode até extinguir-se, também a oração exige idêntico compartilhamento. Como é possível afirmar que somos amigos de Jesus se não encontramos tempo para cultivar essa relação de amizade!?

Cultivar a amizade com Deus através da oração é uma virtude e depende inteiramente da nossa disposição e responsabilidade. Só que como somos “vasos de barro” temos dificuldades para sermos bons atletas na prática desta virtude. Daí a importância de levar a sério o ensinamento de cristãos que trilharam com sucesso esse caminho: o mais importante na oração é jamais abandoná-la. Persistir sempre, sem desanimar por qualquer razão que seja. Por mais deprimidos que estejamos, não devemos cair na tentação de abandonar esse canal que expressa a nossa amizade. Continuar orando é a única garantia de confiança na futura superação das nossas eventuais debilidades. Continuar orando sempre, independente da situação, é uma declaração de confiança e fé na amizade renovadora, transformadora e libertadora de Jesus Cristo.

Orar com os Salmos

Desde os tempos mais antigos a oração de salmos foi uma prática muito comum entre os fiéis. Seria muito bom se nós fizéssemos um esforço para recuperar essa prática. Aliás, essa recomendação está contida nas epístolas do Novo Testamento. Ef 5, 19 recomenda: “Falai entre vós com Salmos“ e Cl 3,16 orienta o seguinte: “Instrui-vos e aconselhai-vos mutuamente com salmos”. O próprio Jesus fez do Saltério o seu livro de orações e nós podemos seguir o seu exemplo. O livro de Salmos significou para Jesus e seu tempo uma grande escola de oração.

A utilização dos Salmos pode ser um bom caminho para se aprender a orar. Será uma oração alicerçada na base segura da Palavra revelada, distante dos modismos que infestam as Igrejas e que procuram fazer de Deus um escravo, pronto a atender os desejos mais absurdos e egoístas.

A oração precisa recuperar sua característica comunitária. É o Corpo de Cristo que ora, e como indivíduo devo aprender a reconhecer que minha oração é apenas uma pequena parcela da oração realizada pela comunidade toda. Precisamos aprender a acompanhar a oração do Corpo de Cristo, libertando-nos da oração egoísta e das preocupações pessoais exageradas.

Para que possamos entender o sentido dessa oração comunitária basta lembrar que a comunidade do Antigo Testamento tinha o costume de orar os salmos de forma alternada. Era uma maneira de fazer com que todos participassem da mesma oração. Havia o denominado parallelismus membrorum, a repetição, na segunda parte do versículo, da mesma afirmação com outras palavras. Ex. Salmo 5: São sempre duas vozes que repetem com palavras diferentes a mesma prece diante de Deus. Isso mostra que a oração deve ter um perfil comunitário. Alguém deve unir-se ao outro em oração. Outro exemplo é o longo Salmo 119, com repetição constante do mesmo pensamento.
Milhares de cristãos têm descoberto a prática da oração comunitária. O espaço do culto dominical é muito pequeno. É importante que a comunidade se reuna para orar todos os dias. Em alguns lugares os crentes se reúnem nas igrejas e casas, todos os dias, antes de seguirem para o trabalho. O resultado é um aprofundamento da Koinonia(comunhão) e um derramamento do poder de Deus. É necessário buscar irmãos para oração. Quer seja um grupo ou apenas um parceiro. Grupos familiares devem ser criados com esse objetivo.


João Wesley e a vida devocional

Wesley desenvolveu o seu próprio método devocional. Entretanto, tão importante como o método é a disciplina em observá-lo. De nada importa ter um bom método se não houver disciplina e perseverança em aplicá-lo. Durante mais de cinquenta anos João Wesley utilizou, valorizou e aperfeiçoou seu método que tinha como objetivo principal tornar mais frutífera sua vida devocional.

Na vida devocional não existem mágicas. Cristãos de grande estatura espiritual não se formam da noite para o dia, de uma hora para outra. É necessário pagar o preço necessário. É preciso investir nesse projeto, gastar tempo e ser dedicado. Uma verdadeira amizade não se forma em uma semana e nem em um mês. Podemos até pressentir que há potencial, mas o aprofundamento só ocorre com o tempo.

Para o iniciador do metodismo, o principal meio institucional da graça era a oração, o mais importante meio de aproximação a Deus. Ele acreditava que um qualitativo relacionamento com Deus, através de Jesus Cristo, poderia ser mantido através da oração.

Metódico como era, Wesley desenvolveu um padrão em seus momentos de oração. Cada semana era dedicada a determinado assunto e cada dia da semana estava voltado para um item particular deste assunto.

Com o uso do seu método é possível anular o problema de concentração e dispersão, que muitas pessoas enfrentam. Uma das piores dificuldades da hora de meditação consiste em que os pensamentos divagam com facilidade e somem por outros caminhos. Com método fica mais fácil disciplinar os pensamentos. E, caso não se consiga a concentração desejada, a alternativa melhor será sempre incluir na oração as pessoas e acontecimentos para os quais os pensamentos estão dirigidos. A concentração é um aprendizado e com método tudo fica mais fácil.

O diário de Wesley mostra que ele orava durante o dia todo. Sua mente foi treinada para a cada hora dedicar alguns minutos para uma oração exclamatória, curtas frases de louvor, em que apresentava os fatos de sua vida a Deus. Depois, ele dedicava cinco a sete minutos para meditação.


As primícias do dia para o Senhor

João Wesley tinha o hábito de levantar-se às 4 horas da manhã para oração e leitura da Palavra de Deus. É o que ele explica no sermão Remindo o tempo, baseado em Efésios 5,16 e escrito no final de janeiro de 1782. Diz ele que o costume de deitar-se sempre entre 21:30 e 22 horas e acordar às 4 horas da manhã surgiu quase sessenta anos antes, após meticulosa avaliação a respeito da exata quantidade de sono que sua constituição física exigia (Obras de Wesley, Tomo IV, p.171-172.

É claro que vivemos numa época profundamente diferente do século XVIII de John Wesley. Só que o mais importante não é imitar as suas marcas cronológicas, mas o princípio que ele estabeleceu para si próprio. No final do sermão ele assinala que o fato de alguém acordar bem cedo não é suficiente para torná-lo um cristão. Trata-se de apenas mais um passo, entre muitos outros. Só que é um passo importante para ajudá-lo a buscar o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus (Fl.2,5).

O cristão não deve iniciar o dia com a mente voltada para as preocupações. Há tempo para tudo e essa primeira parte do dia deve ser dedicada exclusivamente ao Criador de todas as coisas. De nada adianta levantar cedo ansioso e inquieto, achando que assim terá melhor rendimento. A Bíblia diz que isso não traz proveito: “Inútil vos será levantar de madrugada, comer o pão que penosamente granjeastes” (Sl 127,2). Devemos acordar cedo, mas antes de mergulhar no corre-corre do dia é preciso ter uma boa e amistosa conversa com o Pai.


João Wesley e a oração da noite.

No final do dia, antes de dormir, J. Wesley fazia a revisão de todos os acontecimentos do dia e a devida confissão dos pecados cometidos (Obras de Wesley Tomo IX, p.15-19). Tomava resoluções diárias para melhorar a sua vida e não permitia que se amontoassem os problemas. Para ele esse era o melhor caminho para a perfeição cristã. Ele garante que essa prática permitia que dormisse em paz todos os dias. Talvez, hoje em dia, seja um bom remédio contra a insônia, sofrida por muitos crentes. A oração da noite é uma boa maneira de tranquilizarmos a nossa mente agitada.

O período da noite é o momento especial para a oração. O trabalho foi abandonado temporariamente e chegou a hora adequada para suplicar paz, benção e proteção para os pobres, miseráveis, solitários, para os doentes e moribundos, para os vizinhos e familiares, para os líderes das Igrejas e para os governantes. Quando estamos repousando temos a certeza de que “...não dormita nem dorme o guarda de Israel” (Sl 121,4).

Valorizando a oração intercessória, JW dizia que “orar por aqueles que amamos é sem dúvida fruto de afeto, porém é um afeto que agrada a Deus e é obra do Espírito Santo em nós” (Obras de Wesley, Tomo XIV, p.112-114). Em carta dirigida a Mary Bishop, JW enfatiza a importância da intercessão dizendo que aqueles por quem intercedemos receberão maiores bênçãos de Deus. Diz ainda: Quantas vezes as orações feitas por outros são respondidas para nosso bem, e as nossas orações respondidas para o bem dos outros!” (Obras de Wesley, Tomo XIV, p.138-140).

Além da intercessão, a oração da noite deve incluir a súplica da benção do perdão. Diante do criador desnudamos a nossa alma, não permitindo que o “sol se ponha sobre a nossa ira“, sobre o nosso pecado. A busca e o exercício do perdão são regras fundamentais da comunhão cristã.

Após a graça do perdão recebido e concedido aparece a oração da gratidão. Agradecemos a Deus por nos dar irmãos que vivem sob seu chamado, seu perdão, sua promessa. Gratos a Deus suspiramos por viver em comunidade cristã sem qualquer tipo de cobrança ou exigência. Se Deus nos ama, imperfeitos como somos, também devemos amar nossos irmãos sem fazer qualquer tipo de exigência. Eles foram colocados ao nosso lado por uma razão muito especial, para serem objetos do nosso amor e do nosso cuidado.

Outro costume adotado por J. Wesley e utilizado pelos metodistas primitivos foi o uso de orações escritas por cristãos de reconhecida santidade. Hoje em dia, principalmente aqui no Brasil, não seguimos tal prática. De vez em quando aparecem alguns folhetos com textos bonitos e inspirados. Nós os lemos, mas não é costume utilizá-los como material para nossas orações.

Em determinadas circunstâncias o uso da oração escrita pode ser uma grande ajuda. Muitas vezes, porém, ela pode se tornar numa maneira de esquivar-se da verdadeira oração. O uso de orações escritas pode criar ilusão e fazer com que se deixe de lado a oração própria. As orações serão belas e profundas, mas não autênticas.

Vigílias

Os cultos de vigília entre os metodistas foram instituídos oficialmente no dia 9 de abril de 1742, em Londres. Recomendava-se que fossem marcados uma vez por mês, na sexta-feira, preferencialmente a mais próxima da lua cheia. O objetivo era facilitar a presença de um grupo maior de pessoas. Como a vigília terminava sempre após a meia noite, a claridade da lua ajudava a caminhada das pessoas que moravam mais distante dos locais de reunião (Obras de Wesley, Tomo V, p.228-229).

Antes dessa instituição formal os metodistas já se reuniam em vigília. Tudo começou quando alguns metodistas da Sociedade de Kingswood passaram a se reunir nas noites de sábado para oração, louvor e gratidão a Deus (Obras de Wesley, Tomo V, p.228-229). O objetivo que tinham em mente era cumprir a recomendação apostólica que recomendava “vigiar e orar”. Entretanto, quase uma década antes alguns membros do Clube Santo já estavam fazendo alguma coisa neste sentido. Benjamim Ingham (com hesitante encorajamento de John Wesley), passou a reunir alguns metodistas de Oxford para passarem parte da noite do sábado em vigília, como preparação para o domingo. Mais tarde, em maio de 1741, também em Kingswood, Carlos Wesley também havia “feito vigília” com seu irmão. A experiência foi tão boa, que Carlos anotou em seu Journal o seguinte: “Eu gostaria que esse costume primitivo fosse reavivado entre todos os nossos irmãos” (HEITZENRATER, R.P. O povo chamado metodista, p. 124).

John Wesley via com bons olhos esse novo costume adotado em Kingswood. Não apenas havia precedente dessas “assembléias à meia-noite” nas igrejas primitivas, que iam além “do meio da noite”, mas tal prática estava de acordo com as “vigílias” da Igreja da Inglaterra. Ele achava que todas as sociedades deveriam adotar a prática das vigílias. A recuperação deste antigo hábito cristão poderia ser um meio eficaz para salvar uma alma da morte, ou “tirar aquele tição da fogueira”. Os mineiros, que antigamente passavam as noites na taberna, agora podiam gastar esse tempo em oração.

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