IGREJA METODISTA DE VILA ISABEL
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Rio, 4/12/2007
 

Um só Senhor, uma só Igreja - Ser um em Jesus Cristo (John Robert Nelson)

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"UM EM CRISTO JESUS"

(Esse texto corresponde ao primeiro capítulo do livro "UM SÓ SENHOR, UMA SÓ IGREJA", publicado em português no ano de 1964 pelo Centro Cristão de Literatura da Confederação Evangélica do Brasil e publicado em dezembro de 2007 no site da Igreja Metodista de Vila Isabel, Rio, Brasil).

Por que tanto interesse hoje pela unidade cristã? Se o problema da unidade fosse ignorado, a vida seria muito mais fácil para a maior parte dos cristãos em todo o mundo. O fato de que diferenças doutrinárias impedem todos os membros da família de Cristo de receber a Sua Ceia na mesma mesa, não seria causa de angústia de espírito de forma alguma; a competição aberta de igrejas cristãs pregando o mesmo Evangelho da mesma Bíblia na mesma vila para confusão dos mesmos povos não-cristãos, não seria causa de escândalo; cada pequeno grupo de cristãos poderia sentir-se complacente e satisfeito em seu isolacionismo das demais igrejas vizinhas; e cada denominação poderia realizar seu próprio programa de evangelização e de serviço social sem cogitar dos outros. Tudo isto estaria certo, se não fosse por uma cousa: Jesus Cristo quer que sua Igreja seja uma em mente, espírito, vida e testemunho.

O ensino da Bíblia acerca da unidade essencial da Igreja é perfeitamente claro. Ela não nos dá plano pormenorizado para a forma ou para a estrutura da unidade, mas não deixa dúvidas de que a obra de Jesus Cristo foi a de "reunir em um só Corpo os filhos e filhas de Deus que andam dispersos" (João 11.52), e reconciliar todos os que crêem numa só comunidade de amor.

Cristãos não são os únicos que falam de unidade. Mais e mais a palavra é usada na esfera política, como nas Nações Unidas (ONU); como os vários blocos de nações, estados, tribos e regiões formando uma só nação; também os sindicatos falam de unidade e da mesma sorte os comunistas. Centenas de clubes, sociedades, ordens e lojas fazem o mesmo. Além disso, há definidos apelos para a unidade dos aderentes de várias religiões: budistas, xintoístas, hindus e maometanos. Muitos povos hoje falam com crescente fervor da necessidade de união de todas as religiões do mundo. Unidade é palavra popular e universal hoje, mas os povos se encontram desunidos, até mesmo no próprio significado do termo, bem como na sua aplicação.

Os cristãos preservam um significado único e distinto de unidade. Aplica-se à relação comum que têm em Jesus Cristo e à relação mútua de uns para com os outros. Portanto, é palavra essencialmente importante acerca da vida da Igreja. Os cristãos podem muito bem estar desejosos de promover a unidade entre pessoas, grupos e nações para ordem e paz da sociedade humana. Quando, porém, eles trabalham por maior união da humanidade, lutam por um ideal que tem na história, desde há muito, relativamente pouca realidade. Hoje em dia é muito fácil para uma pessoa viajar pelo mundo todo e verificar que pessoas com os mesmos problemas e a mesma fidelidade desejam estar juntas. Mas há qualquer cousa de arbitrário e de artificial mesmo acerca dos mais dignos esforços para conseguir uma união mais íntima entre povos que têm relativamente mui pouco em comum.

Os cristãos do mundo, pelo contrário, têm muitíssimo em comum. O que têm não é somente história comum, ou linguagem, ou ainda limites geográficos comuns, pois tais cousas são temporárias e passageiras, terrenas e efêmeras. A unidade cristã está baseada naquilo que é eterno e divino, a saber, a escolha e chamado por parte de Deus, Todo-Poderoso, de um povo seu; a encarnação do Verbo eterno na pessoa de Jesus Cristo, sua morte e ressurreição, e a dádiva do Espírito Santo. Se os cristãos estivessem unidos somente pela memória de singular mestre religioso e pela lealdade à Bíblia, essa unidade poderia ser real, mas muito frágil. Porém a unidade cristã consiste de uma participação comum nos dons especiais e decisivos do próprio Deus. "Há somente um corpo e um Espírito... numa só esperança... um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos... (Ef 4.4-6).

Quando certo cristão de uma vila da índia encontra outro de uma fazenda européia, ou citadino japonês, diferenças em linguagem, cultura e cor não são de essencial importância. O que vale realmente é o fato simples e primário de que ele, como os demais, crê no Deus e Pai de Jesus Cristo, professa o mesmo Evangelho de salvação, compartilha o mesmo batismo de água e o idêntico batismo do Espírito Santo. Isso faz com que o indiano, o europeu e o japonês sejam irmãos em sentido ainda mais profundo do que se pertencessem à mesma família e fossem do mesmo sangue. "Eis minha mãe e meus irmãos", disse Jesus. "Qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe" (Mc 3.34-35).

O Novo Testamento tem maneiras diferentes de se referir à Igreja e à sua unidade. Fala através de parábolas e de imagens antes que de maneira prosaica ou direta como algum compêndio de história ou de ciência. Muitos de nós, pretendendo definir a Igreja e a sua unidade, tentaríamos descrever a organização de uma congregação, de denominação, ou falaríamos de sua inter-relação, da espécie de trabalho e de testemunho dado por esses cristãos no mundo. Porém, o Novo Testamento tem muito pouco de tal descrição. Preocupa-se mais com a natureza e a qualidade da relação da Igreja com Jesus Cristo e da mútua relação dos cristãos como pessoas. Por esta razão faz livre uso de muitas figuras de linguagem.

A unidade cristã é antes de tudo unidade da Igreja com Cristo. Os cristãos conhecem Jesus Cristo não como herói sepultado há muito tempo, mas como Senhor vivo e ressurreto. Tal fé na presença contínua do Senhor é atestada em culto, testemunho e vida da comunidade cristã. A existência contínua da Igreja através de muitos séculos, com seus movimentos freqüentes de renovação e de poder, é conseqüência da promessa do Senhor: "Eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século" (Mt 28.20).

Os evangelistas e o apóstolo Paulo dão muita importância ao vínculo de unidade entre Cristo e a Igreja. Os quatro Evangelhos apresentam Jesus como o Pastor do fiel rebanho de ovelhas. Esta metáfora é usada freqüentemente no Antigo Testamento, tanto quanto em o Novo. A criação de gado ovino ainda hoje é ocupação muito importante na terra, uma vez chamada Palestina. Os leitores antigos dos escritos sagrados podiam entender imediatamente o poder do pastor sobre seu rebanho, tanto quanto a sua responsabilidade pela segurança e bem-estar do rebanho a ele confiado. Deus mesmo foi lembrado como Pastor no salmo 23, e outra vez no salmo 95.7: "Ele é o nosso Deus, e nós povo do seu pasto e ovelhas de sua mão". Mas em Ezequiel 34.23 é o rei Davi a quem Deus aponta como pastor sobre o seu povo. Nos Evangelhos esse papel é atribuído a Jesus. Como Filho de Deus e Messias, Jesus deu ao título significado distinto e permanente, porque buscou e achou as "ovelhas perdidas da casa de Israel" (Mt 10.6; 15.24; 18.11-14) e deu a sua vida pelas ovelhas (Jo 10.15). Jesus é assim o soberano Senhor da Igreja, tanto quanto o Servo sofredor. A intimidade da relação entre Cristo e a Igreja mostra-se na relação profundamente pessoal entre Ele e seus discípulos fiéis: "Eu conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim, assim como o Pai me conhece a mim e eu conheço o Pai (Jo 10.14-15). Esta comparação do elo entre o Pai e o Filho, com aquela existente entre o Filho e os seus seguidores, faz-nos lembrar o clássico verso referente à união (Jo 17.21), onde a unidade dos cristãos é comparada àquela de Deus, o Pai, com o Seu Filho.

Na experiência humana as relações mais íntimas conhecidas são as existentes entre marido e mulher. Contudo há exceções: quantas vezes os casais não se isolam um do outro, pela suspeita, inveja, ou desafeição. Relações entre os membros da família, ou de bons amigos, podem ser estreitamente chegadas, não obstante o laço humano que é normalmente o mais íntimo, é o do casamento. O ensino bíblico assegura que o homem e a mulher crescem em unidade tão perfeita em amor que eles podem quase ser olhados como uma só pessoa. Aceitando-se este ponto de vista a respeito da união matrimonial, o escritor da Carta aos efésios declara que Jesus Cristo é o noivo e a Igreja a sua noiva, a quem ama e por quem se deu a si mesmo (Ef 5.23-27). Na verdade a união entre Cristo e a Igreja é tão íntima, que é esta união que deve ser tida como padrão e ideal para o casamento humano.

Outra metáfora sugestiva empregada por João é a da videira e seus ramos (Jo 15.1-8). À primeira vista parece antes impessoal, mas a sua propriedade e significado são inequívocos. Mais uma vez, Jesus escolheu, como imagem de si mesmo, alguma cousa conhecida de todos num país vinícola. A videira completa inclui todos os seus galhos. Todavia, cada ramo tem a sua identidade própria, vive da fonte da vida que é videira e faz a sua contribuição à totalidade da árvore. Se ela é sã, produz uvas, se é estéril (veja Mt 7.16-20), é cortada e lançada ao fogo. As palavras essenciais em João 15 são estas: "permanecei em mim, e eu permanecerei em vós" (v. 4). Aqui está a exortação e a promessa que apontam para uma unidade sem fim entre Jesus Cristo e a sua Igreja.

O apóstolo Paulo dá ênfase a essa relação com numerosa repetição da frase "em Cristo", "com Cristo" e "Cristo em mim". Paulo declara: "Se alguém está em Cristo, é nova criatura" (II Co 5.17). Ensinando qual o significado mais profundo do batismo, escreve: "Porque se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente o seremos também na semelhança da sua ressurreição" (Rm 6.5). Em alegre testemunho da realidade de sua fé, Paulo parece gritar através das palavras escritas: "Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim" (Gl 2.20). Por certo, Paulo foi homem que experimentou a verdade contida na promessa de Jesus: "Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós" (Jo 15.4).

As palavras de Paulo acerca desta íntima relação de Jesus Cristo não são semelhantes àquelas de místico não-cristão. Estar "em Cristo" não significa ter experiência emocional e exaltada da presença de Cristo; nem Paulo escreveu acerca de um único sentido místico dessa identidade com Cristo. Sempre, e em primeiro lugar, no ensino de Paulo estava toda a comunidade cristã, a Igreja. O cristão não pode simplesmente separar sua fé em Jesus Cristo de sua relação de membro da comunidade cristã. O cristão é inevitavelmente membro do povo de Cristo. Assim de acordo com o ensino de Paulo, corretamente entendido, a pessoa que está "em Cristo" é aquela que está "na Igreja".

Entender bem o que quer dizer "em Cristo" tem muita importância para aprender o significado da união da Igreja com Cristo. Da Igreja como um todo, pode ser dito, como Paulo disse de si mesmo: "Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim". Esta unidade entre o Senhor e seu Povo é essencial à vida e à natureza da Igreja.

Isto é verdade a respeito da Igreja em cada uma de suas formas terrenas. Quer a congregação adore na simplicidade de uma igrejinha de pau-a-pique e coberta de sapé, quer adore no esplendor de uma grande catedral de pedra mármore, é Igreja tão-somente na proporção de sua unidade em Cristo. Quando Inácio de Antioquia, mártir do segundo século, escreveu aquelas famosas palavras — "Onde Cristo está, aí está a Igreja universal" — simplesmente procurava interpretar a promessa que Jesus fez: "Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou no meio deles" (Mt 18.20).

Ao passo que unidade cristã é união entre o Senhor vivo e a Igreja na sua totalidade, é também união de pessoas crentes entre si. Esta é a outra única maneira de expressar os dois grandes mandamentos de Jesus — amar o Senhor Deus acima de todas as cousas, e o próximo como a si mesmo. Seria impossível protestar contra estes dois mandamentos. A maior parte dos povos está pronta a aceitá-los como preceitos ideais para a vida, seja ele cristão ou não seja. Contudo, como todos sabem pela própria experiência, é mais fácil aceitar um preceito que vivê-lo. O apóstolo Paulo expressou o sentido universal de frustração e derrota, quando afirmou: "O querer o bem está em mim, não, porém, o efetuá-lo" (Rm 7.18). Ele parece em desespero com medo de não poder cumprir a lei de Deus, contudo, noutra parte exulta: "Graças, porém, a Deus que em Cristo sempre nos conduz em triunfo" (II Co 2.14), "pois o amor de Cristo nos constrange" (II Co 5.14).

Paulo estava convencido de que havia poder divino operando dentro da comunidade cristã e dentro de cada um de seus membros em particular. Esse poder preserva o homem ou a mulher crente de ceder ao mal em desespero e os capacita a viver juntos em amor. Mesmo que os crentes sejam fracos e pecadores, e lutas se levantem dentro das igrejas locais, ainda assim Cristo permanece como Espírito vivo de amor dentro da comunidade. Sem a presença de Jesus Cristo, tanto o que ensina a vontade de Deus, como o que capacita o povo a obedecê-lo, seria a moral cristã impossível. Sem a presença dEle que ordenou aos discípulos e aos primeiros cristãos: — "Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei" (Jo 15.12), essa unidade interna da Igreja é impossível.

Várias imagens são usadas em o Novo Testamento para expressar essa unidade interna. Elas não descrevem estado ideal de paz e harmonia, pelo qual os cristãos devem lutar, mas em vez disso transmitem as boas novas de que Deus em Jesus Cristo atualmente tem feito alguma cousa que os capacita a gozar essa unidade.

Parede é símbolo de divisão. Aquela que aparentemente não pode ser ultrapassada, nem destruída e que separou judeus de gentios (ou simplesmente dos não-judeus). A atitude do judeu ortodoxo em relação a pessoas de outras nações, ou religiões, era tão rigorosamente exclusivista como a do brâmane hindu em referência a um varredor da mais baixa classe. Havia mesmo no pátio do templo de Jerusalém uma parede que impedia a todos os não-judeus de se achegarem ao lugar santo. As pedras dessa parede de separação eram como as numerosas leis religiosas que desfiguravam a pureza pessoal e a perfeição do ritual. Para a mente do judeu, essas leis foram firmemente colocadas por Deus mesmo como pedras e seladas com argamassa. Eles criam que era a vontade de Deus que absolutamente não tivessem contacto algum com o estrangeiro impuro.

Mas, qual foi a assombrosa mensagem cristã ao gentio desprezado e rejeitado? "Portanto, lembrai-vos de que outrora vós... estáveis sem Cristo separados da comunidade de Israel... mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue de Cristo. Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um; e, tendo derrubado a parede da separação que estava no meio, a inimizade... (Ef 2.11-14). E, que foi dito ao judeu exclusivista? Que Cristo realizou a obra de reconciliação, pois "aboliu na sua carne a lei dos mandamentos na forma de ordenança, para que dos dois criasse em si mesmo novo homem, fazendo a paz e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz" (Ef 2.15-16).

Em outras palavras, o testemunho do amor de Deus, em humilhação e morte de seu Filho Jesus Cristo, foi tão poderoso que rachou de alto a abaixo aquela barreira formidável que impedia a comunhão humana. Desse momento em diante o Povo escolhido de Deus já não estava mais circunscrito à nação judaica, mas a esse Povo podiam pertencer todos os homens e mulheres que em qualquer parte aceitassem o Evangelho e confessassem Jesus Cristo como Senhor. Pela morte de Cristo as barreiras de culto, classe, e raças terminaram. Há na comunidade cristã lugar para todos os que têm fé. Paulo declarou: "Dessarte não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus" (Gl 3.28).

O Novo Testamento muitas vezes declara que a Igreja na qual essa maravilhosa espécie de unidade pessoal é encontrada, é o "corpo de Cristo". Que significa isso? Não é preciso muita imaginação para compreender o significado do corpo como organismo físico em que cada simples órgão, ou parte, é dependente das outras, tanto quanto dependente da vida do corpo todo. A mútua dependência do olho, da mão, ou do pé, é o modelo do auxílio e sustento comum que cada cristão individualmente deve dar ao seu próximo. "De maneira que, se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, com ele todos se regozijam" (I Co 12.26). Este quadro pode ser muito simplesmente aplicado às relações pessoais dentro da comunidade cristã. Uma igreja sã, como um corpo são, é aquela na qual não há discórdia.

O ensino de Paulo perde a sua força para nós, contudo, se virmos em I Coríntios 12 mera lição objetiva que poderia ser aplicada indiferentemente à Igreja ou a qualquer sociedade humana. Paulo dá ênfase àquilo que Deus tem feito pelo seu Espírito para tornar possível essa unidade desejada. Pelo mesmo Espírito, Deus tem dado dons variados e talentos aos membros individuais da Igreja. Conhecendo as necessidades diversas e os temperamentos de suas criaturas, Deus tem dado a cada um certas habilidades que são úteis ao bem-estar de toda a comunidade. Alguns podem curar, outros profetizar, ainda outros podem falar línguas, ensinar, ou governar (I Co 12.28). Essas diferenças de dons do Espírito não são de forma alguma desculpas para dissensão e divisões na Igreja de forma alguma; pelo contrário, Deus deseja manter os crentes juntos e em unidade, pois cada um necessita do seu irmão. Para coroar todos os dons à disposição dos crentes, há ao alcance de todos e não de uns poucos, o próprio amor de Deus que "une todas as cousas e é o vínculo da perfeição" (Cl 3.14 e I Co 13).

Todo este ensino pode parecer bastante teórico para os que têm contemplado muita dissensão e amarguras na Igreja para serem impressionados com alguns pensamentos piedosos acerca da unidade. “Era fácil para Paulo escrever tais cousas, mas ele deveria ver o povo contencioso de minha igreja!”

Se houve homem que teve motivos para desesperar-se pela falta de paz e concórdia dentro da comunidade cristã, esse homem foi Paulo. Leia tudo o que ele escreveu à jovem igreja de Corinto! Cometeram pecados terríveis: inveja, discórdias, impurezas, porfias, idolatria, prostituição, bebedices e glutonarias, cousas que Paulo cita como os pecados dos crentes da igreja de Corinto. Poderíamos perguntar se alguma congregação já tem sido acusada desse viver anticristão. E mesmo assim, a esse mesmo povo, Paulo escreve: "Ora, vós sois corpo de Cristo; e, individualmente, membros desse corpo" (I Co 12.27). Certamente Paulo não era um teórico otimista. Ele conhecia o lado triste e vergonhoso da vida da igreja, e mais: ele conhecia a realidade da graça de Deus dada em Jesus Cristo aos homens. Ele recebeu com fé a revelação da vontade de Deus em relação à unidade de seu povo.

Assim os primeiros conversos em Jerusalém e Antioquia aprenderam acerca da unidade cristã, não pela discussão teórica, mas pela vida em conjunto. Aprenderam em primeiro lugar a verdade de que Jesus Cristo pôs por terra a parede de divisão hostil. As diferenças naturais e culturais entre os cristãos não poderiam impedir a ação do poderoso impulso de Cristo de os manter juntos em comunhão. Quando séria tensão se levantou entre eles por causa do rito judaico da circuncisão — e os que pregavam tal cousa se tornaram intoleráveis aos gentios — houve perigo de que a Igreja se dividisse em partidos ou "denominações", mas Pedro, Tiago e Paulo não permitiram que isso acontecesse.

Qual a causa dessa nova e estranha solidariedade? Dependia unicamente da lealdade comum deles ao Senhor Jesus? O poder coesivo dessa fé foi na verdade forte, porém mais forte foi o poder que surgiu, não somente da vontade dos homens, mas da presença de Deus como Espírito Santo. Os membros da Igreja primitiva "perseveravam... na comunhão" (Atos 2.42). A palavra aqui usada em o Novo Testamento é koinonia que é no grego é uma palavra rica de sentido e vigorosa. Do ensino geral do Novo Testamento, aprendemos que esta palavra, que tão bem descreve aquela qualidade de vida da Igreja, tem muitos significados. Refere-se ao direito comum de propriedade, bem como a co-participação de bens, como foi o caso da coleta para os cristãos pobres de Jerusalém. Significa também o benefício comum do Espírito Santo e participação dos seus dons. Ou descreve a participação dos crentes em Cristo na vida divina do Espírito Santo. Finalmente significa a participação pessoal comum no corpo e no sangue de Jesus Cristo no sacramento da Santa Comunhão, onde pão e vinho se tornam meios de graça divina.

Naqueles primeiros anos da Igreja, a comunhão dos cristãos foi ameaçada pelas tensões internas, e pela tentação de aderir a métodos e maneiras não-cristãos. Mesmo assim esses membros da Igreja neotestamentária deram testemunho da realidade experimentada da magnífica "vida-de-koinonia" em presença do poder do Espírito Santo. Quando as dissensões entre os irmãos pareciam ameaçar essa vida coletiva, o apóstolo Paulo podia confiantemente implorar que "preservassem a unidade do Espírito no vínculo da paz" (E£ 4.3).

Além disso, ele podia assegurar-lhes que o Corpo de Cristo, no qual eles compartilhavam sua vida comum, foi dádiva de união assegurada por propósito especial da parte de Deus. Assim como Cristo veio a este mundo e se identificou com os seres humanos para os reconciliar com Deus, também veio para "unir todas as cousas, tanto as do céu como as da terra" (Ef 1.10). Esta era a sua maneira concisa de escrever acerca do último propósito de Deus — "o mistério da sua vontade". Contra toda a força má do mundo que causa rebelião contra Deus e lutas viciosas entre os homens, o Criador do mundo luta. O ataque grave e decisivo de Deus contra os poderes do mal foi a vinda de Jesus Cristo ao mundo. A unidade da Igreja é um dos primeiros frutos da vitória de Cristo. Essa unidade é parte primária do plano de Deus. É marca necessária da Igreja que Deus introduziu no mundo para proclamar, e estender a obra reconciliadora de Cristo. A unidade da Igreja, pois, é tanto um sinal de unidade perfeita que está para vir no Reino de Deus, como meio pelo qual Deus o trará à consumação. A Igreja deve ser uma, se é que vai ser usada por Deus para unificar todo o mundo em Cristo.

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