IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 4/12/2007
 

Um só Senhor, uma só Igreja - Diversidade sadia e divisões infelizes na Igreja cristã (John Robert Nelson)

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DIVERSIDADE SADIA E DIVISÕES INFELIZES

(Esse texto corresponde ao segundo capítulo do livro "UM SÓ SENHOR, UMA SÓ IGREJA", publicado em português no ano de 1964 pelo Centro Cristão de Literatura da Confederação Evangélica do Brasil e publicado em dezembro de 2007 no site da Igreja Metodista de Vila Isabel, Rio, Brasil).

Enquanto não se entende o ensino bíblico a respeito da unidade da Igreja com Cristo e em Cristo, não se pode realmente ficar perturbado com o problema de divisões dentro da Igreja. Contudo, uma vez que se entenda quão essencial é a Igreja à grande obra de reconciliação de Deus em Jesus Cristo, ele experimentará dor e horror em face das divisões.

O problema é que crescemos tão acostumados ao mal que já nos tornamos insensíveis a ele. Em terras de miséria e fome uma pessoa pode perder muito de sua compaixão pelos destituídos da sorte e famintos e, contrariamente à sua consciência, passa a simplesmente aceitar essas cousas como parte do cenário natural. Soldados que, em casa, mostrariam simpatia por um homem ligeiramente aleijado, se tornam calejados no calor da batalha para com a selvajaria e o morticínio.

E a maior parte dos cristãos, por cuja unidade Jesus morreu, ficam indiferentes diante do espetáculo de lutas partidárias dentro das congregações, de igrejas separadas por diferenças raciais, ou diante da proximidade de igrejas de denominações opostas na mesma rua. Para tais seria quase sem significado algum, aquela oração familiar: "Dá-nos graça para que tomemos a sério o grande perigo em que estamos por causa de nossas tristes divisões...”. As divisões da Igreja são, contudo, perigosas e abomináveis aos que conhecem e vivem pela fé neotestamentária.

Não obstante, qualquer homem pode, com razão, ficar atrapalhado, considerando até que ponto é relevante o Novo Testamento para a Igreja do tempo presente. Afinal, todos estes séculos de história têm trazido grandes mudanças! Pode o mesmo princípio de unidade que aplicado às minúsculas congregações espalhadas pelo Império Romano ser considerado válido para a nossa própria presente estrutura de Igrejas que se espalham pela terra? Considere-se, por exemplo, este problema capital: quando os cristãos primitivos falavam de união e divisões, eles se referiam a relações entre indivíduos ou a pequenos grupos dentro da mesma igreja? Hoje temos de considerar grandes e distintas famílias de Igrejas, chamadas confissões ou comunhões, tais como: ortodoxos, romanos, anglicanos, luteranos, reformados, metodistas, batistas, congregacionais, pentecostais, etc. Que cousa confusa deveria ser tudo isto para os apóstolos! Em muitos países as igrejas destas famílias estão organizadas em denominações separadas, e cousa semelhante jamais foi conhecida ou antecipada no Novo Testamento.

É perfeitamente claro, de acordo com a Bíblia, que a Igreja existe apenas em dois níveis: há uma Igreja universal na terra e no céu, e uma congregação local que é ponto focal da Igreja. Fora disto não existe comunhões ou denominações como nós as conhecemos hoje. Assim, não estamos de forma alguma de acordo com o Novo Testamento, quando chamamos a esses corpos de Igreja Luterana, Igreja Metodista, ou Igreja Católica Romana. É precisamente a separação desses corpos em vilas, em cidades, em nações e no mundo, que constitui o problema da divisão. Mais uma vez devemos perguntar: "Qual é o ensino relevante do Novo Testamento neste particular? O Novo Testamento tem uma palavra definida para indicar denominação. O Novo Testamento refere-se ao termo negativamente e em julgamento. Questiona sobre o seu direito de existir separadamente como corpo dividido.

Primeiro, certamente estaremos em erro, se tentarmos justificar a nossa denominação, apelando para a Escritura Sagrada. Qualquer denominação que se queira dizer a única Noiva de Cristo, ou o Corpo de Cristo, está errada. Certo bispo anglicano recentemente citou as seguintes palavras: "Cristo amou a sua Igreja e a si mesmo se entregou por ela" (Ef 5.25), e observou: "Cristo não amou os anglicanos, ou os ortodoxos, ou os batistas, ele amou a Igreja". Assim sendo, nenhuma denominação pode batizar uma pessoa para si mesma, mas unicamente para a Igreja de Cristo. E batismo é assim um dos laços mais fortes de unidade entre todos os cristãos.

Muitas vezes os cristãos interpretam mal a Bíblia, quando aplicam à denominação o que a Bíblia diz a respeito do crente individualmente. Consideremos, por exemplo, a parábola da videira e os ramos (Jo 15). Jesus claramente fala de seus discípulos como os ramos, mas muitas pessoas erradamente pensam das várias denominações como ramos necessários da Igreja. Da mesma forma quando Jesus ora: "que todos sejam um", ele está intercedendo junto a Deus pela unidade de seus seguidores. O pronome pessoal "eles" aqui não se refere às denominações que ele deseja se unam. Tentação semelhante temos com referência ao discurso de Paulo sobre a diversidade dos dons do Espírito (I Co 12). Alguns cristãos dizem que as deferentes denominações são necessárias porque incorporam essa diversidade de dons espirituais que são dados por Deus à Igreja na sua totalidade. Mas tal interpretação é maneira arbitrária e ilícita de usar a Bíblia para defender uma idéia não-bíblica.

Segundo, o Novo Testamento faz supor que denominacionalismo é contrário à verdadeira natureza da unidade da Igreja. Os grupos que no tempo dos apóstolos mais se assemelhavam às denominações, tanto quanto sabemos, eram os três partidos na igreja de Corinto, que diziam pertencer a Paulo, a Apolo e a Cefas (I Co 1.12). Comparar esses pequenos grupos aos grandes, bem organizados e auto-suficientes dos nossos dias, não é de justiça. No entanto, o ataque do Apóstolo contra tal espírito de divisão na Igreja antiga, pode ser de igual modo dirigido contra o presente denominacionalismo. "Está Cristo dividido?", eis uma pergunta crítica, porque se Cristo estivesse dividido de alguma forma, a Igreja também estaria. Mas Cristo é um e indivisível, como deve ser a Igreja. Qual a causa de tais divisões? Paulo responde: "Sois carnais", com disposição pecaminosa, e esqueceis que estais vivendo "em Cristo" para atuar e "andar segundo o homem" (I Co 3.3-4).

Quando um cristão sincero começa a ponderar sobre a questão de divisões, sua primeira conclusão pode ser que seria melhor para a Igreja sofrer por causa das divisões do que ser em todos os lugares da mesma exata uniformidade. Em muitas áreas do mundo, temos presenciado o crescimento do estado e sociedade totalitárias. A ditadura não pode funcionar sem o indisputável poder de formar os homens de acordo com a vontade estatal. Muitos desses que são obrigados a conformar-se, aprendem pela primeira vez quão precioso é o privilégio da liberdade.

Pois bem, há grande medo entre os cristãos de que a unidade da Igreja deva depender da supressão da liberdade e da imposição de um rígido padrão uniforme de doutrina, culto, governo e disciplina moral. Aqueles que tal cousa temem, vêem unicamente duas alternativas para a Igreja: divisão ou uniformidade. Duas cousas podem ser ditas para afastar esse temor: primeiro, não há Igreja, ou denominação, nem mesmo a Católica Romana, que no presente, imponha completa uniformidade sobre seus membros. Alem disso, nenhum líder responsável da igreja advogaria a união como uniformidade completa, mas como um mal que deveria ser evitado. Isto tem sido dito com ênfase repetidamente por quase todos tais líderes.

Segundo, distinção clara deve ser feita entre "diversidade" ou "diferença" por um lado, e "divisão" por outro. Que há divisões entre as Igrejas é fato que deve ser deplorado, mas diversidade e diferença entre as Igrejas é sinal de saúde e força. Muitos cometem o erro de deplorar as "diferenças" entre as Igrejas, como se elas fossem mesmo que divisão.

Saudamos as diversidades e diferenças justamente porque Deus criou todos os homens como indivíduos e não como moedas cunhadas pela máquina. Alguns nascem em climas quentes, outros em frios. Nascemos como membros de muitas diferentes raças e nações e desde a infância aprendemos uma das centenas de línguas distintas existentes. Alguns são rigorosamente controlados pela ordem, noção de moderação e pontualidade, enquanto outros são naturalmente casuais e emocionais, guiados mais pelo sentimento do que pela razão. Nossos gostos em música e artes são diferentes; assim como nossos sistemas de educação. Portanto, nossa maneira de pensar também é diferente; nossa opinião quanto à atitudes se elas são de polidez, ou rudes, diferem de acordo com a nossa cultura. Em outras palavras, a própria diversidade da espécie humana torna inevitável que tão grande corpo como é a Igreja tenha de forçosamente refletir estas diversidades de numerosas maneiras. A fé cristã é tão compreensiva e universalmente válida que pode abarcar todas as diversidades dadas por Deus sem alienar a pessoa do seu próprio país ou violentar a unidade da Igreja.

Que dizer acerca da liberdade de pensamento e de crença? Tal Igreja tão completamente unida em referência a credo e sistema doutrinário, não sufocaria qualquer desvio de pensamento em ensino e predica? É pergunta que preocupa seriamente muitos de nós quando pensamos em unidade. Esse temor tem algum fundamento. Há os que se opõem na verdade ao movimento em favor da união da Igreja precisamente por oposta razão. Eles supõem que os padrões de fé numa Igreja unida seriam tão vagos e indefinidos que qualquer espécie de falso ensino poderia ser tolerado. No primeiro caso, o temor seria por parte dos que dão valor muito elevado à completa liberdade de pensamento na Igreja; no segundo, o temor seria por parte dos que não apreciam o seu valor. Uns de um extremo gostariam que se abolissem todos os credos e confissões como invenção do homem para escravizar as mentes. Os do lado oposto olham seus credos e confissões como sendo virtualmente de autoridade divina.

Haverá maneira de se evitarem os dois opostos? Sim, há o caminho de legítima diversidade dentro da unidade de crença e tal diversidade já está lá em muito maior extensão do que muita gente pensa. Dentro daquelas igrejas que não requerem adesão formal a um credo, ou declaração de fé, não obstante, há um consenso muito elevado naquelas cousas essenciais da fé sem as quais o cristianismo perderia seu caráter distintivo. Esses elementos essenciais incluem a crença em Deus, o Pai, Filho e Espírito Santo; salvação pela morte e ressurreição de Jesus Cristo; autoridade e suficiência da Bíblia. Por outro lado, naquelas igrejas em que dão grande importância à aceitação completa de certos credos e confissões há muito menos concordância atual do que se poderia esperar. No primeiro caso, a liberdade na Igreja não levou à indisciplinada anarquia de crença e nos outros casos a autoridade não destruiu a liberdade. Dentro do quadro de cousas essenciais da fé cristã há lugar para diversidade de pensamento e convicções. Verdadeira unidade não será conquistada através de compromissos negligentes com a verdade do Evangelho, nem virá através de imposição de um sistema dogmático compreensivo. Esta é uma aplicação do testemunho de Paulo que devemos trazer tudo em “cativeiro para Cristo”, mas só ele nos liberta.

O mesmo poderia ser dito acerca do culto cristão. Quando se viaja de um país para outro e muitas diferentes igrejas são visitadas, a pessoa admira-se de ver numerosas variantes em liturgias, hinos, posturas físicas, costumes e idéias fundamentais que são incluídas no culto cristão. Um ortodoxo num culto reformado, pensaria estar assistindo à função acadêmica; um batista participando de uma liturgia da Igreja Mar Thoma (por influência dos Anglicanos uma parcela da Igreja Malankar formada pelos Sirianos e Jacobitas, funda a Igreja Mar Thoma, com eclesiologia ortodoxa e soteriologia protestante) pensaria à primeira vista estar sendo testemunha de ritos supersticiosos; um anglicano em igreja de vila africana, ou mesmo no Sul dos Estados Unidos sentir-se-ia chocado por aquilo que ele considera emoção excessiva, e "mau gosto". Porém, o cristão da vila sentir-se-ia enfadado pela dignidade e o "bom gosto" do culto em igreja na cidade.

Diferenças extremas em formas de culto são encontradas dentro da mesma denominação sem romper a unidade de que gozam. Não há numa só Igreja lugar para larga e variada prática em adoração a Deus? Por baixo de todas as formas exteriores de ritual e movimento que distingue uma forma de culto cristão de outra, há certo fundamento comum que é de caráter cristão único e evidente. Esse fundamento é alicerçado com elementos universalmente reconhecidos, tais como: leitura bíblica, pregação, Santa Ceia, oração, cânticos de louvor em nome de Jesus Cristo.

Há ainda outra classe de diversidade entre e dentro das Igrejas — a matéria de julgamento ético e moral. Sem dúvida que definir com precisão que espécie de comportamento é cristão e qual não é, vem a ser tarefa mui precária. Obviamente todos estão de acordo com os Dez Mandamentos e com o mandamento de amor. Mas quanta concordância há sobre os seguintes problemas: pode um cristão servir o exército? Divorciar-se, ou casar com pessoa já divorciada? Beber, ou fumar? Aceitar auxílio financeiro do governo? Alguns nem cogitaram destes assuntos, mas outros tratariam deles com a máxima gravidade e importância. Estas cousas são diversidades legítimas, ou causas válidas para divisão dentro da Igreja?

O catálogo de prática e ensino diferentes a respeito do assunto poderia ser grandemente ampliado. Mas o que se disse é suficiente para mostrar que existe muitíssima variedade dentro da Igreja e das comunhões e pouco perigo há atualmente de que a Igreja visível se torne tão uniforme como temem alguns cristãos.

Se essas tantas diversidades na Igreja são toleradas e até desejadas para o bem-estar da Igreja, haveria alguma razão para que se levantassem divisões afinal? Idealmente falando, a resposta é não. Contudo, divisões às vintenas simplesmente aconteceram e devemos tentar entender as suas causas.

Certamente que faríamos injustiça aos fatos da história se declarássemos que todas as divisões, sendo más, tiveram origem simplesmente em espírito sectário e em injustificável confiança própria de um grupo, ou Igreja, julgando-se depositária única da verdade do Evangelho. No caso de alguns grupos assim é, mas não em todos. Muitas divisões se têm dado por causa do trabalho heróico e do testemunho profético de pessoas que desejaram unicamente servir com humildade ao Evangelho e introduzir na Igreja reformas de acordo com esse mesmo Evangelho. O que eles asseguraram ser a fidelidade deles ao Senhor, mostra que seria impossível agir de outra forma. "Aqui estou eu", declara Martinho Lutero, sabendo que a sua firme posição o levaria a ser excluído por parte da Igreja de Roma. Retirar as acusações que fizera contra as corrupções da Igreja de Roma só para preservar a sua unidade, seria para ele ato de traição a Deus. Tão pouco poderia João Calvino em Genebra, ou Thomas Crammer na Ingla­terra voltar atrás nos protestos que cada um fizera em nome do Evangelho. Não poderia Roger Williams, no século XVII, nos Estados Unidos da América, vender sua fé por amor da unidade de uma Igreja puritana intolerante. Nem João Wesley sentiu-se dirigido pelo Espírito Santo a deixar seus milhares de fiéis seguidores sem ministros, para permanecer obediente às regras da Igreja da Inglaterra (Anglicana). Todos eles estavam convencidos, com base bíblica, de que os princípios pelos quais lutavam, eram indispensáveis ao bem-estar da Igreja.

Nesse mesmo espírito de convicção, hoje, muitos fiéis cristãos crêem que não podem restaurar as divisões da história, unindo as igrejas, na base de compromissos fáceis. Os ortodoxos vêem a tradição e o ensino da sua Igreja; os anglicanos vêem o ministério e os sacramentos; os luteranos e calvinistas vêem a sua confissão de fé; os batistas insistem no batismo por imersão e somente de adultos; vendo todos nesses elementos distintivos, cousas que os identificam e que são elementos fundamentais ao próprio cristianismo que não podem negociar em nome da unidade. A unidade nunca deve ser buscada em detrimento da verdade cristã, como se a unidade fosse mais importante que a verdade. Cristo que é a verdade é também aquele em quem está a unidade.

Haverá qualquer possibilidade de escaparmos desta situação perplexa em que membros de certas igrejas vivem torturados entre o ardente desejo de ser um com os seus demais irmãos e a inabilidade de alcançar essa visível união, sem perder aquilo que crêem ser verdades divinamente outorgadas? Este é precisamente o dilema em que os cristãos se encontram hoje, e não há resposta fácil de ser encontrada. Esta é a razão porque o movimento das Igrejas para uma unidade visível requer muita paciência, sabedoria, amor e sofrimento, como muito bem diz certo relatório de uma conferência do Conselho Mundial de Igrejas: "Estamos em situação em que somos incapazes de renunciar às cousas que nos dividem, porque cremos que a obediência a Deus mesmo nos compele a permanecer firmes. E este é o ponto a que chegamos, juntos para implorar misericórdia e luz. Aquilo que cremos ser a nossa lealdade deve trazer-nos juntos ao pé da Cruz". [1]

Que devemos dizer então a respeito de diversidades e diferenças entre as Igrejas, que não atingem as partes essenciais do Evangelho? Tais diferenças, que representam variações naturais e padrões culturais nas disposições humanas, deveriam simplesmente demonstrar as riquezas da Igreja e o poder de Jesus Cristo em ajuntar a si, em comunhão, homens de toda a sorte e condições.

O que acontece muitas vezes é que grupos de cristãos se agarram a uma diversidade particular de doutrina, de culto ou de julgamento ético e a transformam em princípio de exclusão. Clamam que qualquer outra pessoa que não possa concordar com eles naquele ponto, não mais podem ter comunhão no seu meio. Em conseqüência disso fazem dessa peculiaridade um ídolo e o adoram. Dizem ao mundo que Cristo realmente deu unidade à Igreja; contudo essa unidade só é encontrada onde há acordo entre si. Julgam-se, portanto, os únicos fiéis e verdadeiros cristãos. A essência deste espírito divisionista é chamado sectarismo.

Haverá alguma possibilidade de traçar-se distinção entre divisões causadas por se idolatrarem certas diversidades, tidas como absolutas, e divisões que foram resultantes de genuíno desejo de ser fiel à vontade de Deus? Tal pergunta nos leva ao ponto fundamental do problema e explícita da Igreja onde matéria de verdade e falsidade estão envolvidas? Naturalmente a Bíblia, responderemos. Sim, a Bíblia, mas interpretada de que forma? Pelo testemunho interno do Espírito Santo? Pela fé e razão? Pelo poder didático da Igreja? O fato simples e muitas vezes acabrunhante é que não há unanimidade mesmo entre aqueles que têm a mais elevada crença na Bíblia como a revelação da Palavra de Deus. É na verdade presunção, se não cousa muito perigosa, chegar a um grupo à conclusão de que conhece a vontade de Deus em todos os pormenores exatos. Sem embargo, esta é a suposição daqueles que estão convencidos de que só eles, dentre todos e todas as congregações que professam a fé em Jesus, têm e detém a verdade.

Por exemplo, há grupos de cristãos que asseguram que a Igreja só pode ser verdadeira à vontade de Deus se for independente do Estado; outros insistem sobre um e unicamente um ponto de vista da Bíblia e sua autoridade; ainda outros pretendem ter restaurado à perfeição a organização do Novo Testamento; há os que excluem aqueles que discordam no tocante à imoralidade do fumo ou da bebida; bem como há os que acreditam que o batismo deve ser praticado de um só modo — por total imersão em água. Se tais razões podem justificar a divisão da Igreja é cousa que deve ser decidida depois de uma resposta afirmativa segura dada à pergunta: Dá-lhes a Bíblia, a eles, completo e firme apoio?

A espécie de divisão que nos inquieta não é, portanto, meras variantes encontradas no culto, na predica e na prática. Estamos pensando naqueles cismas dentro de uma grande Igreja, que separam cristãos em denominações, confissões ou comunhões opostas, algumas vezes hostis. Por exemplo, no que diz respeito a relações mútuas, luteranos, batistas e anglicanos estão radicalmente divididos. Só em raras instâncias aos membros de uma destas confissões se permite participar na Ceia do Senhor em uma igreja de uma das três confissões. Sempre que há igrejas na mesma vila ou cidade, há poucos sinais externos de que seus membros tenham qualquer elo de unidade em Jesus Cristo. Admitindo-se certa exceção, pode dizer-se em geral e com verdade que em sua existência como corpos eclesiásticos, quer local, nacional ou mundial, elas estão interessadas exclusivamente no bem-estar de seu povo e no de suas instituições. O mesmo pode ser dito de outras denominações. Isto é divisão no mais profundo e pior sentido, quando cristãos na mesma localidade dizem: "Nós não temos necessidade de vós que estais em outra igreja". É quase melhor viver em tensão e conflito entre cristãos do que tal fria indiferença, porque em conflito pelo menos há encontro pessoal.

Contudo há exceções e algumas muito importantes que demonstram que a unidade do povo de Deus pode ser obscurecida, mas não destruída. Muitas vezes acontece que, a despeito de barreiras oficiais de doutrina e regras eclesiásticas que os separam, cristãos de diferentes Igrejas vivem mais perto uns dos outros do que dos membros da sua própria Igreja. Linhas de acordo e propósitos comuns cortam as barreiras confessionais. Muitas vezes acordos surpreendentes são encontrados no reino do pensamento religioso e de opinião. Na maioria das vezes pouco tem que ver com a teologia. Lealdades comuns provocadas pela cultura, nacionalidade, classe social, língua, e cidadania local podem fazer mais para unir cristãos em uma comunhão do que os laços da tradição denominacional, doutrina ou ordem.

A menção feita a fatores culturais e sociais que podem cortar as barreiras denominacionais faz-nos lembrar que tais fatores também foram causas para provocar divisões na igreja do passado, divisões que se perpetuam até nossos dias. O problema é que os cristãos gostam de pensar que qualquer divisão em que suas próprias Igrejas tomaram parte, ou de que suas igrejas se retiraram, eram inteiramente de natureza doutrinária. Teologia é mais respeitável na Igreja do que sociologia ou economia. É preferível dizer que certas denominações vieram a existir para conservar a pureza do Evangelho a admitir que foi por causa de forte sentido nacionalístico. Mas isso não explica a razão por que Igrejas com nomes de países europeus ainda sejam encontradas nos Estados Unidos, África e Ásia. O dinheiro também representa alguma cousa. Em algumas regiões, até recentemente olhadas como "campos missionários", uniões são procuradas pelas igrejas. Algumas igrejas, parece, satisfazem à consciência se certos argumentos doutrinários contra a união podem ser levantados de maneira a simular o receio de que receberiam menos recursos financeiros dos boards (juntas, departamento) missionários depois da união. Se a verdadeira história da Igreja for lida com cuidado ver-se-á que muitas vezes as divisões foram causadas, não somente por disputa a respeito da verdade, mas também pela dissensão entre bispos na luta pelo poder pessoal, pela fricção entre cristãos de diferentes nacionalidades, pela luta na possessão de propriedade, ou por domínio de nações, pela afirmação de superioridade de membros de uma raça sobre outra, por interesse de pequenos grupos e fatores semelhantes, e não por legítimas questões bíblicas, teológicas e doutrinárias.

A questão crucial hoje é: que pensam os cristãos realmente acerca das divisões da Igreja? Aceitam alegremente como fato consumado e negam o mal de tais divisões dizendo simplesmente que a "unidade do Espírito" é suficiente, ou não fazem mais do que admitir com indiferença que divisão é cousa má e que a unidade seria "cousa boa de se ter", muito embora nesse caso há pouca esperança de que esforços previdentes dos profetas da unidade cristã produzam frutos. Porém, se os cristãos olham as divisões como pecado que retarda a obra de Deus em Cristo para reconciliação dos homens entre si e com o próprio Deus, então terão razão forte para lutar contra tudo o que divide a Igreja em muitos partidos.

Dizer que divisão é resultado de pecado não é a mesma cousa que acusar todas as pessoas que tomaram parte em atos de divisão de serem astuciosos pecadores. Como temos visto, quase todos os homens que estiveram envolvidos na criação de novos movimentos que se transformaram em denominações, lutavam pela verdade e pela pureza do Evangelho. Eles desejaram, não divisão, mas reforma interna e aborreciam as divisões. Há mais de 1500 anos passados o grande patriarca e pregador João Crisós­tomo de Constantinopla angustiava-se por causa das lutas partidárias e das intrigas políticas na Igreja e, pregando sobre Efésios 4.16, declarou: "Nada tem conseguido dividir a Igreja com tanto bom êxito como o amor ao mando (ao poder). Nada tem provocado tanto a ira de Deus como as divisões da Igreja". Quando consideramos outros terríveis pecados que provocam a ira de Deus — idolatria, adultério, assassínio — compreendemos que João Crisóstomo não estava exagerando. Ele dava significado literal às suas palavras. Nada provoca a ira em Deus como as divisões. Por quê? Porque a Igreja é o instrumento criado por Deus para estender a salvação operada em Jesus Cristo a todas as gerações em todo o mundo. Divisões impedem e anulam o propósito salvador de Deus.

Assim, no século presente o movimento em favor da unidade da Igreja tem sido motivado, por um lado, pelo horror ao pecado de divisão, por outro, pela aspiração de uma unidade abençoada. Esta foi a nota que soou na primeira Conferência sobre Fé e Ordem, em Lausanne, em 1927. Peter Ainslie, da Igreja dos Discípulos de Cristo, declarou nessa ocasião: "Visto que a Igreja é uma fraternidade, divisão é pecado. Clamar que esta ou aquela é a Igreja e que as outras são seitas, cismáticos, denominações é jogar com palavras de modo a esquivar-se do arrependimento". Palavras fortes, mas necessárias se é que os cristãos devem ser trazidos ao conhecimento da pecaminosidade das divisões e da necessidade de arrependimento e a cura pela misericórdia e poder de Deus.

Mais recentemente, o pecado da divisão tem sido interpretado à luz da obrigação missionária da Igreja. É dever da Igreja na terra proclamar o Evangelho, mas o Evangelho não é meramente promessa da salvação de pessoas individualmente. Fala da reconciliação dessas pessoas com as outras na comunidade dos fiéis. Pela morte e ressurreição de Jesus Cristo essas pessoas foram reconciliadas umas com as outras. Esta é precisamente a mensagem que os não-cristãos dos nossos dias precisam ouvir e crer: que Deus em Cristo venceu as inimizades e hostilidades entre os homens.

Mas vem a Igreja e anuncia a reconciliação em Cristo, mas os não-cristãos, vendo quão pouca evidência há de reconciliação entre os próprios cristãos, ficam confusos, ou divertem-se, dependendo da seriedade ou do ceticismo com que tomam a mensagem cristã.

Este grave assunto foi objeto de cuidadosa ponderação por parte da 2.a Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas: "As divisões são pecaminosas porque tornam obscura aos homens a suficiência da expiação de Cristo, tanto quanto nega o Evangelho de reconciliação nas próprias vidas dos que o anunciam".

Comentando esta idéia, disse o Bispo Newbegin, da Igreja do Sul da Índia: "Ninguém que se tenha esforçado na tarefa de levar Cristo aos de outras crenças, pode escapar à vergonha daquela declaração... Dizer que a Igreja deve ser uma de modo que o mundo possa crer, é convocar uns e outros a voltarem à fonte da Igreja que está em Cristo e quando permitimos ao Cristo vivo realizar o seu trabalho expiatório em nós (quebrar as nossas divisões e unir-nos uns aos outros) recebemos por causa disto novo poder para sair e ir ao mundo convidar todos os homens a compartilhar a expiação que é para todos". [2]


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[1] Relatório Fé e Ordem — Evanston, 1954

[2] The Household of God (Londres), 1953, p. 150

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