IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 5/12/2007
 

Um só Senhor, uma só Igreja - Divisões e Uniões na História da Igreja (John Robert Nelson)

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DIVISÕES E UNIÕES NA HISTÓRIA DA IGREJA
(Esse texto corresponde ao terceiro capítulo do livro "UM SÓ SENHOR, UMA SÓ IGREJA", publicado em português no ano de 1964 pelo Centro Cristão de Literatura da Confederação Evangélica do Brasil e publicado em dezembro de 2007 no site da Igreja Metodista de Vila Isabel, Rio, Brasil).

"As vergonhosas brigas dos cristãos divididos", assinalou o cético filósofo francês, Voltaire, "sob o pretexto religioso, têm causado mais dano, mais paixão nociva e derramado mais sangue humano do que todas as lutas políticas que têm assolado França e Alemanha sob o pretexto de manter o equilíbrio da Europa". Com grande tristeza e vergonha, devemos admitir que há muito de verdade nessas asseverações.

Já se disse muitas vezes que a longa história da Igreja tem sido simplesmente uma triste história de cismas. A história da Igreja tem sido ensinada como se isto representasse toda a verdade. Contudo, há maneira igualmente válida, mas oposta, de olhar esta história complexa — como luta contínua de cristãos fiéis para restaurar e preservar a unidade da Igreja. Nós estamos ouvindo muito a respeito do movimento em favor da união no tempo presente, mas o fato é que este movimento teve sua origem no tempo do Novo Testamento.

Já vimos que a divisão entrou no seio dos seguidores de Jesus logo no começo. Mesmo os discípulos disputavam na presença de Jesus acerca de quem seria o maior entre eles. Depois que a Igreja Cristã foi batizada com o Espírito e inaugurada no Pentecostes, classes diversas de crentes se alinharam em grupos e partidos. Não houve divisões abertas, nem denominações se formaram, mas podemos ler nas entrelinhas do livro de Atos dos Apóstolos e nas cartas de Paulo, e ver que a razão por que há forte insistência no lato de que unidade é bênção dada por Deus, se baseava na ameaça de divisões que deviam ser combatidas.

No primeiro século nuvens de heresias, que ameaçavam sufocar a Igreja, já se ajuntavam. Houve um movimento religioso conhecido como gnosticismo que negava ser Deus o criador do mundo e Jesus Cristo, o Verbo de Deus feito carne. Além disto, enfraquecia o conceito bíblico de pecado e transformava a salvação em esquema fantástico sem qualquer relação com a cruz de Cristo. Foi movimento corruptor de grandes proporções e perigo terrível para a verdade e unidade da Igreja. Em três processos de primacial importância, a Igreja reagiu efetivamente no sentido de esclarecer a sua doutrina e de defender a sua unidade. A Igreja definiu o cânon da Bíblia e submeteu-se à sua autoridade, fixou os elementos essenciais da fé incorporados naquilo que hoje conhecemos como o "Credo dos Apóstolos", como base para profissão de fé à hora do batismo, e regularizou também a estrutura episcopal do ministério.

Esta não foi a única força decisiva naquele período, que recebeu o nome otimista, mas inexato de "tempo da Igreja indivisa".

Do século II em diante houve muitos conflitos e movimentos de divisão no cristianismo. No quarto século a Igreja experimentou a sua maior tensão interna sobre a questão da verdadeira interpretação da pessoa de Jesus Cristo. Os seguidores de vários líderes teológicos formavam partidos separados. O problema muito simples de ser proposto, mas nem sempre de fácil resposta foi: de que forma pode Jesus Cristo ser tanto Deus como homem? Isso não foi questão de especulação casual, mas foi e é de fundamental importância para a fé cristã[1]. Como podia a unidade da Igreja ser assegurada em face destas tentações fortes?

Tomou a iniciativa o Imperador Constantino que há pouco havia feito do cristianismo religião favorecida do império romano. Ele desejava que o cristianismo, com sua doutrina de unidade em Cristo, cimentasse o império, mas em vez disso, achou-se na situação de andar tentando remendar as fendas na estrutura da Igreja. Para a cidade de Nicéia (situada agora na Turquia), em 325, Constantino convocou os bispos para grande Concilio. Aparecendo perante os bispos, como pessoa que os convocara, declarou em palavras imaginadas pela dramatista moderna, Dorothy Sayers: "Para mim, vosso servo, qualquer dissensão dentro da Igreja representa algo tão temível como a guerra e, talvez, mais difícil de ser liquidada". Mesmo assim, este primeiro Concilio Ecumênico não foi capaz de terminar com as dissensões, tendo contudo fixado o padrão pelo qual agora é universalmente aceito como a doutrina cristã da pessoa de Cristo e que foi incorporada no que conhecemos como o Credo Niceno.

Lá pelo ano de 787, nada menos de sete grandes Concílios já tinham sido convocados, não somente para clarificar matéria de doutrina e disciplina, mas também manifestar e preservar a unidade da Igreja contra as divisões. Os historiadores não estão todos de acordo quando consideram o problema da representação a esses Concílios, sobre se eram verdadeiramente representativos e ainda sobre o ponto de quão efetivamente conseguiram conservar a unidade. Do nosso moderno ponto de vista, pode-se ver que eles estavam preocupados tanto em descrever os erros de seus inimigos, como em definir a verdade do Evangelho. A terrível palavra "Anátema", significando amaldiçoado ou excomungado, foi veementemente usada contra numerosos declarados inimigos da fé. Porém, a despeito destas decisões negativas, é significativo notar que as definições doutrinárias destes concílios contribuíram muito para dar forma à fé e à prática cristãs.

Foi durante estes séculos que a tensão aumentou entre a Ortodoxia oriental e o catolicismo ocidental. As causas dessas tensões eram problemas teológicos, política, costumes e personalidades, cousas muito complexas para serem analisadas aqui. Iam desde disputas insignificantes, como o beber leite, ou produtos de leite, durante a quaresma até a questões se o Espírito Santo procedia do Pai e do Filho, ou do Pai unicamente; discutia-se acerca do uso de ikons (quadros sagrados) e imagens em devoções cristãs até à tensão política entre Roma e Constantinopla; desde o clamor de Roma quanto ao poderio papal ao poder ecle­siástico absoluto. Em 1054 o papa excomungou a Igreja Oriental, mais tarde o cisma tornou terrivelmente real ao povo, quando os cruzados, nominalmente cristãos do Oeste, dizimaram seus irmãos orientais na batalha de Constantinopla em 1204.

A consciência cristã mais uma vez foi vergonhosamente ofendida por tal horrível divisão, e tentativas foram feitas para reconciliar os dois partidos. O Concilio de Lião, na França, efetuou-se em 1274 e por algum tempo parecia que a união havia sido restaurada. Mas desgraçadamente os fundamentos do acordo não foram cuidadosamente estabelecidos. Os delegados voltaram para casa para encontrar a rejeição completa dos termos com os quais em Lião haviam concordado, mas que incluía submissão à Roma e ao papa. Uma segunda tentativa foi feita em Ferrara, na Itália, em 1438 e em Florença, no mesmo país, em 1439, contudo também estas duas tentativas falharam. Assim que até o dia de hoje essa grande brecha ainda não foi reparada.

Neste meio tempo a própria unidade católico-romana foi enfraquecida pelos advogados, rivais do papado ou dos Concílios como autoridade suprema da Igreja. De fato pelo espaço de quase quarenta anos dois papas governaram ao mesmo tempo: um em Roma e outro em Avinhão na França, clamando cada um respectivamente ter direitos legais. O Concílio de Constança, na Suíça, em 1415 acabou com o assim chamado "cativeiro babilônico" da Igreja. O mesmo Concilio sentenciou João Huss da Boêmia, um dos primeiros reformadores, que antecipou a Reforma em mais de um século, a ser queimado vivo.

A Reforma do século XVI marcou o começo da nova era da Igreja Cristã. Infelizmente, mas sem qualquer possibilidade de se evitar, tal era começou com uma "reação em cadeia" de divisões dentro da Igreja. Pelo menos dez grandes denominações tiveram sua origem na Reforma.

Católicos romanos geralmente crêem que a Reforma só teve um significado: Cisma e até heresias. Mas, como já temos visto, os reformadores consideraram unidade como cousa preciosa, deplorando as divisões. Sabiam, porém, que tal unidade externa e institucional seria de pequeno valor uma vez que os líderes daquela instituição eclesiástica na época impediam a pregação do Evangelho, proibiam a leitura da Bíblia e fechavam os olhos aos pecados grosseiros do clero.

Nunca se deve afirmar que os cristãos do século XVI estavam satisfeitos e contentes com as divisões, ou que não se preocupassem com novas divisões. O desejo deles de restaurar a unidade imediatamente, na base de reforma verdadeira da Igreja, manifestou-se nas freqüentes tentativas que foram feitas para curar a separação. O maior sábio (scholar) do tempo, Erasmo de Roterdam, lutou pela reconciliação através de sua influência sobre os intelectuais da Igreja. "Nós já tivemos bastantes lutas", escreveu ele, "talvez uma exaustão absoluta possa unir-nos novamente em concórdia". Mas Erasmo falhou em entender a profundidade das divisões doutrinárias.

Na medida em que os luteranos se espalhavam pela Europa, negociações eram realizadas na esperança de restaurar acordo e unidade. Em Ratisbone (Regensburg, na Alemanha), em 1541 os principais pensadores protestantes como Calvino, Bucer e Melanchton tentaram concordar com representantes do catolicismo romano sobre o significado de tais questões como a justificação pela fé, Santa Ceia e missa, e o papado. Mas tais acordos simplesmente não poderiam ser alcançados. A Igreja bem como as nações estavam naqueles dias sendo sacudidas até os seus fundamentos pela Reforma que se espalhava. Parecia haver muito pouca esperança de reconciliação. Foi quando a Igreja Romana convocou os seus dirigentes de toda a Europa para reunir-se na cidade de Trento, Itália, em 1545. Aqui começou a contra-Reforma. Os dogmas da Igreja de Roma foram definidos de tal maneira que os princípios sobre os quais o protestantismo se assentava foram totalmente excluídos. Mesmo hoje tais definições doutrinárias, base determinante do ensino católico-romano, constituem as barreiras principais para a reconciliação com os protestantes. A posição oficial da Igreja com respeito à união dos dois grupos é a de que todos os não-católicos devem submeter-se à autoridade papal e aceitar os dogmas da Igreja Católica Romana.

Tão difícil quanto restaurar a unidade com a Igreja Romana foi a tarefa de efetuar a união entre os próprios protestantes. Pela metade do século XVI havia três blocos de Igrejas Protestantes continentais: Luterana, Zwingliana e Calvinista. Além destas, havia ainda o movimento Anabatista, que insistia somente no batismo de adultos crentes, separação completa do Estado e o pacifismo. Os líderes destes três grandes grupos procuraram acordo entre si. O ponto sobre o qual eles concordaram mais prontamente foi que os anabatistas e "pestes" semelhantes como os chamava Lutero, deviam ser perseguidos e extintos. A despeito de algum progresso eles desgraçadamente falharam no primeiro esforço e felizmente falharam no segundo.

O primeiro esforço para unir as forças das Igrejas Protestantes foi realizado em Marburg, na Alemanha, em 1529, quando Lutero se encontrou com Huldrich Zwinglio de Zurich juntamente com outros colegas. Estava presente também Martinho Bucer, de Strasburgo, muito justamente chamado "o mais zeloso expoente do ideal de união de Igrejas na sua época". Implicações políticas tanto quanto teológicas estavam na agenda quando estes alemães e suíços se encontraram. Muita concordância foi assegurada de início, mas quando chegaram ao problema da presença real de Jesus Cristo na Ceia do Senhor, Zwinglio e Lutero discordaram. Lutero acreditava que as palavras de Jesus "Isto é o meu Corpo", deveriam ser tomadas literalmente como aplicadas ao pão, ao passo que Zwinglio afirmava querer Jesus dizer "Isto significa o meu Corpo". O desacordo foi tão profundo e juntamente com seus pontos de vista opostos a respeito de táticas políticas no avanço da Reforma que eles se apartaram um do outro, tendo Lutero proferido estas trágicas palavras: "Vós sois de espírito diferente de nós".

Em atmosfera mais agradável, um acordo sobre a Ceia do Senhor foi alcançado em Wittemberg, em 1536 por Martinho Bucer e Melanchton. Nessa altura Bucer achou que não podia sustentar o acordo do sucessor de Zwinglio, Bullinger, na Suíça. A "Concordância de Wit­temberg" permaneceu não obstante, como força ponderável para estabelecer a união.

João Calvino que estava liderando frutiferamente a Reforma em Genebra, Suíça, tentou realizar mediação entre Wit­temberg e Zurich. Falhou com os luteranos alemães, mas teve bom êxito em conseguir ajuntar os suíços cristãos reformados no acordo denominado "Consenso de Zurich". Calvino naquela época tentou realizar um grande Concilio de protestantes europeus que pudesse, de uma vez para sempre, chegar a acordo quanto às dificuldades doutrinárias que os dividiam. O plano foi compartilhado por Thomaz Cranmer, arcebispo da Cantuária, e por Me­lanchton. Infelizmente nada conseguiu. Calvinismo e luteranismo endureceram-se num sistema pétreo de doutrinas e assim continuaram no século XVII. Fato digno de nota nesta época de separação foi a atitude da Igreja Reformada Francesa, em Charenton, em 1631, ao admitir luteranos à Mesa da Comunhão.

Contudo, não havia falta de pessoas que advogassem a união. O pastor luterano que usava o pseudônimo de Meldenius, cunhou em 1626 o seu famoso mote: "Em coisas necessárias, unidade; em coisas não necessárias, liberdade, e em todas as coisas, caridade". Não poderiam unir-se as Igrejas nos elementos essenciais de fé?

Ilustre teólogo alemão luterano, George Calixto, neste tempo pregava a unidade na base da fé e da prática da Igreja primitiva. Como muitos, antes e depois dele, ele procurou unidade na base das palavras antigas de Vicente de Lerins: "aquilo que tem sido crido sempre, em toda a parte e por todas as pessoas".

Grande parte do consagrado trabalho em favor da união no continente europeu foi feita no século XVII, pelo escocês João Drury. Ainda quando jovem fez voto de que dedicaria a sua vida toda à unidade cristã. Jamais falhou nessa missão nos cinqüenta anos que ainda viveu. Tentou reunir igrejas em grandes conferências para estudar o problema da união sem contudo obter bom êxito. A despeito deste e outros esforços "médicos" o recurso não pôde ser encontrado naquele tempo para curar as feridas profundas causadas pelas divisões no Corpo de Cristo. Os profetas da unidade não contaram com o apoio dos líderes e dos membros das Igrejas.

Foi na última parte do século XVI e século XVII que tempestades de divisões varreram as igrejas britânicas. Os anglicanos foram divididos entre os que procuravam sustentar a herança católica e aqueles que recentemente haviam descoberto novos valores da Reforma bíblica. A teologia calvinista e o governo presbiteriano foram advogados (defendidos) pelos puritanos. Os escoceses já tinham aceitado a doutrina de Calvino através do ministério de João Knox. Nesse tempo a idéia de independência baseada no governo próprio de cada congregação local foi enfatizada pelos batistas e pelos quacres que deram seu distintivo. Como geralmente acontece, estes movimentos religiosos diversos tornaram-se mesclados com forças políticas antagônicas. "É pena que a pobre e afligida Igreja de Cristo", lamentava o grande expoente da unidade britânica, Richard Baxter, "que quase todos os seus membros choram por causa das divisões e ao mesmo tempo as causam e as aumentam, mesmo enquanto falam contra elas". Com tensão entre os cristãos da Inglaterra sobre se as Igrejas deviam ter governo episcopal ou presbiteriano não foi simples disputa sobre formas alternativas de governo. Era concernente à verdadeira natureza da própria Igreja. Foi a Igreja de Cristo na sua essência verdadeira, episcopal na forma? A pergunta era importante naqueles dias e ainda o é hoje nas discussões sobre união de Igrejas. Naquela época como agora, não havia acordo completo entre os anglicanos a respeito do assunto. É sabido que os principais teólogos anglicanos e bispos do século XVII favoreceram a comunhão total com as Igrejas Reformadas da Europa. Uns poucos ministros reformados sem ordenação episcopal foram indicados para paróquias anglicanas. O piedoso bispo Lancelot Andréwes, alegremente reconheceu as Igrejas não-episcopais como Igrejas (verdadeiras e irmãs).

A Assembléia de Westminster em 1648, marcou vitória temporária do partido que favorecia o presbiterianismo. O episcopado foi abolido por ato do Parlamento Britânico que era então controlado por forças que se opunham à monarquia. Com a restauração do Rei em 1660, os poderosos advogados (defensores) do episcopado retornaram ao poder. As cousas mudaram quando, em 1662, o Ato de Uniformidade expulsou 1760 ministros presbiterianos e independentes das Igrejas, e reintroduziram ministros episcopais. Durante este tempo de crise, líderes de ambos os lados tentaram conseguir a harmonia e a unidade na Igreja da Inglaterra, mas a história mostra que uma divisão quase irreconciliável separou os dois grupos. O presbiterianismo, inevitavelmente, se tornou denominação fora da Igreja da Inglaterra.

Ainda que os caminhos destes partidos cristãos na Inglaterra divergissem, no fim do século, houve remarcada tendência para fazer convergir as relações entre Igrejas inglesas e européias continentais. Entre o Arcebispo Wake, de Cantuária, e ministros ilustres da Holanda, França, Alemanha e Suíça, foram estabelecidas comunicações freqüentes. Poucas pessoas desafiaram seriamente o direito de cristãos episcopais ou não de compartilhar a Santa Ceia em Igrejas de outros países. O pregador da corte alemã, D. E. Jablonski, procurou mesmo estabelecer no começo do oitavo século, um plano de união para todas as Igrejas Evangélicas na Prússia, plano esse baseado no episcopado a ser introduzido pelos anglicanos. E quando a Sociedade Anglicana, para promover o conhecimento cristão, desejou estender sua missão ao Sul da Índia, houve certa hesitação em providenciar sustento para dois luteranos: Ziegenbalg e Plütschau, que tinham sido mandados àquele país pela missão dinamarquesa em 1705. Um século mais tarde a Sociedade Missionária da Igreja Anglicana também enviou ministros luteranos alemães como seus missionários.

Após tais começos promissores, o século XVIII evidenciou firme declínio no interesse para a unidade da Igreja. Contudo, no continente europeu parecia haver alguma esperança no avanço em direção à união, através do trabalho eficiente do Conde von Zinzendorf. Ainda que seus seguidores, os irmãos moravianos, se tornassem um corpo separado, o Conde foi sempre homem do mais profundo "espírito católico" (ecumênico) e muito fez para persuadir seus semelhantes de que a unidade cristã era mais bem servida pela oração fervorosa do que pela negociação habilidosa. A experiência comum da salvação pessoal em Cristo, deveria ser a base para a unidade.

O maior efeito do conde Zinzendorf na vida da Igreja Inglesa, ainda que indireto, foi a conversão de João Wesley, o mais importante inglês do século. Wesley foi primariamente evangelista, e evangelista incomparável. É verdade que o seu movimento metodista, ao final, levou a novo cisma a Igreja da Inglaterra; mas tal fato foi totalmente contrário à sua vontade. Wesley não reclamava para seu ensino a posse da verdade exclusiva, que para ele era simplesmente a fé cristã universal.

O século terminou com uma cena que fazia prever a vinda inter-relacionada de missão e unidade cristãs. Em 1795 a Sociedade Missionária Londrina foi constituída em base interdenominacional: "aqui estão episcopais, metodistas, presbiterianos e independentes, todos unidos em uma sociedade", declarou o orador principal no ato de fundação — "eis-nos aqui reunidos de comum acordo para realizar os funerais da intolerância".

Quando revemos a história do século XIX, do ponto de vista da unidade cristã, podemos ver que houve firme progresso na preparação para o grande movimento de união do século XX. A mão de Deus estava dirigindo as ações dos homens. Aqueles bons cristãos não tinham mais clara visão do que Deus tinha armazenado para as Igrejas, do que nós temos hoje. Contudo, eles, como nós, conheceram que o poder unitivo de Jesus Cristo tornava intoleráveis as divisões sectárias. Esta foi a hora do grande e novo impulso missionário das Igrejas Protestantes da Europa e América do Norte para com os povos da África, Ásia e Oceania. E a lição foi logo aprendida: a pouca harmonia entre a missão evangelizadora da Igreja e os cismas.

Este foi também o período quando muitas atividades interdenominacionais foram buscadas, em particular, as várias Sociedades Bíblicas e as Uniões de Escolas Dominicais.

Os cristãos descobriram que a tarefa de educar tanto quanto a de evangelizar demandam cooperação mútua.

Na Inglaterra, Escócia e América do Norte nasceu uma variedade confusa de pequenas denominações. As grandes famílias eclesiásticas presbiterianas, metodistas e luteranas, cada uma sofreu o eleito das divisões contínuas. Estas tentaram dirigir-se através de uniões numerosas de pequenas unidades. Suas próprias querelas familiares estavam sendo regularizadas antes que pudessem buscar comunicações mais íntimas com outros ramos eclesiásticos.

Em 1809 um movimento para união compreensiva tomou forma na América sob a liderança de Thomaz Campbell. Nas palavras de sua Declaração, que soam tão modernas aos nossos ouvidos hoje, ele condenou divisões, recomendando unidade em Cristo e conclamando para o retorno à simplicidade do cristianismo novo testamentário. "Uni-vos conosco na causa comum do cristianismo simples e evangélico", afirmou ele.

Em referência à base de unidade, Campbell declarou: "Nada deve ser recebido na fé, ou culto da igreja, ou deve tornar-se termo de comunhão entre os cristãos aquilo que não for tão antigo como o Novo Testamento".

A despeito deste nobre intento, a ironia da história é que estes "Discípulos de Cristo" se tornaram em outra denominação e eles mesmos sofreram de suas próprias discórdias contínuas.

Em 1817, justamente 300 anos depois de Lutero se ter separado de Roma, as Igrejas Luteranas e Reformadas da Prússia conseguiram nova união. Nos anos que se seguiram esta espalhou-se a diversos Estados alemães e tal união persiste até os nossos dias. A verdade é que esta união foi severamente criticada por ter sido planejada e na verdade pressionada pelo rei da Prússia. Diferenças doutrinárias e litúrgicas foram ignoradas. Mesmo hoje tais forças internas não deixaram de existir: os elementos que são reformados podem ainda ser distinguidos daqueles que são luteranos. Mesmo assim a união foi assegurada. Muitos dos seus membros tentam torná-la mais forte com a devida atenção às doutrinas. Os efeitos desta ousada união foram sentidos lá longe do outro lado do Oceano Atlântico. O luteranismo havia-se instalado na Nova América, de acordo com o passado nacional dos imigrantes e poucos encorajaram relações com cristãos de outras denominações.

Mas foi do luterano, S. S. Schmucker, a voz mais forte para a união geral das Igrejas norte-americanas. Em 1839 ele publicou o seu ambicioso plano para a Igreja Protestante Apostólica, que deveria basear-se nos fundamentos de fé assegurada em comum por todos. Isto seria muito mais uma confederação de denominações existentes do que união orgânica. O plano nunca foi considerado seriamente pelas Igrejas. Contudo, fez muito para criar uma concepção dominante de unidade cristã na mente dos protestantes americanos para as décadas que estavam por vir. Esta concepção enfatizava a necessidade de reter cada denominação sua identidade dentro da federação cooperativa.

O ponto de vista firme de Schmucker foi compartilhado na Inglaterra por Angell James, e na Escócia por Thomaz Chalmers. Estes homens foram em grande parte os instrumentos para estabelecer em 1846 a Aliança Evangélica. Esta Aliança não foi organizada com vistas na união da Igreja, e sim na unidade de cristãos individualmente, a despeito de suas filiações denominacionais. Mesmo assim sua influência sobre o pensamento de um número sem conta de cristãos acerca da unidade foi imensa. Na verdade, foi a primeira organização mundial de sua espécie que continua a ser força para a unidade e evangelismo através de suas conferências e publicações.

As Igrejas da Comunhão Anglicana durante o século XIX consolidaram suas próprias igrejas locais e buscaram base para unidade com outros ramos eclesiásticos. O primeiro desenvolvimento encontrou expressão na Conferência de Lambeth, a que todos os bispos anglicanos foram convidados e que se realizou pela primeira vez em 1867. O segundo encontrou expressão em uma fórmula de unidade, assim expressa: Em que base poderiam os anglicanos considerar a possibilidade de união com os outros ramos do cristianismo? A resposta surgiu na mente do profeta episcopal da união na América, W. R. Huntington, e ele escreveu, em 1870, que quatro pontos eram essenciais à Igreja. Estes foram formulados e mais tarde adotados pela Conferência de Lambeth em 1888 e, daí em diante, têm sido nomeados como o "Quadrilátero de Lambeth". Nenhuma discussão seria possível que envolvesse a união dos anglicanos e que ignorasse estes quatro pontos essenciais, a saber:

Primeiro — as Escrituras Sagradas tanto do Antigo como do Novo Testamento como contendo todas as cousas necessárias à salvação como regra última de fé.

Segundo — o Credo dos Apóstolos como símbolo para o batismo e o Credo Niceno como suficiente base para a fé cristã.

Terceiro — os dois sacramentos ordenados pelo próprio Senhor Jesus, batismo e Ceia do Senhor — ministrados com as imperecíveis palavras instituídas por Cristo, e com os elementos ordenados por Ele.

Quarto — o episcopado histórico localmente adaptado nos métodos de sua administração que pode variar de acordo com as necessidades das nações e povos chamados por Deus à unidade de Sua Igreja.

Enquanto isto, o movimento missionário através do mundo estava sendo abençoado com muito bom êxito. Igrejas começaram a crescer em localidade onde o nome de Cristo jamais tinha sido ouvido. Como poderia esta missão universal ser efetiva se as pessoas responsáveis por ela trabalhavam isoladas umas das outras? O missionário na Índia, William Carey, tinha sugerido, em 1806, o plano de uma Conferência Missionária Mundial. Tal sonho não se realizou até 1910. A Associação Americana Internacional de Missões Estrangeiras já havia proposto em 1838 o “princípio de cortesia” no trabalho missionário, a fim de evitar competições. Conferências largamente representativas sobre missões começaram no meado desse século. A primeira Conferência cristã da Índia se realizou em Cal­cutá, em 1855, e desde 1872 Conferências maiores se efetuaram com intervalo de dez anos. Encontro semelhante se verificou no Japão no mesmo ano, e na Índia em 1877.

Vozes se levantaram em protesto contra a importação de divisões denominacionais externas, juntamente com o Evangelho e propostas foram feitas visando à unidade da Igreja de Cristo, como realidade visível nas terras onde estava a Igreja crescendo em nova forma.

Na Inglaterra e na América do Norte as denominações nesse tempo consideraram tais propostas com proveito notável onde quer que estivessem em reunião com duas ou mais famílias eclesiásticas. Na Índia, não obstante, a primeira união importante de denominações diferentes se conseguiu em 1908, quando presbiterianos e congregacionais concordaram em viver e adorar como um só corpo chamado Igreja Unida do Sul da Índia e esta foi eventualmente uma das igrejas que vieram a formar a Igreja do Sul da índia. Sua formação, no começo do século XX, marcou o tempo quando cento e quarenta e dois mil cristãos começaram a colheita da unidade que havia sido plantada e tratada em muitos campos do mundo, durante o século XIX.


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[1] Tais partidos e seus ensinos são descritos pelo Bispo Neill, no livro QUEM É JESUS CRISTO?, editado pelo Centro Cristão de Literatura, da Confederação Evangélica do Brasil — 1961

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