IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
Fundada em 15 de Junho de 1902

Boulevard Vinte e Oito de Setembro, 400
Vila Isabel - Rio de Janeiro - RJ
CEP: 20551–031     Tel.: 2576–7832


Igreja da Vila

Aniversariantes

Metodismo

Missão

Artigos e Publicações

Galeria de Fotos

Links


Ecumenismo
Rio, 5/12/2007
 

Um só Senhor, uma só Igreja - 1900 a 1950: Meio século de rápidos avanços dos movimentos ecumênicos (John Robert Nelson)

ZZ Outros Colaboradores ZZ


 

MEIO SÉCULO DE RÁPIDO AVANÇO
(Esse texto corresponde ao quarto capítulo do livro "UM SÓ SENHOR, UMA SÓ IGREJA", publicado em português no ano de 1964 pelo Centro Cristão de Literatura da Confederação Evangélica do Brasil e publicado em dezembro de 2007 no site da Igreja Metodista de Vila Isabel, Rio, Brasil).

A Bíblia é muitas vezes descrita como repositório dos "atos poderosos de Deus". A criação do mundo, o chamado de Abraão, o pacto estabelecido, o êxodo, a preservação dos fiéis remanescentes, a vinda (encarnação, nascimento, ensinos, vida, morte e ressurreição) de Jesus Cristo, a dádiva do Espírito Santo e a vida da Igreja são alguns dos principais atos poderosos de Deus. E mesmo nos tempos posteriores aos relatados na Bíblia Deus não deixou de atuar com seus atos poderosos. Podemos asseverar que o extenso movimento em favor da unidade cristã representa poderosos atos de Deus. Por conseguinte, o melhor caminho para tratar com este movimento no século XX será sempre o de respeitar tais atos poderosos como nós os conhecemos.

Os grandes momentos deste movimento foram as Conferências cristãs mundiais e periódicas que se realizaram de 1910 em diante, com delegados vindos de muitas partes do mundo. Estas Conferências devem ser conhecidas para que tenhamos base a fim de compreender a situação presente. Em si mesmas, elas foram menos importantes do que aquilo que aconteceu a pessoas que delas participaram e o que fizeram em relação a outros que receberam sua influência. Preconceitos foram abolidos. Variações doutrinárias foram explicadas e entendidas. Costumes eclesiásticos estranhos, ou pouco conhecidos foram apreciados de tal maneira que a diversidade na Igreja foi mais bem estimada. Tesouros tradicionais de culto foram compartilhados e a visão da Igreja no seu todo, bem como a obediência e a unidade foram asseguradas aos olhos dos fiéis que de outra forma não teria sido possível. Em tudo isto, novo clima de opiniões se estabeleceu em que suspeitas, ciúmes e rivalidades foram banidos.

Creio que deixamos claro nas páginas anteriores que as divisões da Igreja não obstante desagradáveis, como possam ser em nações chamadas cristãs como as da Europa e América do Norte, simplesmente se tornam intoleráveis em terras predominantemente não-cristãs, onde as igrejas mais novas vivem na fronteira da fé. Abundante testemunho tem sido dado pelos cristãos asiáticos que as divisões sectárias dentro do cristianismo desiludem ou amedrontam muitas pessoas que respondem favoravelmente à pregação do Evangelho. Foi esta mensagem da necessidade pela união visível que certo delegado da Ásia trouxera para a Conferência Missionária Mundial, efetuada em Edimburgo, em 1910. Nesse importante encontro onde estiveram mil e trezentos delegados, menos de vinte asiáticos participaram. Contudo, dentre os que falaram com ousadia, estava Azariah, da Índia, e Cheng Ghing-yi, da China, que foram apoiados por muitos missionários do Oeste no apelo pela unidade feito perante o plenário.

É impossível exagerar o significado da Conferência de Edimburgo. Marcou na verdade, nova era na história da Igreja. Aquilo que ocasionalmente foi desejado no passado, veio agora a tornar-se real. Tal fato foi devido tanto ao crescimento da apreciada idéia de que os cristãos em todo o mundo pertencem uns aos outros, como também ao desenvolvimento técnico que tornou possível viagens e troca de correspondência de maneira rápida.

O homem que mais do que qualquer outro pode ser indicado como o instrumento para a concretização deste ideal foi John R. Mott. É difícil pensar em qualquer homem em toda a história da Igreja, cuja vida e tipo de serviço se assemelhem aos de John Mott. Ele foi evangelista de elevada estatura, sem contudo ser teólogo ou pensador original. Tornou-se um dos mais importantes líderes da Igreja no mundo, conservando sempre sua posição de leigo. Pertencia à Igreja Metodista Americana, mas recebeu honras elevadas da parte dos ortodoxos e de outras Igrejas em quase todos os países do mundo onde cristãos são encontrados. Sua devoção primeira foi à causa de recrutar estudantes cristãos para o serviço de Jesus Cristo. Em 1889 ele ajudou a organizar o Movimento Voluntário Estudantino, e em 1895 a Federação Mundial de Estudantes. Jamais cansou-se de andar pelo mundo desafiando os estudantes a consagrarem suas vidas ao serviço missionário, colocando dentro deles o objetivo de "evangelizar o mundo nesta geração". Desde o tempo da sua mocidade seu nome se identificou com a Associação Cristã de Moços (ACM), que ele ajudou a desenvolver-se em movimento mundial de valor incalculável, tanto para as missões cristãs como para a unidade da Igreja. Como se tais ocupações não fossem suficientes o Dr. Mott tomou a si a importante responsabilidade em 1908 de planejar a Conferência Missionária de Edimburgo. Quando se instalou a Conferência, naturalmente, foi ele escolhido o seu digno presidente.

Mott escolheu para Secretário-executivo da Conferência um jovem líder do Movimento Estudantino Cristão da Escócia, J. H. Oldham. Oldham mesmo tornou-se realmente um dos líderes indispensáveis ao movimento que veio a ser conhecido como Movimento Ecumênico. Escrevendo algumas páginas sensíveis, relembrando o passado, por ocasião da morte do Dr. Mott, em 1955, e tendo Oldham a idade de 89 anos, ele informou que a decisão do Dr. Mott de ter como propósito da Conferência de Edimburgo um comitê continuador para levar adiante as decisões tomadas, foi novo e ousado plano que teve efeito imenso sobre o movimento em favor da unidade da Igreja. Tal Comissão foi o primeiro órgão interdenominacional e internacional vindo à existência para servir às missões mundiais da Igreja. Desta Comissão saiu o Conselho Internacional de Missões, organizado em 1921.

A despeito dos meios relativamente morosos de transporte à disposição do viajante nos primeiros anos deste século, John R. Mott conseguiu visitar e voltar a visitar numerosos países asiáticos. Ele sempre se identificou pessoalmente com o pensamento e o ponto de vista dos asiáticos. O Dr. Oldham relembra que John Mott estava quase sozinho em persuadir o Comitê Preparatório para a Conferência de Edimburgo que as Igrejas da Ásia deveriam ser representadas por nativos daquela região. Foi também o responsável direto pelo estabelecimento de vários Concílios Cristãos Nacionais, aos quais ele chamou sua "primeira e maior contribuição" para o Conselho Internacional de Missões.

Se bem que a Conferência de Edimburgo estivesse primariamente preocupada com os novos problemas que se levantavam dentro do vasto trabalho missionário das Igrejas, não pôde escapar do problema relacionado que era o das divisões eclesiásticas. Concordou-se em que a Conferência não permitiria tal problema fosse discutido. Para dizer a verdade, era matéria exclusiva para a qual somente poucas mentes estavam preparadas. Uniões dentro de ramos eclesiásticos afins já eram numerosas desde algumas décadas, mas a Conferência de Edimburgo demonstrou a necessidade de se considerar o mais difícil nas relações interdenominacionais. Pela primeira vez em suas vidas muitos delegados tinham talvez enfrentado em pessoa o problema em nada teórico do escândalo das divisões perante a Mesa do Senhor. Nenhum serviço de Comunhão em conjunto foi possível.

A dor causada por tal experiência foi particularmente aguda para certo homem, o que o tornou o iniciador de nova e poderosa força no pensamento cristão. Foi Charles W. Brent, missionário nas Filipinas e Bispo da Igreja Episcopal Americana. Levando em seu coração durante a Conferência o peso causado pelas divisões, ele, não obstante, começou a ver diante das igrejas o abrir-se de novo caminho de esperança que levaria à unidade. Que aconteceria se Conferências tais como a de Edimburgo se realizassem, pensou ele, nas quais representantes de todas as igrejas do mundo pudessem estar face a face em atitude franca, amorável e inteligente para discutir os problemas que realmente os dividem? Poderia ser Conferência destinada a considerar doutrinas, crenças, confissões, — Fé — tanto quanto política, organização e ministério — Ordem. Com tal idéia em mente, ele orou, pedindo que Deus o orientasse.

Sua própria Igreja respondeu favoravelmente ao plano que ele descreveu, a despeito de ser revolucionário e ter recebido oposição de muitos. Os discípulos de Cristo e os congregacionais na América do Norte também deram sua adesão. Um célebre leigo episcopal, Robert Gardiner, foi indicado Secretário pela sua Igreja para a nova Comissão de Fé e Ordem, e até à sua morte, em 1926, ele prestou admirável e esforçado trabalho, ao mesmo tempo humilde, a esta nova causa. Aquele movimento que envolvia teólogos de renome e pastores do mundo, e que deveria depender da sabedoria e da energia de um leigo, deve ser comparada à posição similar de Mott. Quantas preparações foram realizadas para a primeira Conferência Mundial sobre Fé e Ordem, e quantas aventuras e histórias fascinantes? Robert Gardiner correspondeu com muitos milhares de cristãos ao redor do mundo. Nem mesmo a guerra de 1914 a 1918 conseguiu atrasar ou diminuir o seu trabalho. Quando a paz foi assinada, uma delegação viajou através da Europa oriental para conseguir o apoio dos líderes da Igreja Ortodoxa. Até mesmo Roma a delegação visitara onde deixou com o Papa o convite para enviar representantes. Convite de que polidamente se eximiu.

O primeiro encontro com tal representação universal celebrou-se em Genebra, em 1920. Para ser franco, não foi tão completamente representativo como se esperava, comparando-se às Conferências hodiernas. Das setenta igrejas envolvidas na Conferência, a grande maioria era da Europa e da América. A Ásia (com uma só exceção, um japonês) foi representada por missionários não-asiáticos. Do Norte da África vieram só três padres ortodoxos e da África tropical nenhuma pessoa tomou parte nesse encontro. Aparentemente o tempo ainda não havia chegado quando as "igrejas novas" desempenhariam o seu papel. Sob a orientação do Bispo Brent o grupo traçou planos para a esperada e antecipada Conferência, mas sete anos mais de preparação foram requeridos antes que cerca de quatrocentos delegados de cento e oito Igrejas se reunissem em Lausana, Suíça, em agosto de 1927.

Porventura teve como objetivo a Conferência fazer planos para união antecipada de igrejas divididas? Muitos pensaram assim, mas sucedeu o contrário. Pessoas impetuosas e zelosas em favor da união orgânica pelos processos mais fáceis e mais rápidos, tiveram de aceitar a limitação imposta pela discussão de tema geral de doutrina, credo, ministério, sacramento e o significado teológico da natureza da Igreja. Como outras Conferências Ecumênicas que hão de vir no futuro, eles tiveram de aprender a lição básica de uma discussão responsável: como combinar o zelo que tinham pela união com a precaução e o senso de tempo exato e necessário para pressionar as decisões.

O bispo de Bombaim, na Índia, E. J. Palmer, que era nessa época a figura pioneira nas negociações que levavam à formação da Igreja do Sul da Índia, balançava sua grande barba e admoestava: "Isto é Conferência acerca da verdade e não acerca de uniões. Nós estamos integrados nela porque desejamos a unidade visível da Igreja de Cristo na terra. Nosso desacordo com referência à verdade é considerado por muitos para justificar nossa desunião. Se eles agem assim ou não, um acordo a respeito da verdade seria um dos fundamentos mais firmes para se alcançar a desejada união”.

Em contraste com os que queriam apressar a união, os delegados ortodoxos, que vieram em grande número, estavam em estado de tensão. Sentiram que as referências feitas em relatórios a respeito da união das Igrejas eram injustificadas e imprudentes, e, assim, em Lausana, como em outras Conferências subseqüentes, os ortodoxos sentiram-se compelidos, por causa do ensino de sua Igreja, a escrever uma declaração de que se abstinham parcialmente de votar alguns relatórios principais. Esta primeira experiência de desapontamento causou o derramamento de lágrimas por parte de muitos delegados.

O relatório final da Conferência insiste em que "não se tentou enfaticamente definir as condições de uma união futura". Assim agindo, estabeleceu-se uma espécie de neutralidade em princípio para com os esquemas específicos de união que desde aí tem sido o esquema seguido pela Comissão de Fé e Ordem e o Conselho Mundial de Igrejas.

Ao mesmo tempo o relatório mostrou que problemas concretos de união de igrejas não podem ser simplesmente ignorados. Asseverou, por exemplo, um princípio que tem sido desde esse tempo o guia em negociações de tal natureza: "Na ordem da vida de uma Igreja unida, os elementos de sistema de governo episcopal, presbiteriano e congregacional devem ter lugar apropriado". Não obstante a posição oficial neutra da Conferência, profetas da unidade individualmente tiveram o ensejo de falar em favor de sua tese. Mais uma vez foi o Bispo anglicano Azariah, de Dornakal, na Índia, que expressou o pensamento de muitos cristãos indianos afirmando: "Pelas nossas divisões nós não somente gastamos nossos recursos como também diminuímos a eficiência positiva da Igreja em favor da justiça e da pureza em terras não-cristãs..." A sua palavra continua: "Não desejamos que qualquer igreja absorva as outras e não pedimos a quem quer que seja que negue a sua herança espiritual, porque não podemos exigir quebra de amizade entre qualquer destas Igrejas com as Igrejas da Europa ou da América que as plantaram nessas terras, mas nós devemos ter uma Igreja. Queremos uma Igreja da Índia, uma Igreja que possa ser o nosso lar espiritual, onde os gênios religiosos (espiritualidade) indianos possam encontrar expressão natural ou seja um ramo vivo da Igreja Santa, Católica (universal, mundial) e Apostólica." Em 1945 o Bispo Azariah "morreu na fé, sem ter contudo alcançado o que lhe fora prometido". Vinte anos e um mês depois de ter ele feito o discurso acima referido, a Igreja do Sul da Índia começou a existir como resultado de uniões.

O sonho do Bispo Brent, contudo, se realizou e sua "promessa" foi recebida quando em 1929 ele faleceu. Por estranha coincidência, o seu fim chegou quando estava justamente passando pela cidade de Lausane e ali foi ele sepultado. Desde aquela época o manto de liderança passou a outro homem extraordinário, o qual Deus preparou para esta tarefa, que foi William Temple, Arcebispo da Cantuária. Em Lausane a necessidade de continuar o estudo profundo daquelas cousas que dividiam os cristãos tornou-se realidade. Tais estudos pertencem principalmente ao campo da teologia. Muitos cristãos são contra a teologia e a doutrina porque estas, dizem eles, só causam divisão. Doutrina divide, serviço une!

Era convicção dos líderes de outro movimento paralelo cristão, que a unidade viria de maneira melhor e, talvez só assim viria, através da cooperação das Igrejas no campo da tensão racial, justiça econômica e paz internacional. Para tão grande tarefa foi convocada a Conferência sobre Vida e Trabalho que já se reunira em 1925 em Estocolmo, dirigida pelo seu dinâmico líder, o Arcebispo Soderblom, da Suécia. Entre os dois movimentos, houve uma espécie de rivalidade. Os participantes dos dois movimentos deveriam logo entender que os problemas teológicos não podem ser tão facilmente divorciados do resto da tarefa da Igreja. Os dois movimentos acima mencionados decidiram ter a segunda Conferência na Inglaterra, em Edimburgo e Oxford, respectivamente, em 1937.

William Temple foi um dos poucos delegados à Conferência de Edimburgo em 1937, que havia estado presente (como diácono) na Conferência ali realizada em 1910. Quão diferente a atmosfera deste encontro agora! Em vez daquela estranha e formal atitude do primeiro encontro e das freqüentes dúvidas acerca do resultado de tal Conferência, havia agora, vinte e sete anos mais tarde, familiaridade e confiança. Muitos dos delegados tinham trabalhado juntos em reuniões anteriores. A importância de tais amizades pessoais transcendendo linhas confessionais, não deve ser negligenciada. "O bom êxito de doutrinas e idéias depende também do comportamento de pessoas que sustentam tais doutrinas e idéias", assinalou certo secretário de missões.

A tendência de ter proporção maior e mais favorável de delegados de "igrejas jovens" foi também notável, não suficientemente forte, porém. Cerca de quinhentas pessoas participaram da Conferência. Da China, do Japão, e da Índia vieram vinte e cinco delegados, mas somente dez dentre eles eram nativos daqueles países. O resto era ocidental como todos os demais que representavam as Igrejas da África.

Estes muitos teólogos e líderes de igrejas trataram conscienciosamente dos problemas difíceis colocados diante deles. Como poderiam reconciliar as divisões profundas, causadas por diferenças no que se refere à autoridade das Sagradas Escrituras, ministros, sacramentos, significado da graça divina e a comunhão dos santos? Para a maior parte tudo estaria bem se eles pudessem chegar a um entendimento mútuo e claro do que as várias Igrejas ensinam e crêem, mas isto não era tão fácil como se pode imaginar. Por exemplo, um batista pode estudar o Livro de Oração Comum e os Trinta e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra, mas como pode ele realmente entender o que pensa um anglicano e como ora de acordo com a sua fé? Ou, como vê honestamente um anglicano o próprio batismo? Todas as nossas denominações desenvolveram através dos séculos, não somente sistemas de doutrinas e cultos, mas também atitudes e sentimentos distintos, bem como preconceitos que são quase impenetráveis por alguém de outra Igreja. Assim, o relatório de Edimburgo consiste inevitavelmente, de algumas boas declarações acerca de doutrinas e práticas sobre as quais havia acordo ou desacordo, sendo incapaz de penetrar fundo no seu significado para a vida e a unidade da Igreja.

Não obstante o reconhecimento da unidade da Igreja como algo real, dado por Deus em Cristo, a despeito de divisões denominacionais, foi reconhecida mais do que antes. Como o Arcebispo Temple expressou em seu sermão no culto de abertura: "Jamais nos esqueçamos de que o propósito de nosso encontro é considerar as causas de nossas divisões, mas aquilo que torna possível nosso encontro é nossa unidade. Não poderemos buscar união, se já não possuímos unidade. Aqueles que nada têm em comum não deplorarão o fato de serem estranhos. Mas, visto que somos um em aliança com nosso Senhor, buscamos e esperamos o caminho da manifestação da unidade em nosso testemunho de Cristo diante do mundo".

É necessário apontar que a despeito de muitas profissões de fé sinceras em favor da unidade em Cristo da parte dos delegados à Conferência de Edimburgo, as cento e vinte e três Igrejas separadas não se sentiram ligadas umas às outras por decisão oficial. Nem tão pouco os que estiveram em Oxford, no mesmo ano, na Conferência sobre Vida e Trabalho. Contudo, nestes dois encontros, decisões importantes e duradouras foram tomadas. Concordaram todos em expressar juntos a possibilidade de formar o Conselho Mundial de Igrejas. Era esperança de que tal Conselho pudesse reunir o trabalho feito pelos dois movimentos e também constituir uma agência consultiva e de cooperação, a qual todos os membros pudessem referir-se. Isto seria inovação, alguma cousa especial e única em toda a história do cristianismo. Não seria de forma alguma um corpo legislativo, pois cada Igreja manteria a sua completa soberania e independência. Simplesmente providenciaria um fórum para estudos comuns, bem como um canal comum de atividades para realizar o trabalho das Igrejas em todo o mundo. Inevitavelmente traria as Igrejas em contacto tão íntimo que as suas divisões gritariam cada vez mais alto por cura.

Em 1938, em Utrecht, na Holanda, uma Conferência foi convocada para estabelecer o fundamento sólido para o Conselho Mundial de Igrejas. O trabalho principal foi feito pelo Arcebispo Temple, J. H. Oldham e dois distintos pastores americanos, William Adams Brown e Samuel McC Cavert. Decidiram eles que a condição de membresia no Conselho Mundial por parte das Igrejas seria: "Aceitar nosso Senhor Jesus Cristo como Deus e Salvador". Tornou-se claro que isto seria um Conselho de Igrejas de Cristo. Não incluiria corpos religiosos que não confessassem a Cristo.

Que dizer agora a respeito da terceira grande corrente neste medrançoso Movimento Ecumênico, o Concilio Internacional de Missões (CIM)? Deveria ser excluído? Desde a sua fundação, em 1921, o Concilio Internacional de Missões aumentou grandemente a sua força e eficiência. Tornou-se organização de alcance mundial que conseguiu reunir em consultas e cooperação, Sociedades Missionárias e Boards de Missões de muitos países, ao mesmo tempo que os Concílios Cristãos Nacionais e outras organizações semelhantes nas igrejas chamadas novas. Realizou também séries significantes de Conferências, continuando assim o que começou em Edimburgo, em 1910. Em 1928, na Cidade Santa de Jerusalém, o segundo grande encontro foi realizado e dez anos mais tarde, o terceiro, que foi convocado para Tambaram, perto de Madrasta, na Índia.

Agora não havia qualquer problema quanto à representação de líderes de "igrejas novas" no Concilio Internacional de Missões. Em Tambaram os representantes de tais igrejas chegaram a 50%. Desta vez os dirigentes do Concílio Internacional de Missões consideraram e aceitaram com alegria os planos realizados no mesmo ano pelo Comitê Provisional para o Conselho Mundial de Igrejas. Nenhuma decisão positiva foi tomada no sentido de tornar o Concilio Internacional de Missões parte na formação do novo Conselho. Duas principais características do Concilio Internacional de Missões tornaram excessivamente difícil alcançar tal decisão: Primeiro, o Concilio Internacional de Missões não era de Igrejas, mas de Conferências de Sociedades Missionárias e Concílios cristãos. Segundo, havia entre os seus membros representados, número considerável de grupos cristãos que não olhavam favoravelmente os movimentos de Fé e Ordem e Vida e Trabalho. O trabalho essencial do Concilio Internacional de Missões, sentiram, poderia ser mais bem realizado se eles permanecessem independentes. A despeito de tudo isto, uma ponte foi formada quando uma Junta foi estabelecida para unir as duas Organizações, tendo William Paton, do Concilio Internacional de Missões autorizado a dar parte do seu tempo ao Conselho Mundial.

O Comitê Provisional decidiu que o Conselho Mundial deveria ser formalmente constituído em grande assembléia, em 1941. Mas quando esta decisão foi tomada, tornou-se claro para algumas pessoas que a 2.a horrível guerra mundial estava para começar. A guerra exilou os alemães com as igrejas episcopais orientais dos outros com os quais eles tinham comunhão, causando ao mesmo tempo tensão perigosa dentro das igrejas de certas terras, enfraquecendo sua eficiência. Nunca em tempos modernos foi tão grande a necessidade para verdadeira unidade cristã. Graças a Deus o espírito de unidade não somente foi mantido, mas também fortalecido. Um dos grandes heróis do tempo, aquele inamovível oponente do regime nazista, o Bispo Berggrav, de Oslo, na Noruega, declarou: "Neste último ano temos vivido mais intimamente uns com os outros do que em tempos quando podíamos estabelecer fácil comunicação entre nós. Nós oramos juntos mais vezes, ouvimos muito mais a Palavra de Deus, e os nossos corações estão mais unidos".

A frágil estrutura do novo Conselho não caiu; mas tornou-se mais firme. Ao terminar a guerra em 1945, as igrejas enviaram seus representantes para levar adiante a tarefa de formar o Conselho.

Os planos para a primeira Assembléia foram estabelecidos e convites formais foram enviados aos oficias das Igrejas ao redor do mundo, para que se tornassem membros. Cento e quarenta e sete destes responderam e enviaram quinhentas e oitenta e nove pessoas à cidade de Amsterdam, na Holanda, em agosto de 1948. Reunidos para adorar a Deus e trazendo em suas vestes todas as diversidades de nações, cultura e confissões, ouviram o Dr. John R. Mott, com 83 anos de idade, falar como era o seu hábito, falar das oportunidades futuras, antes que das conquistas passadas. O Rev. D. T. Niles, pregou o sermão de abertura dizendo: "O testemunho cristão não reconhece barreiras, nem permite parcialidades". Na abertura da sessão de negócios, o benévolo e digno Pastor Marc Boegner, da França, propôs se declarasse ter passado a existir o Conselho Mundial de Igrejas. Ao voto unânime seguem-se os aplausos e, depois, a oração reverente, feita pelo Arcebispo da Cantuária.

Que é este Conselho Mundial que começou a existir? A esta pergunta não é tão simples responder, como talvez se imagine.

É por acaso mais uma organização inter-eclesiástica com o fim de realizar mais efetivamente aquilo que as igrejas teriam de fazer sozinhas? O programa sem precedente de socorro e serviço aos refugiados, estabelecido pelo Conselho mostra que é assim. Mas é muito mais.

É um Conselho para estudos comuns e discussão de questões de importância teológica e social? Tem sido provado que assim é. Contudo, ainda é mais do que isto.

Ao contrário de todas as outras organizações o Conselho tem referência imediata ao significado da própria Igreja e a sua unidade. As palavras da Mensagem da Assembléia de Amsterdam que, de maneira não planejada, se tornou uma espécie de mito popular, disse: "Nós desejamos estar juntos. Nós, as cento e quarenta igrejas distintas entendemos conservarmo-nos unidas umas às outras". Esta é a afirmação que tem sido fortalecida na vida do Conselho ano após ano, e que constitui exemplo único na história.

Depois de tomar este passo realmente ousado, em 1948 as Igrejas sentiram um sentido novo de urgência em sua obrigação de vencer divisões antigas existentes no meio delas. O Movimento de Fé e Ordem depois da Assembléia de Amsterdam tornou-se a Comissão de Fé e Ordem do Conselho Mundial. A sua tarefa peculiar foi definida da seguinte maneira: "Proclamar a unidade essencial da Igreja de Cristo e conservar distintamente dentro do Conselho Mundial e das Igrejas a obrigação de manifestar aquela unidade e sua urgência para a obra de evangelização". Para cumprir esta função preliminar as pessoas envolvidas no trabalho da Comissão puseram-se a estudar em conjunto as causas de divisões e os caminhos da unidade, levando em conta a obra realizada pelas próprias Igrejas na busca de comunhão mais íntima ou de união orgânica. A terceira Conferência mundial sobre Fé e Ordem efetuou-se em 1952, em Lund, na Suécia, onde o presidente da Comissão, o Bispo Y. T. Brilioth, de Upsália, Suécia, atuou como hospedeiro e presidente. Não mais confundidos pela novidade de tal encontro como cristãos de muitas terras e de muitas igrejas, os delegados trabalharam duramente nas três principais áreas de discussão. Nenhuma destas pode ser legitimamente negligenciada por aqueles que tomam a sério as divisões e desejam ardentemente a unidade.

A primeira foi sobre a Natureza da Igreja. Esta é uma pergunta antiga que, a despeito dos anos de estudo e de reflexão, sempre parece nova: Que é essencial à Igreja, de acordo com a vontade de Deus? Existem várias aproximações da "plenitude" da Igreja, representadas pelas diferentes confissões, de modo que alguém possa dizer "aqui há mais e ali há menos da igreja?" O significado da Igreja depende da comunhão amorável entre pessoas ou se assenta sobre a estrutura ministerial e eclesiástica, ou ainda depende da maneira como o Evangelho é proclamado? Em Lund foi encontrada não a solução para estes problemas perenes, mas certa nova maneira de encará-los, que é a maneira mesmo de Jesus Cristo como Senhor e vida da Igreja. Concordou-se em que muitas das nossas divergências mais profundas na compreensão da Igreja são devidas ao desacordo em referência à Pessoa e à obra salvadora de Jesus Cristo. “Deixemos de lado por agora as causas convencionais de divisões e estejamos juntos em amor para considerar de novo o significado de nosso Senhor e Sua Igreja”.

A Conferência também considerou alguns aspectos difíceis em relação às distintas maneiras de culto, no que serve de barreiras à unidade. É justamente neste aspecto, dizia um relatório, "que a desunião se torna explícita e o senso de separação mais agudo". Ao mesmo tempo é testemunho da maioria dos delegados às Conferências Ecumênicas que o senso da união em Cristo vem por excelência durante os períodos de culto em comum, não obstante possa a liturgia ser estranha ou mesmo feita em língua desconhecida. Não somente em Conferências, mas também nas relações normais com as congregações de outras tradições eclesiásticas mas na mesma localidade, os cristãos têm geralmente a oportunidade de experimentar por um lado estranheza, e por outro a atração das diversas formas de culto. É através desse ato de adoração que o Deus que é adorado efetua a união do Seu Povo dividido.

Finalmente, a Conferência de Lund procurou trazer ordem à discussão confusa do problema chamado de intercomunhão. Não é a mais embaraçosa situação imaginável, que a Comunhão Santa, muitas vezes chamada sacramento da unidade em Cristo, precisamente o ato em que as nossas divisões mais duramente se evidenciam? A Conferência teve bom êxito somente em expor os vários pontos de vista com respeito a esta pergunta e em dar definições aos termos usados para descrever as diferentes espécies de relações que as igrejas têm estabelecido. Deve-se admitir que ligeiro progresso foi feito em direção ao consenso sobre as condições recorridas para a participação na Mesa do Senhor.

A mensagem da Conferência foi, contudo, positiva e houve menos relutância do que nas conferências anteriores para desafiar as igrejas para que atuem de acordo com as suas freqüentes afirmações de amor e unidade. "Não deveriam nossas Igrejas perguntar a si mesmas se estariam mostrando suficiente desejo para entrar em conversação com outras igrejas, e se não deveriam atuar juntas em todos os campos, exceto naqueles em que diferenças profundas de convicção as impelem a atuar separadamente?" D. T. Niles observou rijamente (energicamente) que o caso mais comum entre as Igrejas é fazer todas as cousas separadamente, exceto aquelas que o Mundo demanda que elas façam juntas. Tal não é obediência cristã.

Não somente as divisões da Igreja, mas sua negligência no campo missionário foi exposta em Lund, à luz do propósito divino. A essa luz a interdependência da unidade em missão e da missão em unidade foi desafiada. O Conselho Internacional de Missões teve em 1947 encontro importante na pequena cidade canadense de Whitby, e uma das declarações proféticas dessa Conferência dizia: "Onde quer que a devoção aos padrões denominacionais ou locais se interponha no caminho para maior resposta ao chamado de Cristo, deve ser transcendida."

Desde 1948 tem havido de fato relações muito íntimas, onde quer que o Conselho Mundial de Igrejas esteve "em associação com o Conselho Internacional de Missões". Tal associação tem feito muito por conservar vivas as questões sobre evangelismo e missão no Conselho Mundial de Igrejas, e tem servido para encorajar os que participam do Concilio Internacional de Missões a enfrentar diretamente as conseqüências resultantes das divisões eclesiásticas, visando a missão cristã como um todo. Ano após ano esta associação tem trazido estes dois organismos para mais perto um do outro numerosos campos. Um sinal significativo de seu propósito comum tornou-se claro em 1952. Em Lund, os homens do Movimento sobre Fé e Ordem falaram incessantemente de evangelização. Na Conferência do Conselho Internacional de Missões, realizada em Willingen, na Alemanha, todos aqueles que estavam preocupados primariamente com a obra missionária pediam aos membros do Concilio (CIM) que dessem mais atenção ao problema urgente da unidade cristã.

Para concluir esta quadra de meio século de desenvolvimento importante em direção à unidade cristã, olhemos rapidamente para a segunda Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas, realizada em Evanston, nos Estados Unidos da América, em 1954. Foi primeiro de tudo ocasião importante para mostrar a vitalidade do Conselho, após os seus primeiros seis anos de existência. Alguns duvidavam que houvesse tanto interesse como houve em Amsterdam, em 1948, quando a excitação atingiu o auge por causa do significado histórico e novo do acontecimento. Tais dúvidas foram dissipadas em Evanston, quando o entusiasmo não somente de cristãos americanos, mas de visitantes de todo o mundo foi ainda maior. Tal entusiasmo combinou-se muito bem com a seriedade de propósito. Nos grupos de estudo os delegados trabalharam juntos, e juntos lutaram, vendo as implicações para a vida diária da fé, em torno do tema: "Cristo, a Esperança do Mundo". Seis áreas específicas de estudo foram estabelecidas: Fé e Ordem, Evangelização, Tensões raciais e éticas, Relações Internacionais e Vocação laica. Neste campo trabalharam todos, procurando conhecer melhor a vontade de Cristo. Deram especial atenção a estes assuntos por causa dos dois fatores de importância monumental: a surpreendente mudança social rápida e as revoluções políticas na África e Ásia, desde 1945, bem como a luta temerosa entre o comunismo e a democracia no mundo em geral. Não houve aí a menor preocupação em referência à representação adequada por parte das Igrejas da Ásia e África. Seus delegados estavam presentes e foram cuidadosamente ouvidos. Jamais os cristãos evangélicos do mundo demonstraram igual solidariedade, a despeito das forças políticas que os pressionavam. Relembrando que Jesus Cristo em seu chamado ao discipulado impõe a obrigação de cada um negar-se a si mesmo, os delegados tiveram pouca paciência com a maneira macia de falar à medida que escreveram seus relatórios. Tão pouco havia superficialidade nas palavras que a Assembléia enviou às congregações de mais de cento e sessenta Igrejas ao redor do mundo: "Somente na cruz de Cristo onde os homens se conhecem como pecadores perdoados podem estar unidos, e aqueles que sabem que Cristo ressuscitou devem ter a coragem de esperar novo poder para quebrar toda e qualquer barreira humana".

Voltar


 

Copyright 2006® todos os direitos reservados.