IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 12/12/2007
 

O Avanço missionário do cristianismo nos anos 29 a 500 na Ásia, África e Europa (John Foster)

ZZ Outros Colaboradores ZZ


 

29-500 A.D.: PENETRAÇÃO NOS TRÊS CONTINENTES

(Este texto corresponde ao capítulo 2 do livro COMEÇANDO EM JERUSALÉM, escrito por John Foster, publicado em português pela Imprensa Metodista em 1961e publicado em dezembro de 2007 pelo site da Igreja Metodista de Vila Isabel - Rio)

Nos Atos Apostólicos o evangelista Lucas "começa de Jerusalém" (Capítulos 1 a 5) e continua contando da pregação mais ampla, que inclui os samaritanos e os gentios (6-12). Então, de Antioquia começa a Missão Gentia completa (13-28). Termina quando o Apóstolo dos gentios chega à Roma. O próprio autor entra na história (escrevendo "nós" em vez de "eles" de Atos 16:10 em diante) no ponto em que Paulo navegou para a Europa. Alguns têm pensado que o Homem da Macedônia (Atos 16:9) na visão de Paulo, talvez tenha sido o próprio Lucas. Um médico de Filipos, poderia ter sido chamado quando Paulo estava doente em Trôade (o significado de 16:7, 8?) e poderia ter conversado com ele sobre as oportunidades do lado europeu. De todos os escritores bíblicos Lucas é o único que não é judeu asiático, o único que talvez tenha começado com uma conexão européia.

Nesse caso, este primeiro livro de história eclesiástica (Atos dos Apóstolos), embora começando na Ásia, trata da difusão do Cristianismo em direção ao ocidente (Europa). Entretanto Lucas faz uma sugestão ocasional do progresso do Cristianismo rumo ao oriente, penetrando na Ásia, e rumo ao sul, na África. No dia de Pentecostes, diz ele, havia muitos em Jerusalém que tinham vindo do Tigre (2:9) e do Norte da África (2:10). Parece implicar que os judeus e prosélitos da Dispersão estavam principalmente entre os "três mil... que lhes foram acrescentados naquele dia" (2:39, 41). Deixa à nossa imaginação o que aconteceu quando voltaram para casa. O eunuco etíope, após o seu batismo "jubiloso, continuou o seu caminho" (8:39). Seu caminho fá-lo-ia subir o Nilo 1500 quilômetros até Meroe, no Sudão. Que fez este homem "de grande autoridade" para espalhar a fé cristã naquele lugar?

Costumamos pensar que o Novo Testamento é um livro à parte, mas não há nenhum hiato entre a era apostólica e a história eclesiástica posterior. Muitas das condições dos tempos do Novo Testamento permanecem as mesmas, ou mudam gradualmente. Um exemplo disto encontramos nas igrejas reunidas em casas. Lucas descreve a primeira congregação após a ascensão de Jesus como sendo constituída de 120 pessoas reunidas no cenáculo de uma casa de Jerusalém (Atos 1:13-15) — provavelmente a casa onde Jesus celebrou a Última Ceia (Lucas 22:12). Cada congregação mencionada nos Atos e nas Epístolas é semelhantemente "a igreja que está em tua casa" (Romanos 16:5). Até o ano 200 quase todo culto cristão continuava sendo na casa de alguém. Escolhiam talvez uma casa que tivesse uma sala bastante grande, e uma em que provavelmente não fossem perturbados. Em tempos de perigo e perseguição mantinham o lugar em segredo, salvo aos amigos em quem podiam confiar. Depois do ano 200 ouvimos de lugares onde havia um pequeno edifício especial, chamado "a casa do Senhor". Então, no ano 261 o Império Romano parecia preparado para tolerar o cristianismo, e em algumas cidades os cristãos se aventuravam a construir uma "basílica", um salão retangular com uma extremidade oriental arredondada para a Mesa do Senhor. Nas últimas perseguições do Império Romano começadas em 303, o primeiro ato consistia muitas vezes em demolir ou incendiar tal igreja. Depois de 312 terminaram as perseguições do Império Romano, e aumentaram as propriedades da igreja.

Por que meios o cristianismo se espalhou? Eis quatro retratinhos e novamente quão próximos do espírito do Novo Testamento! Primeiro havia missionários de tempo integral, descritos algumas vezes como "sucessores dos apóstolos". Cerca do ano 250, Orígenes, que conhecia bem o noroeste da África e a Ásia ocidental, escreveu:

Os cristãos fazem tudo o que podem para espalhar a Fé pelo mundo. Alguns deles, portanto, têm por profissão peregrinar, não apenas de cidade em cidade, mas também por aldeias e povoados, a fim de conseguirem novos conversos para o Senhor... e o povo é hospitaleiro a esses mensageiros da Fé.

Segundo, ouvimos do testemunho de leigos comuns, alguns deles da classe mais humilde. Aqui está um não-cristão, escrevendo a respeito de escravos "infeccionando" toda uma família com o cristianismo. A data é cerca de 180 A.D., e o lugar pode ser Alexandria ou Roma:

Vemos em casas particulares tecelões, sapateiros, lavadeiros, e pessoas da classe mais inculta e grosseira. Não ousam abrir suas bocas na presença de seus anciãos ou de seus senhores mais sábios. Mas dominam as crianças em particular, e todas as mulheres que são tão ignorantes quanto eles mesmos... "Somente nós", dizem eles, "sabemos como os homens devem viver. Se vocês, crianças, fizerem como nós dizemos, serão felizes e ainda farão felizes os seus lares." Enquanto estão falando vêem aproximar-se um dos professores da escola... ou mesmo o próprio pai... Então murmuram: "Em sua presença aqui não podemos explicar... mas vocês podem vir com as mulheres e com os seus companheiros de brinquedos aos aposentos das mulheres, à oficina do sapateiro, ou à lavanderia, para que possam obter tudo o que há". Com palavras semelhantes a estas conquistam-os completamente.

Terceiro, há a influência do exemplo cristão. Justino, nascido na Palestina, convertido em Éfeso, e, por volta de 150, um pregador cristão em Roma, escreveu:

Nosso Senhor ordenou-nos que pela paciência e mansidão tiremos a todos da vergonha e da cobiça do mal. E isto devemos mostrar no caso de muitos que têm estado em contacto conosco, que foram vencidos e mudados de caracteres tirânicos e violentos, ou por terem observado a constância da vida de seus vizinhos cristãos, ou por terem observado a paciência maravilhosa dos viajantes cristãos quando taxados em excesso (na estalagem e nas barreiras alfandegárias), ou por fazerem negócio com cristãos.

E quarto, devemos acrescentar os mártires — a própria palavra original significando "testemunhas". Os homens prontos a sofrerem e morrerem por sua fé foram um desafio para todos os que os contemplavam. Tertuliano, de Cartago, no Norte da África, cerca de 197 A.D. escreveu:

Quanto mais somos ceifados por vós, mais aumentamos. O sangue dos cristãos é semente. Muitos de vossos próprios escritores ensinam os homens a encararem corajosamente a dor e a morte, mas não ganham discípulos como os cristãos o fazem. São professores de palavras, mas não de obras.

Esse foi o modo pelo qual o próprio Tertuliano se converteu.

Com retratos como esses em mente, podemos agora considerar, os três continentes, cada um por sua vez:


ÁSIA:
Os cristãos não esqueciam que sua religião tinha começado em Jerusalém. Nos séculos 2° e 3° conheciam e visitavam alguns dos lugares sagrados. Helena, mãe do imperador Constantino, ela mesma, em 326 A.D. foi peregrinar, e São Jerônimo, em 385, chefiou um grupo que incluía nobres senhores de Roma, não apenas para visitar os lugares santos, mas também para se estabelecerem como monges e freiras em Belém, na Palestina junto à igreja da Natividade. Entretanto, mesmo nos tempos neo-testamentários, igrejas não judias além da Palestina tinham começado a ter a primazia, especialmente Antioquia, na Síria. Foi ali que o apelido "cristão" foi usado pela primeira vez (Atos 11:26); e dali começou a principal expansão para o ocidente (Atos 13:1-3). Antioquia continuou sendo a Grande Sé (a Igreja pastoreada pelo Bispo ou que ficava no lugar onde o Bispo residia) do oriente. As outras Grandes Sés foram Alexandria no Egito, e Roma no ocidente, acrescentando-se Jerusalém por causa do seu passado, fundada como a nova Capital cristã, em 330. Estes cinco bispos, mais tarde foram chamados "Patriarcas".

De todos os trabalhos missionários iniciados em Antioquia, parece que os que obtiveram maior êxito foram os da Ásia Menor. Podemos avaliar sua importância pelo fato que, dos 27 livros do Novo Testamento, quase a metade ou foi escrita na Ásia Menor, ou escrita como cartas às Igrejas de lá. Continuou por muito tempo como o lugar onde os cristãos eram mais numerosos. Em 112, Plínio, o Moço (sobrinho do Plínio citado na pág. 7) escreveu ao imperador Trajano, perguntando como ele, na qualidade de governador na Bitínia, deveria tratar os números crescentes desta nova religião:

Muitas pessoas de todas as idades e de ambos os sexos estão incluídas. Os templos (pagãos) estão quase desertos... E ela (a fé cristã) continuará.

E trabalho missionário continuou, apesar da perseguição. No Ponto, a leste da Bitínia, encontramos o primeiro movimento em massa, sob o bispo Gregório, que foi bem cognominado "Taumaturgo, o operador de maravilhas". Em sua cidade de Nova Cesárea, diziam, havia apenas dezessete cristãos quando ele começou, em 270; quando morreu, apenas dezessete não-cristãos. Um bispo posterior, cuja família veio do Ponto, descreve o trabalho de Gregório:

Bem de manhã multidões se reuniam à sua porta, com os velhos, os possessos de demônios, e outros necessitados. E lá estava ele para pregar, perguntar, exortar, ensinar, ou curar. Foi por isso que atraiu muitos homens para o Evangelho, porque viam o poder de Deus, do mesmo modo que o ouviam.

Por volta do ano 380 esse mesmo escritor reclama a mesma coisa para a sua própria parte da Ásia Menor, na Capadócia:

Dificilmente se poderia contar tantos altares (cristãos) em todo o resto do mundo!

A Igreja de Antioquia que enviou Paulo e Barnabé para o ocidente também foi responsável por levar o Evangelho a 240 quilômetros para o oriente, atravessando a fronteira do Império Romano, à pequena cidade de Edessa (hoje Urfa). Uma antiga tradição cita uma carta (uma oração!), que se supõe escrita pelo rei de Edessa a nosso Senhor:

Os judeus murmuram contra ti, e desejam fazer-te mal. Eu tenho uma cidade, pequena mas formosa, que é bastante para dois (reis).

Isto parece ser uma tentativa de recuar para uma data anterior algo que aconteceu por volta do ano 200. O rei se converteu, e Edessa se tornou o primeiro estado (cidade-estado) a fazer do cristianismo sua religião oficial. Edessa pode orgulhar-se de duas outras "primeiras coisas" — a primeira construção de edifício de igreja mencionada alhures (destruída ali por uma inundação, em 201), e a primeira tradução dos Evangelhos do seu original grego (a harmonia siríaca dos Quatro Evangelhos, de Taciano, c. 160). Edessa produziu grande cópia de literatura cristã siríaca, tanto traduções quanto escritos originais, e foi a Igreja com a Bíblia, liturgia, e literatura nessa língua que deveria estender para o oriente, através da Ásia.

Quer da Ásia Menor para o ocidente, quer de Edessa para o sul, as influências cristãs começaram a alcançar a Armênia. Aqui, também, teve lugar um movimento de massa, sob um outro cristão de nome Gregório, chamado "o Iluminador". Oriundo de uma família armênia nobre, deveu a sua religião a uma mãe cristã da Capadócia. A armênia estava lutando pela sua independência da Pérsia, e assim por qualquer mudança de religião deveria olhar, não para o oriente, para a Pérsia, mas para alguma outra direção. Isto deu a Gregório a sua oportunidade. Foi lançado na prisão, quase à morte, mas por volta do ano 300 tinha conquistado o reino da Armênia. A Armênia tornou-se então a primeira nação cristã (Edessa era uma cidade-estado) a fazer do cristianismo a sua fé nacional. Os ídolos foram destruídos, os templos transformados em igrejas, e mesmo alguns dos antigos sacerdotes converteram-se e passaram para o serviço da nova religião.

Descendo os rios Eufrates e Tigre, e para o oriente até o Mar Cáspio, espalhou-se este Cristianismo de Edessa, que falava o siríaco. Por volta do ano 225 tinham sido estabelecidos mais de vinte bispados. Nesse ano também o Império Persa (sasaniano) tinha sido reavivado, com o zoroastrianismo (Parsismo), um monoteísmo moral elevado, como religião do Estado. "Tu és o defensor tanto da Fé, quanto do país", disse o rei a seu filho; "o altar e o trono estavam unidos." Em 313 o recém-convertido imperador romano, Constantino, escreveu ao rei da Pérsia (um reino não dominado pelos romanos):

Folgo ouvir que os mais belos distritos da Pérsia são adornados com a presença de cristãos.

Esta carta bem-intencionada fez com que os persas suspeitassem e perseguissem os cristãos entre os seus compatriotas como possíveis agentes de Roma. No período de 339-379 diziam ter havido 16.000 mártires cristãos. A igreja ali naturalmente desejava ser independente da Igreja do Império Romano. Por volta do ano 410 o bispo de Seleuca, Ctesifo, foi reconhecido como Chefe (Católicos) da Igreja do Oriente. Esse é o nome que ela usa, embora outros muitas vezes a chamem "Nestoriana". Isto se dá porque mais tarde a independência foi muito mais reforçada por adotar modos de se referir a Cristo que haviam sido rejeitados no ocidente. Nestório, (bispo de Constantinopla, ano de 428) cria que ao falar-se a respeito de nosso Senhor, era melhor conservar separadas a sua humanidade e a sua divindade. "Eu separo as naturezas", dizia ele, "mas combino o culto" — uma diferença de expressão antes que de fé. Esta Igreja do Oriente, a despeito da insegurança na Pérsia, por volta de 635 chegaria a estender-se através da Ásia até a China (pág. 49).

A Arábia era de suma importância nas comunicações através da Ásia (pág. 8). Dizem que Panteno de Alexandria (pág. 23) fora à Índia no ano 180, e ali já encontrara cristãos, com o evangelho de Mateus em hebraico, deixado por São Bartolomeu. São Jerônimo acrescenta que o propósito de Panteno era "pregar aos brâmanes e filósofos", e assim parece crer que esta era a Índia real. A maioria dos eruditos pensa que a extremidade meridional da Arábia, o Iêmen, talvez seja o ponto mais avançado atingido por Panteno. O cristianismo, por certo, se estabelecera bem cedo ali, e por volta do ano 354 diziam que Teófilo, "o indiano", em caminho para a Índia converteu o Rei do Iêmen.

Em 210 alguém de Edessa escreveu uma obra imaginosa chamada “Os Atos de Tomé”. O livro conta que os doze apóstolos lançaram sortes para decidirem a que país iria cada um deles, e a Índia recaiu para o apóstolo Tomé. Chegou à corte do rei Gudnafar e de seu irmão Gad. Parece que esses nomes são históricos. Fala-se de um governador de parte do Punjab, Vindafarma, e um príncipe vizinho, Guda, viveram por volta do ano 50 A.D.. Mas realmente Tomé foi à Índia? Parece não haver evidência documentária além dessa fonte duvidosa.

Orígenes (c. 250) comentando sobre Mateus 24:14, diz que o Evangelho ainda não havia alcançado a China, nem a Índia. De outro lado, como vimos (pág. 8) eram realizadas viagens à Índia de terras ao redor da Palestina. A tradição entre os cristãos sírios do sul da Índia confiantemente afirma que foram evangelizados pelo Apóstolo Tomé. Todos os peregrinos medievais dos séculos 13 e 14 visitaram o suposto túmulo de Tomé em Mailapur, perto de Madrasta, e os colonizadores portugueses redescobriram esse túmulo em 1522. Tudo o que se pode dizer é que a missão de Tomé à Índia pode ser um fato, e as possibilidades pró e contra ela são quase que de igual peso. Entretanto, desde o final do 3° século começa uma evidência independente da chegada do cristianismo. Contam-nos que Davi, bispo de Basra, em 295 "foi à Índia onde evangelizou muitas pessoas". Isto teria sido por mar desde o Golfo Pérsico. No Concilio Ecumênico de Nicéia, em 325, um bispo se intitulou a si mesmo "João da Pérsia e da Grande Índia", e desse modo o cristianismo poderia ter atingido aquele país por terra, a partir da Pérsia. Em 354, uma embaixada enviada pelo imperador romano Constantino e chefiada por Teófilo, "o indiano", dizem ter visitado cristãos na Arábia, Etiópia, Socotra, Ceilão e Índia.

Uma tradição oral do sul da Índia afirma que no ano 345, cerca de 400 cristãos, chefiados por Tomé Cana (ou Tomman Kinan na língua local, a Malayalam), chegou com um bispo e diversos clérigos, e obteve permissão do rei de Malabar para se estabelecer naquele país e também uma carta de privilégios. Duas parcelas de evidência suportam essa tradição: primeira, a carta existia até 1544, e é descrita por Gouveia, um escritor português, sessenta anos mais tarde. Segunda, o ano 345 coincide com a mais severa perseguição na Pérsia (pág. 20), um tempo favorável para que emigrassem comerciantes, que mercadejavam com o sul da Índia, e que lá conheciam condiscípulos cristãos.

Cosmas, um negociante cristão de Alexandria, navegou pelo mar Arábico por volta de 520, e mais tarde escreveu:

Na ilha de Taprobana (Ceilão) há uma Igreja Cristã, clérigos e crentes, mas eu não sei se os há além desse lugar. Do mesmo modo no lugar chamado Male (Malabar) onde viceja a pimenta, e no lugar chamado Kalyan (perto de Bombaim) é eleito um bispo da Pérsia, bem como na ilha chamada Dioscoris (Socotra) no mesmo oceano Índico... com clero e uma multidão de cristãos... A ilha (Ceilão) também possui uma igreja de cristãos persas que lá se estabeleceram, e um presbítero que é designado da Pérsia e um diácono... mas os nativos e seus reis são pagãos.

Assim, no final de nosso período é certo que mercadores cristãos haviam levado a Fé, e os sacerdotes cristãos tinham-nos acompanhado, através da Ásia até as costas da índia e de Ceilão.

ÁFRICA:
Foi pelo Egito que o cristianismo entrou pela primeira vez no continente africano. Eusébio, (c. 311), encontrou uma tradição oral que afirmava que S. Marcos era missionário, e começou por "fundar igrejas na própria Alexandria". Os judeus constituíam metade da população dessa cidade, e havia muitos deles espalhados pelo Egito. Eram progressistas influentes, e talvez tivessem dado a primeira oportunidade a S. Marcos. Os fatos seguintes lembrar-nos-ão a importância do cristianismo grego no Egito: o fragmento do manuscrito mais antigo do Novo Testamento grego, c. 130, foi achado lá — e o manuscrito completo mais antigo vem de lá. Também o primeiro centro de cultura cristã foi o fundado por Panteno antes de 180, em Alexandria, com Clemente e Orígenes como seus sucessores. O cristianismo desde logo começou a ganhar pessoas daquela terra bem como as populações urbanas de língua grega, e foi feita para elas uma tradução do Novo Testamento em língua copta (Egito), provavelmente no séc. III.

Siríaco para o oriente, latim para o ocidente, e copto para esta parte da África — o cristianismo estava alcançando a língua do povo nesses três continentes. Nenhuma parte do mundo jamais experimentou perseguições tão tremendas. Na infância de Orígenes (c. 200) somos informados que o Egito estava produzindo "milhares de mártires". Todavia, o próprio Orígenes, em 250, podia escrever confiantemente:

Toda forma de culto será destruída, menos a lei de Cristo, única que dominará. Um dia triunfará por toda parte na medida que seus princípios dominem mais e mais as mentes dos homens, todos os dias.

Eusébio diz que nas perseguições de 311 viu "milhares de homens, mulheres e crianças" enfrentarem mortes cruéis "até que seus próprios executores se cansassem". Elas incluíam "os que se distinguiam pela riqueza, nascimento, conhecimento, e que todavia colocavam acima de tudo a fé em nosso Salvador". Aqui estava uma das áreas mais prontas para a mudança (312) a governo pró-cristão. Então a profecia de Orígenes começou a cumprir-se, e outras religiões desapareceram completamente. Em fins do século V a Igreja Egípcia, ou Copta, estava demonstrando muita independência de espírito sob seu chefe, o bispo de Alexandria.

No Egito superior, Antônio, um copta (c. 270), deixou sua aldeia natal e viveu como solitário (monge) no deserto. Bastante estranho, embora tivesse abandonado o mundo, foi uma das maiores influências da igreja do século IV. Em 311 subitamente apareceu nas ruas de Alexandria para incitar os cristãos a ficarem firmes na fé — e que poderiam fazer os perseguidores contra aquele que havia abandonado tudo? Apareceu novamente em 335 quando o perigo era a heresia. O próprio imperador Constantino escreveu-lhe como a um Pai em Deus. Em um tempo quando o Império Romano tinha adotado o cristianismo e muitos cristãos o eram apenas de nome, Antônio afirmava que o modo cristão nunca podia tornar-se fácil, porque Cristo exige tudo:

Ninguém que haja renunciado ao mundo pense que fez algo muito grande. Toda a terra, posta diante do infinito dos céus é mesquinha e pobre.

Este movimento, que se tornou em monasticismo, espalhou-se pelo oriente e pelo ocidente. Homens que buscavam a vida inteiramente entregue a Deus se tornaram monges. Desde que eram os cristãos mais devotados, foram os monges que se tornaram missionários. Pelos mil anos seguintes o cristianismo deveria espalhar-se principalmente pela obra dos monges.

O norte da África partilhou com o Egito a importância de ser o celeiro da Europa. As cidades da costa setentrional foram completamente romanizadas pelo Império Romano que dominava o Egito. Além dos colonizadores romanos, havia descendentes dos primeiros fundadores, tanto fenícios quanto judeus. O povo da região era berbere. Parece que o cristianismo se espalhou primeiro entre os colonizadores latinos da costa. Dos doze mártires do ano 180, onze traziam nomes latinos; o duo-décimo é fenício.

A Tunísia produziu os três maiores pais latinos, a saber: Tertuliano (f. 230), Cipriano (f. 258), e Agostinho (f. 430). Mártires e pais (da fé, pais apostólicos) mostram que o cristianismo norte-africano era fervoroso e devoto. Infelizmente, lá havia também alguns cristãos fanáticos e semeadores de discórdia. O cisma (divisão) chamado Donatista surgiu de divergências pessoais; foi continuado e acirrado por diferenças sociais e raciais — entre os colonizadores proprietários e os pobres berberes. O Donatismo é um velho exemplo de divisão minando a força do cristianismo. Uma igreja dividida e por isso mesmo enfraquecida não pode resistir no dia mau, o dia do aparecimento do Islã, no 7° século, que tomou conta da África.

O cristianismo (c. 330) entrou na África através do mar Vermelho. Edésio e seu irmão Frumêncio estavam em um navio que aportou a um porto do mar Vermelho. Todos foram massacrados, exceto os dois moços que se tornaram servos na casa real de Axum (mapa I), ganharam o favor do rei, e por ocasião de sua morte tornaram-se regentes do reino. Frumêncio encontrou cristãos entre os mercadores que negociavam em Axum, edificou uma casa de oração, e conseguiu alguns conversos. Mais tarde ambos tiveram liberdade de voltar para casa, mas Frumêncio foi ao bispo de Alexandria, Atanásio, e pediu--lhe que enviasse um bispo e clérigos a Axum. Atanásio respondeu: "E quem é mais apto que vós mesmo?" Frumêncio assim se tornou o fundador da Igreja Etíope, que (com a sua igreja--mãe, a copta) é a representante africana da igreja dos Pais. Diferentemente da copta, a igreja da Etiópia fica em uma região onde até hoje (antes de 1960, pois o livro foi traduzido da língua inglesa e publicado na língua portuguesa em 1961) o cristianismo é a religião nacional.

EUROPA:
Agora passaremos em revista o cristianismo no ocidente antes de Constantino; o cristianismo como religião do Império Romano; o cristianismo que sobreviveu ao Império Romano Ocidental; e a nova expansão no extremo noroeste.

(1) O Ocidente antes de Constantino. Quem foi o primeiro a trazer o cristianismo para Roma? O historiador não -cristão, Tácito (c. 116) explica a sua presença dizendo que a capital é uma sentina onde se amontoa toda espécie de imundície. No ano 49 o Imperador expulsou todos os judeus da cidade por causa de um tumulto anticristão (Atos 18:2). Alguns anos mais tarde os cristãos de Roma receberam a carta mais importante de todos os tempos, a Epístola de S. Paulo aos Romanos. Pelo fim do século a Igreja de Roma estava interessada a respeito da Igreja de Corinto, ainda, como no tempo de S. Paulo, uma congregação desordenada, e, por meio de um dos Clementes, escreveu para instigá-la a melhor disciplina. Em 154 o bispo de Roma chamou para Roma o velho Policarpo, bispo de Esmirna e discípulo de S. João, porque os cristãos da Ásia Menor e os de Roma divergiam entre si a respeito da data da festa da Páscoa. A opulenta Igreja Romana além disso estava enviando dinheiro para ajudar os cristãos dos Bálcãs, condenados a trabalhar nas minas. Essas ligações orientais não nos devem causar surpresa. Não apenas o cristianismo havia vindo do oriente, mas muitos cristãos de Roma eram, eles mesmos, de origem oriental, e até o 3.° século a sua maioria falava o grego. Entre os mártires do ano 163 em Roma, encontramos Justino, pregador peregrino, nascido na Palestina, convertido em Éfeso. Alguns dos outros prisioneiros disseram ao juiz: "De nossos pais recebemos esta boa confissão". E, quando inquiridos "Onde estão os vossos pais?", mencionaram lugares da Ásia Menor. O que Justino conta, o juiz também nos dá uma idéia do trabalho de um pregador, quando o cristianismo era um movimento subterrâneo:

Eu moro acima de um certo Martinho, na rua do Banho... Esta é a segunda vez que tenho estado em Roma. Não sei de nenhuma outra reunião senão da casa de Martinho. Se alguém desejava encontrar-se comigo, eu lhe transmitia as doutrinas da verdade.

Por volta do ano 200 havia uma tradução latina da Bíblia. Muito tempo antes disso, houve em Roma, cristãos de descendência romana, alguns muito notáveis. Tão cedo quanto a perseguição descrita no livro de Apocalipse (c. 95), Flávio Clemente, o primo do imperador, foi martirizado e sua mulher foi exilada. Cerca de 250 os cristãos eram tão numerosos que estavam divididos em sete distritos, com 46 presbíteros, e não menos de 1500 "a quem a graça e a filantropia do Mestre sustentam". No sul da Itália havia 100 bispos nessa ocasião. No norte os cristãos eram em menor número. Desse modo nossa maior impressão é de uma igreja de cultura grega, mas desenvolvendo disciplina romana, ganhando membros influentes, gloriando-se nas tradições apostólicas, e cônscia de suas responsabilidades como uma Grande Sé do ocidente (pág. 16).
Já citamos Justino a respeito de viajantes e comerciantes cristãos que levavam a sua religião consigo (pág. 16). Na Gália (França) vemos justamente isso — o cristianismo espalhando-se ao longo das rotas comerciais, especialmente nas cidades do sul e ao longo do vale do rio Reno. Entre 48 mártires de Lião e Viena em 177, há nomes latinos e gregos conjuntamente. O bispo Irineu, que foi pastorear o que restava do rebanho ferido, é um exemplo notável do espírito católico. Ele foi educado em Esmirna, onde se falava o grego, foi servir à Igreja em Lião, no extremo do império, em que se falava o latim, e aprendeu a pregar ao seu povo local em celta (gálico). Também ele foi discípulo de Policarpo (pág. 28) que foi um discípulo de S. João. Por isso vale a pena refletir sobre suas palavras:

A Igreja, embora espalhada por todo o mundo, guarda a Fé como se residisse em uma única casa; crê como se tivesse apenas um coração; prega como se tivesse apenas uma boca. E, embora haja diferentes línguas no mundo, a tradição é uma e a mesma.

S. Paulo tinha esperança de viajar pela estrada de Roma a Espanha. Pode ser que o próprio cristianismo tivesse vindo por essa estrada para as cidades romanizadas das costas do sul e do leste. A igreja da Espanha só produziu uma figura notável, Hósio, bispo de Córdova, que sofreu nas perseguições finais, mas que viveu bastante, até mais de 100 anos de idade (c.256-357). Tertuliano (c.I90) pretendia que "os lugares dos bretões não atingidos pelos romanos, estão sujeitos à lei de Cristo". Temos evidência segura desse fato na presença dos bispos de Londres, York e em uma outra sede no Sínodo de Aries, 314.

A Bretanha e a Espanha têm uma ligação inesperada com a vinda do primeiro imperador cristão. Constantino se encontrava casualmente em York em 306, quando morreu o seu pai real. Lá ele foi proclamado imperador, mas havia outros pretendentes ao trono. Constantino viajou pela Gália e Espanha. Então, em 312, antes da batalha decisiva com o seu último rival, justamente fora de Roma, ele viu uma visão da cruz e ouviu uma voz: "Com este sinal vencerásl" Considerou a sua vitória como devida ao Deus dos cristãos, e então mandou chamar o bispo Hósio, e pediu-lhe aconselhá-lo a governar como cristão. Foi talvez em Córdova, Espanha, que Hósio já havia começado a influenciar Constantino para a fé cristã.

(2) A Religião do Império. A nova situação sob o pró--crístão Constantino afetou todo o Império. Começou no ocidente, com o assim chamado Édito de Milão, 313, comunicando tolerância "para com os cristãos e todos os outros", com referência especial aos cristãos e à restituição de propriedades tomadas aos cristãos. Em 330 chegou o clímax: a fundação de uma nova capital, Constantinopla, cristã desde o princípio, na extremidade mais oriental do território europeu. De Constantinopla Constantino escreveu a um dos bispos:

Por causa dos grandes números dos que se uniam à Igreja na cidade que é chamada pelo meu nome... deve ser aumentado o número de igrejas. Ordeno 50 cópias das Escrituras... a serem escritas em pergaminho... com a menor demora possível. Podeis ter duas carruagens, e deveis enviar-me com elas um diácono para eu inspecionar, e eu darei um donativo generoso. Deus vos conserve, irmão.

Isto ilustra, até onde pode fazê-lo um só incidente, toda a nova posição: "Grandes números": o cristianismo, que antes era perseguido, havia se tornado moda. Novas igrejas: a construção de igrejas não apenas aumentou, mas tornou-se desde logo a mais importante de todas as construções. O interesse do imperador significava apoio dos recursos do Estado. Alguns se têm limitado aos males que o acompanham, e dizem que a conversão de Constantino fêz mais mal do que bem — cristãos nominais com padrões rebaixados, pompa exterior, interferência do estado. A situação mudada significa um novo conjunto de tentações. Como um movimento de minoria perseguida a Igreja tinha muitas vezes sido tentada a ser excessivamente mundana. Como Igreja do estado imperial era agora tentada a um mundanismo mundial.

O cristianismo agora tinha sido aceito como religião oficial por três áreas: na Ásia havia a Armênia; na África, a Etiópia; ao passo que o Império Romano cobria todas as terras do Mediterrâneo. Nos dois primeiros países seria conservado o depósito cristão, mas no terceiro, o depósito cristão tornar-se-ia a base da civilização européia. Os europeus, embora sobrepujados pelos árabes nos 7.° e 8.° séculos (pág. 37), e pelos mengóis nos séculos 13 e 14 (pág. 63), deveriam mostrar-se notáveis por se estenderem pelo mundo. Por eles o cristianismo não apenas deveria ser conservado: seria transportado.

(3) O Império Romano passa; a Igreja sobrevive: Mesmo nos 2.° e 3.° séculos os romanos se sentiam incomodados pelas tribos germânicas do norte do Danúbio e do leste do Reno. No 4.° século aumentou a pressão nessas fronteiras. No 5.° século as fronteiras cederam. Em 406 Jerônimo, então monge em Belém, escrevia:

Tribos selvagens em números incontáveis têm percorrido toda a Galiléia. Dos Alpes aos Pireneus, do Reno ao Atlântico, tudo tem sido devastado.. E a quem a espada de fora poupa, a fome dizima no interior... Eu não posso falar sem lágrimas.

Os bárbaros do norte já haviam sido influenciados pelo cristianismo. Por exemplo, no ano 264, um bando de godos pilhou a Capadócia, e levou cristãos consigo, pelo mar Negro, a fim de serem escravos:

Esses piedosos cativos, por seu intercâmbio com os bárbaros, conseguiram muitos para a verdadeira fé... Entre os cativos encontravam-se os ancestrais do próprio Úlfilas.
Úlfilas se tornou bispo dos godos em 341. Ele foi o primeiro a fazer uma coisa, que desde então tem sido feita por missionários em todas as partes do mundo. Para traduzir as Escrituras, teve de encontrar letras em que escrever uma língua não escrita até então. A sua tradução da Bíblia coloca o primeiro livro nas mãos dos povos da Europa setentrional. Não apenas os godos mas muitas outras tribos admiravam o império que elas estavam ameaçando. Em muitos casos adotaram o cristianismo porque pertencia a esta civilização superior. E assim, quando os godos capturaram a cidade de Roma no ano 410, e o povo na fuga da Itália perguntava porque o cristianismo não havia salvo o império, Agostinho pôde responder, em seu livro A Cidade de Deus, que os horrores da guerra não eram novos, mas o que era novo era que as maiores igrejas foram escolhidas e separadas como refúgios (para mulheres e crianças). Quem não vê que isso era por causa do cristianismo, é cego. O fato que tantos bárbaros eram cristãos, embora de espécie rude, significava que, quando o Império Romano Ocidental passou, permaneceu o cristianismo, o fundamento da nova civilização que lentamente seria edificada através da Idade Negra (500-1000).

(4) A Nova Expansão no Noroeste. Somente os mais setentrionais dos invasores ficaram totalmente imunes do cristianismo — os francos e os ingleses. Aqui, no noroeste, a Igreja podia parecer ter pouca chance de sobreviver. Todavia, nesse mesmo tempo de ruína, foi assegurada a sua sobrevivência. Em 405 Patrício, um jovem cristão inglês, foi levado à Irlanda por piratas pagãos, como escravo. Anos mais tarde ele fugiu, mas não devia ficar em paz em sua casa:

Eu pensei que ouvia a voz dos que viviam ao lado da floresta que está junto do mar ocidental, e clamavam com uma só boca: "Jovem santo, vinde e andai conosco mais uma vez"... Graças a Deus que após muitos anos o Senhor os atendeu conforme o seu clamor.
Foi como bispo-missionário para a Irlanda, 432-61. Enquanto os ingleses pagãos estavam incendiando igrejas, na Irlanda monges estavam sendo preparados, os quais, no século seguinte tornariam a atravessar o mar de Irlanda, para a conversão da Escócia, dos próprios pagãos ingleses, e de muitos da terra da Europa continental.

E ainda, no ano 496, o bispo de Reims batizou Clóvis, rei dos francos — em grande parte devido à influência de sua esposa cristã — com 3000 de seus guerreiros. Em seu sermão o bispo disse que eles estavam "adorando o que haviam queimado", a cruz, e "queimando o que tinham adorado", seus ídolos.

Dessas terras mais recentemente convertidas do extremo noroeste, o cristianismo logo deveria ser levado pelo norte da Europa, mais amplamente do que jamais havia sido antes.

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