IGREJA METODISTA DE VILA ISABEL
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Metodismo
Rio, 26/1/2008
 

A eclesiologia wesleyana... Uma Igreja que nasce do povo? (Dr. JosÚ Miguez Bonino)

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(Texto de Dr. José Miguez Bonino extraído do Capítulo IV do livreto "Metodismo: releitura latino-americana, publicado em 1983 numa co-edição pela Editora UNIMEP e a Faculdade de Teologia da Igreja Metodista/Editeo a partir de uma série de Conferências proferidas pelo seu autor na Semana Wesleyana em maio de 1882 na Faculdade de Teologia. A tradução do texto é de Adesses Antônio Oliveira Araújo)

Temos visto que, embora com suas ambigüidades, Wesley manifestou um interesse pela condição do povo pobre e buscou formas (basicamente assistenciais) de aliviá-la. Também tratamos de mostrar que sua intuição teológica, ainda que limitada pelos condicionamentos ideológicos e teológicos de sua época, propõe uma problemática frutífera para nossa reflexão teológica latino-americana. Porém, nem o Wesley “reformador social” nem o Wesley “teólogo” tocam o centro de sua preocupação e de seu trabalho. É na pastoral, com a qual responde às exigências do povo e aos problemas que estas suscitam para a igreja, que encontraremos o verdadeiro gênio do metodismo primitivo.

Como Wesley a concebe, a missão do metodismo não é outra que a de “levedar toda a massa” (da igreja) a fim de que se estenda “a santidade bíblica por todo o país”. Começa sua tarefa como pregador. Mas muito depressa se dá conta de que a necessidade pastoral excede o mero anúncio oral ou a conversão individual: Há que criar as condições e estruturas nas quais possa tomar forma concreta essa “santidade” que a Escritura exige na qual o novo “sujeito” que nasce com a conversão/regeneração cresça e frutifique. Por isso nos voltamos agora para a eclesiologia de Wesley, em busca de elementos que possam ser significativos para nossa situação. (1)


A ECLESIOLOGIA EXPLÍCITA DE WESLEY

Wesley não se preocupou por formular uma eclesiologia compreensiva. Para ele, bastava a que sua Igreja definia (a Igreja da Inglaterra). Por isso podemos resumir muito rapidamente suas afirmações eclesiológicas explícitas mais significativas. Parte frequentemente do artigo XIII dos “Trinta e Nove Artigos” e se detém na expressão “congregação de fiéis” (“faithful”) para destacar que se trata de uma “fé viva”, “uma segura confiança” e não meramente “crença” ou adesão formal. Ainda que a ênfase na fides qua não elimine a importância da “reta doutrina”, Wesley se inclina por um mínimo de exigência – aquelas doutrinas que são centrais para a mensagem – deixando um amplo campo para as “opiniões” diversas.

Entretanto, não se trata de uma visão puramente subjetivista. De maneira alguma exclui da Igreja aquelas que vivem sua fé um tanto formalmente, sem aquela experiência viva do Espírito, e segue mantendo a validade do batismo (infantil) como acesso objetivo à família da Igreja. A Igreja da Inglaterra (Anglicana) segue sendo para ele um lugar aberto onde a graça de Deus, objetivamente presente no ministério e nos sacramentos, se faz acessível aos homens a fim de conduzi-los à plena maturidade de santificação que é o verdadeiro propósito da redenção.

A atitude de Wesley no tema do ministério, intimamente ligada à sua relação com a Igreja Anglicana, corrobora e completa este quadro. Wesley, efetivamente, aceita a tríplice ordem de sua igreja – ainda que, com o tempo, chegue a considerá-la conveniente e legítima mas não “essencial”. Seu propósito é exercer seu ministério dentro da Igreja. Por isso trata por todos os meios de estimular em seus seguidores, e depois nos pregadores leigos que o acompanham, a assídua participação nos sacramentos e cultos da Igreja.

Quando a situação se torna tensa, insiste: “não nos separemos da Igreja... a menos que sejamos expulsos” (Works, 8, p. 408). A afirmação repete-se frequentemente e as ações são coerentes com elas. Mas também se deixa ouvir outro acento: “não podemos, em sã consciência, descuidar a presente oportunidade de salvar almas enquanto vivamos” (ibid., p. 281). Há um preço que não está disposto a pagar ainda pela unidade:

“...sei que Deus nos tem confiado uma dispensação de evangelho; sim, minha própria salvação depende de prega-la. Se, pois, não posso permanecer na Igreja sem deixar de fazê-lo, sem desistir de pregar o evangelho, me veria na necessidade de abandona-la ou de perder minha própria alma” (Works, 6, p. 408).

E isso o que finalmente ocorre: vacilantemente, Wesley consente em estabelecer uma igreja autônoma nos Estados Unidos e toma, na Grã-Bretanha, medidas com respeito a pregadores e sacramentos que conduzirão, inevitavelmente, à separação (que ele mesmo, entretanto, nunca consente).

Podemos assim resumir brevemente a eclesiologia explícita de Wesley:
1) Wesley modela a doutrina da Igreja com base na definição clássica da mesma em termos da fé, da pregação da palavra e da ministração dos sacramentos;
2) Entretanto, estes elementos se acham, em tensão na eclesiologia wesleyana: por uma parte, a fé viva – que quer dizer, uma fé consciente, provida do testemunho do Espírito, ativa no amor – é sublinhada como requisito de vinculação à Igreja; por outra, se reconhece uma comunidade mais ampla que esta qualificação, uma comunidade vinculada ao batismo e à eucaristia, ainda que só dotada de uma fé “formal”;
3) A mesma tensão se manifesta com relação à pura Palavra de Deus: se bem que Wesley insista na doutrina, particularmente no que diz respeito à mensagem a anunciar, está disposto a certa latitude em matéria de opiniões – deixando um amplo campo de divergências ainda dentro de suas próprias sociedades;
4) A dimensão de ordem eclesiástica entra subordinadamente em sua definição de igreja: aceita a ordem episcopal e os três graus do ministério de sua igreja e os considera os mais convenientes, escriturísticos e razoáveis, mas não os únicos de direito divino nem constitutivos da essência da Igreja;
5) Quando a estrita obediência à ordem ameaça a missão de Wesley crê haver recebido de Deus, não vacila na decisão.

Encontramos, pois, em Wesley, uma eclesiologia clássica protestante com elementos católicos fortemente sublinhados. Porém, tudo isso tem sido colocado no contexto de uma paixão evangelizadora e missionária. Na crise social e religiosa de sua época, Wesley chama a igreja para entrar na nova época que se abre como uma força de evangelização. Sua igreja não está em condições de responder a esse chamado e o conflito não pode ser evitado. Mas não é somente isto: a ênfase missionária introduz uma tensão nos próprios elementos da definição eclesiológica. Ainda sem plena consciência disso, Wesley coloca a totalidade do que constitui a Igreja como tal – a correção da doutrina, a prática sacramental e sobre tudo a ordem eclesiástica – a serviço da proclamação evangelizadora. Num sentido proclama na prática uma instrumentalidade da Igreja para sua missão. Tal impostação introduz uma tensão na definição clássica – protestante ou católica da Igreja, que está concebida em termos de sua realidade interior e não de vinculação com o mundo não crente. Wesley não percebeu a amplitude do problema teológico e prático que traçava. Conservador e “tory” que era, creu que todo seu movimento podia entrar no marco da concepção tradicional das coisas. A tensão ficou sem resolver-se teologicamente e praticamente: é a tensão entre uma definição introvertida e uma concepção missionária da Igreja. Esse problema segue sendo nosso problema (não só metodista) também hoje.


A ECLESIOLOGIA IMPLÍCITA

Em sua nota a Atos 5:11, Wesley oferece outra definição da Igreja: “uma companhia de pessoas, chamadas pelo Evangelho, inseridas em Cristo mediante o batismo, animadas pelo amor, vinculadas entre si por toda sorte de fraternidade e disciplinadas pela morte de Ananias e Safira”. A definição está tomada do Gnomon de Bengel, mas Wesley sublinha a expressão “unidas entre” si por toda sorte de fraternidade”, acrescentando-lhe “animadas pelo amor”. A insistência na fraternidade (ou “comunhão” = fellowship) como elemento básico de definição da Igreja aparece noutras passagens de Wesley, não tanto como definição teológica, mas como exigência pastoral, que depois sustenta bíblica e teologicamente.

Esta ênfase está plasmada na estrutura das organizações metodistas com suas “classes”, “grupos” (bands) e finalmente as “Conferências”. Tem-se assinalado frequentemente que esta organização se inspira nos grupos morávios (ainda que só os grupos, não as classes nem as conferências). Entretanto, estas eram principalmente meios de participação e expressão da experiência interior, as “Regras” wesleyanas para seus grupos refletirem um propósito diferente.

Efetivamente, a primeira parte das regras consiste em “proibições” que apontam para uma forma devida condizente com o Evangelho na situação imperante (tal como Wesley o entende): descuido do Dia do Senhor, embriaguez, regateio, vaidade, excessos. A segunda parte expressa a mesma preocupação, mas agora em forma ativa, como estímulo mútuo à ação do bem na sociedade, o serviço ao próximo: esmolas, conduta exemplar, tratamento correto com o próximo.

Finalmente, a terceira parte exorta à participação assídua na Igreja e aos meios de graça: culto público, celebração da Ceia do Senhor, reunião dos grupos, assistência diária ao ministério da Palavra, a leitura bíblica e a oração pessoal e familiar. O elemento de “mutualidade” caracteriza os “grupos” (“No ‘grupo’ cada indivíduo é meu monitor e eu sou monitor dele”). A dimensão pastoral, por outra parte, está presente das classes. De todos se requer um compromisso total. Wesley encontrou assim uma relação pessoal, face a face, numa sociedade que a indústria começava a despersonalizar.

As condições que se requerem dos membros e líderes não estão fora de suas possibilidades, ainda que requeiram dedicação. Assim, eles são construídos em agentes ativos e responsáveis de seu próprio crescimento.

Num parágrafo, quando trata de justificar esse sistema, Wesley nos dá um excelente resumo de sua “eclesiologia implícita”. Aqui o citamos in extenso:

“...só quando estamos vinculados em unidade (knit together) temos ‘o alimento dEle e crescemos que vem de Deus’. Não há momento algum em que o membro mais débil possa dizer ao mais forte, ou o mais forte ao mais débil: ‘não tenho necessidade de ti”. Por isso, nosso bendito Senhor não enviou os discípulos sozinhos quando eles se achavam em seu estado mais débil, mas de dois em dois. Quando se tornaram um pouco fortalecidos, não na solidão mas permanecendo com ele e uns com os outros, lhes ordenou esperar (não separados, mas ‘reunidos, juntos’) a ‘promessa do Pai’. E estavam ‘todos unânimes no mesmo lugar’ quando receberam o dom do Espírito Santo. No mesmo capítulo se menciona expressamente que, quando ‘foram acrescentados três mil almas a eles’, todos os que criam estavam juntos e perseveravam não só ‘na doutrina dos apóstolos’ mas também ‘na comunhão (fellowship) e no partir do pão’ e estavam ‘unânimes na oração”. Na mesma linha é a descrição que o grande Apóstolo dá de como foi ensinado por Deus, ‘para a perfeição dos santos, para a edificação do corpo de Cristo’ até o fim do mundo. Segundo o Apóstolo Paulo, todos os que tenham e chegar ‘à unidade da fé, a varão perfeito, à medida da estatura da plenitude de Cristo’ devem ‘crescer juntos nele, de quem todo o corpo, composto e bem ligado entre si (ou fortalecido) por aquilo que cada conjuntura provê, segundo a operação eficaz na medida de cada parte, dá crescimento do corpo para edificação do mesmo em amor’” (Works, 14, pp. 333-334).

A passagem mostra as dimensões do conceito wesleyano de “comunhão”. Em primeiro lugar, a necessidade de “estar junto” como condição do crescimento em Cristo. No cristianismo, insiste, só há uma “santidade social”, que se alcança por uma contribuição mútua ao crescimento conjunto – isto é para Wesley, caracteristicamente, tanto uma verdade escritural como uma constatação prática. Em segundo lugar, esta comunhão é pastoral e dinâmica. Não se trata do mero consolo espiritual e da participação das mútuas experiências – o elemento predominante nos grupos morávios – mas de crescimento, mútuo estímulo para fazer o bem e atenção mútua. Em terceiro lugar, e por último, a comunidade deve ser concreta, organizada e visível – “num lugar”, “estar juntos” – sem descuidar os elementos materiais: a contribuição monetária para as necessidades de todos e para a caridade com os de fora. Finalmente, a comunidade mesma é um elemento de evangelização; a comunidade é parte do processo missionário; passando de caráter de “cenáculo” que tem a comunidade morávia para o de “quartel” a serviço de toda a Igreja e, mais ainda, a serviço de toda a população. Missão e comunidade se unem, e este é outro elemento constitutivo da eclesiologia wesleyana.


A RENOVAÇÃO DA IGREJA

Agora gostaríamos de explorar crítica e construtivamente a significação desta prática pastoral e eclesiológica esboçada em Wesley, perguntando-nos por seu significado atual: a renovação da Igreja, a missão no mundo e o ecumenismo. Discutiremos os dois primeiros temas nesse capítulo, deixando o último para o capítulo seguinte.

A tradição protestante clássica (assumida, de certa maneira, pela Igreja Católica Romana na teologia conciliar) entende a renovação da Igreja como obra da Palavra de Deus: só esta pode devolver ao rosto da Igreja a sua verdadeira imagem. Na tradição pietista a renovação é fruto de um renascimento interior do crente e de uma renovação na vida prática. No primeiro caso, o caminho é a submissão à Palavra, não meramente como a letra da Bíblia mas como a mensagem do juízo e da misericórdia de Deus. No segundo, não se trata tanto da apropriação do conteúdo objetivo da Palavra como da qualidade do fervor e da piedade cristã: não basta “retornar” à Palavra, é preciso “avivar” a fé. Nada seria tão insensato como opor entre si ambas as visões ou estabelecê-las como disjuntiva. A oposição entre “reforma” e “avivamento” gera corrupção teológica: uma oposição entre a segunda e a terceira pessoas da Trindade, cuja atuação é isolada e contraposta. E por sua vez, cria-se uma corrupção na prática – uma ortodoxia rígida, vazia de vida, “fogo pintado na parede”, no dizer de Wesley, ou melhor, um Espírito que atua só subjetivamente, confundindo-se com as emoções ou com um esquema de normas morais que habitualmente refletem com demasiada exatidão o ideal moral da época, ou as necessidades ideológicas do sistema.

Wesley recusa-se a dissociar os elementos que representam ambas as tradições – os objetivos, como a Palavra, os sacramentos, a ordem; e os subjetivos, como a experiência, a santidade interior, a meditação, a comunhão fraternal. A “ecclesiola” (comunhão concreta) é sua forma de vincular concretamente ambos os elementos. Por usa vez, imprime-lhe um caráter ativo: o grupo é uma reserva de “comprometidos” (compare-se o serviço de Pacto), dispostos a penetrar em situações novas, a escutar ordens novas de Deus. É a escola de um apostolado leigo, na qual o crente não se instala numa salvação obtida mas se alista numa missão que lhe exige um constante crescimento pessoal e uma permanente relação com os demais.

Potencialmente temos aqui o que Leonardo Boff tem dito das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), uma “re-invenção da igreja”, a dinâmica de uma igreja que nasce “de baixo” – não como se tem dito numa crítica superficial, como se pretendesse uma igreja formada pelo puro quefazer humano, mas nascida do Espírito Santo a partir da vida comunitária do povo crente. Mais ainda, dada a composição social do metodismo primitivo, os grupos metodistas poderiam ter vindo a tornar-se um poderoso elemento de transformação social, alimentando o nascente movimento operário e sendo igualmente alimentado por ele. Estas promessas só se insinuaram debilmente como tendências e em pouco tempo resultaram frustradas. Conspiraram para isso fatores externos e internos, certamente vinculados entre si. A análise dos primeiros escapa às nossas possibilidades neste momento. Dos segundos, creio ser possível analisar três que me parecem decisivos:

A) Em que pese a importância que os leigos tiveram na vida do metodismo primitivo, Wesley nunca lhes concedeu um papel verdadeiramente decisivo na condução do movimento, tanto pela autoridade quase ilimitada que exerceu pessoalmente durante sua vida como pela estrutura “piramidal” que deu ao que seria a Igreja Metodista; o pregador leigo foi um agente, mas a condução foi elitista e clerical;

B) O conservadorismo político de Wesley, seu temor de toda desordem ou perturbação, transmitiu-se à condução do movimento metodista; quando se insinuaram tendências críticas, quando certos líderes leigos vincularam-se a linhas sindicais mais radicais, a liderança metodista, por persuasão ou repressão, os dispersou e não permitiu que sua influência operasse sobre a massa do metodismo – carentes de uma teologia verdadeiramente profética e de uma compreensão dos fatores estruturais, as tendências mais comprometidas não puderam resistir à rápida marcha da Igreja Metodista para uma opção de classe burguesa;

C) Na Inglaterra do século XIX que construía rapidamente seu império, as energias metodistas se voltaram para a obra missionária, desprendendo-se da problemática interna de sua própria sociedade (2).

Devemos deixar de lado qualquer julgamento anacrônico de um fenômeno histórico que deve ser relacionado com seus próprios parâmetros. Mas interessa, sim, re-pensar esse processo em nossa situação, na qual aparecem modelos eclesiais que guardam notáveis analogias com aquele. As deficiências de ordem teológica e de compreensão sócio-analítica que subtraíram possibilidades ao metodismo numa importante conjuntura histórica não deixam de insinuar-se também hoje, ao mesmo tempo que também se deixa ver o potencial de renovação transformadora da Igreja e na sociedade de nossos movimentos.

Os temas desta reflexão são necessariamente dois: a problemática eclesiológica proposta por uma igreja que “nasce de baixo”, na qual o povo é sujeito eclesial ativo, e a relação entre renovação eclesial a partir do povo (e mais especificamente do povo pobre e oprimido) e da transformação da sociedade. Em ambas as problemáticas, tanto o êxito como as debilidades do movimento metodista primitivo tornam-se valiosos para nós.


IGREJA E RENOVAÇÃO HUMANA

A renovação wesleyana toca outro ponto crucial: a relação entre Igreja e Missão. Na tradição da igreja “constantiniana”, que dizer, a igreja reconhecida e situada na estrutura política e social, o corpo eclesiástico começou a ser definido cada vez mais em termos jurídicos e institucionais. Isso ocorria, por uma parte, à semelhança da estrutura estatal de que fazia parte, e por outra, pelas próprias necessidades inerentes ao fato de operar, em alguma medida, como o “órgão” religioso de uma estrutura total de poder.

Na Inglaterra Hannoveriana as discussões eclesiológicas centraram-se sobre esse tema: o problema dos “limites” da Igreja, a saber quem são os sujeitos legítimos de autoridade. Inclusive os elementos objetivos – pregação, culto, sacramentos – tendem a ser considerados principalmente de maneira formal, mais em termos de sua “legitimidade”, “autorização” e “validade” que pelo seu conteúdo como realidade espiritual.

A situação histórica, entretanto, modifica-se: no mundo moderno, a autoridade da Igreja em termos legais é ineficaz. Tanto para a burguesia que surge como para as massas proletárias, num mundo que seculariza-se, pouco importa quem é a “legítima autoridade” na Igreja. Se a religião há de ter algum peso será por sua possibilidade de responder às necessidades percebidas pelo homem. Por isso nasce o metodismo e por isso, ante a incapacidade da Igreja da Inglaterra de compreender a nova problemática, se produz a ruptura.

Mas a circunstância histórica envolve também um caráter teológico. A Igreja, de fato, em termos bíblicos, é um momento de misericórdia de Deus que se estende até o homem, um movimento de Deus em Jesus Cristo, pela obra do Espírito Santo, para a renovação da vida humana, uma “missão” divina através da instrumentalidade ativa de um povo escolhido para ser “testemunha”. Quando a Igreja é concebida nestes termos, as questões estruturais não desaparecem nem se tornam irrelevantes, porque esse movimento de Deus para a humanidade é concreto e visível, incorporado numa humanidade e numa história, e portanto sob as condições de existência institucional e de fator social. Mas cobram um sentido distinto, sim, porque são “relativizadas” enquanto “relacionadas”: não são fins mas os “modos” da ação de Deus na humanidade indicados por Deus e, portanto, inerentes à missão.

É evidente que Wesley não percebeu isto teologicamente. Sua definição da Igreja, como temos visto, é tradicional. Mas notamos como a visão evangelizadora rompe os modelos da definição tradicional, subordinando, com efeito, a estrutura jurídico-institucional à proclamação da mensagem. Talvez o teólogo americano Olin Curtis (1815 – 1918) seja um dos poucos metodistas que tem tentado resumir a doutrina da Igreja com base no impulso missionário concebido como a dinâmica da graça de Deus que busca o homem. Curtis situa a Igreja no movimento que parte do propósito universal da expiação – o eixo central da igreja – e a realidade escatológica do Reino, onde Deus há de reinar na plena manifestação de sua santidade soberana, sobre o cosmos inteiro, redimido para ser espelho de seu próprio ser.

Nesse movimento, a Igreja é “o laboratório do Reino”, o lugar onde o alcance cósmico da expiação se faz visível na busca e na concepção da fé.

Não nos interessa, agora, seguir o pensamento de Curtis que, influenciado pelo hegelianismo que havia bebido de seu mestre Martensen e pelas circunstâncias eclesiásticas de sua época tende a exagerar as exigências em favor da Igreja, a qual vê quase como a “encarnação” do Espírito na História. Mas é preciso destacar duas coisas: em primeiro lugar, a vinculação entre Reino e Igreja, fazendo desta última um instrumento do primeiro e, como conseqüência, o estabelecimento de uma unidade entre historia da salvação e história humana. Nem Curtis muito menos Wesley, trabalharam estes temas com profundidade. Se o tivessem feito, ter-se-iam visto obrigados a tratar de “ler” a história contemporânea à luz desse “propósito universal” e buscado interpretar concretamente o que significava ser “laboratório do Reino” à luz dessa leitura.

A evangelização, reconhecidamente a medula de toda a obra wesleyana, teria alcançado, em tal caso, uma dimensão mais abrangente, ultrapassando o âmbito “religioso” para significar não como mera conseqüência mas intrinsecamente – como convite a participar no “laboratório de Reino” – um compromisso com a renovação da vida humana em todos seus aspectos.

As pequenas comunidades seriam nesse caso, um sujeito eclesial ativo, em cujo seio se gestam as visões sob a inspiração da Palavra, numa comunhão ativa e em solidariedade com o mundo, e se inspiram e se promovem as tarefas que impulsionam a cidade humana em direção à realidade escatológica que interpela e desafia – o Reino.

Creio que é nesta direção que buscamos nós, hoje, na América Latina, nossa articulação eclesiológica .


NOTAS
1) Nesta mesma Cátedra tratei de analisar os aspectos mais importantes de eclesiologia de Wesley, em 1964. Por isso não nos voltamos aqui sobre o conjunto de temas eclesiológicos, mas apenas compilamos alguns elementos.

2) Esta é a tese defendida por Semmel na obra mencionada. Ainda que talvez não tenha o peso decisivo que lhe adjudica o autor, seguramente se trata de um fator importante, e a evidência que Semmel acumula em defesa de sua esse não deixa de ser significativa.

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