IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Páscoa
Rio, 20/3/2008
 

A Páscoa - sua celebração no tempo de Jesus

Bispo Paulo Lockmann


 


Veremos agora o referencial em que se constrói a tradição pascal no Novo Testamento, assim como as linhas diretas que nos vem do Antigo Testamento. “...Eis o Cordeiro de Deus...”. Esta saudação, que é introdutória, mas também didática e intencional, mostra o esquema pascal presente em João desde o início do evangelho. Uma das teses do evangelista é exatamente esta: Jesus é o Cordeiro da Páscoa. Vemos assim a importância que o tema pascal tem na história da redação dos evangelhos. A celebração. A celebração judaica da Páscoa e a teologia nela implícita, vão servir de pano de fundo à formação do Querigma Pascal da Igreja. A razão pela qual o Querigma (pregação, anúncio) primitivo da Igreja está profundamente centralizado na Páscoa, é porque, tanto a tradição bíblica como nos escritos rabínicos da época de Jesus, é na Páscoa onde ocorrem os eventos importantes da história de Israel. Enquanto Ezequias celebrava a Páscoa com Isaías e o povo, o anjo do Senhor destruía os exércitos de Senequeribe (2Rs 19:35-37, Is 37:36-38 e 2Cr 30); na Páscoa que Ester e os judeus jejuaram, Hamã, o inimigo dos judeus, caiu em desgraça diante do rei Assuero (Ester 4:14 a 5:6); o levante de Matatias, o Macabeu, também ocorre em função da proibição de celebrar a Páscoa, por ordem de Antíoco IV. Segundo os escritos da Apocalíptica Judaica, era na Páscoa que o juízo de Javé cairia sobre Edom e as nações pagãs da terra, e que o livramento de Israel aconteceria.

Por tais razões, na época de Jesus, na Páscoa, a Guarda Romana era dobrada, tendo em vista que muitos levantes de cunho messiânico ocorreram durante esta festa nacional. Nesta época vários escritos rabínicos sublinhavam ser na Páscoa o espaço de manifestação do Messias. Por esta razão que até nos dias de hoje, entre judeus praticantes, reserva-se um lugar à mesa pascal, para Elias, o profeta precursor, inclusive um cálice é servido a ele com vinho, e a certa altura da celebração, justamente quando o terceiro cálice ou o cálice da bênção é bebido, a porta é aberta, com o fim de permitir a entrada de Elias, ao mesmo tempo são lidas passagens apropriadas e que predizem a destruição das nações pagãs (Sl 79:6; Sl 69:24-25). O Banquete Pascal é também o paradigma (modelo, padrão) da reunião final dos justos no Reino de Deus (Mc 14:25, Lc 15:24).

Na época de Jesus, devido à opressão estrangeira, cada Páscoa era aguardada com grande expectativa, pois nela poderia manifestar-se o Messias Libertador de Israel. Na escola rabínica de Hilel, avô de Gamaliel, mestre de Paulo e contemporâneo de Jesus, afirmava-se que o Messias deveria vir entre 14 e 15 de Nisan, por ocasião do sacrifício do Cordeiro Pascal, inclusive fatos extra-ordinários deveriam marcar este momento. Nos escritos de Qunrâm é durante esta celebração que deveria ocorrer à vinda do Mestre da Justiça. Em plena guerra diz: “...enquanto lutam os filhos da luz, os sacerdotes celebram o sacrifício do Cordeiro de Deus por todo o resto santo de Israel, pois será o dia da vitória do Senhor”.

Na Palestina do século I, todo israelita em condições, e que não estivesse distante de Jerusalém mais de 15 milhas, deveria ir obrigatoriamente a Jerusalém. O Templo transformara-se desde a reforma deuteronômista o centro da Páscoa, que, contudo não se limitava a ele. Não apenas os Israelitas próximos de Jerusalém compareciam a festa, mas de toda Diáspora judaica vinham pessoas para a festa. Para se calcular o número de participantes, com base na informação de Flávio Josefo, o historiador, segundo o qual, Cestius tendo feito um recenseamento a fim de convencer Nero da importância de Jerusalém, dá o número de cordeiros sacrificados, por ocasião de uma festa pascal, que seriam 256.500, e que, admitindo-se 10 pessoas para cada um, daria uma população de 2.700.200. Sem dúvida tal população na ocasião da festa da páscoa, fazia com que grande parte acampasse fora dos muros da cidade. Com isso o comércio todo tomava grande impulso nesta época, inclusive no Templo (Mt 21:12-13; Jo 2:13-17). Isto se tal número mencionado fosse real, o que nos parece bastante imprevisível.

Os que se alojavam dentro dos muros eram gratuitamente hospedados e, em troca, deixavam aos seus hospedeiros, as peles dos carneiros pascais e os vasos de que se utilizavam nos serviços sagrados.

Os preparativos iniciavam-se até um mês antes. Rituais de purificação e outros arranjos preliminares eram feitos segundo os ensinos dos Rabis. No sábado anterior à festa, o Grande Sábado, deveriam fazer orações e ritos especiais, tudo com vistas à festa. No dia 10 de Nisan o cordeiro do sacrifício era escolhido.

Na semana da festa pascal todas as vinte e quatro turmas de sacerdotes ministravam no Templo e repartiam entre si o que lhes tocava dos sacrifícios e dos pães da proposição durante a festa.

Logo pela manhã do dia 14 começava a Páscoa. Na Galiléia nenhuma outra obra era feita durante todo aquele dia; na Judéia o trabalho continuava até o meio dia, sendo de notar, contudo, que embora nenhuma nova obra devesse ser começada, a que estivesse adiantada podia ser concluída. Só em Jerusalém podia-se sacrificar e comer o cordeiro pascal. Outra proibição era a de comer coisas fermentadas. O fermento era todo jogado fora até, no máximo, às 12 horas do dia 14 de Nisan. O cordeiro pascal deveria ser comido por no máximo 20 e no mínimo 10 pessoas. O grupo que participou da ceia com Jesus era composto dele e dos 12, seguindo de perto a tradição. Além do cordeiro, compunha a refeição pascal: vinho, pão, verduras, ervas amargas, marmelada e frutas, tudo com vários condimentos.

O banquete da páscoa transcorria da seguinte maneira: começava com o erguer do primeiro cálice, pelo chefe da família ou grupo, que pronunciava a seguinte fórmula de ação de graças “louvado sejas tu, Javé, nosso Deus, Rei do Mundo, que criaste o fruto da videira”. A seguir tomava-se a entrada da refeição: verduras e ervas amargas, junto com uma sopa simples. Enquanto não se servia o banquete principal, o segundo cálice era servido aos participantes. Depois então o líder dava início a liturgia da páscoa propriamente dita. Uma criança ou outro participante perguntava: ”Por que estamos celebrando esta refeição?”. O chefe da casa respondia com o relato da saída do Egito. O texto usado mais freqüentemente era (Dt 26:5-11), acompanhado de devida interpretação. Ênfase especial era posta no cordeiro pascal, que lembrava a misericórdia de Javé, e também nas ervas amargas, que lembrava o sentido amargo da escravidão sob jugo do Faraó e, enfatizava-se ainda os pães ázimos, os quais lembravam à rápida libertação do Egito. Depois desta liturgia vinha então o banquete.

A ÚLTIMA CEIA NO QUADRO DA TRADIÇÃO PASCAL

No Cristianismo primitivo, a tradição referente à última ceia que Jesus fez com seus discípulos foi conservada e transmitida no quadro litúrgico da comunidade. Foi Paulo o primeiro a redigir esta tradição em resposta aos problemas surgidos em Corinto. Paulo começa a citação com palavras análogas às de Jesus, e as enquadra no kerigma da morte e ressurreição de Jesus. Diz ele:: “Porque eu recebi do Senhor o que também entreguei-vos”. Ele quer sublinhar com os dois verbos receber/transmitir (ou entregar), os mesmos termos do início de 1ª Coríntios 15. Com estes termos, os escribas hebreus costumavam conotar o ato de receber e transmitir uma tradição que passa de uma geração a outra: “Moisés recebeu a Lei no Sinai e transmitiu a Josué, e Josué aos anciãos, os anciãos aos profetas, e os profetas aos representantes da grande sinagoga” (Mishná Abot I). Em Paulo a matriz da tradição é o próprio Senhor, por ocasião da última ceia com os discípulos. Nas frases da celebração da ceia ressoa para Paulo e a comunidade cristã primitiva a voz do Senhor, ou seja, sua palavra viva.

Também os evangelistas pressupõem tal tradição da última ceia, nas inserem-na no contexto mais vasto da história da paixão.

Após o texto de Paulo quero sublinhar apenas o de Marcos, (Mc 14:22-24), por ser certamente o seguinte em antiguidade.

Vemos que o texto de Marcos coincide em muitas coisas com o de Paulo. As diferenças estão nas palavras “e atribuem-lhes” acrescentadas por Marcos. Além disto, Marcos não diz “deu graças”, mas “abençoou”, “pronunciou a oração de bênção (ou de louvor) (enlouguesas)”, era este o modo usual, no judaísmo, de referir-se à oração da mesa, enquanto que “deu graças” (encharistesas – donde a designação posterior de eucaristia dada à Ceia do Senhor) é uma alocução alternativa judaica ou um neologismo cristão. Jeremias menciona ainda o caráter de Aliança Pascal que Marcos dá à sua narrativa, através do pão e do vinho. Além disto, ele defende a origem semítica do relato de Marcos, onde nos quatro versículos ele aponta 24 semitismos (Veja o opúsculo de J. Jeremias sobre a Eucaristia publicada pelas Edições Paulinas).

Finalmente, o relato de Marcos tornou-se referencial para os evangelistas Mateus e Lucas. Sem dúvida a tradição sinótica viu a última ceia na perspectiva de uma refeição pascal, haja vista o envio dos discípulos antes para prepará-las (Marcos 14-12). Esta preparação visava que o lugar da celebração fosse revistado a fundo para livrá-lo de todo resto de pão fermentado. Mas também tendo em vista que a celebração devia ser celebrada dentro dos muros da cidade, tinham de preparar o lugar. Lucas possivelmente teria usado outra fonte dada a amplitude de seu relato.

Em face destas intenções dos textos de Paulo (e também de Marcos) vemos que eles a interpretou através dos símbolos desta última ceia, o acontecimento da morte e ressurreição. Por isto que Paulo diz “todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice anunciais a morte do Senhor, até que ele venha” (1Co 11:26).

Deste modo a Ceia para o cristão é uma refeição salvífica, pois entende o anúncio da morte como uma proclamação de salvação, ou libertação conforme era a refeição pascal israelita. Semelhantemente esta ceia litúrgica, é um memorial, vide e o que é dito no relato de Paulo (1Co 11:24) “Em Memória de Mim”. Lembra-se de alguém significa, na linguagem bíblica, ser-lhe gracioso (cf. Lc 23:42; Sl 74:2) a não ser que sejam lembradas as faltas, em cujo caso as conseqüências são terríveis (Sl 25:7). Concluindo, “Em Memória de Mim” em (1Co 11:24 e Lc 22:19), deve significar que a comunidade reunida para o partir do pão roga a Deus que “ lembre seu Messias”, como na antiga Pesah. Esta memória era antes de tudo, memória do sacrifício do “Cordeiro de Deus” oferecido uma vez para sempre; a páscoa cristã; que tira os pecados do mundo.


PAIXÃO E RESSURREIÇÃO NO CENTRO DA TRADIÇÃO
PASCAL DA IGREJA

Os relatos das obras e palavras de Jesus assim como sua paixão e morte, sofreram inevitavelmente a influência da fé. A comunidade mais antiga de Jerusalém, em breves fórmulas, exprimia a fé comum de que a Paixão do Messias se realizou pelos nossos pecados, “segundo as escrituras”, diz Paulo (1Co 15: 4).

A morte e paixão de Cristo é a chave para a compreensão não só de alguns textos como do “Servo Sofredor”, mas de toda a escritura. Sendo Cristo a chave para a compreensão do Antigo Testamento, no entendimento do cristianismo primitivo. É natural então que os relatos de sua paixão e morte e ressurreição sejam usadas “testimonias”, as coleções de textos do Antigo Testamento.

A narração da Paixão – uma crônica antiga – na quais as primitivas comunidades cristãs relatavam os sofrimentos de seu Senhor. Começava com sua prisão. Seguia-se o processo diante de Pôncio Pilatos e, por fim, havia a cena da crucificação e da morte de Jesus. Não havia apenas está crônica difundida na comunidade primitiva. Como vimos, o relato da última ceia fazia parte destas crônicas orais, que circulavam entre o povo.

O relato da última ceia foi, juntamente com o da unção em Betânia, introduzidos entre as crônicas da paixão e morte, sendo que somente Lucas não insere este episódio entre a paixão e morte.

Antes de mais nada, é preciso notar que a fé cristã nomeia cruz e ressurreição de Jesus como acontecimento unitário sobre a qual se fundamenta a nossa salvação. Só se pode compreender devidamente a morte de Jesus e a sua ressurreição, se se considerarem estes fatos como pertencentes a um mesmo âmbito e ligados por uma relação estreitíssima e mútua (1Co 5:7-8). De fato, exatamente porque Cristo foi ressuscitado da morte, está inerente à sua morte uma força expiadora e os pecados são perdoados (cf. 1Co 5:17). Sem a páscoa, a sexta-feira santa seria apenas morte. Mas ao mesmo tempo, na primitiva profissão de fé cristã, sublinha-se que o Senhor ressuscitado e glorificado se identifica com o Jesus histórico que morreu na cruz por nós (1Co 5:7). Por isso a comunidade cristã, quando informa sobre a paixão de Jesus, não pretende contar simplesmente um episódio do passado, já bastante afastado no tempo e que não teria nenhum vínculo imediato com o presente. Ele relata tal acontecimento porque aquele Jesus que percorreu o caminho da cruz, é proclamado o Senhor, por causa de sua ressurreição (Atos 2:36).

A ressurreição é que rompe o escândalo da cruz, visto que para os judeus o Messias morrer numa cruz era uma afronta às suas mais aceitas tradições.

Graças aos modernos estudos bíblicos, é que hoje sabemos haverem existido nos tempos de Jesus, pelo menos três idéias messiânicas. Nos círculos farisaicos e no povo hebreu em geral se esperava um rei consagrado que pudesse aparecer como um segundo David e restituir o esplendor de Israel, outros esperavam um profeta como Moisés ou um sumo sacerdote do fim dos tempos, que purificaria Israel prepararia um tempo novo. Completamente diverso era o enfoque apocalíptico, que se voltava para o céu de onde deveria vir, descendo das nuvens, o Filho do Homem (Daniel 7: 10), para o castigo dos ímpios e a libertação dos judeus. A idéia de um Messias sofredor era, para muitos exegetas, completamente desconhecida nos tempos de Jesus. A este respeito temos mais recentemente a tese do professor Ricardo Pietrantonio, sobre o Messias Ben Efraim do Evangelho de João.

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