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Reforma Protestante
Rio, 25/3/2008
 

A Reforma Protestante (Duncan Alexander Reily)

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(Material extraído das lições de nº 13 e 14 da revista Em Marcha com o tema "A História da Igreja", escrita pelo Duncan Reily e publicada em 1988 pela saudosa Imprensa Metodista).


I - A IGREJA EXIGE UMA REFORMA

Os credos mais usados no mundo cristão são o Niceno e o Apostólico. Ambos contêm um artigo sobre a nossa fé na Igreja. O credo apostólico, na sua forma mais primitiva, diz apenas: "Creio na Santa Igreja" (Nós, Metodistas, afirmamos: "Creio na Santa Igreja de Cristo, na Comunhão dos Santos"). O credo chamado Niceno, aceito ainda pela Igreja Ortodoxa, diz: "Cremos na Igreja una, santa, católica e apostólica". Em ambos os casos, a Igreja é objeto de nossa fé. Ela é tida como algo mais do que um mero ajuntamento de homens, mulheres, jovens e crianças. Ainda que tenhamos dificuldade de definir o que pensamos, cremos que há um elemento divino na Igreja. Falamos em Igreja como "Corpo de Cristo" e "Povo de Deus", o que deixa clara a dimensão sobre-humana da Igreja.

Lemos no Evangelho que é Jesus quem edifica a Igreja e que nem as portas do inferno hão de prevalecer sobre ela (Mt 16.18). Na segunda lição desse caderno aventuramos a definição de Pentecoste como a renovação de aliança entre Deus e seu povo, sem as velhas limitações nacionais e raciais, entendendo "povo" como Igreja (cf. I Pe 2.9-10).

Mas o Novo Testamento deixa muito evidente que o elemento divino nem sempre domina. Paulo costuma endereçar suas epístolas aos santos em determinado lugar (Rm 1.7; I Co 1.2; II Co 1.1; Ef 1.1; Fp 1.1; Gl 1.1, etc), mas isto não o torna cego aos deslizes destes "santos".

Na sua primeira carta aos Coríntios, já no primeiro capítulo, ele condena suas dissensões e espírito sectário (I Co 1.2) e ele igualmente condena a impureza sexual (I Co 5.1), o litígio entre os irmãos (I Co 6.1 ss), desordem e desamor na Ceia do Senhor (I Co 11.17-22). Na sua Epístola aos Gálatas ele chama Cefas (Pedro) de "coluna da Igreja" (Gl 2.8) e logo em seguida conta que teve que resistir Pedro na cara, por causa da sua quebra de comunhão com os cristãos gentios (Gl 2.11-14). Um exame das Sete Igrejas da Ásia (caps. 2 e 3 de Apocalipse) logo revela que, ao lado das qualidades, todas as Sete, menos as de Esmirna e de Filadélfia, também apresentam graves defeitos e falhas. Tudo isso significa que nem mesmo nos tempos apostólicos a Igreja era tão perfeita como gostamos de pensar.

Ao longo da história, a Igreja tem que estar alerta para ouvir palavras como aquelas proferidas à Igreja de Éfeso: "... deixaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, donde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras" (Ap 2.4-5).

Uma das coisas animadoras na história da Igreja é exatamente que ela tem freqüentemente atendido à voz do seu Senhor em profundo arrependimento e assim tem experimentado profunda renovação. Aliás, é provável que em cada época de profunda decadência tenha havido movimento paralelo de renovação.

Alguns destes momentos poderão ser mencionados com proveito. A Igreja sofreu muito nas mãos dos imperadores perseguidores dos primeiros séculos. Já nos referimos à feroz perseguição começada por Décio e que durou aproximadamente dez anos. Mas, depois, a Igreja experimentou 40 anos de paz, durante o que igrejas cristãs (templos) foram construídas e em que muitos aderiram à igreja, nem sempre com a devida preparação catequética. Ser cristão (tornar-se membro da Igreja) não era uma coisa especialmente heróica. O resultado foi que a qualidade geral da vida e devoção dos cristãos baixou sensivelmente. Frente a este cristianismo medíocre, surge um Antão e um Pacômio que aceitam o desafio de um cristianismo heróico, exigente — aceitam o desafio de Jesus ao jovem rico, vendem tudo o que têm e, como eremita e monge, procuram dedicar-se integralmente a Cristo!

Mas o próprio sistema monástico*, que visa chamar homens e mulheres para uma devoção total a Cristo, carece de renovação de tempos em tempos — e no meio do sistema surgem reformas de longo alcance, como o de Cluny e o de Cister, que acabam não apenas trazendo nova vida ao mosteiro e convento mas para a Igreja toda (veja lição número XI dessa caderno sobre o Poder Eclesiástico e o Poder Temporal, ou seja, a relação entre a Igreja e o Estado).

Mas nós Protestantes quando pensamos na Reforma, pensamos imediatamente em Lutero e na Reforma Protestante do Século XVI. Certamente há justiça nessa maneira de pensar. Mas antes de chegarmos lá, vamos considerar um bom período da história, que é geralmente considerada o período da Pré-Reforma.

Já vimos em outras lições como o Bispo de Roma, ou seja, o Papa, reclamava para si autoridade superior à do Imperador. Mais importante é o fato de que a Igreja — Povo de Deus — vinha sendo substituída pela Igreja Papal ao ponto de "Igreja" praticamente significar "hierarquia" ou simplesmente "Papa". Este fato em si já é significativo, mas ele passava quase despercebido no século XIV, que é a época que desejamos focalizar primeiro.

O fim do século XIII e começo do XIV foram marcados por uma briga entre o rei Filipe, o Belo, da França e o Papa Bonifácio VIII, durante o que o Papa emitiu sua famosa bula* UNAM SANCTAM, em 1302. Nesta bula*, Bonifácio reafirmou a superioridade da Igreja ao Estado e concluiu: "declaramos, afirmamos, definimos e prenunciamos de que é absolutamente necessário para a salvação de cada criatura humana que ela (o rei, o estado, a monarquia, etc) esteja sujeita ao pontífice romano". Isto marca o auge das pretensões papais na Idade Média.

Mas o que aconteceu depois foi como um golpe às pretensões e ao prestígio papal. Não apenas o Rei da França reagiu e conseguiu prender o Papa Bonifácio, mas não muito depois o papado passou a estar debaixo do domínio francês por um período de quase 70 anos (1309-1377), o período chamado de "o Cativeiro Babilônico do Papado". Os cardeais escolheram Bertrand (Clemente V), um francês, em 1305, como o novo papa. Dominado por Filipe, ele transferiu o papado de Roma a Avinhão, encravado em território francês, e lá permaneceu a sede papal por quase 70 anos. Para se manterem, os papas de Avinhão inventaram uma série de novos impostos e taxas, em geral dando a impressão de avareza, isto num período quando o ideal da Igreja era de pobreza apostólica!

Não é de se admirar que pensadores como João Wiclif citavam como modelo do papado homens simples e pobres como o Apóstolo Pedro, uma óbvia comparação com a pompa e riqueza dos chefes da Igreja em Avinhão. Também é compreensível que, em plena Guerra dos Cem Anos (entre Inglaterra e França), Wiclif, um patriótico inglês, tivesse pouca simpatia para com o papado francês! Sim, o papa que, em Roma, simbolizava a Igreja universal, agora parecia muito mais francês que símbolo da Igreja como um todo.

Mas coisas piores seguiram. Finalmente, em 1377, o Papa Gregório XI, sob a insistência de Catarina de Siena, voltou a Roma. Quando Gregório morreu no ano seguinte, o povo italiano insistiu num papa italiano, e os cardeais cederam. Mas o novo papa italiano, Urbano VI, iniciou um programa de reforma tão vigoroso que os cardeais que acabaram de elegê-lo se reuniram novamente e elegeram Cardeal Roberto de Genebra (francês) que, como Clemente VII, retornou a Avinhão. Começara-se o Grande Cisma Papal com um Papa legalmente eleito em Roma e um outro em Avinhão. Esta situação era desastrosa à Igreja e à Europa cristã. Por exemplo: era necessário estar sujeito ao papa para garantir a salvação — mas, a qual dos dois?

Depois de três décadas de confusão e prejuízo, os próprios cardeais tomaram a iniciativa de convocar um Concílio Gerai para sanar o cisma. O concílio, reunido em Pisa (1409), depôs os dois papas e elegeu um outro. Mas nenhum dos antigos papas reconheceu a decisão — portanto, de 1409 até o novo Concilio, em Constança (1415), havia três papas, cada um deles reclamando para si a chefia universal e governo da Igreja! Assim, por aproximadamente 40 anos, o papado, que era tido como o símbolo da unidade da Igreja, foi realmente o motivo da sua desunião. Nesta confusão ocasionada pelo Cisma Papal surgiu o grande pregador, nacionalista e campeão dos direitos do povo, João Hus, o qual pelas idéias derivadas de Wiclif sobre Igreja e Papado foi condenado e sentenciado a ser queimado durante o mesmo Concilio que, com a força do Imperador Sigismundo, sanou o Cisma.

Assim, a Igreja passa por 70 anos do envergonhado papado de Avinhão, papas avarentos e subservientes à França, e 40 anos de Cisma Papal. Não apenas pensadores como Wiclif e Hus questionam a validade da Igreja Papal (eles idealizavam uma Igreja que é essencialmente povo, onde leigos também proclamam as boas-novas do Reino) e da tradição (Wiclif e seus colaboradores deram a Bíblia aos ingleses no seu próprio idioma), mas passa a haver um clamor generalizado pela reforma da Igreja. O grito era "Reforma no cabeça (Papa) e membros".

O método tentado foi reforma por meio de Concílios, e alguns resultados houve. Mas, para o desapontamento geral, no fim do século XV e começo do XVI os papas da Renascença* não apresentaram nenhum sinal de renovação! No final do século XV apareceu o espanhol da família Borgia, Alexandre VI, pai e protetor dos notórios Césare e Lucrécia Borgia, e no início do século XVI figuras como o Papa Guerreiro Júlio II.

A Reforma, porém, só viria com Martinho Lutero, a partir de 1517, o que examinaremos em seguida.


II - A REFORMA PROTESTANTE

Há três coisas que devemos dizer bem no começo, à guisa de introdução.

Primeira:
A Reforma Protestante é um movimento de grandes proporções. Por falta de espaço, teremos que nos ater quase só à fase luterana do movimento, mas há a fase Reformada (de Zuínglio e Calvino), Radical (dos chamados "Anabatistas*", como os Menonitas), e a Reforma Inglesa.

Mas a Reforma não se restringiu aos Protestantes: há um movimento paralelo dentro do Catolicismo Romano, parcialmente espontâneo (Reforma Católica) e parcialmente uma reação à Reforma Protestante (Contra-Reforma).

Naturalmente, também, a Reforma não para no ano de 1600 (na verdade, muitos historiadores datam a Reforma de 1517 a 1648), mas ela, como uma nova expressão do Cristianismo, permanece viva até hoje.


Segunda:
Apesar de ser um movimento religioso mais do que qualquer outra coisa, o seu contexto a marcou profundamente. Muitos dos fatores já foram vistos nas três últimas lições. Novas cidades e a crescente influência dos comerciantes (burguesia) e o desassossego dos camponeses prenunciavam o fim do feudalismo*. Contribuiu para esse processo também o nacionalismo, com o enfraquecimento da nobreza e a centralização da autoridade nas mãos dos reis. Assim, nasceram fortes estados nacionais (como por exemplo, Inglaterra, França e Espanha) que resistiam às pretensões absolutistas do Papa.

A Renascença* desperta o interesse no estudo das fontes, e a Bíblia é lida novamente nas línguas originais, enquanto o surgimento da imprensa facilita a multiplicação da Bíblia e de livros em geral. O crescente desencantamento com o papado, após 70 anos do "Cativeiro Babilônico" e 40 de cisma papal, leva os intelectuais como João Wiclif e João Hus a questionar a própria estrutura da Igreja e papado e alguns dos seus dogmas* (como a transubstanciação) enquanto insistem nos direitos do povo de Deus, inclusive de pregar e receber a Santa Ceia completa (inclusive o vinho).

Muitos, de índole mais contemplativa, simplesmente deixam de lado a Igreja institucional, buscando a união com Deus diretamente por meio de contemplação e purificação, sem se preocupar com hierarquia ou mesmo com o ritual da Igreja.

Paralelamente, há um ressurgimento de religião popular em muitas formas, inclusive a dos flagelantes, os quais, num ascetismo* extremo, flagelam os seus corpos, assim criando quase um novo sistema litúrgico e sacramentai que escapa ao da Igreja Papal tão desacreditada.

Todos estes — os intelectuais, os "pré-reformadores" como Wiclif e Hus, os místicos; os flagelantes — constituem vozes de protesto que diziam claramente: "A Igreja como está, dominada pela hierarquia, inteligível só à elite, não responde nem às nossas necessidades e nem às nossas aspirações. Queremos uma Igreja renovada, mais nos moldes de Cristo e seus apóstolos".

Terceira:
A Reforma Protestante é mais um glorioso exemplo (e eu creio que seja o maior exemplo) da ação divina; mais uma vez Deus renova Sua Igreja. Infelizmente, no processo, houve ruptura.


A REFORMA
Voltemos nossa atenção para tentarmos entender o que Lutero queria fazer. Há basicamente duas maneiras de ver a obra de Lutero: uma basicamente negativa (polêmica) e a outra basicamente positiva. A primeira tem sido mais usada e, penso eu, com prejuízo para nós e para o cristianismo. Podemos esboçar esta posição assim:
a) Justificação só pela fé e não pelas obras;
b) Só a Bíblia como regra de fé e prática, e não a tradição;
c) O sacerdócio universal dos crentes, e não só da hierarquia.

Ou como alguns preferem:
- Fé X Obra;
- Palavra de Deus X Palavra do homem;
- Povo X Hierarquia.

Reconhecemos que há alguma validade nessa abordagem, mas questionamos se é a maneira mais correta de ver a obra de Lutero e o seu significado para nós, hoje. Questionamos se realmente foi isto o que Lutero descobriu naqueles anos antes de 1517 quando buscava tão ardentemente, como Monge Agostiniano, "um Deus gracioso" (amante e perdoa dor) a ele.

Creio que é inegável que a Reforma realmente ocorreu no coração de Martinho Lutero quando, depois da meditação, não apenas percebeu em Romanos 1.17 uma chave para atender toda a revelação de Deus na Bíblia, como também recebeu o próprio Cristo através da Palavra. Será uma deturpação desta experiência de Lutero concebê-la em termos polêmicos! É claro que Lutero e os outros Reformadores se dedicaram à tarefa de dizer com a maior clareza possível o sentido e as conseqüências desta redescoberta!

1) É quase impossível evitar o termo "JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ" por causa da longa tradição. Podemos, pelo menos temporariamente, tentar ver o que está por baixo ou por trás destas palavras?

No caso de Lutero, não é difícil. Ele, quase morto por um raio, prometeu tornar-se monge se Santa Ana o poupasse da morte. A vida monástica* em si era vista como a maneira mais certeira de chegar aos céus. E nos anos que Lutero passou no mosteiro, ele fazia o máximo para agradar a Deus e ganhar a sua aprovação. Confissões intermináveis, sacrifícios (tentava dormir no inverno sem cobertor), obediência rigorosa a todas as exigências de sua ordem. Mas, depois de tudo, Deus parecia ainda lhe condenar. Não havia meios para agradar a Deus — Lutero chegou a odiá-lo!

O que aconteceu para mudar isto? Na sua leitura da Bíblia, ele descobriu: "O justo viverá pela fé" (Rm 1.17). Mas o que é fé? Lutero descobriu que a fé que salva não é principalmente crer ou acreditar. Não é aceitar uma proposição intelectual. Crer é mais propriamente confiar. Confiar tem a ver com relacionamento! Cristo Jesus lhe chegou através da Sua Palavra e tornou-se não mais aquele juiz que lhe acusava e lhe lembrava as suas falhas e culpas. Pela Palavra, ele percebeu Jesus como seu Salvador. Daí, Deus não era realmente aquela figura distante, austera. Na face de Cristo, Lutero viu pela primeira vez o Deus gracioso que há tanto tempo procurava. Ele diz que era como que Deus lhe houvesse aberto as portas do próprio Paraíso, tão grande foi sua alegria!

E o resultado de tudo isso? JUSTIFICAÇÃO. Mas, há uma palavra melhor: PERDÃO! Afinal não é uma transação legal ou legalista. Em Cristo, o ser humano, desorientado, alienado de Deus e do seu semelhante, descobre Deus, reconcilia-se com seu semelhante e com seu mundo, descobre direção e sentido na vida. Assim foi com Lutero.

E tudo isso realmente é iniciativa de Deus! Como Lutero diria, SOLA GRATIA (só graça). Nem por esforço e nem por merecimento do ser humano, mas pela bondade do "Deus Gracioso."

Quando Lutero fala de Justificação pela fé, então, ele não está, em primeira instância, armando uma polêmica contra os "romanistas". Pois tudo isto que acabamos de descrever, conhecida como sua "Experiência na Torre", ocorreu quando ele era monge e fiel aderente à Igreja Católica Romana! Ele está nos convidando para confiar nossa própria vida nas mãos de Cristo para experimentar o perdão dos nossos pecados e conhecer a liberdade em Cristo — e livres de culpa e do egoísmo, realmente livres para servir a Deus através do serviço ao próximo.

2) SOLA SCRIPTURA — Escritura contra tradição? Sim, mas há muito mais! Lutero é apenas um dos muitos que, mediante a leitura (ou o ouvir) da Palavra, Deus o alcança. Assim foi com Agostinho, no jardim de Milão. A voz de uma criança lhe chegou dizendo: "Toma e lê..." — ele pegou no livro de Romanos e leu novamente (Rm 1313-14) e Deus lhe veio através da Palavra. João Wesley também teria sua experiência enquanto alguém lia do prefácio à Epístola aos Romanos (escrito por Lutero). Afinal, Paulo havia escrito: "a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela Palavra de Deus" (Rm 10.17). Para Lutero, Cristo nos vem através da Sua Palavra. Não devemos procurá-Lo onde ele não nos prometeu nos encontrar.

Mas para Lutero, "Palavra" e "Bíblia" não são exatamente a mesma coisa. "Palavra", para Lutero, é sempre Cristo. Portanto, a Bíblia não é tanto lei, como o é para muitos. Mas, através das suas páginas, Cristo nos chega, nos instrui, nos orienta, nos mostra quem somos. A Bíblia é como um espelho, para nos revelar realmente quem somos — não necessariamente aquele bom homem ou bondosa mulher, mas muitas vezes aquele homem egoísta, aquela mulher orgulhosa, aquele jovem acomodado!

Por nos trazer Cristo e sua revelação, é também "a única regra de fé e prática". Mas para Lutero e para nós, Metodistas, isto nunca significou rejeitar o Credo Apostólico (que não é da Bíblia) e nem desprezar as formulações dos Primeiros Concílios Ecumênicos (conclaves "católicos") e suas decisões sobre Deus (Trindade) e Jesus (Encarnação, Cristologia).

A Sola Scriptura, de Lutero, é um desafio constante ao cristão de reexaminar hoje a Palavra para ver o que o Espírito diz à Igreja. Não basta saber o que disse a Lutero e mesmo a João Wesley, por mais importante que seja. O desafio é discernir o que Cristo diz a seu povo em nosso dia!


3) O SACERDÓCIO UNIVERSAL DOS CRISTÃOS. Muitos entendem isto no sentido de:
"Eu posso orar a Deus e confessar meus pecados diretamente. Não preciso de nenhum intermediário". Mas a doutrina* é muito mais profunda que isso. Realmente, é uma nova visão da Igreja! Wiclíf e Hus, antes da Reforma, totalmente desencantados com a Igreja hierárquica e papal naquele tempo, ensinavam que a Igreja é o conjunto dos predestinados. Não creio que devemos enfatizar os predestinados — a Igreja para os pré-reformadores era o POVO e não a HIERARQUIA (ou simplesmente, como alguns pensavam, o Papa).

Lutero retoma a mesma idéia.

O Credo fala da Comunhão dos Santos; para Lutero, isto era uma definição de Igreja! Igreja é povo, não hierarquia. Quando Lutero percebeu isto, muitas coisas começaram a se mudar.

Então, o POVO é importante no culto; tem que participar ativamente. Daí, tem que entender o que se passa, no seu próprio idioma. E Lutero traduz-lhes a Bíblia em alemão.

O povo tem que louvar a Deus em cânticos, e não só o coro! E Lutero compõe hinos congregacionais apropriados ao espírito da Reforma. O culto passa a ser essencialmente o Culto da Palavra.

Uma vez que a Igreja não é hierarquia, Lutero nem estabelece uma nova hierarquia. Para ele, a Igreja é essencialmente o povo, "a Comunhão dos Santos"; por isso, a questão de ordens passa a ser coisa secundária. Há igrejas luteranas com bispos, outras sem — pois a Igreja não é hierarquia, e sim povo!

Talvez o maior desafio da Reforma para nós hoje seja o de tornar mais concreto em cada igreja local de nossa denominação o sentido de cada crente — homem, mulher, jovem, criança — ser um sacerdote ou sacerdotisa do Deus Vivo!

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