IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 10/4/2008
 

O lugar do Metodismo na História da Igreja Cristã (Paul Eugene Buyers)

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Paul Eugene Buyers (*)


1. A filosofia e a experiência em relação com o Metodismo.

A filosofia da história pode ser mais uma teoria do que um fato provado, contudo as forças que estão atrás das atividades dos homens não são cegas, antes indicam um alvo que não podemos ver — uma verdade patente para o cristão. Para o cristão há um Arquiteto e Edificador atrás do universo, lançando os profundos alicerces sobre os quais se ergue um edifício indestrutível — que é o reino de Deus.

Acreditamos que o Oleiro divino, por meio do Espírito Santo, está trabalhando no mundo. E, por isso, acreditamos que o Metodismo tem um lugar na Igreja universal do Senhor Jesus Cristo e que faz parte da economia de Deus no mundo. O movimento metodista tem, pois, certa semelhança com outros movimentos que se deram na história da Igreja; tais como o Profetismo, o Montanismo, o Misticismo e o Puritanismo.

O Metodismo não é uma doutrina, mas uma experiência. Que levou os metodistas a darem tanta ênfase à experiência? Quais foram as causas históricas e teológicas disso? Para responder a estas perguntas temos de apelar para fatos ocorridos.

A Reforma foi um protesto contra o absolutismo excessivo, que caracterizava a política na Idade Média. O indivíduo, como indivíduo, quase não existia na Igreja Romana. Sua salvação consistia no fato que pertencia a uma corporação que zelava por ele, e por cujos sacramentos recebia alimento espiritual, por cujo chefe tinha proteção e do mérito de cujos santos participava. Só na Igreja tinha relação com o Salvador; fora dela estava perdido. Em outras palavras, não tinha a responsabilidade pessoal, que era assumida exclusivamente pela corporação.

Essa idéia de solidariedade se ajustava perfeitamente às concepções políticas e filosóficas daqueles tempos. "Tanto na Igreja como no Estado, na ação e no pensamento, por mais de mil anos a solidariedade foi a raiz fundamental da vida européia". (Townsend et al Vol. I, p. 8).

Contra essa solidariedade e essa corporação, a Reforma levantou protestos de todos os lados. O espírito nacionalista manifestou-se dentro do Santo Império Romano e cada estado se julgava competente para dirigir a sua própria vida. O individualismo manifestou-se na religião. Em vez do indivíduo confiar na corporação para a salvação, começou a confiar em Jesus Cristo como seu único Salvador, sem padre, sem sacramentos e sem a intervenção dos santos. Martinho Lutero ensinou que a salvação é pela fé e deu importância à vida íntima do indivíduo. Assim, o individualismo nasceu e sobre este princípio se desenvolveram os credos da Reforma.

Do critério individualista surgiu um problema sério — o problema da sede da autoridade. Se o indivíduo, mediante a fé em Deus, consegue a salvação, que função tem a Igreja e os seus sacramentos? Onde está agora a sede da autoridade? Os protestantes, em via de regra, transferiram a sede da autoridade da Igreja para a Bíblia, ou para os símbolos, como na Igreja Holandesa, ou para os decretos imutáveis, como se deu nas igrejas calvinistas. Praticamente, pois, não havia diferença alguma entre os protestantes e os católicos romanos. Tudo voltou a subordinar-se à autoridade externa — não mais na autoridade da Igreja, mas na da Bíblia. O indivíduo ficou impossibilitado de obrar a sua salvação mediante a sua fé num Salvador pessoal.

Estava aberto o caminho para o Deismo — o credo mais popular do século dezoito. Segundo os decretos imutáveis, a oração de nada adiantava, o milagre era praticamente impossível e a expiação de Cristo foi desnecessária. O indivíduo achava-se impossibilitado de estabelecer relações pessoais com o seu Criador e Redentor. Por isso, tinha de depender de si mesmo. Ai estava a brecha escancarada para o Deismo, cujo erro maior foi julgar que a razão, por si, podia satisfazer a todas as necessidades humanas. Alguns filósofos, como Butler e Berkley, escreveram tratados de apologética para combater o Deismo; mas não foi por meio da pena (da escrita) que o Deismo recebeu golpes mortais; foi por meio das obras de Wesley.

Wesley, no combate ao Deismo, deixou os recursos da lógica e apelou para os do coração. Deu-nos uma experiência, um coração aquecido pela graça, e pelo amor de Deus. Os deistas afirmavam que Deus está distante do homem, porém Wesley afirmava que o homem é uma nova criatura "em Cristo Jesus". A oração, segundo os deistas, é ilógica e absurda; mas Wesley ensinou os homens a orar e conformar sua vida à vontade divina. Segundo o Deismo, no Cristianismo não há nada misterioso, mas Wesley, levava os homens a encarar face a face o mistério da cruz. Os milagres são impossíveis para o Deismo, porém Wesley apelou para a experiência e produziu o milagre dos milagres — a conversão de pecadores em santos.

Não há nenhum sistema ético que possa produzir tal transformação moral na vida humana. Wesley sempre insistia na autoridade externa, tanto como na autoridade interna da iluminação. As duas tinham de andar unidas. Segundo Wesley, o fenômeno espiritual tem uma realidade própria que nem os cientistas, nem os psicólogos podem deixar de reconhecer.


2. História da doutrina da segurança no Metodismo.

A doutrina da segurança, ou da certeza da salvação, é uma das contribuições fundamentais que o Metodismo fez a vida e ao pensamento da Igreja. Por muitos séculos, isto é, desde o tempo do apóstolo Paulo, a doutrina da segurança da salvação não foi ensinada com tanta clareza como foi por João Wesley. Wesley ensinou que o crente pode ter a certeza do seu perdão, da sua adoção e da sua filiação divina. Mas havia uma restrição feita por Wesley a qual pesava na balança das controvérsias religiosas do seu tempo: que a certeza da salvação não é uma segurança que garante a perseverança até ao fim; limita-se ao presente.

Que tal doutrina suscitasse, oposição não é de admirar-se. Os deistas, e até o clero da Igreja Anglicana, levantaram a sua voz contra ela, chamando-a de fanatismo. Não somente isso: os deistas e o clero atacaram a Wesley e seus adeptos, os políticos os desprezaram. Isto se evidenciou por uma Carta escrita pela Duquesa de Buckingham, filha ilegítima do rei James II, à Condessa de Huntingdon: “Agradeço-lhe a informação acerca da pregação dos metodistas; eles pregam doutrinas chocantes e altamente carregadas de impertinência e de desrespeito aos seus superiores, pois procuram sempre nivelar todas as camadas e destruir todas as distinções, visto que é monstruoso ser alguém cada indivíduo acusado de ter um coração tão pecaminoso como os miseráveis que se arrastam sobre a terra. Isto é altamente ofensivo e insultuoso". (Towsend et al Vol. I, p. 20).

Sem dúvida, a doutrina da segurança foi uma novidade para os ingleses que não gostavam de idéias novas. Nunca, depois dos dias do apóstolo Paulo, essa doutrina foi tão clara e positivamente pregada. O perigo que ela correu foi terminar em puro individualismo, mas tal perigo foi evitado pelo apelo que Wesley sempre fazia à experiência da coletividade. Há nela mais um perigo: é o de cultivar o egoísmo. Mas por isso ela não deve ser rejeitada; antes, o egoísmo deve ser combatido por uma concepção mais ampla da vida cristã.


3. O Metodismo e alguns movimentos anteriores na Igreja Cristã.

Há uma unidade e continuidade de vida que se manifestou na Igreja através dos séculos. Em certo sentido Wesley usou os mesmos métodos e princípios que usaram os seus predecessores. Nas coisas espirituais tem havido pouca mudança, pois a alma humana sofre dos mesmos pecados e tristezas de século em século.

Na Igreja Primitiva, nos tempos apostólicos, havia uma classe de obreiros chamados profetas. Era dever destes homens pregar a mensagem divina e exortar os crentes a serem diligentes no cumprimento dos seus deveres e estarem prontos para receber o Senhor, quando ele viesse do céu para receber os seus. Não recebiam ordenado fixo, mas só o que era necessário para atenderem às suas necessidades. Não podiam ficar no mesmo lugar por muitos dias em seguida. Eram homens inspirados pelo Espírito Santo e seus conhecimentos eram de origem mais intuitiva que racional. Não podiam administrar os sacramentos, nem ensinar como doutores, pois o seu ofício era produzir; não comentar.

Entre os profetas da Igreja Primitiva e Wesley e seus discípulos há muita semelhança. Aqueles e estes defenderam o direito de pregar a palavra com liberdade. Os deveres de ambos eram os mesmos; tinham de fazer viagens, indo de lugar em lugar, pregando dia após dia, sem ordenado fixo. O Espírito Santo se manifestava na vida e no trabalho desses homens. Deus os honrava com a sua presença. Nem o poder do sacerdotalismo, nem as reclamações do clero podiam fazer calar os homens que "pela estultícia da pregação" conseguiram salvar os que criam. É fato notável na História do Metodismo que, quando a “liberdade de profetizar" tem sido negada aos mais zelosos, tem havido separações. Ilustração disto se acha na história dos "cristãos da Bíblia" e do "Exército da Salvação" na Inglaterra.

Há na história da Igreja mais dois movimentos em que se nota um paralelismo com o Metodismo, a saber, o dos montanistas e o dos quaquers, ou "amigos".

O Montanismo foi um protesto, no segundo século e no terceiro, contra a supressão do ofício profético e contra o mundanismo na Igreja. O Montanismo dá testemunho da grande verdade que o Espírito Santo pode manifestar-se por meio de outros agentes além dos sacerdotes. Em certo sentido, o Metodismo foi o “Montanismo” da Igreja do século dezoito. Foi um protesto contra uma época que tinha banido a doutrina do Espírito Santo pelo racionalismo frio e pelo mundanismo mortífero. Nesse protesto Wesley podia ter andado de mãos dadas com George Fox, ainda que seu amor à boa ordem o teria feito hesitar em acalentar muita simpatia ao fundador do Quaquerismo.


4. O Metodismo e o Misticismo.

O Metodismo deve alguma coisa ao Misticismo. De Tomaz Kempis, de Jeremias Taylor e de Law, Wesley recebeu influências no princípio de sua vida cristã. As leituras dos livros "Imitação de Cristo" de Tomaz Kempis, de "Holly Living and Dying" de Jeremias Taylor e de "The Sérious Call" e "The Perfection" de Law exerceram influência poderosa sobre o espírito de João Wesley. Houve outros místicos que influenciaram Wesley, tais como Spener, Francke e o Conde Zinzendorf. Mas, apesar de tudo que Wesley recebeu dos místicos, considerou o Misticismo um inimigo do Cristianismo puro. Não podia tolerar o "entusiasmo" dos morávios e o seu "quietismo", porque tendiam para o "Antinomianismo".

Wesley cria que o Misticismo ensina uma doutrina de união com Deus que priva o homem da sua personalidade. Contudo, Wesley e o Metodismo receberam contribuições dos místicos. A base do Misticismo e a do Metodismo é uma experiência espiritual e pessoal. E a doutrina da segurança não está muito longe da "luz interior" dos místicos. Ambos dão importância à certeza espiritual. Igualmente o Metodismo insiste em que a conversão é baseada sobre uma faculdade superior à da razão. No Misticismo e no Metodismo essa faculdade intuitiva reina como soberana:

"Where reason fails with all- her powers,
There faith prevails, and love adores".

Ou:

"Onde a razão falha com todos os seus poderes, Ai a fé prevalece e o amor adora”.
(Townsend et al p. 56, Vol. I).

Além disso o Metodismo e o Misticismo estão de acordo no ponto que expressam as palavras de Santo Agostinho:

"Tu nos tens criado para Ti, ó Deus, e o nosso coração não pode descansar senão em Ti". (Townsend et al, Vol. I, p. 58).

As verdades místicas não envelhecem, ao contrário, são perduráveis e poderosas ainda hoje para combater o materialismo, fatal ao pensamento e à vida dos homens.

5. O Metodismo e o Puritanismo.

O Metodismo tem sido acusado de ser uma religião ascética. Há um elemento de verdade nessa afirmação. Sem dúvida, Wesley e seus adeptos foram influenciados pelo seu século. Há uma diferença entre o ascetismo dos monges orientais e o do Puritanismo da Inglaterra. Para os monges a flagelação do corpo tinha virtude em si mesma, mas para os puritanos era meio de alcançar um fim. Mas Wesley, bem cedo na sua vida, rejeitou o ascetismo. Escrevendo à sua mãe, disse: "Não posso pensar que, quando Deus nos trouxe ao mundo, irrevogavelmente decretou que deveríamos ser nele sempre miseráveis.”

Wesley deixou o ascetismo e abraçou o conselho de sua mãe puritana que disse: "Quer você saber se um prazer é ou não lícito? Tome esta regra: Qualquer coisa que enfraqueça sua razão, debilite sua sensibilidade de consciência, obscureça a sua percepção de Deus, ou lhe enfraqueça o desejo das coisas espirituais, enfim, qualquer coisa que aumente a força e autoridade do seu corpo sobre a sua mente, isso para você é pecado, ainda que seja inocente em si". (Townsend et al, Vol. I, p. 63).

Este conselho que Susana Wesley deu a seu filho tem sido o princípio pelo qual o Metodismo se tem orientado. Fazendo isso, tem corrido o perigo de converter ascetismo e puritanismo num dualismo de vida. O problema de saber o que convém e o que não convém praticar na vida religiosa tem de ser encarado diante de cada caso especial. Corre-se o risco de excluir certos interesses na vida humana que devem ser conservados e de dar ênfase a outros que, deviam ser excluídos. Há sempre necessidade de sabedoria e de bom senso. A tendência moderna é permitir coisas perniciosas para a vida piedosa e moral.


6. O Metodismo e sua organização.

As sociedades que Wesley organizou tinham alguns princípios presbiterianos. O sistema de ecônomos, as Conferências anuais e trimensais, que incluem leigos, são muito semelhantes ao sistema presbiteriano com os seus sínodos e ordenações. Os oficiais, na Igreja Metodista, têm, em grande parte, a mesma função dos "diáconos", "profetas", "doutores", etc., na Igreja Apostólica. Sem dúvida, Wesley era anglicano e apreciava a forma de governo episcopal, mas, acreditava na "sucessão apostólica" e considerava, na Igreja Apostólica, que o ofício de "bispo" e de "presbítero” eram a mesma coisa.

A forma de governo que Wesley criou para as suas sociedades foi episcopal, não porque ele julgava fosse essa forma escriturística e apostólica, mas porque a achava prática e viável.

Em 1756 escreveu a esse respeito: "Quanto ao meu próprio juízo, creio que a forma de governo episcopal da Igreja é escriturística e apostólica. Isto é, essa forma está de acordo com a prática e os escritos dos apóstolos. Mas que é ordenada pelas Escrituras, não o creio. Essa opinião antigamente eu advogava e defendia com zelo até que li o “Irenicon” do Bispo Stillingfleet; então me envergonhei de tal posição". (Townsend at al Vol. I, p. 69).

Há mais um fato que deve ser incluído aqui é acerca do lugar das mulheres na Igreja. O Metodismo não deixou de dar um lugar vital às mulheres na Igreja. Não gozaram elas o direito de ser representantes nas Conferências, logo no princípio, porém esse direito elas gozam hoje, como o de serem pregadoras licenciadas e ordenadas e de exercer o ofício de evangelistas e pastoras.


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(*) Texto extraído das páginas 3 a 11do livro História do Metodismo, de Paul Eugene Buyers, publicado pela saudosa Imprensa Metodista em 1945.

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