IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Metodismo
Rio, 12/4/2008
 

O desenvolvimento e as instituições do Metodismo do século XVIII (Paul Eugene Buyers)

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Índice desse texto: O desenvolvimento e as instituições
1- Pregação ao ar livre

2- Comunhão, ou Fraternidade Cristã:
. Sociedades
. Classes
. Culto de Vigília
. Ágapes de amor
. Culto de Aliança, ou de Consagração.

3- Os oficiais: ecônomos
4- Pregadores leigos
5- O sistema da itinerância
6- As Conferências
7- Educação
8- Extensão do trabalho e missões:
. Na Escócia
. Na Irlanda
. Na América

9 - As doutrinas. Algumas Doutrinas mais importantes do Metodismo:
. A redenção universal
. Arrependimento
. Justificação pela fé
. Regeneração
. O Testemunho do Espírito Santo
. Santificação
. A possibilidade de Apostasia Final
. Os Sacramentos
10 - Publicações
11- O Título de Declaração
12 - Filantropia
13 - Crise e Dissensão

O DESENVOLVIMENTO E AS INSTITUIÇÕES

João Wesley voltou da sua visita aos moravianos de Hernhut, na Alemanha, com a fé fortalecida. Ele sabia que havia milhares de pessoas no mundo que haviam tido experiências semelhantes as dele. Desde os tempos antigos tem havido homens, que conheceram a Deus por meio da sua experiência. Portanto, Wesley sentiu-se fortalecido depois da sua visita aos irmãos morávios.

Fez essa jornada longa e penosa para alcançar a certeza da salvação. Não é mais, para ele, o batismo que faz um cristão, mas uma fé viva e vivida em Cristo. Agora a religião para ele não consiste mais em provas: já é uma realidade. Não se acha mais na região das incertezas, sobrecarregada de nuvens, porém na da certeza e da promissão, sob a luz do sol. Estavam coordenadas e unificadas as suas energias espirituais e ele pronto para entrar no campo da atividade.

Whitefield podia pregar melhor do que Wesley, mas não tinha o dom de organizador que Wesley possuía. Wesley sabia coordenar e organizar os frutos que se manifestaram no avivamento promovido por ele e seus ajudantes. Um princípio fundamental usou no seu trabalho: não iniciar mais trabalho do que podia conservar. Portanto, cada grupo de crentes que organizou, teve cuidado direto ou indiretamente. Esse é um dos segredos de bom êxito de sua obra. Ele sabia organizar, coordenar e dirigir. Se ele não soubesse, o Metodismo não seria o que hoje é no mundo. Ele fez com as suas sociedades na Igreja Anglicana o que o grande Spener conseguiu fazer com os grupos de místicos na Igreja Luterana. Wesley evitou o erro em que os monges caíram; praticando a vida monástica; lembrava-se delta grande verdade que "ninguém vive para si e ninguém morre para si". Em outras palavras, lembrava-se de que ninguém pode servir a Deus sozinho, e de que a Bíblia nada ensina acerca duma religião solitária. Por isso, começou logo a organizar as pessoas despertadas em sociedades e classes para cultivar entre elas o espírito de fraternidade.

Wesley está agora no limiar do seu grande trabalho. Começou a pregar nas igrejas, nas prisões, onde achava oportunidade; mas a sua sinceridade provocou oposições. As portas das igrejas iam-se fechando contra ele. Antes da sua conversão, tinha lugar onde pregar, mas não tinha realmente uma mensagem; agora tem uma mensagem, mas não tem onde proclamá-la.

1. PREGAÇÃO AO AR LIVRE.

Como já, se mencionou em outro lugar, Wesley começou no trabalho de pregar ao ar livre por incitação de Whitefield. Sabemos que usou este método até ao fim da vida. Não somente ele, mas também Carlos Wesley e todos os seus auxiliares. Era o meio mais prático para evangelizar o povo. Talvez a maioria do povo inglês não tivesse o costume de assistir aos cultos nas igrejas, mas ai tinha um método eficiente para levar a mensagem da verdade ao povo, nas ruas, nos campos e nas prisões. Por esse meio os mensageiros tinham contacto direto com o povo e lhe podiam verificar melhor as faltas, vícios, misérias e necessidades. Dava resultado, mas exigiu sacrifício e abnegação. Wesley afirmou: "Ao ar livre preguei a um número de pessoas duas vezes maior do que se tivesse pregado em casa. Que maravilha há que o diabo não ame a pregação no campo? Nem eu. Gosto mais de um salão cômodo, almofadas macias e púlpito bonito. Mas onde estará, meu zelo, se eu não puser todas estas coisas sob os meus pés, de modo que possa salvar almas?" (Townsend et al Vol. I, p. 283).

Tal procedimento provocou oposição, não porque não pregassem a verdade, mas porque a pregavam nas ruas. João Wesley e seus auxiliares poderiam dizer, como os apóstolos, logo depois do dia de Pentecostes, quando foram ameaçados para que não falassem mais no nome de Jesus: "Se é justo diante de Deus ouvir-vos a vós antes do que a Deus, julgai-o vós, pois nos não podemos deixar de falar das cousas que vimos e ouvimos".

A oposição a princípio foi grande, mas muitos que vinham para zombar e perturbar, ficavam para orar. Sobre motins falaremos em outra parte.

2. COMUNHÃO OU FRATERNIDADE CRISTÃ.

Como resultado das pregações de Wesley e outros, houve grande número de pessoas convertidas e interessadas que precisavam e queriam dar instruções. Lógico era formar uma sociedade religiosa, pois havia sociedades religiosas naquela época. As sociedades religiosas eram tão comuns como os clubes são em nossos dias.

Wesley fazia parte duma dessas sociedades em Londres, composta de membros da Igreja Anglicana e de alguns morávios. Wesley continuou como membro dessa sociedade até que ficou contrariado com o "quietismo" praticado por ela. Alguns membros deixaram os meios de graça tais como a oração, a leitura das Escrituras e a prática de boas abras. Ele procurou eliminar esse elemento mau, mas, não o conseguindo, se retirou, levando consigo alguns membros que eram da sua opinião. Era homem prático demais para tolerar tais idéias. A sociedade de Fetter Lane ficou sob o cuidado dos morávios.

Dai a um ano se fundou nova sociedade em Foundry, em Moorfield, Londres. Esta foi a sociedade matriz e se compunha de pessoas distintas, como a Condessa Huntingdon, um Senhor Edward e outros. Dispunha de vinte e cinco homens e cinqüenta mulheres, ao fundar-se. Wesley descreve a origem e os fins desta sociedade em Foundry nos seguintes termos:

(1) Sociedade.
"Pelos fins do ano de 1739, vieram ter comigo, em Londres, oito ou dez pessoas que pareciam estar profundamente convencidas de pecado e desejosas de salvação. Desejavam (como fizeram duas ou três pessoas no dia seguinte) que eu desse algum tempo para orar com elas e lhes ensinasse como fugir da ira vindoura que viam continuamente ameaçadora sobre as suas cabeças. Para que tivéssemos mais tempo para esta grande obra, marquei um dia em que todas podiam reunir-se, a saber, quintas-feiras, à noite. A estas e às demais que desejavam unir-se conosco (pois seu número crescia diariamente) eu dava os conselhos que julgava mais necessários para elas e sempre terminávamos as reuniões com oração, de acordo com as necessidades de cada uma. Foi isso a origem da Sociedade Unida, primeiro em Londres e, depois, em outros lugares". (Discipline 1940, p. 49, § 101-102).

Aqui, pois, estava a sociedade metodista, mas ainda não havia reuniões de classe. A classe apareceu três anos mais tarde, em 1742. Foi o pagamento da primeira dívida da Igreja Metodista que deu origem as reuniões de classe.

"Havia uma dívida muito elevada da casa de culto de Bristol e os membros da sociedade consultaram entre si sobre a maneira de pagá-la. Certo capitão Foy, cujo nome merece sobreviver, levantou-se e disse: "Cada membro da sociedade dê um penny por semana até que se pague a dívida". Alguém respondeu: "Muitos são pobres e não podem dar tanto". "Então", disse o capitão, "podeis dar-me os nomes de onze dos mais pobres; se puderem dar alguma coisa, bem; visita-los-ei cada semana; e se nada puderem dar, darei por eles e por mim também. E cada um de vós visite onze dos vossos vizinhos, semanalmente, recebendo o que eles derem e suprindo o que faltar".

Assim se fez e logo se descobriu que o plano dava muito mais do que dinheiro. Wesley diz: "Mais tarde, alguns destes me informaram que haviam achado que fulano ou sicrano não vivia como devia. Logo pensei: esta é a coisa que por tanto tempo nos faltava". Aqui havia a sugestão de uma supervisão mui extensa e ao mesmo tempo minuciosa, o pastorado mais eficiente, pastorado que já inventou o gênio humano ou a graça de Deus já empregou.

O amor que tinha Wesley pela exatidão, o seu hábito de seguir a indicação mais simples e transformá-la em instituição vieram logo à cena. As reuniões de classes se sistematizaram e tornaram parte integrante do avivamento. A sua inteligência educada e disciplinada percorria a história em busca de precedentes e detalhes e os achava em abundância. Uma testemunha tão desapaixonada, como Paley, achou no modo de viver — isto é, nas formas e nos hábitos de vida — da Igreja Primitiva Cristã "uma semelhança muito notável entre as Unitas Fratum e com os Metodistas modernos". Os Tesserae, símbolos de membros na Igreja Apostólica, foram reproduzidos no bilhete, símbolo de membro da Igreja Metodista.

(2) Classes.
O valor das sociedades, especialmente na sua forma amadurecida de reuniões de classe, foi simplesmente imensurável. Elas deram coerência ao avivamento e nutriram a sua vitalidade. Cada novo convertido trazido às reuniões de classe achava-se membro de um grupo, ligado a ele por grandes emoções possuídas em comum tristeza pelo pecado, gozo de perdão, a consciência de uma nova vida, solicitude pela salvação de outros, aspiração pelas altas posses de experiências cristãs. Ele recebia da sociedade instrução e nela achava as salvaguardas da camaradagem O abrigo que estas sociedades lhe davam era de valor indizível. A simples frieza do mundo secular teria matado a vida espiritual recém-nascida nas multidões. O encanto de camaradagens anteriores ter-se-ia manifestado. Mas nas novas camaradagens as quais os convertidos eram trazidos achava-se uma energia que contrabalançava a das velhas.

"São quase inconcebíveis", disse Wesley', "as grandes vantagens que se tem colhido deste pequeno regulamento; muitos felizmente experimentam agora a comunhão cristã de que antes não tinham idéia alguma, começam a levar as cargas uns dos outros e naturalmente zelam uns dos outros. Descobrem-se faltas de muitos, que são repreendidos. Suportámo-los por algum tempo: quando abandonam os seus pecados, nós os recebemos alegremente; quando obstinadamente persistem neles, declaramos abertamente que não são um de nós.”

Cada classe tinha seu guia e a reunião dos guias tornou-se um tribunal disciplinar da Igreja. O bilhete que era o símbolo de membro renovava-se de três em três meses, durante a visitação pessoal de cada classe, por Wesley mesmo ou por um dos seus auxiliares. A simples negação do bilhete quebrava a relação do membro e excluía os indignos; Wesley que, com um instinto sábio, tinha em maior conta a experiência do que o número, expurgava as classes deste modo, de ano, com uma dedicação completa". (Fitchett, Vol. I, p. 254-256).

Na Discipline of lhe the Methodist Church, 1940, § 103, ainda se encontram os deveres do guia de classes:
"— Visitar cada pessoa de sua classe, ao menos, uma vez por semana, com o fim de: (a) Indagar como vai passando a sua alma; (b) Aconselhar, repreender, confortar ou exortar, de acordo com as necessidades dela; (c) Receber a quantia que quer dar para o pastor para a Igreja e para os pobres.
— Reunir-se com os ministros e ecônomos da sociedade uma vez por semana, a fim de: (a) Informar aos ministros se alguém está doente, ou se alguém anda desordenadamente e não quer corrigir-se; (b) Entregar aos ecônomos a quantia que recebeu da classe na semana anterior". (Discipline 1940, p. 49).

(3) Culto de Vigília.
Mais um meio para cultivar a vida espiritual e a fraternidade cristã era o culto de vigília. O culto de vigília realizado nas sociedades metodistas teve origem entre os próprios metodistas. Principiou entre os mineiros de Kingswood, em Bristol. Antes de se converterem tinham o costume de passar noites inteiras bebendo, jogando e brigando. Nos disseram alguns deles: “Em nossa incredulidade, passávamos noites inteiras em bebedeiras, servindo ao diabo, por que não podemos agora passar noites em oração e vigília, prestando culto a Deus?”

Assim, os mineiros convertidos, para compensarem os maus costumes do tempo de sua incredulidade começaram a observar o culto de vigília. Quando Wesley soube disso, ficou satisfeito e prometeu assistir a próxima reunião. Wesley descreve a reunião desta forma: "Muita gente esteve presente. Comecei a pregar entre oito e nove horas e continuamos até depois da meia-noite, cantando, orando e louvando a Deus" (Townsend et al, Vol. I, p. 289).

Dai em diante, Wesley escolhia para a sociedade em Kingswood e em outros lugares uma noite, no mês, em época de lua cheia, para que o povo pudesse assistir ao culto de vigília. Ele justificava este costume, citando a prática da Igreja Primitiva. Mais tarde essas reuniões mensais se reduziram a uma reunião só por ano, na última noite de dezembro.

(4) Ágapes de amor.
Os ágapes de amor eram reuniões gerais, compostas de todos os membros de uma sociedade. Esse costume vem dos cristãos primitivos. Por uns quatro séculos a Igreja Primitiva realizou essas festas de amor. Mas os metodistas herdaram-nas dos morávios. Serviam-se pão e água. Cada crente comia um pedacinho de pão e bebia um pouco de Água em sinal de íntima fraternidade. Depois se trocavam experiências — as lutas, derrotas, vitórias na vida cristã. Cantavam-se hinos de louvor. A esses ágapes só eram admitidos os membros que estavam em plena comunhão com as sociedades.

(5) Culto de aliança, ou de consagração.
Havia ainda mais uma reunião para cultivar a vida piedosa. Chamava-se culto de aliança, ou de consagração. Sobre isso escreveu Wesley, em 1755: "Falei com a congregação (em Londres) acerca de mais um meio para a auxiliar no cultivo da vida piedosa, que foi praticado com grandes bênçãos pelos nossos antepassados, isto é, fazer votos de servir a Deus de todo o coração". (Townsend et al, Vol. p. 290).

Tornou-se um culto praticado em todas as sociedades. O primeiro domingo de janeiro foi reservado para esse culto.

3. OS OFICIAIS: ECÔNOMOS.

Os oficiais foram aparecendo de acordo com o desenvolvimento e a necessidade do trabalho. Já falamos nos guias de classe. Há mais um ofício que se deve mencionar aqui: o de ecônomo. Este ofício apareceu em contexto com a aquisição de propriedades. Os primeiros prédios construídos para o uso dos metodistas tinham depositários, mas esse arranjo não deu certo. No começo do movimento as propriedades eram adquiridas em nome de João Wesley até que fosse estabelecido um plano mais satisfatório pelo “Título de Declaração” redigido por Tomaz Coke. A questão de levantar fundos para construções e conservação dos prédios criou a necessidade de alguém ficar autorizado para receber e aplicar os mesmos. Quem seria essa pessoa?

Quando os irmãos da sociedade de Foundry queriam levantar fundos para pagar o aluguel e os concertos do prédio, levantou-se a questão de quem seria incumbido de receber e aplicar os mesmos. Wesley fez a pergunta: "Quem receberá e aplicará esse dinheiro?" Alguém respondeu: "Eu o farei e escriturarei as contas para o senhor". "Assim", disse Wesley, "surgiu o primeiro ecônomo e, mais tarde, quis que mais um ou dois me ajudassem como ecônomos com o correr de tempo o número aumentou". (Townsend et al, Vol. I, p. 291).


4. PREGADORES LEIGOS.

O bom êxito do trabalho de Wesley criou um grande embaraço para ele. O serviço aumentava dia a dia e ele não podia dar conta de tudo. Por toda parte onde andava, apareciam pessoas interessadas e convertidas. As sociedades se multiplicaram, mas não se multiplicaram os obreiros. Havia novos lugares onde se exigia a presença de Wesley, ou do seu irmão Carlos, ou de alguém do clero, para pastorear o rebanho que crescia tão rapidamente. Um ou dois não podiam atender às necessidades do trabalho.

As classes tinham os guias que ajudavam Wesley nas sociedades locais. Entre esses guias de classe, havia alguns homens que tinham dons para falar em público. Segundo as instruções de Wesley, podiam ler, comentar e explicar as Escrituras, porém não deviam pregar. Wesley, mesmo depois da sua conversão, conservava preconceitos eclesiásticos e, entre eles, o de não permitir a um leigo subir ao púlpito e pregar. Só os pastores, ordenados e com a sucessão apostólica, podiam subir àquele lugar sagrado e anunciar palavras de vida. Portanto, hesitou em empregar leigos para este mister. Foi só pela forca das circunstâncias e pelos frutos que se convenceu de que os leigos também podiam pregar.

Quando Wesley estava em Bristol, trabalhando, vieram notícias de que um dos seus leigos da sociedade de Foundey, chamado Tomaz Maxfield, estava pregando em Londres. Wesley ficou perturbado. Deixou Bristol e foi com toda pressa a Londres para fazer calar ao leigo. Quando chegou à casa, a mãe entrou em cena e lhe disse: "João, você sabe qual tem sido minha opinião. Você não pode suspeitar de que eu levianamente concordaria com uma coisa dessas. Mas tenha cuidado com o que vai fazer com esse jovem, porque ele é tão verdadeiramente chamado para pregar como você. Examine bem os frutos das suas pregações e vá ouvi-lo também". (Townsend et al, Vol. I, p. 293).

Foi, ouviu-o, convenceu-se de que ele devia continuar a pregar e disse: "É do Senhor, faça-se a vontade de Deus". Assim, Wesley admitiu que os leigos entrassem na seara ao lado dele. E nunca na história da Igreja foram empregados tantos leigos.

Havia objeções fortes da parte do clero contra isso. Mas Wesley e seu irmão Carlos justificaram a sua posição, baseando-se no fato que Cristo mesmo foi leigo, a quem adversários chamaram de "Filho do carpinteiro", e que os próprios clérigos não cumpriam os seus deveres; por isso as pedras clamaram. Quando um prelado objetou que eram homens indoutos, Wesley respondeu: "Alguns são e é assim que a jumenta repreendeu o profeta".


5. O SISTEMA DA ITINERÂNCIA.

Apareceu outra classe de pregadores leigos, chamados exortadores. Tornou-se costume autorizar primeiro um leigo para exortar e depois, se ele mostrasse possuir dons, licenciá-lo como pregador leigo. Esse costume tem dado bons resultados para se descobrirem os dons de certos homens; de outra maneira nunca teriam entrado no ministério. De outro lado, tem peneirado os leigos que, não tendo dons para o ministério, tem prestado, no entanto, como simples exortadores, valiosos serviços ás igrejas locais.

O sistema da itinerância, como as demais coisas peculiares à organização da Igreja Metodista, desenvolveu-se gradualmente, de acordo com as circunstâncias. Nada foi antecipadamente planejado; tudo evoluiu normal e gradualmente. Wesley começou a viajar para atender a certas necessidades que nasciam do trabalho que ele iniciou em Londres e Bristol. Eram três os pontos centrais das atividades de Wesley: Londres, Bristol e Newcastle-on-Tyne. Wesley conhecia as estradas entre estes lugares tão bem como um carteiro conhece a zona da cidade em que trabalha.

A primeira viagem longa que Wesley fez, foi em 1742. Recebeu convite para visitar uma senhora que estava à morte e que morava em Douington Park. Quando chegou à casa de miss Cowper, ele a encontrou muito mal. Ela ficou muito animada pela visita e regozijou-se no Senhor. Ficou ali três dias; depois seguiu viagem e passou pela cidade de Newcastle-onTyne. Pregou ali duas vezes. As seguintes palavras dão idéia da impressão que Wesley teve dessa cidade que se tornou um dos centros de propaganda do Evangelho: "Chegamos a Newcastle às seis horas e, depois de tomar uma refeição, passeamos pela cidade. Fiquei surpreendido: havia tanta embriaguez, tantas blasfêmias (até na boca das crianças) que não me lembro de ter ouvido antes tanta coisa assim em tão pouco tempo. Realmente este lugar esta maduro para "Aquele que veio não para chamar os justos, mas os pecadores ao arrependimento". (Wesley Jornal, Vol. I, p. 374).

Realmente Wesley já era itinerante antes dessa visita, mas dali em diante ele o foi deliberadamente. Viajava uma média de 7.200 quilômetros por ano e durante a sua vida viajou mais de 400.000 quilômetros. Pregou mais de 42.400 vezes, umas quinze vezes, em média, por semana. A assistência às suas pregações variava de duas a trinta e duas mil pessoas.

Possuía um físico extraordinário resistente. Pesava mais ou menos 54 quilos e podia viajar todo o dia a cavalo sem cansar. Lia muito enquanto viajava em seu cavalo. Era asseado e cuidadoso. No seu quarto e no seu escritório, durante os meses de resistência em Londres, no inverno, não havia um livro fora do lugar, nenhum pedaço de papel despercebido. Ele sabia apreciar o conforto da vida. Entretanto, havia-se nas coisas mais insignificantes como se não esperasse continuar no mesmo lugar por uma hora. Em qualquer lugar parecia estar em casa, acomodado, satisfeito e feliz; e por outro lado, estava pronto, a qualquer hora, para empreender uma viagem de duzentos e cinqüenta léguas". (Fitchett, Vol. I, p. 220).

Deve-se lembrar que na Inglaterra as estradas não eram boas e que o clima é chuvoso e frio no tempo de inverno. Faremos aqui uma ou duas citações a respeito das suas viagens. "Havia tanta neve ao redor de Boroughbridge que só poderíamos prosseguir mui vagarosamente e nos sobreveio a noite quando ainda nos achávamos a dez quilômetros do lugar onde tencionávamos pernoitar. Mas continuamos, como ao acaso, através dos charcos, e lá pelas oito horas chegamos em segurança a Sanhutton. Achamos a estrada muito pior do que no dia anterior, não somente por estar mais espessa a neve que a tornou intransitável em certos lugares, mas também porque as fortes geadas oriundas dos degelos haviam feito o chão como vidro. Vimo-nos na necessidade de andar a pé, pois nos era impossível andar a cavalo, e os nossos cavalos diversas vezes caíram, enquanto os puxávamos a cabresto, mas nenhuma vez, quando nos achávamos montados, durante toda a viagem. Passava já de oito horas quando chegamos a Gateshead Fell, que parecia um vasto deserto branco. A neve havia caído e coberto todas as estradas e estávamos em dúvida sobre como havíamos de prosseguir, até que um homem honesto de Newcasttle nos alcançou e nos guiou para a cidade.”

“Muitas viagens difíceis fiz anteriormente, mas nenhuma como esta fizera eu antes debaixo de tanto vento e chuva, gelo e neve, saraiva terrível e vento penetrante. Mas isso já passou; aqueles dias nunca mais voltarão e são, portanto, como se nunca tivessem existido". (Fitchett, Vol, I, p. 221-222).

Wesley teve de enfrentar não somente tempos inclementes, mas também oposição e vitupérios públicos. A Inglaterra do século dezoito era cruel, e seus "próprios esportes se assinalavam com quase incrível selvageria". As multidões gostavam de divertir-se, promovendo motins. E quantas vezes Wesley não teve de enfrentá-las com risco de vida! Podia dizer como o apóstolo Paulo: "O Espírito Santo me testifica de cidade em cidade que me esperam cadeias e tribulações, porém não tenho a minha vida como coisa preciosa a mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do Evangelho da graça de Deus". No seu Diário se encontram muitas narrações de ataques feitos contra ele, nos motins.

A sua vida itinerante é uma mostra da vida itinerante dos seus auxiliadores. Às vezes os pregadores leigos eram mais cruelmente tratados do que o próprio Wesley, porque ele era mais conhecido e usava batina de pároco da Igreja Anglicana, quando pregava. Isso metia mais respeito do que um homem vestido à maneira comum. Mas no princípio do movimento metodista todos os itinerantes sofreram com os motins. Só depois de algum tempo é que deixaram de maltratar os pregadores. Nos últimos anos de sua vida, Wesley era o homem mais conhecido e mais respeitado em toda a Inglaterra.

O sistema de itinerância produziu bons frutos desde o princípio. Tem, em certo sentido, espírito militar. Exige prontidão, coragem e abnegação. Uma vez, um homem recém chegado da América procurou a Wesley e lhe ofereceu seus serviços como ajudante no trabalho, mas ele não quis aceitá-lo de pronto, porque receava que não estivesse pronto para corresponder às exigências do serviço.

Havia três classes de obreiros: (a)o itinerante que dedicava todo o seu tempo ao trabalho; (b) o meio-itinerante, que, embora possuísse negócios sob o cuidado de outros, podia dedicar um ano ou uma parte de ano ao serviço; (c) e os principais pregadores locais, que cuidavam dos seus negócios e ao mesmo tempo prestavam serviço nas congregações locais.

O caráter e as qualificações desses itinerantes eram julgados e definidos pela Conferência. Acerca dos que desejavam esse ofício se indagava:
1. Conhecem 'Aquele em quem têm crido? Têm o amor de Deus no coração? Não desejam nem buscam nada, senão a Deus?
2. Têm dons (tanto como graça) para o trabalho?
3. Têm tido bom êxito? Conseguem apenas convencer, ou impressionar o coração, ou já recebeu alguém à remissão de pecados pela pregação deles? Têm idéia clara e permanente do amor de Deus?

“Quando essas três qualidades se manifestam em alguém, incontestavelmente julgamos que é chamado para pregar. Recebemos essas três evidências como provas de que alguém é movido pelo Espírito Santo a pregar.”

O parecer de Wesley e dos seus pregadores, a afirmação escrita pelo pleiteante, o testemunho dos beneficiados e a aprovação da sociedade em que trabalhava faziam parte do questionário. Sendo aprovado, o candidato entrava em experiência por um ano. Mais tarde o período de experiência foi aumentado para quatro anos.

Para orientar e estimular os seus auxiliares, Wesley entregava ao candidato em experiência um exemplar das "Grandes Atas" (Great Minutes) e uma cópia das "Doze Regras de um Itinerante" (The Twelve Rules of a Helper).

As doze regras são as seguintes:
(1) - Sê diligente. Nunca fiques nem por um minuto, desocupado. Não desperdices o tempo, nem passes num lugar mais tempo do que o absolutamente necessário.
(2) - Sê sério. Seja teu lema — "Santidade ao Senhor". Evita leviandade, gracejo, conversas tolas.
(3) - Conversa pouco e cautelosamente com as mulheres — especialmente com as moças.
(4) - Não te cases sem primeiro consultar os irmãos.
(5) - Não acredites em coisas más de ninguém, senão depois de provas cabais, e abstém-te de criticá-las. Dá a tudo a melhor interpretação. Sabe que o juiz está sempre ao lado do réu.
(6) - Não fales mal de ninguém, senão a tua palavra lavraria como gangrena". Guarda os teus pensamentos no teu coração até chegar a pessoa envolvida.
(7) - Conta a cada pessoa o que julgas das suas faltas, e com clareza, o mais depressa possível; senão arruinarás teu próprio coração. Apressa-te em afastar o fogo do teu peito.
(8) - Não faças o papel dum cavalheiro. Desse caráter nada mais tens a ganhar do que se fosses um mestre de dança.
(9) -De nada tenhas vergonha senão do pecado. Não tenhas vergonha de carregar lenha (se o tempo permitir) ou baldes de água, nem de limpar os teus sapatos ou os dos outros.
(10) - Se pontual. Faze tudo na hora. E, como via de regra, não cuides de modificar as nossas regras, mas de obedecer a elas, não por constrangimento, mas por causa da consciência.
(11) - Não tenhas outra coisa a fazer, senão salvar almas. Portanto, gasta-te e consome-te nesse trabalho. Vai sempre, não semente aos que te querem, mas também aos que mais precisam de ti.
..........Observações: não é teu dever pregar tantas vezes ou tomar conta desta ou daquela sociedade, mas ganhar tantas almas quantas puderes; levar tantos pecadores ao arrependimento quantos puderes e, com todo o teu poder, edificá-las na santidade, sem a qual ninguém verá a Deus. E lembra-te de ti mesmo. O pregador metodista deve obedecer a cada ponto, pequeno ou grande, dos Cânones. Portanto, precisará de todo o bom senso que tiver e de toda a sabedoria que possuir.
(12) - Procede em todas as coisas, não segundo a tua própria vontade, mas como filho no Evangelho. Como tal, compete a ti empregar teu tempo na maneira que julgamos melhor. Em parte, pregando e visitando de casa em casa; em parte, lendo, meditando e orando. Acima de tudo, é necessário que faças a parte do trabalho que nós aconselhamos, naqueles tempos e lugares que julgarmos sejam para maior glória de Deus". (Townsend et Al, Vol. I, p. 295-296).


Como os pregadores leigos eram homens de pouca instrução, competia a eles estudar o máximo possível. Wesley não achava qualquer incompatibilidade entre conhecimento e zelo. Por isto exigiu deles que se orientassem pelos seguintes conselhos: "Lêde os livros de maior utilidade, com regularidade e constantemente. Passai todas as manhãs neste mister ou ao menos cinco horas em cada dia". "Mas, alegrar-se-á, leio somente a Bíblia". Então, imitando a Jorge Bell, deveis ensinar os outros a ler somente a Bíblia e, para ser coerente, ouvir somente a Bíblia. Se for assim, não precisais pregar mais. E qual é o resultado? O mesmo a que chegou Bell: depois ele não lia mais nem a Bíblia nem qualquer outra coisa. Isto é entusiasmo fanático. Se não precisardes de nenhum livro senão da Bíblia, já estais mais adiantados do que São Paulo. Ele queria outros livros também. "Traze livros", disse ele, "principalmente os pergaminhos – aqueles escritos em pergaminho. "Mas não tenho gosto pela leitura". Criai com o habito de ler o gosto pela leitura ou voltai então para vosso ofício. "Não tenho livros". Eu darei a cada um de vós, na medida da vossa leitura, livros até ao valor de cinco libras".

Não levou muitos anos para que Wesley se regozijasse pelo fato que seus pregadores leigos conheciam a teologia prática tão bem como os párocos. Era seu costume mudar os pregadores de seis em seis meses, ou de ano em ano. Ninguém podia ficar na mesma região por mais de três anos em seguida. A razão disto era que os pregadores, sendo homens de instrução limitada, não tinham muitos recursos para pregar. E, também, mudando os pregadores freqüentemente, não deixava um homem impressionar o povo com suas idéias pessoais. Assim conservava a lealdade do povo à autoridade central do movimento. Além disso, a mudança de pastores de uma região para outra tendia a unificar o povo metodista, desenvolvendo a fraternidade cristã. Alguns não quiseram submeter-se a regime tão rigoroso, e deixaram a sociedade. Wesley queria manter o sistema de itinerância a qualquer preço.

Cada pregador tinha a sua zona de trabalho. Em 1750 havia sete zonas em toda a Inglaterra. Os pregadores tinham de percorrer suas zonas regularmente, viajando de vinte a quarenta milhas por dia e pregando duas ou três vezes por dia. Bennett, escrevendo sobre isso, disse: "Para percorrer minha zona, viajo cento e cinqüenta e duas milhas em duas semanas, pregando publicamente trinta e quatro vezes, além das reuniões das sociedades". (Towsend et al, Vol. I, p. 298).

Na sua zona Bennett adotou o sistema de Conferências (que no Brasil vai ficar conhecido como Concílios) trimensais. De três em três meses juntavam-se os pregadores e oficiais para estudarem os planos e notar o progresso do trabalho. Outras zonas ou distritos adotaram este sistema em 1749. A primeira Conferência trimensal foi realizada em 18 de outubro de 1748. Wesley, vendo a utilidade dessas Conferências, mandou Bennett visitar outros distritos e realizar Conferências trimensais.

Quanto ao vestuário dos pregadores, era variado. Não havia uniforme entre eles. Para vencerem as viagens longas a cavalo precisavam de boa saúde. Não levavam muito dinheiro na bolsa, por isso os ladrões deixaram de molestá-los e também para não serem obrigados a ouvir uma oração em seu favor e a receber um tratado religioso. Os pregadores visitavam o povo e, como não havia muitas comunicações, com a visita levavam notícias uns a outros lugares e eram recebidos com prazer pelo povo. Davam muita atenção às crianças. Se alguém negligenciava esta parte do seu programa era severamente repreendido por Wesley.

Os pregadores eram muito mal remunerados. Não gastavam muito com pensão, pois eram hospedados pelo povo; mas as suas famílias sofriam e, quando ficavam velhos, não havia fundos suficientes para atender às suas necessidades.

6. AS CONFERÊNCIAS:

As Conferências originaram-se em conseqüência do desenvolvimento do trabalho. Havia por toda a parte grupos de crentes e entre eles pregadores sempre viajando. A Inglaterra estava sendo agitada por uma onda de vida espiritual e religiosa. Wesley queria coordenar e estudar os problemas do trabalho. Resolveu, pois, chamar alguns ministros e pregadores para uma Conferência em Foundry, em Londres. Reuniu-se a primeira Conferência a 25 de julho de 1744. Havia dez pessoas presentes: Wesley, seu irmão Carlos e mais quatro colegas — Hodge, Peirs, Taylor e João Merriton Mais tarde quatro pregadores leigos foram admitidos.

Parece que esta reunião foi ineficiente, mas realmente marcou uma nova época na história da Igreja. A Conferência na Igreja Metodista é a célula vital de toda política e administração. Há mais de 30.000.000 de pessoas no mundo, hoje, envolvidas nas funções destas Conferências. Não havia, representantes leigos com direitos especificados nessa reunião, contudo tomavam parte nas discussões. Eram chamados "irmãos leigos".

As seguintes perguntas se faziam logo no princípio da Conferência pelo presidente: "Quaisquer dos irmãos leigos devem ser admitidos a esta Conferência?" Resposta: "Concordamos em convidá-los de tempo em tempo, quando julgarmos melhor".

Pergunta o presidente: "Quais deles devemos convidar hoje?" Resposta: "Tomaz Maxfield, João Downs, Tomaz Richards e João Bennett".

Essa Conferência era uma expressão da nova vida religiosa que agitava o país naquela época. Um espírito sério caracterizava as suas deliberações. A primeira resolução registrada indica isto: "Que todos os assuntos sejam tratados como se estivéssemos na presença do próprio Deus. Que nos reunamos com simplicidade de propósito e como crianças que ainda têm de aprender tudo. Que todas as questões propostas sejam examinadas até às bases." (Fitchett, Vol. II, p. 59).

Tratam-se diversos pontos práticos e doutrinários. Citaremos apenas um deles: Pergunta: "Que significa ser justificado?" Resposta: "Ser perdoado e recebido no favor de Deus, estado em que, se continuarmos,, seremos salvos no fim.” Pergunta: "É a fé condição da salvação?" Resposta: "Sim, porque todo o que crê é justificado". Pergunta: "Que é fé?" Resposta: "Fé em geral é uma elenchos (demonstração) sobrenatural e divina de coisas que não se veem, isto é, de coisas passadas, futuras ou espirituais; é uma visão espiritual de Deus e das coisas de Deus. Portanto, o arrependimento é uma espécie de fé, isto é, uma preparação sobrenatural de Deus ofendido. Então o pecador está convencido pelo Espírito Santo da verdade expressa por Paulo: "Cristo me amou e deu-se a si mesmo por mim". É esta a fé pela qual ele é justificado, ou, perdoado, no momento em que a recebe. Imediatamente o mesmo Espírito testifica: "Tu estás perdoado, tens redenção mediante o seu sangue". E esta é a fé salvadora mediante a qual o amor de Deus lhe é derramado no coração". (Fitchett, Vol. II, p. 60-61).

Nas discussões havia plena liberdade de expressar opiniões pessoais, ainda que fossem erradas. Havia liberdade de consciência. Em coisas especulativas a opinião da maioria devia permanecer, mas o indivíduo não era obrigado a submeter-se "a qualquer homem ou grupo de homens, sobre a terra", nem "o Papa, Concílio, Bispo, ou Convenção", se a sua consciência se opusesse.

Estamos vendo que no prazo de cinco anos, de 1739 a 1744, a Conferência tornou-se o coração do sistema metodista. O ano de 1739 foi o ano do início. Nesse ano apareceram a pregação ao ar livre, as sociedades, construção de prédios e aquisição de propriedades, pregação pelos leigos e as Conferências.

7. EDUCAÇÃO.
A obra educativa obedeceu ao mesmo princípio pelo qual Wesley se orientava em todo o seu trabalho: "Não queremos apressar-nos, desejamos somente seguir a Providência divina como gradualmente ela vai abrindo o caminho".

Assim a obra educativa teve o seu início na ocasião em que Whitefield e Wesley começaram a realizar pregações ao ar livre em Kingswood perto de Bristol. Quando Whitefield entregou a Wesley o trabalho entre os mineiros em Kingswood e estava para retirar-se para outra parte, os mineiros o surpreenderam com uma oferta grande para estabelecer uma escola de caridade em Kingswood. Whitefield aceitou a oferta e lançou a pedra fundamental do primeiro edifício antes de deixá-los.

Portanto, logo no começo do movimento metodista, no seu programa, se deu lugar a obra educativa. A escola de Kingswood desenvolveu-se gradualmente e o peso da sua manutenção e direção caiu sobre os ombros de Wesley.

Uma senhora anônima deu a Wesley oitocentas libras para a escola. Foi aumentada e por mais de sessenta anos serviu para educar os filhos dos mineiros. Mas em 1748 foi aberta mais uma escola, anexa à primeira, para outra classe de crianças, a qual realmente se tornou a escola de Kingswood. Esta escola destinava-se especialmente aos filhos dos pregadores. Tornou-se um dos lugares prediletos de Wesley; ele gostava de demorar ali nas suas viagens para fora de Londres.

Mas essa escola trouxe grandes aborrecimentos a Wesley. As suas idéias, quanto a execução do programa esboçado por ele, não foram respeitadas por algum tempo. Isso causou um grande pesar para ele. Procurou corrigir o defeito. Em março de 1766, numa das suas viagens para o norte, chegou a Bristol, e escreveu: "Fui a Kingswood; depois de dizer tudo que tinha em mente dizer aos mestres e,empregados, falei às crianças de maneira ainda mais forte do que nunca. Matarei ou curarei. Terei uma ou outra coisa; uma escola cristã ou nenhuma".

Em outra ocasião fez quase a mesma coisa. Sem dúvida a obra educativa não lhe foi suave, porém, antes de morrer, teve a satisfação de ver a escola bem dirigida e próspera e pode dizer: "Achei a escola em excelente ordem. É agora um dos lugares agradáveis da Inglaterra. Achei tudo como eu desejava; as regras são observadas e o comportamento das crianças revelam uma disciplina inspirada pela sabedoria que vem lá de cima."

Na ocasião da sua última visita à escola ele escreve: "Fui a Kingswood: que lugar delicioso! Agora tudo ali está como eu desejo." (McTyeire, p. 333).

Com o correr do tempo, a Escola de Kingswood se transformou num reformatório de rapazes viciados. Mas escolas do Metodismo se fundaram também em outros lugares ou centros, como em Bath, Birmingham e Londres.


8. EXTENSÃO DO TRABALHO E MISSÕES.

O movimento espiritual não podia conservar-se em zonas geográficas limitadas; tinha de expandir-se. Já vimos como Wesley e seus ajudantes penetraram em muitos lugares da Inglaterra. E não demorou que alguém levasse a mensagem metodista para a Escócia, Irlanda e América.


(1) Na Escócia.
Em julho de 1741, Whitefield fez a sua primeira visita a Escócia. Durante sua vida visitou a Escócia quatorze vezes. Sempre foi acatado pelo povo escocês. Era calvinista em teologia e tinha poder para apelar para emoções escocesas. O povo escocês não é emocional, mas racionalista. Whitefield foi convidado pela seita dos Ershines para trabalhar entre eles, mas não quis limitar-se somente ao seu grupinho por motivos políticos e eclesiásticos. Por isso, os Ershines tornaram-se adversários. Mas nem por isso ficou o trabalho de Whitefield infrutífero. Grandes multidões afluíam para ouvir as suas pregações. Mas é interessante notar que hoje em dia não existe nenhum vestígio do trabalho dele na Escócia. Contudo, o ministério de Whitefield na Escócia avivou as igrejas escocesas. O espírito de evangelização foi estimulado e, até hoje esse espírito é ativo entre esse povo.

João Wesley não visitou a Escócia antes de 1751, dez anos depois da primeira visita de Whitefield. Na véspera dessa visita, Whitefield lhe escreveu, aconselhando-o a não ir porque não conseguiria coisa alguma entre aquele povo que gostava de discutir doutrinas, etc. Wesley, arminiano em teologia, teria grande dificuldade de atraí-lo. Mas ele disse que havia de evitar discussões e foi. Na primeira visita ficou só dois dias. Em 1753 tornou a visitar a Escócia. Daí em diante ia regularmente lá de dois em dois, ou de três em três anos, até ao fim da sua vida. Fez-lhe vinte e duas visitas ao todo.

Wesley conseguiu mais na Escócia do que seu colega Whitefield. Implantou o Metodismo naquele país; ainda que não seja muito forte, o Metodismo ali existe. Os Dissidentes Ershines fizeram grande oposição aos metodistas. Mais do que os "papistas". Mas representavam uma parcela pequena do povo. Havia mais tolerância entre o povo em geral.

Wesley apreciava a paciência dos escoceses. Podia falar fortemente e não ficavam ofendidos. Teve dificuldade em implantar o sistema de itinerância entre eles. Pediram que modificasse o itinerário dos seus auxiliares. Escreveu-lhes, em resposta, a seguinte carta: “Enquanto eu viver, os pregadores itinerantes hão de ser itinerantes, isto é, os que quiserem ficar comigo. A sociedade em Greenak pode escolher segundo sua vontade: pode ter um ou nenhum pregador para lá e para Glascow. Mas mais do que um para os dois lugares não pode ter. Tenho amor demais tanto aos corpos como as almas dos nossos pregadores, para deixá-los limitar-se a um só lugar. Tenho pensado no assunto e hei de servir aos escoceses como sirvo aos ingleses, ou deixá-los". (Fitchett, Vol. I, p. 284).


(2) Na Irlanda.
Irlanda foi para Wesley um campo novo. Entre o povo irlandês conseguiu grandes vitórias O povo irlandês é inocente e age mais pelo sentimento do que pela razão, enquanto os escoceses agem pela razão e são pouco emotivos.

As condições religiosas, morais e políticas aqui eram das piores. Eis o que diz Fitchett sobre este ponto: "Lord Hutchinson, recordamos, condenou a Irlanda de então numa sentença terrível. Uma aristocracia corrupta, uma plebe feroz, um governo anarquizado e um povo dividido" A sociedade constituía uma teia de ódios terríveis. Os protestantes detestavam e oprimiam os católicos; os anglicanos detestavam e oprimiam os dissidentes; os romanistas odiavam a ambos e, quando se lhes oferecia oportunidade, os matavam”.

Green diz: "Depois da capitulação de Limerck, todo católico irlandês — e havia cinco vezes mais católicos do que protestantes da Irlanda — era tratado como estrangeiro e forasteiro na sua própria pátria". (Short History, p. 811).

O governo estava nas mãos da duodécima parte da população que explorava tudo em benefício próprio, a fim de encher as bolsas às expensas das outras onze partes. O ódio de classe era nutrido pela lei. O católico irlandês estava praticamente fora da lei em seu solo natal, o presbiteriano vivia sob a ameaça do "Ato de Prova"; e o próprio anglicano irlandês tinha de ficar com o chapéu na mão na presença do anglicano que possuía o mérito de ser inglês". (Fitchett, Vol. I, p. 287-288)
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Foi neste ambiente que Wesley e seus auxiliares implantaram o Metodismo. Havia diferença para o católico irlandês entre o protestante metodista e o protestante anglicano. O protestante metodista trazia uma, mensagem de amor, sem exigir dízimos do povo. Aqui está o segredo do bom êxito do Metodismo entre esse povo. O amor e a boa vontade são mais poderosos do que a espada e o canhão. O poder do Metodismo na Irlanda não se mede pelo número de capelas que foram construídas, nem pelo número de adeptos, mas pela força de boa vontade e simpatia que tem concorrido para curar as chagas e transformar o espírito.

A missão de Wesley na Irlanda foi espiritual, tanto nos seus métodos como nos seus fins. O Metodismo já existia em Dublin, quando ele chegou, em 9 de agosto de 1747. Um dos seus auxiliares, Tomaz Williams, tinha organizado lá uma sociedade. Wesley passou uns quinze dias em Dublin, pregando algumas vezes na igreja de Santa Maria e diversas vezes na capela luterana que foi alugada para esse fim.

Ele gostou desse povo amável, mas descobriu que não era estável no seu espírito. Assim dá a sua impressão do povo: "Quanto mais converso com este povo, tanto mais fico admirado. Que Deus tem feito uma grande obra entre ele, é manifesto; entretanto, a maioria, tanto crentes como incrédulos, não é capaz de fazer uma narração racional dos princípios mais simples de religião. É manifesto que Deus começa o seu trabalho no coração; depois a inspiração do Todo Poderoso dá entendimento". (Fitchett, Vol. II, p. 293).

Quinze dias depois da partida de Wesley, seu irmão Carlos chegou acompanhado por Carlos Perronet. Mas nesse pequeno prazo se operou uma mudança no sentimento volúvel desse povo. Os padres ficaram alarmados com essa nova espécie de protestantismo. O povo, instigado pelos padres, assaltou a capela de Dublin, levou os bancos e o púlpito para a rua e os queimou. Essa violência teve o apoio das autoridades que eram protestantes. Carlos Wesley foi apedrejado e um dos auxiliares de Wesley, João Beard, foi tão maltratado que morreu em conseqüência das feridas que recebeu.

Na segunda visita a Irlanda, em 1748, Wesley ali passou três meses. O povo, em alguns lugares, ficou encantado com ele. Na cidade de Athlone foi realmente festejado. Depois de pregar ali a um grande auditório, seguiu viagem, mas foi cercado pela multidão que cantava hino após hino, sem deixá-lo prosseguir em seu caminho. Homens, mulheres e crianças erguiam as vozes em louvor a Deus. Wesley ficou tão impressionado que fez esta observação: "Entretanto, daqui a pouco havemos de cantar para nunca mais nos separarmos e a tristeza e choro fugirão de nós para sempre". (Fitchett, Vol. I, p. 295).

O povo de Cork foi o mais violento que Wesley encontrou na Irlanda. Os metodistas naquela cidade sofriam com os motins. Citaremos um trecho de Fitchett sobre isso: "O mais violento motim do povo foi o de Cork. Ali a plebe praticamente tomou conta da cidade sob a direção de um cantor ambulante de modinhas, meio tolo e meio velhaco, por nome Butler, o qual costumava aparecer na rua mascarado de clérigo, com uma Bíblia numa mão e um pacote de modinhas na outra. Os magistrados se simpatizavam com a multidão e os metodistas eram procurados com hostilidade nas ruas, como se fossem feras. Um apelo ao intendente teve como resultado único a resposta que os padres católicos eram protegidos, mas os metodistas, não. Muitos metodistas, tanto homens como mulheres, foram atacados a pau ou feridos à espada. As suas casas foram saqueadas e grandemente estragadas. Deram contra Carlos Wesley a denúncia de que ele era "pessoa de má fama, vagabundo, perturbador ordinário da paz real", pedindo que fosse desterrado. Uma queixa semelhante foi feita contra todos os auxiliares metodistas que nesse tempo se achavam na Irlanda.

"Quando o processo veio perante o tribunal, o juiz indagou onde estavam os acusados. Ele olhou para Carlos Wesley e seus pregadores, quando eles vinham para a frente e ficou por algum tempo visivelmente agitado e impossibilitado de agir. Ali estava um grupo de curiosos! A primeira testemunha dos acusados foi Butler, que, sendo argüido a respeito do seu ofício, respondeu que era cantor de modinhas. Então o juiz levantou a mão em admiração e exclamou: "Eis ai seis cavalheiros acusados de vagabundagem; e o principal acusador é vagabundo de profissão". (Fitchett, Vol. I, p. 295).

João Wesley ficou contente com o progresso que o Metodismo teve na Irlanda, mas tomou a precaução de usar uma disciplina mais rigorosa com os crentes para corrigir alguns dos seus defeitos. Não hesitava em expulsar da sociedade qualquer membro que não desse bom testemunho.

Muitos católicos se converteram e entraram nas sociedades. Entre estes havia um homem, Tomaz Walsh, de qualidades excepcionais. Mais adiante falaremos dele.

João Wesley visitou a Irlanda quarenta e duas vezes. O desenvolvimento do trabalho foi até tão rápido que em 1752 realizou a primeira Conferência. Deu-se muito tempo às questões doutrinárias. Os irlandeses usaram muita franqueza em externar seus pensamentos, diante da pergunta: "Até que ponto qualquer um de nós crê na doutrina da Predestinação?" Resposta: “Ninguém entre nós crê nela em sentido algum". (Fitchett, Vol. II, p. 146).

Tomaram-se medidas para cultivar a reverência nos cultos, evitando conversas dentro da igreja, na entrada e na saída.


(3) Na América.
Diante do túmulo de seu pai, Wesley afirmou que tomava o mundo como a sua paróquia. Mas notamos que não apressou as suas operações artificialmente, isto é, não tentou mais do que podia conservar. Foi esta a lei que governou a sua vida: Conservar o que alcançava. Vimos como estendeu o trabalho à Escócia e à Irlanda. Agora vamos notar como se iniciou o trabalho na América.

Em 1752 Wesley visitou uma colônia de alemães, do Palatinado sabre o Reno, estabelecida na Irlanda. Provavelmente foi nessa ocasião que Felipe Embry se converteu. Constam num livrinho estas palavras escritas por ele mesmo: "No dia de Natal, segunda-feira, 25 de dezembro de 1752, o Senhor fez brilhar na minha alma o seu amor redentor, porque eu sinceramente buscava a redenção em Cristo Jesus, ao qual seja glória para sempre. Amém. Felipe Embry.”

Logo depois foi nomeado guia de classe. Foi fiel e eficiente nesse cargo. Mais tarde foi licenciado pregador local. Tinha o ofício de carpinteiro. Provavelmente foi ele quem construiu a primeira capela dos colonos alemães.

Em 1758 Wesley realizou a segunda Conferência em Limerick. Nessa ocasião Felipe Embry, com mais dois homens, foi colocado nas fileiras dos itinerantes. Mas, por causa da construção da capela, o nome dele consta na "lista de sorteados para o serviço militar".

Enquanto construía a capela, encontrou-se com Maria Switer e com ela se casou. Depois de casado se tornou difícil seu trabalho como itinerante, na Irlanda. Mudou de planos e emigrou com a família para a América. Chegando à Nova York, começou a trabalhar em prol da causa do Mestre. Mas, homem tímido, não tendo lugar onde pregar e não encontrando outros interessados no trabalho, ficou parado. No ano seguinte um grupo desses alemães irlandeses emigrou para a América e entre eles havia uma crente metodista, Barbara Heck, parenta de Embry, que fixou residência no mesmo local em que ele morava.

9. AS DOUTRINAS.

O Metodismo tem as suas doutrinas, mas dá mais ênfase à vida moral e espiritual. O avivamento espiritual, promovido por João Wesley e seus cooperadores, visava à santidade de vida, à harmonização da vontade do homem com a vontade de Deus.

João Wesley procurou exemplificar na sua própria vida as virtudes que ensinou e não julgou que tivesse descoberto qualquer verdade nova. Ele disse: "As minhas doutrinas são simplesmente os princípios fundamentais do Cristianismo"; ou, noutras palavras: "São manifestas na velha religião da Igreja Anglicana". E isto é a pura verdade. "Wesley não acrescentou à teologia qualquer província nova; nem inventou qualquer doutrina nova; e tão pouco matou qualquer heresia antiga. Qualquer que seja o seu título à fama, não é líder de homens na exploração teológica. Às vezes se diz que ele deu às doutrinas uma nova visão. Mudou a ênfase teológica dos Trinta e Nove Artigos da Igreja Anglicana de uma maneira perdurável e esta mudança, numa palavra, consta da afirmação das doutrinas que dizem respeito à salvação — a redenção divina, a consciência do perdão, a salvação consciente e atual do pecado. Quanto a isto, Wesley certamente fez reviver na consciência dos homens muitas verdades esquecidas, se bem que "se manifestam na velha religião da Igreja Anglicana".

"Existe sempre uma real filosofia — se bem que nem sempre reconhecida — que forma a base dos ensinos doutrinários de Wesley e que constituem uma interpretação do Cristianismo, que se pode julgar como um todo. Para descrever plenamente este ensino seria necessário escrever um sistema completo de teologia e isso não se pode fazer aqui. Mas vale a pena fazer um simples esboço daquilo que se pode chamar o Credo ativo de Wesley. Ele fez um resumo numa só declaração familiar: "As nossas doutrinas principais, que encerram todas as demais, são o arrependimento, a fé e a santificação. A primeira é o vestíbulo da religião; a segunda, a porta; a terceira, a própria religião”. (Fitchett, p. 146-147).

O padrão de doutrinas metodistas consiste nos Vinte e Cinco Artigos de Religião, escolhidos por João Wesley dos trinta e Nove Artigos de Religião da Igreja Anglicana, nas Notas sobre o Novo Testamento de Wesley, e nos Cinqüenta e Dois Sermões de Wesley. Nesses documentos se encontram os elementos principais do Credo Ecumênico do Metodismo. Desde 1808 não tem havido grande divergência doutrinária entre os metodistas de todo o mundo.

"Esta concepção de religião espiritual abrange as grandes verdades da Escritura de todas as épocas e escolas de pensamento cristão".

As "Notas sobre o Novo Testamento", feitas por Wesley, têm também, o seu valor especial. Elas servem de base à pregação, tendo a sua fonte no Novo Testamento, de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Fornecem, portanto, ligação com os Evangelhos e padrão apostólico, dando, assim, base de autorização divina para as nossas formas de pregação.

Os 25 Artigos de Religião do Metodismo também trazem a sua contribuição, toda especial, ligando-nos com movimentos históricos através dos séculos, especialmente com os princípios divulgados pela Reforma Protestante.


Algumas doutrinas mais importantes do Metodismo.

Entre as doutrinas do Metodismo se salientam as seguintes:

(1) A Redenção Universal.
O metodismo ensina que a expiação de Cristo é universal na sua extensão, isto é, que Jesus experimentou a morte por todos os homens, que todos os filhos de Adão estão abrangidos no seu sacrifício expiatório; que o valor da expiação de Cristo consiste na sua divindade; que Deus "entregou Jesus Cristo, seu Filho Unigênito, para padecer a morte da cruz, para nossa redenção, o qual, pela oblação de si mesmo, feita uma só vez, realizou um sacrifício, uma oblação e uma satisfação plena, perfeita e suficiente pelos pecados de todo o mundo"; e que era intuito de Deus assim remir a humanidade.

(2) Arrependimento.
O arrependimento pessoal para com Deus e fé no Senhor Jesus Cristo são os dois elementos básicos do arrependimento. "O arrependimento é o meio e a fé a condição da salvação". O coração quebrantado, a tristeza da alma e o aborrecimento pelo pecado levam a alma a aceitar a Cristo como o único Salvador. Então vem a confissão dos pecados e a reforma da vida. O arrependimento é dever de todos os homens "porque todos pecaram e necessitam da glória de Deus."

(3) Justificação pela Fé.
"Justificação pela fé é ato judicial e divino que aplica ao pecador crente em Cristo o benefício da expiação, libertando-o da condenação de seus pecados, colocando-o no estado de favor e tratando-o como justo". "Ser justificado é ser perdoado e recebido no favor de Deus; porque em tal estado seremos finalmente salvos" ("Methodist Minutes"). Justificação e perdão significam a mesma cousa. A causa originária é o amor de Deus; a causa meritória é a expiação de Cristo; e a causa instrumental é a fé pessoal do crente.

(4) Regeneração.
"Regeneração é o novo nascimento; é a obra do Espírito Santo pela qual experimentamos uma mudança de coração. Os termos pelos quais este estado se exprime nas Escrituras são: nascido de novo, ressuscitado com Cristo participante da natureza divina". (Watson).

(5) O Testemunho do Espírito Santo.
"Pelo testemunho do Espírito eu quero falar de uma impressão de íntima na alma, pela qual o Espírito de Deus imediata e diretamente testifica com o meu espírito que sou filho de Deus; que Jesus me amou e se deu a si mesmo por mim; que todos os meus pecados estão lavados e eu, sim eu, estou reconciliado com Deus" (João Wesley).

(6) Santificação.
"A santificação é a Obra da graça de Deus pela qual somos renovados à imagem de Deus, separados para o seu serviço, capacitados a morrer para o pecado e a viver para a justiça. A santificação abrange todas as graças de sabedoria, fé, arrependimento, amor, humildade, zelo, paciência e a prática disto tudo para com Deus e o homem" (R. Watson). A natureza da santificação é a conformidade do coração e da vida com a lei de Deus. Pode ser adquirida nesta vida mesmo. Os católicos romanos dizem que só pelo fogo do purgatório a alma se pode santificar e purificar. Os calvinistas dizem que só na hora da morte é que a alma se pode santificar e os metodistas dizem que a santificação pode ser alcançada aqui, mesmo antes da morte.

(7) A possibilidade de apostasia final.
É possível para uma pessoa que tenha sido genuinamente regenerada cair de novo em pecado e perder-se para sempre. Confirmam essa doutrina as seguintes passagens das Escrituras: Ezequiel 33:12-20; Hebreus 6:4-8; Evangelho de João 15:1-6; Romanos 11:20-21; Hebreus 3:12-14; Hebreus 4:1; I Timóteo 1: 19- 20.

(8) Os Sacramentos.
O Metodismo reconhece só dois sacramentos: A ceia do Senhor e o batismo. Os metodistas convidam todos os crentes em plena comunhão com a sua Igreja, seja, qual for a denominação evangélica a comungar com eles e dão aos seus membros a liberdade de comungar com outras Igrejas evangélicas.

Quanto ao batismo, batizam crianças e adultos e não fazem questão do modo pelo qual batizam; mas exigem uma experiência da graça de Deus no coração — ter o batismo do Espírito Santo" (Kennedy, p. 414-415).

A Bíblia é a fonte de toda a verdade evangélica e a Igreja Metodista considera as Escrituras Sagradas como a "única e suficiente regra de nossa fé e prática".

Quanto à inspiração das Escrituras, "o Metodismo não é partidário de qualquer teoria especial; entretanto, aceita a Bíblia como sendo a fonte de conhecimento divino e a prova suprema de toda a teologia.

João Wesley em uma passagem célebre dá explicação por que ele é homo unius libri (homem de um só livro)e essa dá expressão a toda a atitude da sua Igreja para com a Bíblia: "Sou criatura de um dia, atravessando a vida qual seta passando pelo ar. Sou espírito, venho de Deus e para Ele voltarei. Estou simplesmente pairando acima do grande abismo até que, daqui a uns poucos momentos, eu desapareça, afundando-me na imutável eternidade! Uma coisa quero saber — o caminho para o céu, como posso chegar em segurança àquelas praias. O próprio Deus tem-se dignado ensinar-me esse caminho; para este fim Ele veio do céu. Ele mo escreveu num livro. Dai-me, pois, esse livro! Custe o que custar, dai-me esse livro! Eu o tenho. Aqui existe sabedoria bastante para mim. Que eu seja homo unius libri. Aqui, pois, me acho, longe dos caminhos freqüentados pelos homens em geral. Acho-me sentado a sós com Deus. Na sua presença abro o livro, a fim de achar o caminho para o céu. Tenho dúvida acerca do significado daquilo que leio? Há aqui cousa escura e difícil? Então levanto o meu coração ao Pai das luzes: "Senhor, não é esta a tua Palavra? Não disseste to ‘que se falta a alguém a sabedoria, peça-a a Deus?’Tu dás liberalmente e não improperas. Tu disseste: ‘Se alguém quiser fazer a minha vontade, esse a saberá’. Eu quero fazê-la; faze-me conhecê-la. Então procuro e medito em passagens paralelas das Escrituras, comparando as coisas espirituais com as espirituais. Nisto eu medito com toda a atenção e sinceridade de que sou capaz. Se ainda houver qualquer dúvida, consulto os experimentados nas coisas de Deus e depois os escritos, pelos quais os que me procederam na fé e já morreram ainda falam. E o que aprendo dessa maneira, isso ensino aos outros" (Fitchett, Vol. II, p. 158-159).


10. PUBLICAÇÕES.
Bem cedo no movimento metodista Wesley se interessou pela publicação de livros e tratados (artigos). Como se interessou na educação das crianças, especialmente dos filhos dos pregadores, assim se interessou na instrução dos crentes, membros das sociedades. Para instruir os pregadores e o povo em geral, lançou-se logo mão da imprensa. A imprensa até hoje é um meio importante na propagação do Evangelho e na instrução do povo, pela literatura cristã que produz.

Logo depois de iniciar o trabalho de Foundry, em Londres, reservou ali uma sala para guardar livros, que tomou o nome de Sala dos Livros. Ali ficavam livros em depósito para serem vendidos. Havia um distribuidor de livros em cada zona. Em certo sentido cada pregador era distribuidor de livros entre o povo. No princípio os livros eram vendidos, mais tarde eram dados, mas com muito critério às pessoas que não podiam comprá-los. O dinheiro usado para publicação de livros era levantado por meio de coletas. Assim as pessoas mais abastadas pagavam os livros que outras pessoas menos favorecidas não poderiam adquirir.

João Wesley publicou uma série de cinqüenta livros, chamada "Biblioteca Cristã". Estes livros tornaram-se populares entre os metodistas. Além dessa série, Wesley publicou alguns sermões e tratados. Os tratados foram escritos para combater os males da época, como demonstra os títulos de alguns: "Uma Palavra para o Contrabandista",
"Uma Palavra para o Blasfemador", "Uma Palavra para a Polícia", "Uma Palavra para o Bêbedo", "Uma Palavra para o Malfeitor", "Uma Palavra para o Profanador do Sábado", etc...

Além da Bíblia, do Hinário e da Disciplina, os pregadores levavam muitos tratados e livros nos alforjes.

Esses livros e tratados eram escritos numa linguagem simples e clara, fácil para o povo compreender. Wesley aprendeu no tempo de estudante em Oxford, nas suas conversações com os pobres e presos que visitava que era necessário usar de linguagem simples e clara para ser compreendido.

Como trabalhava com o povo da rua, precisava falar e escrever num estilo que todos compreendessem. Será difícil exagerar o benefício que as publicações de Wesley trouxeram para o povo da sua época.

Alguns dos seus adversários o criticaram, alegando que Wesley publicava livros para enriquecer-se. É verdade que os tratados e livros que vendia por um penny lhe trouxeram muito lucro, mas com o dinheiro que assim ganhava continuou a publicar mais livros e tratados e também a ajudar em outros ramos do trabalho. Em um sermão que pregou em 1780, se defendeu dessa crítica, dizendo: "Há quarenta e dois anos, tendo desejo de fornecer aos pobres livros mais baratos, mais resumidos e numa linguagem mais simples e clara do que os que eu já vi, escrevi tratados pequenos, vendidos por um penny; e depois outros maiores. Alguns destes tratados tiveram aceitação com que eu não sonhara, e, com isso, sem o perceber, me tornei rico. Mas eu não desejava e nem procurava riquezas. Entretanto, desde que isto me aconteceu, não junto tesouros na terra; não guardo absolutamente nada. Não poso, fugir de deixar aqui os meus livros, quando Deus me chamar para a eternidade; mas em tudo o mais as minhas próprias mãos serão meus executores". (Mc Tyiere, p. 224). Alguns julgam que Wesley deu mais de três milhões de cruzeiros (Cr$ 3.000.000,00) para a causa de Cristo no mundo.

No livrinho "Um Apelo aos Homens de Razão" ele disse: "Ouvi isto, todos vós que descobrireis os tesouros que deixo no mundo; se eu deixar dez libras (acima das minhas dívidas e dos meus livros, ou aquilo que fica a pagar por causa deles), vós e toda a humanidade podeis dar testemunho contra mim de que morri como um ladrão e salteador" (Mc Tyiere, p. 224). Realmente não tinha nada, quando faleceu. Fitchett, tecendo comentários sobre este ponto, diz: "As publicações de Wesley são em número de 371, inclusive 30 obras preparadas em companhia do seu irmão Carlos, e como começou somente em 1733, isto representa um termo médio de mais de sete volumes para cada ano da sua vida atarefada. Um historiador alemão, num trabalho cuidadoso e ponderado, agrupa as obras de Wesley em cinco divisões: poéticas, filológicas, filosóficas, históricas e teológicas. E é certo que cobrem uma extensão enorme de assuntos, desde livros de escola, para Kingswood, livros de hinos, para as sociedades, resumos de inúmeros autores, para seu povo em geral, e padrões teológicos, para os seus auxiliares, até uma série inteira de panfletos e folhetos". (Fitchett, Vol. II, p. 205).

O historiador Abel Stevens, falando sobre a história da "Sociedade de Tratados Religiosos", que foi fundada em Londres em 1799, disse que Wesley já tinha fundado uma sociedade de tratados dezessete anos antes. Nesse caso, Wesley, pode dizer-se, foi o primeiro nesta qualidade de literatura que tem caracterizado a propaganda do Evangelho neste último século e meio da era cristã.

11. O TÍTULO DE DECLARAÇÃO.

A obra que Wesley e Whitefield iniciaram em Bristol prosperou além do interesse que os mineiros tiveram em fundar uma escola de caridade para os pobres, houve também muito interesse da parte dos membros da sociedade de Bristol em construir uma capela que acomodasse o povo. Compraram um lote de terreno e começaram a levantar fundos para nele construir o prédio. Wesley nomeou onze pessoas como depositários da propriedade, sobre cujos ombros caiu toda a responsabilidade da construção e administração não demorou muito a haver falta de fundos para levar avante a obra de construção. Fizeram-se apelos aos membros, mas a tarefa era grande demais para eles. Mal se pode levantar uma quarta parte do dinheiro necessário.

Por falta de dinheiro os operários tiveram de parar a construção. Não podiam prosseguir na obra, se Wesley, não assumisse a responsabilidade. Logo, caiu sobre ele uma dívida de cinqüenta libras (Cr$ 15.000,00). Fez-se um apelo aos amigos de Londres para ajudarem na obra. Whitefield recusou-se a contribuir com coisa alguma se Wesley não despedisse os onze depositários e assumisse tudo em seu nome. Nesse ponto Whitefield foi mais sábio do que Wesley, pois sabia que, se tudo fosse em nome da junta de depositários, não levaria muito tempo para que se recusasse ceder a casa aos pregadores que Wesley havia de nomear para ela.

Wesley logo percebeu a sabedoria disso e, tendo anulado o que tinha feito, assumiu toda a responsabilidade. Mas, fazendo isso, criou para si mesmo grande embaraço e um problema difícil de resolver. Daí em diante as propriedades que as sociedades foram adquirindo na Inglaterra eram em nome de Wesley. Depois de alguns anos Wesley ficou perplexo, pensando como poderia livrar-se de tão grande responsabilidade e, ao mesmo tempo, assegurar as propriedades para as sociedades depois da sua morte. Se morresse, as propriedades ou reverteriam para os seus herdeiros ou para o estado. Estudou o problema por muitos anos, sem achar uma solução satisfatória.

Havia, em 1784, trezentos e cinqüenta e nove capelas metodistas e a maioria delas estava registrada de acordo com um plano que Wesley formulara. Esse plano consistia de uma escritura feita em nome da "Conferência do Povo Chamado Metodista". Mas o plano tinha o grande defeito de não ser legal, porque as sociedades não eram reconhecidas pelo governo inglês como "pessoa jurídica" O problema que enfrentava Wesley e seus auxiliares era confeccionar um documento que satisfizesse a exigência do caso e apresentá-lo ao parlamento inglês para ser reconhecido e aprovado e, assim, constituir as sociedades em "pessoa jurídica".

Houve, naquela época, alguns atritos entre a Conferência, ou Wesley, e algumas juntas de depositários de capelas. O dr. Coke, que se tinha identificado com os metodistas, foi incumbido de resolver esses casos de atrito. O dr. Tomaz Coke era universitário, advogado e vigário da Igreja Anglicana, estava, portanto, à altura de prestar serviços incalculáveis à causa metodista. Wesley o reconhecia como homem hábil, leal, douto, talentoso e cristão e não deixou de empregá-lo para resolver certos problemas difíceis que existiam em certas sociedades. Comissionou-o para substituí-lo na presidência da Conferência da Irlanda. Wesley achara o homem pelo qual tinha esperado muitos anos.

Realmente, o dr. Coke possuía certos dons que Wesley não tinha. Wesley não tinha a visão que o dr. Coke tinha. Wesley era prático e não tinha a imaginação do dr. Coke. Por isso não enxergava os campos missionários como o dr. Coke os enxergava. Wesley limitou-se aos três reinos, enquanto o dr. Coke incluiu a América, a França, a África, a Índia e a Oceania no seu programa. É verdade que Wesley disse "Considero o mundo como a minha paróquia", mas foi o dr. Coke que inspirou os metodistas a estender seu trabalho aos países estrangeiros.

Por muitos anos foi a alma missionária do movimento metodista na Inglaterra. Além de visitar as Antilhas e a América nove vezes, no fim da sua vida tentou abrir trabalho missionário na Índia. Mas, antes de chegar a Índia, faleceu e foi sepultado no mar Índico.

Quem sabe se o dr.. Coke não foi o homem "elevado ao lugar para tal tempo como aquele?". Wesley o encontrou e não hesitou em lançar sobre ele grandes responsabilidades. Para solucionar a questão das propriedades, uma questão que tinha sido por muitos anos um pesadelo para Wesley, o dr.. Coke ofereceu seus serviços.

Visitou as sociedades da Inglaterra para conseguir todas as capelas registradas de acordo com o plano da Conferência. Isso exigiu tempo, paciência e energia. Quando tudo estava pronto, Wesley preparou um documento legal (sem dúvida o dr. Coke o ajudou nisso) para ser apresentado e aprovado pelo governo inglês. "Portanto, aos 28 de fevereiro de 1784 Wesley fez um documento legal sobre o qual o Metodismo permanece — "A Escritura Modelo" ou "O Título de Declaração".

Por ele Cem pregadores devidamente nomeados, foram designados para constituírem a Conferência Legal. Nesta corporação se depositou o poder de nomear os ministros para os campos de trabalho; poder esse que o próprio Wesley havia exercido até então. "O Cento Legal", nome que se deu à corporação, tinha de preencher as vagas nas suas fileiras de ano em ano. Constitui uma entidade perpétua e assegura a continuidade da existência legal da Igreja Metodista.

Todas as capelas se conservam em depósito para uso desta corporação e sujeitas a sua autoridade. Em outros lugares, fora da Grã-Bretanha, as várias Conferências metodistas se constituíram por ato do parlamento. Mas na Grã-Bretanha, "O Centro Legal" de Wesley constitui ainda o instrumento pelo qual a Conferência se conserva em existência efetiva" (Fitchett, Vol. II, p. 115-116).

"O Título de Declaração" resolveu diversos problemas, mas criou outros. Houve grande descontentamento entre os pregadores cujos nomes não constavam na lista dos Cem. Consideraram-se sem direitos legais e acusaram Wesley de parcialidade. Dois abandonaram as fileiras metodistas.

O que Wesley queria evitar por meio desse documento (a desunião) as divisões estavam fomentando. O número dos que ficaram fora da lista era quase igual ao dos que foram incluídos nela. Por algum tempo reinaram esses descontentamentos e queixas. É interessante notar como homens piedosos se comportam, quando se julgam tratados com parcialidade.

Não só Wesley foi acusado de parcialidade, mas também o dr. Coke ficou suspeito de ter aconselhado Wesley a incluir na lista certos nomes e a rejeitar outros. Isto acabrunhou sobremaneira o espírito do dr. Coke, pelo que ele publicou uma declaração às Sociedades Metodistas da Grã-Bretanha e da Irlanda", na qual narrava os fatos como se deram, negando ter aconselhado Wesley a deixar certos nomes fora da lista e incluir outros; antes queria que todos os membros da Conferência fossem incluídos.

Mais tarde Wesley publicou uma declaração, confirmando tudo o que o dr. Coke tinha declarado. E explicou como foi feita a lista e o espírito em que foi feita. Citaremos uma parte dessa declaração: "Em declinar os nomes dos pregadores, como não tinha qualquer conselheiro, não fui levado por respeitos humanos; mas simplesmente assentei os que de acordo com meu melhor juízo eram mais idôneos. Mas não sou infalível. Bem pode ser que eu errasse em considerar alguns mais idôneos do que são Contudo, fiz o melhor que podia; e, se fiz mal, o erro não foi da minha vontade, porém do meu julgamento. Podeis ver, então, em todo o cuidado que tenho tornado neste documento absolutamente necessário, que tenho trabalhado não para mim (porque não tenho interesse nele), mas para todo o corpo metodista, a fim de segurá-lo sobre alicerces que perdurarão enquanto o sol e a lua existirem, isto é, se os metodistas continuarem a andar na fé e mostrar a sua fé pelas obras. De outra maneira rogo a Deus que a memória deles desapareça da terra" (Candler, p. 40).

12. FILANTROPIA.
João Wesley foi um filantropo. O que afetava a humanidade no corpo, no espírito e na alma afetava a Wesley. Ele se interessou em acabar com o trafico de escravos da África. A última carta que escreveu foi para o sr. Wilberforce, exortando-o a perseverar no combate a este grande mal da sociedade dos povos civilizados.

Wesley simpatizava com todas as raças. Mostrou vivo interesse na evangelização dos negros das Antilhas. Conhecia um homem rico que possuía muitos escravos na Ilha Antígua (Antilhas) que se chamava Natanael Gilbert. Esse homem visitou a Inglaterra e queria conhecer João Wesley. Wesley o visitou e batizou alguns dos seus escravos. Ele escreve a respeito: "Fui a Wordsworth e batizei dois negros que pertencem ao sr. Gilbert, cavalheiro que veio recentemente de Antígua. Um desses negros está profundamente convencido do pecado, o outro se regozija no seu Deus e Salvador, e é o primeiro africano cristão que conheço. Mas não será verdade que Nosso Senhor, um dia, "possuirá estes pagãos como a sua herança?" (McTyeire, p. 326).

Wesley dedicou-se à pregação da palavra, mas ao mesmo tempo não deixou de cuidar dos corpos dos homens. Teve um vivo interesse nos pobres e nos presos. Procurou aliviá-los da sua miséria. Os primeiros movimentos financeiros do Metodismo não fora para enriquecer o culto, nem para manter o ministério, mas sim para providenciar casas de culto e socorrer os pobres. Um dos aspectos mais tocantes na vida de Wesley no século dezoito foi o interesse que tomou para aliviar os sofrimentos dos pobres. Por cinco dias Wesley andou na neve pelas ruas de Londres, pedindo auxílio para socorrer os pobres daquela cidade. Arrecadou duzentas libras (uns Cr$ 18.000,00) durante esses cinco dias. O seu exemplo serviu para despertar a consciência do seu país mais tarde no mesmo sentido.

Esses esforços não foram esporádicos, porém organizados e sistematizados. Examinando a lista de contribuições de uma classe para os pobres, ele fez a seguinte observação: "Na lista da classe (que dá as quantias contribuídas para os pobres), observei que um deu oito pennies, às vezes, dez pence; uma outra classe deu, às vezes de um, às vezes dois shillings. Perguntei a Micaia Elmoor, o guia (verdadeiro israelita que agora descansa do seu trabalho): — "Como é isto? Sois vós a Sociedade mais rica na Inglaterra?". Ele me respondeu: "Julgo que não. Mas todos nós que somos solteiros ou solteiras, temos feito uma combinação de dar-nos a nós mesmos e tudo que temos a Deus. E o fazemos alegremente, por conseguinte podemos, de quando em quando, hospedar todos os forasteiros que vêm a Tetney e que, às vezes, não têm comida, nem amigos que lhes dêem pousada". (Townsend et al, Vol. I, p. 310).

Quase todas as Sociedades tinham a sua caixa de beneficência não somente socorreram, os membros da Sociedade, mas também as pessoas estranhas. Ha, ainda na Inglaterra, Sociedades que cuidam de pessoas estranhas, que tiveram sua origem dos metodistas. Não há dúvida nenhuma de que o avivamento metodista despertou o espírito filantrópico na Inglaterra. Os metodistas foram inspirados com um entusiasmo moral que os levou a crer que há esperança para os homens e mulheres mais desgraçados Entraram nas prisões para ministrar aos criminosos e trazer-lhes o conforto e salvação.

Há um homem, chamado Silas Told X1711-1778) que dedicou quase todo o seu tempo aos presos. Silas Told foi um marinheiro reformado e redimido, que Wesley nomeou para dirigir a Escola de Caridade de Foundry. Esse homem administrava aos presos. Conseguiu a libertação de alguns que podiam provar a sua inocência, e a salvação de muitos. Houve verdadeiros milagres na transformação dos presos. Alguns se regozijaram na hora da morte pela salvação que tinham em Cristo. Silas Told orava por eles na prisão e na hora de execução da sentença de morte. Centenas de mortes. Centenas e centenas de presos penitentes confessaram os seus pecados a este homem de Deus. Prestou esse serviço, sem receber um vintém.

E houve muitos outros homens e mulheres que trabalharam na prisão para aliviar o grande sofrimento dos presos naquela época. Os metodistas despertaram a consciência como João Howard e Sara Peters que conseguiram grandes reformas nas prisões da Inglaterra.

Em conexão com o seu trabalho em Foundry, em Londres, Wesley estabeleceu uma despensa, um lar para as pobres viúvas e uma caixa de beneficência para auxiliar os pobres.

Do trabalho filantrópico de Wesley saíram idéias que têm estimulado os povos nos tempos modernos para a solução dos problemas sociais.

13. CRISE E DISSENSÃO.
O ano de 1764 é considerado o ano da crise nas fileiras metodistas. João Wesley já tinha trabalhado vinte e cinco anos. E o avivamento continuava em pleno vigor. Realmente começou a manifestação de uma onda espiritual que ia passando por todas as sociedades.

Havia uma questão que sempre pesava na mente de Wesley e seu irmão Carlos, acerca da relação das sociedades para com a Igreja Anglicana. Em ocasiões diversas, tomaram a deliberação de não se separarem da Igreja Anglicana. Carlos Wesley foi mais forte neste propósito do que seu irmão João. Mas quanto mais os Wesley manifestaram o seu desejo de ficar na Igreja Anglicana e conservar nela as sociedades, tanto mais oposição os párocos daquela igreja fizeram para repelir os membros das sociedades da comunhão da Igreja. Por isso, Wesley tinha grande dificuldade em administrar a santa ceia ao seu povo.

Como as sociedades estavam espalhadas por toda parte, Wesley não podia administrar a santa ceia ao seu povo sozinho. Whitefield já estava quase acabado e ocupado com o seu orfanato e não podia ajudá-lo. Carlos Wesley tinha família e não estava bem disposto para o trabalho metodista. Wesley resolveu então escrever uma carta-circular ao clero evangélico pedindo paciência, tolerância e auxílio. Mas qual não foi a sua surpresa ao receber apenas três respostas às suas sessenta cartas. Se o clero que ele considerava simpático para com o movimento não respondeu sua carta, que se podia esperar do resto da Igreja?

Na ocasião da Conferência em 1764, houve doze clérigos presentes. Vieram, não para cooperar com Wesley na continuação da obra das sociedades, mas para persuadi-lo a entregá-las aos párocos de cada paróquia onde estavam localizadas, e Carlos Wesley apoiava a proposta. Mas tal arranjo não era uma solução para Wesley. Que faria com seus pregadores? Wesley achava que seus pregadores eram tão chamados por Deus para pregar como ele, e que os membros das sociedades não seriam pastoreados pelos párocos, porque os párocos não cuidavam dos seus próprios rebanhos. Por isso diz ele: "Hão (as sociedades) de prosperar tanto, quando forem deixadas como ovelhas sem pastor? Tem-se feito esta experiência repetidas vezes, e sempre com os mesmos resultados" (Fitchett, Vol. II, p. 72).

Assim Wesley ficou quase sozinho, arcando com toda a responsabilidade do seu trabalho. E além de tudo isso, houve grande perturbação em diversas sociedades, especialmente nas de Londres.

Desde o princípio de 1760, começou um despertamento espiritual mais acentuado do que de antes. Nos fins do ano 1762, Wesley escreveu: "Já há muitos anos meu irmão dizia que o nosso dia de pentecostes ainda não tinha chegado em sua plenitude. Mas não duvidou de que haveria de chegar esse dia. Então ouviremos tão freqüentemente de pessoas santificadas como agora ouvimos de justificadas". E qualquer pessoa, sem preconceito, que tem lido as narrações no meu Diário, pode observar que já havia chegado em sua plenitude" (Fitchett, Vol. II, p. 73).

Desde o princípio do movimento, tinha havido casos de santificação nas sociedades, mas nessa época tornou-se mais comum.

À doutrina ainda faltava uma definição clara. Wesley mesmo nunca chegou a professar a experiência própria de santificação. Mas ele nos deu uma definição dessa doutrina. Ei-la na parte negativa: "Nunca advoguei a perfeição absoluta e impecável; mas também não afirmo a perfeição impecável, visto que não é bíblico. Não reconheço uma perfeição que nos habilite a cumprir toda a lei, de modo que não tenhamos necessidade dos méritos de Cristo. Agora e sempre protesto contra tal coisa". A parte positiva: "Por perfeição cristã entendo (como tenho dito repetidas vezes) que seja amor a Deus e ao próximo, de modo que possamos regozijar-nos sempre, orar sem cessar e em tudo dar graças. Quem tiver esta experiência é perfeito no sentido bíblico da palavra" (Fitchett, Vol. II, p. 74).

Para mostrar como Wesley promovia seus cultos
nessa época, citaremos algumas passagens do seu Diário.

Em 29 de julho de 1761:
"Domingo, 29. Tivemos uma festa de amor muito confortadora, em que, diversas pessoas contaram as grandes bênçãos que obtiveram há poucos dias. Não temos preocupação acerca do nome pelo qual se chamam essas bênçãos, uma vez que são inegáveis. Muitos têm tido, e muitos experimentaram diariamente mudanças inexplicáveis.
Depois de profundamente convencidas de pecado original (inbred sin), especialmente de orgulho, de raiva, de obstinação e incredulidade, num instante se sentem cheios de fé e de amor; sem orgulho, sem obstinação ou raiva; e dai em diante têm comunhão contínua com Deus, sempre se regozijando, orando, louvando a Deus.”

“Pode haver quem diga que isso é obra do Diabo. Eu digo que é obra do Espírito de Deus; e digo aquele que tem tal experiência, que continue a rogar que Deus não cesse de abençoá-lo. Se continuar a andar com Deus será abençoado, se não perderá a sua experiência" (Wesley's Journal; Vol. III, p. 76).

Sem dúvida, esta onda de avivamento espiritual que passou pelas sociedades, trazendo vida nova aos crentes, consigo trazia um certo perigo. Todas as coisas boas podem ser pervertidas. As flores são mais perfumadas do que as folhas, mas, quando se estragam, produzem um cheiro mais desagradável. Assim essa onda pentecostal trouxe perturbação as sociedades Metodistas, especialmente em Londres. Certas pessoas tiveram experiências tão maravilhosas que foram levadas ao fanatismo. Mas julgavam que podiam dispensar a leitura da Bíblia, a oração, a instrução da parte das pessoas que não gozavam de tal experiência; enfim já estavam livres do pecado e da tentação.

Entre essas pessoas figuravam duas que foram os auxiliares mais destacados entre os leigos. Tinham gozado da amizade, da confiança e da proteção de João Wesley. Esses dois homens, George Bell e Tomaz Maxfield, ocuparam lugares de destaque nas fileiras metodistas. George Bell era oficial de polícia antes da sua conversão e tornou-se depois pregador local. Julgou que podia fazer milagres, curando os enfermos. Afirmou que atingira a perfeição e até da tentação estava livre também da necessidade de aprender dos outros que não gozavam de uma experiência igual a dele e da necessidade de observar as Regras das Sociedades Unidas. Wesley o admoestou e procurou conservar livres da sua influência as sociedades. Mas Bell não quis ser admoestado por Wesley, julgando que estava acima de Wesley em conhecimento, que tinha o dom da profecia e profetizou o fim do mudo para um certo dia. Isso causou bastante perturbação entre os metodistas. Alguns ficaram em claro toda a noite em que esperavam o fim do mundo. Wesley finalmente denunciou e expulsou a George Bell das sociedades Metodistas. Mas Bell levou grande número de membros consigo.

Tomaz Maxfield converteu-se em Bristol, ouvindo um sermão que Wesley pregou logo no princípio da sua carreira. Além disso, Wesley o levou para Londres, onde gozou uma sociedade muito mais elevada e onde encontrou a moça com que se casou mais tarde. Wesley ajudou-o nos seus estudos e conseguiu a sua ordenação na Igreja Anglicana. Enfim, Maxfield devia a Wesley a sua conversão, a sua elevação na sociedade e na Igreja e sua esposa. Foi por ele altamente auxiliado e protegido. Mas foi levado pela onda de entusiasmo de Bell e afastou-se de Wesley. Chegou a tal ponto que Wesley teve de cortar relações com ele. Mais tarde arranjou uma paróquia na Igreja Anglicana e tornou-se pároco daquela igreja.

Ainda que Wesley denunciasse tais homens e os seus costumes nas suas sociedades, contudo foi severamente criticado.

Ficou então sozinho à testa do movimento metodista. Os colegas da sua mocidade não podem auxiliá-lo. O clero não somente recusa ajudá-lo, mas o critica e levanta obstáculos contra ele. Podemos apreciar o estado de ânimo em que se achou nessa época, citando uma carta que escreveu para Lady Huntingdon: "Pela misericórdia de Deus ainda me acho com vida e prosseguindo no trabalho para o qual Ele me chamou, embora, mesmo no tempo mais tormentoso, sem auxílio algum daqueles de quem eu podia esperar socorro. O conselho deles, parece-me, é este: ‘Abaixo, abaixo com ele, abaixo com ele até ao chão’. Refiro-me (pois não uso de rodeios) a Madan Haweis, Benidge e (sinto dizê-lo) Whitefield. Somente Lomaine tem mostrado um espírito verdadeiramente simpático e feito o papel de um irmão. Quanto às profecias desses pobres loucos, George Bell e mais meia dúzia, não sou eu em nada mais responsável por eles do que Whitefield, pois nunca lhes dei absolutamente asas, antes lhes tenho feito oposição desde o momento em que os ouvi, nem têm essas extravagâncias base alguma em qualquer doutrina que ensino".

Mas Wesley suportou a crise, que passou. Daqui em diante ele é realmente o único guia à testa do movimento metodista. Vai seguindo seu caminho calma e seguramente. Continuou a ensinar a mesma doutrina a respeito da perfeição cristã. Na Irlanda e em outras partes da Inglaterra, onde o fanatismo não entrou no meio dos crentes, o trabalho prosperou e houve muitas pessoas que professaram o amor perfeito.

Fitchett, falando sobre a atitude da Igreja Anglicana para com este movimento espiritual, disse: "Se alguém quer uma demonstração da índole geral da Igreja Anglicana, depois destes quase trinta anos de oposição para com este grande movimento espiritual, que já estava transformando a vida moral da Inglaterra, que tome o incidente, seguinte: aos 9 de marco de 1768 foram expulsos seis estudantes de Oxford por terem costumes metodistas e por tomarem sobre si o trabalho de orar e de ler as Escrituras em casas particulares. O diretor do departamento em que esses estudantes estavam, defendeu a sua doutrina, baseando-se nos Trinta e Nove Artigos e falou com elevação louvando a piedade e o caráter nobre dos acusados, mas em vão. O presidente do colégio, depois de ter lavrado a sentença, disse que, por serem demasiado religiosos, seria muito próprio indagar-se da conduta de alguns que eram por demais irreligiosos". Onde se encontram fatos mais significativos do que a expulsão da Universidade de Oxford em 1768 de seis estudantes de caráter elevado, por terem costumes metodistas?!"

Os itinerantes metodistas, na Inglaterra, e, mais tarde, em toda parte do mundo, pregaram a doutrina da perfeição cristã que se encontra nos escritos de Law, Fletcher e Wesley. Wesley anotou no seu Diário observações acerca dessa doutrina pregada entre as sociedades da Inglaterra e da Irlanda e onde foi pregada houve despertamento religioso e muitas conversões. Pode-se verificar isso lendo o Diário de Wesley. Ele considerava os metodistas como os depositários dessa doutrina. Ouçamo-lo: "É grande depósito que Deus deu ao povo metodista e parece que Deus o suscitou ao povo para propagar esta doutrina. Não foi sua missão formar um partido religioso, mas espelhar a santidade sobre a face da terra". (Stevens, Vol. I, p. 406).


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(*) Texto extraído das páginas 56 a 103 do livro História do Metodismo, de Paul Eugene Buyers, publicado pela saudosa Imprensa Metodista em 1945.

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