IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Metodismo
Rio, 12/4/2008
 

As oposições e perseguições ao movimento metodista pelo clero anglicano, pelas Igrejas Presbiteriana e Congregacional, por George Whitefield, pelos motins populares e pela imprensa (Paul Eugene Buyers)

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O adversário do bem é o mal. Não se pode implantar o bem no mundo, sem se sofrer a oposição do mal. Quando Jesus enviou seus discípulos para evangelizar o povo, disse: "Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos". Desde os tempos apostólicos até agora o Evangelho vem sofrendo oposição. O movimento metodista não foi exceção a essa regra. O clero, os políticos e o povo em geral alegavam outros motivos por levantarem oposição a Wesley e a seus auxiliares, porém no fundo havia só um motivo verdadeiro — coração mau, cheio de incredulidade e de impiedade.

As verdades que João Wesley e seus ajudantes pregavam, sendo aceitas e postas em prática, forçosamente provocariam alterações e mudanças radicais nos costumes do povo. Eis ai a causa das oposições!

A revolução moral, na Inglaterra, sofreu oposição durante muitos anos. Homens, como João Goodwin, João Milton e Locke, lutaram pela liberdade moral e religiosa, mas não conseguiram quebrar a grande oposição que sofriam. George Whitefield, os irmãos Wesley e seus ajudantes conseguiram quebrar a força dos motins e obrigar aos magistrados a cumprir o seu dever, defendendo os direitos da imprensa e do pensamento. Houve mais tolerância e liberdade entre o povo inglês depois do movimento metodista.


1. A OPOSIÇÃO DO CLERO DA IGREJA ANGLICANA.
O clero, logo no princípio do movimento metodista, levantou oposição a João Wesley, alegando que ele não tinha direito de entrar nas paróquias (ou seja, numa área determinada como um bairro ou uma vila ou até mesmo em uma cidade que eram parte do território, da área geográfica que pertencia à paróquia) dos outros e pregar. O bispo de Bristol (Jose Butler, autor da analogia) disse a Wesley: "O senhor não tem o direito de entrar aqui; eu o aconselho a retirar-se". Além de não poder pregar no púlpito da Igreja, não podia pregar em parte alguma do território que pertencia a paróquia.Mas Wesley se defendeu, dizendo que por ser pastor anglicano tinha comissão (autoridade e autorização) para pregar em qualquer parte onde existia a Igreja Anglicana.

Qualquer coisa de que se podiam lançar mão era aproveitada para silenciá-lo. Foi acusado de ser jesuíta e de estar ligado ao catolicismo romano. Essas acusações fizeram surgir muita literatura anti-metodista na Inglaterra.

Carlos Wesley foi acusado de deslealdade, porque usava nas suas orações a frase: "Faze voltar ao lar os exilados". Carlos Wesley pedia que Deus trouxesse os pecadores para casa celestial, mas seus adversários queriam acusá-lo de sedição, afirmando que ele pedia que o rei deposto e exilado voltasse para o trono da Inglaterra.

Veja-se como uma mente pervertida, perverte tudo! E acusou-se João Wesley de ter recebido dinheiro de um político para fins subversivos. Tudo que se podia inventar foi levantado contra ele e seus auxiliares. Quando nos lembramos da mentalidade do povo daquela época e de como estava presa a esportes cruéis, não nos admira que se sentisse prazer em incomodar os pregadores, acusando-os de traição.

Wesley tinha vantagem sobre os seus pregadores leigos. Foi bem educado numa das universidades do pais, era ordenado e comissionado da Igreja Anglicana para pregar; mas os seus pregadores não eram portadores de títulos, nem eram licenciados pelo governo, pelo que corriam muito mais perigo de serem perseguidos pelo clero do que ele. O clero podia dizer ao pregador leigo: "Você não tem licença para fazer pregações, tem de entrar no serviço militar". E diversos pregadores leigos foram arrastados para o serviço militar. João Nelson foi um dos que sofreram esta grande injustiça. Tornou-se crime estar ligado aos metodistas.

Já tratamos do caso de seis estudantes metodistas que foram expulsos da Universidade de Oxford simplesmente porque tinham "idéias metodistas e se arrogaram o direito de orar, ler e explicar as Escrituras". E houve um caso, o de Eduardo Greenfield, separado da esposa e da família porque abandonara os vícios de jogar, beber e blasfemar contra o nome de Deus e se tornar metodista. João Wesley, que contou este caso, disse: "Eu perguntei a um cavalheiro, em S. Just, qual era a objeção que fazia contra Eduardo Greenfield. Ele disse: "Ora, o homem é bom em outras coisas, mas a sua imprudência os cavalheiros não a podem suportar, Ora, senhor, ele disse que sabe que seus pecados foram perdoados". (Townsend et Al, Vol. I, p. 325).

Não somente o clero instigava motins para perseguir os metodistas; alguns vigários chefiaram motins e deram dinheiro à certas pessoas para incomodar aos metodistas. Por causa disso até Wesley e alguns outros vigários amigos como Guilherme Grimshaw, foram cruelmente tratados.

O clero queria fazer calar a Wesley e seus auxiliares. Os vigários fecharam as portas das igrejas contra eles e os bispos descarregaram o seu ódio sobre os metodistas. "O clero", como diz Fichett, "muitas vezes inspirou e às vezes publicamente dirigiu motins contra eles. Era-lhes proibido pregar nas igrejas e então foram tratados como criminosos por pregarem ao ar livre. Wesley disse: "Eles nos empurraram para o lamaçal e depois queriam perseguir-nos porque ficamos sujos”.

2. A OPOSIÇÃO DOS DISSIDENTES: IGREJAS CONGREGACIONAL E PRESBITERIANA.
Pode-se compreender porque motivo o clero da Igreja Anglicana perseguia os metodistas, mas é difícil compreender por que causa o clero das igrejas dissidentes (separadas da Igreja Anglicana) os perseguiam. É que as igrejas congregacional e a presbiteriana estavam, naquela época, seriamente contaminadas de unitarismo e tinham vida espiritual enfraquecida. Chegaram ao ponto de excluir da comunhão os membros que assistissem às pregações dos metodistas. Não praticaram violência contra os metodistas, porém cortaram a comunhão com eles.

3. OPOSIÇÕES DOS MOTINS
O vulgo (povo, multidão) estava pronto para tudo e o clero, desejando, podia instigá-lo contra os metodistas com facilidade. Isto realmente seria um divertimento para o povo. Wesley e seus ajudantes tiveram de enfrentá-lo.

Nos primeiros anos do movimento metodita Wesley sofreu muito com os motins. Em toda parte estava sujeito as perturbações populares. O fato de pregar ao ar livre era uma novidade que atraía a atenção do povo. Em muitos lugares as autoridades não se importavam com os amotinadores: o pregador não tinha a quem pedir proteção.

Wesley diversas vezes correu o perigo de perder a vida. Alguns metodistas realmente perderam a vida nos motins, senão na hora, mais tarde, em conseqüência de ferimentos recebidos.

Lendo o Diário de Wesley, encontramos muitas referências aos motins e à maneira como os enfrentou. Poderíamos citar páginas e páginas, a respeito, mas daremos só um trecho.

"Em 12 de fevereiro de 1748. Depois de pregar ao meio dia, em Oakhill, fui a Shepton e ali encontrei o povo sob uma consternação esquisita. Um amotinador, disseram-me, fora contratado, preparado e meio embriagado, para que fizesse toda sorte de mal. Comecei a pregar entre quatro e cinco horas da tarde; ninguém perturbou o culto; tivemos uma boa oportunidade e o coração de muitos ficou confortado. Estava eu pensando no que fim que teria levado o amotinador, quando fomos informados de que, por engano, tinha ido para outra parte da cidade, onde julgava que eu havia de apear (como geralmente faço), na casa de Guilherme Stone, e que para lá havia convocado todos por meio de um tambor, para se encontrarem comigo, quando eu viesse. Mas Swindells, ignorando isso, levou-me para o outro lado da cidade e o amotinador não descobriu seu engano senão depois de eu haver terminado meu sermão; portanto, foi frustrado no seu desígnio e ele ficou desapontado”.

“Contudo, o amotinador acompanhou-nos do lugar do culto até a casa de Guilherme Stone, atirando-nos terra, pedras e torrões em abundância, mas não nos feriu: somente Swindells apanhou um pouco de lama no paletó e eu um pouco no chapéu.”

“Depois de entrarmos na casa de Stone, os homens começaram a jogar pedras grandes, a fim de quebrar a porta; mas, vendo que era difícil quebrá-la, deixaram de jogar pedras. Quebraram todas as telhas sobre a porta e depois jogaram uma grande quantidade de pedras pelas janelas. Um dos chefes, no seu zelo, entrou conosco na casa e ficou ali retido. Não gostou disso. Queria sair, mas não podia; por isso ficou perto de mim, julgando-se, desse modo, mais protegido. Eu subi dois degraus da escada, onde se ficava mais protegido e o homem ficou atrás de mim. Uma pedra bateu na testa dele e o sangue começou a jorrar. Ele gritou: "Oh, senhor, havemos de morrer hoje à noite? Que farei? Que farei? Que farei?" Eu disse: "Ore a Deus. Eie pode livrá-lo do perigo". Aceitou meu conselho e começou a orar como nunca o fizera na vida.”

“Eu e Swindels também começamos a orar. Depois eu lhe disse: "Nós não devemos ficar aqui; devemos descer imediatamente". Ele disse: "Senhor, não podemos descer, não está vendo as pedras voando por toda parte?". Passei pela sala e desci a escada e nenhuma pedra foi lançada até chegarmos em baixo. Os amotinadores já tinham aberto a porta. Quando entramos na sala em baixo eles arrombavam uma porta e nos saímos por outra. Ninguém nos viu, ainda que estivéssemos não mais de cinco metros afastados deles

Encheram a casa de uma vez e falavam em incendiá-la, mas, lembrando um deles que sua casa ficava contígua, desistiram disso. Ouvindo alguém gritar "já foram para outra parte da cidade", julguei que seria bom ir mesmo; portanto, fomos para o outro lado da cidade, onde Abrão Jenkins nos esperava e se ofereceu para nos guiar até Oakhill”.

“Enquanto íamos passando por Shepton-Lane, sendo já escuro, Abrão Jenkins gritou: "Desce, desce do barranco". Fiz o que ele disse, mas, sendo o barranco alto, desci de repente: eu e meu cavalo viemos rolando um sobre o outro, mas não ficamos machucados. Em menos duma hora chegamos à Oakhill e no dia seguinte, de manhã, a Bristol" (Wesley's Journal, Vol. II, p. 45-47).

Wesley registrou no seu Diário muitas cenas de violência praticadas pelos amotinadores, como já notamos uma em que ele fala de si mesmo. Queremos registrar aqui também uma cena de violência em que fala de seu amigo e ajudante, João Nelson (1747).

"Aqui João Nelson me encontrou. Quinta, sexta e sábado ele pregou em Acomb e seus arredores. Na sexta-feira da Paixão pregou em Heworth-Moor a um auditório grande e atencioso. No dia da Páscoa, às 8 horas, lá pregou outra vez a uma congregação reverente. Já quase no fim do seu discurso, um amotinador chegou de York, contratado por alguns sujeitos. Ficaram quietos até que um católico eminente gritou: "Por que não quebra a cabeça desse cachorro?". Logo começaram a jogar nele tudo de que podiam lançar mão. Por isso a congregação se dispersou. João Nelson falou mais algumas palavras e saiu na direção de York. Os homens o seguiram, jogando contra ele tijolos e pedras. Um dos quais bateu-lhe no ombro e nas costas e, antes de chegar à cidade, um pedaço de tijolo lhe bateu na nuca e ele caiu ao chão. Quando voltou a si, dois homens de Acomb o levantaram e levaram. O sujeito prosseguiu, jogando pedras até chegar à porta da cidade, perto da qual morava um negociante honesto que pegou no braço de João Nelson e o levou para dentro de sua casa. Alguns dos amotinadores juraram que quebrariam as janelas da casa se o dono não no soltasse. Mas ele lhes respondeu resolutamente: "Não o farei e, se alguém tocar na minha casa, será ferido. Ele há de lembrar-se disso até ao fim da vida". Ouvindo isso, julgaram que era mais prudente retirar-se. Depois de João Nelson ter recebido tratamento médico, continuou viagem até Acomb. Ás cinco horas da tarde saiu para pregar e começou a cantar um hino. Antes de cantar o hino, o mesmo sujeito chegou de York num carro com muitos outros. Jogaram pedras e torrões com tanta violência que a congregação se espalhou em poucos minutos. João Nelson passou adiante até chegar a uma praça, em frente da casa de Tomaz Sleton. Dois homens o seguiam apressados. Um jurou que havia de tirar-lhe a vida. E parecia que ia mesmo matá-lo. Bateu-lhe diversas vezes, com força na cabeça e no peito e finalmente o jogou no chão e subiu sobre seu corpo, pisando e deixando como se estivesse morto. Mas, pela misericórdia de Deus, levado para casa, voltou logo a si e, depois de uma noite de descanso, pode andar a cavalo no dia seguint, até Osmotherey " (Wesley's Journal, vol. II, p. 15-16).

Estes dois casos ilustram os milhares que se davam na Inglaterra no tempo de Wesley.

O método adotado por Wesley diante dos motins era entrar no meio do povo, fitando os olhos dos chefes, e perguntar: "Que fiz eu contra o senhor? Contra o senhor? Contra o senhor?". Não mostrava medo. Muitas vezes conseguia dominar os amotinados desse modo, transformando sua reunião numa reunião devocional, com algumas conversações.


4. OPOSIÇÕES DOUTRINÁRIAS.

Havia, no movimento metodista, desde o princípio, elementos divergentes que haviam de manifestar-se no correr do tempo. Quanto à vida moral e espiritual do movimento metodista havia unidade; porém, quanto à doutrina, havia divisão, ou melhor, dois ramos de metodistas, a saber: o ramo calvinista e o ramo arminiano.

George Whitefield era o chefe do ramo calvinista e João Wesley do arminiano. A divergência doutrinária entre esses dois grandes amigos trouxe separação às suas atividades. George Whitefield tomou um rumo e João Wesley, outro; mas a influência de um sobre o outro contribuiu para estender o Metodismo em duas áreas maiores.

A questão da predestinação — problema de teologia dogmática, com dificuldades insolúveis — tem contribuído, por longos séculos, para dividir os melhores homens em dois campos divergentes. Há os que pensam que esta questão doutrinária deve ser transferida da teologia dogmática para a esfera de metafísica, e deve, assim, ser tirada das mãos dos teólogos e entregue aos filósofos.

Compete ao historiador narrar os fatos que se deram entre esses dois colegas, ainda que seria mais agradável deixá-los em silêncio.

As idéias teológicas de Wesley se formaram antes dele deixar Oxford. A correspondência que manteve com a sua mãe, revela como isso se deu. Sem dúvida, as idéias de sua mãe influenciaram muito nas do seu filho.

João Wesley discute com a sua mãe a intrincada questão da predestinação. Ela lhe diz : “Essa doutrina, como é mantida pelos calvinistas rigorosos, causa horror e deve ser repudiada porque acusa diretamente o Deus Altíssimo como o autor do pecado". Ela assevera que "Deus fez uma eleição, mas baseada na sua presciência e de modo algum derroga a sua graça, nem prejudica a liberdade do homem".

Anos depois Wesley publicou as cartas de sua mãe no Arminian Magazine e, sem dúvida, elas ajudaram a formar sua teologia e a da Igreja Metodista" (Fitchett, Vol. I, pág. 74).

Wesley procurou definições claras e diretas das verdades evangélicas essenciais à salvação pessoal, em vez de generalizações filosóficas, porque visava uma reforma espiritual e não a uma reforma dogmática ou eclesiástica. Interessou-se em doutrinas fundamentais e concretas (experimentáveis), tais como a fé, a justificação, a regeneração, a santificação e o testemunho de Espírito. E, além disso, o seu gênio organizador e orientador dirigido por bom senso e por fins práticos, conseguiu uma organização que lhe valeu o elogio de ter, para governar, "um gênio não inferior ao de Richelieu".

Wesley, que enxergava as coisas por prismas reais, não havia de interessar-se em assuntos metafísicos para conseguir fins práticos.

A doutrina da predestinação, como ensinada por Calvino, não podia ser aceita por ele. Nem quis aceitar o Arminianismo exatamente como foi apresentado pelos "Remonstrantes", no sínodo de Dort. Mas, com poucas alterações, aceitou os pontos seguintes:
1.— Que Deus decretou e conferiu salvação àqueles que, segundo previu, conservariam a sua fé em Cristo inalterada até a morte; e, por outro lado, destinou ao castigo eterno os incrédulos que resistem ao seu convite até o fim da vida.
2.— Que Jesus Cristo, pela sua morte, fez expiação universal pelos pecados de cada ser humano, individualmente; contudo, ninguém, senão os crentes, podem participar dos benefícios divinos.
3.— Que ninguém, por si mesmo, ou por força do livre arbítrio, pode produzir ou despertar a fé na morte de Cristo; mas que, sendo o homem mau por natureza, mau e incapaz tanto de desejar como de fazer o bem, é necessário que nasça de novo e seja renovado por Deus, pelo amor de Cristo, por intermédio do Espírito Santo.
4.— Que a graça divina, ou energia, que sara a alma do homem, aperfeiçoa tudo o que nele pode ser chamado bom; contudo, a graça não obriga a ninguém contra a sua vontade, mas pode ser repelida pela vontade do homem.
5.— Que aqueles que são unidos a Cristo pela fé, recebem força suficiente para vencer o pecado; mas que é possível perder o homem a sua fé e cair do estado de graça". (Stevens, Vol. I, p. 148149).

Whitefield não possuía mente dialética como a de Wesley. Não tentou seriamente definir a sua teologia. Foi dirigido mais pelo sentimento do coração do que pela lógica da mente. Whitefield magnificava a graça de Deus por ter salvo um homem como ele. A sua salvação pessoal era tão maravilhosa que ele queria exaltar a graça de Deus por ter salvo um homem tão vil como ele era.

Wesley teria concordado com tudo isso e teria amplificado ainda mais a graça de Deus, entendendo-a a todos os homens. O sentimento do seu coração diante das grandes multidões em Moorfield levou a pregar salvação para todos igualmente, o que o induziu a fazer o mesmo apelo às multidões que escutavam.

A natureza da experiência religiosa de Whitefield, reforçada pelo contacto que teve com a escola de Jônatas Edwards, na Nova Inglaterra, o encaminhou para o Calvinismo.

Aqui temos dois grandes homens no limiar da sua carreira ministerial, com os mesmos fins em vista, com a mesma paixão pela salvação de almas, mas com pontos de vista teológicos diferentes. As divergências entre eles eram tão grandes que não podiam trabalhar juntos, em harmonia, mas, com amor cristão suficiente nos seus corações, puderam manter amizade até ao fim da sua jornada no mundo.

O movimento metodista, diante do exposto, dividiu-se em duas partes, ou ramos, a saber: o ramo calvinista, chefiado por George Whitefield e Lady Huntingdon, e o ramo arminiano, chefiado por João Wesley e seus auxiliares.

Houve, portanto, um choque entre eles, em matéria de doutrina: Whitefield via os homens tão depravados como ele, sem regeneração Isso o levou a crer que Deus o tinha favorecido altamente, estendendo-lhe a livre graça e não a muitos outros. Essa idéia da certeza da sua salvação o levou a pensar na perseverança final dos santos; Deus havia de conservá-lo firme na fé até a morte. E, como ele julgava que Deus lhe tinha dado "o testemunho do Espírito" sobre esse ponto e Wesley não tinha tal experiência, não dava a Wesley autoridade para julgar a questão.

Na correspondência que tiveram sobre o assunto, Wesley ficou tocado pelo bom espírito com que Whitefield se expressava. Numa das suas cartas Wesley assim se exprime: "A situação é muito clara: Existem fanáticos tanto a favor da predestinação como contra ela. Deus está enviando uma mensagem aos dois partidos, mas nem um nem outro a receberão, se não vier ela da boca de alguém que seja da sua opinião. Portanto, durante algum tempo é permitido que vós sejais de uma opinião e eu de outra. Mas, quando chegar a sua hora, Deus fará, aquilo que os homens não podem, a saber: fará que ambos tenhamos o mesmo parecer" (Fitchett, vol. II, p. 32).

A divergência doutrinária entre Wesley e Whitefield causou uma reação entre as duas escolas. A posição de Wesley foi contestada por homens como Tomaz A. Toplady e Roland Hill. Wesley não entrou em controvérsia como o fez o apologista das doutrinas arminianas, João Fletcher, que escreveu a obra chamada "Fletcher's Checks". É uma obra clássica sobre o assunto. Muitos dos polemistas foram violentos na sua linguagem, mas tanto neste ponto como na argumentação Fletcher sobressai como homem que mantém espírito cristão em todos os seus escritos.

Essa controvérsia durou seis anos e muitos livros e panfletos se publicaram sobre o assunto. É difícil dizer qual foi o partido que saiu triunfante do conflito. Mas o assunto foi tão bem ventilado que não tem havido necessidade de renová-lo. O grande teólogo Richard Watson, escrevendo sobre o resultado desta controvérsia, disse: "A habilidade e o gênio admirável de Fletcher o talharam tão bem para conduzir a controvérsia que se levantou, que Wesley deixou quase exclusivamente a ele a discussão, enquanto continuava calmamente seu trabalho. E toda a série da publicação das discussões, da pena do vigário de Madlley, não pode ser excessivamente apreciada ou valorizada. Enquanto a linguagem perdurar, continuarão eles (os Checks) a restringir o Antinomianismo em todas as formas sutis que pode tomar; apresentarão também o sistema puro e belo da verdade evangélica e, bem assim, protegerão, por outro lado, contra a suficiência própria do Pelagisnismo. O rev. João Benidge foi seu antagonista principal; mas seu saber, sua subtileza, seu talento brilhante na ilustração de um argumento, acima de tudo o seu espírito santificado, com o qual orientou a controvérsia, lhe deram uma grande superioridade sobre seus adversários; e, embora haja diferença de opinião, segundo os sistemas teológicos em que se colocarem os leitores, quanto a quem coube a vitória, não pode haver dúvida sobre quem mostrou mais talento”.

“Essa controvérsia, dolorosa como foi, em muitos aspectos se tornou causa de frases profanas nos lábios libertinos daquela época, que ficaram muito satisfeitos com a sua religião, por causa daquelas lutas, que diziam promovidas por "gladiadores espirituais", mas produziu bons resultados em nosso país. Demonstrou aos calvinistas piedosos e moderados como as opiniões mais ricas da verdade evangélica podiam muito bem unir-se ao Arminianismo; e produziu, pelo argumento intrépido e audaz, as conseqüências lógicas das doutrinas dos decretos, muito mais moderação naqueles que ainda as aceitam, dando origem a uma expressão calvinista mais branda nos dias subseqüentes — um resultado que perdura até hoje. As discussões sobre este assunto, desde aquele tempo, tem sido menos freqüentes e mais moderadas; nem tampouco os bons homens têm procurado afastar-se para as posições opostas tanto como têm procurado aproximar-se uns aos outros. Essa tem sido a verdade entre os metodistas e os dissidentes. Do Calvinismo, desde o período dessa controvérsia, os pregadores metodistas e sociedades não têm tido perigo; tão poderosos e completos foram seus resultados sobre eles. Desde a Conferência de 1770 não tem sido necessário perguntar: "Em que nos temos inclinado demais para o Calvinismo?" (Mc Tyiere, p. 335-336).

5. OPOSIÇÃO DA IMPRENSA.

Logo no princípio do movimento metodista a imprensa levantou oposição contra Wesley e seus ajudantes. Começou em 1738 e abrandou um pouco em 1770: os quarenta anos que levou para se implantar o Metodismo na Inglaterra. Toda espécie e forma literárias se empregaram para ridicularizar e desprestigiar os metodistas. O historiador Richard Green, numa obra sobre o assunto, inventariou seiscentos e seis (606) publicações feitas contra os metodistas. Os prelados e literatos competiam com os rabiscadores, na falsificação e na ignorância dos fatos, com o fito de menosprezar o povo chamado metodista.

Wesley era quase sempre o objeto principal dos ataques e assaltos. Mas todos os metodistas, tanto os pregadores como os simples membros das sociedades, eram alvo de abusos e falsidades. Wesley respondia a essas críticas e calúnias com maneira e com estilo diferentes daqueles com que era atacado. Sempre procurava explicações e a razão de tudo que fazia. Muitas vezes não tomava conhecimento de certas críticas, considerando-as indignas de resposta. Às vezes demorava demais a responder, com prejuízo da causa. Só uma vez respondeu com aspereza. Foi então que após argumento ao sr. Toplady acerca da predestinação, resumido na forma seguinte: "Eis a conclusão de tudo: suponhamos que um em vinte da raça humana é eleito; dezenove em vinte são reprovados. O eleito será salvo faça o que quiser. Os reprovados serão condenados: façam o que puderem. Que o leitor creia isso ou será condenado. Por ser a verdade, firmo-o com o próprio punho." A-T". (Buyers. p. 45).

A melhor defesa que João Wesley tenha feito talvez foi "Um Apelo Sincero aos Homens de Razão e Religião".

Dizem que Wesley respondia às criticas feitas a ele com argumentos claros e precisos que desarmavam os adversários. Já, falamos de como João Fletcher procurou defender Wesley e as doutrinas que ele ensinou. Havia também outros que procuraram responder aos críticos. Entre estes se acha Tomaz Olivers.

Toplady queria desprestigiá-lo, mas, quando teve ocasião de conversar com ele, mudou de opinião e, escrevendo a um amigo, disse: "Para falar a verdade, estou satisfeito de ter-me encontrado com Olivers, porque parece pessoa mais inteligente e bem comportada do que eu imaginava".

Mas a melhor resposta dada a todas as críticas e calúnias era a vida transformada dos metodistas. Com o correr do tempo, o fruto do movimento metodista começou a aparecer e por fim se tornou patente a todos os que tinham olhos para ver. A árvore se conhece pelo seu fruto. O Metodismo tinha trazido saúde moral e espiritual ao povo inglês. Tinha estimulado estadistas a combater a escravidão, a má administração das prisões, a intemperança e a ignorância do povo. Os metodistas não tinham medo da morte. Nas últimas horas os crentes metodistas ficavam misteriosamente iluminados, deixando impressões profundas acerca do mistério da vida

O segredo do triunfo do Metodismo não está em qualidades naturais, mas em influências espirituais. Não se explica pelo uso e dons naturais dos seus guias, pois Wesley tinha, antes de iniciar a sua carreira de evangelista, os mesmos dons que teve depois. Os treze anos de lutas e de fracassos entre a sua ordenação em 1725 e a sua conversão em 1738, revelam a impotência da força de vontade do homem para salvá-lo.

O verdadeiro segredo do bom êxito do movimento metodista explica-se pelo copioso derramamento do Espírito Santo sobre corações arrependidos e crentes. Esse grupo de pessoas crentes tornou-se instrumento idôneo pelo qual o Espírito Santo produziu a grande obra. Essas pessoas convertidas tornaram-se canais pelos quais as "verdades sobre o pecado proclamavam a sua culpa imensurável, a sua condenação eminente e inevitável; mas também revelavam um livramento imediato e pessoal — livramento que vem como ato da graça divina e sob os termos simples da aceitação mediante arrependimento.

Não é livramento leve e fácil que nada custou ao libertador. É supremo milagre do universo que se fez possível unicamente em virtude da redenção por Cristo. É posto ao nosso alcance pelo ministério do Espírito Santo. Coloca a alma perdoada em relação pessoal com o Pai reconhecido e amado.

"Uma redenção divina; um perdão concedido; relações estabelecidas com Deus mediante a fé; a entrada de forças sobrenaturais na vida humana pela graça do Espírito Divino; o alcance de um presente e perfeito ideal de Deus no caráter. Tudo isso se torna inteligível e crível, mediante a obra e os ofícios redentores de Jesus Cristo e pelas energias salvadoras do Espírito Santo na alma humana. Eis a versão evangélica do Cristianismo" (Fitchett, Vol. II, p. 321).

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(*) Texto extraído das páginas 132 a 146 do livro História do Metodismo, de Paul Eugene Buyers, publicado pela saudosa Imprensa Metodista em 1945.

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