IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Vida Cristã
Rio, 8/11/2006
 

OS DESERTOS E AS GALILÉIAS: PARA ONDE VAMOS?

Bispo Paulo Lockmann


 

O início de um novo ano é ensejo significativo para que, como pessoas, famílias e como Igreja de Cristo avaliemos nossa caminhada e a retomemos com novos e renovados propósitos. Pois só deste modo poderemos colher frutos mais abundantes no ano que se inicia.

Tendo isso em mente, coloquei-me diante da Palavra de Deus e ali deparei-me com o texto de Marcos 1:12-15 que relata um momento do início do ministério de Jesus. É ótimo podermos nos espelhar em Jesus e a partir da experiência do Evangelho orientar e reorientar a nossa vida. Este texto tem desafios de profundo significado para nossa vida cristã. Vou levantar nesta reflexão alguns pontos que julgo serem importantes para nós hoje. São eles:

1 - "O Espírito o impeliu para o deserto"
A partir do que planejamos nossa vida para este novo ano? Que pensamento e motivação nos guiam? Alguns planejam fazer um curso a fim de preencher o seu tempo. Outros pensam em mudar algo na sua casa para sair da rotina. Há os que querem alcançar uma promoção em seu ambiente de trabalho. Os jovens esperam alcançar aprovação nos seus estudos com boas notas a fim de mais facilmente encontrarem um lugar de trabalho. Os mais idosos seguem desejosos de alternativas à rotina cansativa, carentes de amor e carinho.

Na maioria dos casos a vida numa sociedade capitalista guiada pelo consumo se organiza em cima de ideais e desejos materiais e geralmente individualistas. Aqui já surge o primeiro desafio do texto, pois mostra Jesus, não guiado por si mesmo, mas guiado pelo Espírito de Deus.

A pergunta que surge é: Damos nós espaço para que o Espírito de Deus também nos guie como conduzia Jesus, o nosso Mestre? Quando falo em ser conduzido pelo Espírito eu não estou pensando apenas em ser membro de uma comunidade cristã e dela participar. Ser membro da Igreja não é o mesmo que ser guiado pelo Espírito! Mas estou falando da capacidade de sentir que os meus ideais e o sentimento que me guia a cada dia são impelidos e impregnados dos ideais que o Espírito de Deus nos dá através da Palavra de Deus. Somos compelidos a amar, praticar a justiça e restabelecer a solidariedade no mundo e particularmente com os que sofrem? Ser guiado pelo Espírito é sentir-se e ser como Jesus: impelido em direção à prática do bem, e se necessário, em direção ao confronto: o "deserto".

2 - "...esteve no deserto por 40 dias..."
O segundo desafio é a nossa opção radical por Jesus e no seu poder enfrentar as tribulações, os poderes malignos, as perseguições e as lutas pela causa do Reino de Deus. Aqui surge o segundo elemento que explica, em parte, a razão porque muitas pessoas não querem se deixar conduzir plenamente pelo Espírito. Confessando-se cristãs mais por tradição do que por compromisso diário, mais por precaução do que por crença e fé. Temem o Espírito e até onde Ele pode levá-los.

As pessoas que se dizem cristãs mas que não fazem a opção radical por Jesus e pela causa do Reino querem de Deus tão somente compensações e sob hipótese alguma prestar-lhe serviço, oferecer-se para participar da Sua Missão de salvar o mundo. Por isso, é inadmissível lutas e problemas como os que Jesus teve que enfrentar em seu ministério por causa do seu testemunho. Alguns justificam-se: "mas não é pra isso que escolhemos a religião? Afinal, quem escolhe propositalmente o "deserto"?" Assim, escolhem se deixar conduzir apenas relativamente, apenas em parte. São guiados em parte por algumas prioridades do Evangelho de Jesus e em parte por suas próprias prioridades. Ou ainda por prioridades construidas por uma visão política e ideológica, ou pela falta dela.

A falta de conhecimento da Palavra de Deus e a imaturidade da fé nos enganam. Não temos nenhuma garantia de que haverá paz, conforto, segurança e vitórias e de que não haverão espinhos e problemas quando optamos por um estilo de vida com caminhos mais convenientes e largos, aparentemente sem problemas e sem maiores compromissos, envolvimento e responsabilidades com as lutas do Reino. Optar por um estilo de vida assim é assumir um caminho sem qualquer compromisso com Deus, Sua palavra e Seu Espírito de Poder. Se também, por acharmos o processo de Deus demorado, optamos em agir por nós mesmos, animados, quem sabe, por uma visão político-ideológica ( seja de direita, de esquerda ou de centro ) que não se submete nem é construida sobre o Evangelho, quase sempre atropelamos as prioridades de Jesus. Como o amor que devemos partilhar com os que sofrem. Com os inimigos, inclusive. Atropelamos também tantos outros princípios vitais do Evangelho que fazem da fé cristã algo superior a qualquer ideologia. Você e eu, meu irmão e minha irmã, devemos ficar certos de uma coisa: qualquer ideologia ou política ou prática ou estilo de vida que não leve muito a sério o Evangelho de Jesus está condenada ao engano e ao fracasso. Prova disto é a situação que o mundo está.

Jesus poderia ter optado por ser um carpinteiro. Pressões não faltaram para isto. Sua família foi atrás dele com o intuito de levá-lo para casa (Mc 3:31-35). Outro exemplo é o do jovem rico que desafiado por Jesus a segui-lo optou por ficar com sua riqueza e sua tristeza. O texto é claro em dizer: "e afastou-se de Jesus tristemente". Concluindo este ponto, reproduzo a impressão de um jovem que viveu algum tempo na Suécia. Dizia ele: "Os suecos são um povo rico mas na sua maioria, infelizes. O número de suicídios é enorme. Apesar de lá a venda de bebida alcólica ser controlada, visto que o alcolismo é um grave problema social, mesmo assim muitos saem em férias para embriagarem-se na vizinha Dinamarca." Não sei se esse depoimento condiz plenamente com a realidade, mas sei com toda certeza que nossa felicidade e tranqüilidade só podem ser encontradas numa vida centrada na Palavra de Deus e conduzida pelo seu Espírito. Só há vida plena onde o Espírito está agindo como nos mostra a visão de Ezequiel (Ez 37) e o Pentecostes (At 2). A vitória vem porque o Espírito está conosco e luta ao nosso lado.

3 - "...foi para a Galiléia anunciando o Evangelho de Deus".
Estar disponível para Deus e sensível a ação do Espírito é o nosso terceiro desafio. Significa sair do conforto egoísta, do individualismo arrogante, dos castelos e mosteiros onde pensamos estar nos preservando. Significa colocar-se a disposição e trabalhar para o Senhor e pelo Seu Reino. Assumindo compromissos e tarefas concretas no anúncio da Palavra de Deus.

Significa ir... cumprir o IDE de Jesus. Ser enviado pelo Senhor. Não é possível, portanto, instalar-se, acomodar-se e fechar-se entre as quatro paredes de um templo e de um estilo de vida sem ardor missionário, mesmo que louvando e orando. Como Jesus, somos desafiados a nos colocar em Missão. Quem sabe elegendo um alvo (um lugar, uma situação, etc...) bem objetivo para o qual sentimos que Deus nos envia como seu mensageiro!?! Escolher um lugar para exercermos nosso ministério é algo sério. Deus levanta uns para missões na selva, em outros continentes, em outras cidades. Mas Deus levanta a maioria da sua igreja para agir no bairro e cidade onde estão.

O lugar onde Jesus vai iniciar seu ministério do anúncio do Evangelho carrega significado em sí mesmo. A missão de Jesus na Galiléia traz um conteúdo significativo. Por que Jesus teria começado seu ministério na Galiléia? Lendo a Bíblia e conhecendo a história podemos perceber que essa escolha não foi apenas coisa aleatória, uma coincidência. A área chamada Galiléia é importante e significativa em todos os evangelhos sinóticos. Marcos (Mc 1:14) escreve: "...Jesus foi para a Galiléia..." . Lucas (Lc 4:14) enfatiza o poder do Senhor: "...Jesus voltou para a Galiléia cheio do poder do Espírito Santo..." . Mateus (Mt 4:12), semelhantemente a Marcos, descreve: "...Jesus retirou-se para a Galiléia...".

A Galiléia na época de Jesus era território de Herodes Antipas que a dominou até 39 D.C. Sua economia era centrada basicamente na agricultura, embora o comércio ocupasse um lugar de destaque, visto que as rotas de caravanas de comerciantes cruzavam suas terras através da famosa "Via Ápia". A Galiléia era também uma terra de muitas tensões e conflitos sociais responsáveis por rebeliões e lutas constantes desde que a dominação político-militar dos Selêucidas sacudiu toda a terra de Israel. São muitas as razões de tais conflitos. Vejo pelo menos duas principais: a dominação da terra por grandes proprietários estrangeiros é uma e, a outra o sistema de cobrança de impostos que transferiu praticamente toda a produção dos lavradores para as mãos dos dominadores e donatários do poder político ( os romanos, Herodes e seus partidários e a oligarquia do Templo). Isto fazia crescer grandemente o empobrecimento do povo da Galiléia, apesar das riquezas naturais amplamente suficientes para o sustento de todo o povo.

Os impostos pagos aos romanos eram na ordem de 25% da colheita de cada ano. Além disto havia cotas para a alimentação das tropas romanas que ocupavam toda a Palestina e múltiplos pedágios. E isso não é tudo: somemos a isto o dizímo do Templo e mais as ofertas alçadas. Com isto a Galiléia viu crescer o número de enfermos, desempregados e lavradores sem terras. A questão do domínio da terra por grandes latifundiários é testemunhada pela parábola dos lavradores maus (Mc 12:1-12) que mostra claramente o conflito social na Galiléia. Quando lemos que "as multidões seguiam Jesus" (Mc 3:7), estas eram compostas por pobres e famintos, vítimas da estrutura econômica e política estabelecida em Israel (Mc 8:1-2).

Diante do quadro histórico-econômico-político mostrado por nós de uma forma breve, fica uma pergunta: O que poderia ser uma Boa-Nova (Evangelho) para o povo da Galiléia? Optar pela Galiléia foi um ato de compromisso feito por Jesus. Era uma adesão aos pobres, enfermos, oprimidos. A Galiléia não era um lugar "distinto" para os israelitas, mas objeto de preconceitos e marginalizado. Basta que nos lembremos da frase de Natanael em João1:46: "...de Nazaré pode sair alguma coisa boa? Este compromisso de Jesus é característico dos que são guiados pelo Espírito: eles se alinham com os injustiçados, com os pobres. Nesta linha de pensamento é que R. Vidales afirma: "o pobre é o sacramento do pecado coletivo". Ou seja, a existência dos pobres é o sinal de que o mundo não é um lar de irmãos e irmãs tal qual o Pai desejou. Infelizmente, é lugar de muita exploração, injustiça, falta de misericórdia para com o próximo, ganância, falta de perdão de dívidas... Com isto temos a Boa-Nova do Salvador Jesus para os pobres da Galiléia e do mundo: "O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres..." (Lc 4:18). Os pobres da Galiléia e de todo o Israel podiam se alegrar, pois chegara "o ano aceitável do Senhor". Este Ano da Graça era sem Dúvida um Jubileu permanente, um tempo de libertação e cura, tempo de saciar a fome de justiça e a fome de pão (Mc 8:1-12).

Há um espaço para cada um de nós nesta tarefa de anunciar as Boas Novas do Evangelho e de sinalizar o Reino de Deus, pois como no mundo antigo, seguem existindo os pobres ( os materialmente desprivilegiados ) que continuam sendo alvo prioritário do amor de Deus. E consequentemente alvos prioritários também do nosso amor, pois temos que dar seguimento a missão de Deus. Os pobres são os que mais necessitam das Boas Novas e do Reino (cf. Lc 6:30-26).

4 - "O tempo está pleno e é chegado o Reino de Deus: arrependei-vos e crede no Evangelho"
Aqui entra outro resultado concreto do seguimento a Jesus e de uma vida guiada pelo Espírito. O verbo chegar ( "é chegado") usado por Marcos tem sua tradução orientada pelo verbo cumprir ou completar ( traduzido pelo termo "está pleno"). O segundo verbo aponta sempre o momento certo, transbordante. Deste modo, não podemos aceitar os que traduzem o vergo grego "eggizo" (completo, cumprido) por "está próximo". A tradução do texto grego para o português mais correta é "é chegado" ou "está pleno". Vicent Taylor, um estidioso da Bíblia, propõe a seguinte tradução para este texto bíblico: "...cumpriu-e o prazo, já é chegado o Reinado de Deus...".

Por que falar nisso agora? Primeiro, para sublinhar que o Reino é uma realidade histórica: ele não está apenas "próximo"; ele já é chegado, ou seja, está presente. Não é apenas do outro mundo, mas está entre nós de fato e de verdade. Fugimos assim de todas as interpretações triunfalistas, alienadoras e desencarnadas da realidade concreta que o anúncio quis e quer apontar. E a segunda razão é para esclarecermos que o Reino de Deus é um projeto concreto inaugurado por Jesus a partir da Galiléia do Século I.

Além do texto de Mc 1:12-15 que estamos analisando, a idéia da presença do Reino é anunciada também em Mc 9:1 onde Jesus declara que alguns dos seus ouvintes não iriam morrer sem ver que o Reino havia chegado. Existem claras alusões à presença do Reino também na parábola do Semeador (Mc 4:3-9) e na semente que cresce em segredo (Mc 4:26-29. Isto pode ser reforçado pela evidência de que os milagres e a expulsão de demônios eram, para o judaismo (farisáico ou popular), sinais demarcatórios e concretos da presença do Reino de Deus. Vejamos a frase de Jesus quando acusado pelos Fariseus de expulsar demônios pelo poder de Belzebu, o maioral dos demônios: "...se eu expulso demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o Reino de Deus" (Mt 12:28; Lc 11:20).

Concluindo, cabe sublinhar que a presença do Reino é marcada por sinais concretos. Quando os discípulos de João Batista perguntaram a Jesus se Ele era o Messias, Jesus respondeu em Mt 11:4-5: "Vão e digam a João Batista... os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciado o Reino de Deus."

Fica para nós as seguintes questões: Quais são os sinais concretos do Reino de Deus na minha caminhada e na caminhada de nossa Igreja Metodista? Será que não é o momento de reavaliarmos as nossas prioridades e a nossa própria vida para que possamos submetê-las ao Evangelho, e assim então permitirmos que o Espírito de fato e de verdade nos conduza mais e mais a cada dia? Deste modo veríamos na nossa vida resultados como os que Jesus alcançou no deserto. Ou seja, vitória sobre os nossos problemas e sobre o mal em nossa vida e em nossa comunidade. A prática do amor que transforma homens e mulheres em novas criaturas e nosso mundo num lugar mais fraterno e misericordioso para se viver. Tudo para a Glória de Deus. E para que haja paz, solidariedade e vida abundante entre os homens e mulheres de boa vontade. Amém!

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