IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 24/4/2008
 

A Organização do Metodismo em 1784 na América do Norte e seu desenvolvimento (Paul Eugene Buyers)

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ORGANIZAÇÃO DO METODISMO EM 1784

No decurso de quarenta anos Wesley tinha desenvolvido o sistema da itinerância na Inglaterra. Durante esse tempo tinha introduzido os elementos fundamentais do sistema metodista. O "Título de Declaração" garantia as doutrinas e o plano de itinerância e, ao mesmo tempo, facilitava um programa educativo. Possuía virtudes com que Wesley no princípio não sonhava. A organização das Sociedades Unidas na Inglaterra foi tão solidamente feita que na hora da morte do fundador, em vez de se desintegrar, ficou mais firme do que nunca. Mas na América a situação era diferente. Não havia na América uma organização das sociedades que garantisse ali a permanência do movimento metodista. A guerra da Independência alterou completamente a situação dos metodistas.

A separação completa entre Igreja e o Estado colocou o clero da Igreja Anglicana numa posição nova e independente. O governo inglês não tinha mais autoridade sobre as paróquias episcopais anglicanas na América. Os metodistas tinham perante a lei liberdade igual à dos episcopais anglicanos. Entretanto os metodistas não tinham um ministério ordenado que pudesse administrar os sacramentos do batismo e da santa ceia. Por alguns anos diversos dos pregadores reclamavam já a administração dos sacramentos nas sociedades. Alguns chegaram ao ponto de administrá-los, mas depois, pela habilidade de Asbury, desistiram disto, até que Wesley pudesse ser consultado sobre o assunto. Asbury escreveu uma carta a Wesley em que expôs a situação e apelava para que fizesse alguma coisa no sentido de resolver o problema.
À vista desses fatos e, tendo um homem que já dera provas de habilidade e capacidade, o dr. Tomaz Coke, Wesley resolveu agir e dar uma solução ao problema que a providência divina tinha criado.

Wesley chamou o dr. Coke para uma Conferência em fevereiro de 1784. Depois de explicar o motivo da Conferência, apresentou o assunto que pesava sobre a sua mente, mais ou menos nos seguintes termos:

"Como a revolução da América tinha separado os Estados Unidos da mãe-pátria para sempre e a Igreja Anglicana estava completamente abolido, tinha ele sido informado, o estado das sociedades era precária um apelo tinha sido feito por Asbury, no qual solicitava se tomassem providências para criar uma forma de governo adequado às suas exigências; e, tendo por muito tempo pensado seriamente no assunto, queria adotar o plano que ia revelar. Como se tinha invariavelmente esforçado, em cada passo, por ater-se às Escrituras, assim, nessa ocasião, esperava que não se estivesse desviando delas. Olhando para a conduta das igrejas primitivas, na época do cristianismo puro, admirava o modo por que os bispos eram ordenados na igreja de Alexandria. Para conservar a sua pureza, a igreja não permitia que qualquer bispo interferisse nas ordenações ou delas participasse, mas que os presbíteros da velha Igreja Apostólica, na ocasião da morte de um bispo, exercessem o direito de ordenar outro bispo dentre seu grupo, pela imposição das mãos e esse costume continuasse entre eles por duzentos anos, até aos dias de Dionísio. E, finalmente, sendo ele mesmo um presbítero, desejava que o dr.. Coke aceitasse ordenação de bispo das suas mãos e, nessa qualidade, fosse superintender as sociedades da América” (McTyeire, p. 341).

O dr. Coke ficou espantado com o plano e pediu tempo para refletir sobre ele. Dentro de dois meses escreveu a Wesley, prometendo cooperar com ele na execução do plano. Na ocasião da Conferência, que se realizou em Leeds, em 1784, Wesley explicou aos pregadores o plano. Mais dois homens, Richard Whatcoat e Tomaz Vasey, ofereceram seu serviço para realização do plano. Whatcoat e Vasey iriam na qualidade de missionários e presbíteros.

Terminando a Conferência, Wesley retirou-se para Bristol e Coke para Londres para por em ordem seus negócios antes de embarcar para a América. Dentro de pouco tempo Wesley escreveu a Coke, pedindo que fosse a Bristol e que levasse o rev. Creighton consigo. O rev. James Creighton era ordenado pela Igreja Anglicana e nessa época ajudava na Capela de Wesley, em Londres. Foram a Bristol e, no dia 1º de setembro, Wesley e Creighton ordenaram Whatcoat e Vasey diáconos, no dia seguinte, os ordenaram presbíteros. Na mesma ocasião Wesley e Creighton ordenaram Tomaz Coke bispo ou superintendente geral das sociedades da América. No dia 18 de setembro embarcaram os três para a América, levando os seguintes documentos de Wesley:

"A quem interessar: João Wesley, membro do Lincoln College, em Oxford, presbítero da Igreja Anglicana, saúde.

“Visto que muita gente das províncias do sul da América do Norte que deseja continuar sob meu cuidado e que ainda adere às doutrinas e disciplina da Igreja Anglicana, anda apreensiva por falta de ministros para administrarem os sacramentos do batismo e da santa ceia do Senhor, segundo o uso da referida Igreja, e visto que não há qualquer outra solução para conseguir ministros para ela;”

“Saibam todos que eu, João Wesley, acho que sou providencialmente chamado, neste momento, para destacar algumas pessoas para esse ministério na América. Portanto, sob a proteção do Todo Poderoso e visando a gloria de Deus, ordenei hoje, como superintendente; pela imposição das minhas mãos (ajudado por um ministro ordenado), Tomaz Coke, doutor em direito e presbítero da Igreja Anglicana, homem que julgo bem qualificado para esta grande obra. E por meio deste ofício o recomendo a todos os que se interessam, como pessoa idônea para presidir sobre o rebanho de Cristo. Em testemunho disso afirmo e assino neste dia 2 de setembro do ano mil e setecentos e oitenta e quatro. João Wesley" (McTyeire, p. 342).

Além desse documento Wesley entregou ao rev. dr. Coke uma carta para ser publicada e distribuída entre as sociedades na América. Por ser um documento de valor histórico, será incluído aqui :

"Bristol, 10 de setembro de 1784.
Ao dr. Coke, a Asbury e a nossos irmãos na América do Norte.
Pela crise de excepcionais acontecimentos providenciais, muitas das províncias da América do Norte estão completamente desligadas da mãe-pátria e constituídas em estados-independentes. O governo inglês não tem autoridade sobre elas, quer civil, quer eclesiástica, mais do que a Holanda. A autoridade civil exercida sobre elas e em parte pelo congresso e em parte pelas assembléias provinciais. Mas ninguém exerce ou pretende exercer qualquer autoridade sobre elas. Nessa situação peculiar alguns milhares de habitantes desses estados desejam meu conselho e, para satisfazer ao seu desejo, confeccionei um pequeno esboço”.

“Já há muitos anos, a leitura da obra do Lord King acerca da Igreja Primitiva me convenceu de que a ordem de bispo e a de presbítero é a mesma e, conseqüentemente, tem o mesmo direito de ordenar. Por muitos anos sou importunado, de quando em quando, para exercer o direito de ordenar uma parte dos pregadores itinerantes. Mas sempre recusei, não somente para conservar a paz, mas porque estava resolvido a evitar, tanto quanto possível, violar a ordem estabelecida pela Igreja Nacional, a qual pertenço."

“Mas o caso na Inglaterra é diferente. Aqui na Inglaterra estão os que têm jurisdição legal. Na América não há nem párocos nas paróquias, de maneira que se podem viajar léguas sem encontrar alguém que possa administrar o batismo e a ceia do Senhor. Aqui, portanto, acabam nossos escrúpulos. E eu me julgo com toda autoridade, pois não violo ordem de ninguém nem invado direitos de ninguém, ao nomear e mandar trabalhadores para a América.”

“Conseguintemente nomeei o dr. Coke e Francisco Asbury co-superintendentes sobre os nossos irmãos da América do Norte e também, como presbíteros, Richard Whatcoat e Tomaz Vasey para exercerem o cargo de presbítero entre eles, administrando o batismo e a ceia do Senhor. Preparei uma liturgia, fazendo pouca diferença à da Igreja Anglicana (que julgo a melhor Igreja constituída no mundo), à qual aconselho a todos os pregadores itinerantes a usarem no dia do Senhor em todas as congregações, lendo a litania somente nas quartas e sextas-feiras e orando de improviso nos demais dias. Igualmente aconselho aos presbíteros a administrarem a santa ceia nos dias do Senhor.”

“Se alguém me mostrar um meio mais racional e bíblico para alimentar e guiar essas pobres ovelhas no deserto, terei grande prazer em adotá-lo. Atualmente não vejo outro método melhor do que o que adotei.”

“Diversas vezes já foi sugerido que os bispos anglicanos ordenassem parte dos nossos pregadores destinados para a América. Mas a tal proposta faço as seguintes objeções: 1º) Desejei que os bispos de Londres ordenassem alguns pregadores, mas não consegui. 2º) Se consentissem, saberíamos da demora que causariam ao andamento das coisas; mas o caso não permite demora. 3º) Se agora consentissem em ordená-los, quereriam governá-los. E como isto nos embaraçaria. 4º) Como os nossos irmãos americanos estão desembaraçados tanto do Estado como da hierarquia inglesa, não ousamos embaraçá-los de novo, nem com um, nem com outro. Estão agora com plena liberdade para seguir as Escrituras e a Igreja Primitiva. E julgamos que será melhor continuarem firmemente na liberdade com que Deus os libertou" (McTyeire, p. 343-344).

Providos destes documentos, o dr. Coke e seus dois companheiros, Whatcoat e Vasey, embarcaram para a América em 18 de setembro de 1784 e chegaram a Nova York em 3 de novembro. Lá estava João Dickins para os receber. Foi Dickins que escrevera a carta, pedindo recrutas para o trabalho na América. Agora, sendo o pregador da sociedade em Nova York, ficou tão contente por poder receber os irmãos que Wesley mandou, que desejava avisar da sua chegada aos outros pregadores, especialmente Asbury. Mas julgava mais prudente não tomar qualquer decisão sem primeiro consultar Asbury. Encetaram viagem para o sul, pregando em diversos lugares ao longo do caminho, passando pelas cidades de Filadélfia, Willington e Dover.

Coke e Whatcoat chegaram à Capela de Barratt, perto de Dover, a primeira capela construída no estado de Delaware, onde Asbury esperava realizar uma Conferência trimensal, no domingo, 14 de novembro. Assim descreve Coke a cena:

"Nesta capela, no meio da floresta, se reuniu magnífica congregação, a qual tentei pregar acerca do Redentor como nossa sabedoria, justiça, santificação e redenção. Depois do sermão um homem simples e robusto se chegou a mim, no púlpito, e me beijou. Julguei que não poderia ser outro sendo Asbury e não me enganei. Administrei a ceia do Senhor, depois de pregar a auditório de quinhentas a seiscentas pessoas, e me dirigi em seguida à festa de amor. Foi o melhor culto a que assisti, depois do de Charlemont, na Irlanda. Depois do jantar eu e Asbury tivemos palestra em particular sobre os planos dos nossos trabalhos na América. Ele me informou que esperava minha chegada e que tinha conversado com um grupo de pregadores acerca da possibilidade de ser convocada uma Conferência, se fosse necessária. O grupo foi chamado e, depois de discutir a questão, unanimemente concordaram em convocá-la. Portanto, mandamos Freeborn Garrattson, como flecha, para o Norte e para Sul, instruindo-o para que mandasse mensageiros para a direita e para a esquerda, a fim de reunir todos os pregadores em Baltimore, na véspera do Natal. Asbury já esboçara uma viagem de alguns mil e quinhentos quilômetros para ser feita por mim, nesse intervalo. Cedeu-me seu empregado, Black Harry, e tomou emprestado excelente cavalo para mim. Asbury mereceu logo o meu profundo respeito: tem tanta sabedoria e precaução, tanta mansidão e amor e, sobre tudo isto, tanto prestígio e autoridade Nos concordamos em cooperar na fundação de um colégio ou escola. Batizei aqui trinta ou quarenta crianças e sete adultos. Tivemos grande prazer em batizar os adultos" (McTyeire, p. 335-336).

A viagem que Asbury esboçou para Coke visava a região do litoral de leste. O negro Black Harry servia de empregado e pregava de vez em quando. Coke. observou em 29 de novembro: "Já tive o prazer de ouvir Black Harry pregar diversas vezes. Aqui e ali, eu dava aviso, depois de pregar, que a seguir Black Harry pregaria para os negros. Os brancos sempre ficavam para ouvi-lo. É romântico ver tantos cavalos amarrados às árvores. Estando eu ocupado, nestes exercícios religiosos, três ou quatro horas por dia, não posso distinguir os dias da semana do dia do Senhor, pois todos me parecem iguais. Provavelmente, nesta viagem, tenho batizado mais crianças e adultos do que teria batizado em toda a minha vida numa paróquia inglesa" (McTyeire, p. 346-347).

Para apreciarmos devidamente estes dois vultos, Coke e Asbury, é bom incluir aqui uma descrição deles, feita por Tomaz Ware, jovem pregador que recentemente havia sido admitido na itinerância Assim descreve ele o bispo Coke:

"Passando o dr. Coke pela nossa zona, nas costas orientais de Maryland, encontrei-o pela primeira vez. Primeiramente não gostei da sua aparência. Sua estatura, cor e voz pareciam mais as de uma mulher que as de um homem e suas maneiras eram elegantes demais para mim. Era tão diferente do aspeto grave e apostólico de Asbury que a sua aparência não me agradou. Havia na zona diversos lugares que ele queria visitar, para os quais eu servi como guia, e, antes de nos separarmos, vi tantas coisas boas nele que fiquei gostando dele e não mais estranhei por que Wesley o escolhera para servir na qualidade de Superintendente. Pelo público era apreciado e em particular era comunicativo e edificante. Certa vez, numa roda de amigos, se expressou assim: "Estou admirado com o espírito dos meus irmãos americanos. Seu amor para com Wesley não é menor do que o amor dos irmãos da Europa. Porque baseado na excelência — a divindade — da religião, tem sido o instrumento para avivar sua influência benéfica tem sido derramada sobre esta terra de liberdade. Vejo uma porta aberta para a promulgação do Metodismo na América, cujas instituições eu admiro e cuja prosperidade almejo tanto como a da terra do meu nascimento”. Na presença de Asbury me sinto criança, ele é, na minha opinião, o homem mais apostólico que já vi, não se falando em Wesley" (McTyeire, p. 347).

Tomaz Ware, dando sua impressão de Asbury, disse:

"Foi a primeira Conferência a que assisti. Havia bom número de pregadores presentes. Ainda que houvesse poucos sobre cujas cabeças tinha caído neve, contudo alguns pareciam cansados e branqueados, envelhecidos antes do tempo. Entre esses pioneiros, Asbury, pelo consenso geral, era o principal e o chefe. Havia alguma coisa na sua pessoa, nos seus olhos, no seu semblante e no tom da sua voz que atraia a todos que o viam e ouviam. Possuía muita finura de espírito e era capaz sátira da mais severa; porém, graça e bom senso nele predominavam tanto que nunca se abaixou ao ponto de fazer qualquer coisa que não correspondesse ao ministro cristão. Em oração excedia os demais. Dele disse Garrettson, que orava melhor e orava mais do que qualquer homem que ele conhecia" (McTyeire, p. 347).

Da Capela de Barratt, Asbury, Whatcoat e Vasey tomaram outro rumo pelas costas ocidentais de Maryland. Asbury ficou muito preocupado com a situação e com aquilo que podia acontecer na Conferência que em breve se reuniria. Por isso dedicou o dia 26 de novembro, sexta-feira, ao jejum e à oração, para que pudesse saber qual seria a vontade de Deus nesse assunto, de que em breve se trataria perante a Conferência. Os pregadores e o povo pareciam contentes com o plano projetado. Ele mesmo pensava que era do Senhor. Não estava alegre pela honra da ocasião. Via muito perigo naquilo. Sua alma esperava em Deus. Que ele os guiasse no caminho em que deveriam andar.

Lá pelos meados de dezembro Coke e Asbury se encontraram em Perry Hall, onde eram geralmente hospedados por Gough. Coke e Asbury tiveram palestras íntimas, nas quais discutiram e combinaram as coisas que deveriam ser ventiladas na Conferência. Freeborn Garrettson conseguiu ajuntar mais de setenta dos oitenta pregadores da região. Na sexta-feira, 24 de dezembro de 1784, todos deixaram Perry Hall e foram à cidade de Baltimore, onde chegaram, às dez horas, para iniciarem os negócios da Conferência na Capela de Lovely Lane.

“Coke assumiu a presidência da Conferência. Leu-se a carta circular de Wesley. De acordo com esse documento, diz Asbury: "Concordamos em constituir-nos numa Igreja Episcopal e ter superintendentes, presbíteros e diáconos". Asbury recusou a ordenação à superintendência, apesar da nomeação de Wesley, se não fosse eleito formalmente pelos seus irmãos para aquele cargo. Foi unanimemente eleito e, no segundo dia da sessão (25), foi ordenado diácono por Coke, ajudado pelos presbíteros, Vasey e Whatcoat; no domingo, o terceiro dia, foi ordenado presbítero; na segunda-feira seguinte foi consagrado superintendente, ou bispo. A pedido especial de Asbury, Atterbein, da Igreja Alemã, ajudou a Coke e aos presbíteros na consagração. Terça, quarta e quinta-feira, foram ocupadas no estabelecimento das regras de disciplina e na eleição de pregadores para a ordem de diácono e para a de presbítero. Na sexta-feira foram ordenados diversos diáconos. No sabado, 1º de janeiro de 1785, o projeto do Cokebury College, em Abingdon, foi estudado. No domingo, 2 de janeiro, foram ordenados dez presbíteros (previamente ordenados diáconos) e um diácono. Então a Conferência Geral, conhecida como a Conferência do Natal, encerrou-se. Os presbíteros eram João Tunnell, Guilherme Gill, Le Roy Cole, Nelson Reed, João Hargferty, Ruben Ellis, Richard Ivey, Henrique Willis, James Okelley e Beverly Allen. Tunnell e Willis estavam "nas partes extremas do campo" e provavelmente estavam ausentes por causa disso. Estes dois e Allen foram ordenados mais tarde. João Dikins, Inácio Pigman e Caleb Boyer foram eleitos diáconos. Boyer e Pigman foram ordenados em junho, na ocasião da Conferência de Baltimore. De acordo com um pedido da Nova Escócia, Guilherme e James O'Cromwell foram ordenados presbíteros para aquela província. Jeremias Lambert foi ordenado presbítero para o trabalho na Antigua, nas Antilhas" (McTyeire, p. 348-349).

Os Artigos de Religião redigidos por Wesley, o Padrão de Doutrinas aceito pelos metodistas na Inglaterra e as Regras Gerais foram aprovados e aceitos pela Conferência. Ninguém podia ser consagrado supperintendente, ordenado presbítero ou diácono, sem primeiro ser eleito pela maioria dos membros da Conferência. Tomaram-se medidas para socorrer os pregadores jubilados e as viúvas e órfãos dos pregadores. Também houve pronunciamento contra a escravidão e instruções a respeito da emancipação de escravos. Outras medidas foram tomadas que visavam a conservação e extensão do trabalho.

No dia seguinte ao do encerramento da Conferência, Asbury montou a cavalo e viajou sessenta quilômetros. Jeremias Lambert partiu para seu Campo de trabalho, na Antigua. Os irmãos Freeborn Garrettson e James O'Cromwell embarcaram para a Nova Escócia. Chegaram a Halifax e iniciaram logo seu trabalho. Foram bem sucedidos e estenderam o trabalho até a Terra Nova e Nova Brunswick. Garrettson trabalhou neste lugar dois anos e Wesley mandou alguns missionários para essa zona. Quando Garrettson voltou para os Estados Unidos, havia ali mais de setecentos membros. Os britânicos têm conservado esse trabalho até hoje; há ainda muitos metodistas nessa zona.

Asbury resolveu levar o Metodismo para a zona aonde Wesley e Whitefield tentaram: aos estados de Carolina do Sul e Geórgia. Em companhia de Woolman Hickson, no dia 4 de janeiro de 1785, Asbury deixou Baltimore em demanda das regiões do sul.

No dia 8 de janeiro chegou à cidade de Culpepper, no estado de Virgínia, onde se encontrou com Henrique Willis, que chegara a este ponto, na sua viagem para alcançar a Conferência. No dia seguinte Asbury ordenou Willis diácono e, dez dias depois, na igreja de Carter, o ordenou presbítero. Willis tinha atravessado as montanhas da regido no ano anterior e a distancia era tão grande que não deu tempo para ele alcançar a sede da Conferência Tornou-se, ali, companheiro de Asbury na sua viagem para o sul. Pararam na zona de Yadkin para descansar e preparar-se para a viagem.

Jesse Lee, que veio de Salisbury para encontrar-se com o bispo, foi convidado a acompanhá-lo também. Henrique Willis ia, em geral, adiante para preparar o povo para a visita dos seus colegas. Jesse Lee pregou mais do que o bispo.

O primeiro lugar que visitaram no estado de Carolina do Sul foi Cheraw. Ali encontraram um negociante metodista do estado do Virginia. Tinha ele um empregado do lado de Massachusetts, na Nova Inglaterra, que contou a Jesse Lee muitas coisas a respeito da sua terra. Lee ficou bem impressionado com a situação do povo naquela parte do país e mais tarde resolveu levar a mensagem para as plagas da Nova Inglaterra.

Visitaram Georgetown onde encontraram hospedagem em casa de Wayne, primo do general Antônio Wayne. Mais tarde sua esposa se converteu e assim o Evangelho.foi implantado naquele lugar com a conversão de algumas almas indiferentes.

Chegaram à cidade de Charleston, apesar de encontrar lá um povo mundano, conseguiram entre ele a conversão de um senhor, Wells, entre outras.

O bispo nomeou Henrique Willis para o trabalho na cidade de Charleston. O trabalho prosperou e o Metodismo existe ainda nessa cidade.

O bispo Asbury voltou para a Carolina do Norte, onde realizou a primeira Conferência anual da Igreja Metodista Episcopal na América. O bispo Coke também lá estava presente. A Conferência se realizou em Green Hill, em 20 de abril de 1785. Essa Conferência abrangia o estado de Virgínia e os da Carolina do Norte e do Sul. Houve um aumento de novecentos membros nessa área durante o ano.

Hickson ficou em Georgetown e Willis em Charleston. Beverly Allen foi ordenado presbítero e nomeado para trabalhar no estado de Geórgia. Entrou em correspondência com Wesley. Pregou em diversos lugares, mas não era homem sério.

"Casou-se com mulher rica, caiu no pecado, foi expulso do ministério, entrou em negócios e faliu, matou o policial que o guardava e fugiu para Kentucky, tornou-se universalista e, finalmente, desapareceu. Tudo isso no prazo de doze anos” (McTyeire, p. 357).

Foi o primeiro pregador metodista ordenado que desonrou a causa de Cristo. Outros. homens foram nomeados para o trabalho no estado de Geórgia. Em 1786 João Major e Tomaz Humphries foram nomeados para o estado de Geórgia, com James Foster como presbítero.

Esses heróis da cruz entraram em Geórgia para conquistá-la para Cristo. O povo estava espalhado, não possuía casas boas, não havia quase pregadores de, qualquer seita. Viajaram, exploraram o campo, pregando em casas particulares e onde encontravam gente. De ano em ano novos pregadores eram enviados e o trabalho ali prosperou abundantemente. Conta-se, a propósito, a história de Henrique Parks que mudou de Virgínia para Geórgia e que foi ali administrador de uma fazenda. Sendo homem forte, enérgico e inteligente, teve bom êxito no seu trabalho. A sua esposa era metodista e foi batizada por Jarrett. Um dia lhes veio a noticia que dois pregadores metodistas iam pregar na yizinhança. A esposa o persuadiu a assistir a pregação. João Major pregou sobre a expiação universal. Parks ficou interessado. Se havia salvação para ele, queria aceitá-la. Converteu-se e a sua casa tornou-se centro de pregação e lugar onde os pregadores encontravam repouso. Prosperou e criou numerosa família. Guilherme J. Parks, o filho mais moço, tornou-se pregador notável nos anais do Metodismo do estado de Geórgia. Os descendentes desta família exerceram grande influência sobre a vida religiosa de muitas pessoas deste estado, entre as quais se conta o escritor destas linhas, pois, sob a influência de James D. Parks, entrou na vida cristã, em 1897. Guilherme J. Parks faleceu em 1845, deixando numerosa família, cujos descendentes exercem ainda uma influência salutar na sociedade.

O trabalho na Geórgia prosperou com os esforços de homens como Major, Moises Parks, Richardo Ivey e Tomaz Humphries. Constituia-se dum distrito só, separado das outras zonas. Em 1787, contava mais de mil e cem membros. Em um ano o número de membros triplicou. A parte do norte do estado já estava invadida pelos metodistas e não passaram muitos anos até que o estado inteiro sentiu a influência dos metodistas.

Logo depois da Conferência do Natal, os pregadores espalharam-se em diversas direções, resolvidos a levar a mensagem da salvação a todos os recantos do país.

O METODISMO LEVADO PARA A NOVA INGLATERRA

A zona mais adiantada entre as treze colônias originais foi a mais difícil de evangelizar que os pioneiros metodistas encontraram — a Nova Inglaterra. O Metodismo já tinha penetrado os estados do sul e os do centro, porém os estados da Nova Inglaterra não haviam sido conquistados. Missionários já tinham sido enviados para a Nova Escócia, Canadá e Antigua, mas a Nova Inglaterra ainda estava fora do programa dos metodistas. Finalmente chegou o tempo de iniciar a evangelização dos calvinistas e congregacionalistas da Nova Inglaterra.

Apareceu um homem que se sentia chamado para levar a mensagem de Deus àquele povo. Por muito tempo tinha pensado nessa missão. Ficou satisfeito, quando o bispo Asbury o nomeou para aquele campo, na ocasião da Conferência realizada em Nova York, em maio de 1789. Jesse Lee foi nomeado para Stanford. Era a única nomeação para toda a nova Inglaterra.

Jesse Lee era forte, robusto, inteligente e jeitoso para o trabalho. Bem sabia ele que o campo era duro e difícil, mas tinha a convicção de que tinha sido chamado para aquele trabalho.

Três grandes empecilhos tinha de enfrentar na conquista daquela terra: 1) era homem do sul e como os nortistas consideravam se mais adiantados do que os sulistas, não queriam aceitar instrução do povo do sul; 2) era arminiano na teologia e não havia outra doutrina mais odiada pelos calvinistas, descendentes dos puritanos do Mayflower, do que essa; e, 3) finalmente, Lee não era homem de grande cultura e, portanto, não podia ensinar aquele povo coisa alguma.

Além dessas três dificuldades, havia uma complicação na vida do povo da Nova Inglaterra. A terra tinha sido dividida em paróquias e os habitantes tinham de pagar imposto para sustentar os párocos. O clero dominava a política tanto na vida civil, como na religiosa. Qualquer inovação entre o povo que afetasse esses interesses seria combatida por ele.

Jesse Lee tinha, pois, uma tarefa gigantesca diante de si. Levou consigo a sua biblioteca que consistia da Bíblia, da Disciplina e do hinário. Conhecia bem Fletcher's Checks e podia discutir com habilidade os "Cinco Pontos" do Calvinismo. A situação de Lee era semelhante a de Davi, quando enfrentou o gigante Golias.

Podia defender a sua doutrina e pregar com facilidade, porém a coisa mais difícil que encontrava era a falta de hospitalidade por parte do povo. Raras vezes recebia convites para hospedar-se em casas particulares e, quando recebia, era tratado com frieza. Por exemplo, uma vez foi convidado para passar a noite num lar. Quando entrou na casa, ninguém lhe ofereceu uma cadeira; quando chegou a hora de assistir ao culto, ninguém queria ir; quando voltou do culto, quase ninguém conversou com ele; o chefe da casa realizou o culto doméstico, mas ele não recebeu convite para participar dele; e no dia seguinte a família dormiu até tarde, tendo ele de partir cedo, sem comer coisa alguma.

Não podia achar lugar para pregar em muitas cidades e vilas, senão debaixo de árvores. Uma vez ou outra arranjava uma escola, celeiro ou palácio do governo, onde podia pregar. Chegando a Norwalk, pediu licença para pregar numa casa particular, mas foi-lhe recusada; pediu permissão para pregar numa casa desocupada, mas também não foi atendido. Tomando posição debaixo de uma árvore, uma macieira, à beira da estrada, pregou a vinte pessoas.

"Depois de cantar um hino e fazer oração", diz ele, "preguei sobre o texto: "É-vos necessário nascer de novo". Senti-me feliz por ter achado um lugar tão bom e apropriado. Depois de pregar, falei ao povo que pretendia estar com ele mais uma vez no prazo de duas semanas e, se alguém abrisse a sua casa, teria prazer em pregar nela; mas se não quisesse fazer isto, pregaria naquele mesmo lugar".

Por três meses recebeu mau acolhimento, mas não desanimou. Sentia no coração que Deus estava com ele e que a causa dele havia de triunfar.

Pregou em Stratfield e, depois do sermão, convidou as pessoas interessadas para ficarem no lugar por alguns minutos. Vinte pessoas ficaram. Realizou uma espécie de reunião de classe. Descobriu três senhoras em condições para formar uma classe. Foi a primeira classe organizada na Nova Inglaterra, pois havia ali pelo menos três pessoas que estavam "prontas a tomar a sua Cruz e ter os seus nomes injuriados pelo amor de Jesus Cristo".

Em Hatford teve permissão para pregar no palácio do governo e o povo ficou comovido pela pregação Quando voltou a esse lugar, encontrou muitas pessoas interessadas. Cobrou ânimo e entoou louvores a Deus. Visitou uma vila no estado de Connecticut, onde residia um ferreiro inteligente, mas que, para proteger a sua família de heresia metodista, proibira que sua família assistisse às pregações de Lee. Tinha um filho com doze anos de idade, a quem não permitia que assistisse aos cultos metodistas. Mas o menino ficou tão impressionado com as coisas que ouvia acerca do povo metodista que nunca mais se esqueceu delas. E, no correr do tempo, se tornou metodista, sucessor de Lee e, finalmente, o historiador do Metodismo. É o dr. Natã Bangs.

Em Farington teve de defender a doutrina da perseverança final. Sendo hospedado em casa de um senhor W., enquanto a esposa preparava o jantar, os dois discutiam o assunto. A discussão continuou até terminar a refeição. O hospedeiro ficou muito contrariado com a posição de Lee e não quis dar-lhe indicação de um caminho que ele desejava saber. Chegou a afirmar:
- "Se Davi tivesse morrido no ato de adultério e Pedro enquanto jurava, teriam sido salvos".
- "Então", disse Lee, "depois da conversão um homem é obrigado a ser salvo: não pode perder-se".
- "Sim", disse ele, "é obrigado a ser salvo, quer queira, quer não, porque é impossível perder ele a salvação". "Ele afirmou que preferiria ouvir-me blasfemar de Deus em casa, antes que falar em Deus, e que uma vez dado seu amor a alguém pode depois retirá-lo.
Eu lhe disse que Deus nunca retira seu amor, mas que nós poderíamos rejeitá-lo". (McTyeire, p. 424).

Depois de pregar em Fairfield, numa noite fria, em 24 de dezembro, ele exclamou: "Hoje, à noite, graças a Deus, fui convidado por uma viúva para passar a noite na casa dela. É o primeiro convite que recebi desde que cheguei a este lugar, há sete semanas. Ó Deus, envia mais obreiros para esta parte da tua vinha! Gosto de quebrar terra nova e de buscar as almas perdidas da Nova Inglaterra, ainda que seja trabalho duro, mas, estando Cristo comigo, as coisas difíceis se tornam fáceis, e os caminhos escabrosos são convertidos em estradas reais" (McTyeire, p. 424).

Conseguiu organizar a segunda classe em 28 de dezembro de 1789, como ele escreve: "Preguei em Reading e o Senhor me ajudou a falar. Senti que Deus estava no meio do povo. Um ou dois ajoelharam-se comigo, quando orávamos. O leão começa a rugir bem alto nesse lugar: é o sinal verdadeiro de que vai perder alguns dos seus súditos. Organizei uma sociedade de dois para começar. Um homem, que há pouco recebeu o testemunho de que está no favor de Deus, deu este passo e uma mulher, que se converteu há pouco, o acompanhou" (McTyeire, p. 424). Em 28 de janeiro de 1790 se organizou a terceira classe em Limestone. Depois de sete meses de trabalho duro, conseguiu fundar três classes com oito membros.

Relatou tudo que tinha feito ao bispo Asbury e pediu mais trabalhadores. Teve o grato prazer de saber que o bispo ia mandar mais três pregadores para a Nova Inglaterra. Quando recebeu esta noticia, estava realizando uma Conferência trimensal numa capela que ainda não estava terminada, que foi a segunda capela começada nessa região.

Deixando as zonas que acabava de organizar, fez uma viagem longa, visitando os estados de Nova Hampshire, Vermont, Massachusetts e Connecticutt. Visitou as cidades de Lynn, Newburyport e Portsmouth, no estado de Massachusetts, mas o fim principal que trazia em vista era implantar o Metodismo na cidade de Boston.

Mas Boston não se interessou por receber coisa alguma do Metodismo e seu Arminianismo. A tarefa mais difícil e dura que Lee enfrentava na Nova Inglaterra, era conseguir apoio para firmar pé. Boston foi o lugar mais duro que se encontrou para introduzir o Metodismo na Nova Inglaterra. A primeira visita durou uma semana. Procurou em toda a parte da cidade conseguir um lugar para pregar, porém todas as portas estavam fechadas para ele. Finalmente, tomando uma mesa emprestada, levando-a para a praça colocando-a debaixo de um olmeiro e subindo nela, começou a cantar um hino. Juntaram-se algumas quarenta pessoas e, antes de terminar o culto, havia mais de três mil. No domingo seguinte, fez a mesma coisa, mas não conseguiu quebrar o gelo. Era um povo duro e satisfeito consigo mesmo.

Mais tarde voltou a Boston, porém não conseguiu nada. Voltou pela terceira vez, passou quatro semanas procurando um lugar onde pudesse abrir o trabalho, com o mesmo resultado. Todas as casas estavam fechadas para ele. O inverno estava se aproximando e a praça publica começara a ficar deserta; o povo procurava a lareira das suas casas, mas deixava o pregador itinerante lá fora, com o frio e a neve. Foi nessa hora triste e perplexa que recebeu de um cavalheiro de Lynn um convite para assistir a um culto na sua casa. Foi um raio de luz nas trevas. Apresentou-se na casa do amigo e foi cordialmente recebido. Pregou o primeiro sermão de metodista nessa cidade e, antes de terminar o inverno, conseguiu organizar ali, em 20 de fevereiro de 1791, a primeira sociedade com oito membros.

Lynn passou a servir como centro da sua propaganda. Não se esqueceu contudo, de Boston. Levou quase dois anos para conseguir abrir trabalho naquela cidade.

Jesse Lee escreveu no seu Diário:

"Aos 13 de julho de 1792, organizamos uma sociedade com algumas pessoas e ela logo começou a aumentar em número. Encontramos dificuldades extraordinárias aqui, no começo, por falta de uma casa apropriada para cultos. Começamos depois, em casas particulares, mas, mesmo assim, não podíamos manter-nos nelas por muito tempo. A sociedade metodista queria por fim, adquirir uma casa de oração, porém, sendo os membros pobres e em pequeno número, não podiam fazer nesse sentido, muita coisa. Três meses mais tarde, todavia, foi lançada a pedra fundamental da primeira capela de Lynn" (McTyeire, p. 428).

Jesse Lee e seus colegas se espalharam em diversas direções. O trabalho prosperou, apesar de grandes oposições. Onde os pregadores encontravam mais oposição era como via de regra nos lugares onde tinha maior número de ouvintes. Lee tentou abrir trabalho em New Haven, a sede da Universidade de Yale. Os professores e alunos ouviram-no com reverência, mas trataram-no com muita frieza.

A primeira Conferência anual realizou-se na cidade de Lynn, em agosto de 1792. Havia oito pregadores, além do Asbury, que lhe presidiu. Foi ocasião de grande regozijo da parte de Jesse Lee. A Nova Inglaterra estava cedendo à evangelização. Criaram-se novas zonas com a ocupação de novas regiões. A província de Maine foi invadida e, em 1798, realizou-se ali uma Conferência na zona de Readfield. O estado de Maine é o que fica mais ao norte do país e naquela época não era estado, mas província do estado de Massachusetts. Entre os homens mais notáveis levados a Cristo na Nova Inglaterra não se pode deixar de mencionar o homem que se tornou um dos bispos mais conspícuos do Metodismo, Josué Soule.

Josué Soule nasceu em Bristol, estado de Maine, em 1º de agosto de 1781. Seu pai descendia dos Pilgrim Fathers que vieram para a América no famoso navio chamado Mayflower. Seu pai era capitão de navio e abandonou a vida marítima na ocasião da guerra da Independência norte-americana, quando perdeu seu navio. Mudou-se para o interior do estado de Maine, onde fixou a residência num sitio que comprou. O lugar onde morava se chamava Sandy River. Josué Soule, o pai do bispo Soule, e sua esposa eram calvinistas extremados. Gozavam de uma cultura excepcional para aquela época. Seu filho, Josué, foi temente a Deus desde o berço. Aprendeu a ler quando era menino e não se lembrava do tempo em que não sabia ler. Menino inteligente, aproveitou da leitura da Bíblia e da de outros livros que se encontravam na biblioteca de sua casa. O Capitão Soule morava a uns dois quilômetros da casa de um vizinho que era metodista, em cuja casa se realizavam cultos de pregação, quando os pregadores metodistas passavam por ali. Foi aqui que o jovem Josué veio a conhecer os metodistas e a sua doutrina. Havia alguma coisa no ensino dos pregadores de que ele gostava. Não podia aceitar o Calvinismo com os seus decretos e a predestinação, mas no Metodismo encontrava alguma coisa que se harmonizava com a sua razão e com a sua experiência religiosa. O primeiro pregador metodista que ouviu, foi Jesse Lee, em 1798. Depois ouviu seus sucessores, Tomaz Cope, Filipe Wagger e outros.

Uma manhã se levantou cedo e se retirou para um lugar deserto, para orar. Foi nessa ocasião que recebeu o testemunho do Espírito e ficou cheio de paz e alegria. O sol nascia naquela hora e enchia de luz o ambiente. O moço sentiu-se num mundo novo. Podia dizer como Jacó dos tempos antigos:

"Tenho visto a Deus face a face e a minha vida foi preservada". Nasceu-lhe o sol. Começou realmente a viver. Queria fazer a sua profissão de fé e entrar na Sociedade Metodista. Mas não quis dar este passo antes de consultar sobre ele seus pais. O pai ficou acabrunhado e procurou dissuadi-lo de professar sua fé. A mãe chorou e lamentou o fato de ter ele ouvido os metodistas. Não querendo ele contrariar demais a seus pais, pôs-se a refletir muito antes de tomar qualquer decisão a respeito. Mas chegou à conclusão que devia filiar-se aos metodistas e explicou assim aos seus pais o seu propósito: "Antes de dar o passo final, falei com meus pais em particular e expliquei-lhes a questão toda com muito respeito e com muitas lágrimas lhes contei minhas convicções. Além disso, pedi-lhes que mencionassem qualquer ocasião em que eu lhes havia desobedecido. Mas então sentia que era meu dever solene unir-me à Igreja Metodista e receber a sua aprovação e consentimento para isso traria para mim mais felicidade que qualquer outra coisa no mundo" (McTyeire, p. 430).

“Os pais fizeram todo o possível para persuadi-lo a não dar tal passo. "Custou-me alguma coisa, diz ele, tornar-me metodista. Eu me tornei metodista com a certeza de que seria expulso da casa paterna. Duas vezes em minha vida tive de enfrentar oposição. Duas vezes minha fé e minha decisão foram postas à prova, mas eu resolvi ambos os casos no temor de Deus e com referência a minha responsabilidade perante o tribunal de Deus" (McTyeire, p. 430).

Fez a sua profissão de fé e não foi expulso do lar. Os pais o toleraram e não falaram mais no assunto. Assistia aos cultos e cumpria seu dever no lar como filho leal e obediente. Um dia convidou seu pai para assistir à pregação de um notável pregador. O pai não quis aceitar o convite, alegando que já tinha ouvido um ou dois pregadores metodistas e que todos eram iguais: os entusiastas, para ele não sabiam pregar. O filho respondeu: "Julga a sua lei alguém, sem primeiro ouvi-lo. Calou esta expressão na mente do pai e ele mais tarde resolveu acompanhar o filho e assistir à pregação. O resultado foi que o pai ficou gostando do pregador Stebbins e o convidou a passar a noite em sua casa. Passaram muitas horas, até alta noite, discutindo os "Cinco pontos", quando o Capitão Soule reconheceu a sua derrota. No dia seguinte, quando Stebbins partiu, o Capitão Soule o convidou para, na volta, não semente passar a noite com ele, mas tam bem pregar em sua casa. Dentro de poucos meses o pai, a mãe, dois irmãos e duas irmãs de Soule se uniram à Igreja Metodista. Não levou muito tempo para que o jovem Josué Soule se sentisse chamado para pregar. Não sofreu conflito espiritual na sua chamada.

Falou acerca da sua chamada assim: "O Senhor me chamou para pregar e eu fui". Em junho de 1799 foi admitido como pregador itinerante e nomeado para a zona de Portland, no Maine. Quatro anos mais tarde foi nomeado superintendente distrital e nessa qualidade serviu quatro anos.

Em oito ou nove anos adquiriu, na itinerância, uma experiência que o habilitou a ocupar qualquer cargo na Igreja Metodista. Foi delegado à Conferência geral que se realizou na cidade de Baltimore, em maio de 1808. Soule amava a Igreja Metodista pela sua teologia simples, pela sua salmodia e seu ritual singelos e, acima de tudo, pelo seu elevado padrão de piedade experimental e prática. Era homem de grande capacidade intelectual, líder seguro, pregador eloqüente e cristão heróico. Morreu em Nashville, Tennesee, em 6 de março de 1867, com mais de oitenta e quatro anos de idade e está sepultado no terreno de Vanderbilt University, em Nashville, no Tennessee.

O trabalho de Jesse Lee na Nova Inglaterra foi difícil, mas produziu bons frutos. Homens como Josué Soule, Hedding, Mudge, Merritt, Sabin, Bangs, Broadhead, Hunt e Fisk e muitos outros, que dedicaram seu tempo e seus talentos ao serviço do Mestre na Nova Inglaterra e em outras partes, justificam o sacrifício que Jesse Lee e seus colegas fizeram para conquistar aquela terra.

Wilbur Fisk, do estado de Vermont, era homem culto e bem educado. Pelos seus esforços a Igreja Metodista foi estimulada interessar-se mais na obra educativa. Era eloqüente no púlpito e sábio em seus conselhos. Morreu com quarenta e seis anos de idade, no apogeu da sua carreira. É admirável ver quanto conseguiu em tão pouco tempo. Não gozava de boa saúde, contudo trabalhou muito, recebendo pequena remuneração monetária.

Elias Hedding combateu um bom combate e sofreu como bom soldado de Jesus, Cristo. Nos primeiros dez anos do seu ministério viajou muito pelo Canadá, Nova York, Vermont, New Hampshire, Massachusetts, Rhode Island, Connecticutt e Long Isltnd Sound. Fez o seu trabalho sem remuneração. Passou anos viajando, sem lar, hospedando-se nas casas em que achava acolhida. Angustiava-se porque o que os pobres lhe davam, privava seus filhos do necessário. Seu ordenado era uma bagatela: recebia menos de mil e quinhentos cruzeiros por ano. Mas, apesar de todas as dificuldades e privações, o seu trabalho prosperou.

Ainda que o Metodismo não tenha silo apreciado no princípio na Nova Inglaterra, era a coisa de que mais ela precisava, porque a fé evangélica se achava em declínio naquela região. O Unitarismo e Racionalismo estavam se alastrando entre o povo e o Metodismo serviu para neutralizar a sua influência. O formalismo nos cultos recebeu a infusão de uma nova vida. A idéia de que o preparo intelectual era o suficiente para se seguir o ministério, ficou um pouco alterada. O Metodismo levou nova vida para o povo.
O trabalho de Jesse Lee foi frutífero na Nova Inglaterra. Jesse Lee, nos anos de 1797, 1798 e 1799 viajou com o bispo Asbury. Em 1797, estando ausente por motivos de enfermidade o bispo Asbury, Jessé Lee presidiu a Conferência em Wilbrahaw. Na sua visita à Nova Inglaterra, em 1808, Jesse Lee encontrou seis distritos com 8.861 membros. Passou quarenta e três dias no estado de Maine, pregando muitas vezes e visitando diversos lugares.

Um dos segredos do bom êxito de Lee era a habilidade que tinha para lidar com os outros. Possuía grande senso de humor. Conta-se a história do seu contacto com dois advogados jovens. Como os pregadores metodistas eram considerados ignorantes e fanáticos, queriam divertir-se com ele. Lee estava em viagem entre a cidade de Boston e Lynn, quando foi alcançado pelos dois advogados. Seguiam os três a cavalo, Lee no meio. O cavaleiro do lado direito perguntou-lhe:
— "Creio que o senhor é pregador, não e?"
— "Sim, eu geralmente sou considerado pregador."
— "O senhor prega freqüentemente, suponho eu".
— "Prego todos os dias; freqüentemente, duas ou mais vezes por dia".
— "Como é que o senhor acha tempo para estudar, quando prega tantas vezes?" perguntou o jovem advogado do lado esquerdo.
— "Estudo, quando ando, e leio quando estou descansando".
— "Mas escreve o senhor os seus sermões?"
— "Raras vezes".
— "Pregando de improviso, não erra nas suas pregações?!"
— "Sim, às vezes".
— "Como é que procede? Não procura corrigir os erros ?"
— "Depende da natureza do engano", - replicou Lee.
"Estava pregando outro dia, quando citei o texto: "E todos os mentirosos (liars), sua parte será no lago que arde com fogo e enxofre", mas, por engano, eu disse: "Todos os advogados (lawyers), sua parte será no lago que arde com fogo e enxofre".

O advogado do lado esquerdo perguntou:
— "Que fez então? Não corrigiu?"
— "Não", disse Lee calmamente. "Estava tão perto a verdade que julguei desnecessário corrigir".

— "Ufa!" retorquiu o jovem do lado direito. "Não sei se há muita diferença em ser o senhor um bobo ou um tolo".
— "Nem um, nem outro", respondeu calmamente o pregador, olhando de um lado para outro. “Creio que estou exatamente entre os dois" (Luccock, ps. 227-228).

Em 1809 Lee foi escolhido pelo governo para servir como Capelão do Congresso dos Estados. Ficou no lugar até 1815, quando pediu demissão do cargo. Morreu em setembro de 1816, com cinqüenta e oito anos de idade e foi sepultado no cemitério do Mount Olivet, em Baltimore.

O METODISMO AO OESTE DOS MONTES ALEGHAINS


O Metodismo, antes de findar o século dezoito, espalhou-se entre as treze colônias primitivas dos Estados Unidos. Logo depois, ou mesmo antes, da guerra da Independência, imigrantes das colônias passaram para as planícies ao oeste dos montes Aleghanis. Pioneiros, como Daniel Boon, já tinham penetrado nas florestas e planícies existentes entre o rio Mississipi e os montes Aleghanis e para o norte do Rio Ohio. Chegara já o tempo dos itinerantes seguirem as pegadas dos imigrantes. Antes de 1800, Asbury tinha feito algumas viagens além dos montes Aleghanis, até Kentucky. Já existia uma escola à beira do rio Kentucky, no lugar chamado Betel. Havia alguns pregadores e crentes metodistas espalhados por aquela vasta, e promissora zona. O número de imigrantes aumentava dia a dia; homens de toda espécie, bons e maus, penetravam naquela zona. Estava o tempo propício para evangelizá-la. Mas precisava-se de homens fortes, corajosos e inteligentes para conquistar aquele povo para Cristo.

Asbury, vendo a situação e, com ela, grandes possibilidades e oportunidades, queria passar além e conquistar a região para seu Mestre. Não somente via ali grandes oportunidades, mas também conhecia o homem talhado para elas, Guilherme McKendree.

Guilherme McKendree nasceu em 6 de julho de 1757, no estado de Virgínia. Seus pais eram do mesmo estado. Seu pai era fazendeiro. Guilherme cresceu na roça. Estudou nas escolas que por lá existiam naquela época. Depois de ter adquirido instrução regular, ensinou por algum tempo em escolas particulares. Prestou serviço militar na guerra da Independência. Esteve no exército de George Washington e tomou parte na batalha de Yorktown, achando-se presente quando o general britânico Cornwallis se rendeu às forças americanas, pondo fim a guerra, que durara 7 anos.

Bem cedo se manifestaram seus sentimentos religiosos. Se não tivesse tido um professor ateu, ter-se-ia convertido na primeira mocidade. Seu professor o ridicularizava pelos seus sentimentos religiosos e o rapaz se escandalizou e deixou de lado a religião. Por Alguns anos viveu na incredulidade. Só depois de uma grave enfermidade é que a sua consciência despertou de novo, mas não suficientemente para firmá-lo na vida cristã. Depois de ouvir as pregações dos metodistas, caiu em, si e rendeu-se a Deus. Foi no pastorado de João Easter que se converteu e se identificou com o povo metodista. As lutas por que passou, foram tremendas, porém finalmente achou a paz de espírito e todas as dúvidas se lhe dissiparam. Ao ouvir um sermão pregado pelo seu pastor, sobre a santificação, se interessou nesta doutrina e logo começou a examiná-la. O resultado disso, como ele mesmo narrou, foi o seguinte:

"Minha alma crescia na graça e na fé que vence o mundo. Uma manhã, quando eu andava e meditava no campo, um poder irresistível do Ser divino apoderou-se de mim de maneira nunca antes por mim experimentada. Não podendo ficar em pé, cai ao chão e fiquei extasiado. Meu cálice transbordava: gritei de alegria! Se não tivesse tido certas experiências dolorosas que me sobrevieram depois, poderia ter-me regozijado eternamente. Meu coração ficou engrandecido e vi, sob luz mais clara do que nunca, o perigo dos que se acham no estado de incredulidade Por tais pessoas orei com ansiedade. Às vezes, quando era convidado para orar em público, minha alma agonizava por elas, e o Senhor com grande compaixão sobre elas derramava seu Espírito. Foram convencidas e convertidas muitas almas e Sião se regozijou naqueles dias. Sem qualquer idéia de pregar, comecei a contar minha experiência acerca daquilo que o Senhor fizera por mim e o que poderia fazer pelo povo. Isso produziu efeito, causou impressões duradouras. Assim, sem eu perceber, fui guiado por Deus e os pregadores e o povo começaram a insistir para que eu continuasse a falar em público” (McTyeire, p. 483-484).

Guilherme McKendree hesitou, não querendo entrar no ministério. Seu pai, vendo a sua perplexidade, falou com ele sobre o assunto, aconselhando-o a não resistir ao Espírito Santo.

Poucos meses depois, a pedido do seu pastor, assistiu à Conferência, onde foi nomeado, como pregador, para a zona de Mecklingbilrg. Ficou abismado, duvidando se deveria aceitar ou não a nomeação. Mas seu pastor e também o superintendente distrital, rev. Easter, vendo o embaraço dele, procuraram-no e abraçaram-no, dizendo: "Quando você estava perante a Conferência, creio que Deus nos manifestou que tem trabalho para você fazer". Oh. como estas palavras calaram no espírito do jovem pregador! Cobrou ânimo, aceitou a nomeação e mais tarde foi eleito o primeiro bispo nascido em solo americano.

McKendree trabalhou dois ou três anos no estado de Virgínia e nos das Carolinas do Sul e do Norte antes de ser levado pelo bispo Asbury para as fronteiras das possessões dos Estados Unidos.

No outono de 1800 o bispo Asbury e Whatcoat, passando pelo campo de McKendree, o levaram para as fronteiras, além dos montes Aleghanis. Iam realizar a Conferência do Oeste, em Betel, no estado de Kentucky. McKendree prontificou-se a acompanhá-los Dizem que era homem de perfeita ordem, que podia arrumar mais coisas no seu alforje como o melhor jeito do que qualquer itinerante do seu tempo. Foi nomeado superintendente de toda a zona da Conferência do Oeste. Nele se achava um homem talhado e preparado para implantar o cristianismo na civilização de uma nação nova, aproveitando a maior oportunidade que se concederia a alguém em vida a história ao povo americano. Durante oito anos McKendree trabalhou nessa zona, cresceu e se desenvolveu no ministério, tornando-se um dos pregadores mais destacados da sua época na história da Igreja Metodista.

Terminada a Conferência, Asbury, Whatcoat e McKendree partiram de Betel, atravessando Kentucky e Tennessee, e chegaram à cidade de Nashville. Ainda a caminho, McKendree escolheu um lugar para construir uma capela e convidou um pregador local para ajudá-lo numa série de Conferências ali. Antes de findar o ano o prédio estava acabado e um grupo de crentes adorava a Deus naquele lugar. Foi isso presságio do que havia de dar-se em muitos lugares naquela vasta região, no decorrer de muitos anos. Quantas capelas ou casas de oração foram construídas durante a vida de McKendree! Uma das igrejas mais antigas e históricas da cidade de Nashville foi organizada naquela época e ainda hoje temo nome de "McKendree Church"

Asbury e seus companheiros de viagem passaram alguns dias nesse lugar onde foram procurados por quatro pregadores locais, McGee, Sugg, Jones e Speer. O rev. Guilherme Lambuth, bisavô do rev. J. W. Lambuth, era o pastor da zona de Cumberland, naquele tempo. O rev. J. W. Lambuth foi missionário na China e era o pai do saudoso bispo W. R. Lambuth.

O Bispo Asbury, escrevendo no seu Diário acerca da sua visita a Nashville, nessa ocasião, disse:

"19 de outubro de 1800. Cheguei a Nashville. Tinha apenas ouvido falar desta cidade. Alguns julgavam que a congregação seria pequena; porém, eu acreditava que seria grande. Nada menos de mil pessoas entraram e saíram do prédio feito de pedra. Se fosse forrado e pintado, seria magnífico. Tivemos um culto que durou três horas. McKendree pregou sobre "O salário do pecado é a morte" e leu Rm 10:14 e 15. O irmão Whatcoat pregou sobre "Quando Cristo, que é nossa vida, for manifestado, então vós sereis também manifestados com ele na glória". Voltamos na mesma tarde e realizamos culto em casa do sr. Dickson (McTyeire, p. 487).

O bispo Asbury encontrou em Nashville um irmão, Green Hill, que ele conhecera anos atrás, na Carolina do Norte, e que se mudara para essa nova zona. Teve o prazer de abraçá-lo, mas não teve tempo para parar na sua casa, como antigamente fazia. Em 21 de outubro o bispo teve uma nova experiência, ao assistir, pela primeira vez, a um "culto de acampamento (camp meeting)". Vamos citar o Diário do bispo que dará uma idéia do que era um culto de acampamento. A origem deste culto se deu da seguinte forma: um homem que morava distante do local dos cultos regulares, para não faltar a qualquer reunião de uma série de pregações, resolveu levar tudo aquilo de que precisava para si e para sua família num carroção e ficar ali por alguns dias, até terminar a série. Foi um expediente tão prático que seus vizinhos começaram a seguir-lhe o exemplo. Em pouco tempo a moda pegou e assim apareceram os "camp-meetings".

Eis o que diz o Diário do bispo Asbury, em 21 (terça-feira) de outubro de 1800:

"Ontem, especialmente durante a noite, testemunhei cenas de profundo interesse. No intervalo dos cultos de pregação o povo tomava refeições e dava alimentos aos cavalos. O púlpito ficava ao ar livre, no meio de árvores altas e frondosas. Os ministros de Deus — metodistas e presbiterianos — uniram-se no trabalho e misturavam-se com a simplicidade de crianças, em condições primitivas. As tochas, colocadas aqui e acolá, iluminavam o ambiente, enquanto os gritos de alegria dos redimidos e os soluços dos arrependidos quebravam o silêncio da meia-noite. O tempo era ideal — como se o céu sorrisse — enquanto a misericórdia de Deus descia em torrentes abundantes de salvação sobre pecadores perdidos. Julgamos que, ao menos trinta almas se converteram nessa ocasião. Eu me regozijo em ver que Deus está visitando os filhos dos puritanos que têm franqueza bastante para reconhecer a sua obrigação para com os metodistas" (McTyeire, p. 487).

Foi no ano de 1800 que apareceram os cultos de acampamento. As zonas eram grandes, levando-se de duas a cinco semanas para percorrê-las. Os cultos de acampamento se realizavam em toda a regido de Tennessee e Kentucky, logo no princípio. Mais tarde os crentes em outras partes os adotaram, até que o costume se generalizou em todos os lugares do país. Ainda hoje se realizam cultos de acampamento, mas com muito mais conforto e luxo.

Os presbiterianos uniram-se aos metodistas nestas reuniões. Muitas almas nelas se convertiam. O avivamento que começou no ano de 1800, produziu os cultos de acampamento e é natural que eles servissem para propagar e estender o próprio avivamento. Foi neste período de oito ou dez anos que o povo daquela região foi realmente evangelizado.

O avivamento generalizou-se por toda a parte do país. Houve, tanto na Inglaterra como na América, agitações e perturbações físicas que acompanhavam as manifestações espirituais. Tanto os incrédulos como os crentes ficavam sujeitos a essas perturbações físicas. As desordens físicas se manifestavam, às vezes, sob a forma de agitações do corpo todo, ou só da cabeça e do pescoço. Às vezes a pessoa corria e falava. Às vezes caia como se estivesse morta. Esses mesmos fenômenos se davam nos cultos de João Wesley, ainda que ele não concordasse com eles. Igualmente na América, os pregadores não desejavam que tais cenas se verificassem. Verificavam-se, porém, freqüentemente. É notável. que tais agitações não deixassem defeitos físicos nas pessoas atacadas por elas.

Certa pessoa que testemunhou essas cenas, descreve-as assim:

"Quando afetava só a cabeça, era agitada para a frente e para trás ou de um lado para outro com tanta rapidez que o semblante não podia ser reconhecido. Quando afetava o corpo todo, vi que a pessoa ficava num lugar, enquanto o corpo se dobrava para a frente e para trás, até a cabeça tocar no chão. De todas as classes, santos e pecadores, fortes e fracos, foram atacados. Havia ataques de rir, mas só entre os crentes. Ouviam-se gargalhadas fortes, mas não excitavam outros a rir. A pessoa ficava solenemente arrebatada e o seu riso excitava solenidade nos crentes e nos incrédulos. Realmente não se pode descrever o que acontecia! Havia casos em que a pessoa afetada queria correr, para fugir de tal excitação, mas geralmente não podia correr muito, pois caia logo ao chão muito agitada. Conheci um jovem médico, de boa família, que veio de grande distancia para testemunhar essas coisas estranhas. Ele e uma moça já tinham entre si combinações de cuidar um do outro, se por acaso qualquer dos dois caísse. Finalmente o médico sentiu uma coisa estranha e saiu da congregação para correr para a floresta. Mas não correu muito: caiu ao chão e ali ficou até submeter-se ao Senhor. Depois se tornou membro zeloso da Igreja. Tais casos aconteciam freqüentemente" (McTyeire, p. 493).

Quem sabe se Deus não permitiu esses fenômenos físicos para impressionar um povo de dura cerviz, pois havia muita incredulidade, perversidade e dureza de coração entre o povo daquela época.

McKendree era o homem para essa época e para essa região. Não somente sabia promover cultos de avivamento, mas também guiar e disciplinar os novos crentes. Organizaram-se comissões com autoridade para nomear os pregadores para cultos de acampamento e para formular regulamentos que conservassem boa ordem entre o povo, nessas ocasiões.

McKendree pregava as doutrinas, metodistas e administrava a disciplina com firmeza, mantendo as classes, os ágapes e a itinerância e seus colegas pregaram as doutrinas da redenção universal, da salvação de graça, presente e completa, da justificação pela fé, da regeneração pelo Espírito Santo, do gozo da salvação, que é o fruto do Espírito, e da importância de aceitar a salvação imediatamente. Os pregadores e os superintendentes distritais seguiam com rigor o sistema da itinerância. Os presbiterianos que tomavam parte nos cultos do acampamento, não seguiam com tanto rigor o seu sistema e houve divisão entre eles. Uma nova Igreja Presbiteriana organizou-se com o nome de Cumberland Persbiterian Church, com tendência, na sua doutrina, para o arminianismo.

O trabalho prosperou e Asbury procurou visitar essa zona anualmente para realizar as Conferências anuais. Em 1802 o que era um distrito se dividiu em três, a saber: o distrito de Holston, com João Watson como superintendente; o distrito de Cumberland, com João Page como superintendente; e o distrito de Kentucky, com Guilherme McKendree como superintendente.

A visita do bispo Asbury, nessa época, fez-se com grande sacrifício e sofrimentos para ele, que estava doente. Escrevendo no seu Diário acerca da bondade de McKendree no cuidado que teve com ele e com o trabalho dele, disse:

"O irmão McKendree me fez uma tenda com o seu cobertor e com o de João Watson e assim evitou que eu ficasse indefluxado, enquanto eu dormia duas horas sob o meu próprio cobertor. O irmão McKendree colocou sua capa sobre o galho de uma árvore e, abrigando-se debaixo dela, ele e seu colega dormiram também. Creio que não devo tentar outra viagem pelas florestas, sem levar uma tenda comigo". Pouco adiante acrescenta: "Tenho estado doente há vinte e três dias. Oh! que história triste eu poderia narrar! Meu caro McKendree teve de ajudar-me a montar a cavalo e a desmontar, como eu fosse uma criança. Minha doença foi causada, creia, pelo fato que tive de dormir ao relento, sem cobertor" (McTyeire, p. 495).

No ano seguinte, em 1803, a Conferência achou por bem criar mais um distrito ao nordeste do rio Ohio, tendo Guilherme Burke como superintendente. De ano a ano havia progresso e se ocupava novo território. Também novos obreiros apareciam e, entre
os que se destacaram mais, pode mencionar-se: Samuel Parker, que trabalhou no estado de Mississippi; Pedro Cartwright, que trabalhou nos estados de Kentucky e Illinois; Tomaz Lasley, que trabalhou com Axley no estado de Loisiana. Para se apreciar mais
como o trabalho era feito, citaremos um trecho de James Gwin:

"O irmão McKendree, logo depois de nomeado para o trabalho do Oeste, formulou plano de levar o Evangelho a todos os recantos. Empregou todos os pregadores locais e exortadores que podia achar, para visitarem os lugares não ocupados. E foram e, com eles, o Senhor. As boas novas de salvação dentro em pouco se ouviam em todas as povoações. Como eu comecei, nessa época, a falar em público, ele me mandou para uma ,povoação nova. Ali preguei até a reunião da Conferência. Então fui recebido em experiência. A ordem que recebemos, eu e Jesse Walker, que foi admitido à experiência na mesma ocasião, foi: "Estender o trabalho". Jesse Walker começou a formar zonas de percursos para Oeste e para o Norte, até chegar ao rio Ohio, e o irmão McKendree elaborou plano para levar o Evangelho ao Oeste dos rios Ohio e Mississippi. E, como Luisiana fosse adquirida pelo nosso governo, enviou ele os irmãos Walker e Luiz Garrett, para abrirem trabalho naquela região e foram bem sucedidos em levantar ali o estandarte da cruz" (McTyeire, p. 497).

O trabalho ia de vento em popa. Nunca houve na história do Metodismo da América do Norte tanto progresso em qualquer região em tão pouco tempo como houve nesta, onde McKendree trabalhou por oito anos. Na ocasião da Conferência do Oeste, que se realizou em 20 de setembro de 1806, o bispo Asbury relatou: "Houve um aumento de 1.400 nesta Conferência e a nomeação de cinqüenta e cinco pregadores. Todos ficaram contentes. Os irmãos estavam em necessidade, portanto vendi o relógio, a capa e a camisa". O bispo Asbury cuidava dos seus pregadores. A última coisa que preocupou seu espírito, antes de partir para a eternidade, foi levantar fundos para suprir grandes necessidades de heróicos pregadores.

McKendree enviava os pregadores para novos campos e logo se achava no meio deles, ajudando-os na realização dos cultos de acampamento. Deixemos James Gwin narrar os fatos que se deram numa das viagens de McKendree:

"Em 1807 eu e os irmãos McKendree e Goddard visitamos a povoação de Illinois. Atravessamos o rio Ohio, entramos na floresta e viajamos até a noite. Não conseguindo chegar a qualquer habitação, acampamos. O irmão McKendree fez-nos um pouco de chá, deitamo-nos sob a copa duma árvore amiga e passamos agradavelmente a noite. Partimos cedo, no dia seguinte, apressamos a marcha e chegamos ao meio da planície, onde passamos a noite seguinte. Na terceira noite, chegamos à povoação. Ficamos ali um dia e, depois, atravessando o rio Kaskaskia, passamos a quarta noite com o velho irmão Scott. Em sua casa nos encontramos com Jesse Walker, que tinha fundado uma zona de trabalho e marcado e planejado três cultos de acampamento para nós. Depois de descansar alguns dias fomos para o lugar marcado para o primeiro culto de acampamento. Viajando vinte quilômetros, chegamos ao rio Mississippi. Não achando meio para atravessá-lo com os nossos cavalos, mandamo-los para trás e, com a bagagem aos ombros, fomos a pé até ao lugar do culto de acampamento. Encontramos o irmão Travis no caminho. Quarenta pessoas converteram-se nessa reunião.

“Desse culto de acampamento voltamos e, atravessando o rio, chegamos a casa do juiz .... que nos hospedou e mandou nossa bagagem, numa carroça para a casa do irmão Garrettson, no lugar chamado Three Springs, onde havíamos de realizar o segundo culto de acampamento. Aqui chegamos sexta-feira. O lugar era bonito, no meio da floresta, mas cercado de pequenas planícies. Uma multidão de gente tinha chegado, porque se haviam espalhado por toda parte notícias do nosso primeiro culto de acampamento naquele lugar, o que provocou muito entusiasmo entre o povo. Alguns apoiavam estes cultos e outros não nos apoiavam. Certo major juntou um grupo de pessoas desordeiras para nos atacar e expulsar. No sábado, enquanto eu pregava, o major e seus companheiros apareceram a cavalo e estacaram no meio da congregação, o que produziu confusão e alarme. Parei de pregar e os convidei a se retirarem. Afastaram-se um pouco e beberam cachaça. O major disse que tinha ouvido falar que os metodistas; perturbavam o sossego do povo por toda parte onde andavam, que pregavam contra corridas de cavalos, jogos de baralho e outros esportes. Às três horas da tarde, quando eu e o irmão Goddard cantávamos um hino, o poder do Espírito Santo desceu sobre a congregação. Um homem, com expressões de horror no rosto, veio a mim e perguntou: "É o senhor que toma conta do rol?" "Perguntei-lhe a que rol se referia. "Aquele rol", respondeu ele, "no qual a gente que vai para o céu, escreve o nome". Julguei que se referisse a lista dos membros de classe e encaminhei-o para o irmão Walker. Virando-se para o irmão Walker, disse: "Escreve aí meu nome, faça o favor". Depois caiu ao chão. Alguns tentaram fugir mas caíram ao chão e alguns fugiram e escaparam. Conseguimos juntar todos os que caíram ao chão, num lugar, ao por do sol, e então o homem que pedira que seu nome fosse escrito no rol, se levantou e fugiu como se fosse uma fera. Olhando ao redor de mim, tive a impressão de um campo de batalha, depois duma peleja. Toda a noite a luta continuou. A vitória estava do lado do Senhor. Muitos foram convertidos e, ao nascer do sol, do dia seguinte, houve gritos de júbilo no acampamento. Foi o dia do Senhor mais lindo que já vi. Pouco depois, o homem que fugira, voltou, molhado pelo orvalho da noite, mostrando sinais de loucura. Às onze horas o irmão McKendree administrou a santa ceia e, enquanto explicava a sua origem, natureza e objetivo, alguns do grupo do major ficaram tocados e produziram cena comovente. Depois da comunhão o irmão McKendree pregou. Todos os homens principais daquela região estavam presentes e todos os que, morando distantes, puderam vir, lá estavam. Eis o texto do sermao: "Vinde, pois, arrazoemos". Talvez ninguém tratasse do assunto melhor ou com melhor resultado. Seus argumentos sobre a expiação, o grande plano de salvação e o amor de Deus eram claros e fortes, pronunciados com tanta compaixão, que a congregação ficou em pé e de todos os lados avançava na direção do pregador. Enquanto pregava, referiu-se ingenuamente à conduta do major e observou: "Nós somos americanos, alguns de nós lutamos pela nossa liberdade e chegamos até aqui para mostrar ao povo o caminho, para o céu". Isto comoveu o major que se tornou amigo nosso e o é até agora.

“Este foi um dia notável. A obra geralizou-se, o lugar tornou-se terrível e muitos se converteram. Entre os convertidos estava o louco. A sua história é singular. Morava ele no lugar chamado American Bottom, possuía grande propriedade e era ateu Contou-nos que poucas noites antes da nossa chegada sonhara que o dia do juízo estava próximo, que três homens vieram do oriente para avisar o povo e prepará-lo para esse dia, e assim, quando nos viu, ficou alarmado, acreditando que éramos os três homens e, querendo saber quem éramos, veio ao culto do acampamento. Tornou-se homem reformado e bom". (McTyeire, ps. 498-499).

No terceiro culto de acampamento mais de cem pessoas fizeram profissão de fé.

Para dar uma idéia mais clara a respeito do trabalho feito por McKendree e seus colegas, citaremos um trecho dele mesmo:

"Com exceção de quatro domingos, tenho assistido a reuniões públicas, todas as semanas, desde fevereiro. Neste prazo viajei seis mil setecentos e cinqüenta quilômetros, através de florestas, até ao estado de Illinois e, na volta, passei a maior parte do tempo numa região infestada de malária, contudo, graças a Deus, a saúde e as forças me foram conservadas" (McTyeire, p. 499).

Essa viagem durou dois meses e foi o começo da evangelização ao oeste do rio Mississippi. Os colegas.de McKendree cooperaram com ele nos seus planos e na administração, porque sabia dirigir e fazer o trabalho. Tal homem com tais colegas não podiam fracassar.

Tobias Gibson foi nomeado para abrir o trabalho no estado de Mississippi. Iniciou sua obra em Natchez, à beira do rio Mississippi, e logo conquistou diversas almas para Cristo naquela localidade. Uma delas era Randall Gibson, seu parente, homem de recursos. Foi nomeado guia de classe e mais tarde se tornou pregador local. Em pouco tempo ali se formou uma sociedade de oito pessoas.

Tobias estendeu o trabalho em todas as direções, mas, enquanto seu trabalho aumentava e se desenvolvia, sua saúde se enfraquecia. Houve necessidade de mais obreiros naquela região, para que seu pedido tivesse, resposta favorável, resolveu assistir à Conferência que se realizou em setembro de 1802 no lugar chamado Shorter. A viagem para lá foi longa e penosa.

Quando chegou à Conferência, fraco no corpo, o bispo Asbury o abraçou e deu-lhe a sua benção, e nomeou mais um homem, Moises Floyd, para ajudá-lo no trabalho. Voltaram juntos contentes; mas no ano seguinte, Tobias Gibson voltou à Conferência para pedir novos trabalhadores. Estava tuberculoso e não estava longe o fim da sua jornada, porém não queria morrer, sem conseguir mais obreiros para continuar o trabalho que ia tão bem. Desta vez o bispo o abraçou e o sustentou em seus bravos, porque estava muito fraco. O coração dele ficou alegre, quando o bispo nomeou mais dois obreiros para aquela zona. Em poucos meses percorria aquela zona e chegava à Florida a triste notícia de que Tobias Gibson tinha completado a sua carreira. Tinha só vinte e oito anos, quando faleceu.

Realmente a maioria dos pregadores itinerantes naquela época morria, pode dizer-se, na mocidade. Corria entre o povo, quando tempo, no inverno, ficava frio e chuvoso este dito "Não há ninguém fora de casa hoje, senão os corvos e os pregadores metodistas".

Homens como Natã Barnes, Leones Balcknian, Bowman e outros entraram e possuíram a terra da Florida, de Alabama, do Mississippi e da Lousiania. Em 1808, a Conferência escolheu onze delegados para representar a zona do Oeste na Conferência geral, e McKendree chefiou a delegação. McKendree, voltando para o Leste, depois de oito anos no Oeste, podia relatar que, quando entrou naquela zona, havia só um distrito e agora deixava cinco; havia só 2.307 membros brancos e 177 membros de cor. Tornou-se o pregador das fronteiras. Deixava-a com 15.202 membros brancos e 795 membros de cor. Esses oito anos foram os mais frutíferos da sua vida. Durante esse tempo estava se preparando para ocupar o lugar mais alto na Igreja Metodista. Na ocasião da Conferência geral de 1808 foi eleito bispo, o primeiro bispo nascido em solo americano.

A Conferência geral realizou-se na cidade de Baltimore. O bispo Whatcoat tinha falecido e a saúde do Bispo Asbury não estava boa. Havia necessidade de eleger, ao menos, mais um bispo.

No primeiro domingo da Conferência, McKendree foi nomeado para pregar, na Light Street Church. A igreja estava repleta de delegados à Conferência geral. McKendree tinha passado oito anos no Oeste, nas fronteiras e não era bem conhecido pelas igrejas do Leste. Tinha adquirido o jeito e os costumes do povo rústico das florestas. Sua roupa era grosseira e simples e seu porte desajeitado, influenciado pelos costumes da roça. Não tinha boa aparência no púlpito. No princípio do sermão, pareceu embaraçado; mas, no meio, esqueceu-se de tudo menos do assunto e tornou-se eloqüente e a sua voz clara e agradável ecoava em toda a parte do grande auditório; sua eloqüência arrebatou a congregação. Quando parou, o povo sentiu a doçura e a suavidade da verdade evangélica, e houve um silêncio calmo, doce, tão agradável como a luz da tarde num dia calmo de verão. Os delegados à Conferência geral começaram a dizer: "Este é o homem para o bispado". Poucos dias depois McKendree era eleito bispo. Tinha cinqüenta e um anos de idade e estava bem preparado para levar avante a obra que Asbury tinha promovido por tantos anos. Era homem disciplinado nas florestas, educado na escola da experiência e conhecia bem e de perto os problemas dos pregadores da Igreja.

OS ITINERANTES ACOMPANHANDO A MARCHA DOS IMIGRANTES PARA O OESTE

Já falamos do trabalho iniciado no Canadá, porém devemos dizer mais um pouco aqui a respeito a Igreja Metodista que ali se formou, que se estendeu da árvore originária.

Em 1780 um pregador local, Tuffey, comissário de um regimento britânico, chegou à cidade de Quebec. O trabalho dele foi frutífero e prosperou.

O major Neal, americano, natural da Pensilvânia, pertencia a um regimento da cavalaria do exército britânico no tempo da guerra da Independência foi o primeiro pregador metodista que trabalhou no Canadá Superior. Quando a família de Filipe Embury imigrou para o Canadá, em 1774, aumentaram os laços metodistas entre os dois países. Paulo e Bárbara Heck fizeram parte desse grupo primitivo de metodistas nesta parte do Canadá. Em 1790, o bispo Asbury mandou Guilherme Lesee para o Canadá, e, no ano seguinte, Saeyer e Coleman e outros missionários foram enviados para lá.

Em 1805 Guilherme Case, "o pai da missão aos índios do Canadá", e Henrique Ryan foram nomeados para a zona de Bay of Quinte. Outros como Natã Bangs, trabalharam no Canadá. Mas, por causa da política civil, levantaram-se complicações que provocaram desarmonia e conflitos entre os metodistas dos Estados Unidos e os do Canadá e da Inglaterra. Wesley tinha enviado missionários para o Canadá como fez para os Estados Unidos. Os metodistas do Canadá estavam sujeitos a duas ou três autoridades eclesiásticas com a complicação ainda da autoridade civil do governo britânico. O tempo não servia para remover as dificuldades, antes contribuía para complicá-las ainda mais. O governo britânico não olhava com bons olhos os missionários americanos com a sua responsabilidade e autoridade eclesiástica fora do país.

Portanto, com o correr do tempo, quando havia missionários wesleyanos suficientes para conservar o trabalho, a jurisdição da Conferência geral americana foi retirada e os canadenses ficaram livres de complicações civis e eclesiásticas estranhas às do seu país.

Por algum tempo houve uma questão entre a Conferência do Canadá e a Igreja Metodista Episcopal, acerca da Casa Publicadora. Mas, depois de muita demora, as duas igrejas chegaram a um acordo sobre este ponto na ocasião da Conferência geral em 1836. Desde essa data não tem havido mais atritos entre as duas igrejas irmãs. (Bangs, Vol. IV — ps. 236-239).

O Metodismo do Canadá tornou-se ramo forte e florescente. Tem exercido grande influência na formação da civilização do povo canadense. A Igreja Metodista do Canadá uniu-se com as Igrejas Presbiteriana e Congregacional em junho de 1925. Portanto, não existe mais Igreja Metodista no Canadá, mas a Igreja Unida do Canadá. Aqui temos uma prova de que a corrente para a unificação das Igrejas evangélicas está mais forte e patente aos olhos do mundo hoje em dia. Sem dúvida Wesley, o fundador do Metodismo, teria ficado satisfeito com tal acontecimento.

Quando os Estados Unidos realizaram com a França a compra da zona da Louisiana, a chamada "Luisiana Purchase", em 20 de dezembro de 1803, uma vasta zona, quase igual a uma terça parte da atual área dos Estados Unidos, veio para as mãos do povo americano. Muitos imigrantes entraram nessa zona. Logo em seguida as autoridades da Igreja Metodista se interessaram em mandar pregadores para lá. Fazendo isso, somente seguiam os rastos de alguns metodistas que foram para aquela zona nova, mas também evangelizavam os que já residiam ali.

Portanto, em 1805, Elias Bowman foi enviado para Nova Orleans. Viajou a cavalo de Kentucky a Nova Orleans. Os habitantes daquela cidade eram descendentes de católicos romanos franceses. Nunca houve na América um lugar mais difícil de evangelizar do que essa cidade. Bowman ficou lá algum tempo, mas não conseguiu nada. O povo não queria ouvir os protestantes. Ele queixou-se da condição do povo, que morava na imundície física e moral. Não pode achar lugar para pregar. Uma vez o governo prometeu lugar, porem, quando chegou o dia para ocupá-lo, lhe foi negado. Os poucos americanos que moravam na cidade eram da baixa ralé e não conheciam a respeito da natureza da salvação mais do que os selvagens. Depois de assistir a uma pregação, alguns perguntaram o que significava "queda do homem", querendo saber "quando ele caiu". Bowman deixou Nova Orleans e foi para Opelousa, em 1805.

Por alguns anos Nova Orleans ficou sem pregador metodista. Em 1811 Miles Harper foi nomeado para lá e não conseguiu mais do que Bowman. Luiz Hobbs ali foi em 1812, mas por causa da sua saúde, não pode fazer nada. Outros foram para lá enviados de vez em quando, mas pouco progresso se notou antes de 1846. A partir dessa data o trabalho desenvolveu-se lentamente por alguns anos.

A vasta zona oeste do rio Mississippi desenvolveu-se rapidamente. Entre os primeiros que desbravaram as planícies, não ficavam atrás os itinerantes. Em 1818 Jesse Walker introduziu o Metodismo na cidade de Saint Louis. O que ele fez nessa cidade outros pregadores itinerantes fizeram em outros pontos. Quando ali chegou disse: "Venho em nome de Cristo conquistar Saint Louis e pela graça de Deus o farei". Foi nesse espírito que todos os itinerantes pioneiros trabalharam. Doze anos mais tarde, em 1830, encontramos o mesmo Walker introduzindo o Metodismo nas costas do Lago Michingan.

Desde 1830 as fronteiras dos Estados Unidos ficaram ao lado oeste do rio Mississippi. O estado de Kansas foi invadido por homens de envergadura heróica que abriram o caminho. Homens como João Clark, que viajou mais de mil e quinhentos quilômetros numa carroça e entrou no grande estado de Texas, em 1841; Jesse Hubbard penetrou no estado de Minnesota e, pouco mais tarde, outros estados foram ocupados na zona entre o rio Mississippi e o Ocêano Pacífico.

O espírito em que foi feito o trabalho, nessa época, pelos itinerantes, pode ser ilustrado pela história do pregador Nolley. Dizem que Nolley estava viajando num lugar retirado, no estado de Mississippi, e viu os vestígios da trilha duma carroça. Seguindo-a alcançou o dono da carroça. O dono a estava descarregando no lugar da sua nova residência, junto com a sua família. Depois de descobrir quem era Nolley, exclamou:

"Mais um pregador metodista! Deixei o estado de Virgínia e fui para Geórgia para ficar livre deles. Em Geórgia converteu-se minha esposa e uma das minhas filhas, e vim para este lugar, e eis que aqui se encontra um antes eu poder descarregar a minha carroça".

"Meu amigo", disse Nolley, "se o senhor for para os céus, encontrará pregadores metodistas; se for para o inferno, tenho receio de que encontraria alguns lá; e está vendo como é aqui na terra: portanto, deve aceitar-nos e ficar em paz". (Luccock, p. 293).

A missão de Oregon fornece um dos capítulos mais interessantes na história do cristianismo na América. Em 1831 três índios da tribo dos Nez Percés e um da tribo Flathead apareceram em Saint Louis, pedindo dos homens brancos informação acerca do Deus dos brancos e uma Bíblia. O general Guilherme Clark, que participou da expedição de Clark e Lewis em 1804 a 1806, era encarregado do território reservado aos índios. Clark deu-lhes alguma instrução a respeito de Deus, mas não lhes deu a Bíblia. Os índios voltaram meio desapontados, mas aconteceu que havia naquela cidade um índio mestiço da tribo Wanydott que se comunicou por meio de cartas com o povo do leste do país. A carta despertou o interesse dos metodistas nos índios de Oregon, e não somente dos metodistas, mas também dos congregacionais e presbiterianos e outros.

O sr. Wilbur Fisk, presidente da Wesleyan University, interessou-se em criar uma missão para evangelizar os índios na parte extrema do país. O primeiro missionário que se apresentou foi o jovem professor Jasson Lee. Lee iniciou longa jornada através de montanhas e vales em abril de 1834. Partiu de Saint Louis em companhia de sessenta pessoas das quais a maior parte eram caçadores e negociantes. Levavam mais de cinqüenta cavalos e algumas vacas para os missionários. Chegaram a Oregon em setembro e Lee pregou o seu primeiro sermão nas costas do Pacífico em setembro de 1834.

Logo começou seu trabalho entre os índios. Eis a resposta ao pedido dos quatro índios que vieram buscar luz entre os homens brancos! A missão fixou sua sede no vale de Willamette. Construíam-se cabanas e começou a colonização daquela zona que abrange hoje os estados de Oregon, Washington e Idaho. Se não fosse a missão metodista e a influencia das missões de outras igrejas, toda aquela zona provavelmente teria caído nas mãos dos ingleses.

A fundação da missão de Oregon contribuiu para a extensão do trabalho no estado de Califórnia. Quando terminou a guerra entre os Estados Unidos e o México, em 1848, toda a zona que abrange os estados da Califórnia, Nevada, Utah e parte dos estados de Colorado, Arizona e Novo México ficou sob o domínio dos Estados Unidos. Em 1842 dois missionários em caminho para Oregon passaram pela cidade de São Francisco. Ficaram ali por algum tempo, trabalhando entre o povo. Pregaram e conseguiram organizar uma sociedade e uma escola. Foi a primeira organização protestante na Califórnia.

Em 1849, foi descoberto ouro no rego dum moinho chamado Sutter's Mill". Logo a noticia disto se espalhou. Nunca houve em tOda a história da América um movimento tão rápido entre os habitantes para emigrarem para um lugar, como se deu neste ímpeto louco para chegar a Califórnia. Havia três caminhos da parte leste do pais para chegar a Califórnia: O primeiro era por terra, atravessando as planícies e as montanhas Rochosas. Os que tomaram este caminho lutaram com mil dificuldades. O caminho ficou marcado pelos pedaços de mobília e de outras coisas que os viajantes jogaram fora para aliviar seus fardos. Também se encontravam muitas coisas abandonadas pelas pessoas que morreram pelo caminho. O segundo foi o caminho por mar pelo istmo do Panamá. A maior dificuldade nesse caminho era a travessia do istmo de Panamá. Muitos perderam a vida nesse trecho. O terceiro foi pelo mar, através do Cabo de Horn. Era o mais longe e demorado. Para ir de Nova York a São Francisco da Califórnia levava-se mais de cento e cinqüenta dias. Em menos de um ano chegaram à Califórnia mais de cem mil garimpeiros. Não eram somente os americanos que vinham mas também gente da Europa e de outras partes do mundo e de todas as raças, nacionalidades e classes sociais. Todos procuravam o precioso metal.

Junto com esta massa humana, ávida de ouro, apareceram também os itinerantes para evangelizá-los, dizendo que o céu é o lugar mais seguro para ajuntar tesouros. Entre esses pioneiros da cruz devem mencionar-se os nomes de Guilherme Taylor e Tomaz Owen. Taylor, natural do estado de Maryland, estava trabalhando na zona de North Baltimore, quando o bispo Waugh o convidou para trabalhar em Califórnia em setembro de 1848. Aceitou o convite, embarcou com sua família e chegou à Califórnia depois duma viagem de cento e cinqüenta e cinco dias, passando pelo Cabo de Horn. Era o homem talhado para tal trabalho entre homens,de todos os tipos que se encontravam na Califórnia. Quando o apóstolo Pedro, pregou no dia de Pentecostes, havia gente no seu auditório de dezessete nacionalidades; mas, quando Taylor chegou a São Francisco, havia mais nacionalidades representadas nos seus auditórios do que no dia de Pentecostes.

"Bom dia, senhores; estimo vê-los neste lindo dia do Senhor", dizia ele depois de cantar um ou dois hinos que usava nos cultos ao ar livre. "Quais são as notícias? Graças a Deus tenho boas notícias para vós esta manhã. "Pois eu vos trago uma boa nova de grande gozo que o será para todo o povo". Então nos conta como fez aplicação daquele texto a todas as nacionalidades que se achavam representadas naquela hora. "Meu irmão francês", gritava ele, "olhe para cá!" O francês olhou com sinceridade e escutou com atenção enquanto eu narrei o que Jesus tinha feito para ele e seu povo. "Meu irmão espanhol, tenho boas notícias para o senhor". E contou-lhe as notícias. "Meu irmão do Hawai, quer o senhor ouvir as boas novas esta manhã? Tenho boas novas de grande gozo para o senhor". E contou-lhe as boas novas e como a sua ilha devia esperar a lei de Jesus. "João Chinês, você, João, ai encostado nesse poste, olhe para cá, meu bom amigo; tenho alguma coisa para lhe contar". E assim ia mencionando cada nacionalidade até ao fim do sermão. Mas, quando terminou, alguém da multidão, gritou: "Seja respeitada vossa reverendíssima, mas não tem nada para um pobre irlandês?" Eram exigências dessa natureza que desenvolveram a capacidade do pregador ao ar livre. Como relâmpago ele respondeu: "Peso-lhe perdão, meu irmão irlandês, não era meu intento ignorar o senhor. Tenho boas novas para o senhor: Jesus Cristo, pela graça de Deus, experimentou a morte para salvar todos os irlandeses da ilha Emerald e, deixe-me dizer-lhe, meu irmão, que se esta manhã você renunciar a todos os seus pecados e se submeter a vontade de Deus, Ele lhe dará livre perdão, e purifica-lo-á de todos os seus pecados e expulsará os demônios de seu coração de modo tão prefeito como são Patrício limpou a Irlanda dos sapos e cobras" (Luccock, ps. 382-383).

CONFERÊNCIAS E CISMAS


Há dois fatores que constituem o princípio fundamental na organização da Igreja Metodista, a saber:
1) Autoridade para superintender e nomear;
2) Corpo consultivo e legislativo, chamado Conferência.

Qualquer alteração destes dois fatores modificaria a política ou o sistema metodista. O primeiro fator representa o poder executivo e o segundo, o poder legislativo. Aqui se encontra material para a história constitucional do Metodismo.

No princípio ambos estes princípios ou fatores residiam na pessoa de João Wesley. Ele era o legislador e o executor nas sociedades que organizou. Era seu desejo repartir sua autoridade com sociedades por meio da Conferência. A primeira manifestação deste desejo se deu quando convocou a primeira Conferência que se realizou em Londres, aos 25 de junho de 1744. Daí em diante a Conferência se realizou anualmente, por quarenta e sete anos, até a morte de Wesley. Mas realmente Wesley continuou a exercer as duas funções na administração das sociedades. Só depois da sua morte é que a parte legislativa ficou com a Conferência e a parte executiva com o presidente da Conferência ou com os bispos. Há atualmente cinco Conferências na Igreja Metodista: a Conferência da igreja local, a Conferência trimensal, a Conferência distrital, a Conferência Anual e a Conferência Geral. É a última que é considerada o corpo legislativo da Igreja Metodista e se realiza de quatro em quatro anos.

A Conferência Anual é a célula da política metodista. Em redor desta Conferência gira toda a atividade de toda a autoridade final da Igreja Metodista. É o ponto vital e, por isso, sempre tem ocupado o ponto principal e central desde a sua organização em 1744.

Quando Wesley nomeou Tomaz Rankin para o trabalho na América, visou a parte disciplinar das sociedades da América. Quando Rankin chegou à América, tratou logo de realizar a Conferência Anual. Mas a autoridade de Wesley foi respeitada como indica o título da ata, que é "Ata de Algumas Conversações entre os pregadores em Conexão com o rev. João Wesley". Este título foi conservado por doze anos, até 1784, quando foi organizada a Igreja Metodista Episcopal.

A Conferência do Natal que se realizou em 24 de dezembro de 1784 marcou uma nova época na história do Metodismo na América. Foi nesta ocasião que o poder legislativo passou completamente das mãos de Wesley para a Conferência. O espírito democrático manifestou-se nesta Conferência mais do que em qualquer outra que se realizou anteriormente. Ainda que Asbury fosse nomeado superintendente geral junto com o dr. Coke, Asbury não quis aceitar ordenação, antes de ser eleito pelos seus colegas no ministério. A Conferência do Natal era de um tipo particular, pois não foi realmente uma Conferência Anual, nem uma Conferência Geral, ainda que desta exercesse as funções. Quando se encerrou, encerrou-se sine die. Infelizmente não se lembrou de perpetuar o corpo legislativo.

Por falta dessa Conferência Geral, houve confusão e atritos que poderiam ter lido evitados, se tivesse havido uma organização adequada. Asbury não teria andado parafusando em sua mente e atribulando em seu espírito, tentando organizar seu Conselho. De 1784 a 1792 não houve nenhuma Conferência Geral, nem reunião legislativa. Legislar por meio das Conferências Anuais era um processo demorado e complicado.

As Conferências Anuais eram realizadas de ano em ano em diversas zonas. Em 1785, três Conferências anuais foram realizadas; e em 1790 onze foram realizadas.

Asbury, como bispo, para suprir a falta de um corpo legislativo, queria criar um por meio de um conselho composto do bispo e pelos pregadores presbíteros presidentes. Este conselho, assim constituído, cuidaria de todos os interesses da Igreja, porém nada ficaria obrigatório, enquanto não fosse aprovado pela maioria da Conferência Anual daquele distrito. O conselho reuniu-se duas vezes: a primeira vez, em 1789; e a segunda vez, em 1790. Uma terceira reunião foi marcada para 1792, mas por causa de tanta oposição, especialmente da parte de Jesse Lee, nunca se realizou. Em vez de uma reunião do conselho, foi convocada uma Conferência Geral em 1792. O bispo Coke, Jesse Lee e James Okelly influíram mais de que quaisquer outros na convocação desta Conferência Geral, que se tornou permanente, realizando-se a cada quadriênio.

A primeira Conferência Geral realizou-se em Baltimore, em 1792. Os bispos Coke e Asbury estavam presentes. Foi nesta ocasião que o cargo de presbítero presidente foi reconhecido oficialmente na Igreja Metodista Episcopal. Os bispos tinham nomeado os presbíteros presidentes e eles tinham servido nesta qualidade desde a Conferência do Natal (1784), porém havia dúvida a respeito da legalidade de tal cargo. Esta reunião motivou o primeiro cisma na Igreja Metodista Episcopal.

James Okelly, homem de grande capacidade e de grandes dons, chefiou o movimento. Foi ordenado em 1784 e servia na qualidade de presbítero presidente desde aquela data até essa ocasião. Serviu como presbítero presidente por oito anos e receava o poder episcopal que o bispo Asbury exercia. A esse receio se juntava talvez a inveja. Ele tinha feito bastante oposição ao bispo Asbury em referência ao seu conselho, e então apresentou a seguinte proposta: "Depois da nomeação dos pregadores pelo bispo para seus campos, na ocasião da Conferência Anual, se alguém se achar prejudicado pela sua nomeação, terá a liberdade de apelar para a Conferência e alegar as suas objeções e, se a Conferência aprovar as suas objeções, o bispo nomea-lo-á para outra zona".

Esta proposta provocou uma discussão que durou três dias e, quando votaram, a maioria votou contra a proposta. Foi um grande desapontamento para Okelly. Retirou-se da Conferência, avisando-a por escrito que não se considerava mais um deles. Grande tristeza apoderou-se da Conferência.

Nomeou-se uma comissão para entender-se com o irmão Okelly, porém nada se conseguiu para reconciliá-lo. Deixou a Conferência e diversos outros membros o acompanharam, entre eles o jovem Guilherme McKendree.

Terminando a Conferência, o bispo Asbury procurou Okelly e tentou persuadi-lo a não romper com a Igreja. Conseguiu acalmar seu espírito, mas finalmente Okelly retirou-se da Igreja Metodista Episcopal e fundou a Igreja Metodista Republicana.

Com o cisma de Okelly, alguns pregadores e mais de cinco mil membros se retiraram da Igreja. O cisma de Okelly perturbou bastante o trabalho metodista, especialmente nos estados de Virgínia e Maryland.

Por alguns anos o número de membros da Igreja Metodista Episcopal diminuiu. A causa principal disso foi o grande número de pessoas que deixaram a Igreja Metodista para filiar-se à Igreja Metodista Republicana, mas a perturbação e as discussões e contendas que houve por causa desde movimento refletiram-se no espírito do povo.

James Okelly sabia atacar e agredir, mas não sabia guiar bem e dirigir outros, por isso o movimento dele nunca alcançou grandes proporções.

"Enquanto Asbury não poupava esforços para expor e fazer oposição aos erros de Okelly e estorvar os seus planos e neutralizar as suas influências malévolas, conservou o seu coração direito perante ele. Na cidade de Winchester, ouvindo que seu antigo amigo estava doente, o bispo Asbury mandou dois irmãos para saber se aceitaria a sua visita. Encontraram-se em paz; indagou acerca da sua saúde, conversaram amigavelmente a respeito de pessoas e coisas, e oraram e despediram-se em paz. Nada disseram a respeito das lutas de outros dias. Este foi o primeiro encontro depois do seu rompimento e o último. Okelly alcançou noventa e dois anos, falecendo em 1826. Okelly viu o homem que ele procurou destruir (Asbury) descer à cova em paz e cheio de honras, lamentado por milhares como o pai do Metodismo americano. Viu seu lugar preenchido e seus princípios defendidos por aquele que procurou como guia na sua própria igreja. Viu membros que ficaram espalhados e divididos em facções. Tudo isto viu e testemunhou, mas em face de tudo isso, o velho conservou-se firme na sua causa com um heroísmo digno de uma causa melhor, e, com voz vacilante e esforços esgotados, proclamou a sua confiança num bom êxito final". (McTyeire, p. 413).

Onze dias depois do encerramento da Conferência Geral de 1792, o bispo Asbury realizou a Conferência Anual em Manchester. McKendree, que também deixara a Conferência, mandou por escrito seu pedido de demissão, recusando aceitar nomeação para qualquer trabalho. Mas não demorou muito e McKendree aceitou o convite para viajar com o bispo Asbury. O jovem pregador só tinha ouvido um lado da questão. Okelly tinha sido seu presbítero presidente e dele tinha ouvido muitas queixas contra o bispo como sendo um homem ambicioso, tirano, “papa”, etc.... McKendree e Okelly, inclusive, foram colegas de quarto na ocasião da Conferência Geral de 1792 e no seu quarto se realizaram algumas reuniões clandestinas. Okelly tinha se gabado na fundação da formidável Igreja Metodista Republicana, livre de senhores de escravos e de tirania. Enfim, o jovem McKendree estava cheio de preconceitos contra o bispo Asbury e contra os males, pelos quais ele o responsabilizava.

Mas, quando viajou com o bispo Asbury por algum tempo e ouviu o outro lado da questão e notou o bom espírito do bispo, ficou mais bem orientado e descobriu seu erro. Logo depois aceitou a sua nomeação e continuou na Igreja Metodista Episcopal. Pobre do jovem pregador que cai nas mãos de um pregador de experiência, mas politiqueiro!

Nessa Conferência decidiu-se realizar uma Conferência Geral por quadriênio, e assim a Conferência Geral tornou-se o Órgão permanente do governo do Metodismo americano.

Na ocasião da Conferência Geral de 1796 os distritos desapareceram pela primeira vez e resolveu-se definir os limites das Conferências Anuais. Seis Conferências anuais foram criadas nos distritos que existiam anteriormente, a saber: a Nova Inglaterra, Filadélfia, Baltimore, Virgínia, Carolina do Sul e a região do Oeste.

A Conferência Geral em 1800 elegeu para bispo Richard Whatcoat. Jesse Lee quase foi eleito. O dr. Coke estava presente e apresentou o pedido da Conferência wesleyana que ele, Coke, fosse cedido para o trabalho na Inglaterra. Atendeu-se ao pedido, concedendo a ele uma licença até a próxima Conferência Geral.

Conferência Geral de 1804 realizou-se na cidade de Baltimore. Os bispos Coke, Asbury e Whatcoat estiveram juntos pela última vez, pois a última visita do bispo Coke à América e Whatcoat faleceu durante o quadriênio; só o bispo Asbury compareceu Conferência geral de 1808.

Na Conferência Geral de 1808, Guilherme McKendree foi eleito bispo e foi resolvido que daí em diante as Conferências seriam compostas de delegados eleitos pelas Conferências Anuais. Assim desapareceu o costume de considerar todos os pregadores itinerantes como membros da Conferência Geral. E seis restrições, redigidas por Josué Soule, foram adotadas por essa Conferência. A adoção dessas seis restrições, que podem ser consideradas como a Constituição da Igreja, marcou a nova época na Igreja Metodista Episcopal, pois elas visavam a estabilidade da Igreja. Dali em diante o Metodismo se foi tornando como um exército disciplinado para a batalha.

A primeira Conferência Geral composta apenas pelos delegados eleitos pelas Conferências Anuais reuniu-se na igreja de John Street, na cidade de Nova York, em 1º de maio de 1812. O bispo McKendree apresentou a Conferência sua mensagem formal por escrito. Era a primeira vez que um bispo fazia tal coisa. Quando terminou a leitura do seu discurso, o bispo Asbury, surpreendido, pediu a palavra e, virando-se para o jovem bispo, disse:

"Tenho alguma coisa a dizer-vos perante a Conferência”. O jovem bispo levantou-se e ficou face a face com o bispo Asbury. O bispo Asbury continuou: "Esta é uma coisa nova. Eu nunca tratei meus negócios assim e por que foi introduzida esta novidade?" O jovem bispo respondeu prontamente: "O senhor é o nosso pai e nós somos seus filhos; o senhor nunca precisou disto. Eu sou um irmão somente e tenho necessidade disto". O bispo Asbury não disse mais nada e sentou-se com um sorriso no rosto. (Tigert, p. 329).

A guerra entre os Estados Unidos e a Inglaterra prejudicou o trabalho da Igreja entre os anos de 1812 e 1816. Também o bispo Asbury faleceu na véspera da segunda Conferência Geral de 1816 que tinha apenas os delegados eleitos.

Em 1816 dois novos bispos foram eleitos: Enoch Jorge e Roberto Richford Roberts.

A eleição dos presbíteros presidentes pela Conferência Anual foi discutida, mas não foi aprovada.

A terceira Conferência Geral se reuniu em Baltimore em 1º de maio de 1820. A Sociedade Missionária foi oficialmente organizada e aprovada e dois novos bispos foram eleitos, sendo um deles Josué Soule. E como poucos dias depois a sua eleição foi aprovada pela Conferência a eleição dos presbíteros presidentes pela Conferência anual. Josué Soule, julgando que tal medida violava a constituição da Igreja quanto ao poder episcopal, recusou aceitar ordenação. A medida foi suspensa por mais quatro anos.

Na quarta Conferência geral, em 1824, tratou-se de novo da mesma questão. Rejeitou-se a eleição dos presbíteros presidentes pela Conferência Anual. Josué Soule, sendo reeleito bispo, aceitou a ordenação.

O quadriênio de 1824 a 1828 caracterizou-se pelo seu radicalismo. A questão da eleição de presbíteros presidentes pelas Conferências Anuais fez que os pregadores vissem seus direitos, no governo da Igreja; tudo isso refletiu sobre os leigos, quanto aos seus direitos na Igreja. Portanto o ar estava cheio de discussões e agitações. Foi nessa época que surgiu a questão de representação leiga nas Conferências da Igreja. Até essa data só os pregadores tomavam parte na administração da Igreja Metodista, e assim continuou até a Conferência Geral de 1866, quando foi tomada a seguinte resolução:

"É o parecer desta Conferência Geral que a representação leiga seja introduzida nas Conferências Anuais e Geral".

E em 1918, a Igreja Metodista Episcopal do Sul, na ocasião da Conferência Geral, realizada na cidade de Atlanta, Geórgia, aprovou a admissão de senhoras como representantes leigas nas Conferências.

Esta questão de representação leiga nas Conferências provocou muita discussão e, finalmente, uma divisão na Igreja. O elemento que pugnava pelos direitos dos leigos na administração da Igreja retirou-se da Igreja Metodista Episcopal e fundou a Igreja Metodista Protestante. Isto se deu em 2 de novembro de 1830.

A Conferência Geral de 1832 reuniu-se na cidade de Filadélfia em maio. James O. Andrews e João Embry foram eleitos bispos. Discutiu-se a questão a respeito da escravidão na Conferência Geral de 1836. A Igreja se agitava mais e mais sobre esta questão. E, por ocasião da Conferência geral de 1840 a situação agravou-se. Como se tratará da escravidão noutro lugar, não falaremos mais desse assunto aqui, nem aqui falaremos das Conferências gerais que se realizaram depois de 1844.

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(*) Texto extraído das páginas 182 a 235 do livro História do Metodismo, de Paul Eugene Buyers, publicado pela saudosa Imprensa Metodista em 1945.

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