IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
Fundada em 15 de Junho de 1902

Boulevard Vinte e Oito de Setembro, 400
Vila Isabel - Rio de Janeiro - RJ
CEP: 20551–031     Tel.: 2576–7832


Igreja da Vila

Aniversariantes

Metodismo

Missão

Artigos e Publicações

Galeria de Fotos

Links


Metodismo
Rio, 28/4/2008
 

A controvérsia da escravidão e a divisão da Igreja Metodista americana em 1844 (Paul Eugene Buyers)

ZZ Outros Colaboradores ZZ


 

A ESCRAVIDÃO NA AMÉRICA DO NORTE E A ATITUDE DOS METODISTAS PARA COM ELA, NO PRINCÍPIO

Lendo a Bíblia, notamos que a escravidão existia entre os povos antigos e que os próprios israelitas possuíram escravos, ainda que eles mesmos tivessem sido escravos por longos anos no Egito. O Novo Testamento fala da escravidão, mas não a aprova. O apóstolo Paulo assim aconselhou os escravos:

"Servos, obedecei a vossos senhores segundo a carne com temor e tremor, na sinceridade de vosso coração, como a Cristo, não servindo só à vista como para agradar a homens, mas, como servos de Deus, servindo-os com boa vontade, como ao Senhor e não como a homens, sabendo que,cada um, se fizer alguma coisa boa, receberá outra vez do Senhor, ou seja escravo, ou livre" (Ef 6:5-8).

Na sua Epístola a Filemon encontra-se o espírito de fraternidade cristã: a relação entre Filemon, o patrão, e Onésimo, o escravo, é como diz o apóstolo, “não mais como servo, mas em vez de servo, como irmão amado". Eis o princípio da emancipação de toda a forma de escravidão!

O problema da escravidão na história do Metodismo tornou-se complexo e difícil. A atitude dos líderes do movimento metodista sempre foi contra a escravidão, ainda que houvesse ocasiões em que não somente toleraram, mas até advogaram a escravidão e possuíram escravos. Entre estes figuram Whitefield e Devereaux Jarrett.

Whitefield escreveu até uma carta a Wesley, defendendo a escravidão do ponto de vista bíblico e econômico. Advogou a introdução de escravos na Colônia da Geórgia. No seu testamento legou cinqüenta escravos à Condessa Huntingdon.

Devereaux Jarrett possuía escravos e, na sua conversa com o bispo Coke, defendeu a posição dos americanos escravistas, ainda que não se considerasse grande amigo do sistema.

Não há duvida quanto a atitude de Wesley para com a questão. Em 1763, taxou a escravidão como "execrável cúmulo de todas as vilanias". E seis dias antes de morrer escreveu a Guilherme Wilberforce a seguinte carta:

"Londres, 24 de fevereiro de 1791.

Meu querido Senhor,
se o poder divino não o levantou para ser como um Atanásio, Contra Mundum, não posso ver como poderá levar ao fim seu empreendimento glorioso, opondo-se à execrável vilania, que é o escândalo da religião e da natureza humana. Se Deus não o levantou, para esta causa, será gasto pela oposição de homens e diabos; mas, se Deus é pelo senhor, quem será contra o senhor? São todos eles juntos mais fortes do que Deus? Oh! não desanime de fazer o bem. Vá, em nome de Deus e na força do seu poder e até a escravidão americana, a mais vil que já viu o sol, desvanecerá perante Ele.

“Lendo esta manhã um folheto, escrito por um pobre africano, estou especialmente impressionado com o fato de que seja o homem que tem pele negra injustamente tratado pelo homem branco, sem qualquer direito de defesa. É lei, em nossas colônias, que o juramento de homem negro contra homem branco não vale nada. Que vilania é esta?!
“Que Aquele que o guiou desde a sua mocidade, continue a fortalecê-lo nisto e em todas as coisas, prezado senhor. É a oração de seu servo afeiçoado,
João Wesley."
(Duren, ps. 194-195).


Os bispos Coke e Asbury eram contra a escravidão. O bispo Asbury foi mais prudente em suas atitudes do que o bispo Coke. O bispo Coke na América foi ameaçado de violência por causa da sua opinião acerca da escravidão. Mas é interessante notar que, nas suas visitas às ilhas de Barbados e da Antigua, onde trabalhou entre os escravos, tendo até enviado para lá missionários ingleses, nunca denunciou escravidão. Se tivesse feito isto, o governo inglês teria fechado a porta às suas atividades entre os escravos.

Também podemos notar que o governo inglês foi mais sábio ao tratar da emancipação dos escravos nessas ilhas do que o povo americano ao tratar do mesmo problema. O governo inglês gastou ali mais de Cr$ 2.000.000.000,00 no resgate de escravos. Nisso mostrou mais sabedoria do que o governo americano. Mas havia entre os dois casos esta diferença: o governo inglês libertava os escravos, mas os escravos ficavam nas ilhas como estavam e o povo inglês continuava morando na Inglaterra, longe dos escravos emancipados. Se tivesse levado os escravos para a Inglaterra e os distribuísse entre o povo, teria dado um perfeito exemplo ao povo americano na solução deste complicado problema social, religioso e econômico.

O povo brasileiro aproveitou a experiência de outros povos na solução do problema e chegou a emancipar os seus escravos sem grandes choques e perturbações e sem o derramamento de sangue.

Antes da organização da Igreja Metodista Episcopal, as Conferências Anuais se preocupavam com o problema da escravidão. Em 1780 a Conferência definiu sua atitude para com a escravidão, exigindo dos pregadores itinerantes que possuíam escravos, que os emancipassem, declarando que a escravidão é contra a lei de Deus e dos homens, prejudicial à sociedade e contraria aos ditames da consciência e da pura religião. E na véspera da Conferência de Natal se decidiu que os pregadores locais que possuíam escravos, teriam de emancipá-los no prazo de um ano ou seriam suspensos e que os membros da Igreja que eram senhores de escravos fossem expulsos, se não os libertassem, depois de serem admoestados pela segunda vez.


Na ocasião da Conferência de Natal tomou-se a seguinte deliberação:

"Estamos profundamente cônscios da impropriedade de estabelecer limites comunhão em uma sociedade religiosa que já está organizada, senão em ocasiões extraordinariamente excepcionais. Assim é que julgamos o costume de conservar os nossos semelhantes na escravidão. Achamos que é contrário à lei áurea de Deus, sobre a qual estão baseados a lei e os profetas, e aos direitos inalienáveis da humanidade, tanto como a todos os princípios da revolução, conservar na mais profunda degradação e numa escravidão tão vil que não se encontra igual noutra parte do mundo, excetuando-se a América, tantas almas que podem refletir a imagem de Deus”.

“Portanto, julgamos que é nosso dever impreterível lançar mão de todos os recursos ao nosso alcance para extirpar do nosso meio esta abominação".

Segue então o plano com todos os seus detalhes e no fim há este "N. B.":
“Estas regras afetam os membros da nossa sociedade até ao ponto em que não entram em conflito com as leis dos estados em que residem.
“E a respeito dos nossos irmãos no estado de Virgínia, depois de considerarmos a sua situação peculiar, permitimos-lhes dois anos desde o primeiro aviso para que considerem a conveniência ou não de se conformarem com estas regras". (Duren, p. 198).

A resolução era altamente cristã no seu espírito e na sua atitude, mas era inexeqüível. Com o correr do tempo modificou-se e chegou-se ao ponto de lamentá-la, mas tolerá-la.

O que complicou a questão foram as leis dos diversos estados. Todos os estados do sul tinham leis que proibiam a emancipação de escravos nos seus limites. Um escravo libertado no meio dos outros escravos era um elemento perturbador público. Houve muitos casos de pregadores que adquiriram escravos e que não podiam emancipá-los, mesmo que quisessem, porque a lei não lho permitia.

A Igreja, portanto, modificava a sua atitude para com a escravidão de época em época, para conformar-se com as leis dos estados. Foi tal esta tendência que alguém fez a observação que, em vez da Igreja influenciar o estado sobre o assunto, o estado influenciava a Igreja. E parece que tinha razão. Não foi só a Igreja Metodista que lutou com este problema, mas também as outras Igrejas seguiram, mais ou menos, a mesma política, exceto os quaqueres ou "amigos". Este grupo de crentes não permitia que seus membros possuíssem escravos.

Além das complicações causadas pelo governo civil, havia mais uma coisa que complicava e dificultava o problema: a divisão dentro da própria Igreja. Com o correr do tempo se descobriu que os estados do norte do país, devido ao clima frio, não podiam aproveitar tanto o serviço dos escravos como os estados do sul. Por isso, o sul tornou-se a zona dos escravos. Os estados do norte, por causa do clima, desenvolveram a vida industrial, enquanto os estados do sul, a vida agrícola. A zona do sul, sendo mais quente, favoreceu o cultivo de fumo, algodão, arroz e milho. Os negros eram mais hábeis trabalhadores no campo do que nas oficinas e estavam mais acostumados ao clima quente do que ao clima frio. Portanto, por estes motivos, quase todos os escravos finalmente ficaram no sul do país. Se os escravos pudessem ter sido utilizados tanto no norte como no sul, provavelmente não teria havido duas correntes tão fortes, na Igreja e no Estado; uma favorável outra contrária à escravidão.

Todas as treze colônias primitivas reconheceram a legalidade da escravidão. Por muitos anos os capitalistas do norte, especialmente dos estados da Nova Inglaterra, traficaram com escravos. Navios cheios de escravos chegavam aos portos de Newport e Providência, onde eram os escravos vendidos como se fossem animais irracionais. Isto continuou até que por lei se proibiu a importação de mais escravos para o país. Os homens do norte vendiam escravos aos homens do sul, e os homens do sul compravam escravos dos homens do norte, porque precisavam do trabalho deles para cultivar as suas plantações de fumo, algodão, arroz e milho. Tal negócio dava lucro aos homens do norte. Importar escravos e vendê-los aos homens do sul era, afinal, bom negócio para todos os brancos.

Mas chegou o dia em que não era mais permitido importar escravos e o mercado acabou, senão entre indivíduos do país que queriam vendê-los ou comprá-los.

Havia indivíduos; tanto no sul como no norte, que consideravam a escravidão um grande mal. Havia outros que possuíam escravos, mas achavam a instituição da escravidão um mal que deveria ser eliminado da sociedade. Em outras palavras, havia sentimento favorável e contrário a escravidão no meio do povo. O joio estava semeado no meio do trigo e o problema de arrancar o joio, sem prejudicar o trigo, tornava cada vez mais difícil entre o povo americano.

Este sentimento se manifestou primeiro na Igreja e mais tarde no Estado; mas, se na política do Estado surgiu tão cedo como na Igreja, ali seu desenvolvimento foi, contudo, mais lento. Surgiu na Igreja Metodista Episcopal em 1844, ao passo que no Estado surgiu em 1860.

A lei da Igreja proibia aos pregadores itinerantes possuírem escravos nos estados onde a lei do estado permitia a emancipação. A Conferência Geral, em 1808, depois de discutir o assunto, chegou à conclusão que a escravidão não tinha remédio, porque as autoridades civis e muitos membros da Igreja estavam "contentes com leis tão contrárias à liberdade". Tomou, pois, a seguinte deliberação:
"Portanto, nenhum senhor de escravos pode ser oficial da Igreja, daqui em diante, onde as leis do estado em que mora permite a emancipação e permite ao escravo alforriado gozar a liberdade" (Duren, p. 201).

Esta foi a atitude oficial da Igreja, por mais de vinte anos. Em 1828, na ocasião da Conferência Geral foi eleito um representante fraternal à Conferência britânica. Dois homens receberam votos: Wilbur Fisk, que não era senhor de escravos, e Guilherme Capers, que era senhor de escravos. Os dois homens eram doutores e de grande capacidade. O dr. Fisk era do norte e representava o sentimento do povo daquela secção; o dr. Capers era do sul e representava o sentimento daquela secção. O dr. Capers recebeu 82 votos e o dr. Fisk 72 votos. Este ato da Conferência Geral revelava o sentimento da Igreja sobre a escravidão naquela época; estava escolhido um não escravista e também um escravista.

As duas correntes continuaram fortes por mais dezesseis anos. A questão de escravidão discutiu-se pouco durante essa época nas Conferências Gerais da Igreja, mas era a questão mais viva da Igreja. Às vezes as coisas mais melindrosas são as de que se fala menos. Assim se fez nas Conferências Gerais da Igreja até 1844, quando se deu a explosão que dividiu a Igreja Metodista em duas. Em outro lugar se tratará deste ponto mais amplamente.

Havia muita discussão deste assunto fora das Conferências. Criou-se no norte um partido de anti-escravistas que agitava a questão por meio de jornais, revistas, tratados, livros e Conferências. Essa propaganda irritou o povo do sul. O povo do sul procurava justificar a escravidão. Não somente os membros da Igreja ficavam contrariados com isso, mas também o povo em geral. Tudo isto se refletia na vida religiosa e civil do povo.

Se o povo do norte tivesse sido colocado na posição do povo do sul, teria feito o que o povo do sul fez e vice-versa. A natureza humana age da mesma maneira sob as mesmas circunstâncias e condições.

A CONTROVÉRSIA E A DIVISÃO DA IGREJA.

Como já notamos a questão da escravidão não melhorou com o correr dos anos; antes, piorou. A posição dos pregadores e crentes do norte afastava-se cada vez mais da posição dos pregadores e crentes do sul. O abismo entre as duas secções da Igreja alargava-se mais e mais e todas as tentativas para eliminá-lo fracassaram.

Quando os delegados chegaram à Nova York para assistir à Conferência Geral que se realizou na igreja metodista episcopal de Green Street, a 1º de maio de 1844, se sentiu que a atmosfera da Conferência estava sobrecarregada de apreensões e receios. Todos sentiam o peso de grande responsabilidade. No coração de todos havia o desejo de descobrir solução satisfatória para toda a Igreja.

Os primeiros dias foram dedicados à rotina da Conferência. Os delegados de Newhampshire apresentaram um memorial, acusando o dr. Capers, que era senhor de escravos e também um dos três secretários gerais das Sociedades Missionárias. Em 7 de maio foi apresentado à Conferência um apelo da Conferência Anual de Baltimore. Um presbítero daquela Conferência casara-se com uma senhora que era senhora de escravos. Por ocasião da reunião daquela Conferência, em março, o presbítero fora suspenso até que desse os passos necessários para emancipar os escravos. Segundo a lei do estado de Maryland, não se podia emancipar um escravo e o escravo emancipado gozar da liberdade naquele estado. O caso foi discutido, mas na votação a sentença da Conferência de Baltimore foi sustentada por 117 votos contra 56. O resultado dessa votação revelou o fato que o elemento anti-escravista estava mais forte do que o elemento conservador. Realmente, esse foi o primeiro passo para chegar a outro caso mais sério ainda, o caso do bispo Andrews. O bispo Andrews chegara a possuir escravos por herança e por casamento.

Antes de vir o caso do bispo Andrews ao plenário, a Conferência nomeou os bispos em comissão para trazer perante a Conferência um plano que solucionasse o problema da escravidão. Marcaram um dia de jejum e de oração em que os bispos haviam de estudar seu plano. Quatro dias depois os bispos relataram que não conseguiram formular um plano satisfatório para toda a Igreja.

O sr. Collins fez uma proposta, que a comissão episcopal estudasse o caso do bispo Andrews e relatasse os fatos apurados.

Em 22 de maio o dr. Paine, presidente da comissão, apresentou o seguinte:
"A comissão episcopal, à qual foi referida uma resolução, entregue ontem, para indagar se qualquer dos superintendentes está relacionado com a escravidão, pede licença para apresentar seu relatório sobre o assunto.”

"A comissão tinha averiguado, antes da resolução acima, que o bispo Andrews está relacionado com a escravidão e tinha conversado com ele sobre o assunto. Tenho-lhe pedido que a informasse dos fatos em foco, apresentou uma comunicação por escrito, a respeito. Pedimos permissão para apresentá-la como a sua declaração e explicação: “

"À comissão episcopal. Prezados irmãos: Em resposta à vossa pergunta, apresento-vos a seguinte declaração sobre que me dizem respeito, os fatos concernentes à escravidão. Primeiro. Há alguns anos, uma velha senhora, de Augusta, estado da Geórgia, legou-me uma menina negra, em confiança, para que eu cuidasse dela até que atingisse dezenove anos de idade, quando eu, com o consentimento dela, a deveria mandar para a Libéria. No caso da sua recusa, que eu ficasse com ela e lhe desse tanta liberdade quanta a lei do estado de Geórgia permitisse. Quando ela atingiu os dezenove anos, recusou ir para a Libéria e por sua própria escolha tornou-se minha escrava legal, ainda que eu dela não receba qualquer serviço. Ela continua a morar na sua casa, no meu lote de terreno. Tem tido e ainda tem completa liberdade para ir para qualquer estado que lhe dê liberdade. As leis do estado (Geórgia) não permitem sua emancipação, nem permitem registrar qualquer documento de emancipação. Ela se recusa a deixar o estado. Portanto, no caso dela, fui legalmente constituído senhor de uma escrava, mas não com meu consentimento.”

"Segundo. Já há cinco anos, a mãe da minha primeira esposa deixou para sua filha, não para mim, um menino negro. Como a minha esposa morreu há dois anos, sem deixar testamento e segundo as leis do estado da Geórgia, ele ficou legalmente como minha propriedade. Neste caso, como no caso da menina, a emancipação é impraticável no estado; mas o menino terá liberdade de deixar o estado, quando eu tiver a certeza de que ele pode cuidar de si, ou eu tiver garantia de que será protegido e amparado no lugar para onde for.”

"Terceiro. No mês de janeiro do ano passado me casei com a minha atual esposa, que já era naquela ocasião, senhora de escravos, herdados de seu falecido marido. Logo depois do meu casamento, não querendo eu ser senhor de escravos e considerando que pertenciam exclusivamente a ela e a lei não permitia a sua emancipação, leguei-os a ela por meio de uma escritura de fiador”.

"Fica patente a vós, pelos fatos mencionados, que não tenho comprado nem vendido escravos e que nos dois casos em que sou legalmente senhor de escravos, a emancipação é impraticável. Quanto aos escravos que pertencem à minha esposa, não tenho qualquer responsabilidade legal, nem pode minha esposa emancipá-los mesmo que o queira. Assim tenho narrado todos os fatos em questão e submeto esta declaração à consideração da Conferência Geral. Respeitosamente vosso, James O. Andrews" (McTyeire, p. 623).

O caso do bispo Andrews ficou para ser considerado no dia seguinte, quando Alfredo Giffith e João Davis, da Conferência de Baltimore, propuseram o seguinte:
"Que o rev. James O. Andrews seja, pelo presente, oficiosamente solicitado a pedir sua resignação do ofício de Bispo da Igreja Metodista Episcopal" (McTyeire, p. 628).

O caso do bispo Andrews provocou uma discussão que durou sete dias, dias que provaram a paciência de todos Não tentaremos reproduzir os argumentos favoráveis e contrários, mas os que tomaram parte na discussão usaram de toda precaução para não ofenderem a ninguém. Era desejo de todos achar uma solução satisfatória.

O bispo Andrews era homem bom e humilde e estava pronto a pedir a sua demissão do ofício episcopal. Mas, quando os homens do sul protestaram contra tal ato, mostrando que não havia acusação pessoal contra ele, que ele não tinha violado qualquer lei da Igreja nem do Estado, que seria tal ato uma violação dos direitos do episcopado e que os irmãos do sul não concordariam com isso, então ele deixou de dar este passo.

Realmente, se tivesse dado tal passo, não teria solucionado o problema em discussão. A questão era mais grave do que o caso do bispo Andrews: seu caso era somente sintoma de um mal-estar geral. Para continuar no ofício episcopal, ficaria incapacitado de presidir a qualquer Conferência nos estados do norte e os irmão da Nova Inglaterra retirar-se-iam da Igreja Metodista Episcopal e fundariam uma nova Igreja; e, se fosse demitido, os irmãos do sul ficariam escandalizados. Depois de sete dias de discussão, foi resolvido pedir aos bispos que apresentassem um plano que julgassem solucionar o problema. No dia seguinte apresentaram seu plano. Recomendavam que se deixasse de tomar qualquer deliberação até a próxima Conferência Geral, que se poderia fazer um arranjo para se aproveitarem os serviços do bispo Andrews e que, assim fazendo, ter-se-ia mais tempo para sondar o sentimento de toda a Igreja. Quando o plano foi apresentado ao plenário da Conferência, o bispo Hedding pediu que seu nome fosse retirado do documento, porque, depois de assiná-lo lhe tinham chegado informações que o levaram a modificar seu parecer. só vinte anos depois é que o motivo que levou o bispo Hedding a mudar sua opinião, foi publicado. Era que os delegados da Nova Inglaterra tinham tomado a deliberação de retirar-se da Igreja Metodista Episcopal se o bispo Andrews continuasse no seu ofício. Então é que se perdeu a última esperança da unidade de Igreja Metodista nos EUA. Quase unanimemente os delegados do sul teriam votado pelo plano. Votou-se uma moção para deixá-lo sobre a mesa e o resultado foi: 95 a favor e 84 contra. Então se votou a proposta que estava perante a casa, de suspender o bispo Andrews do ofício episcopal, e o resultado foi: 111 a favor da moção e 69 contra. A minoria declarou que apresentaria mais tarde seu protesto, o que foi feito poucos dias depois.

"Aos 5 de junho o dr. Longstreet apresentou o que ficou conhecido como "A Declaração dos Delegados do Sul", assinado por todos os delegados (51) das Conferências onde existia a escravidão, com exceção de um, do Texas. O documento é o seguinte:

"Os delegados das Conferências nos estados onde existem escravos, tomam a liberdade de declarar à Conferência Geral da Igreja Metodista Episcopal que a continua agitação sobre a questão dos escravos e abolição da escravatura numa parte da Igreja e as freqüentes deliberações sobre esse assunto na Conferência Geral e, especialmente as medidas extrajudiciais tomadas contra o bispo Andrews, no sábado passado praticamente e forçosamente produzirão um estado de coisas no sul que dificultará a continuação da jurisdição desta Conferência Geral sobre aquelas Conferências, pois que ela é inconsistente com o bom êxito do ministério nos estados onde existem escravos".

A comunicação foi referida a uma comissão composta de nove membros: Roberto Paine, Glezen Filmore, Pedro Akers, Natã Bangs, Tomaz Crowder, Tomaz B. Sargent, Guilherme Winans, Leônidas L. Hamilton e James Poter.

O sr. J. B. McFerrin (de Tennessee), apoiado por um membro da Conferência de Troy, propôs o seguinte:
"Que a comissão nomeada para tomar em consideração o protesto da comissão dos delegados das Conferências do sul seja incumbida de projetar, se possível, um plano constitucional para a divisão amigável da Igreja, no caso de não se achar, no seu entender, um plano mais pacífico para ajustar as dificuldades que existem atualmente na Igreja sobre a questão da escravatura " (McTyeire, ps. 636-637).

Citaremos as duas primeiras e a última das doze resoluções do "Plano de Separação" aprovado pelos delegados das Conferências anuais reunidos na Conferência Geral:

"1—Que, no caso das Conferências Anuais dos estados onde existem escravos julgarem que seja necessário unirem-se numa associação eclesiástica distinta, a seguinte regra será observada quanto à linha divisória do lado do norte: todas as sociedades, estações e Conferências, ficarão sob o tranqüilo cuidado pastoral da Igreja do Sul; e os ministros da Igreja Metodista Episcopal de modo nenhum tentarão organizar igrejas ou sociedades nos limites da Igreja do Sul, nem tentarão exercer autoridade pastoral sobre elas; sendo entendido que os ministros do sul observarão reciprocamente a mesma regra em relação às estações, sociedades e Conferências que aderirem pela maioria de votos à Igreja Metodista Episcopal; sendo entendido, a mais, que esta regra será aplicada somente às estações, sociedades e Conferências que estiverem na linha divisória e não nas paróquias do interior, as quais serão deixadas em todos os casos àquela Igreja, em cujo território estiverem situadas.”

“2.—Que quaisquer ministros, locais e itinerantes, de qualquer categoria e ofício na Igreja Metodista Episcopal, que desejarem podem ficar na Igreja, ou, sem censura, aliar-se com a Igreja do Sul.”

“12.—Que os bispos sejam respeitosamente instruídos para apresentar a parte deste relatório, que requer a aprovação das Conferências Anuais, perante elas, o mais cedo possível, começando com a Conferência de Nova York".
(Duren, ps. 228-231).

A resolução foi aprovada com 135 votos em favor e 17 contra. Também ficou resolvido:
"Que toda a propriedade da Igreja Metodista Episcopal em casas de oração, casas pastorais, colégios, escolas, fundos Conferenciais, cemitérios e de toda espécie dentro dos limites da organização do sul, seja para sempre livre de qualquer reivindicação da parte da Igreja Metodista Episcopal, tanto quanto esta resolução possa ter força de promessa". (McTyeire, p. 638).

Chegou o tempo da separação. Os dois ramos do Metodismo tinham de tomar o rumo mais natural para eles e trabalhar separadamente um do outro, até chegar o dia em que a causa que os separou não existisse mais. A divisão do Metodismo americano pode ser comparada ao rio que segue seu percurso sossegadamente até encontrar uma grande ilha que obriga as águas a tomarem dois rumos diferentes para se reunirem mais adiante, quando a "ilha" tiver ficado para trás.

______________________________________________________
(*) Texto extraído das páginas 248 a 261 do livro História do Metodismo, de Paul Eugene Buyers, publicado pela saudosa Imprensa Metodista em 1945.


Voltar


 

Copyright 2006® todos os direitos reservados.