IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 30/8/2008
 

A Conversão do "eu" (Stanley Jones)

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Há necessidade da conversão que nos liberta de um eu impossível. Esse é o cerne do problema, tudo mais fica na margem.

A questão daquilo que acontece ao eu é central na religião. A filosofia do Vedanta afirma: "O eu é Deus realize-o". Mas a resposta óbvia a isto é que o dizer a um homem que está sinceramente procurando a Deus que ele é "Aham Brahma" (eu sou Deus) é o mesmo que dizer a um mendigo faminto que ele é alimento. Sabemos que não somos Deus, e isso põe fim à questão, pois se somos Deus, então perdemos todo o respeito a Deus; se somos Deus, então Deus nada vale.

Uma outra resposta é o oposto: "Torne-se nada". O hino que contém estes versos: “Tudo do eu e nada de Ti / Um pouco do eu e um pouco de Ti / Nada do eu e tudo de Ti” é belo num sentido, mas falso, pois você não pode viver sem "nada do eu". O eu é uma parte integral de nós e não pode ser alijado. Posto para fora pela porta, ele volta pela janela.

Uma terceira resposta é: "Dê expressão a si mesmo". Esta é igualmente impossível, pois se você expressar a si mesmo, você não gostará do eu que está expressando. Você fará aquilo que desejar, mas então não gostará daquilo que faz. Você não pode dar mais expressão de si mesmo do que pode dizer a um jardim: "Dá expressão a ti mesmo", e não ter capins como resultado.

Então qual é a resposta cristã? Ela é definida e simples: submeta-se a Deus. E o resultado? A realização do eu através da rendição do eu. É a conversão de uma pessoa centralizada em si mesma para uma centralizada em Deus.

Muita gente ainda pensa que o Cristianismo ensina a rendição do mundo. Mas a fé cristã atinge maior profundidade do que isso, pois é possível submeter o mundo e não submeter a si mesmo. Os Sadus, na India, freqüentemente se vestem de cinza, mas não se vestem de humildade: eles insistem na diferença de classes ao irem banhar-se no Ganges. Há confusão quando essa ordem não é preservada. Mas quando você se submete, então, o eu e o mundo voltam para você; ambos são seus. "Tudo o é vosso: ...seja o mundo, seja a vida, seja a morte, sejam as coisas presentes, sejam as futuras, tudo é vosso, e vós de Cristo" (1Co 3.21-23). Se você pertencer a Cristo, todas as coisas pertencem a você. A renúncia do eu termina na realização do eu e do mundo. Você não mais pertence ao mundo; o mundo pertence a você: a sua beleza, a sua arte, a sua possibilidade de desenvolvimento, as suas relações; tudo isso lhe pertence. Emancipado do domínio do eu, você passa a possuir todas as coisas.

A dificuldade é o deixar esse eu ir. Assim diz alguém: "A palavra conversão tem implicações apropriadas aos níveis mais básicos, mas ficamos realmente amedrontados diante de uma conversão mais superficial. Ao contemplá-la, a pessoa tem o sentimento de que este passo pode ser tão revolucionário que lhe apague toda a sua vida pessoal anterior. Tive ainda de aprender que, na conversão, você atira ao mar o seu egocentrismo, mas não lança o que você é".(1)

Não é de se admirar que ele chegue à conclusão de que o ato religioso mais importante é a rendição pessoal. Até que isso aconteça, damos pouca importância a essa questão de ser cristão. O seu eu nas suas próprias mãos é problema e sofrimento; nas mãos de Deus, ele é uma possibilidade e um poder.

William Law disse que "o eu é a raiz, os galhos, a árvore de todos os males da nossa raça decaída". Isto devia ser modificado para o seguinte: "O eu não submetido é a raiz... de todos os males da nossa raça decaída". O eu submisso é a raiz de todo bem que tem vindo à raça humana.

Rendição é a melhor palavra que conheço para expressar o que ela é realmente, mas Lutero a chama de "a mudança cheia de alegria" - a mudança alegre de um eu egocêntrico e impossível para um eu possível e centralizado em Deus. Rufus Moseley costumava chamá-la de "um feliz ceder de si mesmo a Deus". No templo ela não parece ser nem "alegre" nem "feliz" - parece ser morte, mas se torna em mudança. É isto que Chad Walsh disse: "Numa rendição tão completa. como eu soube fazer, coloquei tudo sobre Ele. Com o senso de ou tudo ou nada, dei o salto da fé. E deu resultado!". (2)

Nada mais dá resultado. Todos os outros tratamentos de pecados particulares são martelar nos sintomas.

Um ministro procurou controlar a sua língua queimando-a com um ferro aquecido ao rubro. Um hindu contou-me que conheceu três pessoas que haviam cortado a língua e oferecido a mesma a Kali, uma deusa hindu. Mas o eu - a fonte da língua incontrolável - permaneceu. Mostraram-me, num museu na Rússia retratos de homens que se castraram num esforço para vencer o sexo. Mas alguém disse que "todo mal é apenas um sintoma; a verdadeira doença está no fato de que temos um outro deus. Esse outro deus se chama "eu".

Esta descrição da conversão de Asa G. Gandler Jor., da Coca-Cola, é uma ilustração de como o tratar do sintoma, no caso a bebida, foi infrutífero até que o seu eu rendeu-se. Ele diz: "Eu tinha medo do desconhecido, de mim mesmo, dos resultados finais dos meus desvios e bebia mais do que nunca por causa do medo". Quando ia sendo levado para casa, meio bêbado, por um motorista, a Voz lhe disse: "Você precisa livrar-se de si mesmo; precisa renunciar-se a si mesmo; rejeitar-se a si mesmo". A Voz não lhe disse que parasse de beber, mas que se rendesse. Ele contou à esposa o que lhe havia acontecido, no caminho, "Ajoelhamo-nos em oração, e ela fez a mais bela oração que já ouvi. Eu orei assim: "Senhor, se eu tentar renunciar a mim mesmo, ajudar-me-á o Senhor? Toda a suficiência própria desapareceu. Estava tão pobre em espírito como uma criança recém-nascida. Senti a certeza de que Deus tinha tomado o meu problema como sendo Seu. Estávamos chorando, mas, pela primeira vez na minha vida, experimentei paz na alma. Pusemos uma fita na garrafa de bebida alcoólica que estava no guarda-louça, e ela está ali até hoje. Daquela hora em diante fiquei liberto do desejo de beber, contudo mais do que isso, fui liberto do egoísmo e do amor ao dinheiro". Ele dá à Igreja 75% da sua renda e espera dar tudo que possui antes de morrer. Ele resume tudo nestas palavras:A coisa central no Cristianismo é a submissão final e total do eu, a sua renúncia, e rejeição e a rendição inteira da vida à vontade e ao caminho de Deus".

A conclusão deste ex-alcoólatra e a de um dos importantes psiquiatras do mundo são exatamente a mesma. Este psiquiatra escreve isto: "Procurarei ajudá-lo na sua capacidade profissional, mas também à sua estrutura psíquica interior que ainda não é muito harmônica, mas um tanto problemática e por isso um tanto destrutiva; ela ainda gira muito ao redor do seu eu ao invés de ter o eu submisso a Deus". O alcoólatra por experiência pessoal e o analista por experiência profissional chegam ambos à mesma conclusão – rendição.

Vamos tomar agora uma experiência entre essas duas: a filha de um bispo, esposa de um clérigo que é o cabeça de uma grande e importante escola. Deixa-la-ei contar a sua própria história.

"Tendo nascido e sido criada numa família de missionários, onde os valores espirituais eram mais altamente considerados do que qualquer outra coisa, a minha fé se conservou firme até que fui estudar nos Estados Unidos. Lá fui assaltada por muitas dúvidas. Nada podia abalar a minha crença em Deus. Meus pais preenchiam as Suas condições estavam seguros do Seu amor e fidelidade, mas isto não me dizia respeito; eu tinha de provar a vida; eu havia de descobrir por mim mesma.

Depois de formada, o meu desejo era voltar para a Índia. Eu gostava de lá. Gostava muito das suas montanhas, do povo, da vida feliz que sempre tive. Queria escrever, viajar, viver!

Sabendo das respostas que provavelmente agradariam à Junta, preenchi os papéis para a Missão sem dificuldade, e, com o coração leve e um guarda-roupa ousado parti almejando a viagem que me levaria para casa.

Mas alguma coisa estava errada e muito errada na Índia. Reuniões, conferências, retiros e orações – eu estava rodeada dessas coisas. Tinha de ensinar classes da Escola Dominical, liderar um grupo de moços, fazer devoções, dar testemunhos, responder perguntas dos que estavam em dificuldades. Eu não tinha os recursos para isso. Consegui lutar durante algum tempo, conhecendo um pouco da técnica. Mas o que a princípio era vazio e pobre de sentido, tornou-se em amargura e me encheu de desprezo e rebelião. Deixei de ir à igreja quando minha hipocrisia se tornou quase insuportável a mim mesma, mas a minha ausência foi notada e criticada. Meu trabalho tornou-se um fardo e o escrever que eu havia almejado tornou-se insuportável.

Então verifiquei que tudo o que eu realmente queria estava fora do meu alcance. Queria divertimento; queria divertir-me a meu modo. Gostaria de ouvir a orquestra tocar música de dança no clube e ondas de miséria tomaram conta de mim. Era isso que eu queria, e, sendo missionária, era barrada. Que vida rígida e estéril me estava sendo imposta!

Encontrei na Escola de Línguas muita gente moça maravilhosa a quem eu admirava, mas todos eles pareciam tão seguros do seu chamado e a sua religião significava alguma coisa para eles. Eu tinha piedade deles, em meu coração, por serem tão simples; ou será que eu tinha inveja deles?

Num domingo, num estado mental desesperado, de quase rebelião, fui à igreja, sendo a luta em meu coração quase insuportável. Eu estava tão infeliz que alguma coisa tinha de acontecer ou eu não poderia continuar.

O Doutor Stanley Jones era o pregador. Ele leu o texto: "Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; e quem perder a sua vida por minha causa acha-la-á” (Mt 16.25). O meu coração clamava: "Ó não, isso não! Não quero perder a minha vida. Quero viver! Quero a felicidade, e coisas belas e amigos. Quero alegria, popularidade e divertimento. Quero vida!" Uma tristeza que parecia estar a arrancar-me a respiração me inundou. Ó quão injusto, cruel, e que loucura, o pedir-me que abandone a vida quando ela é aquilo que almejo - a vida com música, colorida e divertimento!

Escutei o sermão. O caminho foi explicado passo a passo; a lógica era irrefutável; o paradoxo parecia irrespondível, loucamente convincente, e, no entanto, eu não estava disposta a aceitá-lo. Era-me impossível abandonar a minha vida, fossem quais fossem as promessas. Então foi anunciado o último hino: "Quando Contemplo a Maravilhosa Cruz". Os meus olhos fixaram-se nos versos; então alguma coisa como pânico apoderou-se de mim. Vinha chegando um verso que eu não podia cantar. Nada podia fazer-me cantá-la; eu morreria se tivesse de fazê-lo. A segunda estrofe do hino começou; o primeiro verso, então o segundo; ele estava aproximando-se; que havia de fazer? Como poderia eu abandonar tudo? Isso era pedir demais. Clamei no coração: "Ó Deus, que farei?"

Então, movida por algum poder que não provinha de mim, consegui cantar muito baixinho: "Todas as coisas vãs que mais me encantam, eu as sacrifico ao sangue". Estava feito! Tudo passou. Naquele momento, a vida parecia estar esvaziada de tudo. Era um vazio completo, total. Nada foi deixado. Mas naquele mesmo momento, quase simultaneamente, veio um transbordamento de alegria de parar a respiração. Parecia que eu seria arrancada dos meus pés, tão grande era a plenitude, a glória. O próprio Cristo inundou meu coração, transbordou-me de amor. Tudo se esclareceu num relance isto era vida, esta abundância, esta alegria indizível e cheia de glória".

Um famoso teólogo disse: "Deus estava no centro da minha teologia, mas eu estava no centro da minha vida. Explodindo de idéias, eu falava demais. Eu queria ser aceito, mas quanto mais eu procurava provar ser digno de sê-la, menos acolhida eu tinha". Veio então a conversão através da rendição. "Eu tinha pena da fé da minha esposa. Ela levou-me a uma nova vida".

David Wesley Soper diz assim: "O cristão tira a cruz do Calvário e erige-a no seu coração. O eu que tem resistido e crucificado a Deus é crucificado; Deus e o eu não são inimigos, mas aliados". Ele disse de si mesmo: "Eu era um pacifista ardoroso, um zeloso evangelizador das idéias sociais, estava como que em fogo para reconstruir tudo, exceto a mim mesmo". Então acrescenta: "A busca do eu é a busca da tristeza". Depois vem a conclusão final: "Confrontado cada dia com o inescapável "ou... ou": buscar ou matar o eu, crucificar a Cristo ou coroá-lO Senhor dos senhores. Deus está tão próximo quanto a oração da rendição". (3)

O Barão von Hügel, leigo católico romano, comenta que "enquanto Cristo não realizar em você uma crucificação interior que o separe da enfatuação e o ligue a Deus numa união profunda de amor, mil Céus não lhe poderão dar paz". A rendição é a base da paz, e não há nenhuma outra base.

Samuel Hoffenstein resume-o, dizendo que "onde quer que eu vá, eu vou também, e estrago tudo". Tudo é estragado quando se tem um eu insubmisso no centro.

Jesus procurou dar isto aos Seus discípulos em Lucas 9, perguntando-lhes: "Quem dizeis vós que eu sou?" (v. 20). Quando Pedro fez a grande confissão: "O Cristo de Deus", Ele imediatamente tentou fazê-los compreender o centro da verdade de que Ele era o Filho de Deus - a Cruz! O dar-se (v. 22) então virou-se para "todos" eles, dizendo-lhes: "Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; quem perder a sua vida por minha causa, esse a salvará" (vv. 23-24). Assim como a cruz da rendição estava no centro do Seu ser como Filho de Deus, assim ela deve estar no coração dos Seus discípulos. Ele ensinou a mesma lição no monte da Transfiguração. Aquilo de que Moisés e Elias falaram era a "Sua partida que Ele estava para cumprir em Jerusalém" (v. 31). Esse era o centro da Sua "glória" - a cruz. Então Jesus expeliu o espírito mau (v. 42). "E todos ficaram maravilhados ante a majestade de Deus. Como todos se maravilhassem de quanto Jesus fazia, disse aos Seus discípulos: fixai nos vossos ouvidos as seguintes palavras: o Filho do homem está para ser entregue nas mãos dos homens" (vv. 43-44). A minha "majestade", disse Ele, não está na cura, e sim no "dar-me", está numa cruz!

"Eles, porém, não entendiam isto e temiam interrogá-LO a este respeito" (v. 45). Temiam perguntar-lhe, pois sentiam vagamente que isso os envolveria na rendição. O não compreenderem eles "isto" e tudo o que isso envolvia para eles começou agora a mostrar-se em todas as suas relações.

1. "Levantou-se entre eles uma discussão sobre qual deles seria o maior" (v. 46). O eu insubmisso começou a transtornar a camaradagem íntima dos doze.
2. "E lho proibimos, porque não segue conosco" (v. 49). Aqui o eu insubmisso transtornou relações entre grupos de discípulos.
3. "Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para os consumir?" (v. 54). Aqui o eu insubmisso transtornou relações entre raças - Samaritanos e judeus.
4. Visto que os discípulos não obtiveram esta rendição como centro do seu seguir a Jesus, assim o serem discípulos também não o recebeu: "Seguir-te-ei para onde quer que fores. Mas Jesus lhe respondeu: As raposas têm seus covis e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça" (vv. 57-8). "Vós procurais uma jornada suave; eu vos estou oferecendo uma cruz".
5. "A outro disse Jesus: Segue-me. Ele, porém, respondeu: Permite-me ir primeiro sepultar meu pai" (v. 59). (A propósito, o seu pai não estava morto em casa, mas ele queria voltar para casa e esperar até que seu pai morresse para fazer-lhe um grande funeral, mantendo o nome da família - novamente o eu).
6. "Outro lhe disse: Seguir-te-ei, Senhor; mas deixa-me primeiro despedir-me dos de casa. Mas Jesus lhe replicou: Ninguém que, tendo posto a mão no arado, olha para trás, é apto para o reino de Deus" (vv. 61-2). O olhar para trás mostrava que ele estava sentindo tristeza de si mesmo - "Veja o que estou deixando!".

Desde a maravilhosa descoberta de que Jesus era o Filho de Deus até o fim do capítulo, nada foi feito certo pelos apóstolos e seus aderentes. Com essa descoberta nas suas mentes, seríamos levados a pensar que tudo sairia certo deles e das suas relações. Se o intelectualismo fosse a resposta, então seria assim. Mas enquanto que as suas mentes estavam convencidas, as suas emoções estavam nas garras de um eu sem rendição. Daí o moverem-se sobre si mesmos em tudo, em todos os acontecimentos e em todas as relações. O eu insubmisso estava na base de todos os seus fracassos. Estavam em tudo procurando se salvar e estavam se perdendo em cada um dos eventos. A vida toda, em qualquer parte, é um comentário e uma amplificação daqueles dizeres de Jesus. Salvar a sua vida com a preocupação centralizada no eu, é perdê-la, e o perdê-la através de um eu submisso é achá-la. Essa é uma lei plantada tão profundamente no mundo espiritual como a lei da gravitação está plantada no material, e é também inescapável.

Isso se dá em toda parte. Numa pequena cidade, numa noite, antes da discussão da "direção caseira" no estudo de relações domésticas, os maridos e as esposas receberam questionários para serem preenchidos. No espaço para anotarem as causas de desentendimentos nos lares, um homem escreveu "Eu!" Essa história de "Seleções" é tão nova e tão antiga como os passos das Escrituras citados acima. Em cada um dos casos, a causa do desentendimento era o "Eu" - o eu insubmisso. Não há outra causa. Isto é uma doença e tudo mais é sintoma.

Se não pertencemos a Ele, vemos, na seguinte passagem, como nada nos pertence. "Prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus" (Fp 3.12). "Conquistar... fui conquistado". Quando pertencemos a Ele, tudo nos pertence, mas quando pertencemos a nós mesmos, então nada nos pertence. "Todas as coisas traem aqueles que me traem". Você não pode possuí-"lo" enquanto não for possuído por "Ele". Não que nos sejam dadas "todas as coisas" se nos rendermos a "Ele", mas você ou as conseguirá, ou poderá passar alegremente sem elas, pois você O tem. Quando você é controlado por Ele, você não é mais controlado pelas "coisas": dinheiro, fama, prazeres, posição e poder. Você está acima delas; elas não estão sobre você. George MacDonald disse que "o homem está escravizado a tudo aquilo que ele não pode abandonar, a menos que abandone a si mesmo". Submetidos a Cristo, estamos livres; escravizados a Ele, palmilharemos a terra emancipados; prostrados a Seus pés, nos levantamos eretos perante tudo. Quando somos mais dEle, somos mais nossos. Ficamos livres da escravidão das coisas; podemos tê-las ou não tê-las, pois O temos. Nós nos sentimos leves porque colocamos todo o nosso peso sobre Ele.

"Nunca mais haverá qualquer maldição. Nela estará o trono de Deus e do Cordeiro" (Ap 22.3). Onde está o trono de Deus e do Cordeiro não há maldição; onde Deus governa, a bênção governa. Onde o trono de Deus não está, onde Deus não governa, tudo é amaldiçoado, amaldiçoa-se a si mesmo! Bernard de Clairvaux diz que aquele que não é governado suavemente pela vontade divina é governado penosamente por si mesmo; e aquele que lança de si o jugo suave e o fardo leve do amor, tem de sofrer o peso intolerável da vontade própria".

Estas afirmações vêm do lado especificamente religioso das coisas, mas escute o que diz a psicologia: "O objetivo da vida individual é a maturidade; essa maturidade significa o desalojamento da egocentricidade de maneira que o centro atual do ser possa ser estabelecido e tornar-se a motivação total". A " egocentricidade" precisa ser desalojada de maneira que "o centro atual do ser" - Deus - "possa ser estabelecido e tornar-se a motivação total".

Como desalojaremos a egocentricidade? Eis como Cristina Rossetti procura fazê-lo:

"Deus endurece-me contra mim mesma,
A covarde com patética voz.
Quem anseia por tranqüilidade, descanso e alegrias,
Eu, o grande traidor de mim mesma,
Meu amigo mais santo, meu inimigo mais mortal,
Meu torrão seja qual for o caminho que eu siga.
Mas existe UM que pode controlar-me,
Que pode rolar o peso estrangulador sobre mim,
Quebrar o jugo e libertar-me".

Isso é bela poesia e contém muita verdade, mas é vazia da libertação da dominância do eu através da rendição. "Endurece-me contra mim mesma" - isso estabelece o ódio a si mesmo, uma guerra civil contra si mesmo, torna a vida uma luta, uma batalha contra si mesmo. Torna a vida tensa e daí enfraquece. "Mas há UM que pode controlar-me". O eu tem de ser controlado; mas o caminho cristão não é o eu ser controlado, mas ser consagrado. A rendição do eu significa consagração do eu e, então, você não está em guerra civil contra si mesmo, mas em cooperação com o seu eu consagrado. Estamos seguindo o mesmo caminho, com o mesmo motivo e o mesmo objetivo.

Eis o que alguns japoneses disseram na "Manhã do coração transbordante". Sendai: "Vim aqui me destruir. Mas não posso destruir-me. Posso apenas submeter-me, não me destruir. Se eu morrer com Ele, viverei com Ele". Um outro: "Tenho pedido o Espírito Santo sem submeter-me. Agora me rendi e recebi o Espírito Santo. Tenho sido perturbado a respeito do subconsciente; ele volta à noite em sonhos. Vi que isso era devido a um subconsciente insubmisso. Agora permiti que Ele o possua. Tenho pregado a mim mesmo, agora vou pregá-LO". Um outro: "Que recebi no Ashram? Nada. Tudo foi tirado; só Jesus permanece. Tenho pensado a respeito de Cristo e mais alguma coisa. Agora esse "mais alguma coisa" foi-se, e nada me ficou senão Jesus. Agora tenho tudo".

No Ashram de Hiroshima: "Fui habilitado a ver-me insubmisso. Fui dominado de maneira clara. Todos os véus foram tirados. Aqui existe a verdadeira camaradagem. Esta é a unidade mais elevada. O segredo disto é esta vigília de oração. Gostaria de ver um Ashram de todas as raças do mundo". Um outro: "A submissão total foi a primeira coisa que se me mostrou. Senti um calor estranho em todo o meu corpo. "Falta-te uma coisa" - a rendição me veio".

Ashram de Fukuoka: "Eu não esperava muito do Ashram. Mas tive logo de enfrentar a rendição. Sempre houve um véu entre mim e Deus. Depois de uma conversa de vinte minutos com o irmão Stanley fui libertado do passado. Vi Jesus na cruz. Clamei durante a noite toda. Consegui aqui tirar os meus olhos do passado e colocá-los em Jesus".

No Ashram de Osaka: "Eu não entendia bem o que se queria dizer por rendição. Agora eu a compreendo. O ensino referente ao ágape que era para mim um grande véu me foi tirado. Eu era um túmulo vazio, lindamente decorado".

Um outro: "Eu ia às conferências da juventude, mas ficava oprimido por elas. Começamos sentindo nessas conferências que tudo está bem conosco, que todos os problemas estão nos outros. Aqui iniciamos com nós mesmos, com a nossa própria rendição Quer no oriente, quer no ocidente, o senso de libertação das suas próprias mãos e de colocar-se nas mãos de Deus é o mesmo. Uma mulher diz que "O livrar-se das suas próprias mãos é tão confortante para você". É realmente. Quando você está nas mãos de Deus você está no lugar a que pertence. Isso é o lar. Esta rendição do eu dá-se uma vez por todas mas continua. Exatamente como num bom casamento você está casado uma vez por todas, quando os votos são feitos e a posse proclamada, assim você pertence a Cristo uma vez por todas. Está feito. Suponhamos que a sua esposa ou esposo se aproximasse e lhe dissesse: "Vamos casar-nos hoje novamente". Você ficaria surpreso e chocado. Um casamento real é feito uma vez por todas. No entanto, há rendição diária de um ao outro e ao casamento. Quando vocês se dão um ao outro, isso significa um desdobrar de tudo diariamente. É feito uma vez por todas, mas continua; é uma rendição diária à rendição feita uma vez por todas; é uma revelação de tudo que não foi revelado no inicio.

Alguém que é "uma rendição de tudo que conheço de mim mesmo, hoje, a tudo aquilo que conheço de Cristo hoje".

Há três estágios na rendição inicial: "Modo, movimento e momento". Você é levado por diversas influências ao modo da submissão. Você tem percorrido becos sem saída da frustração, do conflito, da futilidade através de um eu insubmisso. Agora você é levado à situação da rendição. Então vem o movimento da rendição. Você pede a graça para render-se, para torná-la uma verdadeira submissão e não apenas o remendo de um compromisso, uma submissão cem por cento. O movimento é dos dois lados; se dermos um passo, Ele dará dois. Nós avançamos para braços abertos que avançam na nossa direção. O terceiro passo é o momento da rendição. Há o momento quando nos entregamos aos braços da misericórdia eterna. Nós nos tornamos Seus para o melhor ou para o pior, para a vida ou para a morte, para afogarmo-nos ou para nadarmos. Fechamos o negócio. Está feito. Sentindo ou não, está feito. O sentimento virá como resultado dessa decisão.

No centro desse sentimento estará uma convicção crescente de que Jesus é Senhor. Ele será o Senhor de você, dos seus bens, das suas relações, do seu futuro, de tudo que lhe pertence. Existe entre os sírios cristãos, no sul da índia, o costume de dizerem "Jesus é Senhor", como as primeiras palavras ditas a uma criança que nasce. Ao coração do filho de Deus recém-nascido, as primeiras palavras ditas pelo Espírito Santo, são: "Jesus é Senhor".

A propósito, esta frase "Jesus é Senhor" foi provavelmente o primeiro credo cristão: "Se com a tua boca confessares a Jesus como Senhor... serás salvo" (Rm 10.9). Ninguém pode dizer "Jesus é Senhor" senão pelo Espírito Santo" (1 Co 12.3). Em algumas versões da Bíblia, a expressão "Jesus é Senhor" está entre aspas mostrando que ela era usada pelos cristãos primitivos como confissão, como sendo o seu credo. Temos adotado essa frase como um cumprimento de saudação e de despedida em muitas partes do mundo. Levantamos os três dedos - "Jesus é Senhor" - na saudação e na despedida. Isso começou no Japão e se espalhou pela Coréia, pela índia, pela África, pelos Estados Unidos e outras partes do mundo. Um artista africano pintou os três dedos, e está enviando cópias a todas as escolas e igrejas daquela parte da África, com as palavras: "Jesu ni Bhwana" - Jesus é Senhor - em cima, e, em baixo, a expressão: "Nossa saudação". Crianças, operários, professores, presidentes de países, e juízes de supremos tribunais, em muitas partes do mundo, amam essa saudação e estão usando-a. Ela expressa um fato profundo no centro da nossa fé: "Jesus é Senhor". Tenho ouvido as crianças de aldeias na Índia, evidentemente ensinadas por sua igreja, usarem o cumprimento: "Salve Maria", para com os visitantes e os outros. Vemos aqui a profunda diferença de ênfase entre os dois sistemas de fé: um centralizando-se em Maria, pessoa humana, e o outro centralizando-se no Divino Filho de Deus. Um sacerdote me disse que teve de passar a noite inteira ministrando o sacramento àqueles que voltavam ao rebanho, depois de terem visto a procissão da Senhora de Fátima - eis a conversão a uma senhora: Maria. Esta é uma conversão superficial e que está fora do centro. Não, Jesus é Senhor!

Se você puser o seu peso sobre qualquer coisa deste lado do divino, você ficará desapontado. Somente os ombros divinos são suficientemente fortes para suportarem o peso da culpa e da tristeza do mundo. No momento em que você se rende a Jesus, você fica sabendo disso! Isso é uma verificação tão de si mesmo como a luz está para os olhos e a verdade para a consciência. Alguém perguntou a um ex-alcoólatra o que significava a palavra "Aleluia", e ele respondeu: "Não sei, mas penso que significa "Formidável, é isso mesmo". Embora essa linguagem não fosse clássica, a sua visão interior estava certa. É isso!

Esse princípio de submissão não é meramente o que se verifica na fase inicial da conversão. É contínuo e será empregado à vida toda, após a conversão. Ao invés de guardarmos em nosso íntimo os problemas corruptos, entregamo-los nas mãos de Deus, à medida que surgirem. Assim, das nossas próprias mãos são depositadas nas mãos de Deus. "O governo estará sobre seus ombros". Ele nos possui, e conosco possui também nossos problemas; escutamos obedientes suas soluções e as respeitamos. Então não nos sobrecarregamos de problemas por resolver, mas nEle resultarão satisfatórios, solúveis. Isto é psicologicamente saudável; pois se detiver um problema em seu íntimo, este poderá transformar-se em complexo, e um complexo poderá tornar-se uma neurose que, por sua vez, poderá vir a ser uma psicose. Pela contínua entrega de problemas que surgem, este processo se transforma em catarse - purificação diária de possíveis com plexos. Este processo de auto-entrega, uma vez por todas, à medida que surgem os problemas, é o processo mais saudável e puro que conheço. É porta aberta a qualquer situação.

Uma hora deve ser o bastante. Dentro de uma hora devemos ser capazes de entregar a Deus todos os nossos problemas e nossas tristezas. Deverão esclarecer-se pela submissão, dentro de uma hora. Então nossa mesa será a de um secretário executivo ordeiro - limpa, com um assunto por vez, e não aos montões, empilhados, perturbando, aguardando atenção e solução - a alma sobrecarregada, assentada sobre "alfinetes e agulhas", sem saber para que lado voltar-se.

O Dr. Wayne E. Oates apresenta três modos de lidar com a ansiedade - pela apatia e indiferença - como se os problemas não existissem; pela hostilidade e defesa lutando contra si mesmo e contra os outros; ou pela graça, através da fé. Esta graça não pode atingir seu problema sem a entrega de si mesmo a Deus e de seus problemas nas mãos dEle. Então urge ouvir e obedecer. A entrega do problema somente não basta. Temos que nos render cabalmente, a fim de que Ele nos possua e a nossos problemas. Se tentamos entregar-Lhe o problema, e não nos rendermos, amarramos suas mãos. Ele salva o que tem e apenas o que tem. Se tentamos entrar num acordo, dando de vez em quanto, e não tudo, sem reservas, isto não produz resultado. Muitos de nós desejamos que Jesus seja o Rei, contanto que sejamos o Primeiro Ministro, com o governo realmente em nossas próprias mãos.

Visitei uma missão no Congo, e lá soube de uma jibóia que penetrou na jaula de coelho, engolindo ali uma enorme lebre da Bélgica, para então verificar que não podia passar através da abertura por onde penetrara; teve, porém, o bom senso de vomitar a lebre, e escapar. Na Malaia, uma outra penetrou numa pocilga e engoliu um dos animais. Não pôde passar pelo buraco por onde entrara, e foi apanhada. Estas ilustrações são grosseiras, mas exemplificam bem o que ocorre espiritualmente. Se quisermos a liberdade, devemos, de uma vez por todas, entregar-nos integralmente - com nossos pecados e problemas diários - à medida que surgirem.

Então, possuídos por Ele, e portanto livres, dizemos:

Para onde quiseres enviar-me,
Senhor, irei contente,
Desde que em Tua companhia
Nenhuma carga será pesada,
Enquanto Tua mão me sustentar.
Desata qualquer nó que me ligue ao mundo,
Exceto o que enlaça, num só,
O Teu coração ao meu.

E podemos acrescentar com Charles Fox:

Quero ser bastante tolo para depender
Da Sabedoria do Alto;
Fraco bastante para, na Sua força, fortalecer-me.
Indigno de honras, a não ser da divina,
Tão desprezível para conservar-me no pó, mas a Seus pés.
Nada Ser - e ser Tudo, em Deus.


CITAÇÕES:
1) "Estão no caminho", por Samuel M. Shoemaker.
2) Soper, op. Cit.
3) Idem.


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OBS: Este texto corresponde ao capítulo 3 do livro "Conversão", de Stanley Jones.

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