IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
Fundada em 15 de Junho de 1902

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João Wesley
Rio, 30/12/2008
 

O Lugar de Wesley na História ** (Rev. W. H. Fitchett)

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Se João Wesley, o exigente, narigudo e queixudo homenzinho, que, aos 9 de março de 1791, foi levado à sepultura por seis pobres, deixando nada senão uma boa biblioteca, uma bem gasta sobrepeliz (veste branca, com rendas ou sem elas, usada pelos clérigos sobre a batina), uma reputação muito vilipendiada, e a Igreja Metodista voltasse ao mundo agora, enquanto muitos estão a derramar-lhe à cabeça tanta tinta de admiração, talvez seria mais surpreendido do que qualquer outro homem sobre o planeta. Pois se Wesley alcançou a fama foi sem cortejá-la. Seeley diz que a Inglaterra conquistou e povoou a metade do mundo num acesso de sonambulismo. E se Wesley edificou uma das maiores entre as Igrejas hodiernas, e deu um novo ponto de partida para a história religiosa nos tempos modernos, fê-lo sem premeditação.

Durante mais de uma geração depois de sua morte os historiadores ou ignoravam ou não se importavam com João Wesley. Era tido por um fanático, visível à humanidade por um momento, sobre uma onda de fanatismo, para desaparecer na escuridão sem deixar quem o chorasse nem o lembrasse.

A literatura recusou tomá-lo a sério, negando-lhe direito a lugar qualquer entre os afamados de todo o tempo. Mas afinal Wesley chegou ao reino de sua fama. Os maiores elogios, que são lhe tributados hoje, não vêm do íntimo da Igreja que ele fundou, mas dos de fora. Leslie Stephen o descreve como o principal capitão-mor entre os homens de seu século. Macaulay ridiculariza os escritores de livros intitulados “História da Inglaterra” que não descobrem, entre os eventos determinantes dessa história, o nascimento do Metodismo. Ele afirma que Wesley “possuía uma capacidade regente em nada inferior àquela de Richelieu". Matheos Arnold tributa-lhe louvor, ainda mais nobre, quando o chama de “um gênio de piedade”. Southey, que escreveu a vida de Wesley, sem entender, mesmo superficialmente, o seu segredo, assevera que, “foi a inteligência mais influente do século passado; o homem que terá conseguido os maiores resultados, séculos e talvez milênios no futuro, caso a presente raça de homens subsistir por tanto tempo”. Buckle o intitula, “o primeiro entre os estadistas eclesiásticos”. Leckey diz, que a humilde reunião, na rua Aldersgate, onde João Wesley se converteu, “constitui uma época na história inglesa” acrescentando, que a revolução religiosa começada na Inglaterra pela pregação dos Wesley, “é de maior importância histórica do que todas as conquistas gloriosas, por terra e mar ganhas, sob o governo de Pitt". Ele afirma que Wesley foi uma das principais forças que salvaram a Inglaterra de uma revolução, tal como a que visitou a França. O Sr. Agostinho Birrell diz que, “nenhum outro fez uma obra tão vital para a Inglaterra; nem se pode tirá-lo da vida nacional”.

Em suma, a Inglaterra se acha tão intimamente relacionada com Wesley quanto com Shakespeare. E como as forças que nascem da religião são mais poderosas do que qualquer coisa conhecida na literatura, é conclusão lógica que, na determinação da história da raça que fala a língua inglesa, Wesley é de maior importância do que Shakespeare.

Que houve, pois, no próprio Wesley, ou no seu trabalho, para justificar tão grandiosos elogios por parte de autoridades tão diversas? Em certo sentido, o menor monumento a Wesley, é a Igreja que, ele edificou; entretanto, a escala e majestade dessa Igreja não são facilmente explicadas, nem tão pouco a rica e crescente energia pujante em sua vida. Quando Wesley morreu em 1791, as suas “Sociedades” na Grã-bretanha contavam 76.000 membros e 300 pregadores. Hoje, o Metodismo na Grã-bretanha, no Canadá, nos Estados Unidos e na Austrália, tem 49.000 ministros em seus púlpitos, e cerca de 30.000.000 de pessoas em seus auditórios. Tem construído 88.000 igrejas; e todos os domingos ensina a mais de 8.000.000 de crianças em suas Escolas Dominicais.

Os ramos do Metodismo são, em certo sentido, mais pujantes do que o tronco original. No Canadá, em uma população inferior a 6.000.000, quase 1.000000 são Metodistas. Na Austrália uma pessoa em cada nove pertence à Igreja de Wesley. Em alguns pontos, pelo menos, é a mais pujante forma do Protestantismo no mundo. A Igreja Metodista nos Estados Unidos levantou 4.000.000 de libras esterlinas em comemoração do seu centenário - nunca houve na história do Cristianismo outra soma tão grande levantada em um só esforço por qualquer Igreja.

O tempo é um crítico áspero; dissolvendo, qual um forte ácido, todos os embustes. Mas a Igreja que Wesley fundou faz mais do que sobreviver a esta prova. Um século depois da morte de Wesley ela está bem perto de cem vezes de que era quando ele a deixou.

Entretanto, repetimos que o verdadeiro monumento de Wesley não é a• Igreja que tem o seu nome. É a Inglaterra do século XX! Mais ainda, é o temperamento do mundo inteiro de hoje; os novos ideais na política, o novo espírito na religião, o novo padrão na filantropia. Quem quer entender o trabalho de Wesley deve comparar o espírito moral do século XVIII com o do século XX; pois, um dos mais poderosos fatores pessoais na produção desta maravilhosa mudança se acha no próprio Wesley.

De algum modo, o século XVIII é o mais vilipendiado período na história inglesa. É a “Cinderela” dos séculos. Ninguém tem por ele uma palavra de louvor. Thomas Carlyle descreve-o em uma frase pungente: “Alma extinta; barriga bem viva”. Entretanto não se pode condensar um século no estreito limite de um epigrama, e ainda menos num que foi escrito com fel. O século XVIII sofre porque colocamo-lo numa falsa perspectiva. Comparamo-lo com os séculos seguintes, e não com os seus precedentes. Os seus traços são deveras sombrios quando encarados entre a revolução inglesa do século XVII que destruiu os Stuarts, e a revolução francesa do século XIV que expulsou os Bourbons. Mas não sejamos injustos, nem sequer, com um século! O século XVIII é para a Inglaterra, um fio de nomes ilustres e de feitos estupendos. Achou a Inglaterra, a Escócia e a Irlanda, reinos separados e deixou-os unidos. Se bem que nos tirou os Estados Unidos. Mas em compensação, deu-nos o Canadá, as Índias e a Austrália. Se ele deu a Inglaterra doze anos do malfadado governo de Lord North, também, contribuiu com os vinte anos do esplendoroso governo de Guilherme Pitt. Se esse século testemunhou o fuzilamento de um almirante inglês, no tombadilho de seu navio, pelo crime de covardia, e uma frota inglesa revoltada em Nore, também, presenciou as vitórias marítimas de Rodney, na batalha dos Santos; de Lord Howe, ao 1° de Junho; e de Nelson, no Nilo. Foi ganha a batalha de Blenheim no ano seguinte (1704) ao do nascimento de João Wesley (17/6/1703), e a do Nilo no ano que eIe morreu (2/3/1791). O século que correu entre tais acontecimentos não podia ser inglório. Foi indubitavelmente um século de crescimento social e político. A Inglaterra de George lII e de Pitt foi muito superior à da Rainha Anna e de Walpole.

O verdadeiro escândalo de Inglaterra no século XVIII, a lepra que lhe envenenou o sangue, a mancha negra sobre o escudo luminoso de sua história, estava na decadência geral da religião que reinava nos seus primeiros cinqüenta anos. A fé da Inglaterra estava moribunda. Os seus horizontes espirituais escureciam com as trevas de uma meia-noite polar, e estavam frios como as geleiras árticas.

Só por um esforço da imaginação histórica se pode recordar a condição de Inglaterra em 1703. Quando Wesley nasceu ainda existiam homens que viram, na presidência do tribunal, o juiz Jeffreys; e como testemunha, o Tito Oates; e sete bispos no cepo. Montesquieu, que estudou na Inglaterra desse século XVIII, através de seus olhos penetrantes (críticos) de francês, diz laconicamente: "Religião, tal cousa não existe na Inglaterra". Sabemos que isto não foi a pura verdade, pois a existência do presbitério de Epworth o desmente; e sem dúvida houve muitos outros lares ingleses semelhantes àquele em que Suzana Wesley era mãe. Mas as palavras do astuto francês continham uma terrível aparência da verdade. Nunca antes, nem depois, esteve o Cristianismo tão vizinho à morte.

Quem não se lembra das sentenças que o Bispo Butler, um espírito tão melancólico, sutil e poderoso, prefixou à sua "Analogia”. Ele escreveu: "De certo modo já se toma por estabelecido que o Cristianismo não somente é assunto indigno de investigação, mas que agora, afinal tem-se provado fictício... Os homens o tratam no século presente como se isto fosse admitido, e como se nada restasse se fazer senão expô-lo como alvo principal de riso e mofa". Entre Montesquieu e Butler, o grande francês e o ainda maior inglês, que grande procissão de testemunhas poderiam ser citadas em prova da decadência da fé no começo do século XVIII! E morta a fé, que resta mais?

Aqueles que desejam ver a moralidade desse período, a acharão refletida na arte de Hogarth, na política de Walpole, nos escritos da Sra. Aphra Benn e de Smolett, e nos divertimentos do Clube dos Loucos. EIa acha-se registrada na podridão da literatura da época, na crueldade das leis, e no desespero de sua religião. O Cristianismo não chegou a perecer, mas chegou bem perto a sua agonia mortal nesse século. O historiador Green assevera que havia uma revolta aberta contra a religião e as Igrejas nos dois extremos da sociedade inglesa. “A classe pobre foi ignorante e brutal, num grau que agora seria difícil imaginar-se. A classe abastada, que chegou a uma descrença quase total na religião, acrescentava um viver tão imoral que, felizmente, é hoje quase inconcebível.”

Então veio um grande avivamento! O movimento mais maravilhoso na história do século XVIII, cujo maior benefício para o povo que fala a língua inglesa não foi nada no domínio da política, nem da literatura, nem da ciência; não foi o desenvolvi mento da classe média, que deslocou o centro do poder político; nem foi o grande despertamento industrial, que multiplicou dez vezes a riqueza da nação; mas está no renascimento de sua religião! E disto Wesley foi, há um tempo, o símbolo e a causa.

Este avivamento traduziu para a vida inglesa, e em termos muito mais felizes, a reforma que Lutero efetuou na Alemanha. A reforma de Wycliffe não teve raiz; a reforma no tempo de Henrique VIII foi pior: foi política e destituída da moral. O verdadeiro despertamento da vida religiosa do povo que fala a língua inglesa aconteceu com Wesley. Afirmar-se que foi Wesley que reformou a consciência de Inglaterra é verdade, mas não é tudo, pois eIe a recriou! Estava morta - duplamente morta; e por seus lábios Deus soprou nela outra vez o fôlego vital.

Sente-se hoje o pulso de João Wesley em cada fase da religiosidade inglesa. O fogo dele arde nas múltiplas formas da nossa filantropia. Citamos o historiador Green mais uma vez: "Os Metodistas constituíram o menor resultado do avivamento metodista. A sua influência sobre a Igreja acabou com a letargia do clero. Mas o seu resultado mais benéfico está no esforço constante, que desde então até hoje, nunca cessou, para diminuir o crime, a ignorância, o sofrimento físico, a degradação social das classes profligas (abatidas, destruídas) e pobres... O grande avivamento reformou as nossas cadeias, aboliu o tráfico de escravos, tornou mais clemente o nosso código penal, e deu o primeiro impulso à instrução (educação) popular”.

Mas qual foi o segredo de João Wesley? Qual o estranho encanto que empregou para efetuar tamanho milagre? Criar-se uma nova Igreja é um grande feito, mas reformar uma Igreja já velha e amortecida é, talvez, tarefa ainda mais difícil.

Como foi que Wesley conseguiu as duas cousas? A resposta acha-se na história narrada nestas páginas. Mas compreendamos desde já que seria fútil buscarmos a explicação num mero dote de um gênio pessoal. Os elogios que se tecem a Wesley são, muitas vezes, desmedidos. Não foi ele, como quer o Buckle, “o primeiro entre estadistas eclesiásticos” - um Leão X de batina. Não possuía, como julgou Southey, "a mais robusta inteligência do seu século”. Tem algo de verdade a crítica de Coleridge quando diz, que Wesley tinha uma inteligência lógica, mas não filosófica. Nada teve do gênio sonhador de Bunyan; não se comparava, na extensão e na largura de seus pensamentos, com o autor da "Analogia". Se descermos a nomes e tempos mais recentes, não teve a profunda e sutil inteligência de Newman. O segredo de sua obra não se acha no bem designado e magnífico mecanismo eclesiástico com que dotou a sua Igreja. As instituições características do Metodismo não originaram o grande avivamento; são apenas os resultados. Wesley não inventou qualquer doutrina nova; nem tão pouco aumentou a soma de conhecimentos cristãos por qualquer verdade nova. Ele mesmo disse: “Eu somente ensino a simples e velha religião da Igreja Anglicana”. Ou como disse em outro lugar, “Verdades que constituíam simplesmente os ensinos gerais e fundamentais do cristianismo”. E isto foi a pura verdade. Wesley não redescobriu o cristianismo; não o perturbou com uma nova heresia, nem dotou-o de uma nova doutrina; nem tão pouco colocou as doutrinas velhas em nova perspectiva.

O fracasso da religião do século XVIII estava nisto: tinha deixado de ser uma vida, nem tocava na vida. Fora exausta (esvaziada) de seus elementos dinâmicos - a visão de Cristo Redentor, a mensagem de um perdão presente e pessoal. Estava congelada numa teologia; achava-se cristalizada num sistema filosófico; tinha se tornado em simples adjunta política. Ninguém a prezava, nem a estimava, nem procurava desfrutá-la como sendo um livramento espiritual; livramento este, ao alcance dos próprios dedos; livramento realizável na consciência individual. A religião, traduzida nos termos da experiência vital do homem, subsistindo como uma energia divina na alma, era coisa esquecida. Uma lâmpada elétrica separada da corrente elétrica é somente uma série de voltas de delicados fios sombrios e mortos. E o próprio Cristianismo, na Inglaterra, ao começo do século XVIII, foi essa série de voltas de fios amortecidos. Mas Wesley fez derramar a corrente mística da vitalidade divina sobre a calcinada alma da nação, convertendo a escuridão em chamas.

O segredo de Wesley, portanto, não se achava no seu gênio de estadista, nem na sua habilidade em organizar, nem na sua capacidade intelectual. O seu “segredo” desde o princípio até o fim, pertence ao domínio espiritual. A energia que vibrava no seu olhar, que emanava de sua presença, que fazia de sua vida uma chama, e de sua voz um encanto, fica, em última análise, na categoria de forças espirituais. Mas tudo isto demonstra quão elevado era o plano em que Wesley trabalhava, e quão grandes eram as forças que representava.

George Dawson, em seus “Discursos Biográficos”, diz: “Nunca penso em Wesley sem associá-lo com os quatro homens que tiveram o mesmo nome de batismo, e dos quais a Inglaterra se orgulha, a saber: João Wycliffe, o reformador antes da Reforma Protestante de 1516; João Milton, a maior alma que a Inglaterra jamais conheceu; João Bunyan, o autor de “O Peregrino”, o melhor livro (excetuada a Bíblia) que o mundo jamais apreciou; e João Locke, que dedicou uma esclarecida inteligência, uma educação esmerada e uma consciência pura em colocar, sobre as bases da filosofia, aquilo que antes se considerara um simples sentimento. Então veio João Wesley, e creio que, considerado em tudo, é digno de andar na companhia desses quatro”. Mas Dawson não atinou que, não obstante Wesley não possuir o gênio de Milton, nem a imaginação luminosa de Bunyan, nem a inteligência sutil de Locke, contudo, exerceu uma influência muito mais profunda sobre a história inglesa do que os outros três juntos.

Há homens que vivem na história por terem incorporado em si mesmos as idéias regentes do seu tempo, fazendo-as vitoriosas. Há outros, de poderes mais elevados, que não são refletores apenas, mas criadores dos impulsos que regem o mundo em que habitam. Eles amoldam o século sem serem por este amoldados. Napoleão Bonaparte pertencia ao primeiro tipo: não criou a revolução, mas tornou-se o herdeiro e a expressão dela. Cezar, Imperador Romano, foi da outra ordem superior: não somente achou um novo canal para as correntes da história romana, mas mudou a direção dessas correntes; pela força de seu gênio ele dotou a história e a ordem política de Roma com uma nova fisionomia.

João Wesley também, julgado pela escala e permanência de sua obra, pertence ao tipo superior. Não foi simplesmente o intérprete do seu século, o figurão acidental de uma revolução espiritual que teria se posto em movimento independente dele, o centro humano, em cujo redor ter-se-iam cristalizados os impulsos que lentamente fermentavam em milhares de outros. Não foi a reflexão do seu século, mas o ajustou a um novo molde; fê-lo vibrante com a energia de uma nova vida. Estava, na realidade, em oposição ao temperamento essencial do seu século; entretanto, fê-lo conformar (tomar a forma, experimentar) a seu próprio (um temperamento e uma espiritualidade marcados pela vitalidade e santidade da Graça de Deus) . Ele foi o expoente de influências que mudaram a história religiosa de Inglaterra.

Em suma, Wesley foi grande; grande no simples escopo e escala de inteligência; maior do que a sua geração imaginava, ou do que a sua própria Igreja ainda reconhece. Ninguém é capaz de estudar a vida e a obra de Wesley sem receber uma mais profunda compreensão da escala do homem em comparação com as outras figuras notáveis da história. Mas a obra que efetuou foi muito maior do que o próprio Wesley; e maior, porque teve o seu segredo no domínio (poder, força) espiritual (na graça e poder de Deus).

É justamente isso que torna a sua história em uma inspiração para todos os tempos. Os supremos dotes de inteligência não são transferíveis. O gênio criador de Shakespeare, a imaginação penetrante de Dante, a habilidade de Darwin em combinar mil fatos aparentemente desligados numa generalizarão triunfante, a capacidade de Wellington em adivinhar “que havia do outro lado do morro" - eram dotes originais da natureza. Eram dons, não aquisições. Mas as grandes forças e graças do domínio espiritual não dependem da liberalidade nem da negação da natureza. O seu segredo não está escondido nas convulsões da massa encefálica; antes depende de condições e está, portanto, ao alcance de quem quiser.

Repetimos: o segredo de Wesley está justamente aqui. Grande como foi a sua obra, contudo, a sua explicação é fácil e simples. E o reconhecimento deste fato, logo no começo, é o que torna a história da vida de Wesley digna de ser escrita e lida.

Sim! Através o que se costuma chamar a magreza do século XVIII estende-se uma áurea corrente de nomes poderosos. O Marlborough - que venceu a Blenheim no ano que Wesley nasceu - encabeça a lista; o homem que sob a máscara de um semblante sereno escondia os mais terríveis dotes militares conhecidos a história inglesa. O Nelson e o Wellington acham-se perto do fim desse século. Entre as figuras ainda visíveis à historia são os dois Pitts - pai altivo e filho ainda mais; o Wolf, com o nariz apontando para as nuvens, nos deram a América; o Clive, cuja testa franzida ganhou-nos a Índia; e o Canning, que chamou à existência o novo mundo para restaurar o equilíbrio do velho. O papel do século em literatura foi esplêndido; corre desde Swift e Addison, Johnson e Goldsmith, Pope e Gibbon, até Byron e Burns, até Coleridgo e Wordsworth. Isaac Newton é o seu representante na ciência; Burke e Pitt no estado; Wilberforce na filantropia. Entretanto, naquela multidão de grandes, o expoente da força que influiu mais profundamente na história inglesa foi o narigudo e ruivo semblante de João Wesley, de olhar penetrante, queixo dominante e cachos cumpridos.

Alguns querem que Newman, nascido dez anos depois da morte de Wesley (, tenha exercido uma tão profunda influência sobre a vida religiosa do seu país como ele (Wesley). É perdoável para um protestante convicto, a opinião de que a influência de Newman foi má, e não boa. Mas, à parte disso, deve-se lembrar que, dos seus noventa anos, Newman lançou os primeiros quarenta e cinco na balança a favor da Igreja Anglicana e os últimos quarenta e cinco a favor da Igreja Romana. Nem a Anglicana nem a Romana podem chamá-lo seu, na totalidade; pois passou a primeira metade de sua vida em protestar contra a Romana, e a segunda metade em protestar contra a Anglicana. George Washington é o único nome nos anais do século dezoito que rivaliza com o de Wesley em sua influência sobre a nossa raça, e Wesley representa a energia mais perdurável.

Tudo isto se pode dar (tributar) a Wesley, não porque o seu gênio sobrepujasse os homens do seu século, mas, porque lidava com forças mais elevadas do que eles. Aquele que desperta as grandes energias de religião, toca na força motriz da vida humana; uma força mais profunda do que a política, mais elevada do que a literatura, e mais larga do que a ciência. Wesley trabalhou num domínio abanado pelas brisas da eternidade.

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** (Esse texto corresponde à Introdução do livro "Wesley e seu século – um estudo de forças espirituais, Volume I, páginas 1 a 12, Edição de 1916 publicada pela Typographia de Carlos Echenique, Porto Alegre, RJ).

OBS: Esse livro originalmente não usa parênteses. As notas explicativas dentro de parênteses são de iniciativa dessa edição on line do site da Igreja Metodista de Vila Isabel.

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