IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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João Wesley
Rio, 7/1/2009
 

Forças Ancestrais - a família de João Wesley ** (Rev. W. H. Fitchett)

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João Wesley veio de notáveis antecedentes: os seus antepassados por três gerações eram nobres de nascimento, doutos à força de estudos, clérigos por escolha, e mártires, em certo sentido, à dureza da sorte. Pertenciam a um século duro: época de despejos e proscrições em que a intolerância cristalizava-se em leis do parlamento e ostentava-se por religião. Daniel Defoe, por três vezes, foi exposto publicamente no tronco, no mesmo ano em que João Wesley nasceu, pelo simples fato de ter escrito a incomparável peça de ironia, intitulada: “Um meio Breve e Fácil de acabar com os Dissidentes”.

Uma grande tempestade de crueldade legalizada desabou sobre os Wesleys daquela época. Bartolomeu Wesley, bisavô de João, teve de despejar (desocupar) a boa casa paroquial de Dorsetshire em antecipação da expulsão geral provocada pela “Lei de Uniformidade” em 1662 (que colocou os cargos da Igreja Oficial e do Estado nas mãos dos anglicanos e proibiu as reuniões dos puritanos. Por causa do Ato de Uniformidade, em 1662, que exigia total aceitação do Livro de Orações anglicano, nada menos que dois mil ministros presbiterianos, independentes e batistas foram obrigados a deixar suas igrejas e os puritanos se tornaram uma parte da tradição não-conformista da Inglaterra). O filho de Bartolomeu de nome João , ainda mais letrado do que o pai, mas de fibra menos rígida, foi encarcerado em 1661, um pouco antes da expulsão do pai, por não usar o “Livro de Oração Comum”. Foi arremessado (expulso) da paróquia de Blandford em 1662, e depois vivia oprimido e perturbado sob as leis cruéis desse período. Era natural de Weymouth, mas não lhe foi permitido residir ali; e uma boa mulher, por dar-lhe pousada, foi multada em vinte libras pela “ofensa”. “Muitas vezes perturbado, diversas vezes, preso, quatro vezes encarcerado”, é o tom melancólico de seu paciente diário. Sob a infame "Lei das Cinco Milhas” ele foi tocado de lugar em lugar, até a sua morte, quando ainda comparativamente jovem, vitimado pelo espírito cruel dessa época.

Samuel Wesley, neto de Bartolomeu e pai de João Wesley, possuía todas as virtudes essenciais de seus antecedentes - a mesma paixão pelo estudo, a mesma coragem, a mesma independência de espírito, mas era de um temperamento mais rígido do que o seu pai João. Esse espírito independente tomou um curso um tanto surpreendente; pois o filho e neto de ministros vitimados do despejo, decidiu que a Igreja, que lhes despejou (a Anglicana, a igreja oficial do estado inglês), tinha razão, e uniu-se ao seu ministério, contrariando assim duas gerações de parentes ludibriados! Esteve nesse tempo numa escola dissidente, rapaz que apenas alcançara sua maioridade; mas o caráter da dissidência que o rodeava bem podia escandalizar a um jovem sério e generoso. Encontrou ali simplesmente uma espécie de amargurada política, absolutamente despida de idéias e forças religiosas. Assim, Samuel Wesley renunciou a ela, e seguiu a pé para Oxford, com exatos quarenta e cinco shillings no bolso, onde se matriculou no colégio de Exeter como “estudante pobre”.

Foi nesse tempo, mais ou menos, que uma menina de treze anos, Suzana,filha de um famoso ministro dissidente de Londres, estava pondo na balança de seus juízos a seu pai e a teologia dele, decidindo tanto contra o pai como contra as suas opiniões!

O moço destemido que caminhara para Oxford no rigor do inverno, com tão pouco dinheiro no bolso, mas com tão nobre propósito no coração, e a menina notável que estudara a teologia quando ainda se vestia de criança, não se conheciam ainda; mas foram destinados a se casarem. Existiam entre eles certas afinidades bem notáveis, e quando se encontrassem e casassem, seria razoável esperar que seus filhos possuíssem qualidades descomunais.

Todos os auxílios que Samuel Wesley recebia da família enquanto cursava a universidade importava em apenas cinco shillings; entretanto saiu no fim com o seu pergaminho e com dez libras e quinze shillings no bolso! Talvez nunca houvesse um estudante que desse menos ou que recebesse mais de Oxford do que Samuel Wesley. Nas universidades escocesas gerações de estudantes rígidos têm cultivado muita literatura com muito pouco mingau de aveia, mas bem se pode desafiar as universidades ao norte do Tweed que apresentem um exemplo de uma formatura nutrida de tão pouco dinheiro, ou de dieta tão minguada como no caso de Samuel Wesley.

Ele serviu de cura (vigário) em Londres por um ano, depois foi capelão de um navio na marinha real durante outro ano e depois ganhou a posição de capelão de um regimento, em virtude de um poema que escrevera sobre a batalha de Blenheim (uma famosa batalha da Guerra da Sucessão Espanhola, em 13 de agosto de 1704, que ocorreu próxima à vila de Blenheim na Bavária, atual Alemanha, onde as tropas anglo-austríacas, lideradas pelo líder militar britânico, John Churchill, primeiro duque de Marlborough e o general austríaco Eugene de Savoy, venceram os franceses e os bávaros), posição que mais tarde perdeu, segundo diz alguém, por ter publicado um discurso contra os Dissidentes. Foi-lhe dado a paróquia de Epworth, que foi depois, aumentada com a de Wrocte.

Samuel, o pai de João Wesley, mesmo depois de passado tanto tempo, desperta uma admiração meio humorística, meio exasperadora. Era homenzinho irascível, com olhar irriquieto, de sentimentos nobres, ativo de pensamento, de grande constância e coragem, mas algo de desajeitado e irresponsável na sua natureza. Quis - contra a natureza - fazer-se poeta; e sobre os seus versos, Alexander Pope (considerado o maio poeta inglês do século XVIII), embora seu amigo, acha tempo no “Dunciad” (escrito satírico cujo nome vem de "dunce", pateta, bobo, tolo) para destilar uma gota de fel. O seu filho João Wesley, que conhecia de vista a má poesia do pai, tendo a lealdade filial lutando com o seu juízo literário, diz de sua obra “Vida de Cristo” em verso: “Os clichês são bons; as anotações regulares; os versos assim, assim”. Elogio de uma temperatura mais gelada, dificilmente se pode imaginar. A obra prima de Samuel Wesley foi um comentário sobre o Livro de Jó, empreendimento este que teria proporcionado mais uma oportunidade, para o exercício de paciência àquele mui aflito personagem bíblico (Jó) caso fosse obrigado a lê-lo. “Pobre de Jó”, disse o bispo Warburton, “foi sempre a sua sorte ser perseguido por seus amigos”.

Suzana, a ativa mulher de Samuel Wesley, que amava o seu desajeitado e irascível marido com uma dedicação que maridos em geral bem podem invejar, admite que, entre os incultos paroquianos de Epworth, os talentos de seu esposo estavam enterrados; acrescentando com a habilidade de esposa leal, que ele está “obrigado a um modo de viver para o qual não se acha tão bem qualificado quanto eu desejaria.” Mas isto foi simplesmente a suave crítica da esposa. O marido desajeitado se ocupava em martelar versos laboriosos no seu gabinete, ou montava a cavalo, demandando as convocações onde debatia com os párocos vizinhos, deixando à inteligente esposa o cuidado da paróquia, o cultivo das terras e o governo de seu tão numeroso grupo de filhinhos.

Suzana Wesley, seria mulher notável em qualquer século ou país. Era filha do Dr. Anesley, um ministro que havia sofrido ejeção (que fora expulso da casa paroquial onde morava e da igreja onde era vigário por ser dissidente denro da igreja anglicana) homem douto e de boa família, cuja filha possuía natural inclinação para o estudo. Suzana sabia grego, latim e francês antes de ter vinte anos de idade, e achava-se saturada de teologia. Em suas reflexões, aceitou primeiro o socinianismo (doutrina baseada na teologia de Fausto Socino, falecido na Polônia, em 1604, que era antitrinitária, rejeitava o batismo e a ceia do Senhor como meios de graça e o pecado original e afirmava que Jesus de Nazaré era apenas um homem), para depois tornar a rejeitá-lo. Ela teve um gosto geral pelas questões difíceis, que nos dias suaves de hoje são pouco apreciadas.

Suzana lia os padres primitivos (os Pais da Igreja) e lutava com as sutilezas da metafísica enquanto uma menina de hoje estaria jogando tênis, ou estudando sonatas. Com treze anos, apenas, eIa revistou toda a matéria em discussão entre os dissidentes e a Igreja, opinando contra a posição mantida por seu pai e pai tão nobre. Uma menina de tão pouca idade, que estudava a teologia e se julgava capaz de decidir em tal assunto, e que de fato decidiu de um modo tal, e na face de tais autoridades, seria hoje tomada por um portento alarmante. Entretanto Suzana Annesley foi uma linda e espirituosa menina - cuja irmã foi pintada por Lely como uma das mais belas do seu tempo - inteligente, mas modesta, com jeito para negócios práticos. É certo que nem foi descuidada nem melancólica, sendo provavelmente a mais notável mulher de Inglaterra nos dias em que viveu.

Aos dezenove anos casou-se com Samuel Wesley, e durante os vinte e um anos seguintes deu à luz dezenove filhos. Ela própria ocupava o vigésimo quinto lugar entre os filhos de seu pai. O século XVIII foi um século de pequenos vencimentos (salários) e grandes famílias!

Suzana foi esposa ideal, incomparavelmente superior a seu marido em gênio e jeito, entretanto ingenuamente cega a este fato. Ela bem podia ter discutido a filosofa com a Hypathia (filha do filósofo Téon e nascida em 370 depois de Cristo, era matemática, filósofa e foi a última cientista a trabalhar na biblioteca de Alexandria, antes que fosse destruída), discorrido em latim e grego com a Lady Jane Grey (considerada uma das mulheres mais cultas da sua época, 1537-1554, que subiu ao trono inglês por desejo do Rei Eduardo VI e que foi retirada do trono 9 dias depois por Maria I, filha legítima do rei, e condenada e executada por traição). No entanto com o seu marido desajeitado e impetuoso mostrou-se tão paciente, se bem que, nem sempre tão submissa como Griselda (personagem da poesia de Lord Alfred Tennyson).

Tanto Samuel quanto Suzana possuíam vontade própria, e ambos costumavam pensar por si mesmos. EIa escrevia depois ao filho João, “É uma infelicidade, quase peculiar à nossa família, que eu e teu pai raramente pensamos do mesmo modo”. Mas é certo que quando discordavam, quase sempre Suzana tinha razão. Entretanto ela manteve para com o seu marido a mais admirável obediência. O pugnaz (briguento) homenzinho mui propriamente despendia muitos de seus versos trabalhosos com a esposa. Eram versos de pé quebrado; e a prosa da vida conjugal é geralmente mais dura do que a sua poesia.

Um dia fatal o pároco de Epworth descobriu que a mulher tinha opinião própria sobre a política, não o acompanhava no responso das orações pelo rei. “Suzanna”, disse ele majestosamente, “se havemos de ter dois reis, tenhamos duas camas”; e o homenzinho absolutista, irresponsável e imperioso montou o cavalo e foi embora, deixando à mulher o cuidado da família e da paróquia. Segundo Southoy - mas isto é duvidoso - ela não teve mais notícias dele até falecer o rei Guilherme III, um ano depois, quando teve a condescendência de voltar outra vez para o seio de sua família.

O corajoso casal começou a vida conjugal com uma freguesia (uma paróquia cujas ofertas da membrezia) que rendia trinta libras por ano; os filhos vinham depressa - como já dissemos, dezenove filhos em vinte e um anos. De modo que a pobreza - sempre assombrada com o espectro (fantasma, assombro) de dívidas, e às vezes tremente (que treme, que balança) à beira da dura necessidade - foi um elemento sempre presente na vida da família.

Muitos anos depois, numa carta dirigida a seu bispo, Samuel Wesley deu-lhe o interessante informe que recebera somente 50 libras por ano durante seis ou sete anos consecutivos, e “ao menos um filho por ano”. O parocozinho de Epworth foi muito dado aos problemas de aritmética familiar para a edificação de seu diocesano. Numa carta ao Arcebispo, comunicando-Ihe o nascimento de filhos gêmeos, diz: “A noite passada a minha mulher me apresentou com uns poucos filhos. Até agora só há dois, menino e menina, e julgo que são todos presentemente. Já tivéramos quatro em dois anos e um dia, três dosquais vivem... Quarta•feira de manhã eu e a minha esposa reunimos os nossos haveres, que importavam em seis shillings, para comprar carvão”.

Pode•se perdoar o espírito de ansiedade num pai que, com somente seis shillings no bolso, tem de providenciar pela chegada de gêmeos. Mas o chefe da família Wesley deixava este dever familiar, como quase tudo mais, à sua mulher. Era eIa quem carregava o fardo dos cuidados caseiros, enquanto seu marido assistia às convocações ou ia para a prisão por dívidas no espírito de vero filósofo. Ele escreveu ao arcebispo de York, logo que as portas do Castelo de Lincoln fecharam-no dentro: “Agora posso descansar, pois já cheguei ao abrigo onde, há muito, eu esperava parar” Incidentalmente, acrescentou: “Quando aqui cheguei, os meus haveres só importavam em pouco mais de dez shillings, e a minha mulher em casa não tinha tanto.” Evidentemente este notável marido não reconhecia que a mulher deixada com um grupo de filhinhos, e menos de dez shillings tinha mais razão de incomodar-se do que ele. Ela ao menos, não podia assentar-se para escrever filosoficamente: “Agora posso descansar”. Ele acrescentou: “Ela logo me mandou os seus anéis, porque nada mais possuia com que pudesse me socorrer; mas eu lhos devolvi”.

Somente uma vez se ouviu queixumes desta mulher corajosa. Enquanto seu marido ainda jazia preso em virtude de dívidas, o Arcebispo de York perguntou-lhe: “Dizei-me madame Wesley, de fato jamais sentiste falta de pão?”.

“Meu senhor”, respondeu ela, “para dizer a verdade, nunca me faltou o pão; mas tenho tido tanto trabalho para arranjá-lo antes de comer, e para pagá-lo depois, que muitas vezes ele é me muito amargo; e julgo que se ter pão em tais condições aproxima bem ao grau de miséria em que não se tem nenhum”.

Mais tarde ela escreveu acerca do “inconcebível desespero” que freqüentemente sofriam nesses tempos tristes; e uma das filhas, Emília, fala em tom mais agudo da ‘intolerável necessidade” que a família padecia, e da “dura precisão de cousas indispensáveis“ que não raras vezes lhes acometia.

É indubitável que Samuel Wesley dirigia mui mal os seus negócios financeiros. Praticamente entendeu toda a triste filosofia de dívidas. Ele escreve: “Sempre me pedem dinheiro antes de eu tê-lo ganho, e tenho de comprar tudo nas piores condições”. Mas faltava-lhe o bom senso no manejo do dinheiro. Mui delgada era a parede que separava a sua casa da mais urgente necessidade; entretanto este incomparável marido e pai podia gastar não menos de 150 libras em assistir por três vezes a Convocação! Mas não obstante isto era mui sensível a qualquer censura de seu jeito e cuidado como chefe de família; e, ao cunhado que lhe repreendeu asperamente sobre o assunto, citando as Escrituras em abono da tese pouco confortável que, “quem deixa de prover pela própria casa é pior do que o infiel”. Ele ofereceu a seguinte exposição de seus negócios. O algarismo tem uma confusão característica e deliciosa, e bem podem levar um bom contador ao desespero; contudo mostram que, se o impaciente homenzinho nunca soube viver dentro dos limites de seus vencimentos, ao menos conseguiu existir com muito pouco. Nota-se que tudo está escrito na terceira pessoa:

Imprimis, quando primeiro foi a Oxford, tinha em dinheiro = 2,50
Viveu ali até formar-se bacharel, sem qualquer preferencia ou auxilio, senão uma coroa = 0,50
Pela benção de Deus sobre o seu próprio empenho trouxe a Londres = 101,50
Chegado a Londres, recebeu ordem; de diácono e um curato, recebendo por um ano = 28,00
Neste ano pela pensão, ordenação e habito ficou endividado, 30 L que depois pagou = 30,00
Então foi ao mar, onde teve por um ano 70 libras que recebeu dois anos depois = 70,00
Então tomou um curato com 30 libras por ano, durante dois anos, e por esforço próprio, em escrever etc. ganhou mais 60 libras por ano = 120,00

Jamais houve uma peça de aritmética mais complicada? Entretanto através dos algarismos confusos transparece o espírito corajoso!

Em carta a seu arcebispo, Samuel Wesley faz uma desnecessária, mas franca confissão de sua falta de tino em negócios comerciais: “Não duvido que uma das razões porque me acho tão embaraçado seja a minha falta de entendimento em negócios deste mundo, e a minha aversão a demandas, circunstância demasiadamente bem conhecida a meu povo. Tive somente cinqüenta libras por ano durante seis ou sete anos consecutivos, começando a vida sem nada, e ao menos um filho por ano, e a mulher doente pela metade do tempo”.

Deve-se acrescentar a todos os mais males de Samuel Wesley as rixas que tinha com os vizinhos, nascidas pela maior parte de questões políticas, que entre a plebe inculta tomaram um caráter bastante áspero. Judiaram do seu gado, destruíram-lhe a roça, impugnaram-lhe o caráter, e tentaram incendiar a sua moradia. Cobravam-se as décimas com muita irregularidade, e às vezes, à força. Mas o homenzinho rígido possuia, ao menos, a virtude da coragem. Ele disse: “Até aqui somente conseguiram ferir-me, e creio que não podem matar-me”. A relação do sacerdote com os paroquianos era bem curiosa e seriamente perturbada.

Suzana Wesley era mãe notável, e a maneira pela qual governava os seus filhos bem pode provocar o desespero de todas as mães e a inveja de todos os pais até o fim dos tempos. Esta corajosa, sábia e bem criada mulher, com cérebro de teólogo atrás de olhos meigos, e com gosto pelo estudo no seu sangue, possuia elevados ideais por seus filhos: haviam de ser bem criados, doutos e cristãos. A sua maternidade obedecia a um plano inexorável; e nunca houve quem desempenhasse os múltiplos deveres de mãe com método tão insistente ou com propósito tão inteligente. Toda a vida familiar corria como por um horário: até o sono das crianças foi-lhes ministrado por medida. Todo o filho, ao chegar a certa idade, tinha de aprender o alfabeto dentro de determinado tempo. Esta mãe compreendia que a vontade é a raiz do caráter e, que este é por ela determinado. A família Wesley foi ricamente dotada em matéria de vontade, assim o primeiro passo na educação de cada filho visava a redução desta força ao governo. Era regra fixa e imperativa que criança alguma recebesse qualquer cousa pela qual chorasse, e o efeito moral sobre o espírito da criança, ao descobrir que o único modo infalível, de não conseguir o objeto desejado, seria em chorar por ele, devia ter sido admirável.

As crianças foram ensinadas a falar cortezmente; a chorar suavemente, quando realmente houvesse necessidade do choro - e às vezes esta excelentíssima mãe dava a seus filhos abundante razão de chorarem.

A Sra. Wesley levou os seus princípios metódicos e o seu horário para o domínio da religião. Começou logo: “Bem cedo as crianças souberam distinguir o Domingo dos outros dias, e logo foram ensinadas a ficarem quietas durante o culto doméstico, e a pedirem a bênção logo em seguida, isto elas costumavam fazer por acenos, antes de poderem se ajoelhar ou falar”. As células de cada cérebro infantil foram bem carregadas com passagens das Escrituras, hinos, orações, etc. A oração foi tecida na própria fábrica da vida diária; as lições diárias de cada filho foram colocadas numa moldura de hinos. Mais adiante havia horas especiais designadas a cada membro da família, quando a mãe falava particularmente com o filho para o qual a hora fora marcada. É provável que aquelas rigorosas introspecções, aquela seriedade de análise pessoal, habituais na vida de Wesley nos anos depois, tivessem a sua origem nessas entrevistas que nas quintas-feiras a Senhora Wesley tivera com o “Joãozinho”.

O Senhor Birrell acusa a Sra. Wesley de dureza, dizendo: “Ela foi uma mãe rígida, áspera, e quase insensível”. Sr. Lecky diz que o lar de Epworth “não era feliz”. Dificilmente haveria crítica mais injusta. É certo que a vida não fora indulgente para com a Sra. Wesley; o próprio século não era indulgente. Um traço da mãe espartana estava no seu sangue, e não foi sem causa; pois um espaço mui estreito separava a família de Wesley, em Epworth, da verdadeira miséria. Cada manhã, ao acordar, devia ter sido a preocupação de Suzanna Wesley, como prover pão para saciar a fome de sua numerosa família. Condição esta que não era mui favorável ao folguedo e riso; mas ninguém pode estudar os documentos desse lar sem ver que a sua atmosfera era de amor. Amor que, é verdade, era de um temperamento heróico, sem elemento algum de ociosa ternura, e sem qualquer traço enervante de indulgência; mas ainda amor de uma qualidade imorredoura. O próprio João Wesley foi um homem mui pouco sentimental; entretanto no seu afeto pela mãe se vê rasgos de ternura e fervor que são admiráveis. Ele lhe escreve manifestando o desejo de morrer primeiro, para não ter o desgosto de sobreviver-lhe!

É possível combater certos métodos da Sra. Wesley; e existe um lado trágico na história da família: de seus dezenove filhos, quase a metade morreu na infância; e de suas sete filhas espirituosas, cinco foram infelizes nos casamentos. Mas grandes riscos pairam sobre todas as famílias humanas.

A única acusação que se pode estabelecer contra Suzanna Wes!ey é que ela não teve elemento algum de humor. Os nomes que deram para as filhas provam concludentemente a completa ausência de qualquer senso do ridículo, tanto no pároco de Epworth, como na sua mulher. Uma filha foi cruelmente carimbada, Mehetabel; outra Jedidah! As cogitações teológicas de Suzanna Wesley, quando ainda criança, mostram a falta de humor. Uma menina de treze anos que pudesse julgar-se suficiente para resolver “toda a matéria em discussão entre os Dissidentes e a Igreja oficial” devia ter sido estranha ao riso e possuída da seriedade de uma coruja. Mas o humor desempenha funções mui salutares: é o sal da inteligência, conservando-a saborosa; habilita o seu possuidor em distinguir os tamanhos relativos de cousas, dando um jeito especial e um toque delicado aos poderes intelectuais. À Senhora Wesley visivelmente faltava qualquer dote especial desta preciosa graça.

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** (Esse texto corresponde ao capítulo I, Forças Ancestrais, do livro "Wesley e seu século – um estudo de forças espirituais", Volume I , páginas 17 a 28, Edição de 1916 publicada pela Typographia de Carlos Echenique, Porto Alegre, RJ).

OBS: Esse livro originalmente não usa parênteses. As notas explicativas dentro de parênteses são de iniciativa dessa edição on line do site da Igreja Metodista de Vila Isabel.

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