IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
Fundada em 15 de Junho de 1902

Boulevard Vinte e Oito de Setembro, 400
Vila Isabel - Rio de Janeiro - RJ
CEP: 20551–031     Tel.: 2576–7832


Igreja da Vila

Aniversariantes

Metodismo

Missão

Artigos e Publicações

Galeria de Fotos

Links


João Wesley
Rio, 14/1/2009
 

Contos do Lar dos Wesley ** (Rev. W. H. Fitchett)

ZZ Outros Colaboradores ZZ


 

Certos acontecimentos, na meninice de João Wesley, deviam ter afetado profundamente a sua religião. Um foi o histórico incêndio, que destruiu o presbitério (a casa pastoral onde morava) em 1709, quando Wesley ainda não contava seis anos feitos. O edifício era velho e seco, construído de ripas e argamassa, com madeiras antigas. Cerca da meia noite, de 24 de agosto de 1709, foi descoberto o fogo, cujas chamas já corriam pelo madeiramento do velho presbitério, como se fosse palha. Todos da família Wesley conseguiram sair da construção em chamas, mas João, no alarme e pressa da família, foi esquecido.

O pequeno, acordando, achou o seu quarto tão cheio de luz, que pensava ser o raiar do dia. Ergueu a cabeça e olhou através as cortinas, viu um vermelho rabisco de fogo correr pelo forro! Ele pulou da cama, e correu em direção da porta que, já se achava envolta numa terrível cortina do de rubras chamas. Trepou numa caixa, que estava abaixo da janela, e olhou para fora. Era noite escura, mas a luz, que emanava da casa incendiada, caia sobre as faces da agitada multidão. O forte vento nordeste que soprava, através a porta aberta, havia feito da escadaria um túnel de fogo, e o pai viu que seria morte certa, para quem tentasse subi-la. Samuel Wesley caiu de joelhos no corredor, e clamou a Deus em favor de seu filho, que parecia encerrado numa prisão de fogo.

A própria Suzana Wesley, que se achava doente, atravessou o fogo para a rua, com as mãos e faces queimadas; e quando virou, e olhou em direção da casa, viu o rosto do filhinho na janela do pavimento superior. João ainda se achava na casa em chamas!

Não havia escada, a sua fuga parecia impossível. O menino ouvia atrás de si as ruidosas chamas, e via as faces pálidas da multidão, que o contemplava, sobre o fundo da noite escura que a envolvia.

Alguém, de mais iniciativa do que os outros correu até chegar embaixo da janela e, pediu que um outro lhe subisse aos ombros, assim alcançando o menino, tirando-o pela janela no mesmo instante que o teto da casa caia com grande ruído. O pai, quando lhe trouxeram o filho, disse: “Vizinhos, ajoelhemos e demos graças a Deus! Ele me deu todos os oito filhos. Que a casa vá, sou bastante rico!”.

Nenhuma criança de seis anos jamais se esqueceria de um incidente tal. Parece que impressionou profundamente a imaginação do menino. No decorrer dos anos, o incidente tornou-se luminoso, com significados novos e portentosos. Tornou-se uma parábola de sua própria história espiritual. Ele fora livrado de chamas, mais terríveis do que as que consumiram o presbitério de Epworth. Portanto, não foi ele, uma tocha tirada do fogo para um fim especial? Sim, o acontecimento se tornou em pintura mística da condição do mundo inteiro, e do papel que João Wesley havia de desempenhar nele.

A sua teologia traduziu-se nos termos daquele acontecimento noturno. A casa incendiada simbolizava o mundo perdido. Toda a alma humana, no pensamento de Wesley, era semelhante àquele menino rodeado pelo fogo, pelas chamas do pecado e por aquela ira divina e eterna que o pecado incendeia, apertando-o de todos os lados. Ele, que à meia noite daquele 24 de agosto de 1709 fora arrancado da casa em chamas, devia arrancar os homens das chamas de um incêndio, ainda mais terrível. A memória daquele perigo deu cor à imaginação de Wesley, até o dia de sua morte.

A história do incêndio é narrada pelo pai Samuel, pela mãe Susana e pelo próprio João, quando cita suas recordações juvenis. Das três narrações, a mais cheia e vivaz é a do pai Samuel Wesley, embora, curiosamente, tenha sido geralmente passado por alto. Lendo-a, sente-se algo da confusão, do calor e do terror do incêndio, quase dois séculos depois do ocorrido. Ele diz:

“Um pouco depois das onze horas da noite ouvi o grito de fogo!”, na rua mais próxima do lugar onde eu me deitara. Se eu estivesse no meu próprio quarto, como de costume, todos teríamos perecido. Pulei da cama e vesti-me de colete e de trajes noturnos e olhei pela janela. Vi a reflexão (a claridade) das chamas, mas não sabia onde estavam. Calcei uma meia, e com as calças nas mãos, corri para o quarto da minha mulher. Tentei forçar a porta, que estava trancada do lado de dentro, mas não podia. As duas filhas mais velhas estavam com ela; estas se levantaram e correram as escadarias para despertar o resto da família. Então vi que era a minha própria casa que estava toda tomada de chamas e nada senão uma porta entre o fogo e a escada “.

“Voltei à mulher que já havia se levantado e aberto a porta. Mandei•lhe que saísse já. Tínhamos um pouco de prata e ouro cerca de 20 libras esterlinas. Ela teria permanecido para procurá-las, mas eu a empurrei para fora. Eu subi a escada, achei os filhos, desci e abri a porta da rua. O capim do teto estava caindo no fogo, o vento nordeste tocava as chamas sobre mim; duas vezes tentei subir a escada, mas fui obrigado a ceder. Corri à porta, que dava para o jardim, e abri-a; sendo o fogo ai mais manso. Mandei que as crianças me seguissem, mas achavam-se somente duas comigo e a criada trazia no colo um outro, o Carlos, que ainda não anda. Corri com eles ao meu gabinete no jardim, fora do alcance das chamas: coloquei o menor no colo da outra, e vendo que a minha esposa não havia me seguido, voltei apressadamente para buscá-la, mas não a achei.”

“Voltei em seguida para os filhos que deixei no jardim para ajudá-los a transpor o muro. Estando do lado de fora, ouvi um dos meus pobres cordeirinhos de cerca de seis anos, ainda deixado no segundo andar, clamar tristemente: “Acode-me!”. Corri outra vez para subir a escadaria, mas esta agora se achava tomada pelas chamas. Tentei transpô-las pela segunda vez. Defendendo a cabeça com as calças que levava nas mãos, mas a corrente de fogo me tocou para baixo. Julguei haver cumprido o meu dever. Com o clamor do meu filho ainda aos ouvidos, saí da casa para o jardim, onde se achava a parte da família que eu havia salvo. Fiz que todos se ajoelhassem, para pedirem que Deus recebesse a alma do pequeno João.”

“Corri, de uma a outra parte, indagando a respeito da esposa e dos filhos. Encontrei-me com o principal homem do lugar, oficial de justiça, o qual não ia em direção da minha casa, para ajudar-me, mas em direção oposta. Eu lhe peguei na mão, e lhe disse: “Seja feita a vontade de Deus!” EIe respondeu: “Nunca hás de deixar de tuas artes? Incendiou a tua casa uma vez antes; não conseguiste bastante então, e já o fizeste outra vez?” Foi muito pouco conforto. Eu lhe disse: “Deus te perdoe”. Mas um pouco depois fui mais confortado, ouvindo que a minha mulher fora salva, então caí de joelhos e dei graças a Deus.”

“Fui ter com eIa. Ainda vivia, se bem que apenas falava. Ela julgava que eu havia perecido, e os outros também assim pensavam, não me tendo visto, nem qualquer dos nossos oito filhos, por um quarto de hora. E durante este tempo foram todos os quartos da casa, e tudo mais, reduzidos à cinza; pois o fogo era muito mais forte do que o de um forno e o violento vento o açoitou contra a casa. EIa me contou depois como encapara. Quando fui abrir a porta dos fundos, ela tentara atravessar o fogo, até a porta da frente, mas duas vezes fôra derrubada no chão. EIa julgava que ai morreria, mas tendo pedido que Cristo lhe ajudasse, achou-se com novas forças, levantou-se sozinha, atravessou dois ou três metros de chamas, estando o fogo no chão até os joelhos. Ela vestia somente um delgado vestido, tendo sobre o braço um paletó, e calçava sapatos. Com o paletó ela envolvia o peito, e chegou ao quintal em segurança, sem receber auxílio de uma alma sequer. Ela não ergueu os olhos nem falou até a minha chegada. Somente quando lhe trouxeram o último filho, ela mandou que o deitassem na cama. Este foi o menino que eu ouvira clamar em meio das chamas, mas Deus o salvou quase por milagre. Ele só foi esquecido pelos criados, na perturbação. EIe correu para a janela que abria para o quintal, subiu numa cadeira e pediu socorro. Umas poucas pessoas haviam se ajuntado, e entre elas um homem que me quer bem, este ajudou um outro a subir à janela.O menino, vendo o homem entrar pela janela, assustou-se, e quis fugir para o quarto da mãe; mas, não podendo abrir a porta, voltou outra vez à janela. O homem havia caído da janela, e a cama e tudo mais no quarto do menino achavam-se em chamas. Ergueram o homem pela segunda vez, e pequeno e assustado João pulou em seus braços e foi salvo. Eu não podia acreditar antes de beijá-lo duas ou três vezes.”

No dia seguinte, passeando pelo jardim e contemplando as ruínas da casa, Samuel achou meia página de sua Bíblia poliglota, onde estas palavras eram ainda legíveis: “Vai; vende tudo que tens; e toma a tua cruz, e segue-me.”

É de se admirar que uma tal experiência ficasse indelevelmente registrada na imaginação de João Wesley? Wesley, na sua meninice devia ter observado, com olhos graves e admiráveis, um outro incidente na casa de Epworth. Estando o pai ausente numa convocação, a senhora Wesley começou a celebrar reuniões religiosas na cozinha do presbitério. EIa começou essas reuniões para os seus próprios empregados domésticos e filhos. Então os vizinhos solicitaram permissão de virem, até que trinta ou quarenta se ajuntavam aos domingos à noite. O fogoso e exclusivista eclesiástico, seu marido, ouviu as novas. Um “conventículo” estava em pleno vigor sob o próprio teto do seu presbitério, com uma mulher orando publicamente, e talvez exortando; e essa mulher a sua esposa! Aqui havia cousa para acender o fogo de ira austera na consciência sacerdotal! As cartas da Senhora Wesley, em resposta a seu marido imperioso, eram modelos de bom senso e bondade, e a sua lógica foi demasiada forte para o homenzinho irascível. “Parecia esquisito”, disse o marido, “que eIa celebrasse o culto”. A sua esposa responde: “Admito, e é assim com quase tudo mais de sério, ou, que de qualquer modo possa promover a glória de Deus e a salvação de almas”, se for feito fora do púlpito.”

“Também por ser mulher, na opinião do marido, tornava pouco desejável que ela dirigisse o culto.” A Senhora Wesley responde:”Visto que sou mulher, assim também sou mãe de família númerosa; e embora a responsabilidade superior, pelas almas que ela contém paire sobre vós como cabeça da família e como seu ministro, na vossa ausência, entretanto, não posso me esquivar de considerar, cada alma que deixais sob os meus cuidados, como sendo um talento entregue a mim pelo grande Senhor de todas as famílias do céu e da terra. Se eu for infiel a Ele ou a vós, como posso responder quando Ele me exigir contas da minha administração?”

O Senhor Wesley pergunta: “Por que ela não pedia que qualquer outro lesse um sermão?” Ela responde: “Infelizmente não considerais que povo é este. Julgo que ninguém entre eles seria capaz de ler um sermão, sem soletrá-lo, em grande parte. E como isto serviria de edificação para os outros?”

Quanto à alegação de que era um “conventículo”, um concorrente da Igreja, a senhora Wesley assegura a seu marido, “que estas pequenas reuniões têm trazido mais gente à Igreja, do que qualquer outra cousa em tão curto espaço de tempo. Antes não tivemos mais de vinte ou vinte e cinco, no culto à noite, mas agora temos entre duzentos e trezentos”.

A modéstia da senhora Wesley é encantadora: “Nunca ouso de presumir positivamente em esperar que Deus se sirva de mim como instrumento para o bem. O mais que eu ouso pensar é: Pode ser! Quem sabe? A Deus tudo é possível. Entregar•me-ei a Ele. Como diz Herbert: ‘Visto que Deus freqüentemente faz, por cousas humildes serviços honrados, eu me lanço a teus pés; aí permanecerei, e quando o meu Mestre procurar alguma cousa vil em que possa manifestar a sua perícia, então, será a minha vez’.”

Com muita dignidade a senhora Wesley fecha a sua carta: “Enfim, se houverdes por bem dissolver esta assembléia, não me peçais que eu o faça, pois isto não satisfará a minha consciência. Mas dá-me a vossa ordem terminante, em termos tão expressos e inequívocos que me absolverão da culpa e do castigo, por ter eu desprezado esta oportunidade de fazer o bem, quando eu e vós comparecermos ante o augusto e tremendo tribunal do Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Esta sentença foi demais para o pequeno pároco, e as reuniões continuaram até o seu retorno de Londres.

Mas é fácil de imaginar-se que este incidente impressionaria profundamente a João Wesley, que então contava apenas nove anos. O perfil de sua mãe, diante desse grupo de plebeus, o rosto meigo, grave e nobre, em tão notável contraste com todos os outros na reunião. O exemplo de um zelo sério e intenso, os problemas - os mesmos que ele próprio teria de resolver mais tarde, em campo mais vasto. Que seria de mais importância, a forma decorosa ou o fato espiritual? Seria um mal fazer o bem, sendo o método pouco regular? As almas humanas existem em benefício de formas eclesiásticas, ou existem essas formas em benefício dessas almas? As reuniões dirigidas por Suzana e a controvérsia que isso suscitou, repetimos, devia ter impressionado profundamente a Wesley. E o corajoso zelo e a louvável persistência da sua mãe deviam tê-lo ajudado a determinar todo o sistema de sua própria vida, nos anos vindouros.

Neste meio tempo, veio à família em Epworth, uma das mais inexplicáveis experiências que jamais visitou o circulo familiar de um pároco - as artes daquele “poltergeista” (ruidoso espírito ou diabo) que as meninas da família apelidaram de “Velho Jeffrey”, nome de um célebre juiz iníquo. Quem não conhece a história do “Velho Jeffrey” tem perdido uma das narrações mais bem atestadas e mais curiosas de assombração que há na literatura.

Durante quase seis meses - desde dezembro de 1761 até abril de 1717 - o presbitério ficou tomado de ruídos misteriosos e estranhos. Batia-se nas portas e nas paredes, havia socos embaixo do assoalho, ruído como de queda de louças, o repenicar de correntes de ferro, o retinir de moedas ao caírem, o barulho de passos misteriosos. As manifestações resistiam a todas as explicações mais prosaicas, e por fim, foram atribuídas por consentimento comum, a qualquer espírito inquieto. Tornaram-se tão familiares que ninguém se incomodava mais, e as meninas espirituosas do presbitério rotulavam a fada invisível, se bem que muito audível, de “Velho Jeffrey”.

A narração é feita em cartas, com detalhes minuciosos, sucessivamente por todos os membros da família; e todos esses contos foram colecionados pelo próprio João Wesley - que se achava na Escola de Charterhouse quando o “Velho Jeffrey” estava em atividade - e fê-los publicar na Arminian Magazine. Há um elemento humorístico, nos variados tons, em que é relatado o conto maravilhoso. Samuel o narra no estilo direto de um homem, cuja crença na assombração manifestamente gera, não o medo, mas, somente a raiva, e um desejo de encontrar o perturbador, mais de perto, e até surrá-lo. A Susana conta a história, segundo seu modo prático, e com a simplicidade de um Defoe (jornalista e escritor autor do romance Robinson Crusoé). As espirituosas moças relatam a história com traços de humor e imaginação juvenis. Um clérigo vizinho, que fora chamado para ajudar em silenciar o espírito, acrescenta a sua voz sonora ao coro. A evidência, se fosse dada em tribunal, no julgamento de um assassino, seria suficiente para conseguir a sentença máxima.

Certos atos do espírito eram de caráter surpreendente. A Senhora Wesley, de mãos dadas com o marido, à meia noite, descendo ao quarto donde procediam os ruídos, relata que “parecia-me como se alguém tivesse derramado um grande vaso de moedas na minha cintura, para correrem retinindo, pela camisola de dormir, até os pés”. Mais de uma vez o pároco indignado (Samuel) sentia-se empurrado por uma força invisível. Notava-se nas primeiras manifestações que as crianças adormecidas, e que estavam inconscientes do ruído, tremiam de agitação e temor, mesmo no sono. O sr. Wesley, com solicitude paternal, perguntou ao espírito porque estava a perturbar os inocentes filhos, desafiando-o a um encontro consigo no seu gabinete de estudos, se tivesse algo para dizer-lhe. Ele saiu majestosamente em direção do gabinete, para encontrar-se com o espírito, e achou a porta segurada contra ele.

As meninas logo descobriam que, o ‘Velho Jeffrey“ se indignava quando lhe faziam referências pessoais, atribuindo as suas artes a ratos, etc.; pois ele dava então murros no assoalho e na parede com grande veemência”. O “Velho Jeffrey“ fora espírito com bem definidas opiniões de política, e dava pancadas no assoalho e na parede quando o sr. Wesley fazia preces pelo rei. Mas o sentimento leal do pároco não podia ser sufocado por um simples espírito jacobino, e ele repetia a oração pelo rei George I, em tom ainda mais ousado. Samuel Wesley aqui apresentou esta sisuda observação: ”Se eu mesmo fosse rei, antes desejaria ter o diabo por inimigo do que amigo”. O sr. Wesley perseguiu o ruído em quase todos os quartos da casa, o seguiu até o jardim; tentou travar uma conversa com o espírito, valendo-se dos serviços de um grande cachorro para contê-lo, mas, quando o espírito começou a discorrer, o cachorro ignobilmente refugiou-se debaixo da cama, tomado de grande terror. Uma vez ele fez um preparo elaborado para fuzilá-lo, mas foi detido por um colega que vigiava consigo, lembrando-lhe que o chumbo não havia de ferir o espírito. Era espírito pontual, e geralmente começava com as suas artes um pouco antes das dez horas da noite. As meninas por fim vieram a tomar isto como intimação que já “era hora de dormirem“.

João Wesley narra que, um leve bater na cabeceira da cama geralmente começava, entre as nove e às dez horas da noite; então costumavam dizer umas às outras: ”Já vem o Velho Jeffrey; são horas de dormir“. Pode se afirmar que o” Velho Jeffrey “, foi o mais gentil e cavalheiresco poltergeista conhecido da literatura. Quando ele se achava “de serviço” levantava a tramela das portas para as moças passarem. A sra. Wesley, segundo seu modo literal, pediu que o visitante invisível não lhe perturbasse, entre as cinco e seis horas, sendo esta, sua hora tranqüila; e que suspendesse todo o ruído em quanto ela estivesse na sua devoção; e o “Velho Jeffrey” o mais cavalheiro dos espíritos, acedeu a seus desejos, suspendendo com as ruidosas manifestações durante esses períodos.

As manifestações em certo aposento tornaram-se especialmente ruidosas uma noite. O sr. Wesley para lá se dirigiu e, em vão, esconjurou ao espírito para que falasse. Então disse: “Estes espíritos amam as trevas. Apaga a vela e talvez fale”. A sua filha, Anna, apagou a vela, e o pároco repetiu a sua adjuração (esconjuração) nas trevas; mas houve apenas pancadas em resposta. Com isto ele disse: “Anna, dois cristãos são demais fortes para o diabo; desce a escada. Pode ser que quando eu estiver sozinho eIe terá a coragem de falar”. Tendo a filha saído, ele disse: “Se tu és o espírito do meu filho Samuel, peço-te que dês três pancadas e mais nenhuma”. Imediatamente tudo ficou em silêncio e não houve mais pancadas nessa noite.

As proezas deste esquisito “poltergeista” no presbitério de Epworth têm paralelos em muitas histórias semelhantes: quais são as possíveis explicações delas? A senhora Wesley, segundo seu estilo direto e prático, julgou o “Velho Jeffrey” pelo padrão da utilidade e condenou-o: “Se estas aparições”, disse ela, “nos advertissem do perigo, nos fizessem mais sábios ou melhores, haveria algo para recomendá-las; mas aparições que para nada servem senão para espantar a gente, quase a ponto de se perder a razão, parecem de todo censuráveis”. Espírito muito tolo foi o “Velho Jeffrey”, na opinião da Senhora Wesley!

Samuel Taylor Coleridge (poeta e ensaísta inglês) descobre na família “uma irascível e censurável predeterminação” pela crença na aparição, teoria essa que é totalmente contrária aos fatos. Ele diz que “as manifestações eram puramente subjetivas, da natureza de uma doença nervosa contagiosa” - explicação que, não obstante o respeito que temos pelo grande nome de quem a oferece, não obsta que a taxemos de pueril. “O Velho Jeffrey” era demais para a filosofa do S.T. Coleridge.

Há muitas explicações do “Velho Jeffre”. O Doutor Salmon acusa a Hetty Wesley de ter iludido a família, produzindo todos os ruídos, mas o sr. André Lang, autoridade sobre aparições e suas manifestações, escreve um longo artigo em defesa de Hetty, na Cotemporary, decidindo que ela não podia ter invadido o quarto do criado, calçada de botas, e assustando tanto o grande cachorro que ele uivasse de medo. Joseph Priestley (renomado teólogo e estudioso inglês do século XVIII) oferece a teoria de falcatruas por parte dos criados e vizinhos. Isaac Taylor (escritor, filósofo e históriador que viveu entre 1787 – 1865) resolve o” Velho Jeffrey “em espírito palhaceiro e macaqueador. O Sr. Wesley havia pregado por alguns Domingos contra os feiticeiros da vizinhança, que os ignorantes plebeus consultavam como sendo magos; e o Sr. André Lang pensa que as artes do “Velho Jeffrey “constituíram a desforra que os feiticeiros lhe tomavam.

Samuel Wesley Filho, o filho mais velho dos Wesley, oferece o juízo mais sensato sobre a história, arranjando-o, inconscientemente, em forma epigramática, dizendo: “A troça (multidão), julgo eu, acharia muitas interpretações, mas a sabedoria, nenhuma”. O leitor moderno, advinhamos, tomará a parte da “sabedoria”.

O “Velho Jeffrey” pertence àquela classe de fenômenos esquisitos, que burlam qualquer explicação, mas a história indubitavelmente influiu grandemente na imaginação de João Wesley. Servindo-nos da frase do sr. André Lang, podemos dizer que, “ela construiu no seu espírito uma estrada real para o sobrenatural”. Deu-lhe a predisposição, não para crer em todas as histórias de aparições, mas, para esperá-las: para escutá-las com viva atenção; para registrá-las e tratá-las com o devido respeito. EIe registra um cento de histórias de aparições em seu “Diário”, e sempre mantém para com elas a mesma atitude mental de vivo interesse, e um espírito aberto a respeito de qualquer explicação.

Pode-se acrescentar que, segundo uma tradição, o “Velho Jeffrey“ tornou a visitar outra vez a sua querência familiar quase um século depois e um inquilino, de menos coragem do que aquela possuída pela família Wesley, foi acossado do presbitério de Epworth pelos ruidos estranhos, persistentes e de tudo inexplicáveis.

______________________________________________________
** (Esse texto corresponde ao capítulo III, Contos do Lar, do livro "Wesley e seu século – um estudo de forças espirituais", volume I, páginas 39 a 49, Edição de 1916 publicada pela Typographia de Carlos Echenique, Porto Alegre, RJ).

OBS: Esse livro originalmente não usa parênteses. As notas explicativas dentro de parênteses são de iniciativa dessa edição on line do site da Igreja Metodista de Vila Isabel.

Voltar


 

Copyright 2006® todos os direitos reservados.