IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Joćo Wesley
Rio, 14/1/2009
 

O preparo pessoal de Joćo Wesley e sua piedade juvenil ** (Rev. W. H. Fitchett)

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Na sombria e bem disciplinada vida da família, no presbitério de Epworth, João Wesley crescia como menino grave, sossegado e paciente, com cabeça meditativa e modos pensativos, e hábito invencível de exigir uma razão de tudo que fosse mandado fazer. O pároco Samuel disse a Suzana, sua mulher: “Acho, querida, que o nosso Joãozinho não comeria o seu jantar se não achasse uma razão por fazê-lo”.

O menino teve um traço do silêncio e da perseverança de um estóico, mesmo com essa tenra idade. Em 1712, eIe, com mais quatro irmãos, teve a varíola, a peste comum e terrível dessa época. A sua mãe escreve: “Joãozinho suportou a moléstia com a coragem de homem, deveras, como cristão; se bem que parecia se zangar com as pústulas, quando estavam doloridas, a julgarmos pela maneira carrancuda em que as contemplava, pois nada dizia”.

A seriedade do seu temperamento e, o que se pode chamar, de docilidade religiosa eram tão notáveis que, quando ainda não contava oito anos completos, o seu pai - sempre disposto a fazer tudo às pressas – o admitiu à Ceia do Senhor. A sua mãe, com a bela presciência que o amor materno dá, viu no seu segundo filho homem os indícios de um grande, mas desconhecido, futuro, e escreveu no seu diário, sob a data de 17 de Maio 1717, à tarde:

“Que oferecerei ao Senhor por todas as suas misericórdias? Eu desejaria te oferecer a mim mesma e tudo que tu me deste; e dedicaria – oh! dá-me a graça de fazê-lo ao teu serviço o resto da minha vida.”

“E com a alma deste filho (João) para o qual tu tens tão misericordiosamente providenciado, pretendo ser mais cuidadosa do que tenho sido até aqui afim de poder incutir na sua inteligência os princípios da virtude e da verdadeira religião. Senhor, dá-me a graça de fazê-lo com sinceridade e prudência.”

Em 1714 seu pai conseguiu-lhe, do Duque de Buckingham, um lugar na Charterhouse, e assim quando ainda não completara onze anos, do abrigo do lar - e lar monumental - e de uma atmosfera carregada de oração qual a fragrância de incenso ardente, João Wesley passou-se para as porfias e o tumulto de uma grande escola pública. A mudança de atmosfera e do meio foi grande.

A Chaterhouse de então, era escola com grandes tradições, e com sofrível padrão de estudos; mas era indisciplinada, para não dizer desordeira, em grau que é hoje difícil de imaginar. O sistema odioso do “fag” (da exploração dos alunos maiores e mais velhos sobre os mais novos) prevalecia numa forma áspera. Realmente a escola era um pedacinho da sociedade humana, exaurida em certos aspectos de todos os elementos civilizadores, e governada pela moral de selvagens. Os rapazes maiores e mais fortes, sistematicamente roubavam a carne das refeições dos menores; e durante a maior parte dos seis anos que Wesley freqüentava aquela escola, ele diariamente sofria este ignóbil roubo, e praticamente alimentava-se somente de pão.

Um menino disciplinado nas necessidades do presbitério de Epworth, entretanto, facilmente sobreviveria às refeições desfalcadas de Charterhouse. O pai aconselhou-o que corresse três vezes ao redor do jardim da Charterhouse toda a manhã; e o filho obedecia à advertência com a fidelidade literal que lhe era característica. Todas as manhãs, se via um pequeno vulto, magro e juvenil, a correr ligeiramente três vezes ao redor do jardim da Charterhouse. O cabeIo de Wesley na meninice era castanho; mas ficou mais escuro com o correr dos anos; e cabelo tão lindo, encimando um rosto delgado, com olhos sérios, mas vivos, deviam ter constituído feições notáveis. Frugalidade de comida, e exercícios constantes no ar fresco da manhã contribuíram em dotar-lhe de um admirável vigor físico que o habilitava, aos oitenta anos, a andar dez quilômetros para o lugar de pregação, e a declarar que o único sintoma de velhice que sentia era, “não poder andar nem correr tão ligeiramente como antes”.

É certo que era estudante ideal - ligeiro, incansável, metódico, frugal com o seu tempo e de espírito sóbrio. O filho de Suzana Wesley, saído havia pouco do contacto da sua vida diligente, e com o sopro de seu espírito ainda sobre ele, dificilmente seria outra cousa. E seis anos do viver atarefado, se bem que, contendo algo de duro e cruel, na famosa escola, forneceu a Wesley as bases amplas para todos os seus estudos posteriores. A vida numa grande escola pública é algo mais do que a instrução literária. Não há nada de moleza e de enervante na sua atmosfera; antes, desenvolve a coragem; a perseverança e a iniciativa; dá resistência a todas as fibras do caráter; é um longo e forte tônico. Wesley trouxe para a Charterhouse um corpo resistente; mas de lá saiu também com certa resistência de caráter; um admirável haver para um jovem de 17 anos que começa o curso numa grande Universidade, e Universidade qual era a de Oxford nos princípios do século XVIII.

O irmão maior, Samuel, era nesse tempo lente (professor) na escola de Westminster, onde o mais novo dos três, Carlos, era estudante; e João Wesley estudava o hebraico com o seu irmão maior; pois os Wesley possuíram em grau admirável o hábito de ajudarem-se mutuamente. Samuel escreve ao pai; “Joãozinho está comigo; é rapaz corajoso, aprendendo o hebraico com a presteza possível”.

Nesta época a boa fortuna fez uma visita aprazível à família de Epworth. Carlos Wesley estava em Westminster, estudante vivaz, com mais do que a inclinação normal de um estudante pelas brigas, quando um cavalheiro irlandês, Garrett Wesley, rico e sem filhos, escreveu ao presbitério de Epworth, perguntando se havia na família um filho com o nome de Carlos. Se houvesse ele desejava adotá-lo por herdeiro.

Existia entre as duas famílias algum parentesco, cujo grau ignoramos. Parece que Garrett Wesley, por algum tempo, ajudou a custear os estudos do seu pretendido herdeiro, e finalmente queria levá-lo para a Irlanda e fazer-lhe às vezes de pai. O sr. Samuel Wesley deixou ao rapaz a decisão do negócio, o qual recusou a proposta. Garrett Wesley escolheu por herdeiro outro parente (Richard Colley), o qual, assumindo o nome de Wesley, foi elevado à nobreza como Barão de Mornington, e tornou-se avô do duque de Wellington. Até o ano de 1800 o mais famoso entre os soldados ingleses figurava sob o nome de “Arthur Wesley”; depois desse ano o nome foi mudado em Wellesley.

Parece, portanto, que o homem de Deus e reformador que mudou todo o curso da história religiosa da Inglaterra mediante forças espirituais, e o grande soldado que contribuiu para a sua história secular com vitórias tão esplêndidas, saíram do mesmo tronco ancestral. E entre Wesley e Wellington existem indubitavelmente curiosos pontos de semelhança. Os dois eram pequenos de corpo, mas de fibra resistente, com uma capacidade quase milagrosa para árduos trabalhos, e com coragem que, se possuída da frieza do gelo, ainda teve a dureza do aço. As “ordens” de Wellington e o “diário” de Wesley possuem muitas características em comum - um certo ar pessoal, e desprezo de ornamentações, uma predileção pelas palavras curtas e pensamentos claros. Se forem estudados os retratos, notar-se-ão também certos traços de semelhança. Cada qual tem nariz comprido e obstinado, queixo resoluto, os olhos firmes e penetrantes de um líder de homens. Mas as feições do grande pregador são suavizadas e acalmadas pelo evangelho de amor que pregou por tanto tempo. O caráter do famoso soldado foi fundido e temperado no forno vermelho de Badajós e São Sebastião, de Busaco e Waterloo. E os sinais das chamas perduram no seu semblante, mesmo na velhice.

Em 1720 João Wesley começou a vida em Oxford, entrando no Christ Church, como estudante comum com benefício da Charterhouse na importância de quarenta libras esterlinas por ano. Oxford em 1720, pode-se dizer de ante mão, era lugar pouco recomendável para um rapaz inteligente que tomava a vida a serio, e que - não obstante ser inconsciente disso - havia de ser o agente de Deus no maior movimento na história religiosa da Inglaterra. A Oxford de então foi bastante remota da Oxford que Matheos Arnold descreveu nas memoráveis palavras: “Imbuída de sentimento, estendendo os seus jardins ao luar, e, segredando de suas torres os últimos encantos da idade média”. Não havia romance algum ao redor da Oxford, sobre a qual o jovem João Wesley lançou olhares perplexos, nem existia ali qualquer atmosfera de sentimentalismo. No século que tem o “entusiasmo”, como sendo o mais mortífero entre todos os pecados, as universidades forçosamente mais sofreriam. Justamente como no corpo, em que é deficiente a circulação do sangue, as extremidades são as partes mais afetadas. E Oxford nos começos do século XVIII, foi, talvez, o lugar menos poético em todo o país sombrio que era a Inglaterra.

Não havia “entusiasmos” nem pelos jogos atléticos. Oxford era a moradia da insinceridade e preguiça, e dos vícios gerados por tais qualidades. Um tipo de sua insinceridade foi especialmente mau: estava organizada, possuia patrimônio, era respeitada, revestida de autoridade e até iludia-se a si mesma a ponto de julgar-se virtuosa. Existia toda a fórmula de uma grande instituição para o ensino cristão; mas os fatos desmentiam a fórmula. O Gibbon cruelmente embalsamou, qual mosca morta no âmbar imperecível de sua retórica, a seu próprio tutor que, sempre “se lembrava de receber o seu salário, mas esquecia-se de cumprir o seu dever”. E este homem era o tipo da própria Universidade. Os lentes (professores) recebiam os honorários por aulas que nunca deram; os estudantes compravam dispensas de preleções que não foram nunca proferidas, e juravam obediência a leis que nunca leram.

Oxford, quando Wesley pisava-Ihe as ruas, foi, para os estudantes em geral, a instrução na má arte de subscreverem artigos que eIes ridicularizavam; e de fingirem assistência em aulas que não. existiam. Quem quiser sondar as profundezas em que eIa se havia mergulhado, leia o terrível sermão que o próprio Wesley pregou, do púlpito de Santa Maria, no dia de São Bartholomeu em 1744. AqueIe discurso foi, de fato, uma acusação flamejante da Universidade, pregado com infinita coragem do púlpito da própria Universidade, para um auditório composto de professores, lentes, diretores e estudantes. Não é de admirar que esse sermão fosse o último que Wesley foi permitido proferir do histórico púlpito de Santa Maria!

No entanto, não se deve incluir a Universidade inteira numa só generalização. Havia alguns estudantes bons e um elemento sobrevivente da vida salutar na própria Oxford de 1720-1744; mas ninguém seria capaz de compreender a evolução do Metodismo, em sua forma primitiva em Oxford, sem saber algo primeiro da atmosfera moral e intelectual da grande Universidade.

Wesley teve uma carreira estudiosa e útil, senão brilhante em Oxford. Não ficou enervado com a atmosfera da Universidade; e, talvez, por alguma lei sutil de reação, fizesse mais intensa a sua aplicação. Bacharelou-se em 1724 e foi eleito lente de Lincoln em 1725. Um ano depois foi nomeado professor de grego e presidente das classes. Recebeu o grau de Mestre em 1727.

Com vinte e dois anos, portanto, Wesley era lente do mais adiantado, se bem que quase o menor colégio de Oxford. O seu irmão Samuel tinha uma boa posição na escola de Westminster, onde granjeava poderosos amigos. Carlos, o irmão menor, de dezoito anos apenas, tinha um benefício em Christ Church. Os “filhos do presbitério de Epworth” manifestamente prometiam fazer melhor no mundo do que o fogoso e imprático pai.

Oxford imprimiu sobre João Wesley o seu selo indelével. Era homem universitário, com os méritos e as faltas desse tipo, até o dia de sua morte. Possuia faculdades mentais que trabalhavam com a exatidão de uma máquina. Era um perito na lógica, e costumava resolver tudo - até a propria experiência religiosa - em termos lógicos. Tinha modos de cauelosa confiança, brilhava na polêmica e nela achava certo prazer. O seu estilo Iiterário já manifestava as características que lhe deram fama no decorrer dos anos. Era claro, ríspido, direto, e notável pelo rígido desprezo de adorno e de toda a pirotécnica verbal. Wesley prezava palavras curtas, engastadas em curtas sentenças. A sua brevidade, de fato - o seu hábito de tomar o caminho mais direto em definição, e de vestir os seus pensamentos com o menor número possível de sílabas - dava muitas vezes o efeito do humor. Falava em epigramas sem tencionar fazê-lo, e até inconscientemente.

O jovem lente de Lincoln planejava grandes cousas para o seu futuro. A frase um tanto pomposa “Já me despedi da folga” pertence a este período de sua vida. Mais tarde foi traduzida em fato sóbrio e humilde, mas mesmo nesse tempo ele considerava a sua formatura não como sendo o fim, mas o começo de sua vida de estudante. Fez a distribuição de suas horas segundo um plano característico, tantas aos clássicos, tantas ao hebraico e arábico, tantas à lógica e moral. Os sábados foram dados à retórica e poesia; porque Wesley já fazia excursões proveitosas para as encantadoras regiões da versificação. A sua sisuda mãe lhe escreveu: “Faze da poesia a tua diversão; mas não o teu trabalho”.

Uma carta do seu colega de Universidade, Roberto Kirkham, nos deixa ver através da cena algo da vida do Wesley secular, o elegante e ativo argumentador, o jovem lente de Lincoln; e descreve com o gosto de estudante um jantar de cabeça de bezerro e toucinho enfumaçado, com o melhor repolho da cidade. O grupo de banqueteadores ”abriu um barril de cidra admirável”. E como tempero para a “cabeça de bezerro e toucinho enfumaçado com o melhor repolho da cidade”, Wesley é informado, que eIes falavam do vosso caráter de mérito descomunal, do vosso vulto pequeno e elegante, e da vossa conversa agradável e proveitosa. ”Continuando ele diz: ”Tendes ocupado freqüentemente os pensamentos da M. B., fato que tenho curiosamente observado, quando a sós com ela, nos íntimos sorrisos e suspiros, e nas expressões abruptas a vosso respeito”. M.B. “era Miss Betty Kirkham, irmã do escritor cuja carta mostra que o vulto pequeno e elegante do jovem lente de Lincoln já era a admiração de olhos femininos”.

Neste período Wesley tomava um interesse aprazível na sua aparência pessoal. Discutia seriamente com seu irmão Samuel se devia ter o cabelo comprido ou curto. “Quanto às minhas feições”, dizia ele, “tê-lo cortado, sem dúvida melhoraria a minha fisionomia, por deixar-me mais corado; e talvez me ajudaria a ter uma aparência mais gentil”. Mas João Wesley, à semelhança da mulher de João Gilpin, possuía espírito frugal, e decidiu que as melhoras em sua aparência não compensariam o gasto de duas ou três libras por ano com o barbeiro.

É fato que as dívidas perseguiram a João Wesley até o tempo da sua eleição como lente. O seu pai escreveu “ao meu Caro Lente eleito de Lincoln”, lhe enviando doze libras, e dizendo: “Já fiz mais do que pude para vós. Não tenho cinco libras para custear a família até depois da ceifa. Qual será a minha sorte, só Deus sabe”. Samuel tinha diante de seus olhos uma visão bem clara de outra visita ao castelo de Lincoln na condição de preso por causa das dívidas. Entretanto, escreve: “Sed passi graviora. Esteja eu onde estiver, o meu Joãozinho é lente de Lincoln”.

Mas uma onda de sentimentos mais profundos começava inundar os canais da vida de João Wesley, de tal modo que Miss Betty Kirkham e seus suspiros, e o barbeiro e sua tesoura foram logo submergidos e para sempre perdidos da vista humana.

A PIEDADE JUVENIL DE JOÃO WESLEY


A religião constitui o fato supremo na vida de João Wesley, a única cousa que a torna de interesse histórico e imortal. No grande domínio da religião ele encontrou as forças que lhe habilitavam a gravar o seu nome tão profundamente na história humana. Ao serviço da religião ele fez o trabalho que tornou famoso o seu nome para sempre. À parte do grande avivamento no qual era o principal ator, sem dúvida, teria desempenhado papel saliente no século em que viveu. Um cérebro tão claro e ativo, um corpo tão resistente, uma figura tão graciosa, uma tão surpreendente capacidade para o trabalho, teria lhe dado êxito em qualquer domínio ou sob quaisquer condições.

Se tivesse continuado como elegante eclesiástico da Igreja Alta, com uma religião puramente mecânica, poderia ter-se vestido das mangas de cambraia de um bispo, e o seu nome, talvez, hoje se acharia gravado em letras evanescentes (que se esvae, que desaparece) numa tumba de qualquer catedral inglesa. Mas em tal caso, o seu único titulo à recordação humana, seria uma dúzia de áridos volumes sobre a teologia polemista.

Wesley mudou as próprias correntes da história inglesa; deu um novo desenvolvimento ao Protestantismo inglês, e assim fez-se visível para todo o sempre e soube fazer isto por ter-se assenhoreado do segredo central e essencial da religião, fazendo da sua vida o canal pelo qual as grandes forças pertencentes àa religião achassem via de comunicação com a vida de seus conterrâneos. E é a história religiosa de João Wesley que ainda afeta o mundo.

Até aqui temos nos ocupado somente dos elementos puramente humanos e seculares na sua educação, para que a sua história espiritual seja dada como narração separada, e assim seja contemplada numa perspectiva contínua.

Em certo sentido a história espiritual de João Wesley é curiosamente moderna, e o próprio Wesley, como religioso, é homem moderníssimo. Na sua biografia acham-se refletidas e reproduzidas todas as escolas religiosas da vida moderna. A ciência relata que nos graus do desenvolvimento pré-natal, a criança ensaia de novo, elo por elo, toda a corrente, fisiológica da existência. Assim os graus de experiência religiosa, pelos quais João Wesley passou, cobrem toda a extensão dos sentimentos e emoções religiosos, que comovem a vida dos homens no dia de hoje.

Temos o que se pode chamar a religião da meninice - a única religião que alguns conhecem cousa puramente imitativa, impressa sobre a vida à força da disciplina exterior, o resultado da educação doméstica, mas, sem qualquer raiz vital e espiritual. Temos a religião do ritualista - High Churchman - reduzida ao mecanismo de regras exteriores e mantida por disciplina externa; a do legalista, com todos, os elementos salvadores da religião, gelados, deixando com vida unicamente a moral; a do asceta, que tenta salvar a sua alma pelo castigo do corpo – humoristicamente taxada por alguém como “a salvação por inanição”; a do místico, que perde de vista a terra firme e os deveres comuns e deixa-se flutuar à toa em alguma região vaga de cerração espiritual.

Todos estes tipos existiam em Wesley. Ele experimentava todas as interpretações da religião; as experimentava sinceramente; provava-as com uma inteireza heróica; e gastou treze anos no processo - e no fim achou-se um falido espiritual.

Afinal aprendeu o segredo profundo e eterno da religião como a libertação presente e pessoal; uma emancipação verificada na consciência íntima e trazendo à alma redimida a relação de filiação com Deus; a religião com o seu segredo do poder sobre o pecado; o seu grande dom de uma moralidade incendiada pelo amor. E com essa descoberta suprema, a sua vida transfigurou-se. As experiências religiosas de Wesley são, assim, a história de uma alma; mas muito mais do que isso; são a reprodução da história das grandes escolas religiosas dentro dos limites de uma só vida sincera. Todas as sucessivas fases da experiência religiosa de Wesley existem hoje; existem contemporaneamente como separados tipos da religião.

No desenvolvimento espiritual de Wesley também se podem ver todas essas transformações de experiência com uma clareza cristalina, podem ser traçados com uma certeza inequívoca. A sua alma em todas as suas fases estava engastada em cristal; e o seu hábito de rígido exame próprio, a franqueza tanto de suas cartas como de seu Diário imortal, a bela simplicidade de seu estilo, habilitam-nos seguir, sem esforço, todas as fases de sua evolução religiosa. Ele tinha durante toda a vida a franqueza de Rousseau sem possuir o seu astuto egoísmo; e movia num plano tão elevado que parece pertencer a uma ordem espiritual deferente da do Savoyard. Temos também os juízos do próprio Wesley, revisados por ele mesmo, a largos intervalos de tempo e de progresso espiritual. Assim coloca a sua juventude na luz fulgurante, e a julga pelo fervor de sua conversão. Afinal de novo julga a ambos pela sabia e sóbria reflexão da sua velhice. Assim temos o Wesley, digamos de 1728, julgado pelo Wesley de 1738; e esses, por suas vezes, re-julgados pelo Wesley de 1788.Se for possível estudar uma alma humana em detalhe, e sob o microscópio, então se pode predicá-lo da alma de João Wesley.

Certos elementos, daquilo que se pode chamar “a religião da meninice” , estão na superfície e são facilmente descritos e avaliados. A criança adquire prontamente uma crosta (casca, escama, camada espessa) de hábitos exteriores, impressos por regra; um sistema completo de crenças indiscriminadas - crenças desprovidas de provas -sem qualquer relação com a razão e aceitas em virtude da autoridade. Esta piedade dócil e imitadora é tão exterior à alma quanto é a peIe ao corpo; mas, como a peIe, tem muitas qualidades serviçais.

Wesley possuia todos esses elementos da religião juvenil em grau bem elevado. O caráter da mãe, a disciplina materna insistente e ordeira que rodeava as vidas de seus filhos qual atmosfera, e com algo da pressão perpétua e irresistível da atmosfera, era bem calculada para produzir o invólucro de hábito que constitue em grande parte a religião da criança. A teologia que em criança aprendeu era naturalmente do tipo de ritualista. Por exemplo, foi ensinado que seus pecados foram lavados pelo batismo, e anos depois eIe seriamente escreve “que só quando eu chegara à idade de dez anos, eu havia, pelo pecado pessoal, me desfeito daquela lavagem do Espírito Santo que eIe me dera no batismo”. Também foi ensinado que ele não se salvaria se não cumprisse todos os mandamentos de Deus; uma interpretação do Evangelho de Cristo que lhe custou, mais tarde, anos de sofrimento. O resultado de tal disciplina e doutrina, sobre uma natureza predisposta à séria meditação, era produzir uma piedade juvenil de uma seriedade normal e quase aflitiva. Mas isto tão completamente satisfez os ideais sacerdotais do seu pai que, como já vimos, quando o menino contava apenas oito anos, fê-lo ajoelhar à mesa da ceia do Senhor.

Era século de crianças maravilhosas! É narrado seriamente que o pai de Suzana Wesley, o Dr. Annesley, “quando tinha cerca de cinco ou seis anos, começou o hábito, que depois continuava, de ler vinte capítulos na Bíblia todos os dias”. O fenômeno de uma criança, que ainda não conta seis anos, seriamente formando, nas células do seu cérebro infantil, o plano de ler vinte capítulos da Bíblia todos os dias - e a execução desse hábito durante uma longa vida - seria no dia de hoje considerado como um prodígio. De Hetty Wesley, irmã de João, narra-se que aos “oito anos ela lia o Novo Testamento em Grego”. Existem crianças tão fenomenais no dia de hoje?”

Talvez a piedade forçada e infantil de Wesley fê-lo, no decorrer dos anos, demais crédulo acerca de santos infantis; ao menos, isto nos ajuda em explicar a sua experiência melancólica de Kingswood, quando tentou, em larga escala, transfigurar meninos de sete, oito e dez anos em santos maduros.

Mas alguns dos elementos mais preciosos e graciosos da piedade juvenil são conspicuamente ausentes da infância de João Wesley. Felizmente a Igreja moderna tem descoberto na religião infantil algumas das mais belas e apreciáveis graças; uma confiança inabalável que sobrepuja a metafísica dos grandes teólogos; um fácil e feliz amor a Deus, que seria irreverente, se não fosse a sua simplicidade; um regozijo na religião, tão espontâneo e prazenteiro como o trinar dos passarinhos; uma simplicidade em oração que faz a mãe, ao ouvi-la, sorrir-se e ao mesmo tempo chorar. Wordsworth diz: “O céu nos rodeia na nossa infância”; e ao redor de uma criancinha respirando a atmosfera de um lar cristão, está o céu de um simples e cordial amor a Deus, e de uma fé nele, isenta de qualquer sombra de dúvida. Cristo está bem perto do coração da criança. Ainda hoje, como nos tempos idos, eIe coloca o pequenino no meio da sua, Igreja e nos avisa a todos que nessa direção está o céu!

João Wesley não possuia esses elementos graciosos, alegres e confiantes da religião infantil. Teriam sido para ele um anacronismo. Não pertencia a seu século nem ao tipo de teologia ensinada sob o teto do presbitério de Epworth. Não formava elemento algum na disciplina exatamente medida - disciplina que contava as horas e os deveres como o farmacêutico conta as gotas de uma tintura - que foi a melhor cousa que a própria sra. Suzana Wesley, nesse tempo, conhecia. Nunca criança alguma sobrepuja a religião da própria mãe; e se em certo sentido foi o mérito, era também o defeito, na piedade de Suzana Wesley, a ser construída sob o sistema de horário de uma viação férrea, e com algo de seu esforço mecânico; era esta a escola em que ela mesma se nutrira. Escrevendo em 1709 a seu filho maior, Samuel, que estava então em Westminster, ela diz:

“Vou dizer-te a regra que eu costumava observar quando ainda me achava na casa do meu pai e tinha tão pouca, senão menos, liberdade do que tu tens agora. Eu deixava tanto tempo para o recreio quanto gastara em devoção particular. Não que eu sempre gastasse tanto, mas eu me permitia ir até aí, mas não além. Assim em tudo mais; designes certo tempo para o sono, para o comer, para a vida social, etc.”

Uma menina que orava pelo relógio, e que media essas orações, permitindo-se, então, exatamente tanto tempo para o recreio quanto gastara em oração e não mais, certamente compreendeu a seriedade da religião; mas que sabia ela da sua graciosa liberdade? E foi este o característico geral da piedade de Suzana Wesley. Era de fibra heróica e não podemos senão apreciar, quase com rasgos de admiração, os métodos de sua religião; e sua seriedade e energia de rotina. Por exemplo, esta mãe de dezenove filhos - que tinha de lhes servir de professora e quase de provedora de pão, bem como de mãe, entretanto, todos os dias, resolutamente passava uma hora de manhã e outra de tarde em oração e meditação. E geralmente furtava ainda mais uma hora ao meio dia para a meditação particular, e tinha o hábito de escrever, em tais tempos, os seus pensamentos sobre os grandes assuntos. Muitos dos quais ainda se conservam, marcados, “Manhã”, “Meio-dia”, e “Noite”; e eles possuem uma certa elevação de tom, uma separação dos elementos seculares que os torna não menos que admiráveis. Parecem ser abanados pelas brisas de outros mundos. Eis um exemplo:

“Noite. - Se o estimar e o ter para Ti a maior reverência; se constante e sinceramente reconhecer-Te, como o único e supremo bem desejável, é amar-Te, então eu Te amo. Se comparativamente desprezar e contar de pouco valor tudo que o mundo contém, e considera, de grande, lindo ou bom; se sincera e constantemente desejar-Te, o Teu favor, a Tua aceitação, a Ti mesmo, mais do que qualquer ou todas as cousas que criaste, é amar-Te, então eu Te amo...”

“Se o me regozijar na Tua glória e majestade essenciais; se me sentir o coração dilatado e confortado com cada percepção da Tua grandeza, ao lembrar-me que Tu és Deus; que tudo está sujeito a Teu poder; que não há ninguém superior nem igual a Ti, é amar-Te, então eu Te amo.”

É esta uma notável peça de meditação religiosa, e digna da Madama Guyon. Realmente existem muitos pontos de semelhança entre a mística francesa e esta inglesa prática e nobre. Mas se a Madama Guyon tivesse sido mãe de dezenove filhos e tivesse de sustentá-los com os minguados recursos do presbitério de Epworth, é duvidoso que as suas “reflexões” tivessem a atitude serena das sentenças que citamos.

Carlos Wesley, em 1742, escreveu o epitáfio de sua mãe.
“True daughter of affliction she,
Inured to pain and misery ;
Mourned a long night of griefs and fears.
A legal night of seventy Years .

(“Ela, vera filha de aflição,
acostumada à dor e à pobreza;
chorava uma longa noite de tristezas e temores,
uma noite legal de setenta anos”.)

Mas não se pode descrever como “noite legal” essa experiência em que estrelavam pensamentos como os que citamos. Entretanto, o extrato que damos, mostra os defeitos na teologia de sua escritora. Reflete exatamente os métodos espirituais do seu filho durante os anos fatigosos que precediam a sua conversão. Ela possui as graças essenciais do caráter cristão, mas sem qualquer nota de exultante confiança ou de qualquer certeza de sua aceitação perante Deus. Os métodos da lógica na sua vida espiritual tomam o lugar do “testemunho” do Espírito Santo. Ela tem de certificar, tanto a Deus, como a si mesma que ela o ama, pelo auxílio dos silogismos. Na linguagem da teologia técnica, ela confundia a justificação com a santificação; e isto não foi um simples erro da metafísica. Ela cria, e ensinava a seus filhos a crerem, que a consciência da nossa aceitação por parte de Deus vinha, não no começo da vida cristã, mas no fim. Não era tanto o motivo para a obediência, mas constituía o galardão por uma obediência que existia independentemente dela.

Se a senhora Suzana Wesley tivesse aplicado a sua teologia à parábola do Filho Pródigo teria escrito inteiramente de novo aquela pérola das parábolas. Teria descrito o pai como protelando o beijo, o anel, o melhor vestido - todos os penhores da filiação restaurada - até que o pobre desgraçado, já de volta; entrasse na cozinha da casa paterna, servisse de criado, e comprasse, com o dinheiro assim ganho, uma boa fatiota para si mesmo! Já em idade avançada ela disse que, sempre considerara a consciência da graça perdoadora de Deus, como sendo uma experiência rara de grandes santos, impossível aos cristãos em geral. Era impossível à senhora Suzana Wesley ensinar o que ela mesma não sabia, e isto explica os elementos faltos na piedade infantil de seu grande filho João.

A religião infantil de Wesley não sobreviveu aos duros golpes da vida na Charterhouse e em Oxford. Desvaneceu-se inevitavelmente com os tenros anos que lhe davam existência. O próprio Wesley diz: “Sendo removidas as restrições externas, tornei-me muito mais descuidado do que antes no cumprimento dos deveres exteriores, e me fiz continuamente réu de pecados exteriores, que eu bem conhecia por tais, embora não fossem escandalosos aos olhos do mundo”. Wesley escreve estas palavras em 1738, logo depois da sua conversão; e então, julgando a sua vida anterior pelo padrão das emoções e dos recém-nascidos ideais daquela grande experiência, naturalmente a pintava bastante escura. Ele diz: “Eu ainda lia as Escrituras e fazia as minhas orações de manhã e de noite”. Então com traço característico daquilo que se pode chamar de ex post facto - analise de si próprio - eIe acrescenta: “Aquilo pelo qual eu então esperava ser salvo era (1) o não ser tão ruim como outra gente, (2) ainda conservar um respeito pela religião, (3) ler a Bíblia, assistir na Igreja e fazer as minhas orações”. É evidente que este sistema de religião achava-se singularmente inadequado. E embora não se diga que Wesley, em qualquer época, fosse culpado de conduta viciada, entretanto, deslizou-se em maneiras frívolas. A sua consciência perdeu tanto na sua vigilância como na sua autoridade. E quando Wesley alcançára os seus vinte e dois anos de idade - e realmente, por anos antes disso - a religião puramente imitativa da sua infância, mesmo para a sua própria consciência, havia se tornado em fracasso.

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** (Esse texto corresponde aos capítulos IV (Preparo pessoal) e V (A piedade juvenil), do livro "Wesley e seu século – um estudo de forças espirituais", volume I, respectivamente nas páginas 50 a 58 e 59 a 67, Edição de 1916 publicada pela Typographia de Carlos Echenique, Porto Alegre, RJ).

OBS: Esse livro originalmente não usa parênteses. As notas explicativas dentro de parênteses são de iniciativa dessa edição on line do site da Igreja Metodista de Vila Isabel.

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