IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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João Wesley
Rio, 14/1/2009
 

João Wesley e uma prática religiosa que foi um enorme fracasso ** (Rev. W. H. Fitchett)

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É possível estimar aproximadamente a influência que os livros A Imitação de Cristo, de Thomas A. Kempis, e A Chamada Séria, do sr. Guilherme Law, exerceram sobre Wesley. Deram-lhe uma visão transfiguradora do majestoso escopo e altitude da religião; quão grandes eram os direitos de Deus e quão vastos os deveres do homem. Mas se lhe despertaram as grandes aspirações não lhe ensinaram a arte de realizá-las. Não enfatizaram a graça de Deus, mas os deveres do homem. Se, pois, lhe despertaram a consciência, deixaram-lhe impotente. O grande segredo triunfante do Cristianismo: o perdão divino pela graça mediante a fé, e a obediência pelas forças que afluem à alma em virtude desse perdão, não lhe foram revelados. Em uma palavra, eles erraram a ordem eterna e imutável que Deus tem estabelecido para a vida espiritual. Nessa ordem, o perdão vem primeiro, pois é a Porta Formosa do templo de uma vida santa. Ou, para variar a metáfora, é o canal pelo qual correm, para a alma perdoada, todas as grandes forças do amor e gratidão que não somente tornam possível a obediência, mas a fazem inevitável e exultante.

É verdade que em todos estes grandes livros se encontram frases esparsas que são tão evangélicas como qualquer coisa que se encontra nos hinos mais triunfantes de Carlos Wesley, ou nos mais emocionantes apelos de George Whitefield. Por exemplo, Law disse a Wesley: “Quereis uma religião filosófica, mas tal coisa não existe. A religião é a coisa mais simples deste mundo. É simplesmente nós amarmos a Deus, porque ele nos amou primeiro. Onde se pode achar palavras que vão mais diretamente ao coração do Cristianismo! São João podia tê-las escrito; e São Paulo te-las-ia subscrito”.

Mas toda a ênfase efetiva dos escritos de Law está sobre ponto diverso. E a força dos três grandes livros que tão poderosamente influíram sobre Wesley neste ponto de seu desenvolvimento espiritual, está em salientar, repetimos, não tanto a graça divina como a obrigação humana. Eles vestiam a grande moral do Cristianismo com uma autoridade mais imperiosa à consciência de Wesley, mas deixavam de ensinar-lhe a mensagem especial desse Cristianismo, a relação da alma pessoal com o Salvador pessoal. Assim o deixou falido daquela energia espiritual diretamente proveniente do Espírito Santo, o qual é o único que traz a alta moral do Novo Testamento ao domínio da possibilidade humana.

João Wesley voltou a Oxford em setembro de 1726 e recebeu o grau de Mestre em Artes em 1727. Em agosto do mesmo ano tornou-se cura (pastor ajudante) de seu pai em Epworth e Wroote, até 22 de Novembro de 1729, quando foi chamado novamente a Oxford. Wesley assim teve mais de dois anos de trabalho paroquial como cura de seu pai. Possuía, o que seria quase universalmente considerado, dotes proeminentes para o êxito em tal trabalho. Era douto, cavalheiro, com uma educação esmerada, um corpo incansável, uma facilidade incomparável em discurso cristalino, um zelo intenso, e uma concepção do dever religioso quase austera em sua aplicação. Isto quer dizer que possuía todas as qualificações humanas necessárias ao êxito ministerial, em grau tão elevado como em qualquer época de sua vida. Entretanto falhou, falhou por completo, e era consciente do seu fracasso - falhou justamente como mais tarde falhou na Geórgia! Não aprendera ainda a primeira letra do alfabeto de êxito. Não atraia multidão alguma; não alarmava a consciência de quem quer que fosse, não influía na vida de ninguém. A sua própria apreciação do seu trabalho nesse tempo é: “Preguei muito, mas vi pouco fruto do meu trabalho. Nem podia ser de outra forma, pois eu nem deitava as bases do arrependimento nem da fé no Evangelho, julgando que aqueles a quem eu pregava fossem todos crentes, e que muitos deles não necessitassem do arrependimento”.

O completo fracasso de Wesley nesta época de sua vida é tão notável quanto é o seu êxito mais tarde. Durante este período a nota séria, para não dizer ascética, tornava-se mais dominante em sua experiência. Quando veio residir no Colégio Lincoln, ele escreveu: “Entretanto agora, num novo mundo, resolvi que não teria conhecido algum por acaso, mas unicamente por escolha, e que eu havia de escolher somente aos que eu tivesse razões para crer que me ajudariam na minha viagem para o céu”. Outra vez escreveu: ”Eu preferiria, ao menos por algum tempo, uma reclusão tal que me afastasse de todo o mundo para a posição na qual agora estou”. O impulso que faz o monge estava se fazendo sentir no sangue frio de Wesley!

A direção de uma escola em Yorkshire, que foi lhe oferecida nesse tempo, tinha a vantagem de um bom salário, mas havia também aquilo que, para o espírito de Wesley nessa época, tinha ainda o encanto maior de ser quase inacessível. Ele possuía geralmente uma imaginação notavelmente sã; mas agora estava doentia, e o que Wesley chamava ”a descrição medonha” dada às terras ao redor da escola, e a dificuldade de se chegar ali, o fascinavam. Afinal a escola foi dada a outro, e a sua mãe, com o bom senso que lhe era característico escreveu congratulando-se com ele por tê-la perdido. EIa diz: “Aquela maneira de vida não teria dado com o teu gênio, e espero que Deus tenha um trabalho melhor para ti”.

Em novembro de 1729 Wesley foi de novo chamado a Oxford. Estavam fazendo um esforço para restaurar a disciplina na Universidade. Como uma medida, decidiu-se que os lentes mais novos, que foram escolhidos moderadores, pessoalmente desempenhassem as funções de seus cargos. Na Oxford de então os debates públicos figuravam entre as mais importastes funções da Universidade. No Colégio Lincoln esses debates se realizavam diariamente, e era dever do moderador presidi-los. Wesley foi chamado outra vez para este fim, e dedicou-se, com a costumada energia, ao seu trabalho. Achava nisto uma disciplina intelectual de não pouco valor para si mesmo; aumentava-Ihe a facilidade em falar, a sua prontidão em debate, a ligeireza em descobrir as falácias num argumento qualquer. Ajudavam a dar-lhe as qualidades formidáveis de polemista que lhe serviram tão bem em anos futuros e mais tempestuosos.

Wesley permaneceu em Oxford desde 22 de Novembro de 1729 até a sua partida para Geórgia aos 6 de Outubro de 1735. Aqueles seis anos eram, para Wesley, anos de lutas sem atingir o alvo; de grandes aspirações e de grandes derrotas espirituais. Ele estava vivendo, como disse alguém, no capítulo sete da Epistola aos Romanos, não tendo ainda alcançado o capítulo oito! E nesses seis anos trabalhosos - anos em que Wesley praticava as austeridades de um asceta, e ardia no zelo de um fanático – e tudo sob as bases da teologia de um ritualista sem iluminação – nasceu o Metodismo! Porque nunca se deve esquecer que o Metodismo partilha e reflete todas as fases espirituais do seu fundador. Começou na época de sua teologia ritualista de seus esforços para achar a salvação mediante as obras, para agir segundo a moral cristã sem possuir a energia de forças cristãs, para produzir os frutos da vida cristã enquanto a raiz ainda não existia.

Quando Wesley voltou a Oxford naquele 1729 ele julgava que a religião fosse uma dedicação incansável a atos de piedade, um zelo intenso no cumprimento dos deveres exterioras, uma forma de piedade para ser nutrida pelo uso incessante de todos os meios de graça exteriores. E ele achou em existência já uma pequena sociedade que exatamente refletia esta concepção da religião, e supria o mecanismo para o seu exercício.

Carlos Wesley, que então estudava em Christ Church, havia resistido aos primeiros esforços do seu irmão em querer lhe impor o selo de sua própria piedade triste e mecânica. Ele perguntou: “Queres que eu me faça santo de repente?”. Mas enquanto João Wesley trabalhava na freguesia estéril de Wroote, CarIos se dedicava com nova seriedade a seus estudos, e ele diz que “a diligência me levou a penar seriamente”. Um dos resultados desta inclinação nova e mais séria era a sua assistência ao Sacramento da Ceia do Senhor todas as semanas. E na moral de então, toda a temperatura religiosa se graduava pela freqüência com que se participava da Ceia do Senhor. Participar dela uma vez por semana constituía a piedade - ou a esquisitice - segundo o ponto de vista do crítico.

A personalidade de Carlos Wesley sempre possuía um encanto singular. O seu irmão mais varonil dominava os homens; Carlos Wesley lhes atraia qual o imã ao aço. Um grupinho de companheiros de estudos o cercavam; e se cristalizavam numa espécie de clube, tentavam viver em obediência à regra, e se reuniam com freqüência para se ajudarem mutuamente. Este grupinho de almas ordeiras logo chamaram a si a atenção do público. Cumpriram todos os deveres com seriedade: a lei de Deus, o governo da Igreja, os estatutos da Universidade – todos deviam ser guardados, e guardados com exata precisão. Tais coisas eram deveras novidades! O espírito vivaz da Universidade logo achou rótulo para esse grupo de raridades. Eram chamados “O CIube dos Piedosos”, “Traças da Bíblia”, “Sacramentarianos”. Mas a maneira ordeira de suas vidas por fim determinou o seu título. Eram “Metodistas”! Assim nasce o grande termo histórico, embora o jovem espirituoso que o inventou - ou que o redescobriu - não sonhasse que estivesse a formular o nome de uma grande Igreja preste a nascer.

O grupo original de Metodistas era uma constelação de bons nomes: Roberto Kirkham, Guilherme Morgan, Jayme Harvey, o autor das então famosas, mas agora, felizmente, esquecidas “Meditações entre as Tumbas”; George Whitefield, o maior pregador que o púlpito inglês jamais conheceu; CarIos Kinchin, da vida santa. Do pequeno grupo, três eram tutores nos colégios, os outros eram mestres em artes, ou então estudantes.

João Wesley, voltando a Oxford naquele 1729, achou existente esta sociedade, que já havia adquirido o respeito de alguns e o ridículo (zombaria) de muitos. Logo João Wesley se associou ao clube e se tornou o seu espírito diretor. A sua posição na Universidade, a sua vontade enérgica, a sua facilidade de palavra, o seu gênio natural em influir nos outros constituíam-no o espírito diretor do pequeno Clube. O seu pai Samuel lhe escreveu: ”Ouço dizer que o meu filho, João, é pai do Clube Santo; se for verdade, então estou certo que sou o avô”.

João Wesley imprimiu à vida do pequeno clube uma seriedade ainda mais profunda. Deu-lhe à disciplina uma nova austeridade, e uma ordem mais acentuada, uma nova ousadia a seu zelo. A pequena companhia reunia-se todas as noites para passar em revista os feitos durante o dia, e para planejar o trabalho do dia seguinte. Visitavam aos doentes, auxiliavam aos pobres, ensinavam às crianças nas escolas, visitavam aos presos nas penitenciárias e nas cadeias.

O grupinho de almas sérias cresceu até contar quinze. Os seus membros jejuavam às quartas e às sextas-feiras, sujeitavam-se a elaborado exame próprio. Multiplicavam e tornavam ainda mais rígidas as regras que determinavam os trabalhos de cada hora e o emprego de todas as faculdades. O conselho dado a seu filho pela senhora Suzana Wesley contribuiu em determinar a fisionomia da pequena sociedade. Ela escreveu: “Tanto tempo para o sono, as refeições, as visitas, etc... Freqüentemente te faças a pergunta: Porque faço isto ou aquilo? Por este meio chegarás ao grau de firmeza e constância digno de uma criatura racional e de um bom cristão”.

O Novo Clube naturalmente ocasionou bastante ridículo: logo provocou uma oposição que se tornou violenta! Eis uma história interessante contada por Benson em sua Vida de Wesley:
“Um cavalheiro eminentemente douto e bem estimado pela piedade, disse ao sobrinho que se unira à pequena companhia, que se ousasse assistir por mais tempo à comunhão semanal o expulsaria de casa. Este argumento não surtiu efeito, pois o jovem comungou na semana seguinte. O tio agora se tornou mais violento, e pegando-lhe ao pescoço, sacudiu ao sobrinho para convencê-lo, mais eficazmente, que o participar do sacramento semanalmente estivesse baseado em erro; mas também este argumento parecia ao jovem não ser bem fundado e continuava comungar semanalmente. Este homem eminente e tão bem estimado pela piedade agora mudou de tática. Por maneiras suaves e agradáveis abrandou as resoluções do jovem, conseguindo que não continuasse tão estritamente religioso, e desde então começou a se ausentar da comunhão por cinco domingos em cada seis. Um aluno do curso adiantado, consultando com o doutor (o tio), conseguiu que os outros jovens prometessem que somente comungariam três vezes ao ano”.

Que devia ter sido o clima religioso da grande Universidade quando os seus dirigentes se preparavam deste modo, e por tais métodos, para combaterem a piedade entre os seus estudantes? Wesley respondeu aos ataques dirigidos à pequena sociedade por preparar, em estilo socrático, uma série de perguntas, das quais as seguintes são exemplo:

“Se não havemos de ficar tanto mais felizes no futuro quanto mais praticarmos o bem aqui?
Se não podemos procurar a fazer bem entre os jovens da Universidade; especialmente se não devemos procurar a convencê-los da necessidade de serem cristãos, e de serem estudiosos?
Se não podemos tentar a convencê-los da necessidade de método e diligência, a fim de adquirirem tanto a instrução como a virtude?
Se não podemos tentar confirmar e aumentar-lhes a diligência por comungarem quantas vezes puderem?
Não podemos nos esforçar em fazer bem aos famintos, aos nus, aos doentes?
Se soubermos de qualquer família necessitada, não podemos lhes dar um pouco de dinheiro, roupa ou remédios, segundo a exigência do caso?
Se puderem ler, não seria lícito dar-lhes uma Bíblia, um Livro de Oração comum?
Não podemos indagar de vez em quando da maneira em que tenham empregado tais livros, explicando-lhes aquilo que não compreendam e salientando o que entendam?
Não devemos dar o que pudermos para que os filhos sejam vestidos e lhes seja ensinada a leitura?
Não podemos fazer bem aos presos?
Não podemos dar emprestado um pouco de dinheiro àqueles que, tendo um ofício procuram para si a ferramenta e o material necessários a seu trabalho?”

Naturalmente existe um traço da ironia socrática nestas interrogações! Ninguém poderia combater as ações aqui descritas sem declarar a guerra à própria religião; e esta lista de perguntas incômodas a irrespondíveis, indubitavelmente silenciou por um momento, os zombadores. Mas se a diligência dos Metodistas na beneficência prática aumentava, assim também se tornava mais intenso o gênio ascético – para não dizer fradesco – de sua religião pessoal. João Wesley, nesse tempo, inventou para si e seus companheiros um sistema de exame próprio que Southey declara, com algo de razão, bem podia ser apenso (acréscimo, junto, anexo) aos exercícios espirituais de Ignácio Loyola. Eis uns exemplos:

“Tenho sido simples e consciencioso em tudo que fiz?“ E sob esta pergunta principal acha-se uma chusma (grande quantidade) de ensaios microscópicos para determinar a “sinceridade” com que a alma devia se provar.
“Tenho orado com fervor?” Então segue uma lista das vezes que se devia orar todos os dias, e uma série de experiências para determinar o exato grau de fervor de cada oração – experiência irresistivelmente sugestiva de um termômetro espiritual, graduado para registrar a altura do mercúrio.

Wesley adotou o costume que sua mãe lhe sugeriu, perguntando-se: “Tenho eu, em oração particular, parado freqüentemente para notar o meu fervor de devoção?” Isto quer dizer que a alma ansiosa devia ter os olhos dirigidos, um para Aquele a quem se oferecia à prece e o outro fito vigilantemente sobre si mesmo para observar o seu próprio comportamento. O ideal de cada membro do Clube Santo nessa época era, manifestamente, conservar a própria alma sob o microscópio, e vigiar-lhe cada movimento com uma solicitude incansável.

As experiências práticas, pelas quais cada membro devia se provar, eram de uma espécie mais sã; mas o tom era bastante elevado:

“1. Tenho aproveitado toda a oportunidade provável para fazer o bem; e para obstar, remover ou minorar o mal?
2. Tenho contado algo como demais precioso para ser empregado no serviço do próximo?
3. Tenho gastado pelo menos uma hora por dia em falar com um ou outro?
4. Ao falar com estranhos tenho explicado o que a religião não é – não negativa, não externa – e então o que ela é – a recuperação da imagem de Deus – procurando que descubram onde estacionaram, e o que produziu este estacionamento?
5. Tenho persuadido a todos quantos eu tenho podido para assistirem às orações públicas, aos sermões e aos sacramentos, e para obedecerem às leis gerais da Igreja Universal, da Igreja Anglicana, do Estado, da Universidade, e seus respectivos colégios?
6. Depois de cada visita tenho perguntado àqueIe que me acompanhava, se eu dissera algo de mal?
7. Quando alguém tem pedido conselhos tenho lhe dirigido e exortado o quanto possível?
8. Tenho me regozijado com o meu próximo na virtude ou no prazer; chorado com ele na dor, e chorado por ele no pecado?
9. A boa vontade tem sido e parece ser, a fonte de todas as minhas ações para com os outros?”

Não se pode negar que aqui há elevada nota cristã do tipo da vida alvejada, embora as perguntas representem propósitos mais do que posses. E as lindas virtudes da caridade, meiguice, devoção e diligência não tiveram raiz alguma. São deveras os frutos genuínos da religião; mas tiveram por raiz uma teologia defeituosa e incompleta. Deixavam a alma sem qualquer certeza de aceitação, e a consciência sem qualquer atmosfera de paz.

Quanto ao próprio Wesley, laborava na rotina das boas obras com a diligência que só se pode descrever como uma paixão, e com a austeridade quase digna de um faquir indiano. Ele já formara o hábito de se levantar sempre às quatro horas de madrugada, costume que continuava até quase o dia de sua morte. Descobriu que quando recebia trinta libras por ano era possível viver de vinte e oito, e então dava as duas libras restantes; e quando gozava do confortável benefício da sua posição de lente ainda vivia de vinte e oito libras e dava o resto de seus vencimentos aos pobres. Jejuava com a diligência e a severidade heróicas, que, por fim, minou•lhe a saúde. Impunha-se uma taciturnidade (característica de quem fala pouco, silencioso, calado) férrea.

O seu irmão Carlos recorda incidentalmente: “não posso desculpar o meu irmão em não dizer nada de Epworth quando agora mesmo volta de lá. A taciturnidade em respeito a coisas familiares é a sua enfermidade. Foi muito que eIe me contava quando me disse que todos aí estavam bons, pois anteriormente não era tão comunicativo”.

Que contraste é este com o Wesley expansivo dos anos posteriores, com a sua língua jovial e face radiante; o Wesley de quem o Dr. Johnson – que tanto pregava a conversa – dizia, “eu poderia conversar com ele o dia inteiro e a noite inteira também”; o Wesley, no qual, o Alexandre Knox – que o conhecia como bem poucos – achava “uma habitual alegria de coração”, manifestada tanto nas feições como na fala, descrevendo-o o como sendo “o mais perfeito exemplo da felicidade moral que jamais conheci; descobrindo nas feições, fala e temperamento de Wesley” mais para ensinar-me o que é o céu na terra...do que em tudo que tenho visto, ouvido ou lido fora do “Volume Sagrado”. A diferença entre os dois Wesleys – o Wesley asceta e o Wesley evangelista – é a que se nota numa paisagem sobre a qual paira a noite e aquela sobre a qual nasce o sol. Knox descreve a Wesley como se tornou depois que descobrira o grande segredo da vida cristã. Nesta época de ascetismo em Oxford João Wesley estava ainda estava procurando o grande segredo, e procurando-o em direção errada.

O zelo de Wesley neste tempo tremia à beira de um fanatismo exaltado. Ele escreveu: “Sou tentado a deixar de me dedicar a qualquer ensino senão àquele que tende à prática”. Seriamente cogitava da formação de uma sociedade para a observação ainda mais estrita dos dias santos, do sábado como uma festividade cristã, de todos os dias de jejum da Igreja antiga, etc. Tornou-se para ele coisa de consciência que o vinho na Santa Ceia fosse misturado com água; pois diz Wesley: “Éramos, no sentido mais absoluto, ritualistas – High Churchmen”. Escrevendo ao pai, diz: “Ninguém está na graça da salvação enquanto não seja desprezado por todo o mundo”; e Wesley nessa época estava se qualificando diligentemente para ser assim desprezado, e achava um prazer mórbido no processo!

Existe também um traço de misticismo claramente visível no espírito de Wesley neste tempo, e parece estar em conflito irreconciliável com o rígido ritualismo de sua vida exterior. O místico e o ritualista que combinação estranha! Representam a união de elementos discordantes em uma só vida. O misticismo e o ritualismo não são meias-verdades; são contradições. O ritualismo põe a ênfase suprema nos atos externos; e o misticismo nega a existência do mundo externo, e habita a região dos sonhos.

Wesley se desfez do misticismo primeiro; surpreendido, como devia ter ficado, pelo conflito fundamental que este mantém com a religião prática. Escreveu a seu irmão Samuel uma análise notavelmente clara das características do misticismo:

“Acho que onde quase fiz naufrágio da fé era nos escritos dos místicos; termo este que tomo como abrangendo a todos, e a estes somente, que desprezam quaisquer dos meios de graça. Tenho preparado um breve esboço de suas doutrinas e peço a vossa apreciação dele”.

“Homens inteiramente despidos de livre-vontade, de amor e de atividade próprias, entram já numa condição passiva, e gozam de uma contemplação tal que não somente os faz independentes da fé, mas da vista também, – de modo que se acham inteiramente livres de representações, pensamentos e discursos, não se perturbando mais com os pecados da enfermidade, nem por distrações voluntárias. Já renunciaram à própria razão e entendimento por completo, de outra sorte não podiam ser guiados pela luz divina. Não buscam qualquer conhecimento claro e definido de coisa alguma; mas somente um conhecimento obscuro e geral, que é muito melhor.”

“Tendo assim alcançado o fim, devem cessar os meios. A esperança está absorvida pelo amor. A vista, ou algo mais que a vista, tem tomado o lugar da fé. Todas as virtudes eles possuem na essência, e, portanto não necessitam praticá-las diretamente. Desprezam a devoção sensível de qualquer oração; como sendo um grande empecilho à perfeição. Não necessitam ler as Escrituras, pois são apenas a carta daquele com quem eles falam face a face. Nem precisam da Ceia do Senhor, pois nunca cessam de lembrar-se de Cristo numa maneira ainda mais aceitável“.

Uma tal interpretação de religião avizinha perigosamente a sua negação! Wesley discordava do misticismo sobre outro ponto também. Era lógico bom demais para não enxergar que, em última análise, o misticismo constitui a forma mais sutil de justiça própria; e toda a sorte de justiça própria constitui uma rejeição fundamental de Cristo e de sua redenção.

“Se a justiça vem mediante a lei”, ou por qualquer espécie de esforço humano – então, segundo a tremenda frase de São Paulo – “morreu Cristo sem necessidade”. Não somente se torna desnecessária a sua cruz, mas uma intrusão. E não pode haver coisa mais linda do que a lógica clara e penetrante com que Wesley persegue o misticismo até descobrir na sua última raiz uma forma de justiça própria.

Escrevendo da Geórgia, no continente americano, a seu irmão ele criticara os ensinos místicos de Law; o qual lhe ensinara que as obras exteriores não eram nada quando a sós, e acrescenta: “Ele recomendou para suprir a falta, orações mentais e exercícios semelhantes, como sendo o meio mais eficaz em purificar a alma e uni-la a Cristo”.

“Mas estas coisas”, diz Wesley com a perspicácia que lhe era característica, “eram tão realmente as minhas obras como são o visitar aos doentes ou o vestir os nus; e a união com Deus que se quer alcançar deste modo seria tão realmente a minha própria justiça como seria qualquer outra que eu praticasse sob outro nome”.

Em outro lugar, Wesley diz: “Todos os mais inimigos do Cristianismo são como nada; os místicos são os mais perigosos; pois lhe dão punhaladas nas partes vitais, e os adeptos mais sérios do Cristianismo são justamente os mais suscetíveis de caírem por esses golpes”.


A RELIGIÃO QUE FRACASSOU


O constrangimento de uma religião tal qual a que Wesley agora queria seguir era demais para a natureza humana. Nem mesmo o corpo resistente de Wesley, com os nervos de arame e tecidos de ferro, poderia deixar de ceder. E mesmo que sobrevivesse aos jejuns, ao rigor dos trabalhos e ao minguado tempo para o sono, que ele se impunha; não é de admirar que a sua saúde fosse minada, quando a tudo isso se acrescentava um espírito inquieto, uma consciência religiosa vexada e perturbada por uma infinidade de dúvidas. Parece até que, nessa época, mau trato do corpo constituía parte da religião de Wesley.

Numa carta humorística que Samuel Wesley escreveu em versos a seu irmão Carlos em 20 de Abril de 1732, ele pergunta:

“Does John seem bent beyond his strelngth to go;
To his frail carcass literally a foe:
Lavish of health, as if ill haste to die,
And shorten time t'ensure eternity “?

Ou,

“João parece resolvido ir além das suas forças;
literalmente fazer-se inimigo do próprio corpo:
Pródigo de saúde como que querendo morrer,
e encurtar o tempo para segurar-se da eternidade?”

A mãe Suzana, com solicitude que lhe era natural, temia que João tivesse a consumpção (definhamento progressivo e lento do organismo humano produzido por doença. Ato ou efeito de consumir-se); já tivera séria hemorragia dos pulmões, e por algum tempo se achava em tratamento médico.

Outro membro do pequeno grupo, Guilherme Morgan, morreu neste tempo e isto trouxe sobre o Clube Santo as suspeitas de havê-lo morto pelas suas austeridades. O pai de Morgan lhe escrevera quinze dias antes da sua morte, queixando-se:

“Causa-me sensível perturbação em ouvir que estais visitando a vila de Holt, congregando as crianças e lhes ensinando as orações e o catecismo e lhes dando um shilling ao partirdes. Resolvi pedir conselhos de um clérigo sábio, piedoso e douto; e este me disse que havia conhecido os piores resultados seguirem um zelo tão cego, e me fez ver claramente que estais errando por completo da verdadeira piedade e religião. Ele acha que sois ainda jovem, e que o vosso juízo não está ainda amadurecido. E que com o tempo vereis o erro do vosso procedimento, e pensareis como ele, e que então andareis como convém e em segurança sem tentardes sobrepujar a todos os bons bispos, clérigos e outros homens piedosos do século presente e passados”.

Na curiosa moral daquele século, “um clérigo sábio, piedoso e douto”, manifestamente julgava que um moço, culpado de ter ensinado as criancinhas a orarem, estava pecando contra a religião! Quando Morgan morreu Wesley foi abertamente acusado de ter contribuído à sua morte. Isto fê-lo escrever uma longa e bela carta ao pai de Morgan, sob a data de 18 de outubro de 1732, dando relação do Clube Santo e de seus métodos. A carta, que forma a página inicial do famoso Diário, é uma história da pequena sociedade até essa data, e também uma defesa, e está assinalada por qualidades que a fazem um dos documentos memoráveis na literatura cristã.

As qualidades que faltavam na vida religiosa de Wesley nesse tempo são mui evidentes. Faltava nele o elemento de gozo. A religião deve preencher na paisagem espiritual a função da luz do sol, mas no céu espiritual de Wesley não brilhava qualquer luz divina, quer de certeza, quer de esperança. Ele imaginava que poderia destilar, de exercícios religiosos meramente mecânicos, o precioso licor do gozo espiritual; mas achou-se desesperado e, nas próprias palavras dele, “estúpido, cansado e sem emoção no uso das ordenanças mais solenes”. Também o temor, qual ave de mau agouro, lhe assombrava o espírito: temia que não seria aceito perante Deus; temia que perderia a pouca graça que já possuía; temia viver e também temia morrer. Ele declara que não ousava tomar a si mesmo a liberdade que outros gozavam. O seu irmão Samuel cujas cartas são sempre temperadas com o sal do bom senso lhe prevenia contra as austeridades que praticara e contra o rigor alarmante com que Wesley se interrogava a si mesmo. Mas Wesley se defendia com o pleito – no qual, inconscientemente mostrou um sentimento que ele não possui a força do seu irmão e não ousa tomar o risco:

“Admito (diz ele) que o riso muito vos convenha a vós; mas seguir-se-á dai que me convenha a mim? Se vós vos regozijais sempre por terdes posto em fuga a vossos inimigos, como posso eu ter o mesmo gozo quando os meus inimigos me assaltam sempre? Sois contente que já passastes da morte para a vida. Muito bem! Mas trema aquele que não sabe se ele vai viver ou se vai morrer. Se tal é a minha condição ou não, quem saberia melhor do que eu mesmo?”

Numa carta à sua mãe Wesley faz uma resenha das vantagens que ele goza, e pergunta: “Que farei para tornar efetivas todas estas bênçãos? Devo deixar de vez a procura de toda a instrução que não tende à pratica? Em outros tempos eu desejava distinguir-me em línguas e na filosofia, mas isto já passou”. Então clama: “Qual será o caminho mais direto para a paz que eu suspiro? Não está em fazer-me humilde? Mas suscita-se a pergunta: Como posso fazer isto? Simplesmente admitir a necessidade disso não é o fazer-me humilde”.

Então este brilhante, jeitoso e letrado lente de Lincoln, com o corpo debilitado pelos jejuns, o espírito preso de saudades insaciáveis volve para a mãe com o gesto de uma criança cansada. Nos dias simples, passados havia muitos, no presbitério de Epworth, a sua mãe costumava designar uma hora a cada quinta-feira para palestrar com o Joãozinho. Wesley escreve:

. “Em muitas coisas já intercedestes por mim e prevalecestes. Quem sabe se, nisto também, não tenhais êxito? Se puderdes dar-me somente aquela pequena parte da noite de quinta-feira, que outrora, me destes de outra maneira, não duvido que agora me seríeis tão útil em corrigir-me o coração como fostes então em formar o meu juízo. Quando vejo quão velozmente a vida corre e quão vagarosamente vem as melhoras, convenço-me de que nunca se tem demasiado medo de morrer antes de se ter aprendido a viver”.

O Cônego Overton, que diligentemente procura abotoar a João Wesley, por todas as fases de sua vida, numa batina ritualista, insiste que Wesley nesse tempo era santo sem sabê-lo. É verdade que o próprio Wesley, que devia ter se conhecido melhor do que qualquer outro quanto à sua condição espiritual declarou depois, que nesse tempo ele estava completamente destituído da verdadeira religião; mas o Cônego Overton heroicamente insiste em defender a João Wesley contra João Wesley. Ele conta a história da diligência de Wesley em todas as ordenanças da Igreja, do seu zelo em atos de beneficência cristã, de suas elevadas aspirações pelas virtudes cristãs, e pergunta: Se isto não é ser bom cristão, então que é? Ele diz: “Se o João Wesley não era verdadeiro cristão (quando estava na Geórgia); então Deus ajude os milhões que professam e se chamam cristãos”.

Mas quem pode estudar as experiências religiosas de Wesley nesse tempo e afirmar que representam os sentimentos espirituais que a religião visa criar e que realmente cria no coração crente? Wesley, nesse tempo, vivia unicamente naquilo que se pode chamar a teoria servil da religião. Não aprendera ainda o significado da declaração: “De modo que não és mais escravo, porém filho”.

Entretanto Wesley ocasionalmente mostrava com clareza que, intelectualmente, possuía as doutrinas evangélicas. Em 1º de Janeiro de 1733, por exemplo, pregou em Santa Maria, Oxford, um sermão notável sobre “A circuncisão do Coração”; e como exposição dos ofícios do Espírito Santo na alma humana não pode ser ultrapassada, quer na força quer na clareza doutrinária; ainda ocupa lugar entre os cinqüenta e três sermões que, com as Notas de Wesley sobre o Novo Testamento, constituem o padrão teológico da Igreja Metodista em todo o mundo. Eis a definição do estado espiritual que aqui descreve:

“A circuncisão do coração é aquela disposição habitual da alma que, nas Sagradas Letras, se chama santificação, que significa claramente, ser purificado do pecado, de toda a imundícia da carne e do espírito; e, por conseguinte, ser revestido de todas aquelas virtudes que estavam também em Cristo Jesus, sendo renovado na imaginação de sua mente a ponto de ser perfeito como o é o nosso Pai Celeste”.

Seria difícil, em tão poucas palavras, fazer uma apresentação mais enfática da doutrina de “perfeição”, que é o característico – e aos olhos de muitos, o escândalo – do ministério posterior de Wesley. O próprio Wesley diz em 1765: “Este sermão continha tudo que eu agora ensino em referência à salvação de todo o pecado, e de amar a Deus de todo o coração”. Entretanto o sermão pertence ao período não iluminado de sua teologia; quando o próprio Wesley se achava aflito por constantes dúvidas quanto à sua própria condição espiritual!

No sermão de 1733 ele prossegue com a definição da fé que é o segredo da vitória Cristã. “É, diz ele, um assentimento inabalável a tudo que Deus tem revelado nas Escrituras; e especialmente àquelas verdades importantes, a saber, que Jesus Cristo veio a este mundo para salvar aos pecadores; levou ele próprio os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro; ele é a propiciação pelos nossos pecados; e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo”. E ai Wesley parou, mas em 1765, quando reeditou o sermão, ele acrescentou, com um significante, Nota bene, a seguinte anotação:

“É igualmente a revelação de Cristo em nossos corações a evidência divina ou a convicção do seu amor; seu amor livre e imerecido para mim, pecador; a confiança inabalável na sua misericórdia perdoadora efetuada em nós pelo Espírito Santo; confiança esta que habilita a todo o crente verdadeiro em testemunhar: ”eu sei que o meu Redentor vive“; que tenho para com o Pai um Advogado, e Jesus Cristo é meu Senhor, e é a propiciação pelos meus pecados. Sei que ele me ama, e deu-se a si mesmo por mim; e ele me reconciliou com Deus, e tenho a redenção mediante o seu sangue, a saber, o perdão dos pecados”.

Por fim Wesley havia endireitado os seus pronomes! Estas palavras são vibrantes com a nota essencial do Cristianismo; o acento pessoal, a cadência triunfante! Aqui o propósito mais central e divino da redenção de Cristo tornou-se realidade na experiência humana. A fé não é simplesmente o assentimento intelectual a certas proposições teológicas ou históricas; é antes a alegre confiança da alma pessoal num Salvador pessoal. Mas é esta justamente a nota que faltava no sermão de 1733, e faltava também na própria experiência de Wesley até aquela data. É mui instrutivo notar aquele pequeno mosáico, no qual está traçada a alegre experiência de Wesley em 1765 – experiência esta que já havia durado mais de um quarto de século posto como testemunha no meio das sentenças áridas do sermão de 1733.

Outra ilustração das curiosas oscilações teológicas de Wesley nesse período – a maneira em que, ao passo que apanhava intelectualmente a verdade evangélica, falhava por completo em torná-la uma realidade na experiência – acha-se no contraste entre o primeiro livrinho que jamais publicou, um livro de orações publicado em 1733, e a segunda obra original que veio à luz uns dezoito meses depois, o sermão sobre “Os Trabalhos e o Descanso dos Bons”.

As orações mostram um verdadeiro fervor evangélico; pela visão, clareza, simplicidade e beleza, são incomparáveis. Mas no sermão de 1735 Wesley é outra vez o ritualista, pendendo de novo para o domínio da teologia sacerdotal. A perfeita santidade, ele declara, “não se acha na terra. Certos restos da nossa enfermidade sempre serão sentidos”. E então pergunta: “Quem nos livrará do corpo desta morte?" A sua resposta curiosamente antievangélica é: “a morte destruirá de vez todo o corpo de pecado”.

A morte, em suma, é o Cristo da alma, e o único libertador que a alma jamais conhecerá. É evidente que Wesley nesse tempo não possuía a visão clara e nítida da verdade cristã, verificada pela própria experiência. Oscilava, qual o pêndulo, entre concepções contraditórias.

Uma ilustração esquisita dessas oscilações acha-se numa correspondência, um tanto absurda, que Wesley mantinha nesse tempo com uma mulher que no correr dos anos atingiu a fama social e literária – Maria Granville, depois Madama Pendarvis. Era mais velha que Wesley por três anos, viúva jovem e fascinante, sobrinha do Lorde Lansdowne, rica, espirituosa e bonita. EIes encontraram-se em casa dos Kirkhams, e o jovem lente do colégio de Lincoln e a jovem viúva brilhante e catita (elegante) encetaram uma correspondência; Wesley, sob o nome de “Cyro”, e Maria Granville, sob o de “Aspásia”.

Durante meses “Cyro” e “Aspásia” trocavam cartas nas quais corre uma curiosa mistura de teologia e de sentimentos pessoais que se aproximam de um namoro. Cyro diz: “Contai-me, Aspásia, se será mal que o meu íntimo coração arda ao lembrar-me das muitas provas de estima que já me mostrastes”. Então exorta a Aspásia a orar por ele, e discute com ela certos problemas teológicos. Aspásia escreve: “Ó Cyro! Fazeis uma tão linda defesa! E como estais adornados com a beleza da santidade”. Mais tarde Aspásia queixa-se que “o Cyro já me apagara da memória”.

Existe uma curiosa mistura de discussão doutrinária com sentimentos mui humanos nesta correspondência, e Cyro estava em iminente perigo de fundir o teólogo no namorado. Deveras ele às vezes passava os limites, e a própria viúva – embora tarde demais, e somente quando Wesley passara para outro domínio de sentimento – estava visivelmente bem disposta a difundir um calor mui humano em suas cartas.

Aqui transparece algo dos modos de Wesley em relacionar-se com o belo sexo, pois, nota-se que esta correspondência com a Aspásia floresceu do tronco de uma correspondência anterior – com Miss Betty Kirkham, Correspondência, na qual pulsava um mui definido amor humano. Betty Kirkham era irmã de seu amigo de colégio; e é quase certo que Wesley a amava a seu modo temperado, e que teria se casado com ela. Mas algum contratempo – talvez a autoridade paterna de um ou de outro lado – intervinha, e Betty Kirkham casou-se com outro, morrendo pouco tempo depois.

Foi na casa dos Kirkham que Wesley encontrou a madame Pendarvis. Quando Wesley correspondia com Betty Kirkham lhe apelidara de Varanese; e as suas primeiras cartas à Aspásia estão cheias de referências “À minha Varanese” e “À minha querida Varanese”. Entretanto, Wesley vigiava cientificamente a suas próprias emoções, como namorado; e dizia a Aspásia: “Não posso deixar de notar com prazer a grande semelhança que existe entre as emoções que sinto agora em escrever a Aspásia e as que freqüentemente me trasbordavam o coração quando comecei a relacionar-me com a nossa querida Varonese.”

É mais uma prova que Wesley não possuia o pleno senso de humor. Seria de se esperar que uma moça sentisse qualquer interesse na circunstância do seu correspondente achar-se possuído exatamente das mesmas emoções que antes sentira em outro namoro já perdido? Durante toda a vida, Wesley nunca se aproxima tanto ao absurdo como quando se acha enamorado ou está no começo de um namoro. Talvez nunca sentisse o amor no sentido geral da humanidade. Mas foi criado numa família singularmente rica em influências femininas. Conhecia, como bem poucos poderiam ter conhecido, quão viva e espirituosa é a inteligência da mulher, e quão terno é o seu afeto, e quão clara é a sua penetração espiritual. E durante a sua vida toda eIe procurava com avidez as amizades de mulheres puras e jeitosas.

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** (Esse texto corresponde aos capítulos VII (Uma nota mais Ressonante) e VIII (A religião que fracassou), do livro "Wesley e seu século – um estudo de forças espirituais", volume I, respectivamente nas páginas 79 a 91 e 92 a 100, Edição de 1916 publicada pela Typographia de Carlos Echenique, Porto Alegre, RJ).

OBS: Esse livro originalmente não usa parênteses. As notas explicativas dentro de parênteses são de iniciativa dessa edição on line do site da Igreja Metodista de Vila Isabel.

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