IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Joćo Wesley
Rio, 19/1/2009
 

O que aconteceu com Joćo Wesley imediatamente antes e depois da noite de 24 de maio de 1738?** (Rev. W. H. Fitchett)

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Wesley voltou da América para Londres visivelmente derrotado. O seu ministério na Geórgia falhara; o seu caráter fora desprestigiado; o seu futuro parecia obscuro. Wesley não era exatamente um foragido da justiça, mas o próprio rebanho em Savannah empregara a lei para afugentá-lo de suas plagas (terras, região). Chegaria à Inglaterra grandemente desacreditado; e nas meditações durante os dias longos e monótonos da sua viagem de volta, Wesley via tudo isto mui claramente. A sua carreira estava prejudicada, senão arruinada. Mas Wesley seria o último homem no mundo a incomodar-se por causa de qualquer prejuízo à sua reputação ou bolsa ou carreira secular. A tragédia da sentença, eIe o sentia, achava-se no fato que eIe era um fracasso espiritual. A sua religião, apaixonadamente zelosa, intensamente heróica e disposta a todo o sacrifício, não lhe dava nem a paz no próprio coração, nem o poder de alcançar os corações de outros.

Eis a amarga análise de sua própria condição neste momento:
“Terça-feira, 24 de Janeiro de 1738. – Tenho uma bela religião de verão. Falo bem; sim, eu mesmo creio, enquanto não existe perigo. Mas no momento que a morte me encara, o meu espírito se vê atribulado. Não posso dizer que o morrer é ganho. Tenho um pecado de temor (medo, pavor) que depois de ter estendido a última teia eu venha a morrer na praia! Penso sinceramente que se o Evangelho é verdade, então sou salvo; pois eu não somente dou todos os meus bens para alimentar os pobres; não somente dou o meu corpo para ser queimado, afogado ou qualquer coisa mais que Deus me proporcionar; mas eu sigo a caridade (não como devo, mas como posso), se porventura eu conseguir atingi-la. Agora creio que o Evangelho é verdade. Mostro a minha fé pelas obras, a ponto de arriscar tudo sobre ela. Isto eu repetiria até mil vezes, se ainda pudesse escolher. Quem me vê, descobre que eu quero ser cristão. Por isso os meus caminhos não são como os de outros homens. Portanto, tenho sido e ainda estou contente em ser um vitupério (vergonha, infâmia) e um provérbio de mofa (zombaria). Mas num temporal, eu penso, e que será se o Evangelho não for Verdade?!”

É esta uma narração amarga; salienta a sombra em que Wesley então vivia.

Wesley também se sentiu só, nesta triste viagem; Delamotte ficou na América; Carlos Wesley e Ingham já se achavam na Inglaterra. Wesley não teve outra camaradagem senão os seus próprios pensamentos amargos; e a sua profunda depressão se vê refletida em cada linha do seu Diário. Ele se descreve como sendo “triste e mui pesaroso, embora não possa dar disso qualquer razão”. Nota em si um “temor e pesar que quase de continuo lhe acabrunham”. Vê-se a mais pungente (lancinante, comovente, dolorosa) dor nas sentenças que ele escreve no seu Diário: “Fui à América para converter os índios; mas, ai! Quem me converterá a mim?” Ele prossegue deliberadamente em fazer um inventário de si mesmo, e o faz com uma severidade que é pouco menos que cruel. É necessário citá-lo em cheio, com as notas em parênteses e em grifo, que o próprio Wesley acrescentou anos depois, e que representam a sua mais amadurecida opinião de si mesmo:

“Diário de 29 de Setembro de 1736. – Passa de dois anos e quase quatro meses que deixei a minha pátria nativa, a fim de ensinar aos índios da Geórgia a natureza do Cristianismo; mas, eu mesmo, que tenho aprendido? Isto (que eu menos suspeitava), que eu mesmo, indo à América para converter a outros, nunca fora convertido a Deus (não tenho certeza disso). Não estou louco por falar assim; mas profiro palavras de verdade e de perfeito juízo; que porventura alguns dos que ainda dormem despertem-se, e vejam que se encontram como eu me acho.“

“São doutos em filosofia? Também eu era. Em línguas modernas e antigas? Também eu. São versados na teologia? Eu também a tenho estudado por muitos anos. Podem falar fluentemente de coisas espirituais? Eu também fazia o mesmo. São abundantes em esmolas? Eis que dei todos os meus bens para alimentar os pobres. Dão o seu trabalho bem como os seus bens? Eu tenho trabalhado mais do que todos eles. São prontos a sofrer pelos irmãos? Eu deixei amigos, reputação, conforto, pátria. Tenho tomado a própria vida na mão, peregrinando em terras entranhas; dei o meu corpo para ser devorado pelo abismo, queimado pelo calor, consumido pelo cansaço e fadiga, ou qualquer outra coisa que Deus queira me mandar. Mas tudo isto (seja mais seja menos, não me importa) pode fazer-me aceitável a Deus? Tudo que eu jamais soube ou que possa saber, dizer, dar, fazer ou sofrer pode justificar-me à sua vista? Ou o uso constante de todos os meios de graça (que, entretanto, é direito, justo e do nosso estrito dever)? Ou que nada saiba contra mim mesmo; no tocante à justiça moral, eu seja exteriormente inculpável? Ou, para ser mais explícito, a posse de uma convicção racional de todas as virtudes do Cristianismo? Tudo isto me dá o direito ao caráter santo, celeste e divino de um Cristão? De modo nenhum. Se são verdadeiros os oráculos de Deus; se ainda vamos ”à Lei e ao Testemunho”, tudo isto, sendo enobrecido pela fé em Cristo (eu tinha então mesmo a fé de servo, mas não a de filho), é santo, justo e bom. Mas na ausência da fé é, como a escoria e o refugo, só digno do fogo que nunca se apagará.”

“Isto, então, aprendi nos confins da terra, que sou ”destituído da glória de Deus”, que todo o meu coração é corrupto e abominável e, por conseguinte, o é a minha vida inteira; visto que “a árvore má não pode dar bons frutos”: que alienado, como me acho da vida de Deus, sou filho da ira” (creio que não); herdeiro do inferno; que as minhas próprias obras, os meus próprios sofrimentos e a minha própria justiça são tão inadequados para reconciliar-me com o meu Deus ofendido, tão inadequados para fazer qualquer propiciação pelos menores dos meus pecados – que são mais númerosos do que os cabelos da minha cabeça – que os mais preciosos entre eles necessitam de uma propiciação para si mesmos, de outra forma, nunca poderão subsistir no justo juízo de Deus ...“

“Se alguém disser que eu tenho fé, (pois muitas coisas tais tenho ouvido de muitos conselheiros miseráveis), eu respondo, também os demônios o têem – uma espécie de fé; mas ainda são “estranhos às alianças da promessa”, também os Apóstolos em Caná da Galiléia, onde Jesus “manifestou a sua glória”, em certo sentido, “creram nele”; mas não tiveram “a fé que vence o mundo”. A fé que eu quero é (a fé do filho) um pleno descanso e confiança em Deus, que, pelos méritos de Cristo, meus pecados são perdoados, eu mesmo sou reconciliado a graça de Deus.”

Isto, mesmo depois da inserção das notas qualificativas de uma data posterior, constitui uma terrível descrição de si mesmo. Mais tarde podemos indagar se a sentença que Wesley passou sobre si mesmo, nesse espírito de depressão, fora inteiramente acurada; mas neste meio tempo, o seu espírito mesmo é digno de nota. O seu orgulho já se fora. A consciência de seu fracasso e de sua derrota é completa. EIe sabe que o Cristianismo contem algo não atingido ainda. O seu espírito sente a completa humilhação de si mesmo:

“Todas as minhas obras, toda a minha justiça, as minhas orações carecem de uma propiciação em si mesmas; de modo que a minha boca está fechada. Não tenho atenuação alguma que eu possa oferecer. Deus é Santo; eu sou impuro. Deus é um fogo consumidor; eu sou de todo pecador, digno de ser consumido”.

O Wesley que embarcou para Geórgia em 1735 e o Wesley que voltou para Inglaterra em 1738 são assim homens inteiramente diferentes. Wesley havia posto a sua teologia à prova, à prova da vida prática e ela falhara. Não conseguira a conversão dos índios; aprendera unicamente que ele mesmo não fora convertido. Deve haver alguma falta fatal no seu credo ou em seus métodos. O segredo essencial do Cristianismo – o seu dom de paz para a consciência, e de poder sobre os homens – lhe escapara. Porque havia feito fracasso? Que seria aquilo que convertera uma coragem tão singular, uma devoção tão nobre, um tão esplendido altruísmo em um mero fracasso? Aquele que descobrir o segredo do fracasso de Wesley terá chegado ao próprio coração do Cristianismo.

Esta nova convicção tinha, indubitavelmente, certas vantagens. Pelo menos, a teologia de Wesley já deixava de oscilações. Como vimos, ele já abandonara o misticismo; já enxergara a sua natureza mortífera. O seu ritualismo, também, falhara. Havia somente gerado porfias. O seu próprio legalismo austero havia deixado a alma sem alimentação. Este asceta descobrira que um corpo castigado não assegura a paz da alma. E deste ponto a consciência e a inteligência de Wesley oscilaram definitivamente para a interpretação evangélica do Cristianismo.

Tudo isso foi, visivelmente, uma fase num grande desenvolvimento espiritual. Wesley se preparava para o toque de outro mestre, e para a entrada de uma nova experiência em sua vida.

Quando Wesley aportou em Londres, o navio que ia levar George Whitefield para a América estava ancorado pronto pra zarpar. Wesley havia antecipado a inspiração da camaradagem de Whitefield; e sentia uma relutância em mandar um homem tão bom para o trabalho ingrato que eIe mesmo abandonara em Savannah. Ele prontamente enviou uma nota a Whitefield que já estava a bordo do navio, na qual dizia: “Quando vi que Deus me fazia entrar pelo mesmo vento com que estáveis saindo, pedi conselhos a Deus. E tendes aqui a resposta”.

Envolvido na nota havia um pedacinho de papel com os dizeres: “Que volte a Londres“. Wesley tinha resolvido a questão da ida ou da permanência de Whitefield pelo sorteio, e o resultado fora para ele não ir à América. Mas Whitefield possuía um sorteio próprio, e logo lembrou-se da história do profeta – no Livro dos Reis – que voltou ao pedido de outro profeta e, em conseqüência, foi devorado pelo leão; esta lembrança fê-lo decidir em continuar a sua viagem; e Wesley na época mais critica da sua vida foi deixado sem o seu grande camarada.

Whitefield a este momento estava na manhã (começo) de sua maravilhosa popularidade na Inglaterra. Era pouco mais do que rapaz, entretanto multidões ficavam encantadas com a música de sua palavra. E o contraste entre Wesley que se arrastava de volta à Inglaterra como homem derrotado e de espírito quebrantado, e o Whitefield que partia no mesmo instante rodeado do nimbo (esplendor, auréola) de uma popularidade brilhante, é quase dramático.

Wesley desembarcou em Deal na manhâ de 1° de Fevereiro e logo dirigiu oração e pregou na casa onde se hospedava.Tudo mais poderia ter-se escurecido no seu céu espiritual, mas sempre resplandecia com grande clareza o ponto do dever. Fosse ou não fosse feliz a sua própria condição espiritual, ele precisava se esforçar em concertar a condição espiritual de outros. Vivia no espírito das palavras que mais tarde ele colocou no serviço de consagração que havia de ser lido anualmente em todas as igrejas que fundou: “Se eu morrer, hei de morrer à tua porta. Se eu tiver de me afundar, hei de afundar-me com o teu navio”.

Seguiu logo para Londres onde tinha de prestar, contas com os diretores da Colônia de Geórgia. Ali encontrou o seu irmão Carlos, que ficou mui surpreendido com a sua chegada. O seu conhecimento dos moravianos em Savannah naturalmente fê-lo procurar os moravianos em Londres, e, na terça-feira, 7 de fevereiro – “um dia mui digno de ser lembrado”, como diz no seu Diário – encontrou-se em casa de um negociante holandês, com Pedro Bohler, homem este que havia de influir grandemente sua vida.

Bohler fora educado na Universidade de Jena, e unira-se aos moravianos quando ainda rapaz. Fora ordenado como missionário moraviano pelo Conde Zinzendorf, e estava de caminho para a Carolina, na América, quando Wesley o encontrou. Ele estava então fazendo discursos, por um intérprete, a auditórios pequenos em Londres, e uma estranha influência espiritual acompanhava as suas palavras.

Wesley e Bohler se reconheciam mutuamente, quase desde o momento do seu primeiro encontro, como sendo espíritos aparentados. O moraviano descreve a Wesley ao Conde Zinzendorf como sendo “homem de bons princípios que sabia que não estava crendo eficazmente no Salvador, e queria ser ensinado”. De Carlos Wesley ele diz: “ele está presentemente muito perturbado em espírito, mas não sabe como começar em fazer-se conhecido do Salvador. O nosso modo de crer no Salvador parece tão fácil aos ingleses, que não se podem conformar com ele. Se fosse um pouco mais difícil, com muito mais pressa achariam o caminho”. “EIes se supõem já crentes”, disse o jeitoso e sincero Moraviano, “e se esforçam em provar a sua fé pelas suas obras, e assim se atormentam de tal modo que os seus corações ficam muito atribulados “.

Wesley acompanhou a Pedro Bohler até Oxford, e escutou avidamente os ensinos do seu novo amigo. Ele suspeitou vagamente que aqui, alfim (finalmente), estava o segredo, que por tanto tempo lhe escapara. Entretanto as palavras simples do moraviano soavam nos ouvidos de Wesley como os acentos de uma língua estranha. Diz ele: “eu não entendi, e muito menos ainda quando me disse: “Mi frater, mi frater, exco quendo est isto tua philosophia”. Que fizera à filosofia de Wesley que merecesse ser assim lançada fora!

Mas Wesley queria ser ensinado e aos 4 de março anota em seu Diário que passou um dia com Pedro Bohler, “por quem, nas mãos do grande Deus, eu fui, no domingo, 5, claramente convencido da incredulidade; da falta daquela fé pela qual somos salvos”. Mais tarde, Wesley diz: “Bohler ainda mais me surpreendeu por suas descrições que fez dos frutos da fé, do amor, da santidade e da felicidade que ele afirmava serem seus assistentes”. Wesley francamente aceitava este ensino; a verdadeira fé tem de produzir estes frutos. Mas Wesley era sempre o lógico, e redargüia (argüia, questionava, interrogava) a si mesmo: ”Como posso pregar a outros, quando eu mesmo não tenho fé?” O conselho de Bohler era direto e prático: “Pregai a fé até que a tenhas e, tendo-a, forçosamente haveis de pregar a fé”.

Coleridge sofisma (se engana, interpreta enganosamente) estas palavras, dizendo que isto importava dizer-se (que o que foi dito por Bohler a Wesley era o mesmo que): “Mintais com bastante freqüência e por bastante tempo e forçosamente e chegareis ponto de crê-lo”. Mas Coleridge não compreende nada do sentido do conselho de Bohler! Wesley não estava no humor de sofismar. “Logo no dia seguinte, segunda-feira, 6 de março”, diz ele “comecei a pregar esta nova doutrina, ainda que minha alma recuasse do trabalho. A primeira pessoa a quem eu oferecia a salvação unicamente pela fé foi um preso sentenciado à morte”, e Wesley confessa que achou a tarefa neste caso ainda mais difícil, porque “por muitos anos eu havia afirmado zelosamente a impossibilidade do arrependimento na hora da morte”. O sentenciado prontamente refutou as dúvidas de Wesley por aceitar a nova doutrina, e, na força divina que esta aceitação gerou, mostrou “um bem comportado contentamento e uma paz serena” quanto estava no próprio patíbulo.

Wesley ficou convencido que o ensino de Bohler, quanto à fé e os seus frutos era “escriturístico” (estava em consonância com o ensinado nas Escrituras Sagradas); sim, era a doutrina da Igreja Anglicana. Mas permaneceu ainda uma dúvida: "Como seria possível que o grande processo da passagem do homem, da morte para a vida, se efetuasse num momento?” Entretanto, Wesley por um exame, achou que quase todas as conversões registradas no Novo Testamento foram instantâneas. Mas bem podia ser que, o que fosse comum no primeiro século tivesse se tornado impossível no século XVIII. Mas “no domingo 22 de março”, Wesley anota, “fui tocado deste abrigo também, pela evidência concorrente de várias testemunhas vivas, que testemunharam que Deus havia assim operado nelas mesmas, dando-lhes, num momento, uma tal fé no sangue do seu Filho que foram transladadas das trevas para a luz, do pecado e temor para a santidade e a felicidade. “Aqui” diz eIe, “findaram-se os meus debates. Eu só soube dizer: Senhor, ajuda a minha incredulidade!”

Durante todos esses dias de perturbações e pesquisas, de dúvidas e suspiros, o zelo de Wesley no trabalho prático nunca minguava; antes se tornava cada vez mais urgente. Fosse qual fosse a sua própria condição espiritual era necessário que ele advertisse a outros dos seus perigos e deveres. A todos – homem ou mulher, rico ou pobre que ele encontrasse, mesmo que fosse só por um momento – eIe falava alguma palavra pelo Mestre. O viandante (viajante) no caminho, o peão que lhe segurava as rédeas do cavalo, a criada da casa, o hóspede que por acaso se achava à mesa – a cada um, por sua vez, ele dava alguma palavra breve, solene, e imprevista de conselho, e sempre com estranho efeito.

Numa casa de pasto (casa onde se come, restaurante, pousada), Wesley e seus companheiros foram servidos por uma moça jovial, que a princípio lhes escutava com a maior indiferença. Entretanto, quando iam se retirando, “eIa Ihes fitou os olhos, sem mover-se nem dizer uma palavra sequer: parecia tão admirada como se visse alguém ressurgir dentre os mortos”. E devia ter havido algo para suscitar a admiração e para surpreender, nestes reptos (desafios) repentinos e inesperados de Wesley. A sua aparência – o rosto delgado, claro e intenso, o olhar forte e penetrante, as vestes clericais, a testa do estudante, o modo de falar de um nobre – tudo isto dava um poder surpreendente ao apelo repentino e sem prefácio, que parecia romper da eternidade, e ter algo, da solenidade da eternidade.

Carlos Wesley já achara o livramento espiritual que buscara. Estava se recuperando de uma pleurisia (inflamação da pleura, a dupla membrana que envolve os pulmões); e quando a alegria do novo nascimento lhe trasbordou a alma, Wesley diz que “a sua força física, também, voltou desde essa hora”. Coleridge considera isso como sendo uma inversão de causa e efeito, julgando que simplesmente desapareceu a pleurisia, e que Carlos Wesley tomou as melhoras de saúde por uma mudança espiritual. No mal interpretado fermento dessa pleurisia desaparecida, Carlos Wesley, no pensar de Coleridge, viveu de alguma maneira até o fim de seus dias! Tão simplesmente um grande filósofo sabe explicar os fenômenos espirituais?

A conversão de Carlos Wesley foi assinalada por um incidente curioso. Ele se achava de cama, triste, doente e acabrunhado; tremendo à beira de uma fé que ainda não soube exercer. Uma mulher devota na casa, que ajudava em cuidar dele, sentia-se impulsionada a falar-lhe algumas palavras para confortá-lo. Mas ele, sendo ministro, e ela apenas uma criada; como poderia ela se aventurar um tal atrevimento?

EIa foi em particular ao Sr. Bray, em cuja casa CarIos Wesley se achava, e entre lágrimas lhe contou do impulso que com tanta energia a oprimia, e perguntou como eIa, uma criatura tão pobre, fraca e pecaminosa, poderia empreender a direção de um ministro?

O Senhor Bray respondeu: “Vai em nome do Senhor; dize as tuas palavras. Cristo fará a sua obra”.

Ambos se ajoelharam e oraram junto; mas depois de separarem, a mulher ajoelhou-se sozinha e orou de novo. Então dirigindo-se com passos tímidos até a porta do quarto em que Carlos Wesley jazia doente, ela disse suave, mas distintamente: “Em nome de Jesus, o Nazareno, levanta-te! Tu serás curado de todas as tuas enfermidades!”. Carlos Wesley, segundo a sua própria narração, estava conciliando o sono quando essas palavras, de lábios invisíveis, lhe feriram os ouvidos. “Elas me emocionaram”, diz ele, “até o coração, nunca ouvi palavras pronunciadas com semelhante gravidade. Suspirei, e disse comigo: ó que Cristo me falasse assim! Continuei deitado, pensativo e tremente”.

Ele indagou, e logo a pobre criada disse: “Fui eu que falei, pobre criatura pecaminosa que sou; mas as palavras são de Cristo. Ele me mandou dizê-las, e me constrangeu tão fortemente que não pude resistir”.

E essas palavras pronunciadas por uma mulher ignorante, sob esse impulso misterioso, trouxeram o livramento espiritual a Carlos Wesley!

Neste tempo Wesley começou a refletir quão mal os seus mestres haviam lhe servido. Ele se sentara aos pés de Thomas Kempis, de Jeremias Taylor e de Guilherme Law. Ele fora um dos estudantes mais dóceis; seguira-lhes o conselho, custasse que custasse, e lhe deixaram falido! Kempis e Taylor estavam além do seu alcance, mas Guilherme Law ainda vivia. Era realmente o mestre de milhares; e Wesley virou-se para ele com uma espécie de repto (desafio) severo despertado pela consciência dos anos perdidos; e pela memória dos sofrimentos inúteis. “Durante dois anos”, diz ele escrevendo a Law, “vivi segundo a sua teologia, e a ensinava a outros”. Para o próprio Wesley fora um jugo insuportável, e para aqueles a quem Wesley pregara havia sido um som ininteligível. Wesley, pela misericórdia de Deus, achara por fim um mestre, mais sábio, que lhe ensinara o verdadeiro segredo do Cristianismo: “Crê e serás salvo! Crê no Senhor Jesus com todo o teu corarão, e nada te será impossível; despe-te completamente de tuas próprias obras e justiça, e foge para Ele”.

Neste ensino Wesley via a promessa de satisfação para todas as suas precisões (carências, necessidades).

EIe agora se dirige a Law: “Permita-me perguntar, como hás de responder ao nosso Senhor comum por nunca teres me advertido disso? Por que tão raramente eu te via falar no nome de Cristo; e nunca de um modo que predicasse coisa alguma de fé no seu sangue? Se disseres que me aconselhavas de outras coisas preparatórias para isto, que importaria tal proceder senão deitar alicerce sob o alicerce? Cristo não é o primeiro bem como o último? Se disseres, que me aconselhavas essas coisas porque sabias que eu já possuía a fé, então, deveras, não me conhecias em nada; não discernias o meu espírito em coisa alguma“.

Wesley prossegue, “Rogo-te, sr. pela compaixão de Deus, que consideres profunda e imparcialmente se a verdadeira razão por não teres me instado a isso não seja justamente por nunca a teres possuído?”

Talvez nunca houvera antes um grande mestre tão bruscamente chamado a contas por seu próprio discípulo!

Law, respondendo a Wesley, fê-lo lembrar que tivera outros mestres, os quais, sob bases iguais ele poderia chamar a contas. Perguntou-lhe: “Há cerca de dois anos não fizeste uma nova tradução de Thomas A. Kempis? Queres chamar a Kempis para dar contas e para responder a Deus por não ter te ensinado essa doutrina, como fizeste comigo?”

Mas Law prossegue, afirmando que havia ensinado a Wesley exatamente o que Bohler lhe ensinara. “Já tivestes muitas conversas comigo, e ouso dizer que nunca estiveste comigo por uma meia hora sequer sem eu me dilatasse nesta mesma doutrina da qual me fazes calado e ignorante”. Law era polemista tão formidável como o próprio Wesley, e findou a carta com uma lançada severa:

“Se possuíres esta fé somente por poucas semanas, deixa-me advertir-te que não sejas demais pronto em crer que, por teres mudado de linguagem ou de expressões, mudastes também de fé. A cabeça pode se divertir tão facilmente com a fé viva e justificadora como com qualquer outra coisa; e o coração que supões ser lugar seguro, por ser a sede do amor próprio, é mais enganoso do que a cabeça”.

A aspereza repentina com que Wesley tratou a Law é de fácil compreensão; e ainda poderemos nos simpatizar com a defesa de Law. Law falhara por completo; os seus ensinos custaram a Wesley anos de sofrimentos inúteis; entretanto a culpa não estava inteiramente com o mestre. É verdade que nos livros de Law, e, sem dúvida nas suas conversas pessoais com Wesley, havia freqüentes e plenas exposições do plano evangélico de salvação. Mas a ênfase estava em outro ponto. Não havia perspectiva real na teologia de Law. E Wesley não se achava naquele humor amolecido, proveniente da consciência de um fracasso completo, no qual Bohler o achara, e que explica porque a doutrina de Bohler se provara tão instantaneamente efetiva. Em suma, o segredo do fracasso de Law como mestre achava-se em grande parte na condição espiritual do seu discípulo.

Mas Wesley estava no limiar de uma nova vida. A quarta•feira, 24 de maio de 1738, foi para eIe o grande dia de livramento, e ele o tem descrito em palavras que já se fizeram históricas. Por dias buscara a paz, como Bohler lhe ensinara; “(1) por renunciar absolutamente toda a dependência, quer total quer em parte, de minhas próprias obras ou justiça, nas quais eu havia confiado para a salvação, embora eu não conhecesse, desde a minha mocidade; (2) por acrescentar ao constante uso de todos os mais meios de graça a constante oração, que Deus me desse a fé justificadora ou salvadora; uma mais plena reclinação sobre o sangue de Cristo derramado por minha causa; uma confiança nele como sendo a minha justificação, santificação e redenção”. Mas ainda pairava sobre ele uma estranha indiferença, moleza e frieza, e um senso constante de fracasso. Mas a madrugada de uma grande e nova experiência aproximava-se.

Durante todas as horas do dia memorável de sua conversão é curioso notar-se, Wesley escutava solicitamente como se uma voz lhe chamasse desde o mundo eterno. Parecia ouvir por toda parte algum eco profético de uma mensagem que vinha. O próprio ar parecia cheio de premonições e vozes suaves. Quando abriu o Novo Testamento às cinco da manhã, eIe nos conta como os olhos caíram sobre as palavras: “Ele tem nos comunicado as suas preciosas e grandes promessas, para que por eIas, vos torneis participantes da natureza divina”. Um pouco antes de sair do seu quarto Wesley outra vez abriu o livro, e com a força de uma mensagem pessoal brilhou sobre ele desde a página sagrada à sentença: “Não estás longe do reino de Deus”. Estas vozes estranhas pareciam segui-lo por toda à parte. No Salmo na Igreja de São Paulo ele ouvia traduzido na tempestuosa música o clamor do seu próprio coração, “Das profundezas a ti clamo, ó Senhor. Senhor, escuta a minha voz: sejam os teus ouvidos atentos à voz das minhas súplicas”. Então através do canto do bom coro, a trovoada do órgão, corria, qual fio delgado, uma música ainda mais divina, uma mensagem pessoal, uma voz que lhe respondia suavemente: “Espere, Israel, no Senhor, porque no Senhor há misericórdia, e nele há abundante redenção. E ele remirá a Israel de todas as suas iniqüidades”. ”À noite”, diz ele, “eu fui, muito contra a vontade, à sociedade na Rua Aldersgate, onde alguém lia o prefacio de Lutero à Epístola aos Romanos”, e mais de dois séculos depois o grande alemão (Lutero) falou ao grande inglês.

O que seguiu deve ser contado nas próprias palavras de Wesley:
“Faltava cerca de um quarto para às nove horas da noite (20:45h), enquanto ele (o texto de Lutero) descrevia a mudança que Deus efetuou no coração pela fé em Cristo; eu senti o meu coração estranhamente aquecido. Senti que realmente eu cria em Cristo, em Cristo só, pela salvação; e foi-me concedido a certeza que ele me tirava os meus pecados, sim, os meus, e me salvava da lei do pecado e da morte. Comecei a orar, até onde podia a favor daqueles que haviam me desprezado e perseguido, da maneira mais acentuada. Então dei o meu testemunho abertamente a todos que ali estiveram daquilo que eu agora sentia no coração pela primeira vez. Mas não passou muito tempo até que o inimigo sugerisse: “Isto não pode ser a fé; pois onde está o gozo?” Então fui ensinado que a paz e a vitória sobre o pecado são essenciais à fé no Capitão da nossa salvação (Jesus); mas acerca dos transportes de gozo que geralmente se dão no começo, especialmente nos que tenham sido profundamente entristecidos, Deus às vezes os dá, às vezes os retém, segundo os conselhos de sua própria vontade”. (Diário de Wesley, 24 de Maio de 1739).

As flutuações na alegria de Wesley nesses primeiros momentos de livramento realmente provam o parentesco de Wesley com os corações crentes em todos os séculos. Talvez a natureza humana não seja capaz de sustentar um gozo perpétuo e intenso. Mas Southey serve-se desta feição da experiência de Wesley para basear um argumento contra a sua genuinidade. “Aqui”, diz ele, “está uma contradição manifesta nos termos, uma certeza que não lhe deu certeza”.

Coleridge, como acontece com curiosa freqüência, discorda tanto de Southey como de Wesley:
“Esta certeza”, diz ele, “não era muito mais do que a forte pulsação ou latejo da sensibilidade, acompanhando a veemente volição (querer, desejo, ato pelo qual a vontade se determina a alguma coisa) de aquiescência (consentimento, assentimento, anuência), desejo ardente de achar verdade uma certa idéia, e a resolução concorrente em recebê-la por verdade. Que a mudança efetuou-se no meio de uma companhia de pessoas toda altamente excitadas me fortalece e confirma na explicação”.

É claro, pois que Coleridge inventa os seus fatos. Não havia excitação alguma na pequena companhia onde somente uma voz se ouvia, lendo nada mais excitante do que uma pequena exposição traduzida do alemão. Mas ao passo que Coleridge desconfia de Wesley, também contradiz o Southey. Diz ele: “Certamente é fazer a palavra “certeza” absoluta demais quando se afirma a sua incompatibilidade com qualquer sugestão intrusa da memória ou do pensamento”. Há um rasgo de penetração real nestas palavras.

Carlos Wesley não estava presente na saleta da rua Aldersgate no momento supremo da vida do seu irmão. Ele se achava em casa doente e estava em oração. O primeiro impulso de João Wesley e dos que o rodeavam era levarem as boas novas ao irmão menor.

Carlos Wesley escreve: “Cerca das dez horas (22h) o meu irmão foi me trazido em triunfo por um grupo de amigos, e declarou:” ”eu creio”. Cantamos um hino com grande gozo e nos separamos com oração “.

Supõe-se que o hino que cantaram foi aquele que começa “:
“Where shall my wordering soul begin:
How shall I all to heaven aspire?
A sIave redeemed from death and sin,
A brand plucked from eternaI fire.
How shall I egual triumphs praise.
Or sing my great Deliverer's praise.”

Ou,
“Onde começará a minha alma admirada:
Com aspirar ao céu inteiro?
Um escravo remido da morte e do pecado,
Uma tocha tirada do fogo.
Como posso elevar triunfos dignos,
ou cantar os louvores do meu Libertador? “


Carlos Wesley acabara de escrever este lindo hino no fervor de sua própria conversão, e foi publicado alguns meses mais tarde. A sua música percorre toda a história do Metodismo; a experiência que ele reflete, é repetida onde há almas humanas que recebem a Cristo com uma fé inteligente.

É interessante notar as relações históricas da conversão de Wesley. As duas reformas – a de Alemanha e a da Inglaterra – tocam aqui. Realmente tocaram em época ainda mais remota. Quem deseja traçar o grande movimento espiritual que, sob Lutero transfigurou a Alemanha e criou o Protestantismo tem de ir além de Lutero até chegar a um outro presbitério de Líncolnshire – a Lutherworty, onde João Wycliffe traduziu a Bíblia para o Inglês, e tornou-se o centro do grande movimento espiritual que durante o século XIV alastrou-se pela Inglaterra. O reformador inglês Wycliffe influiu quase tão poderosamente na Alemanha como a sua terra nativa. O próprio João Huss não negou a dívida que tinha para com Wycliffe, e o Concílio de Constancia que queimou o corpo de João Huss (condenou-o a morrer queimado na fogueira como herege), ordenou que os ossos de Wycliffe fossem queimados também. O Inglês e o boêmio, ao juízo do Concilio, representavam forças gêmeas, e deviam ser castigados com a mesma pena.

Os irmãos moravianos vinham, pelas gerações turbulentas que se seguiram, por direta descendência espiritual de Huss. Lutero era seu herdeiro espiritual. E assim depois de passarem mais de trezentos anos, os ensinos de Wycliffe voltaram à Inglaterra através de Bohler. Falaram falaram a Wesley dos lábios de Lutero na pequena reunião da rua Aldersgate. Grandes dívidas são às vezes pagas abundantemente desta maneira.


O QUE ACONTECEU NO DIA 24 DE MAIO DE 1738?


Pode-se perguntar agora: O que aconteceu na saleta à rua Aldersgate na noite de 24 de maio de 1838? Algo aconteceu: algo de memorável e perdurável. Mudou a vida de João Wesley, erguendo-a como por um sopro, da dúvida para a certeza. Transformou a fraqueza em poder. Sim, e ainda tem mais, mudou todo o curso da história!

Uma testemunha puramente secular, como Lecky declara que o movimento que teve por ponto de partida a reunião da saleta nessa noite é historicamente de maior importância do que todas as vitórias esplendorosas ganhas por terra e mar sob o Pitt. Na falta dessa reunião não haveria Igreja Metodista em qualquer país, e o protestantismo dos que falam a língua inglesa, se ainda sobrevivesse – ou se não achasse outro Wesley – estaria falido de forças espirituais.

Mas a ciência exige que um efeito tamanho tenha uma causa adequada; e as causas predicadas, embora trazendo a autoridade de nomes famosos, são inadequadas a ponto de provocarem o riso. Coleridge, como já notamos, nada descobre na conversa de Carlos Wesley senão o seu restabelecimento da pleurisia (inflamação da pleura, a dupla membrana que envolve os pulmões). É representada como sendo uma baixa na temperatura do seu sangue (visto que ficou livre da febre), e não a entrada de novas forças espirituais no seu caráter. Southey é semelhantemente disposto a resolver as experiências espirituais de João Wesley em termos físicos. Ele atribui as emoções daquela grande hora na noite de 24 de maio à condição de seu pulso ou do seu estômago. Mas querer fazer do estomago de João Wesley, e não da sua alma, a cena (o local) de fenômenos tão maravilhosos, a fonte de onde irradiam forças tão extensivas, só pode ser considerado como um dos mais surpreendentes exemplos de humor inconsciente na história. As “explicações” de Coleridge e Southey nada explicam; simplesmente refletem uma relutância obstinada em admittir a existência e a validez de forças espirituais que constituem o último disfarce da incredulidade. A explicação daquela pequena reunião feita pelo próprio Wesley e daquela hora tão precisamente fixa, é que eIe foi convertido. E ele provavelmente entendeu melhor o que aconteceu do que os seus críticos que ainda nem eram nascidos.

Muitos porém, alegam que João Wesley fora convertido muito antes daquela noite. “Se João Wesley não era cristão quando trabalhava na sua rotina espiritual em Oxford e em Geórgia”, clama o cônego Overton, então, “Deus ajude a todos os que se professam e se chamam cristãos!”. Sem dúvida as multidões unir-se-ão – e deveras, com um semblante de alarme em dar ênfase ao parecer do Cônego Overton. Lembremo-nos da grande experiência que veio a Wesley depois de ter lido o “Santo Viver”, do Bispo Taylor. Ele diz: “Instantaneamente resolvi dedicar toda a minha vida a Deus – todos os meus pensamentos, palavras e ações – sendo convencido de que não existe meio termo, mas que todas as particularidades da minha vida – não algumas somente – têm de ser um sacrifício a Deus, ou a mim mesmo; isto é ao Diabo”. Não foi este o verdadeiro ponto da conversão de Wesley?

O ensino de Jeremias Taylor certamente serviu de choque precipitante a todos os desejos e convicções da natureza espiritual de Wesley. Eles se cristalizavam com o toque, tornando-se inabalável propósito. Realmente naquele instante ele capitulou às grandes forças e aceitou os grandes deveres da religião. E o fez com uma inteireza e decisão que são raras na experiência humana. Ele diz: “Instantaneamente resolvi!“. Para Wesley nunca havia qualquer possibilidade de meio termo, nem de convênio fácil. Embora a sua interpretação da verdade fosse tristemente errônea, a sua lealdade a eIa era de fibra heróica. A religião para eIe não era um calmante agradável, nem um prêmio que se paga para assegurar-se da vida eterna, nem a orla ornamental da vestes superiores de sua vida. Era antes o negócio principal da nossa existência. Havia também na religião de Wesley, em todas as suas fases, a nota essencial da paixão. EIe seguiria a verdade, como a entendia, através de tudo, custasse que custasse.

Mas era isto a conversão? Não fê-lo filho na família de Deus? Aqui estava, sem dúvida, aquela raiz de toda a religião, a vontade submissa. Porque, em seguir este ritmo entre a alma humana e Deus, não veio, no caso de Wesley, aquela música eterna de paz, destruindo toda a discórdia, que é o seu produto? Se tivesse morrido então não teria sido salvo?

Quanto a isto, o próprio Wesley dúvidava. Ele deu pareceres contraditórios. Diz ele: “Eu mesmo, indo à América para converter a outros, nunca fora convertido a Deus”. Porém mais tarde com uma sábia dúvida eIe escreve acerca da afirmação anterior: “Não tenho certeza disso”. Ele não tinha certeza de que não era realmente convertido antes de 24 de maio. Ainda mais tarde, e com uma penetração mais clara, ele se descreve esse tempo (antes de 24 de maio de 1738) como tendo “a fé de servo, mas não de filho”.

A verdade é que Wesley nesse tempo não entendia o cristianismo no qual eIe se criara e do qual era mestre. Havia se sentado aos pés de muitos instrutores e lido muitos livros. Havia sido sacerdotalista (clericalista), asceta, místico e legalista, todos, por curso – sim, e por conjunto? Entretanto por todas essas fases ele persistentemente errara na interpretação da verdadeira ordem do mundo espiritual. Ele cria que uma vida nova não era o fruto do perdão, mas a sua causa. Ensinava que as boas obras precediam o perdão e constituía o seu título; não o seguiam representando seu efeito. A cada fase de sua alma ele tinha errado o grande segredo do cristianismo, que está tão perto, e ao nível da inteligência de uma criança; o segredo de uma salvação pessoal, o dom gratuito do infinito amor de Deus em Cristo; a salvação que vem por Cristo mediante a fé; a salvação atestada pelo Espírito de Deus e verificada na consciência.

O próprio Wesley nos dá a prova de que até essa data ele havia errado em sua concepção da religião. Temos a sua cronologia espiritual traçada por seu próprio punho, numa série de juízos, todos datados e catalogados, constituindo um mapa de sua experiência religiosa (Diário 24 de maio de 1738). Ele dá tudo isso como espécie de prefácio para a sua narração daquilo que teve lugar na saleta na rua Aldersgate, e ele explica cada passo sucessivo daquilo que havia sido o alicerce de sua religião. Podemos citar estas apreciações, prefixando a cada fase, a época na vida de Wesley à qual pertencia:

“A Criança – Fui cuidadosamente ensinado que não me salvaria senão por uma obediência universal; pelo cumprimento de todos os mandamentos de Deus; sendo diligentemente instruído no significado deles. E essas instruções no tocante a deveres e pecados exteriores, eu recebia de boa mente e meditava nelas freqüentemente. Mas tudo que me ensinaram concernente à obediência ou à santidade interior, eu não entendia nem de nada me lembrava. De modo que eu permanecia tão ignorante do verdadeiro significado da lei como eu era do Evangelho de Cristo.”

“O menino de Escola – Os cinco ou seis anos seguintes foram passados na escola, e sendo removidas as restrições exteriores, tornei-me muito mais descuidado do que antes... Entretanto, eu ainda lia as Escrituras e fazia as minhas orações de manhã e de noite. As coisas pelas quais eu esperava ser salvo eram: 1) não ser tão ruim como outra gente, 2) ainda conservar o respeito pela religião, 3) ler a Bíblia, assistir na Igreja e fazer as minhas orações.”

“O Estudante Universitário – Tendo me mudado para a universidade onde fiquei durante cinco anos, continuei a fazer as minhas orações tanto em público como em particular... Não posso dizer o que constituía a minha esperança pela salvação nesse tempo, quando eu constantemente pecava contra a pouca luz que ainda me restava, a não ser, que fosse nos acessos passageiros daquilo que muitos teólogos me ensinavam chamar de arrependimento.”

“Ordens Sacras – Comecei a mudar toda a forma da minha conversação, e a tentar sinceramente a entrar numa vida nova... Eu destaquei uma ou duas horas por dia para, um retiro religioso. Eu tomava a comunhão uma vez todas as semanas; vigiava contra todo pecado, quer por palavra quer por ação... De modo que agora, fazendo tanto e levando uma vida tão boa, eu não duvidava que era bom cristão”.

“A Disciplina de Guilherme Law – Tendo encontrado nesse tempo “A Perfeição Cristã” e “A Chamada Séria” do Senhor Law, não obstante ter-me escandalizado com muitos trechos de ambas; contudo, por elas eu me convenci, mais do que nunca do grande comprimento, largura e profundidade da lei de Deus... Clamei a Deus que me ajudasse; resolvi, como nunca antes, a não protelar o tempo de lhe obedecer. E, por meus constantes empenhos para guardar a lei interior e exteriormente até onde me dessem as forças, eu me persuadia que seria aceito por Ele, e que eu estava então mesmo na graça da salvação”.

“O Clube Santo – Em 1730 eu comecei a visitar as prisões, ajudando os pobres e doentes e fazendo qualquer outro bem que eu pudesse com a minha presença ou com a minha pequena fortuna aos corpos e às almas de todos. Com este intuito eu me privei de todas as coisas supérfluas e de muitas que são chamadas as coisas necessárias à vida... Eu cuidadosamente empregava, tanto em público como em particular, todos os meios de graça a cada oportunidade. Não omitia ocasião de fazer o bem. E por isso mesmo sofria muito. E tudo isto eu sabia ser nada a não ser que fosse dirigido para a santidade interior. Portanto, aquilo que eu almejava em tudo isso, era a imagem de Deus, por cumprir-lhe a vontade e não a minha. Entretanto, depois de continuar por alguns anos neste curso, julgando-me prestes a morrer, não pude achar que tudo isso me desse certeza alguma da minha aceitação por Deus. E nisto fiquei bastante surpreendido, não imaginando que durante todo esse tempo eu havia estado edificando sobre a areia, nem considerando que “ninguém pode pôr outro fundamento senão o que foi posto” por Deus “que é Jesus Cristo”.”

“O Místico – Logo depois um homem contemplativo me convenceu ainda mais do que antes que as obras exteriores não são nada, estando a sós e em diversas palestras me ensinou como eu devia prosseguir para alcançar a santidade ou a união da alma com Deus. Mas mesmo das suas instruções (se bem que eu as recebia então como se fossem as palavras de Deus) eu só posso dizer agora: 1) Que ele falava com tão pouco cuidado contra a confiança nas obras exteriores que me dissuadia de fazê-las de todo; 2) que me recomendava a oração mental e outros exercícios semelhantes como sendo os meios mais eficazes em purificar a alma e uni-la com Deus. Mas estas coisas eram, na realidade, tanto obras minhas como o visitar aos doentes ou o vestir aos nus. E a união com Deus que eu assim procurava, era tão realmente a minha própria justiça como qualquer outra que eu havia seguido sob outro nome.”

“O Missionário – Deste modo refinado de confiar nas minhas próprias obras e justiça eu me arrastava pesarosamente, não achando nem conforto nem auxílio até a época da minha partida da Inglaterra... Todo o tempo que estive em Savannah eu estava agitando o ar. Sendo ignorante da justiça de Cristo, que, por uma viva fé nele, traz a salvação a “todo o que crê". Eu procurava estabelecer a minha própria justiça e deste modo trabalhava no fogo todos os meus dias... Antes eu havia servido ao pecado voluntariamente; agora eu o servia contra a vontade, mas o servia. Eu caia e me levantava para tornar a cair outra vez. Durante toda essa luta entre a natureza e a graça, que agora havia durado mais de dez anos, eu tinha muitas e notáveis respostas às minhas orações, especialmente quando me achava em dificuldades. Eu tinha muitos e sensíveis confortos... Mas ainda eu estava “debaixo da lei” e não “sob a graça”.”

“A volta à Inglaterra – Com a minha volta à Inglaterra em Janeiro de 1738, estando em iminente perigo de morte e muito inquieto por causa disso, fiquei fortemente convencido que a causa dessa inquietação era a falta de fé, e que o me apossar de uma fé verdadeira e viva era a única coisa necessária para mim. Mas eu ainda não fixara a minha fé no objeto adequado; eu queria que fosse fé em Deus somente, e não a fé em Cristo ou mediante Cristo. Não sabia que eu me achava de todo destituído desta fé, mas julgava apenas que não possuía uma suficiência dela.”

Aquela longa análise de si mesmo é clara, explícita e final. Quanto a um conhecimento meramente intelectual, não é necessário dizer que Wesley era familiar com o verdadeiro sentido do cristianismo. A teologia do seu mestre moraviano estava e ainda está nos Trinta e Nove Artigos de Religião. Mas para João Wesley como para a sua geração, eles haviam se tornado num conjunto de sílabas pálidas, vazias de qualquer sentimento vital. E a sua experiência prova que um credo pode sobreviver como uma peça literária; pode ser cantado em hinos e tecido em orações e solenemente ensinado como uma teologia e ainda ser exausto (vazio) de vida real. As grandes frases podem ser destituídas de poder, quando não sejam mortas.

É um aviso para todo o tempo. A Igreja de Wesley retém hoje, e retém tenazmente as doutrinas que Wesley, até esta época, havia errado. Para nós são deveras acentuadas pela história que tem formado. A sua autenticidade é estabelecida pela literatura e hinologia que inspiraram. Elas têm passado tão completamente fora de toda a controvérsia, tornando-se tão comuns, que perigam (correm o perigo de) tornarem-se outra vez em fórmulas sem verificação.

Wesley declara que ele devia a sua conversão a Pedro Bohler. Qual foi, pois, exatamente esse ensino? Bohler inconscientemente fez a obra suprema de sua vida durante aqueles poucos dias em Londres e Oxford quando conversava com João Wesley. O humilde moraviano, sábio unicamente na ciência espiritual tocou em Wesley e então esvaeceu (desapareceu, perdeu importância)! Mas ajudou a mudar a história religiosa de Inglaterra, se bem que nunca ele sonhara tal coisa.

A natureza de seu ensino é bastante clara. Em suma, ensinou a Wesley três coisas, coisas que estão no próprio alfabeto (no “ABC”) do cristianismo, mas que, de algum modo, os ensinos do piedoso lar Wesley, da grande Universidade de Oxford, da antiga Igreja, e de livros famosos não lhe fizeram ver. A saber: 1) que a salvação é unicamente em virtude da propiciação feita por Cristo e não por nossas próprias obras; 2) que a única condição para a salvação é a fé; 3) e que a salvação é atestada (testificada) à consciência espiritual pelo Espírito Santo. Estas verdades hoje são mui comuns; para Wesley, eram nessa época de sua vida, eram descobertas.

Necessariamente o erro de Wesley era fatal. É bem claro que por todas as fases de sua experiência até esta época o “eu” de Wesley, sob muitas formas, havia tomado o lugar de Cristo. Wesley sempre punha a ênfase em si mesmo, em seus próprios motivos, atos, sacrifícios, orações, aspirações, e não no seu Salvador. E ái da alma que assim mudar o seu centro de fé, achando por centro, não os ofícios e a grande e radiante personalidade do Cristo vivo, mas os fragmentos imperfeitos de seus próprios atos e méritos! Nem mesmo aquilo que o Espírito Santo efetua em nós pode, em qualquer época, tomar o lugar como razão da nossa confiança diante de Deus, o lugar daquilo que Cristo fez por nós.

Mas agora, como resultado dos ensinos de Pedro Bohler, uma visão verdadeira da obra e dos ofícios redentores de Jesus Cristo feriu a vista de Wesley. Até então ele havia tomado, sobre si mesmo uma parte desses ofícios – um erro comum a todos os séculos, repetido em miríades (quantidade indeterminada, porém muito grande) de vidas, e sempre mortífero. Nos anos posteriores o seu texto bíblico predileto foi “Cristo Jesus se nos tornou da parte de Deus sabedoria, e justiça e santificação, e redenção” (1 Coríntios 1:30). Mas nos tristes anos que precederam àquela memorável hora na rua Aldersgate, Wesley nunca concebera que Cristo Jesus havia se tornado, num sentido profundo e misterioso, justiça para a alma crente. Como Wesley mesmo diz: “Eu, tinha fé, mais ainda não fixava a minha fé no objeto adequado; eu queria que fosse fé em Deus somente e não a fé em Cristo ou a fé mediante Cristo”.

Nem a própria misericórdia de Deus – se essa misericórdia nos fosse apresentada sob forma diversa daquela que se nos apresenta no mistério de Cristo e de sua redenção – satisfaria a consciência humana. Wesley possuía, como bem poucos jamais a possuíram, a justa apreciação do pecado e de sua odiosidade: uma visão da lei divina – santa, augusta e imaculada – desonrada pelo pecado. E uma justa apreciação da discordância profunda e eterna que existe entre a consciência do pecado e a justiça imaculada de Deus, obstando (criando obstáculos para) que haja paz alguma. Ser apenas perdoado, poupado pela misericórdia divina não bastava para Wesley, como não basta para qualquer alma. Tem de haver uma reconciliação permanente e fundamental com a justiça. E bastaria andar por todas as veredas da eternidade poupado pela misericórdia de Deus, mas ainda condenado por sua justiça?

A alma humana necessita, na própria consciência, de um ponto de contacto entre estas duas coisas opostas. E Wesley aprendeu de Bohler o grande segredo do Cristianismo – que em Cristo se acha aquele sublime ponto de contacto. O dom de Deus à alma crente não é simplesmente o perdão, mas a justificação. Cristo se torna para aquela alma “o Senhor, justiça nossa”. De modo que a visão que transfigurou a vida de Wesley era a dos ofícios completos e suficientes de Cristo na redenção – ofícios de graça que muito sobrepujam as nossas esperanças e são alem da nossa compreensão.

Mas Bohler também lhe ensinou o segredo da fé pessoal e salvadora. Wesley não teve fé antes do dia 24 de maio de 1738? Sim teve, e ele mesmo nos diz que qualidade de fé era essa. “Era”, diz ele, “uma sombra especulativa, flutuante e vaporosa que vive na cabeça e não no coração”. As homilias de sua própria Igreja poderiam, é verdade, ter ensinado a Wesley, melhor definição da fé do que esta! “É uma certa confiança e descanso que o homem tem em Deus”. Wesley possuía esta definição de fé com uma perfeita clareza intelectual; mas foi simplesmente uma mera abstração sem existência real.

O dr. Dale nos faz notar que esta definição é em si um paradoxo. “Se a fé é a condição precedente à salvação, como pode ser a crença que já estamos salvos?” Ele tenta resolver o paradoxo por perguntando: ”Não é verdade que Deus já nos deu – crentes e incrédulos semelhantemente – eterna redenção em Cristo?” A fé não produz um fato novo, mas somente aceita e traz para o domínio da consciência um fato que já existe independentemente deIa.

Mas tal ensino facilmente entra no domínio do perigoso! Pode-se acrescentar que o paradoxo de fé está em outro ponto. Se for o dom de Deus, como pode ser a condição de outros dons? Se a fé é o dom de Deus, a responsabilidade por sua não existência está com Deus! Como pode ser tido por culpado o homem em não possuir aquilo que só pode lhe vir como dom de Deus?

A verdade, até onde for possível expressá-la nos termos de língua humana, é que a fé representa o concurso de duas vontades, a divina e a humana. Ela é impossível sem a graça de Deus; de modo que a graça é uma condição essencial e sempre presente para o seu exercício. Mas a graça de Deus não produz a fé sem o consentimento da vontade humana. Wesley aprendeu, mas aprendeu tarde e vagarosamente, que a fé não é meramente o esforço da alma desamparada em chegar a algum ato ou sentimento de confiança. É a rendição da alma para a graça auxiliadora de Deus; e somente quando se realiza esta capitulação (rendição, entrega) é que a alma se acha elevada por um impulso divino para as grandes alturas de uma confiança jubilosa.

Wesley também aprendeu de Bohler, que o perdão recebido de Cristo é atestado à alma perdoada pelo testemunho direto do Espírito Santo; de modo que traz consigo, como fruto imediato, a paz divina. É também certo que esta doutrina estava engastada (inserida, contemplada) no credo de Wesley, e ele a retinha com uma perfeita clareza intelectual. “Se permanecermos em Cristo e Cristo em nós”, escrevera ele a sua mãe muitos anos antes disso, “forçoso é que sejamos cônscios disso. Se não pudermos ter certeza de que estamos no estado de salvação, boa razão seria todo o momento que passarmos, seja passado, não em regozijo, mas, em temor e tremor. Então, sem dúvida, nesta vida somos de todos os homens os mais miseráveis”.

Entretanto, inconscientemente, Wesley agira até aí sob a teoria que a única confiança que o homem pode ter acerca da sua própria condição espiritual, é aquela que ele recebe da contemplação de suas próprias boas obras, ou que ele extrai, pela força da lógica, de tais obras. Praticamente tinha a crença da mãe, que qualquer consciência divinamente dada da aceitação por parte Deus era uma experiência rara e limitada a grandes santos. Ele conta com grande simplicidade como Pedro Bohler, “ainda mais me surpreendeu por suas descrições dos frutos da fé, do amor, da santidade e da felicidade que afirmava serem seus assistentes”.

Entretanto, se qualquer doutrina está sancionada largamente pelas Escrituras e pelo assentimento da razão, é esta doutrina chamada tecnicamente a “assegurança”. Negá-la é dizer que a nossa consciência espiritual não tem função alguma, ou que ela mente. Como resultado do perdão tem se efetuado a mais estupenda mudança na alma; a sua relação com Deus e seu universo é transfigurada. O pecador perdoado não é mais um enjeitado, mas um filho. Será possível persuadirmo-nos que esta maravilhosa mudança não seja de algum modo comunicada à nossa consciência? Será da vontade de Deus que o filho recebido de novo na sua família continue a crer, o que agora é mentira, que ele é ainda um enjeitado? Ainda que esteja sob os sorrisos de Deus ele deve continuar a pensar que ainda está sob o seu desagrado? Depois do desaparecimento da escura substância do pecado, será que Deus queira que a sombra permaneça; que a alma perdoada ainda carregue o peso do pecado que não está mais em conta contra eIa, e sinta as manchas imaginárias de uma culpa que já foi apagada? Será criveI (possível de se acreditar) que a única alma diante da qual Deus se coloca mascarado seja a alma perdoada? E que eIe traga tal máscara para esconder-lhe o seu perdão?

Certamente tal idéia constitui um paradoxo de uma espécie incrível! “Creio na remissão dos pecados”. É um credo triunfante, mas quem se regozijaria num perdão tão furtivo (escondido) que nem a própria alma que o recebe não saiba se o recebeu ou não?

A negação do testemunho do Espírito acarreta a mais surpreendente contradição. A alma antes do perdão crê, o que é verdade, que é condenada; mas depois do grande ato de perdão ela crê, o que é mentira, que é ainda condenada. E Deus se conserva no silêncio! Não envia qualquer sinal ou penhor de conforto. É do Seu agrado – o Deus da Verdade! – que o seu filho perdoado ainda permaneça na atmosfera da falsidade! É esta uma coisa incrível em escala transcendente! Está em flagrante contradição com a Palavra de Deus: “O Espírito mesmo dá testemunho com o nosso espírito de que somos filhos de Deus” (Romanos 8:16).

Este testemunho divino não pertence ao domínio de milagres. Não é independente, como mostra a experiência, de condições humanas. Varia segundo o estado do próprio coração humano; enfraquecendo-se com o enfraquecimento da fé ou tornando-se mais claro segundo a inteireza da consagração.

É interessante notar as variações nos sentimentos do próprio Wesley, ainda depois que lhe veio a grande experiência. Na mesma noite de 24 Maio, depois de ter deixado a saleta na rua Aldersgate, ele diz: “Fui muito acometido por tentações, mas eu clamei e eIas fugiram”. Voltaram repetidas vezes, e dois dias depois eIe se descreve “como estando pesaroso por causa das múltiplas tentações”. Ainda mais tarde ele acha-se “com falta de gozo”, e atribui esta condição “à falta de oração oportuna”.

Na experiência de Wesley, em suma, como na experiência de todos os demais cristãos, há flutuações nos sentimentos espirituais. Mas a sua experiência tem agora uma nova feição. Ainda era necessário que lutasse diariamente com as forças do mal; mas diz ele: “Achei a diferença entre a minha condição agora e a de antes. Antes fui às vezes, se não freqüentemente, vencido; agora sou sempre o vencedor!” Aqui (depois da experiência no 24 de maio) estava a Iuta; mas aqui, também, estava a vitória.

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** (Esse texto corresponde aos capítulos XI (Chegando ao ponto desejado) e XII (O que aconteceu no 24 de maio?), do livro "Wesley e seu século – um estudo de forças espirituais", volume I, respectivamente nas páginas 130 a 145 e 146 a 157, Edição de 1916 publicada pela Typographia de Carlos Echenique, Porto Alegre, RJ).

OBS: Esse livro originalmente não usa parênteses. As notas explicativas dentro de parênteses são de iniciativa dessa edição on line do site da Igreja Metodista de Vila Isabel)

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