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João Wesley
Rio, 20/1/2009
 

A Inglaterra no século XVIII: um vale de ossos secos ** (Rev. W. H. Fitchett)

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“A nossa luz parece ser a tarde do mundo”. Com estas palavras tristes e expressivas uma "Proposta para a Reforma Nacional de Costumes”, publicada em 1694, descreve a condição moral de Inglaterra aos começos do século XVIII. Raiava um novo século, mas parecia como se nos céus espirituais da Inglaterra a própria luz do cristianismo estava sendo mudada, por alguma força estranha e malévola, em trevas. E era sobre uma paisagem moral desta espécie, escurecida com as sombras como as de algum temível e iminente eclipse espiritual, que João Wesley começou a sua obra. É impossível entender a escala e o poder dessa obra, sem um esforço preliminar para idear (ter uma idéia, uma noção) o campo em que foi feita.

Seria fácil multiplicarem-se as testemunhas, mostrando quão exaurida de religião vital, quão maculada (manchada) em toda a sorte de iniqüidade era a Inglaterra desse tempo. Os seus ideais eram grosseiros; os seus divertimentos eram brutais; a sua vida pública era corrupta; os seus vícios não inspiravam vergonha alguma. É verdade que Walpole (Robert Walpole, 1º Conde de Orford, foi um dos chefes do partido Whig (liberal) e principal ministro – First Lord of the Treasury – do rei George II até 1742) não inventou a corrupção política, mas eIe a sistematizou, e a erigiu em estandarte, e fê-la desavergonhada! A crueldade se fermentava (excitava, estimulava) nos prazeres da multidão; e a podridão manchava os termos da conversa geral. Os juizes praguejavam desde o tribunal; o capelão imprecava (rogava pragas, amaldiçoava) os marinheiros para fazê-los mais atentos a seus sermões; o rei o praguejava incessantemente, e em voz alta. A duquesa de Marlborough, dizem, visitou um advogado sem deixar-lhe o seu nome. O secretário do advogado disse depois: “Não pude atinar quem seria; mas ela praguejava tão terrivelmente que devia ter sido senhora de qualidades”.

Leis ferozes ainda permaneciam nos códigos A própria justiça era cruel. Mesmo em 1735 homens foram esmagados por terem recusado a se confessarem réus de crime capital. A lei sob a qual mulheres eram susceptíveis a serem açoitadas publicamente ou queimadas à estacas (em fogueiras), foi ab-rogada (revogada, suprimida, anulada) somente em 1794. O Temple Bar foi continuamente adornado com uma nova moldura de cabeças humanas. Era o século do tronco e de açoites públicos; de bebedices, e prisão por dívidas em cadeias bastante tristes (desumanas) para escurecerem com novas sombras o Inferno de Dante. A bebedice era hábito familiar que passava sem reparo até entre os próprios ministros de estado. O adultério era um passa-tempo, cuja vergonha recaia nãom na mulher infiel nem no seu amante, mas no marido traído.

Mas não é justo julgar qualquer século apenas por seus vícios. A impiedade humana enche de trevas, em maior ou menor grau, qualquer seculo. Quem deseja ver até que ponto a Inglaterra baixara no século XVIII tem que julgá-la, não pelos elementos piores, mas pelos melhores – por sua religião, ou por aquilo que ela tomava por religião; e pelos mestres religiosos. Pois não pode haver prova mais cabal de uma religião do que a qualidade de mestres que ela produz.

Talvez não seja justo ir-se a um satírico em busca de um retrato; e as pinturas que Thackeray faz dos clérigos do século XVIII são, sem dúvida, abertas à força de ácido. Mas não desmentem a vida; o seu poder está em serem elas verdadeiras. De George II, o pequeno, iracundo e belicoso (agitado, beligerante, dado à guerra) monarca com a moral e as maneiras de um Jonathan Wilde em púrpura, Thackeray escreve em frases pungentes. E George II, tinha clérigos (a seu serviço) que possuíam a mesma moral; e que até consentiam em tratar a suas repugnantes licenciosidades como se fossem virtudes.

O rei George II havia morrido, e William Thackeray (escritor britânico cuja obra foi marcada pela alternância entre textos puramente cômicos ou paródias com romances históricos sobre a sociedade britânica e americana) diz que “foi o pároco quem veio chorar junto a seu túmulo, em companhia de Walmoden – uma das muitas concubinas do falecido rei – e assentado aí, pretendia o céu para o pobre velho que ali dormia. Aqui estava quem (o rei morto) não possuía nem a dignidade, nem a instrução, nem a moralidade, nem espírito – que poluíra a grande sociedade por maus exemplos; que na juventude, na maturidade e na velhice era grosseiro, baixo e sensual. Mas o sr. Portens, depois Monsenhor Bispo Portens, diz que a terra não era digna dele, e que o seu único lugar era o céu! Bravo, sr. Portens! O clérigo que derramou essas lágrimas em memória de George II vestiu o linho de George IlI”.

Thackaray pinta o retrato em tamanho natural (descreve a realidade) de outros clérigos dessa época – o tipo de uma classe – o capelão e parasita de Selwyn, que descreveu o próprio caráter em suas cartas. E Thackeray coloca o retrato temível na perspectiva da história, quando:

"Todos os prazeres e jogos indecentes em que se deleitava foram exauridos, todas as faces pintadas em que olhara com sensualidade eram vermes e crânios (estavam mortas); todos os finos cavalheiros cujas fivelas de sapatos ele beijara jaziam na sepultura. Este digno senhor toma a si o cuidado para nos dizer que não acredita na sua religião, ainda, graças a Deus, não é tão velhaco como um advogado. Ele faz os recados, do sr. Selwyn, e quaisquer recados, orgulhando-se diz ele, em ser o provedor daquele senhor. Ele assiste com o Duque de Queensberry –”o Velho Q“ – e troca anedotas com aquele aristocrata. Ele volta para casa depois “de um dia trabalhoso, em fazer batizados”, como afirma, e escreve a seu protetor antes de assentar-se para jogar cartas e para cear perdizes. Ele se alegra no pensamento do bife e vinho – é um ruidoso e turbulento parasita, lambendo os sapatos do seu amo entre explosões de riso, fingindo muito gosto, pois o sabor do lustre é igual ao melhor Claret na adega do “Velho Q.”. Tem “Rabelais”, e “Horácio” as pontas dos dedos sujos. É indizivelmente baixo – curiosamente alegre; bondoso e de bom humor em particular – um bobo alegre de coração sensível, não um mexerico venenoso. Jessé diz que na sua capela em Long Acre “ele alcançou uma considerável popularidade pelo estilo agradável, varonil e eloqüente de seu discurso”.

“A incredulidade teria sido endêmica, e a corrupção nos ares?” – Pergunta Thackeray ao contemplar pastores tão estranhos. Os hábitos maus de George II, diz ele, produziram os seus frutos nos primeiros anos de George III, e o resultado foi uma corte e sociedade tão corruptas como a Inglaterra jamais conheceu. O Thackeray era satírico, mas estas pinturas (suas crônicas e demais escritos) nada devem ao fel no seu tinteiro. A sátira, repetimos, está na sua veracidade.

Uma religião sempre tem a espécie de clero que merece; e considerado como classe, o clero do século XVIII era grosseiro e sem espiritualidade, porque representava uma fé vazia de toda a força espiritual. Se na Inglaterra dessa época procurarmos nas falências da moralidade exterior pelas causas espirituais, serão manifestas. Foi o século de um raso e ousado deismo (onde se acredita na existência de Deus, mas não há necessidade de um relacionamento pessoal com ele; Deus é impessoal, uma “força” do universo); de um deismo exultante e militante auxiliado pelo humor e crítica, bem como defendido pela lógica. Havia cativado a literatura; dava as cores à imaginação popular; tingia o discurso vulgar; achava-se entronizado no lugar da fé cristã.

Mas o deísmo, qualquer que seja o seu tipo, é moralmente impotente; e o deismo do século XVIII nada era senão um traiçoeiro banco de areia no escuro do mar do ateísmo. Não nega a existência de Deus, mas o cancela como uma força na vida humana; quebrando a escada áurea da revelação entre os céus e a terra. Deixa a Bíblia desacreditada, o dever passa a ser uma conjectura, o céu uma aberração da imaginação desenfreada, e Deus como sombra vaga e distante. Por ele os homens eram deixados para subirem a um céu enevoado por alguma escada fraca de lógica humana. E naqueles dias tristes, enquanto havia uma cerração (nevoeiro) escura do deísmo fora das Igrejas, no interior delas, ainda havia outra cerração quase tão densa e má. O arianismo (uma heresia condenada em 325 d.C. pelo Concílio de Éfeso na qual Teodoro Ário e seus seguidores afirmavam que Cristo era uma criatura de natureza intermediária entre a divindade e a humanidade, não era Deus, mas subordinado a Deus como a primeira e a mais excelsa de suas criaturas) aberto e confesso havia se apossado quase inteiramente das Igrejas dissidentes (da Igreja Anglicana oficial do Estado Inglês). E um inconsciente arianismo prático reinava, não obstante os seus artigos doutrinários de Religião, na própria Igreja Anglicana. A consciência do pecado estava mui fraca e juntamente com isso, havia se tornado mui fraca, também a doutrina do Cristo Divino e Redentor.

A literatura religiosa desse século mostra quão curiosamente pálida e ineficiente a noção de Deus havia se tornado entre aqueles que professavam ser seus ministros. Segundo Sir Leslie Stephen, Deus nesse tempo “era um ídolo composto da tradição e da metafísica congelada” (História do Pensamento Inglês, Volume II p. 338). Tinha havido um Deus; e eIe havia anteriormente tocado na vida humana. Mas isto se dera em tempos bem remotos, e em terras bem distantes. Já Deus havia se emigrado de seu próprio mundo. A divindade grotesca do Bispo Warburton foi, na linguagem do Leslie Stephen, Deus era “um juiz sobrenatural do tribunal superior cujas sentenças foram executadas em um mundo desnatural; um monarca constitucional que, havendo assinado o contrato constitucional tinha se retirado da gerência ativa dos negócios do governo”. De Deus, como o Pai dos nossos espíritos, como atualmente vivendo em seu próprio universo e regendo nas vidas dos homens; de Deus, de quem se poderia ter dito na linguagem de Tennyson: “Está mais perto do que a respiração, mais próximo do que as mãos ou os pés”, não se acha indício algum na teologia do século XVIII. A superstição, segundo os seus teólogos, consistia na crença que Deus seria capaz de revelar-se nos negócios do mundo moderno. O fanatismo seria o imaginar que Deus se relaria por qualquer toque, ou sopro, ou sentimento de influência à alma pessoal.

O deismo, repetimos, engrossado com as nevoadas árticas e gelado como o frio ártico, constituiu a teologia ativa desse século infeliz. Naquela teologia Cristo é reduzido a uma sombra. Serve ele de rótulo para um credo, mas preenche unicamente o papel de rótulo. O seu Evangelho não constitui qualquer “boa nova”, mas unicamente serve de bons conselhos. Não constitui uma salvação, mas é apenas uma filosofia. Um chinês decente que levasse a sério os ensinos de Confúcio poderia ter pregado nove décimos dos sermões desse período. Se o tal chinês escondesse o rabicho (os longos cabelos presos), mudasse de feições, disfarçando-se com uma batina e sobrepeliz (a roupa sacerdotal), e se tivesse aprendido umas poucas frases técnicas e falado dos Evangelhos como sendo verdadeiras histórias – se bem que um tanto remotas – poderia ter passado por um bom teólogo com apetite bem ortodoxo por um gordo benefício na Inglaterra desse tempo. Leckey diz com cruel franqueza: “Fora de uma crença na doutrina da Trindade e de um reconhecimento geral da veracidade das narrativas evangélicas, os clérigos de então, pouco ensinavam que não poderia ter sido ensinado pelos discípulos de Sócrates ou pelos seguidores de Confúcio”.

Mas o Cristianismo não é um código de moral; nem é um capítulo de história antiga. (É fé em uma pessoa, na pessoa de Jesus!). É um agrupamento de verdades grandes e majestosas; verdades que sobrepujam o entendimento e que são envoltas em mistério; mas que têm de formar as nossas vidas. Desde o princípio até o fim é uma mensagem do amor redentor. O mistério de uma propiciação divina pelo sangue de Cristo, do acesso a Deus mediante os ofícios sacerdotais de Cristo, é a sua essência própria. O seu dom supremo é a vida de Deus restaurada na alma humana pela graça poderosa do Espírito Santo.

Mas todas estas grandes doutrinas, que não são tanto pertencentes ao Cristianismo como seus constituintes, haviam de algum modo escapado, não meramente da fé humana, mas quase da memória humana nesta época do Cristianismo, do povo que fala a língua inglesa. A mensagem “de entrarmos no santo lugar pelo sangue de Jesus” (Hebreus 10:9) não significava coisa alguma para homens que se criam privilegiados a entrarem em qualquer ocasião na presença de Deus com uns poucos cumprimentos delicados. Na religião desse tempo não havia lugar para lágrimas de arrependimento. Faltava a nota de paixão e o silêncio da reverência havia desaparecido. E tudo isso, porque a visão de Deus ia se apagando; a consciência (da maldição) do pecado – do significado do pecado, e da sua cura preparada por Deus – havia perecido.

Uma religião assim exaurida de suas propriedades sobrenaturais não possui poder algum sobre a consciência humana. Não pode transfigurar qualquer vida. Não inspira mártir algum, nem produz santos, nem envia missionários. Gera uma moralidade de têmpera ignóbil (desprezível, nojenta). Tem mais a aparência de uma atmosfera exaurida de oxigênio do que qualquer outra coisa.

E a religião do século XVIII recebia o apreço que merecia. Os seus sacramentos “os símbolos da graça propiciatória” se tornaram nas palavras de Cowper, “em Chave de ofício, ou chave falsa para posição oficial” (ou seja, era obrigatória a prática religiosa para se ter emprego público). Swift, em uma de suas cartas a Stella escreve: “Cedo fui visitar o Secretário Bolingbrook, mas ele, havia ido a suas devoções para receber o sacramento. Vários outros velhacos (enganadores, logrões, burladores, fraudulentos) tinham feito o mesmo. Não foi pela piedade, mas pelo emprego, segundo ato do Parlamento”. Uma religião tal, não podia inspirar um ministério santo nem heróico; e o certo é que havia pouco de santo e ainda menos de heróico na têmpera do clero anglicano nos dias dos primeiros reis George. O primeiro e grande dever da religião era se conservar tépida (morna, frouxa, fraca). Não devia haver nem entusiasmo, nem heroísmo. Deviam ser evitados todos e quaisquer extremos. “Devemos cuidar que nunca nos sobressaiamos mesmo no prosseguimento da virtude”. Foi o conselho de um dos pregadores dessa época. “Quer alvejemos o zelo, quer a moderação, cuidemos que não deixemos entrar o fogo num e nem a geada no outro”. Estas palavras, diz Miss Wedgwood, “constituíam o moto (divisa, lema) da Igreja do século XVIII”. Os clérigos temiam muito mais ser considerados demasiados crentes, do que demasiados incrédulos.

O Cristianismo foi diligentemente diluído por seus próprios mestres (líderes), a ponto de se tornar insípido (sem sabor, sem efeito). O pecado contra o Espírito Santo é pelo Bispo Clarke diluído “em uma recusa de se ser convencido pela maior evidência da veracidade do Cristianismo”. O motivo pelo qual a religião apela à consciência era no fundo um apelo à covardia. O Bispo Sherlock resolve a religião em judicioso (sensato, prudente) jogo de azar. Diz ele substancialmente: “São dez para um que a religião é verdade. Se finalmente a religião for achada falsa, o cristão terá perdido unicamente a décima parte da importância da aposta. Se a religião for achada verdade, o pecador terá feito muito mal negócio”. A lógica é o único instrumento de uma religião tépida (morna, frouxa, fraca). E achamos todos os sermões e ensinos dos clérigos do século XVIII em termos da lógica, e possuem a frieza desta. Os mestres religiosos desse tempo, em suma, só tinham meias-crenças, e de meias-crenças não se pode extrair qualquer moralidade heróica (vida com santidade).

Leslie Stephen diz a respeito de Blair, o mais famoso pregador desse tempo, “que ele era simplesmente mascate (vendedor ambulante) de coisas de segunda mão que davam a impressão de que o homem real havia sumido sem deixar nada senão uma cabeleira e batina”. A idéia (concepção) que o Bispo Warburton teve da Igreja Cristã se vê numa de suas cartas. Diz eIe: “A Igreja, à semelhança da arca de Noé, é digna de salvação não pelos animais imundos que quase a enchem e que fazem a maior parte do ruído e do clamor nela; mas pelo cantinho ocupado pelos racionais que se sentem acabrunhados mais com o mau cheiro dentro do que com a tempestade de fora”. Middleton, outro dignitário eclesiástico desse tempo, escreveu uma carta ao Lorde Hervey, ridicularizando os artigos que ele mesmo estava prestes a subscrever a fim de tomar conta (alcançar) de um beneficio.

“Ainda que haja muitas coisas na Igreja”, diz ele, “de que eu nada gosto, entretanto, ao passo que eu suporte o mal, terei prazer em provar um pouco do bem e assim receber alguma compensação pelo feio assentimento e consentimento que nenhum homem de bom senso pode aprovar. Lemos que certos entre os discípulos de Jesus o seguiam, não por causa de suas obras, mas por causa de seus pães. Para nós que não tivemos a felicidade de ver as obras pode se permitir que tenhamos alguma inclinação pelos pães. Vossa Senhoria conhece certo homem que, com idéia mui baixa do pão sagrado da Igreja, entretanto sente-se bem disposto a tomar boa porção do pão temporal. O meu apetite para um e outro é igualmente moderado. Não pretendo me regalar no banquete dos eleitos, mas, com o pecador do Evangelho, quero apanhar as migalhas que caem da mesa”.

Tal tipo de religião, servida por tais ministros, inevitavelmente havia de produzir vidas de pouco valor. A piedade era simplesmente a peIe de hábitos exteriores, uma forma de prudência que se entendia ao mundo espiritual. Se os sermões empoeirados desse século forem postos no alambique e for destilada a sua essência vê-se que subsistiam em exortações tais como: “Não vos embriagueis, pois isto arruína a saúde; não mateis, pois haveis de ser enforcados Todo o homem deve ser feliz, e o modo de ser feliz é ser em tudo digno de respeito.”

A opinião que o Cristianismo era falso, mas ainda útil à sociedade, representava o credo prático das classes educadas. A nobre senhora Maria Wortley Montagu fala de um plano para tirar o “não” dos mandamentos e incorporá-lo (o tal “não”) no Credo. É uma faísca de sátira feminina, mas representa a teoria sobre a qual toda a multidão vivia.

O Bispo Butler tem pintado o espírito do seu tempo em cores escuras e imperecíveis. Ele diz: “A distinção deplorável do nosso século está no confesso escárnio pela religião, e no crescente desprezo dela”. Mas o próprio Butler com todos os seus elevados talentos fornece, na sua própria pessoa uma prova cabal da cegueira e da morte espiritual do seu tempo. Ele proibiu que os Wesley e Whitefield pregassem em sua diocese, embora, em todos os lados de sua catedral existisse a classe degradada e abandonada na Inglaterra – os mineiros de Kingswood, tão destituídos de todas as forças do Cristianismo como se fossem nativos no centro da África.

Que o melhor, o mais sábio, o mais poderoso e o mais plenamente convencido dos bispos desse tempo, tomasse tal atitude para com Wesley e sua obra mostra qual era a têmpera geral do clero de então. A consciência de Butler não se inquietou com este lapso no mero paganismo de uma classe inteira, ao alcance do som dos sinos de sua catedral, mas tornou-se piedosamente indignado com o espetáculo de uma suposta irregularidade eclesiástica! O entusiasmo em homens bons, a seus olhos, era espetáculo mais alarmante do que o vício em homens maus. Pode-se imaginar mais significante inversão de valores espirituais?
Não há feição mais característica do século XVIII do que o seu temor (medo, pavor) pelo entusiasmo. Entusiasmo era coisa maldita! Um clérigo bom estava mais solícito em desfazer-se de qualquer suspeita de entusiasmo, do que em livrar-se do escândalo de heresia. Era século de compromissos; de compromissos na política, na filosofia, na teologia; e compromissos são fatais ao entusiasmo. Forçosamente matarão o entusiasmo, ou serão mortos por eIe.

Lembremo-nos que duas grandes ondas de paixão haviam recentemente inundado a Inglaterra – a onda do Puritanismo (um movimento religioso protestante de origem presbiteriana com índole conservadora e rigorista que rejeitava tanto a igreja católica quanto a igreja Anglicana, governada pelo rei inglês, e por isso mesmo perseguido e até martirizado pelos poderes ingleses) que tinha exigências que culminara na Guerra Civil (entre os partidários do rei Carlos I da Inglaterra e o Parlamento inglês, liderado por Oliver Cromwell. Começada em 1642, acaba com a condenação à morte de Carlos I em 1649); e o retrocesso do Puritanismo que achara o seu triunfo na restauração. Grandes debates, à força da espada e do mosquete, da prisão e do tronco, de atos do Parlamento e de sentenças de tribunais, haviam deixado o país exausto. O espírito de compromisso dos Whigs (expressão de origem popular que se tornou termo corrente para designar o Partido Liberal no Reino Unido), que explica a revolução de 1688, havia capturado o domínio (se estabelecido também) religioso. Os homens ainda se sentiam doloridos com as feridas da luta. O espírito público achava-se no refluxo. Temia-se a paixão, odiava-se os fanáticos. Entusiasmo era palavra e atitudes suspeitas. A moderação era a coisa principal.

O entusiasmo tem ou deve ter o seu último reduto na religião, e nos mestres religiosos. Mas no século XVIII o clero constituía na nação a classe em que os fogos do entusiasmo achavam-se mais perto da extinção; e isto como resultado de seus próprios atos. Nos limites de uma única geração eles haviam ensinado, primeiro, o direito divino dos reis, e zelosamente haviam perseguido a todos que dúvidassem dessa doutrina. Mas depois da chamada Revolução Gloriosa de 1688 (na qual o rei católico Jaime II da dinastia Stuart foi removido do trono da Inglaterra, Escócia e País de Gales, e substituído pelo seu genro,o nobre protestante holandês Guilherme, Príncipe de Orange e a esposa Maria II, filha do rei James II), eIes haviam engolido os seus princípios, jurando a fidelidade ao rei Guilherme, e tratando de tirar dos presbitérios e casas pastorais o pequeno resto de seus irmãos que recusaram renunciar aos seus princípios com a mesma alegre facilidade! Princípio de espécie nobre e austera foi pelo momento desacreditado, deste temível modo, pelo exemplo do próprio clero.

Havia alguns pontos luminosos na escura paisagem inglessa desse século XVIII. Entre os gordos e ricos bispos faltos de espiritualidade, vemos os vultos quase santos de Butler e Berkley. O século que conta Guilherme Law entre os seus teólogos, e Watts e Doddridge. E entre os seus cantores, ainda possuía nas veias algo do fervor divino da religião. E deviam ter havido muitos presbitérios ingleses, além do de Epworth, nos quais ardia a chama preciosa da piedade familiar.

Entretanto, a vida espiritual de Inglaterra nesse momento estava indubitavelmente se esgotando com rapidez. A sua vida pública corrupta; o seu clero desacreditado; a sua Igreja gelada; a sua teologia exaurida dos elementos cristãos. Tal era a Inglaterra do século XVIII! Necessitava-se de uma revolução espiritual para salvar um povo tal.

Os ventos de Pentecostes teriam de soprar novamente sobre o país moribundo; os fogos de um novo Pentecostes teriam de cair para ascender outra vez a chama da fé nas almas dos homens. E Wesley foi chamado, e educado por Deus, para fazer esta grande obra.

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** (Esse texto corresponde ao capítulo XIII, A Inglaterra no século XVIII, do livro "Wesley e seu século – um estudo de forças espirituais", volume I, respectivamente nas páginas 158 a 169, Edição de 1916 publicada pela Typographia de Carlos Echenique, Porto Alegre, RJ).

OBS: Esse livro originalmente não usa parênteses. As notas explicativas dentro de parênteses são de iniciativa dessa edição on line do site da Igreja Metodista de Vila Isabel)


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