IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 16/2/2009
 

O inÝcio da obra de avivamento da Inglaterra no sÚculo XVIII** (Rev. W. H. Fitchett)

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A conversão de João Wesley naquele 24 de maio de 1738 confundiu alguns de seus amigos e alarmou a outros. Mrs. Hutton, mãe de um de seus amigos, disse: “Se não fostes cristão desde que vos conheci, então fostes um grande hipócrita, pois nos fizestes crê-lo”.

Samuel Wesley recebeu as novas com uma espécie de ira confusa que é quase divertida. Ele achou que o irmão sofria de um ataque de “entusiasmo!” – uma moléstia muito mais mortífera do que qualquer outra conhecida à ciência medica. Ele escreve: “Cair no entusiasmo é ser perdido com testemunho. Eu almejava alegremente um encontro com o Joãozinho, mas agora tudo se acabou e tenho medo. De coração rogo a Deus que obste (impeça) o progresso desta loucura... Não entendo o que Joãozinho quer dizer em afirmar que anterior ao mês próximo passado ele nunca fôra Cristão”, diz o eclesiástico. “O batismo não é nada?... Ou ele deve se desbatizar, ou ser apóstata (quem abandona a fé ou o estado religioso ou sacerdotal), para que as suas palavras sejam a verdade”.

Mas João Wesley já mudara para outro clima espiritual. No seu clima espiritual o dia natalício do cristão tinha sido mudado do dia de seu batismo para o de sua conversão; “e nesta mudança”, diz miss Wedgwood, com profunda penetração, “cruzava a linha divisória entre dois grandes sistemas”. Entretanto Wesley seria o último que havia de perturbar-se com o alarme e a perplexidade de seus amigos. Aos 13 de junho – somente três semanas depois de sua conversão – ele se achava a caminho da Alemanha para visitar as povoações moravianas. Ele gostava de estudar a religião minuciosamente, e experimentá-la pelo supremo toque da vida. A experiência íntima da alma humana constituía para ele a lógica final. Na povoação moraviana de Rerrnhut eIe acharia a comunidade inteira vivendo segundo as grandes verdades que acabara de aprender, e ele se apressou em redargüir (aprender, replicar, avaliar) as experiências desses simples moravianos, e em estudar a ordem social que havia evoluído e a maneira de vida que levavam.

EIe passou três meses nesta sindicância e, voltando à Inglaterra, aos 16 de setembro, em seu Diário nos dá uma descrição, meia divertida, meia tocante, das conversas que teve com vários grupos desse povo, e das perguntas solícitas mas simples com que redargüia as suas crenças e emoções. Pela língua áspera e gutural do povo alemão, ou filtradas por uma tradução latina, as experiências de um após outro desses moravianos devotos chegavam a Wesley e ele escutava pensativo e com olhos pacientes. Aqui estava a obra do Espírito Santo, traduzida em termos da vida humana e exposta diante dos olhos. Aqui estava a verificação do Evangelho de Cristo! Wesley escreveu a seu irmão Samuel: “Estou com uma Igreja cuja conversação está no céu, na qual se acha a mente que havia em Cristo, e que anda, como eIe andou. Oh! quão santa e sublime coisa é o cristianismo, e quão largamente separado daquilo – não sei o que é – que tem o nome, embora não purifica o coração, nem renova a vida”.

Wesley esteve com o Conde Zinzendorf, o chefe da comunidade moraviana, um homem que teve um gênio pela religião e era notável de muitas maneiras. Mas é curioso de se notar que Zinzendorf, cuja posição social estava muito mais próxima à de Wesley do que era a de Bohler, fez muito menos impressão em Wesley do que fez Bohler, o humilde missionário. Havia menos intervalo espiritual entre Bohler e Wesley do que entre Zinzendorf e Wesley. E Wesley não estava no humor que se importa com distinções sociais.

Wesley tomava parte nos cultos religiosos dos moravianos com o mais vivo interesse, e se sentava com a simplicidade de uma criança aos pés do presbítero plebeu, ou do pregador carpinteiro. Mas não foi lhe possível desfazer-se do obstinado bom senso inglês, e ele estudava com viva atenção todo o sistema de piedade ali produzido. Quando voltou à Inglaterra ele escreveu uma carta ao Conde Zinzendorf, agradecendo-lhe, e louvando o que havia visto; mas, acrescentou, que nutria a esperança de poder mais tarde dar a seus amigos moravianos “o fruto do meu amor por Ihes falar francamente acerca de umas poucas coisas que não pude aprovar, talvez por não entendê-las”.

Mais tarde são minuciosamente descritas essas “poucas coisas” que o bom senso de Wesley não aprovara. Contudo Wesley voltou de sua peregrinação aos moravianos com a fé fortalecida. As suas novas experiências espirituais não eram realmente novas. Pertenciam a uma corrente de experiências humanas que se estendia por todos os santos até os dias dos Apóstolos. Nestas experiências participaram centenas de homens e mulheres vivos, nos quais Wesley havia presenciado os frutos da santidade antiga. Wesley trouxe de Herrnhut o conhecimento exultante de que estava em boa companhia.

Desde aquele momento mudou-se o caráter da obra de Wesley. Ele estava vivendo em novo clima espiritual. A religião para ele não estava mais em prova; já era uma realidade! Pertencia ao domínio das certezas. Ele possuía uma confiança exultante na sua proclamação, e a obra dele ganhava logo uma nova e estranha concentração de energia.

A história do seu trabalho na primeira semana é uma expressão notável de zelo. Chegou a Londres na noite de sábado, 16 de setembro, pregou quatro vezes no domingo. Reuniu-se com a pequena sociedade moraviana, que então contava trinta e dois membros, na segunda-feira. Na terça-feira visitou os condenados na prisão de Newgate e pregou à noite na rua Aldersgate. Todos os dias da semana ocupados com a pregação e a visitação particular. E por fim Wesley achara a chave para o coração humano. O seu discurso sempre possuíra um estranho poder em perturbar a consciência, mas agora se vê uma nova qualidade na mensagem; qualidade esta que para as consciências, que antes perturbara, a paz.

O seu Diário abunda em breves e, às vezes, aparentemente inconscientes notas de êxito, tanto em pregar nas grandes congregações como em seu trato com indivíduos. “Um que, havia muito, mofara de religião espiritual” mandou pedir que Wesley o visitasse. “Ele possuía todos os sinais”, diz Wesley, “de um desespero completo, tanto nas feições como nas ações. Disse que havia sido escravizado ao pecado por muitos anos, especialmente ao vício da embriaguez. Pedi que orássemos juntos. Em pouco tempo eIe se levantou, as feições não eram tristes agora, e ele disse, “agora sei que Deus me ama e que me perdoou os pecados, e que o pecado não terá mais domínio sobre mim”. E diz Wesley : “Foi lhe feito segundo a sua fé”. Ele anota em outro lugar: “Em S. Thomaz, achava-se uma moça maníaca, que gritava e se atormentava continuamente: eu senti um forte desejo de falar-lhe. No instante que comecei a falar-lhe, ela se acalmou, as lágrimas lhe corriam pelas faces por todo o tempo que eu lhe dizia: Jesus, o Nazareno, pode e quer te livrar...”. ”Na casa do sr. Fox eu discursei como de costume, o grande poder de Deus estava conosco, e uma ¬pessoa, que durante alguns anos havia sido desesperada, recebeu o testemunho de que era filha de Deus”. Notas semelhantes começam cintilar, quais estrelas no firmamento até aí nebuloso e tempestuoso, no Diário de Wesley.

É claro que Wesley agora se achava de todo munido, no limiar do verdadeiro trabalho de sua vida – o despertamento religioso de seus conterrâneos. A sua educação espiritual, em certo sentido, é completa. Ele tem um verdadeiro evangelho para pregar; as boas novas da religião como sendo um livramento, não como sendo uma nova e intolerável escravidão. Ele pode proclamar este evangelho com um forte acento de certeza. Tem sido verificado na experiência própria e confirmado pelo testemunho de multidões. Ele possui toda a inteireza de antes, a mais completa sinceridade, desprezo de concessões, e um espírito que não se poupava do qualquer sacrifício; mas através de todas essas belas qualidades agora corre algo de novo – nota de vitória, o fogo de alegria. Aqui certamente está um instrumento ajustado às mãos de Deus para uma grande obra. Não é simplesmente que o espírito de Wesley oferece agora um meio transparente pelo qual a verdade brilhe para outros espíritos. É antes um canal pelo qual, grandes forças – as energias vivificantes do Espírito Santo – correm para outras vidas. Wesley, sob estas novas condições, é semelhante ao fio elétrico que vibra de uma energia sutil e estranha. Ele tem poder! Mais do que aquele inerente na língua eloqüente ou na lógica da inteligência; poder que emana da eternidade, e que pertence à ordem espiritual, e lhe dá uma maravilhosa influência sobre as almas dos que ouvem.

Mas se a pregação de Wesley produzia resultados mais diretos e visíveis do que antes, agora curiosamente provocava uma oposição ainda mais ativa do que nunca. A sua sinceridade perturbadora, a penetração de suas palavras como que aço afiado, haviam sido sempre demais severas para as congregações sonolentas daquele dia. Para eles a religião possuía somente os dons de um calmante; um processo tão inteiramente mecânico como as revoluções de uma roda de orações dos Tibetanos. Mas agora a energia perturbadora das palavras de Wesley para ouvintes que só pediam que não lhes incomodassem foi grandemente aumentada e as igrejas, umas após outras, se fecharam pronta e quase que automaticamente contra ele, depois de ter pregado nelas. Antes de findar-se o ano de 1738 ele era um pouco melhor do que um desterrado eclesiástico.

Neste período o seu Diário abunda em notas como estas: “Preguei duas vezes em S. João Clerkenwell, de modo que receio que não suportem por mais tempo... Preguei à noite a congregações como nunca vi antes em S. Clemente, no Strand, como foi a primeira vez que preguei aqui, suponho que será a última... Preguei em São Giles ...O poder de Deus nos assistiu! Estou contente mesmo que eu não pregue mais aqui”.

Não paramos agora para analisarmos o segredo da oposição que Wesley provocava, nesse tempo, entre o clero e os assistentes nas igrejas. Basta notar que nesse momento exato em que teve uma mensagem a proclamar com confiança exultante – mensagem por cujas sílabas vibrava uma misteriosa força espiritual – quase todas as igrejas de Londres fechavam-lhe as portas com grande estrondo!

E as igrejas recusando ouvi-lo, Wesley virou-se às prisões e ali achou os seus mais atentos ouvintes, e o seu maior êxito entre os criminosos encarcerados. Criminosos que esperavam a forca deve-se lembrar, assentavam em multidões – testemunho da crueldade da lei nesses dias tristes – em todas as prisões inglesas. Carlos Wesley narra ter pregado a uma triste companhia de sentenciados, em número de cinqüenta e dois, e entre eles havia uma criança de dez anos. Rogers, o poeta, tão recente como 1780, relata ter visto uma carroça cheia de meninas vestidas de várias cores – o instinto feminino pelo adorno sobrevivendo até o fim – em caminho a Tyburn para serem executadas, depois das desordens de Gordon. O trabalho de Wesley entre estes entes que iam pressurosos (cheios de pressa ou de zelo) para a forca acha largo espaço no seu Diário. Aqui damos um exemplo típico entre muitos:

“Na quarta-feira eu e meu irmão fomos, a pedido deles, para prestarmos os últimos ofícios a alguns malfeitores sentenciados... Foi o mais glorioso exemplo do triunfo da fé sobre o pecado e a morte que eu jamais vi. Notando as lágrimas que corriam ligeiramente pelas faces de um deles, eu perguntei-lhe: ”Como sentes no teu coração agora?” Ele respondeu calmamente: ”Sinto-me com uma paz que eu não poderia ter julgado possível, e sei que é a paz de Deus que sobrepuja todo o entendimento”.

No Diário de Wesley é interessante notar o rigor com que ele continua a experimentar-se, e o cuidado, para não dizer a solicitude, com que eIe coleciona e narra todas as variedades de experiência espiritual que ele vê. Escreve a muitas pessoas que têm vindo sob a sua influência, pedindo que descrevam os efeitos que a religião produz nelas; e Wesley, mesmo o mais franco dos homens, possuia algum encanto misterioso que despertava a franqueza em outros. Por conseguinte, o seu Diário regurgita de documentos que, mesmo lidos cento e cinqüenta anos depois, impressionam o leitor com uma curiosa convicção da sua realidade e honestidade.

Não foi qualquer curiosidade vulgar e ociosa que fez Wesley buscar e registrar estas histórias. A verdade é que ninguém jamais contemplava a religião de uma maneira mais científica, nem a experimentava por métodos mais científicos, do que Wesley fez. Para ele não era uma teologia para ser recitada, nem uma história para se aprender, nem uma filosofia para interpretar, nem era um código de moral exterior para ser obedecido; mas força divina penetrando a vida humana e empreendendo a produção de certos resultados no caráter e na experiência humanos. E Wesley estava provando-se, a si mesmo, e a outros, pela pergunta: “Em realidade, produz os resultados que pretende produzir? “

“Primeiro, a experiência em seguida a inferência” (conclusão, dedução). Esta diz Huxley, ”é a ordem da ciência”. E a atitude de Wesley para com o seu próprio trabalho, no sentido de Huxley, é completamente científica. Ele parece um químico que está ensaiando uma nova combinação. Ele tem de vigiar, notar, verificar os resultados em termos da experiência humana que esta combinação produz.

Neste meio tempo achavam-se juntos em Londres os três homens que haviam de ser relacionados na memorável firma de serviços cristãos. Wesley chegou da Alemanha aos 16 de setembro de 1738; Whitefield voltou de uma breve visita da América em dezembro e Carlos Wesley estava servindo em Islington. Assim nos princípios do ano 1739 os três camaradas, pela primeira vez desde a dissolução do Clube Santo, de Oxford, achavam•se reunidos. Eram jovens sem posição eclesiástica, e ainda não tinham idéia alguma da grande carreira que haviam de seguir em comum. Mas todos os três haviam aprendido de algum modo, o segredo esquecido do cristianismo. Algo do seu poder primitivo havia caído sobre eles: o ardor das línguas do fogo de Pentecostes estava em suas palavras; um sopro daquele vento impetuoso estava em suas vidas.

A abundante evidência desse misterioso poder acha-se em todos os três. Carlos Wesley durante a ausência do seu irmão, que estava na Alemanha, fez um trabalho surpreendente entre os condenados nas prisões e náufragos sociais dos presídios de Londres. Multidões se aglomeraram em redor de Whitefield onde quer que ele subia ao púlpito. Nas pequenas sociedades que já existiam, a presença dos três era uma espécie de chama corpórea, e tiveram reuniões notáveis. Às vezes noites inteiras eram gastas em oração.

Na primeira noite de 1739, o próprio Wesley diz: “Os Srs. Hall, Kinchin, Ingham, Whithefield, Hutchins, e o meu irmão Carlos, estiveram presentes em nossa festa de caridade, com cerca de sessenta irmãos. Cerca das três horas da madrugada, enquanto estávamos continuando em oração, o poder de Deus veio ao nosso meio maravilhosamente fazendo que muitos clamassem de excessivo regozijo, e muitos caíram ao chão. Logo que se recobraram um pouco do pasmo e da admiração com a Presença Majestosa, rompemos em voz uníssona: Louvamos-te ó Deus; te reconhecemos por Senhor!”

Tais reuniões, por certo, haviam de despertar o adormecido sentimento a respeito da ordem, no clero comum. A pregação dos três camaradas poderia incidentalmente dar resultados de uma espécie louvável. Tinham de confessar que haviam feito homens honestos de ladrões, homens pacatos de bêbados, e homens bons dos que haviam maltratado as mulheres. EIes iluminavam os rostos humanos com o resplendor de um gozo misterioso, e habilitavam os condenados a irem à forca com salmos nos lábios; mas o seu trabalho possuía um vício fatal, o pior conhecido àquele século – era irregular! Estava tingido com o temível e odiado entusiasmo, a pior coisa que podia haver! O próprio Southey, contando a história cem anos depois, não pode perdoar os Wesley em tudo por terem salvado homens e mulheres de uma maneira tão irregular; e Coleridge rompe o seu texto com uma divertida anotação:

“Ó querido e honrado Southey! Este livro é o favorito da minha biblioteca entre muitos favoritos; este é o livro que eu posso ler vinte vezes com prazer, quando não posso ler outra coisa qualquer... Entretanto, este livro prezado não é bom para quem não tiver o espírito bem firmado. Os fatos e incidentes que achamos narrados nas Escrituras, e notados nas mesmas palavras – e infelizmente os obreiros! Na página seguinte – são taxados de entusiastas e fanáticos”.

Os incidentes dos primeiros cinco capítulos dos Atos dos Apóstolos, reaparecendo na vida atual depois de dezoito séculos – foram deveras, para muita gente boa, um espetáculo alarmante e inquietador. E quantos não existem hoje que podem tolerar os fenômenos espirituais somente enquanto estejam fechados seguramente dentro da capa da Bíblia, e à distâcia de muitos séculos.

Os dois Wesley não tinham qualquer sonho inquietador sobre a separação da Igreja, e não desejavam outra coisa, senão a aprovação de seus superiores espirituais; visitaram o Bispo de Londres para se justificarem e explicarem os seus métodos. Gibson era diplomata, versado em antiguidades, homem de negócios; mas não se pode imaginar coisa mais remota do seu temperamento do que o zelo impetuoso do reformador, ou do ardor flamejante do evangelista. Ele contemplou com visão perplexa os irmãos. Os sinais do sol americano ainda estavam nas suas faces; mas eram doutos cavalheiros, universitários. Era pena que abrasava neles tão ardente fogo de zelo. Não havia neles qualquer vestígio de dissidência. Não contestavam os Artigos nem o ritual da Igreja. O que mais o incomodava foi o fato deles os interpretarem literalmente em demasia.

Por exemplo, falavam com o Bispo sobre conveniência, sim, a necessidade, de re-batizar os dissidentes. Carlos Wesley, argumentando “que o certo e o incerto não significam a mesma coisa”, e onde estava em jogo a sorte de almas imortais não deviam ¬assumir risco algum. Mas o Bispo Gibson não desejava outra coisa senão deixar em paz os dissidentes, não obstante ser esta política inconsistente com a teoria da Igreja alta. Carlos Wesley visitou o Bispo Gibson mais tarde para notificá-lo que pretendia fazer um tal batismo.

- “É irregular, disse o Bispo, nunca recebo tais informes a não ser do ministro”.
- “Meu Senhor, a rubrica nem exige que o ministro vos noticie, mas qualquer pessoa discreta. Tenho a permissão do ministro”.
- “Quem vos autorizou a batizar?”
- “A vossa senhoria”, disse CarIos, pois havia sido ordenado presbítero por ele, “e hei de exercê-la em qualquer parte do mundo conhecido “.
- “Tendes licença de cura?” Perguntou o Bispo. “Não sabeis que ninguém pode exercer as funções paroquiais sem a minha permissão? É somente sub silentio“.
- “Mas sabeis que muitos tomam este silêncio por autorização, e vós mesmo o permitis”.
- “É uma coisa ser conivente, e outra é o aprovar. Tenho poder de inibir-vos”.
- “E a vossa senhoria exerce este poder?” Perguntou-lhe Carlos, manifestando-se a vista de uma ameaça o Wesley nele. Quereis me inibir agora”?
- “Porque quereis levar o negocio ao extremo?” Perguntou o Bispo amolado.

É claro que eram moços incomodativos estes, que recusavam diluir a religião em civilidades, ou abotoá-la nas cerimônias de uma sociedade polida.

Dos três camaradas, os Wesley – talvez por serem mais velhos e mais conhecidos – eram tidos por mais suspeitos. Todos os chefes oficiais lhes fizeram cara feia. As oportunidades para pregarem tornaram-se cada vez mais limitadas. A Igreja era deveras uma dura madrasta para os dois irmãos. João Wesley fora cura na paróquia de seu pai por três anos, o único cargo eclesiástico que exercera na Inglaterra. Carlos, sem título, serviu de cura em Islington por uns três meses, e foi tocado dali quase com violência. Eis a única recompensa que a Igreja Anglicana tinha para dar a seus dois filhos que representavam a maior força que moveu a Inglaterra Protestante.

É costume se dizer que as surpreendentes manifestações físicas, que acompanhavam ao princípio, a pregação dos Wesley, explicam e justificam a recusa geral de todos os púlpitos a eles; mas as simples datas no calendário desmentem esta teoria.

Na primavera de 1739 havia se dado somente um caso das manifestações físicas, depois tão notavelmente presentes sob a pregação de Wesley, não obstante a Igreja já havia fechado a sua porta para sempre contra o seu filho entusiasta. Southey acha justificação para exclusão dos Wesley, na assistência dos Wesley nas festas de caridade e nos serviços de vigílias celebrados pelas pequenas sociedades dos Moravianos. Já descrevemos uma destas reuniões que durou até três horas da madrugada, e que foi assinalada por uma onda de notável influência espiritual. “Tal reunião”, diz Southey, “desafiava toda a prudência”. Era exemplo de uma devoção quase excessiva, que dava justa ofensa à melhor parte do clero. Uma “devoção excessiva”, diz ele, “mesmo que ache as faculdades mentais sãs, não é provável que as deixe assim”. Coleridge, com uma faísca de penetração mais perspicaz, atribui a oposição em relação ao novo movimento aquilo que eIe chama, “o veneno sutil da cadeira preguiçosa”.

Para os que possuem tal gênio espiritual “a prudência” parece ser a virtude principal, enquanto o zelo constitui a última e a pior ofensa. Os Wesley inquietaram a consciência do clero do seu tempo com a sua sinceridade perturbadora. Eram “entusiastas”. Era o modo delicado para dizer que eram perigosos lunáticos. Assim em defesa própria havia uma conspiração inconsciente para abafá-los. Mas ainda subsiste, depois de todas as explicações, o escândalo da Igreja até hoje, a sobrepujante prova de sua cegueira, de ter fechado as portas contra os Wesley.

Mas Whitefield era o mais moço do grupo; até aí havia provocado menos censura do que os seus camaradas. Os seus incomparáveis poderes de pregação lhe deram notável popularidade; e assim, na ordem da providencia divina, foi lhe dado a quebrar os estreitos limites da ordem mecânica da Igreja e preparar o caminho as novas forças que começavam agitar a vida religiosa da Inglaterra.

Existe algo de divertido no despertamento vagaroso da suspeita no clero Londrino para com o Whitefield. Aqui havia um estranho fenômeno clerical, um pregador que empregava palavras de fogo no púlpito; que chorava sobre seus ouvintes em paixão de piedade, e de algum modo fazendo que o povo também vertesse lágrimas. É claro que não havia quaisquer conveniências pedantes que pudessem resistir um clérigo tão jovem e ao mesmo tempo tão ardente. Ninguém sabia exatamente o que ele havia de fazer em seguida. Ele estava pregando na Igreja de Bermondsey perante uma grande congregação, e uma multidão ainda maior enchia o terreno fora, sem poder entrar no templo. Whitefield perguntou porque não poderia sair e, ser¬vindo-se de um jazigo por púlpito, pregar a grande multidão que avidamente esperava? A visão daquela grande multidão que silenciosamente esperava ao redor da Igreja em Bermondsey, ele disse depois, “primeiramente me fez pensar em pregar ao ar livre. Falei disso a certos amigos, os quais, consideravam a Idéia uma loucura. Entretanto ajoelhamos em oração pedindo que nada fosse feito impensadamente”.

Na Igreja de Santa Margarida, Westmister, em um domingo de manhã, Whitefield foi quase à força empurrado ao púlpito e pregou em face do protesto dos oficiais, dando escândalo a todas as sensibilidades eclesiásticas. Uns poucos dias mais tarde ele foi a Bristol, mas agora o clero em geral havia se alarmado. O secretário da diocese mandou chamá-lo, e lhe perguntou quem lhe dera autoridade para pregar na diocese de Bristol sem licença, e leu para ele os cânones que proibiam a qualquer ministro de pregar em casa particular. Whitefield alegou que isto não se referia a ministros da Igreja Anglicana. Quando foi lhe certificado o seu engano, eIe disse: “Existe também um cânon, meu Senhor, que proíbe a todos os clérigos freqüentarem casas de bebidas e jogarem cartas; porque não se executa este?” Então eIe acrescentou aquilo que ao medroso secretário parecia a pior das blasfêmias.

Havia coisas – por exemplo, as almas humanas – que este jovem cura tão altamente irregular julgava de mais valor do que os mais venerandos cânones. Custasse que custasse eIe tinha de pregar aos perdidos onde quer que os achasse. “Não obstante os cânones”, disse ele, “só poderia pregar as coisas que sabia”.

A resposta foi escrita em forma, e o secretário então disse tristemente: “Estou resolvido, Senhor, se pregardes ou discorrerdes em qualquer ponto desta diocese, primeiramente vos suspender e em seguida vos excomungar”.

Neste ponto eIes se separaram, e Whitefield conta-nos que “depois de feita oração pelo secretário”, ele dirigiu um serviço na Rua S. Nicolau com manifesto poder. Ele acrescenta: “É notável que nunca tivemos tão constantemente a presença de Deus entre nós como temos desde que fui ameaçado de excomunhão “.

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** (Esse texto corresponde ao capítulo XIV, "Começando a obra", do livro "Wesley e seu século – um estudo de forças espirituais", volume I, respectivamente nas páginas 170 a 183, Edição de 1916 publicada pela Typographia de Carlos Echenique, Porto Alegre, RJ).

OBS: Esse livro originalmente não usa parênteses. As notas explicativas dentro de parênteses são de iniciativa dessa edição on line do site da Igreja Metodista de Vila Isabel)

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