IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 16/2/2009
 

A Pregação ao ar Livre - uma grande revolução para o século XVIII** (Rev. W. H. Fitchett)

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Qualquer esforço para amordaçar a Whitefield era predestinado a fracassar-se. É verdade que Whitefield tinha apenas vinte e cinco anos de idade; era um cura que havia pouco se ordenara, sem freguesia e sem influência. O chanceler (bispo) da diocese de Bristol, com a testa franzida e com a ameaça de excomunhão nos lábios era figura de qualidade para meter medo. Qualquer cura comum teria sido extinguido por completo com a ameaça! Mas Whitefield era cura de qualidades inteiramente excepcionais. Um espírito tão ousado não se amedrontava com as mangas de linho! Neste momento também Whitefield achou-se na presença daquilo que parecia lhe ser uma chamada urgente e inadiável para pregar. Aí estavam os mineiros de Kingswood, uma comunidade de ignorantes, viciados, esquecidos, que, além de todos os outros, necessitavam do cuidado e do ensino da Igreja Cristã; entretanto eram deixados completamente fora, não simplesmente de seus serviços, mas de seu pensamento.

Quando Whitefield partia para América um amigo sábio e de viva penetração lhe disse, “se quereis converter índios, eis aqui os mineiros de Kingswood”. Como poderia um ministro de Cristo – um que possuía os dons, e o temperamento de Whitefield, cônscio da mensagem divina e do poder também divino para publicar essa mensagem – prostrar-se diante tal multidão e ainda consentir a permanecer em silêncio? As feições mudas e pálidas constituíram uma chamada urgente demais para ser desatendida.

As Igrejas não puderam achar lugar para Whithefield e na tarde de sábado, 17 de fevereiro de 1739, ele se postou numa pequena elevação de terreno fora de Bristol, chamada Rosa Verde, e pregou o seu primeiro sermão ao ar livre. Houve uma congregação de somente duzentas pessoas, que boquiabertas escutavam-no. Era um espetáculo estranho: um clérigo de sobrepeliz (roupa sacerdotal), com voz que possuía algo de trovão, pregando sermão à beira do caminho. “Eu julguei”, diz o Whitefield com seu modo incomparável, “que talvez eu estivesse fazendo o serviço do meu Criador que tinha por púlpito uma montanha e por teto os céus”.

Havia justos cinco meses que João Wesley voltara da Alemanha. Eram meses de esperas, incertezas e desânimo, de oportunidades para o trabalho gradualmente limitadas. As portas de todas as Igrejas estavam sendo fechadas, uma após outra, contra João Wesley e seus camaradas. Parecia que a Inglaterra não tinha lugar algum para eles, e que não podia lhes oferecer carreira. Aqueles cinco meses constituem uma pausa dramática no limiar do grande trabalho. Então, Whitefield, o primeiro dos camaradas imortais, rompeu as linhas do costume convencional e da lei eclesiástica, pregando ao ar livre. Por aquele ato ele passou para um mundo maior e mais livre, e daquele momento em diante as novas forças espirituais que começavam a agitar a IngIaterra acharam – ou antes fizeram para si mesmas – canal livre.

Os cultos ao ar livre que foram encetados (iniciados) por Whitefield eram acompanhados, quase instantaneamente por resultados surpreendentes. O seu primeiro auditório consistia de duzentas pessoas, o segundo era de três mil, o terceiro de cinco mil, e as multidões se aumentavam ligeiramente até vinte mil. Whitefield contemplava o vasto mosaico de rostos humanos enegrecidos pelo carvão das minas, contando em palavras inesquecíveis como, enquanto pregava, ele via as listas brancas que se abriam à força de lágrimas naquelas faces sujas. Escreveu ele depois: ”Os céus em cima, os campos adjacentes, a visão dos milhares e milhares, uns em carruagens, uns a cavalo, e outros trepados em árvores, e às vezes, emocionados e todos juntos banhados de lágrimas, e a tudo isto freqüentemente se acrescentava o cair da noite, formavam um conjunto que era quase demais para mim e me vencia de tudo. Bem-aventurados os olhos que vêem o que nós vemos”.

As autoridades eclesiásticas, por certo, acharam novos argumentos para rebaterem estes serviços. Constituíam uma nova e ainda mais, alarmante expressão do “entusiasmo”. Estava-se fazendo o que não se devia, no lugar em que não se devia, e da maneira em que não se devia. É um exemplo divertido do formalismo daquele tempo achar-se um homem tão sensato como Samuel Wesley, tomado de horror pela circunstância de Whitefield “nunca ler a ladainha a seus esfarrapados congregados nos terrenos devolutos!”

Mas se os serviços repugnavam a consciência clerical, eles emocionavam o coração do povo. O afeto que Whitefield ganhou de seus ouvintes era filial e tocante. Eles esperavam avidamente as suas palavras. Deram-lhe ofertas de seus pequenos ganhos para aquele orfanato em solo americano que já Whitefield contemplava estabelecer. Derramaram lágrimas quando ele os deixou. Os serviços ao ar livre pareciam como poços artesianos. As águas esquecidas nas profundezas escuras subiam para a luz.

Mas Whitefield teve de partir para a Geórgia, na América, e ele chamou a João Wesley de Londres para Bristol pra continuar o trabalho que começara. Na pequena sociedade em Fetter Lane, a chamada foi ouvida com receio. Um pressentimento da importância da resposta inquietou o espírito da pequena companhia. A Bíblia foi consultada por sorte, e repetidas vezes, em procura de um texto que deveria servir de resposta decisiva. Mas somente apareciam as passagens mais alarmantes. Uma rezava assim: “Subirás a este monte e morrerás, no monte ao qual tu hás de subir, e te recolherás ao teu povo”. Quando um texto sorteado se mostrou deste modo perturbador, outra vez se lançou a sorte, ainda repetidas vezes, mas sempre com o mesmo resultado. Existia uma estranha mistura de superstição e de simplicidade na “bibliomancia” dos Metodistas primitivos. Se o texto que lhes saia não lhes agradasse o rejeitavam, e de novo consultavam por sorte as páginas sagradas na esperança de resultados mais auspiciosos.

Por fim Wesley decidiu ir, se bem que a chamada a Bristol parecesse aos seus ouvidos como uma chamada para o túmulo. Entretanto o seu propósito era inabalável, e aquele passo decidiu todo o caráter de todo o seu trabalho posterior.

João Wesley foi a Bristol e postou-se ao lado de Whitefield enquanto este pregava ao ar livre. Wesley olhou com seriedade e admiração sobre a vasta e estranha congregação; e no dia seguinte, servindo-nos das próprias palavras, disse: “eu me fiz ainda mais vil e, postado numa pequena elevação coberta de relva, preguei a uma grande multidão, sobre as palavras: “O Espírito do Senhor está sobre mim, que me ungiu para anunciar boas novas aos pobres”.”

Whitefield pregou o seu primeiro sermão ao ar livre em 17 de fevereiro de 1839 seis semanas depois, aos 2 de abril, João Wesley dirigiu o seu primeiro serviço ao ar livre; e ainda mais tarde, 24 de junho, Carlos Wesley seguiu o exemplo de seus camaradas. No caso dele, também fora tocado das Igrejas para os campos. As autoridades eclesiásticas haviam se tornado ativamente hostis. Carlos Wesley estava servindo de cura, mas sem licença, e repetidas vezes pregava na Igreja de Bexley; o pároco irregular e o cura ainda mais irregular foram chamados à presença do Arcebispo de Canterbury, aos 19 de junho daquele 1939. Carlos Wesley diz no seu Diário:
- “A Sua Reverendíssima proibiu ao pároco expressamente de deixar qualquer de nós pregar na sua igreja, e nos acusou de termos desrespeitado o cânon. Eu mencionei que o Bispo de Londres havia autorizado a minha exclusão a força. Ele não quis ouvir-me; disse que não entraria em discussões. Perguntou-me que chamada eu possuía. Eu respondi: É me imposta a obrigação de anunciar o Evangelho”.
- “Isto é para São Paulo; mas não quero discutir, e não prossigo com a vossa excomunhão por enquanto”.
- “A vossa Reverendíssima tem me ensinado no vosso livro sobre o governo da Igreja, que se alguém for excomungado injustamente que nem por isso é cortado de comunhão com Cristo”.
- “Disto” diz eIe, “sou eu o juiz”.
- “Perguntei-lhe se o êxito do sr. Whitefield não seria um sinal espiritual, e uma prova adequada de sua chamada; e lhe recomendei o conselho de Gamaliel. EIe nos despediu; a Piers, com delicados protestos de consideração; a mim com os sinais de desagrado”.

Era quinta-feira. Whitefield instou com Carlos Wesley para pregar ao ar livre no domingo seguinte. Carlos Wesley escreve em meditação perplexa: “Se eu fizer isto, farei uma brecha, e tornar-me-ei desesperado”. Afinal decidiu-se, e ele nos conta no seu Diário a história daquele domingo notável:
“Domingo, 24 de Junho, dia de S. João Baptista – ¬A primeira passagem das Escrituras em que lancei o meu olhar foi, “E disse-lhe seu servo: Ai meu senhor! Como havemos de fazer?” Fiz oração com West e saí em nome de Jesus Cristo. Achei cerca de dez mil pecadores impotentes que esperavam a Palavra em Moorfields. Convidei-os nas palavras do meu Mestre, bem como em seu nome. “Vinde, a mim todos os que andais em trabalhos e vos achais carregados, e eu vos aliviarei”. “0 Senhor estava comigo, seu mínimo mensageiro, segundo a sua promessa. Na Igreja de S. Paulo, os SaImos, as lições, etc, do dia me infundiram nova vida, Assim também o sacramento. O meu pesar havia desaparecido com todas as minhas dúvidas e escrúpulos. Deus me iluminava o caminho e eu sabia que esta era a sua vontade a meu respeito.”

O Arcebispo Potter ameaçou a Carlos Wesley com a excomunhão por ter pregado em Moorfields e em Kennington ao ar livre; e os leigos, também partilharam nas prevenções do clero. Um proprietário carrancudo processou a Carlos Wesley por ter atravessado os seus terrenos para ir falar à multidão. O processo foi liquidado pelo pagamento de dez libras, e o recibo ainda subsiste como documento histórico. Reza assim:

“Goter versus Wesley. Prejuízos 10 libras; despesas 9 libras, 16 schillings, 8 pence - 29 de Julho 1739, recebi do Senhor WesIey, pelas mãos do Sr. José Varding, dezenove libras, dezesseis schillings e seis pence, pelos prejuízos e despesas em seu pleito. WiIliam Gason, advogado do autorgante.”

Ao pé deste recibo Carlos Wesley escreveu: “Paguei aquilo que não tirei”. E às costas do mesmo escreveu acerca da sentença na qual fora condenado: “Para ser julgado de novo naquele Dia”.

É interessante notar as maneiras – como se fossem homens que tivessem saído da terra firme para o mero espaço ou como se fossem aventureiros que principiassem uma revolução – com que Whitefield e os Wesley começavam, sucessivamente a pregar ao ar livre.

Que havia de tão alarmante na simples pregação de um sermão sob os céus abertos, com a relva por tapete e os horizontes por paredes?

Segundo ponderava o próprio João Wesley, há excelentes precedentes para a pregação ao ar livre no Novo Testamento. Entretanto ele nos diz que ao ver Whitefield pregar aos mineiros de Kingswood quão profundamente lhe abalara:

“Toda a minha vida, até mui recentemente eu tenho sido tão solícito por tudo que se relaciona com o decoro e a ordem que eu teria julgado que a salvação de almas seria quase pecado se não fosse efetuada dentro de uma igreja”.

O próprio Whitefield escreve, aos 3 de abril. “Ontem comecei a desempenhar o papel de louco em Gloucester por pregar de uma mesa na rua Thorn¬bury”.

Entretanto João e CarIos Wesley haviam pregado freqüentemente à beira do rio, ou sob a sombra de grandes árvores na Geórgia, na América, e isto sem qualquer idéia de ter faltado o decoro. Que havia de tão alarmante num culto ao ar livre na Inglaterra?

Estavam sendo inconscientemente influenciados pelo meio: na Inglaterra oprimida pelas convenções, sobre a qual o mero costume decoroso pairava como dura e grossa geada, o pregar fora do púlpito, ou em qualquer outro lugar a não ser sob o teto de uma igreja, era pouco menos do que a impiedade. Era acompanhado dos riscos mais rnortiferos. A religião precisava ser conservada sob a proteção de vidro e acondicionada em algodão. Levá-la para a rua turbulenta e expô-la aos ventos adversos que sopravam nos morros ou nos campos abertos, seria pôr a sua existência em perigo!

Deve se lembrar também que a Inglaterra era uma rede de paróquias eclesiásticas, e cada paróquia era uma espécie de propriedade espiritual particular, com limites zelosamente cuidados. Os novos pregadores, portanto, eram transgressores. Eram também transgressores de um tipo mui inquietador. Para o clero sonolento daquela época, o espetáculo de clérigos freqüentarem os mercados ou as praças de aldeias em busca de uma congregação não era menos do que alarmante. E a vastidão das congregações que atraiam, à profundeza das emoções que despertavam, fê-lo espetáculo ainda mais alarmante aos olhos eclesiásticos. Estes homens estavam promovendo uma conflagração!

Para o próprio João Wesley e os seus camaradas a tarefa de pregação ao ar livre foi-lhes a princípio, como já vimos, mui repugnante. João Wesley diz, “Consenti em fazer-me ainda mais vi!”, quando pregou da pequena elevação em Kingswood. Estremeceram-se todas as sensibilidades do catito (elegante) e ritualista, com a experiência de postar-se na terra comum, enquanto o vento lhe abanava a cabeça descoberta, e pregar a uma multidão promíscua. Mas Wesley, a seu modo lógico, tomou a resolução uma vez para sempre, e a sua consciência obedeceu a sua lógica. Estava simplesmente seguindo um grande e sagrado precedente em consentir deste modo se fazer um “estulto por amor de Cristo”. Ele defende a sua causa com força irresistível numa carta a um amigo que havia lhe prevenido estes serviços irregulares e censurados:

“Baseado em princípios Escriturísticos acho que não é difícil justificar o que faço. Deus, nas Escrituras, me manda, à medida das minhas forças, a instruir os ignorantes, a corrigir os pecadores e a confirmar os virtuosos. Os homens me proíbem de fazer isto na paróquia de outros; e isto é proibir-me de tudo, visto que eu não tenho paróquia própria, e talvez nunca terei. A quem, pois devo atender, a Deus ou aos homens? Se for justo diante de Deus ouvir-vos a vós antes do que a Deus, julgai-o vós. Pois é me imposta esta obrigação, porque ai de mim se não anunciar o Evangelho. Mas onde eu hei de pregá-lo se eu seguir os princípios que me indicastes? Não na Europa, nem na Ásia, tão pouco na África ou na América; pelo menos não em qualquer parte do mundo habitado por cristãos. Pois todas estas são de alguma maneira divididas em paróquias. Se me disserdes. “Voltai-vos para os pagãos de onde viestes” – mas não posso agora pregar a eles, pois sob os vossos princípios, todos os pagãos em Geórgia pertencem ou à paróquia de Savannah ou à de Frederica”.
Permiti-me agora vos dizer quais os meus princípios quanto a este assunto. Considero todo o mundo como a minha paróquia, quero dizer que, em qualquer parte que eu me achar, julgo conveniente, justo, e do meu estrito dever anunciar a todos que me querem ouvir as novas da salvação. E é esta a obra que eu sei que Deus me chamou a fazer, e certo estou que a sua benção está me assistindo nela.
(Diário de 11 de junho de 1739).

Esta primitiva pregação ao ar livre é a melhor expressão do gênio essencial do Metodismo. Torna audível aquilo que se pode chamar a sua nota imperial; também torna visível o seu apaixonado zelo pela salvação dos perdidos, tanto homens como mulheres. Na vida eclesiástica daquele tempo havia pouco do espírito militante. E ainda menos de qualquer manifestação do elemento mais divino do cristianismo, da piedade que busca os perdidos, buscando-os com compaixão e com solicitude; não se poupando fadigas, e nem se importando com as dificuldades ou com as convenções.

Todos os termos da grande parábola de Cristo eram, nesses dias tristes – como é demais comum sempre – invertidos na própria Igreja de Cristo. Noventa e nove ovelhas estavam extraviadas no deserto, e havia uma ovelha bem gorda e bem vestida no aprisco. E ao lado dessa ovelha gorda se achava o pastor igualmente gordo que confortavelmente dormia, deixando às noventa e nove no deserto o encargo de procurarem a ele. A ovelha desgarrada tinha de procurar ao pastor e não o pastor a ovelha.

Mas quando Whitefield e os Wesley, com as portas de mil igrejas trancadas contra eles, se postaram perante a multidão de pecadores imundos em Kingswood, ou diante de uma multidão de esfarrapados dos viciados de Londres, em Moorfields, e proclamaram o Evangelho de Jesus Cristo, então a fé saia de suas trincheiras. A religião sonolenta e comodista desta época se levantou de sua poltrona e tornou-se agressiva (ativa). Tomou a ofensiva em vez de esperar a agressão. A pregação ao ar livre nos tempos modernos tem se tornado quase em moda, mas em 1719 era uma grande revolução.

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** (Esse texto corresponde ao capítulo XV, "Pregação ao ar livre", do livro "Wesley e seu século – um estudo de forças espirituais", volume I, respectivamente nas páginas 184 a 192, Edição de 1916 publicada pela Typographia de Carlos Echenique, Porto Alegre, RJ).

OBS: Esse livro originalmente não usa parênteses. As notas explicativas dentro de parênteses são de iniciativa dessa edição on line do site da Igreja Metodista de Vila Isabel)

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