IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 16/2/2009
 

Os Três Grandes Camaradas: João Wesley, Carlos Wesley e George Whitefield**(Rev. W. H. Fitchett)

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Aqui no limiar do avivamento do século XVIII na Inglaterra, vale a pena dar um esboço dos três grandes camaradas que eram as principais forças humanas no seu desenvolvimento: João Wesley, Carlos Wesley e George Whitefield.

No começo Whitefield era o mais saliente. Ele foi adiante num novo caminho, e ocupava um Iugar mais notável aos olhos do público. As portas das igrejas estavam se fechando impiedosamente contra João Wesley. O seu campo de trabalho parecia estar se limitando aos condenados encarcerados que se achavam na sombra da forca, e às pequenas sociedades formadas sob a inspiração do moraviano Pedro Bohler. Mas Whitefield estava na rica aurora de sua fama como pregador. Os púlpitos ortodoxos estavam ainda abertos para ele. Multidões esperavam encantadas com a mágica de sua eloqüência. Cidades inteiras se comoviam com a sua vinda. Quando ele visitou Bristol pela segunda vez, multidões de pé, em carruagens, e a cavalo, vieram ao seu encontro no caminho. O povo o bem dizia enquanto ele passava pelas ruas. Na igreja, quando ele pregava, os ouvintes solícitos se apegavam aos balaústres da galeria e outros até subiam para o madeiramento do teto para apanhar as maravilhosas vibrações de sua voz incomparável. “No início de qualquer movimento”, diz Miss Wedgwood com notável perspicácia, “é o impulso e não o peso que tem o maior efeito”. Whitefield, por uma rara combinação de dons naturais e de fervor espiritual, foi bem preparado para dar impulso ao avivamento que começava agitar a vida inglesa.

É certo que Whitefield e João Wesley representavam tipos mui diferentes, e eram produtos de forças dissimilares (diferentes). Faltava a Whitefield a lógica segura de Wesley, o seu tino para o governo, a sua paixão pela ordem e método. Wesley possuía uma natureza mais séria, profunda e forte. EIe era vagaroso em aprender, porém mais resoluto em reter. Whitefield era mais ligeiro, mais ardente e impulsivo: mas possuía um tão profundo gênio pela religião como o próprio Wesley. Também vivia num domínio de ardor espiritual desconhecido a Wesley. Pode-se dizer que possuía o dom supremo do orador numa forma que Wesley não podia pretender: E a união de dois homens tais, com dons tão diversos, ajuda a explicar o movimento religioso do século XVIII.

Os contrastes e as semelhanças entre os dois eram também igualmente notáveis. Wesley criou-se na vida séria do presbitério; e do abrigo deste teto seguiu diretamente a uma grande escola, e então para a antiga universidade. Whitefield era filho de taberneiro, e passou os primeiros anos na atmosfera da taverna. Em suas próprias palavras, eIe se trajava de avental azul, lavava e arrumava quartos, e fazia o trabalho de um copeiro. EIe faz as confissões de seus vícios juvenis em tom quase histérico, e revelam um caráter curiosamente complexo. Furtava dinheiro da bolsa da mãe – mas repartia as moedas tão mal adquiridas entre os pobres. Furtava livros, mas eram livros devocionais que visavam à formação de um caráter religioso. Foi enviado à escola secundária do local, mas lhe era enfadonho o estudo, e voltou à taverna da mãe, com os seus trabalhos servis e companheiros baixos. Entretanto, o menino teve vislumbres de gênio, e por um feliz acaso obteve matrícula no colégio de Pembroke, Oxford, como servidor.

Não se distinguiu como estudante, mas as influências do Clube Santo o prendiam. Carlos e João Wesley tornavam-se seus guias espirituais, ainda que lhe faltavam o equilíbrio e a sobriedade. Ele passou por experiências religiosas, que seriam bem próprias à biografia de um santo medieval, ou de um asceta das primitivas eras cristãs. Sendo veemente em tudo mais, era também veemente no arrependimento, e nas austeridades que ele praticava no seu corpo. Vestia-se de roupa inferior, e vexava o corpo por privá-lo do sono, e tomava o alimento mais insípido. Diz eIe, com seu modo exagerado: ”Dias e semanas inteiras tenho passado prostrado em oração silenciosa e vigilante”. Ele escolheu o lindo e famoso passeio do Christ Church por local de algumas de suas mortificações a si impostas, e se ajoelhava sob as arvores na escuridão, debaixo das chuvas do inverno ou da neve que caia até que o badalar do grande sino colegial lhe advertisse que as portas iam se fechar. Falando de sua juventude Whitefield faz esta terrível apreciação de si mesmo: “Desde o berço até a maioridade não vejo nada em mim que não seja digno da condenação”. Há um toque de histrião (comediante) em Whitefield, mesmo na de sua própria biografia espiritual.

Afinal lhe veio o livramento espiritual e num transporte de alegria, contando a história, ele clama: “Oh! Com que gozo inefável, mesmo gozo cheio de gloria, quando foi o peso do pecado e veio-me a consciência permanente do amor de Deus. Onde quer que eu fosse não podia deixar de cantar quase em alta voz”.

Por natureza Whitefield era tão radiante que ganhava o afeto de todos, e a sua transformação espiritual fê-lo ainda mais radiante. O seu dom natural de orador, também já era manifesto, reconhecido como tendo uma sinceridade santa em religião, e que a única carreira inevitável seria o púlpito. Os seus amigos o instaram com demais precipitação nesta direção.

Whitefield escreveu: “Os meus amigos querem que eu dê cabeçadas no púlpito e como é que certos jovens sobem ali e pregam, eu não sei. Antes de Deus ter-me chamado e empurrado para o trabalho, eu supliquei mil vezes, até o suor cair, qual chuva, do meu rosto, que Deus nunca me permitisse a entrada ao ministério.”

Apenas completara vinte e cinco anos quando se ordenou diácono, e imediatamente ganhou fama como pregador. “Eu tencionava fazer 150 sermões”, diz eIe, “e pensava começar a pregar só quando tivesse com um bom estoque de sermões elaborados”. Mas, de fato, este maior dos pregadores ingleses, tinha apenas um sermão quando começou a sua carreira. Em sua humildade submeteu a um clérigo amigo o seu primeiro e único sermão para mostrar quão inadequado era o seu preparo para o púlpito. O bom clérigo serviu-se da metade do sermão no culto da manhã e da outra metade no da noite, e devolveu-o, ao autor surpreendido, com um guineu em pagamento. Com o seu primeiro aparecimento no púlpito Whitefield descobriu que não precisava de manuscrito. Foi deveras tão estupendo o efeito daquele discurso que alguns se queixaram ao bispo que não menos de quinze pessoas se enlouqueceram!

Whitefield não era grande estudante, nem em sentido profundo um pensador. Possuía poucos dons como líder de homens. Mas as suas sensibilidades espirituais eram singularmente vivas. Ele viu as grandes verdades do cristianismo, onde outros simplesmente raciocinavam acerca delas: e os fatos do mundo espiritual eram tão reais a eIe, e em certo sentido tão claros, como o eram os fatos da terra e atmosfera com que os seus sentidos físicos tratavam. EIes lhe cobriram sem, contudo, esmagá-lo. Sir James Stephen diz: “Poucos homens jamais se moveram entre as infinidades de causas invisíveis com menos embaraço ou menos temor silencioso do que Whitefield”. Deveras o ”temor silencioso” era impossível para homem, tão alta e harmoniosamente vocal como Whitefield.

Em estatura era pouco acima da mediana, com feições notavelmente claras e regulares, olhos azuis pequenos e bem fundos, que pareciam cintilar de vivacidade; um dos quais formava ângulo contrário ao outro, mas o resultante vesguear, como no caso de outro famoso pregador inglês, Eduardo Irving, somente realçava mais a expressão de seu rosto. Whitefield teve talvez a voz mais harmoniosa e sonora que jamais emanava de peito humano. A sua melodia permanecia nos ouvidos da multidão; as suas cadências assemelhavam-se às subidas e às descidas na escala de um grande cantor. Ainda em acréscimo, Whitefield possuía corpo de ferro e nervos de aço. Com a exceção de João Wesley, nenhum outro homem jamais falava a tais multidões ou discorria por tantas horas por dia, e por tantos dias seguidos, como Whitefield. O seu biógrafo diz que “geralmente no decorrer da semana ele falava quarenta horas, às vezes, sessenta e isto a milhares de pessoas”. E fez assim durante anos e “depois de seus trabalhos em vez de descansar, empenhava-se em fazer súplicas e intercessões, ou em cantar hinos, segundo o seu costume, em todas as casas em que fosse convidado.” Em suma, Whitefield, quase tanto como Wesley, em sua capacidade quase milagrosa para o trabalho, parece pertencer a uma raça diferente.

Whitefield alcançou o seu maior triunfo como orador ao ar livre. Sir. James Stephen nos descreve um de seus sermões ao ar livre:

“Postando-se numa pequena elevação, a sua figura alta e elegante vestida com elaborado rigor, de atitude serena e majestosa, com olhos azuis claros, Whitefield contemplava os milhares, enfileirados na planície, ou apinhados em todas as eminências adjacentes... mas os tons ricos e variados de uma voz de incomparável profundeza e compasso logo silenciaram todos os sons menos melodiosos – enquanto, numa sucessão rápida, as suas sempre variadas melodias passavam desde a calma da simples narrativa, e a medida distinta do argumento, até a veemente repreensão e a ternura de consolação celeste. Às vezes o pregador chorava copiosamente, e sapateava veementemente e apaixonadamente, e com freqüência se achava tão emocionado que durante alguns segundos, podia-se imaginar que nunca se recobraria; então, a natureza necessitava de um pouco tempo para reaver a calma. A multidão agitada ficava tomada da paixão do orador, e exultava, chorava ou tremia a seu querer.”

Whitefield pregou sob condições e a auditórios desconhecidos a qualquer outro orador. Ao passar pela praça de Hampton ele vê uma multidão de doze mil pessoas congregadas para testemunharem o enforcamento de um homem; aqui tem o auditório, o púlpito e o texto e logo cativa a multidão! Prega a uma outra vasta multidão que se ajuntou para testemunhar o enforcamento de um criminoso, e o próprio carrasco suspende as suas funções enquanto Whitefield discorre. Uns atores ambulantes armam um palco numa feira municipal; a multidão se aglomera para rir-se e para divertir-se. Mas Whitefield de repente aparece, utilizando-se de toda a cena para fins religiosos, arruinando a colheita dos atores e prega um sermão de extraordinário poder.

Como orador Whitefield possuía características bem estranhas. Em geral, um pregador, se tem empregado um sermão uma dúzia de vezes, acha que tem o feito em trapos; o som dele torna-se repugnante aos próprios ouvidos. O discurso acha•se exaurido de toda a vitalidade. Mas Whitefield nunca chegou a sua maior efetividade antes de tê-lo pregado quarenta vezes! Então se tornava, nos seus lábios, um instrumento perfeito de persuasão.

Calcula-se que ele pregou mais de dezoito mil sermões; ele mesmo publicou sessenta e três durante a sua vida; e o leitor em vão tentará descobrir neles o segredo do seu poder maravilhoso. Parecem ordinários, familiares, egoístas e desajeitados. O segredo do seu poder estava na personalidade do pregador – o olhar expressivo, incomparável, os lábios trementes, o rosto que parecia irradiar um brilho místico. Todas estas coisas eram simplesmente os instrumentos e servos de uma sinceridade apaixonada e espiritual, tal como raramente ardia numa alma humana. Aqui havia um homem que cria com absoluta convicção toda a sílaba da sua mensagem. A sua visão do céu e do inferno era tão direta como aquela do grande Fiorentino. E aquilo que via, ele possuía o poder do orador, poder do grande ator de fazer que outros vejam. E em tudo, a eloqüência de Whitefield ardia – às vezes flamejava – uma compaixão e amor por seus ouvintes. Sir James Stephen diz: “Sente-se que agora se tem a fazer com um homem que vive como fala e que alegremente morreria para desviar ouvintes do caminho da destruição, e para à santidade e paz!”.

Pode-se dizer que todos os sermões de Whitefield são apenas variações de duas idéias: O homem é pecador, mas pode obter perdão mediante Jesus Cristo; o homem é imortal, que se acha entre as duas poderosas alternativas, o eterno sofrimento ou a eterna felicidade. A eloqüência do grande pregador era assim um instrumento de duas cordas apenas. Mas que grandes e notáveis harmonias produziam!

Wesley e Whitefield discordavam em muitos pontos tanto na teologia como na moralidade prática. Whitefield era ardente calvinista, Wesley era arminiano convicto. Wesley considerava a escravidão como o cúmulo de todas as vilanias; Whitefield comprava escravos no interesse do seu orfanato em Geórgia, incluindo-os como gado na lista de seus haveres, e piedosamente dava graças a Deus pelo seu aumento.

Mas não obstante todos os pontos de diferença Wesley e Whitefield pertenciam ao mesmo tipo espiritual, viviam sob o império dos mesmos motivos elevados, e tinham partes quase iguais no maior movimento religioso na história inglesa.

Sou¬they declara “que se os Wesley nunca tivessem existido Whitefield teria originado o Metodismo”, mas talvez nunca foi escrita uma sentença de menos perspicácia. Fossem quais fossem as obras de Whitefield, o certo é que ele, o homem mais errático e sem plano de todos, nunca poderia ter construído a perdurável e majestosa fábrica (edifício, construção) do Metodismo.

A influência de Whitefield assemelha-se aos ventos tempestuosos que açoitam a superfície do mar. Mas o verdadeiro símbolo do trabalho de Wesley acha-se nos recifes de coral construídos vagarosamente, célula por célula desde as profundezas do mar, nos quais o solo se forma, em que se levantarão grandes cidades para a habitação de nações que ainda não nasceram. Whitefield agitou a superfície; Wesley edificou desde as profundezas, e construindo profundamente, assim edificou para todos os séculos.

O ideal de Whitefield era voar de uma multidão de ouvintes a outra. Wesley possuía o instinto social. Ele conhecia as forças que nascem da camaradagem, o abrigo criado pela camaradagem. Portanto, desde o começo de seu trabalho ele estava solicitamente organizando pequenas sociedades onde a vida espiritual acharia abrigo e nutrimento; sociedades que proporcionavam um reflexo externo para as íntimas experiências espirituais daqueles que eram membros. Enquanto Whitefield estava movendo as multidões, Wesley estava organizando estes pequenos centros de vida, e as sociedades que Wesley ajuntou eram as células do recife de coral! Wesley não inventou as sociedades nem os seus convertidos. Tais sociedades se originavam como protesto contra a escura noite de imoralidade que pairava sobre Inglaterra depois da restauração e antes do nascimento de Wesley. Pedro Bohler fê-las reviver e lhes deu um tom mais espiritual. Miss Wedgood, à vista disso, diz “que Inglaterra deu forma às sociedades e Alemanha lhes deu o espírito”. É uma das generalidades plausíveis que agrada ao ouvido, mas não suporta a luz dos fatos. Tudo que se necessita citar agora é que quando Wesley voltou da Alemanha e começou o trabalho real de sua vida, mediante algum sábio e inconsciente instinto ele se ocupou em nutrir e multiplicar as sociedades que, em concerto com Pedro Bohler, já começara a formar. Este trabalho foi menos dramático e não tão imediatamente visível como o de Whitefield, mas era muito mais perdurável.

É costume dizer de Whitefield, de João e Carlos Wesley, que o primeiro era o orador e o segundo o estadista, e o terceiro o cantor do movimento religioso do século XVIII. Mas os três atores naquele grande drama não podem ser postos em compartimentos separados e rotulados desta forma. João Wesley possuía mais do que um pouco de poeta, bem como o gênio de estadista; e se a eloqüência é a arte de empregar a língua humana como instrumento de invencível persuasão, então Carlos Wesley era tão verdadeiramente orador como o seu irmão maior, ou como o próprio Whitefield, embora de um tipo mui diferente.

CarIos Wesley, quando julgado pela obra que fez, foi um dos maiores mestres de discurso persuasivo. Durante quinze anos ele viajava pelas cidades e vilas da Inglaterra e Irlanda, pregando em igrejas apinhadas de gente, ou a vastas multidões ao ar livre e sempre com grande poder. Existe algo de surpreendente na contemplação de uma multidão de quinze ou vinte e mil pessoas que silenciosamente esperam pelo som de uma só voz humana. O próprio Whitefield, o maior entre os pregadores ao ar livre, nos tem contado as suas impressões; diz ele: “Tudo se calava quando eu começava, e o povo apinhado ao redor da elevação no mais profundo silêncio me encheu de admiração. Contemplar tais multidões apinhadas em tal silêncio, ou ouvir o eco do seu canto que reboava (repercutia) de um a outro extremo era muito impressionante”.

Atrair tal multidão, e contê-la encantada, agitá-la com a emoção religiosa, derretê-la em arrependimento, acendê-la de regozijo, é um dos maiores empreendimentos dado à língua humana fazer. Fazê-lo dia após dia, às vezes duas ou três vezes por dia; fazê-lo durante quinze anos como o trabalho costumeiro da vida; fazê-lo com intermitência até a velhice, é um empreendimento que bem poderia ter feito desesperar um Demóstenes (um dos maiores oradores grego)! E Carlos Wesley fez tudo isso! Não possuía a voz de órgão nem o gênio dramático de Whitefield, nem ainda o estranho segredo de uma calma e sobrepujante solenidade em discorrer como seu irmão João. O segredo do poder de Carlos Wesley em pregar estava no domínio das emoções. As lágrimas lhe corriam pelas faces; a sua voz tomava as cadências de infinita ternura, vibrando com o tremor das emoções; e o contágio de seus sentimentos derretia as multidões.

Na velhice a pregação de Carlos Wesley tomou um caráter curioso. Pregava com os olhos fechados, fazia pausas prolongadas, com a cabeça inclinada na atitude de quem escuta, como se esperasse alguma mensagem desde o domínio do invisível. Ele mexia com as mãos sobre o peito, ou se debruçava sobre o púlpito. Às vezes parava e pedia que a congregação cantasse um hino até que lhe viesse a mensagem. Mas no primor da sua vida eIe era pregador de quase incomparável poder, empregando sentenças que tinham a ligeireza e penetração de tiro de espingarda, e que vibrava com a eletricidade de emoções.

O desenvolvimento do poder extraordinário de Carlos Wesley na pregação foi repentino e inesperado. Ele anota com a precisão característica a data e quando pela primeira vez tentou pregar sem manuscrito. Ele diz: “Na igreja de S. Antolin, na sexta-feira, 20 de outubro, vendo tão poucos assistentes pensei em pregar de improviso. Senti-me com medo, mas aventurei-me sobre a promessa: ”Eis que eu estou convosco todos os dias”. Poucos meses depois se postava diante de uma multidão de quinze mil pessoas e falava sem temor, pausa ou falta de poder, pelo espaço de duas horas seguidas.

Carlos Wesley tinha as suas limitações. Por exemplo: ele nunca conseguiu harmonizar os sentimentos naturais com as suas crenças de eclesiástico intransigente. O seu melhor biógrafo, Thomaz Jackson, diz que durante muitos anos ele entretinha sobre vários assuntos duas correntes opostas de princípios, e agia sobre elas alternadamente com igual sinceridade, e sem qualquer suspeita de sua incoerência! Mas isto não é a inteira justiça a respeito de CarIos Wesley. O fato é que ele percebia a verdade mais pelas emoções do que pelo raciocínio, e as suas emoções generosas eram mais sábias do que as suas crenças racionais. Mas é muito certo que ele permaneceu sempre alegremente inconsciente de qualquer falta de harmonia entre as suas teorias e as suas emoções.

Em teoria era ritualista da ordem mais estreita. Declarava que se deixasse a Igreja Anglicana, teria receio de encontrar-se com o espírito de seu pai no paraíso. Aquele mais irascível de ritualista havia de ralhar com eIe no próprio domínio celeste! As incoerências de Carlos Wesley, nascidas do conflito inconsciente entre os seus impulsos generosos e as suas prevenções eclesiásticas, são divertidas. Ele foi o primeiro a administrar a comunhão aos novos convertidos em edifício que não tinha sido consagrado; entretanto ficou religiosamente horrorizado quando os Metodistas pediram permissão de receberem a comunhão através das mãos de seus próprios pregadores. Como pregador eIe passou os seus primeiros anos em pregar ao ar livre, e os seus anos de velhice em pregar na Capela de City Road, entretanto deu ordens, ao morrer, que não fossem depositados os seus ossos nas terras dessa Capela, porque não eram terras consagradas. João, o seu irmão mais sábio, escreveu depois: “Que pena os ossos do meu irmão não serem depositados onde os meus ossos descansarão. Certamente aquela terra é tão santa como qualquer outra na Inglaterra; e ela contém os restos de muitos justos”. É um exemplo da ironia da sorte que o horror sacerdotal de Carlos Wesley, em pensar de seus ossos descansarem nas terras da Capela de City Road, tivesse o efeito de depositá-los em terras ainda menos sagradas. Pois, parece que a parte do cemitério onde jazem nunca foi consagrada!

Carlos Wesley disse: “Meu irmão é em tudo esperançoso, eu sou em tudo medroso”; mas isto não é bem exato. Carlos, em temperamento era tão esperançoso como seu irmão João, mas um aspecto de sua natureza fê-lo temer os resultados de coisas que outro e mais nobre aspecto de sua natureza obrigava-o a fazer.

Era homenzinho, míope, de fala apressada, de maneiras esquisitas, desultório (que salta de uma para outra parte; não persistente) em seus hábitos mentais, fogoso em seus ressentimentos, mui leal em suas amizades, e com uma simplicidade de espírito que fê-lo eminentemente amável. Faltava-Ihe a força e a fixidez (fixidade, que tem a qualidade de ser fixo, persistência, constância) de propósito, a Iógica certeira, e a inteligência ordeira e sistemática do seu irmão João. Mas o sobrepujava em certas coisas e era, o mais amável dos dois pela razão que era menos perfeito (perfeccionista). Porque às vezes o amor é nutrido pelas coisas que têm de perdoar.

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** (Esse texto corresponde ao capítulo XVI, "Os três grandes camaradas", do livro Wesley e seu século – um estudo de forças espirituais, volume I, respectivamente nas páginas 193 a 204, Edição de 1916 publicada pela Typographia de Carlos Echenique, Porto Alegre, RJ).

OBS: Esse livro originalmente não usa parênteses. As notas explicativas dentro de parênteses são de iniciativa dessa edição on line do site da Igreja Metodista de Vila Isabel)


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