IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 16/2/2009
 

João Wesley, o Pregador, e a questão das manifestações físicas **(Rev. W. H. Fitchett)

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O grande avivamento então se achava em pleno progresso, e mesmo nesse tempo no trabalho eram visíveis duas linhas concorrentes e paralelas. Uma foi agressiva e consistia numa grande corrente de serviços de pregação, cobrindo os três reinos durante toda a vida de João Wesley. A outra foi conservadora, e achava-se representada nas pequenas sociedades que se formavam por toda à parte, e que davam abrigo aos novos convertidos.

O instrumento supremo de João Wesley era a pregação. Ele empregava outras forças: construía escolas, organizava sociedades, publicava livros, e empreendia grandes polêmicas, e era incansável na correspondência e na conversa. Mas nem a Iiteratura, nem a controvérsia, nem a influência pessoal foi o instrumento mais prezado ou eficaz de Wesley. O movimento que Wesley representa é acima de tudo um avivamento em escala inaudita, e de efeitos sem precedentes, do oficio e do trabalho do pregador. O apóstolo Paulo escreveu, como representante da primeira geração de cristãos: “Aprouve a Deus, pela estultícia (loucura) da pregação, salvar os que crêem”. E no movimento de Wesley, o cristianismo simplesmente reverte a seu primitivo e maior instrumento de poder.

Mas a pregação do novo movimento, como já vimos, desviava-se das formas tradicionais. Era pregação ao ar livre, não se contentava dentro de paredes de pedra. Era pregação itinerante, não se limitava a lugares fixos. Tomava por campo os três reinos. Passando pelos sonolentos punhados nas igrejas procurava, com grande solicitude, as multidões esquecidas de fora, que estavam deslizando para um paganismo pior do que aquele que pairava sobre o solo inglês antes da vinda de Agostinho. Em lugar de púlpitos os pregadores do grande avivamento tomavam os outeiros, os mercados, as praças das ruas das cidades, onde quer que os homens lhes escutassem aí eles declaravam a sua mensagem.

E as novas condições criavam novos métodos. As decorosas frases que os clérigos sonolentos murmuravam a suas congregações toscanejantes (que cochilavam, adormecidas) deram lugar à viva voz de homens vivos; de homens que se sentiam ser mensageiros diretos do Espírito de Deus. Se João Wesley e seus camaradas não fossem empurrados das igrejas, o gênio essencial do movimento, a natureza do trabalho para se fazer, os métodos necessários ao seu desenvolvimento, teriam lhes levado para fora. Os antigos canais pelos quais corriam a verdade eram mui estreitos, e ainda se achavam entupidos. Nenhuma corrente podia passar por eles. Era necessário abrirem-se novos canais, chamarem novas forças à luta, alcançarem novas classes. Assim com o seu primeiro passo o grande avivamento rompeu os limites eclesiásticos que existiam então. Ele se foi para a rua agitada, para os campos varridos pelo vento, onde quer que homens e mulheres por quem Cristo morreu pudessem ser congregados. Eis a pregação tal qual como havia no primeiro século do Cristianismo.

E João Wesley logo tornou-se o vulto mais saliente na nova cruzada. Faltavam-lhe alguns dos dons especiais de Whitefield como orador; não obstante, teve tanto êxito em pregar ao ar livre como o seu grande camarada; e trouxe ao seu trabalho planos mais ordeiros, e um propósito mais concentrado do que o próprio Whitefield.

QuaI foi o segredo do poder de João Wesley como pregador? Em muitas coisas se poderia imaginar que ele seria o último capaz de influir numa multidão do século XVIII. Era cavalheiro por nascimento e hábito, douto por educação, homem de gostos delicados e quase fastidiosos, com o desprezo inerente no inglês pela emoção, e com o ódio do ritualista contra toda a irregularidade. Possuía muito pouca imaginação e sem poder descritivo. Em regra não contava anedotas, e nunca se dava a caçoadas. Que aptidão tinha em falar a plebeus, mineiros, garotos da cidade e a lavradores atraídos do seu arado?

Entretanto ele se erguia, um vulto pequeno, catito (elegante) e simétrico; o seu cabelo preto e liso apartado (dividido) com exatidão; as feições claras e puras como as de uma menina; os seus olhos castanhos cintilantes como pontos de aço. Sob a sua palavra a multidão se derretia e subjugava até parecer um exército derrotado, tomado de temor e quebrado de emoção; e freqüentemente homens e mulheres caíam ao chão num acesso de pavor. A sua voz não possuía nota de clarim; mas era clara como flauta de prata, e percorria a multidão admirada até a extremidade mais remota.

Sem dúvida havia algo da força de um profeta na pregação de Wesley. Ele recebia a sua inspiração de regiões bem distantes. Os seus sermões impressos são apenas os ossos de seus discursos à viva voz, e são geralmente ossos secos, embora tenham algo das dimensões do mastodonte (animal extinto cuja constituição física era semelhante à do elefante, o maior mamífero terrestre. A expressão aqui, portanto, refere-se à dimensão de grandeza dos tais “ossos secos”). Mas a sua penetração espiritual era quase surpreendente. Parecia enxergar o íntimo da alma humana, apontado o pecado secreto e o temor escondido. Possuía o poder de fazer cada individuo sentir como se falasse só com ele. E havia algo no seu discurso – uma nota na voz, um cintilar do olhar – que inspirava à multidão respeito, e respeito que não raras vezes se aprofundava em temor. A maneira do orador era a de perfeita calma; mas era a calma do poder, da certeza, da autoridade que vem do mundo espiritual.

Nelson dá talvez, a melhor descrição de Wesley como pregador. Ele diz: “O sr. Whitefield era para mim homem que sabia tangir (tocar) bem um instrumento, pois a sua pregação me era agradável e eu o admirava, de modo que se qualquer um tentasse perturbá-lo eu estava pronto a defender o pregador. Porém eu não o entendia, mas me sentia como o passarinho que vaga longe do ninho até que o sr. João Wesley veio pregar o seu primeiro sermão em Moorfields...Logo que ele subiu à tribuna, passou as mãos pelo cabelo e virou o rosto na minha direção, e me parecia que ele me fitava (olhava) os olhos. As suas feições me infundiram tanto pavor, mesmo antes de falar, que o meu coração oscilava como se fosse pêndulo; e quando começou a falar, eu imaginava que ele me dirigia todo o discurso. Quando terminou, eu disse comigo: “Este homem sabe contar os segredos do meu coração; mas ele não me deixou aqui; porque me mostrou o remédio, o próprio sangue de Jesus”. Eu imaginara que ele não falara a mais ninguém senão a mim, e eu não ousei erguer os olhos, julgando que todos estivessem a me olhar... mas antes de findar o sermão o sr. Wesley clamou: “Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo, os seus pensamentos; converta-se ao Senhor, que se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar (Isaías 55:7). Eu disse comigo, “se isto for verdade, então eu voltarei a Deus hoje”.

Quem pode admirar-se de que um pregador com poder tão extraordinário fizesse estremecer os corações das multidões, e pusesse o selo sobre o espírito dos três reinos!

Com a exceção de breves visitas a Londres, e uma ligeira viagem ao País de Gales, João Wesley passou o resto do ano 1739 em Bristol. Durante nove meses, calcula-se que ele pregou quinhentos sermões e exposições, somente seis destes em Igrejas. Era seu plano explicar a Bíblia a cada noite em qualquer uma das pequenas sociedades, e passar o dia em serviços ao ar livre. Ele tem nos deixado um esboço de seus ensinos nesse período a seus auditórios no ar livre. Ele afirma que a religião não consiste de negações nem de moralidade exterior, nem de opiniões ortodoxas. É a criação da uma nova natureza em nós. A única condição é o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo. Aquele que crê é justificado mediante a redenção que há em Cristo Jesus, e, sendo justificado, tem a consciência da uma nova relação para com Deus e de poder sobre o pecado.

É ensino claro e simples, mas é curioso notar-se que a doutrina de que somos salvos mediante a fé, que é a própria essência do Cristianismo, e que era a nota saliente nos sermões de Wesley, provocasse a mais ativa inimizade. Wesley diz: “Não falávamos de quase nada mais, quer em público quer em particular. Esta luz brilhava tão fortemente sobre os nossos espíritos a ponto de tornar-se o nosso tema constante. Era o nosso assunto diário tanto em verso como em prosa; e o defendíamos contra todos. Mas por fazermos isto, eles nos assaltavam de todos os lados. Por toda a parte nos representavam como cachorros loucos, e nos davam o trato de tais. Apedrejavam-nos nas ruas, e várias vezes escapávamos da morte. Em sermões, jornais, panfletos de toda a espécie nos pintavam como monstros nunca vistos. Mas isto não nos abalava”.

A pregação começada sob estas condições novas foi seguida por resultados maravilhosos. Era a mesma pregação dos tempos apostólicos, e com muitos dos resultados do século apostólico. Páginas inteiras do Diário de João Wesley parecem deveras com um novo capítulo dos Atos dos Apóstolos escrito em termos modernos. Acham-se aí narrativas de conversões, conversões repentinas quanto ao tempo, dramáticas no caráter, arrebatadoras em seu regozijo. Mais tarde, Wesley, a seu modo metódico, pediu que alguns de seus convertidos escrevessem em clara e simples prosa a história de suas experiências espirituais, e o resultado é uma série de documentos humanos de interesse curioso e perdurável. O voar de um século ainda os deixa vivos.

A história que o próprio Wesley fez dos resultados práticos do trabalho, em resposta a certo crítico zangado, é a seguinte:
“A questão entre nós versa principalmente – senão inteiramente a fatos. Vós negais que Deus agora opere tais efeitos; ao menos, negais que os efetue desta maneira. Eu afirmo ambos; porque com os próprios ouvidos ouvi e com os próprios olhos, vi. Tenho visto, até onde é possível ver tal coisa, muitas pessoas mudadas num momento do espírito de temor, horror e desespero, para o espírito de amor, gozo e paz; e de desejo pecaminoso até então reinante nelas para o bom desejo de fazer a vontade de Deus... Este é o testemunho de fatos que tenho ouvido e visto e sou testemunha quase diariamente... E que tal mudança foi então efetuada se manifesta, não unicamente pelo derramamento de lágrimas nem por acesso, nem por terem clamado em alta voz; não são estes os frutos, como vós quereis supor, pelos quais eu julgo, mas por todo o teor de suas vidas, que até então era de muitas maneiras pecaminoso; mas daí em diante tem santo, justo e bom.”
“Eu vos mostrarei aquele que era um leão até então, mas agora é um cordeiro, aquele que era bêbado, mas agora é um exemplo de sobriedade. O fornicador que era, agora “aborrece a túnica manchada pela carne”. São este os argumentos em favor daquilo que eu afirmo, a saber: que Deus agora, como em outro tempo, dá o perdão dos pecados, e o dom do Espírito Santo, a nós mesmos e a nossos filhos”.
(Diário, 20 de maio de 1739)

Mas logo manifestou-se um fenômeno nas reuniões de João Wesley que ainda é um problema para a ciência; e que na ocasião parecia justificar as piores coisas que os maiores adversários de Wesley diziam do avivamento. Manifestavam-se notáveis cenas de agitação e desespero físico. Era como se algum temporal de energia, fora da ordem natural – se bem ou mal não podia ser facilmente determinado – passasse pelas multidões que assistiam. A primeira dessas cenas estranhas manifestou-se aos 17 de abril de 1739, numa reunião de uma das sociedades. Wesley conta a história no seu Diário:
“Na rua de Baldwin, clamamos a Deus, pedindo que confirmasse a sua Palavra. Logo, uma pessoa que assistia clamou em alta voz, com a maior veemência, mesmo numa agonia mortal. Mas continuamos em oração, até que Deus pôs um novo cântico na sua boca, um hino ao nosso Deus. Logo em seguida duas pessoas mais foram tomadas de grande dor e constrangidas a clamarem na angustia de seu coração. Mas em pouco tempo elas também romperam em louvores a Deus Salvador.”

Uma cena ainda mais notável desenrolava-se no mesmo local quinze dias depois. Wesley escreve no seu Diário:
“1° de maio – Na rua Baldwin, a minha voz mal se fazia ouvida no meio dos gemidos de uns, e dos gritos de outros que clamavam em alta voz por Aquele que é poderoso para salvar. Um Quaker em assistência ficou muito zangado, franzia a testa e mordia os beiços, quando caiu como por um raio. Era terrível contemplar-se a sua aflição. Fizemos oração a seu favor e logo ergueu a cabeça com regozijo e uniu-se conosco em ação de graças. Outro assistente João Hayden, tecelão, homem de vida e hábitos regulares, que sempre assistia nas orações públicas e na comunhão, muito zeloso pela Igreja e contra os Dissidentes, trabalhava para convencer o povo que tudo isto era ilusão do diabo; mas no dia seguinte, enquanto lia um sermão sobre “A salvação pela Fé”, ficou repentinamente pálido, caiu da cadeira, começou a gritar e bater-se no chão. Os vizinhos apavorados se ajuntaram. Quando eu cheguei, achei-o no chão, a sala estava repleta de gente, e dois ou três o seguravam o melhor que podiam. Ele logo me fitou os olhos, e disse, “Sim, é aquele que eu disse iludira o povo. Eu disse que era ilusão do diabo; mas esta não é ilusão”. Então gritou em alta voz, “Ó tu, diabo! Diabo maldito! Não podes permanecer em mim. Cristo te lançará fora. Sei que a Sua obra começou. Podes me fazer em pedaços, mas não podes fazer-me dano”. Ele então se batia no chão; o seu peito ofegava como se estivesse numa agonia mortal e grandes gotas de suor lhe corriam pelas faces. Nós nos entregávamos à oração. Cessou a sua aflição e tanto o seu corpo como a alma foram postas em liberdade. Com voz forte e clara ele clamou: “Da parte do Senhor se fez isto; maravilhoso é aos nossos olhos. Seja bendito o nome do Senhor, desde agora e para sempre”. Eu voltei após uma hora e achei-o com o corpo fraco como o de uma criancinha que havia perdido a voz; mas a sua alma estava em paz, cheia de amor, e regozijando-se na esperança da glória de Deus”.

Aos 21 de maio repetiu-se a cena, mas desta vez num culto ao ar livre:
“Enquanto eu pregava, Deus descobriu o seu braço e não foi numa sala fechada, nem em particular, mas ao ar livre, e na presença de mais de duas mil testemunhas. Um e dois e três caíram por terra tremendo excessivamente à presença do seu poder. Outros clamavam em voz alta e triste. “Que havemos de fazer para nos salvar?”. À noite na rua S. Nicolau, fui interrompido, logo que comecei a falar, pelo clamor de um que pedia insistentemente o perdão e a paz. Outros caíram como mortos. Thomas Maxfield começou a gritar e a bater-se contra o chão, a ponto de ser necessário seis homens para poderem segurá-lo. Muitos outros a clamar pelo Salvador de todos, tanto que a casa inteira, e em verdade a rua por alguma distância, estava em grande agitação. Mas continuamos em oração, e a maior parte achou descanso para as suas almas”.

Estas manifestações extraordinárias surpreenderam e incomodaram os próprios camaradas de João Wesley. Whitefield lhe escreveu aos 25 de junho queixando-se de que Wesley dava demasiada importância a estas confusões. “Se eu fizesse assim”, diz ele, ”quantos clamariam em alta voz toda à noite”. Doze dias depois Whitefield esteve em Bristol e achou as mesmas cenas em seus próprios serviços:

“Na aplicação de seu sermão quatro pessoas caíram perto dele e quase no mesmo instante. A primeira estava deitada sem sentidos e sem movimento. A segunda tremia excessivamente. A terceira tinha convulsões por todo o corpo, mas não fez ruído algum a não ser uns gemidos. A quarta, igualmente convulsionada, clamava a por Deus com insistentes súplicas e lágrimas”.

Estes acessos de angústia física não se limitavam aos cultos públicos na multidão, indivíduos em casa foram acometidos. Aqui damos uma narração terrível que João Wesley registra no seu Diário:
“23 de Outubro – Fui solicitado a visitar uma moça em Kingswood. Achei-aa de cama, e duas ou três pessoas a segurá-la. A angústia, o horror e o desespero indescritíveis manifestavam-se no seu semblante pálido. As mil contorções do seu corpo demonstravam como os cães do inferno estavam atormentando-lhe o coração. Os gritos lancinantes que ela dava eram quase insuportáveis. EIa gritou: “Estou condenada, condenada; perdida para sempre! Seis dias passados talvez podíeis ter-me ajudado. Mas agora é tarde. Pertenço ao diabo agora; entreguei-me a eIe; sou deIe e tenho de servi-lo e irei com eIe ao inferno; não posso me salvar, não serei salva. Eu devo, eu quero e tenho de ser perdida!” Então a moça começou a clamar pelo diabo. E nós principiamos a cantar: “Desperta-te, desperta-te, ó braço do Senhor”. E logo eIa se acalmou como se dormisse; mas no instante que deixamos de cantar ela rompeu outra vez com indizível veemência: “Arrebentai-vos, ó corações de pedra! Sou um aviso para vós. Arrebentai-vos! Arrebentai-vos, pobres corações de pedra! Sou condenada para que vós vos salveis. Vós não necessitais de vos perder, ainda quando eu me perco”. Então, fitando os olhos em um canto do forro. disse: “Aí está. Vem, bom diabo, vem. Disseste que me rebentarias os miolos; vem e faze-o depressa. Sou tua, quero ser tua.” Nós lhe interrompemos, e outra vez clamamos a Deus; e com isso eIa se acalmou como dantes.”

Um caso semelhante se deu uns poucos dias depois:
“27 de Outubro – Chamaram-me a Kingswood outra vez para ver uma pessoa, uma daquelas que antes havia sido tão doente. Uma chuva grossa caía quando eu saí de casa. Justamente então a mulher, distante uns cinco quilômetros, clamou: “Aí vem o Wesley, galopeando com a ligeireza possível!“ Quando cheguei, ela deu uma gargalhada medonha e disse: “Não há poder, não há poder; não há fé, não há fé. EIa é minha, a sua alma é minha. Eu a tenho, e não hei de deixá-la ir”. Pedimos a Deus que nos aumentasse a fé. Neste meio tempo as suas dores se aumentavam mais e mais, a ponto de poder-se imaginar que devido aos acessos violentos, o seu corpo seria feito em pedaços. Um que ficou plenamente convencido que esta não era uma doença natural, disse: “Eu acho que satanás está solto. Eu receio que ele não há de parar”. E acrescentou, “Eu te mando em nome do nosso Senhor Jesus Cristo, que me digas se tens recado para atormentar outra alma qualquer”. Imediatamente respondeu: “Tenho, L-y, C-r, e S-h, J-s”. Nós nos entregamos outra vez à oração e não cessamos até que ela começou, com voz clara e feições contentes e alegres, a cantar: “A Deus Supremo Benfeitor”.

As pessoas mencionadas aqui moravam um pouco distante dali; estavam neste momento com saúde perfeita; mas no dia seguinte elas foram acometidas da mesma maneira que a infeliz mulher cujo caso acabamos de descrever.

Tem se oferecido muitas explicações para estes curiosos fenômenos. Southey os resolve no mero magnetismo animal e no contágio de excitação. Ele diz com muito acerto “que há paixões tão contagiosas como a peste, e o próprio temor não é mais contagioso do que o fanatismo”. Mas as sensibilidades e emoções as quais João Wesley apelava quando estas cenas se davam, certamente não podem ser consideradas na categoria do fanatismo e na ocasião não se fazia nem dizia coisa alguma para suscitar o temor. Isaac Taylor acha nestas cenas a reprodução em termos modernos dos endemoniados do Novo Testamento. Para as inteligências seculares elas talvez relembrem a mania dançante do século XIV ou dos Convulsionaires da França do século XVI. Somente que no caso de Wesley os sujeitos destas manifestações eram os ingleses sólidos e não mulheres e crianças francesas.

Realmente fenômeno semelhante têm aparecido em lapsos de tempo largamente separados, e sob circunstâncias bem diversas. Exatamente as mesmas cenas se davam na Escócia sob a pregação de Erskine, a na América sob a pregação de Jonathan Edwards. Mas Edwards indubitavelmente pregou um evangelho atemorizante e de uma maneira aterradora. Os métodos de João Wesley separavam-se por um intervalo bastante largo daqueles do grande evangelista americano.

Muitos admiram que essas manifestações começassem, não sob a pregação de Whitefield, com a sua voz de leão e seus poderes dramáticos. Nem ainda sob a pregação de CarIos Wesley com seu apelo concentrado e sobrepujante às emoções. EIas se deram enquanto João Wesley, de testa séria, de olhar calmo e de voz clara e equilibrada, com seu apelo à razão e à consciência, pregava. Entretanto bem se compreende porque esses fenômenos começaram sob a pregação de João Wesley e não sob a de qualquer de seus camaradas. Whitefield apelava aos sentidos e à imaginação; Carlos Wesley às emoções. Mas João Wesley, não obstante a sua estranha calma, tocava numa nota mais profunda, e movia os seus ouvintes por uma força mais poderosa. Havia algo nele – no seu olhar, nas cadências de sua voz; na sua solene e transparente sinceridade – que irresistivelmente convencia os que o contemplavam e ouviam das realidades das coisas espirituais. “Wesley, diz Miss Wedgwood, operava em seus ouvintes uma tal apreciação do horror do mal, da sua misteriosa proximidade à alma humana, e da necessidade de um milagre para separá-lo da alma, que ninguém, talvez, pudesse receber a sua doutrina repentinamente sem que produzisse nele algum violento efeito físico.”

Mas isto não explica por completo o caso. A verdade é que João Wesley teve a visão Dantesca, e possuía o poder de fazer outros verem o fato supremo do mundo espiritual, e a relação íntima que a alma humana mantém para com Deus, quão perto Deus está ao homem; a relação que os pecados do homem manté para com a pureza de Deus; a precisão que o homem tem da compaixão de Deus; e a relação de todos os atos do homem em referência ao juízo de Deus. De modo que Deus aparecia, desde as regiões indistintas e remotas da eternidade, aos ouvintes de Wesley, como personagem amável e majestoso de todos, mas ainda tangível. E como pregava, e ao passo que os ouvintes se compenetrassem repentinamente da realidade do mundo eterno, e de seus fatos estupendos, do pecado e da sua culpabilidade infinita, de Deus e da relação da alma com ele – como havemos de nos maravilhar que as almas estremecidas de seus ouvintes não comunicassem aos próprios corpos os tremores que lhes acometiam!

Indubitavelmente muitos elementos humanos operavam entre as forças que produziam estas cenas. A impostura, a histeria, o contágio das emoções fortes, o fogo da excitação ardendo nas sensibilidades. Mas depois de fazer o desconto destas coisas ainda existe um resíduo de fatos estranhos que eles não explicam. Tudo que se pode dizer é que o corpo e a alma são maravilhosamente entrelaçados; os seus limites entre si não podem ser determinados com exatidão; agem e reagem e um sobre o outro. Uma doença grave afeta os próprios sentimentos intelectuais. O vinho de uma forte emoção derramado sob as sensibilidades, eletrifica todos os órgãos físicos. As emoções espirituais, despertando à uma profundidade maior do que quaisquer outras que pertencem à alma humana, bem podem, uma vez despertadas, afetar com poder estranho o próprio corpo. Disso ninguém duvida senão aquele que nunca experimentou a majestosa grandeza de uma profunda emoção espiritual.

É fácil entender como esses estranhos fenômenos proveriam os inimigos do movimento metodista com novos argumentos em oposições. Constituíram um escândalo clamoroso, geral e de bom som. Mas pelo menos serviam de anúncios (propaganda) para o avivamento. Encheram todas as inteligências de admiração e deram assunto para todas as línguas. Um poder estranho parecia ter-se rompido desde o mundo invisível sobre a humanidade. Era fácil ter suspeita do novo movimento, podia-se odiá-lo com veemência, argüi-lo intensamente, mas ignorá-lo, nunca.

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** (Esse texto corresponde ao capítulo XVII, "Wesley como pregador", do livro Wesley e seu século – um estudo de forças espirituais, volume I, respectivamente nas páginas 205 a 216, Edição de 1916 publicada pela Typographia de Carlos Echenique, Porto Alegre, RJ).

OBS: Esse livro originalmente não usa parênteses. As notas explicativas dentro de parênteses são de iniciativa dessa edição on line do site da Igreja Metodista de Vila Isabel)

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