IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 30/3/2009
 

Os pregadores leigos: Uma Nova Ordem de Auxiliares** (Rev. W. H. Fitchett)

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Ainda depois de sua conversão Wesley possuía todas ou quase todas as prevenções do ritualista; e entre as mais obstinadas destas estava a sua prevenção contra a pregação leiga. Tocar neste ponto, como ele mesmo dizia, era tocar na menina dos olhos. Somente o clérigo devidamente ordenado ligado por uma corrente multissecular de ordenações até os próprios Apóstolos tinha o direito de se por no púlpito para pregar a seus semelhantes. Que um simples leigo ordenado por ninguém, subisse àquela sagrada eminência, ou ousasse interpretar com lábios seculares as Escrituras a seus semelhantes, para Wesley parecia nada menos do que um sacrilégio. Ele sentia ao contemplar tal espetáculo, como sentiria o sacerdote judeu se visse alguém que não fosse da tribo de Levi a ministrar ao altar. Entretanto, tal é a sátira da história, Wesley era destinado a fundar, a Igreja que emprega mais pregadores leigos e lhes emprega com mais êxito e honra do que qualquer outra Igreja conhecida na história!

Foi a irresistível compulsão dos fatos que ¬sempre para ele a mais alta forma de lógica, venceu-lhe a prevenção. O seu trabalho estendeu em escala que lhe sobrepujava as forças. O número de seus conversos tão rapidamente se multiplicava que se tornou imprescindível que Wesley provesse pela supervisão deles. Tinha de ter auxiliares e associados. No princípio uns poucos clérigos de temperamento espiritual lhe ajudavam; mas eram poucos. A opinião pública de sua classe também lhes estava oposta. Estavam ancorados em suas paróquias. Não podiam marcar passo com o impetuoso trabalho de Wesley, nem com a força poderosa que ele representava. De fato eles se tornavam receosos do movimento e das forças estranhas que pulsavam nele. Os que odiavam o movimento tiravam conforto da reflexão de que se achava suspenso pelo fio delgado de uma só vida humana. Quando, pelo cansaço, doença ou morte, ficassem silenciados os lábios desse homem, ficaria igualmente silenciado todo o tumulto do avivamento. Com a morte de Wesley, criam eles, o seu trabalho desapareceria. Não tinha aliados, nem poderia ter sucessores. Mas Wesley escreveu mais tarde:
“Quando eles imaginavam que efetivamente havia cerrado a porta e trancado a avenida única pela qual o auxílio poderia chegar a dois ou três pregadores, fracos de corpo bem como de alma, os quais, humanamente falando, eles razoavelmente esperavam, haviam de gastar-se em pouco tempo; quando haviam ganho a vitória, como imaginavam por terem conseguido todos os instruídos da nação, Aquele que está sentado nos céus, ria-se, o Senhor zombava dele, e investia contra eles de um modo inesperado. Das pedras Deus levantou os que haviam de suscitar filhos a Abraão. Nós não tivemos mais arraigadas previsões disso do que vós. Ainda mais; tínhamos as mais arraigadas prevenções contra isso, mas afinal tínhamos de admitir que Deus deu a sabedoria lá do alto a estes homens indoutos e ignorantes, de modo que a obra do Senhor prosperava nas suas mãos, e pecadores diariamente se convertiam a Deus” (Southey Vol. I p. 307).

De antemão, era uma das certezas do avivamento que Wesley atrairia a si um corpo de auxiliares dentre os seus conversos; entretanto é quase divertido notar-se quão dificilmente, e com que passos relutantes, para não dizer resistentes, ele se moveu nessa direção. Mas foi levado por forças demais poderosas para serem resistidas. As novas e alegres energias espirituais que se despertavam nas multidões inevitavelmente rompiam em palavras. Eram vãos os esforços para, conservá-las decorosamente inarticuladas.

Depois que Whitefield pregara uma tarde no cemitério de Islington um leigo, por nome Bowers, no regozijo de sua nova vida espiritual, subiu à mesa quando Whitefield concluíra e começou a falar à multidão. Todas as sensibilidades eclesiásticas foram feridas pelo espetáculo. Carlos Wesley, que se achava presente, tentou em vão fazer com que Bowers se calasse e, por fim, como protesto, retirou-se indignado. O zelo deste leigo demasiado ousado era inextinguível. Ele tentou, em outra ocasião, pregar nas ruas de Oxford, foi preso pelos guardas, e repreendido asperamente por Carlos Wesley pela obstinação com que usara de sua língua.

É admissível que o orador voluntário necessitasse de repressão; mas Wesley foi obrigado a escolher dentre os seus camaradas os que os seus olhos jeitosos – e ele possuía a perspicácia de um grande general em descobrir instrumentos idôneos – consideravam de prudência e confiança, bem como zelosos e aptos, para zelarem os conversos em um lugar enquanto ele seguia para outro lugar de pregação. Os auxiliares eram em todo o caso voluntários. Assim pelos fins de 1739 Wesley registra:
“Veio-me um moço chamado Thomas Maxfield, desejando ajudar-me como filho no Evangelho. Logo mais veio outro, Thomas Richards, e então ainda outro Thomas Westal. Todos os três desejavam servir-me como filhos, como auxiliares, quando e onde eu determinasse.”

Os nomes desses homens merecem viver na história; pois constituíram a guarda avançada de um grande e nobre exército.

Mas se Wesley aceitava tais auxílios o fazia com bastante relutância, com muitas dúvidas, e somente a título de grande necessidade. Não lhes proibiu, nem Ihes sancionou expressamente, e ao princípio, apenas “permitiu” a pregação leiga. Mas isto com dúvidas, e dúvidas que olhavam em duas direções; duvidava se devia fazer tanto, e duvidava se não devia fazer mais.

“Não é nos manifesto, diz eIe, que presbíteros, achando-se em nosso caso, devam nomear ou ordenar a outros, mas é claro que podemos dirigir, bem como permiti-los a desempenhar aquilo para o qual cremos que foram movidos pelo Espírito Santo a fazer. Julgamos que os que são unicamente chamados de Deus e não dos homens, tenham mais direito a pregar do que aqueles que são chamados unicamente pelos homens e não de Deus. Mas é inegável que muitos clérigos, embora chamados pelos homens nunca foram chamados por Deus para pregar o Evangelho. Primeiro, porque eles mesmos de tudo negam, sim até ridicularizam a chamada interior; em segundo lugar não conhecem o que é o evangelho; e, por conseguinte não o pregam e nem o podem pregar. Que ainda não fui longe demais, sei eu; mas se tenho ido bastante longe, eu duvido seriamente. Clérigos que destroem almas me colocam mais dificuldades do que leigos que as salvam”. (Southey, VoI. I p.307)

A principio Wesley permitiu aos auxiliares a exortarem, mas rigorosamente proibiu-lhes de pregarem. Poderiam fazer uma exposição das escrituras, mas não se aventurar no trabalho solene de proferir um sermão. Entretanto isto obviamente era um arranjo que não poderia perdurar. Quem havia de determinar, o ponto exato aonde a exortação chega à grandiosa dignidade de um sermão? E porque um discurso lícito, e até louvável, como exortação se tornaria repentinamente em impiedade quando identificado como sermão?

João Wesley se achava em Bristol quando lhe chegaram as novas de que MaxfieId, o seu primeiro auxiliar, que ele deixara em Londres, estava pregando. Todo o sacerdotalismo (clericalismo) existente em Wesley, e havia muito sacerdotalismo atrás de seu nariz cumprido e abaixo de sua cabeleira, se incendiou. Apressadamente voltou a Londres, cogitando em irritante alarme sobre o suposto escândalo. Mas a sabia mãe lhe disse ao encontrá-lo:
“Tende cuidado, João, o que ides fazer daquele jovem, pois é ele tão certamente chamado por Deus para pregar como vós. Examinai quais os frutos de sua pregação e então o ouvi por vós mesmo”.

As palavras da mãe tocaram numa corda mui sensível na inteligência e consciência de Wesley. “Os frutos de sua pregação!“ São finais! O sermão que converte almas está assinalado com a aprovação de Deus. As prevenções de Wesley eram fortes, mas sempre cediam diante dos fatos. Ele escutou, vigiou, meditou e decidiu. Disse afinal: “É do Senhor, faça Ele o que lhe aprouver”.

Wesley logo achou outro exemplo, ainda mais notável e decisivo do que o de Maxfield, onde a pregação de um leigo foi assinalada, em caracteres visíveis a todos com a aprovação de Deus; João Nelson, cuja história espiritual é um dos romances do metodismo primitivo, por algum tempo exortara a seus vizinhos em Bristol. Ele disse de si mesmo nesse tempo, ”Antes eu desejaria ser enforcado numa árvore do que pregar”. Mas as multidões que lhe rodeavam para ouvir as suas palavras, achando nelas a energia transformadora, lhe animavam, e Nelson, surpreendido por si mesmo, achou-se culpado de ter pregado um sermão. Ele escreveu a Wesley pedindo que lhe aconselhasse: “Como prosseguir no trabalho que Deus começara por um instrumento tão rude como eu me acho?”. Em seguida Wesley desceu a Bristol. Nelson diz: “Ele sentou-se à lareira, na mesma atitude que eu sonhara quatro meses antes, e falou as mesmas palavras que eu sonhara que proferira”. Wesley achou tanto o pregador como a congregação de Bristol levantados sem qualquer ato ou conhecimento dele, e enquanto contemplava e ouvia, sentiu que a questão de pregação leiga fora determinada para todo o sempre. Ele logo reconheceu nesta nova ordem de obreiros cristãos, que lhe surgia diante dos olhos, a solução de um grande problema.

Que espécies de homens eram os auxiliares que assim rodeavam a Wesley e davam largueza, continuidade e permanência a seu trabalho? As suas biografias estão escritas em volumes já desbotados e quase esquecidos, donde nos surgem as suas faces com efeito curioso. A arte do século era bem cruel a seus fregueses, e os retratos dos auxiliares de Wesley, forçoso é confessá-lo, são não poucas vezes de uma qualidade assustadora. Não são muitas vezes faces de intelectuais. A santidade ainda não teve tempo para suavizar as feições rudes e fortes do lavrador, do pedreiro, ou do soldado raso. Southey (um historiador metodista), ao descrever, por exemplo, o retrato de João Haime, dá um catálogo cruel de suas feições:
“Olhos pequenos e sem expressão, sobrancelhas escassas, um nariz largo e vulgar, num rosto de proporções ordinárias, pareciam assinalar um sujeito que seria contente em viajar a passos lentos pelo caminho da mortalidade, sem desejar maior prazer do que fumar e beber em qualquer cantinho. Entretanto João Haime passou a vida inteira numa continuada sessão espiritual”.

Mas “a sessão espiritual” de João Haime, com as alternativas de fogo e gelo, de grande ansiedade e arrebatamento exultante, era afinal, infinitamente mais nobre do que o contentamento animal em que a maioria de seus conterrâneos nesse tempo vivia.

Estes homens, não obstante todas as limitações, merecem ser contados entre os heróis de Deus Possuíam algo da paciência divina, da coragem que coisa alguma pode abalar, dos mártires do cristianismo primitivo. Eram santos como Francisco de Assis, e sonhadores como João Bunyan. Tinham uma visão constante do mundo espiritual.

Para Bunyan, “tudo acima de Elston Green era céu, embaixo era inferno”. E os primeiros predadores de Wesley viram a todos os homens entre tais extremos medonhos. Possuíam todo o zelo dos pregadores frades da Idade Média, com uma teologia melhor do que a destes e uma moralidade infinitamente melhor. A sua palavra servia de canal de um poder que estava além tanto da compreensão como da análise da razão. Deveras, quanto mais os críticos enfaticamente escarneciam da humilde origem, da educação insuficiente, e da simplicidade inculta, destes primeiros pregadores do metodismo, tanto mais maravilhoso parece o seu trabalho. Qual era o poder estranho que se apossou destes homens incultos, lhes transformando e erguendo às alturas de grandes e sagradas emoções, e que não somente os fazia oradores que arrebatavam as multidões, mas apóstolos que salvavam almas? Mas o milagre grande e pérpetuo do Cristianismo, o milagre que opera a transformação de bêbados em homens sóbrios, ladrões em homens honestos, e prostitutas em mulheres castas, foi, de algum modo, efetuado pela pregação dos auxiliares leigos de Wesley. Foi deveras operado em escala que deixou o ministério ordeiro e formal inteiramente falido.

A vida dos primeiros pregadores do metodismo pertence ao domínio da literatura esquecida; entretanto, os que exploram essas biografias mortas acharão nelas presa rica e esquisita. É pela maior parte escrita em um inglês comum, o inglês de Bunyan e Cobbett. Abundam em incidentes estranhos, e são retratos notavelmente claros de caracteres descomunais. A história de João Nelson, por exemplo, poderia ser descrita como “A graça Abundante” de Bunyan, outra vez traduzida em termos humanos. Nelson era tipo o do verdadeiro yorkano (cidadão de York, na Inglaterra, que deu nome nos Estados Unidos à cidade de Nova York), forte, cabeçudo, dotado de humor esquisito e de bom senso, e dotado, também, de uma capacidade pelo sentimento profundamente religioso. Ele possuía segundo diz o próprio Southey, “espírito tão elevado e coração tão corajoso como qualquer inglês jamais”. As lutas religiosas pelas quais passou merecem classificação, com as de Bunyan ou de Francisco de Sales e são descritas com igual clareza. Ele teve uma mocidade tempestuosa, e aos trinta anos de idade diz:
“Preferiria ser antes enforcado a viver outros trinta anos semelhantes aos que já passei. Decerto, Deus não fez o homem para ser um tal enigma para si mesmo e deixá-lo assim! Deve haver algo na religião que eu ainda não conheço pra saciar o espírito vazio do homem, ou então ele está em pior estado do que os amimais que perecem”.

João Nelson ouviu Whitefield pregar, mas o mais melífluo (de voz ou maneiras brandas ou doces, que flui como mel, brando) de todos os pregadores não agradou o forte yorkano. Mais tarde João Nelson ouviu João Wesley. Diz ele: “Ó quão feliz manhã aquela para a minha alma”. A sua descrição da pregação de Wesley é clássica e já foi citada.

Pode-se imaginar quão heróico seria o temperamento com que Nelson tomaria a sua religião. Não conhecia meios termos. Ele levou o seu espírito heróico para o domínio de sua piedade e repreendeu o pecado tanto nos nobres como aos demais. Era pedreiro e nesse tempo trabalhava no Exchequer, um edifício real. O mestre de obras exigiu que trabalhasse no domingo, dizendo que era negócio do rei e que até os Dez Mandamentos teriam de ceder diante da realeza. O honesto yorkano declarou que não trabalharia no domingo para homem algum na Inglaterra. O mestre lhe disse: “Então a tua religião te faz inimigo do rei”. Nelson respondeu: “Não senhor, os maiores inimigos do rei são os que profanam o domingo, os blasfemadores, os bêbados, e os fornicadores, estes atraem sobre o país e sobre o rei os juízos de Deus”. Foi-lhe dito que teria de perder o emprego se não obedecesse às ordens; mas ele respondeu, “que seria melhor ter falta de pão do que voluntariamente ofender a Deus”. O mestre asseverou que Nelson estaria logo tão louco como Whitefield, se continuasse assim. Disse a João Nelson:
"Que fizeste que precisas de falar tanto da salvação? Sempre te considerei tão honesto como qualquer homem no serviço e eu era capaz de confiar-te a guarda de quinhentas libras”. Nelson respondeu: "Bem poderias e não terias perdido um penny sequer. Mas eu tenho muito pior opinião de ti agora”, disse o mestre. “Mestre”, respondeu ele, “eu te levo a vantagem, pois tenho muito pior opinião de mim mesmo, do que tu podes ter”.

O zelo de João Nelson era de tipo tão ardente que de seus escassos ganhos ele pagou um de seus companheiros de ofício para ir e ouvir a João Wesley pregar, e deste modo dar à sua alma uma oportunidade. A religião iluminava com lampejos de poesia a imaginação inculta deste pedreiro de York e ao descrever os seus sentimentos ele diz: “A minha alma parecia respirar vida de Deus tão naturalmente como o meu corpo respirava vida do ar comum”. O vigário de Bristol, onde Nelson morava, para abafar este sincero cristão, conseguiu que fosse, à força, sentar praça (prestar serviço militar), e isto em desafio da lei, e a história de seus sofrimentos derrama uma luz estranha sobre as condições sociais da Inglaterra nesse tempo.

Sendo preso, fizeram Nelson marchar pela cidade de York, onde era bem conhecida a sua reputação como um desses novos fanáticos e metodistas odiados. “Era, diz Nelson, como se o inferno se movesse debaixo para encontrar-me na chegada. As ruas e as janelas se apinhavam de gente, que chamavam e gritavam como se eu fosse alguém que arrazasse a nação. Mas Deus me fez a testa como bronze, do modo que eu pudesse contemplá-los como gafanhotos, e passar a cidade como se não houvesse mais ninguém ali senão eu e Deus”. Nelson, ainda que forçado a entrar nas fileiras, contudo teimava que a farda vermelha não o eximia das obrigações de pregador, e os seus oficiais ficaram surpreendidos quando ele lhes repreendia na cara por causa de suas imprecações. Que soldado cacete (maçante) este! Um jovem porta-bandeira resolveu reprimir este ousado recruta, e manifestou talento bastante na invenção de insultos e crueldade para infringir-lhe. Nesta fase da história o yorkano natural aparece por um momento na autobiografia do honesto João.

“Surgiu-me uma tentação forte”, diz eIe “quando refleti neste homem ignorante e perverso que me atormentava desta forma e eu capaz de amarrar-lhe a cabeça aos pés! Descobri em mim um osso do homem velho”.

Nelson, afinal, obteve baixa pela influência da senhora Huntingdon, mas a sua história é um pedacinho de inglês tão picante como qualquer que se encontra na literatura do século dezoito. E a vida de muitos destes pregadores são ricas em tais narrações heróicas, comoventes, e às vezes absurdas, mas com um cintilar de nobreza manifestando-se através das ações mais simples.

Por exemplo, Alexandre Mather, em virtude do seu sangue escocês possuía certa rigidez de corpo e uma energia fogosa no trabalho que para um homem qualquer pareceria incrível. Era padeiro, trabalhando um número de horas que o temperamento moderno acharia intolerável, entretanto achou tempo para ser um dos mais efetivos auxiliares de Wesley.

“Não tive tempo algum para a pregação senão o que eu tirasse do sono, de modo que freqüentemente eu não consegui oito horas de sono numa semana. Isto junto com o trabalho pesado, abstinência constante, e freqüentes jejuns, aniquilou-me tanto que o meu patrão muito cismava que eu havia de me matar, e talvez os seus receios não fossem infundados. Eu freqüentemente tirava a camisa tão molhada de suor como se fosse mergulhada em água. Depois de me apressar em concluir os meus negócios fora, voltava à tarde todo suado, à casa de tarde, e mudando de roupa, corria para pregar em uma ou outra das capelas, e então andava ou corria de volta, mudava de roupa outra vez, e entrava para o serviço às dez horas da noite, trabalhava constantemente durante a noite toda, e pregava as cinco horas da manhã seguinte. Eu então corria de volta para tirar o pão do forno às seis e um quarto (6:15h) ou às seis e meia, trabalhava na casa do forno até oito horas, e então saía para entregar pão até a tarde, e talvez à noite ia outra vez pregar”.

Outro auxiliar de Wesley era o Thomaz Olivers, gaulês, com todas as qualidades do temperamento gaulês, o fervor, a simplicidade, a natureza poética, a capacidade pela ira repentina. Descrevendo a sua própria condição espiritual depois de sua conversão, ele diz:
“Em verdade vivi pela fé. Vi a Deus em tudo – os céus e a terra e tudo que neles há me mostravam algo dele – sim, até de uma gota de água, de uma folha de erva, de um grão de areia, eu tirava a instrução”.

Temos muitos exemplos divertidos acerca das suscetibilidades emocionais de Olivers. Numa ocasião, enquanto almoçava por volta do meio dia, veio-lhe o pensamento de que ele não era chamado para pregar; a comida que então estava perante ele não lhe pertencia, e era ladrão e larápio em comê-la.

Não pôde concluir a refeição, desfez-se em lágrimas; e, tendo de dirigir um serviço à uma hora (13h), saiu em direção da casa de pregação, chorando por todo o caminho, e chorou copiosamente enquanto lia o hino, e enquanto orava e pregava. Naturalmente uma emoção contagiosa corria pela congregação, muitos entre os assistentes, “clamavam em alta voz por causa da inquietação de suas almas”.

João Wesley mostrou-se um capitão ideal destes eclesiásticos irregulares (pregadores leigos). Eram seus filhos espirituais, bem como seus auxiliares. O governo que exercia sobre eles tinha algo de paternal; e, no entanto, a disciplina que lhes impunha era quase heróica em seu rigor. Eram soldados em campanha, e há mais do que um simples toque da severidade militar as quais lhes sujeitava. Estas regras descem até os detalhes mais comuns acerca do comer e do vestir, dos modos, das horas de dormir, dos métodos de trabalhar, e de conduta geral. Nunca houve um grupo de homens que trabalhasse com mais diligência, que se tratasse com mais simplicidade, ou que recebesse menos salário em moeda corrente do que a primeira geração de pregadores metodistas. “Nunca estar sem emprego. Nunca estar em coisas triviais”, era regra que Wesley lhes deu – regra esta que foi o simples reflexo de sua própria prática.

O cuidado que Wesley votava a seus pregadores foi qualificado por uma ampla apreciação da fraqueza da natureza humana. Eis alguns de seus regulamentos:
“Sede sérios.
Seja o vosso moto: Santidade ao Senhor.
Fugi de toda a leviandade como se fugissem do fogo do inferno, e de coisas triviais como se fossem imprecações.
Não toqueis em mulher alguma (exceto os casados com suas respectivas esposas e os solteiros após se casarem); sejais tão amáveis quanto quiserdes, mas os costumes do país não são para nós.
Não recebais dinheiro de ninguém: se vos derem de comer quando estiverdes com fome, e roupa quando delas precisardes, é quanto basta; mas não prata, nem ouro; que não haja ocasião que ninguém diga que nós nos enriquecemos pelo Evangelho”.

A inteireza, com que Wesley investigava e regulava os hábitos domésticos de seus pregadores, manifesta-se em muitos exemplos. EIe pergunta:
"Negais a vós mesmos de todo o prazer inútil, quer dos sentidos, da imaginação, ou da honra? Exerceis a temperança em tudo? Por exemplo: No comer, somente tomais a qualidade e a quantidade que melhor vos serve tanto o corpo como a alma? Vedes a necessidade disso? Não comeis carne na ceia? Não ceais tarde? Tais coisas naturalmente tendem a minar a saúde do corpo. Somente comeis três vezes ao dia? Se quatro vezes, não sois exemplos excelentes para o rebanho! Não comeis mais do que o necessário a cada refeição? Podeis saber que sim, pelo peso do estômago; pela sonolência e indisposição; e daqui a pouco, pelo enfraquecimento nervoso.Tomais unicamente a quantidade de bebida que vos servem melhor tanto ao corpo como à alma? Bebeis agora? Já bebestes água? Por que a deixastes, senão por causa da saúde? Quando começareis outra vez, hoje? Com que freqüência bebeis vinho ou cerveja? Todos os dias? Precisais deles ou estais a desperdiçá-los?”

Ele declarou como seu próprio propósito de não comer senão hortaliças nas sextas-feiras, e de tomar somente pão torrado e água de manhã, e esperava que os pregadores observassem a mesma espécie de jejum.

João Wesley adiantava-se tanto sobre os do seu século que chegou a compreender o poder educacional da imprensa, e sistematicamente serviu-se de seus pregadores como seu veículo. Pregador algum podia fazer qualquer excursão pessoal ao domínio de escritor, sem a permissão de Wesley; mas um sortimento dos livros que o próprio Wesley publicava, formava parte da equipagem de todo o itinerante. Wesley diz:
“Leve-os convosco, por todas as cidades. Esforçai-vos nisso. Não vos envergonheis; nem vos canseis; não deixeis pedra alguma por revolver”.

O ministério dos auxiliares de Wesley era ao princípio, de espécie mui ativo. Ele julgava que um pregador esgotaria a sua mensagem em qualquer vizinhança no decorrer de sete ou oito semanas. Depois desse período, dizia Wesley, «o pregador não acha mais assunto para pregar de manhã e à noite todos os dias, nem o povo quer vir para ouvi-lo. Entretanto, se ele não permanecer por mais de quinze dias, achará bastante assunto, e o povo alegremente ouvirá”. Francamente prossegue Wesley: “Sei que se eu pregasse por um ano inteiro num só lugar tanto eu mesmo como a congregação ficaríamos adormecidos”. Wesley, sabiamente benevolente, tanto para os pregadores como para as congregações, insistia que seus auxiliares pregassem sermões curtos. Deveras seria de grande vantagem que um dos seus regulamentos fosse pintado em letras de ouro das as igrejas do mundo, hoje. Os pregadores foram admoestados “a começarem e a terminarem justamente na hora marcada, e a concluírem o culto sempre dentro de uma hora, mais ou menos”; a adaptarem o assunto ao auditório; a escolherem o texto mais claro e a cingirem-se ao texto, não se afastando dele nem espiritualizando de mais. Não deviam vociferar.

Wesley escreveu a um de seus auxiliares:
“Deixai de gritar, pois é pôr em perigo a vossa alma. Deus vos adverte agora por mim, a quem ele colocou sobre vós, falai de todo o coração, mas em voz moderada. Eu muitas vezes falo em alta voz, muitas vezes com veemência, mas nunca grito; nunca me esforço demasiado. Não ouso fazer isto. Sei que é pecado contra Deus e contra a própria alma”.

Certamente se encontra nisso o sabor do bom senso. E onde na história, jamais houve tal combinação de zelo, que era, pela mera temperatura, sugestivo de fanatismo, ligado com tanta sanidade e com tanta inteligência prática!

Southey diz em espírito de mofa (zombaria, depreciação), desses pregadores primitivos, “que eIes não possuíam outra qualificação como ensinadores senão um bom sortimento de vigor animal e de uma fácil verbosidade, talento que, de todos, com menos freqüência acha-se ligado a uma inteligência sã”. Mas esta é uma entre muitas passagens na sua “Vida de Wesley” em que as prevenções de Southey o cegam aos fatos. Esses homens eram, sem dúvida como um deles se descreve, “pães pretos”. Mas pelo menos eles sabiam, e sabiam bem, e pela forma mais certa de conhecimento nascido da experiência verificada – tudo que ensinavam. Wesley energicamente diz a respeito deles:
“Na única coisa que professam saber, não são ignorantes. Creio que não há ninguém entre eles que não seja capaz de prestar um exame em teologia substancial, prática e experimental que poucos entre os nossos candidatos a ordens sacras, mesmo na universidade, digo-o com tristeza e vergonha, mas com terno amor, seriam capazes de fazer.” (Southey VoI - 1. p, 310)

Entretanto o próprio Wesley, como douto, odiava a ignorância, e trabalhava com uma diligência quase divertida para educar os seus auxiliares. Insistia que fossem leitores, e lhes repreendia asperamente quando lhes achava negligentes de seus livros. Assim escreve a um deles:
"A vossa capacidade na pregação não aumenta. É a mesma hoje que era há sete anos. É viva, mas não profunda, Tem pouca variedade; não tem largueza de pensamento. Somente a leitura pode remediar isto, junto com a meditação e a oração diárias. Vós vos prejudicais grandemente por esta omissão. Sem isto nunca serás um profundo pregador, e nem mesmo cristão completo. Começai! Determinai uma certa parte de cada dia para o exercício particular. Podeis adquirir o gosto que por ora vos falta. O que parece cansativo no começo, depois se tornará agradável. Quer gostais quer não, lede e orai diariamente. É em abono da vossa vida. Não há outro meio; de outra maneira estareis vos ocupando com trivialidades durante toda a vida, e sereis pregador bonito, mas superficial. Fazei justiça a vossa própria alma, lhe dê o tempo e os meios para o seu crescimento; não vós façais passar fome por mais tempo”.

Wesley estava sabiamente solícito acerca do estilo de seus auxiliares no púlpito; e segundo ele, no púlpito, a principal de todas as virtudes, de espécie literária, era a clareza. Ele escreve a um de seus auxiliares:
"A clareza é necessária para vós e a mim, porque temos de instruir gente de tão pouco entendimento. Por isso, nós, mais do que ninguém; ainda que pensemos com os sábios, precisamos falar com todos. Devemos empregar constantemente as palavras mais comuns, curtas e fáceis que a língua nos oferece, contanto que sejam puras e apropriadas. Quando comecei, em Oxford, a falar ao povo, no castelo da cidade, notei que ficaram boquiabertos e admirados. Isto logo me obrigou a mudar de estilo, e a adotar a linguagem daqueles a quem eu me dirigia; e ainda há uma dignidade da sua simplicidade que não é desagradável para os da classe mais nobre.“

Os pregadores do metodismo primitivo, se não sabiam muito do “pensamento elevado” (acadêmico, escolarizado, culto), tinham experiência (e cultura) abundante da “vida simples”. Wesley quis que Mather lhe acompanhasse em viagem de pregação na Irlanda, e perguntou-lhe quanto julgava suficiente para o sustento da mulher durante a sua ausência. Mather fixou a quantia modestamente em 4 shillings por semana, E esta foi como excessiva! A mulher de um auxiliar metodista naqueles dias heróicos devia ter possuído um espírito ainda mais frugal do que a mulher de João Gilpin. Esperava-se que o auxiliar, quando em viagem de pregação, achasse a comida entre os seus ouvintes. Quando estava em casa a esposa recebia um schilling e seis pence por dia pela manutenção do marido, entendido que quando o marido fosse convidado comer fora o preço da refeição seria deduzido de um schilling e seis pence. À esposa dava-se quatro shillings por semana com mais uma libra por trimestre por cada filho.

Na IX Conferência Metodista, que se celebrou em outubro de 1752, em Bristol, foi estipulado que os pregadores recebessem doze libras por ano para se proverem das coisas necessárias. A sua lista de coisas devia ter sido de brevidade espartana. Mas, mais de doze anos depois, na Conferência de 1765, foi admitida e ouvida uma delegação do circuito de York que achava excessiva a soma de doze libras por ano! Antes de 1752 cada circuito fazia o seu próprio arranjo financeiro com os pregadores e às vezes eram de uma espécie bastante interessante.

Ainda em 1754, era costume no circuito de Norwich, por exemplo, dividir o dinheiro da coleta da festa de caridade entre os pregadores, e “isto”, diz Myles, com certo acento melancólico, “era muito pouco”.

Quando houve na história uma ordem de pregadores tão pouco dispendiosa como a dos primeiros auxiliares de Wesley? Eles entesouraram muito no céu, mas aqui no mundo tinham os bolsos bem vazios. Um deles, João Jane, morreu em Epworth. Os seus haveres eram insuficientes para pagar as despesas do enterro, que importavam em uma libra, dezessete schillings e três pence. Todo o dinheiro que deixou importava em um schilling e quatro pence. Wesley laconicamente diz, “bastante para qualquer pregador solteiro deixar a seus herdeiros”.

É verdade que muitos desses pregadores primitivos deixaram a Wesley. Eles acabaram por tomar pastorados entre os dissidentes do metodismo ou aceitaram ordens na Igreja Anglicana. Alguns foram levados por uma ou outra novidade teológica. Pode-se oferecer por eles muitas atenuantes. A sua posição não estava definida; e o seu lugar no grande movimento estava indeterminado. Eles faziam o trabalho de ministros sem terem ainda qualquer direito ao ofício ministerial. Mas é quase impossível exagerar o papel que desempenharam no movimento. O ministério metodista de hoje vem em descendência direta deles. Deles também saiu a grande ordem de pregadores leigos, sem a qual o próprio metodismo não poderia existir.

Para cada ministro metodista hoje no mundo, há mais ou menos dez pregadores leigos; e para cada sete sermões pregados em cada domingo de púlpitos metodistas, seis são proferidos por pregadores leigos. Todo o ministro que ocupa um púlpito metodista já passou por esta ordem. O grande sinal e penhor do caráter não sacerdotal do metodismo se acham em dois fatos. Os ministros repartem o seu ofício de pregação com os pregadores leigos, e o seu oficio pastoral com os guias (de classes ou guias-leigos).

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** (Esse texto corresponde ao capítulo XIX, "Uma nova ordem de auxiliares", do livro Wesley e seu século – um estudo de forças espirituais, volume I, respectivamente nas páginas 233 a 249, Edição de 1916 publicada pela Typographia de Carlos Echenique, Porto Alegre, RJ).

OBS: Esse livro originalmente não usa parênteses. As notas explicativas dentro de parênteses são de iniciativa dessa edição on line do site da Igreja Metodista de Vila Isabel)

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