IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Metodismo
Rio, 30/3/2009
 

As sociedades e as classes metodistas: onde se abrigavam e eram cuidados os novos convertidos** (Rev. W. H. Fitchett)

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Conversos (os novos convertidos) agora se multiplicavam com ligeireza; haviam crescido na escala de um exército, e surgiu um problema novo e difícil, nascido do próprio êxito de Wesley. Como havia de zelar por seus conversos? Eles tinham a inculta simplicidade de crianças; estavam espalhados sobre uma grande região; e a atmosfera espiritual a seu redor era-lhes desfavorável. Os clérigos (sacerdotes anglicanos) seus pastores naturais, tinham para com eles, freqüentemente, o temperamento de lobos, tratando-os como se fossem enjeitados, e tocando-os da mesa da comunhão. Os conversos olhavam a Wesley como sendo o seu diretor espiritual; entretanto como podia eIe, um evangelista que corria incessantemente (vivia de modo itinerante) para pregar a novas multidões, conservar-se em contato pessoal com os conversos que deixava atrás de si?

É, portanto, com algo do gozo da descoberta, o acento de um Arquimedes espiritual a gritar “Eureka”, que entre a agitação do seu trabalho e o aumento constante das multidões de conversos, Wesley recebe a sua primeira visão da reunião de classes, e vê a sua grande utilidade. Ele diz: “É exatamente isto que por tanto tempo nos faltava.”

Entretanto a nota de exultante surpresa que ouvimos de Wesley é de admirar-se. Sociedades religiosas de alguma espécie constituem uma feição constante e familiar de toda a sua história até essa data. Enquanto estudava em Oxford, eIe escreveu no seu Diário, que um homem sério – que ele não identifica quem – lhe disse: “ tendes de achar companheiros ou fazê-los; a Bíblia nada sabe de uma religião solitária”. E é certo que Wesley, com algum instinto sábio, sempre deu a sua religião uma forma social. Ele fundou uma sociedade em Oxford; estabeleceu outra a bordo do navio que o levou à América; organizou outra logo que chegou a Savannah, e freqüentou a sociedade dos Moravianos na rua Aldersgate logo que voltou à Inglaterra. Ele determina as datas do seu almanaque espiritual pelas várias sociedades que vieram à existência: a sociedade de Oxford em 1729, de Savannah em 1736, de Londres em 1737, etc. Foi na pequena sociedade moraviana da rua AIdersgate, em Londres, que o próprio Wesley se converteu. E Wesley não somente organizou novas sociedades, mas alegremente serviu-se das que existiam.

Sociedades dentro da Igreja existiram muito antes do Metodismo. Apareceram nos tempos dissolutos que seguiam a restauração, e representavam um esforço por parte da consciência cristã dessa época para organizar-se, mesmo na própria defesa, contra o vício desavergonhado que afrontava toda a decência, e contra a incredulidade trocista (zombeteira) que ameaçava destruir a religião. Na narração que Woodward fez dessas sociedades temos, diz miss Wedegwood, ”uma descrição exata da reunião de classes, feita seis anos antes do nascimento de Wesley”. Mas isto é bastante exagerado, porque nessas sociedades anteriores faltavam os elementos essencialmente espirituais da reunião de classe. Os Moravianos também plantaram as suas pequenas sociedades, aqui e ali, no solo inglês, ou chamaram a si as que já existiam. De modo que é verdade, se bem que meia verdade, que Wesley não inventou as sociedades religiosas na Inglaterra. Mas ele deu nova forma às que existiam e Ihes incumbiu de uma nova função. As sociedades religiosas descritas por Woodward eram pequenos viveiros de moralidade. As sociedades moravianas eram ou tornaram-se meros centros de quietismo (de cultivo de uma espiritualidade mística segundo a qual a perfeição moral consiste na anulação da vontade, na indiferença absoluta e na união contemplativa com Deus). A sociedade Metodista, em sua forma final – a reunião de classe – é coisa profundamente diferente.

João Wesley, por certo, achou o grande princípio da comunhão religiosa em operação na igreja apostólica (a Igreja dos tempos dos apóstolos de Jesus). Em suas reuniões de classe ele simplesmente organizou de novo aquele princípio e o traduziu em novos termos, e o fez elemento e condição permanente da vida eclesiástica. E em fazer isto, ele era fiel aos mais nobres ideais da ordem na Igreja.

Há duas teorias possíveis de relação eclesiástica. Uma pode-se chamar a Teoria de Bonde: Temos um grupo de pessoas que casualmente se assentam lado a lado, por uns poucos minutos, na mesma direção; são impelidas pela mesma força e zeladas pelas mesmas instrumentalidades. Mas são estranhas entre si e não possuem língua comum. Não são ligadas por qualquer elo de parentesco consciente ou articulado. Sociedade (vida comunitária, companheirismo cristão, mutualidade nos cuidados e serviços de uns aos outros), a não ser no sentido mecânico – ou digamos geográfico – não existe entre elas (as pessoas se assentam no bonde ou no ônibus mecânicamente uma ao lado das outras, mas estão assim mecanicamente).

Então há o que se pode denominar a Teoria da Lareira ou teoria familiar da Igreja. Temos aqui um círculo de entes humanos entrelaçados por um parentesco consciente e reconhecido. Falam uma língua comum; tem gozos, tristezas e perigos comuns. Empenham-se em ajudar e proteger uns aos outros; o que toca num é sentido por todos (é como uma família e amigos que se reúnem ao redor de uma lareira num dia frio).

Qual destas duas concepções de comunhão na Igreja, a do bonde ou a da lareira, é mais próxima ao ideal de Deus, não será difícil se dizer.

Na Igreja dessa época não existia tal comunhão familiar, e era isto um dos segredos da sua decadência. Southey descrevendo uma fase na vida de João Nelson, diz que “um ministro judicioso (que julga com acerto, sensato, prudente, consciente) devia ter conhecido o homem (o coração do homem e suas possibilidades e necessidades de afeição e de vida comunitária), poderia ter-lhe o ensino preciso. “Mas, acrescenta com inconsciente severidade, a espécie de relação (familiar. Afetiva, comunitária) que isto implicaria entre o pastor e o seu povo, quase não existia em parte alguma, e de modo algum era possível existir na metrópole”. Coleridge com isso rompe numa forte anotação, perguntando: “É verdade isso? E a igreja de que se pode dizer isso será a verdadeira Igreja de Cristo?”

Wesley que bem conhecia a Igreja do seu tempo, diz dela:
“Olhai para o leste, oeste, norte ou sul, mencionais a paróquia que quiserdes: haverá ali a comunhão cristã? Não é verdade que a maioria dos paroquianos constitui somente uma corda de areia? (a ligação dos paroquianos não era pelos ternos laços de misericórdia, mas por algo frágil e seco). Que relação cristã existe entre eIes? Que comunhão em causas espirituais? Que vigilância e cuidados exercem uns sobre as almas dos outros?”

Mas se na Igreja dessa época havia pouca comunhão direta entre o ministro e os seus paroquianos, ainda menos existia, entre os próprios paroquianos (os membros da igreja). A Igreja havia perdido não se sabe a quanto tempo uma das suas funções mais nobres: a função unificadora entre homens e mulheres de todas as camadas. E Wesley estava fornecendo uma das necessidades primitivas e imperecíveis da vida cristã em qualquer século, e sob todas as condições, quando na formação de suas sociedades – e mais tarde da reunião de classes – fez desta comunhão uma feição permanente da vida na Igreja.

É curioso notar como, por aquilo que se pode chamar um “acaso” – pela mera compulsão dos acontecimentos, e não por plano consciente – as sociedades Metodistas vieram à existência. Foi com o conselho do moraviano Pedro Bohler que João Wesley fundou a sociedade metodista que se reuniu em Fetter Lane. Mas, em 1738, depois de separar•se dos Moravianos, o Foundry tornou-se o centro do seu trabalho. Ele relata:
“Pelos fins do ano 1739, vieram ter comigo, em Londres, oito ou dez pessoas que pareceram estar profundamente convencidas do pecado. Desejaram que eu empregasse algum tempo com elas em orar e em aconselhá-las como fugirem da ira vindoura”.

Wesley marcou às quintas-feiras, à noite, para este fim. O número rapidamente aumentou. “Na primeira noite, cerca de doze pessoas vieram, e na semana seguinte trinta ou quarenta. Estas aumentavam até cem; e então”, diz Wesley, “tomei os seus nomes com a indicação de suas moradias, afim de visitá-las em suas casas. Assim, sem qualquer plano prévio, começou a sociedade Metodista na Inglaterra – uma companhia de homens unidos com o fim de auxiliarem-se mutuamente a obrar a sua salvação”. Formou-se uma sociedade semelhante em Bristol, e mais tarde em outros lugares.

Aqui, pois, estava a sociedade metodista, mas ainda não a reunião de classe. Esta apareceu três anos mais tarde, em 1742; e foi um esforço pagar a primeira dívida da Igreja Metodista que deu origem à reunião de classe.

Havia uma dívida bastante elevada sobre a casa de cultos em Bristol, e os membros da sociedade consultavam entre si como a pagariam. Certo capitão Foy cujo nome merece viver (não ser esquecido) levantou-se e disse: “Cada membro da sociedade dê um penny por semana até que seja paga a divida”. Alguém respondeu: ”Muitos são pobres, e não podem dar tanto”. Então disse o primeiro, “Podeis me dar os nomes de onze dos mais pobres; se puderem dar alguma coisa, bom; os visitarei cada semana; e se não poderem dar eu darei por eles e por mim também. E cada um de vós visite onze dos vossos vizinhos semanalmente recebendo o que derem, e supra o que faltar”. Assim se fez; e logo se descobriu que o plano dava muito mais do que dinheiro. Wesley diz:
“Mais tarde, alguns destes me informaram que haviam achado que fulano ou sicrano não vivia cristamente como devia. Logo pensei, esta é a coisa que por tanto tempo nos faltava”.

Aqui havia a sugestão de uma supervisão mui extensa e ao mesmo tempo minuciosa; o mais efetivo pastorado que o gênio do homem inventou ou que a graça de Deus empregou.

O instinto de Wesley pela exatidão, o seu hábito em seguir uma simples indicação até torná-la em instituição veio logo em cena. A reunião de classe foi sistematizada; feita co-extensiva com o avivamento. A sua inteligência educada e disciplinada percorria toda a história em busca de precedentes e detalhes, e os achou em abundância. Uma testemunha tão desapaixonada como Paley achou no modo de viver – suas formas e seus hábitos – da primitiva Igreja Cristã, “uma semelhança mui notável com os Unitas Fratrum e com os Metodistas modernos”. Os tesserae, os símbolos de membros na Igreja Apostólica, foram reproduzidos no bilhete, símbolo de membro na Igreja Metodista.

O valor das sociedades – especialmente na sua forma amadurecida de reunião de classe – era simplesmente imensurável. Elas deram coerência ao avivamento e nutriram a sua vitalidade. Cada novo convertido trazido à reunião de classe achou-se membro de um grupo ligado por grandes emoções possuídas em comum: tristeza pelo pecado, gozo do perdão, a consciência de uma nova vida, uma solicitude comum pela salvação de outros, uma aspiração comum pelas altas posses da experiência cristã. Ele recebia da sociedade a inspiração, e achava nela as salvaguardas de camaradagem. O abrigo que estas sociedades lhe deram era de valor indizível. A simples frieza do mundo secular teria matado a vida espiritual novamente nascida nas multidões. O encanto de camaradagens anteriores teria se manifestado. Mas nas novas camaradagens nas quais os conversos foram trazidos achava-se uma energia contra-balançante.

Wesley logo reconhecia na reunião de classe o mais efetivo instrumento de disciplina que um fundador ou cabeça (líder) da Igreja poderia desejar.

“É quase inconcebível”, diz ele “as grandes vantagens que se têm colhido deste pequeno e prudente regulamento; muitos felizmente agora experimentavam a comunhão cristã de que antes não tinham idéia alguma, começavam a levar as cargas uns dos outros, e naturalmente zelavam uns pelos outros. Homens maus foram expostos e repreendidos. Suportamo-los por algum tempo; quando abandonavam os seus pecados nós os recebemos alegremente; quando obstinadamente persistiam neles, declarávamos que não eram um de nós”.

Cada classe tinha o seu guia, e a reunião dos guias tornaram-se em tribunal disciplinar da Igreja. O bilhete que era o símbolo de membro renovava-se de três em três meses, durante a visitação pessoal de cada classe, por Wesley mesmo ou por um de seus auxiliares. A simples negação de bilhete quebrava a sua relação de membro e excluía os indignos, e Wesley, que com um instinto sábio colocava a eficiência antes de grande número, purificava as classes deste modo, de ano em ano, com uma dedicação completa.

O que o Metodismo tem ganhado em todos os países e por toda a sua história da reunião de classe não pode ser expresso em palavras. A instituição dá continuidade, escopo e permanência ao trabalho pastoral da Igreja. Com um ministério itinerante uma tal organização é indispensável. Sem ela não pode haver um pastorado efetivo. Esta grande instituição não somente influiu profundamente na obra de Wesley enquanto eIe vivia, mas tem deixado um sinal profundo e permanente sobre o próprio metodismo. A reunião de classe dá fala à religião; ela mata o acanhamento mudo e obstinado acerca das coisas espirituais que à semelhança da fria geada endurece tanta gente boa. Se o Metodismo tem desenvolvido em seus leigos o dom da palavra, da oração e do serviço, mais do que qualquer outra Igreja, é isto devido à reunião de classe. E o selo da reunião de classe está sobre o próprio ministério do Metodismo. Na reunião de classe todo o ministro aprende, por assim dizer, a gramática de sua língua espiritual. Ele recebe dela um ardor, uma certeza, uma força que não emana de nenhuma outra instituição.

A reunião de classe tem os seus riscos característicos. É não poucas vezes desacreditada pela falta de elasticidade e variedade na sua direção. Mas para o próprio Metodismo ela é um centro de poder espiritual. Pode-se predizer com grande confiança, se bem que melancólica, que quando a reunião de classe morrer, o próprio Metodismo, se sobreviver, sofrerá uma mudança silenciosa, mas profunda e desastrada. Começará a ossificar (transformando-se e reduzindo-se em rígido esqueleto). As formas mais uma vez parecerão de mais valor do que os fatos (ou seja, reaparecerá o formalismo, o ritualismo, o clericalismo, o tradicionalismo, etc). O triste, mas familiar, ciclo de mudanças pelas quais uma grande igreja se petrifica, e se prepara para ser posta de lado por alguma agência nova e mais intensamente religiosa, terá começado.

Agora, porém, nos interessa somente notar a contribuição que as suas sociedades fizerem para o êxito do trabalho de Wesley durante a sua vida, e o grau em que elas, em conseqüência influíram na vida de toda a Inglaterra. As sociedades sem dúvida supriram e satisfizeram a necessidade especial de religião viva, genuinamente espiritual e socialmente relevante que havia nesse momento na Inglaterra. Diz a Miss Wedgwood:
“O desejo por alguma relação comum, mais largo do que mero parentesco, mais forte do que a mera nacionalidade deve ser forte em todo o tempo; talvez foi especialmente forte no século XVIII. Uma reação da obra da Reforma nesse tempo levou muitos para o Romanismo; e ajuntou outros muitos em pequenas sociedades cimentadas por um interesse comum nas coisas da eternidade. Mas em parte alguma este instinto encontrava-se tão absolutamente satisfeito como nas fileiras do Metodismo. “

Em suma, nas sociedades de Wesley, apareceu uma nova e extensa fraternidade, a qual cobriu a Inglaterra como rede viva, vinculando homens ou mulheres, separados uns dos outros pelas largas diferenças de educação e posição social, de riqueza e pobreza, numa só família. Produziu entre eles mil ministrações benévolas. E como contribuição à vida social da Inglaterra nesse tempo, essas sociedades tiveram valor que ainda não tem sido devidamente apreciado. Não era que possuíssem meramente a influência do sal no sangue do corpo social; ou que cada pequena reunião de classe fosse um centro de energias religiosas, influindo em tudo que tocasse; mas as classes constituíram uma fraternidade, entrelaça de vínculos espirituais, e assim feita indestrutível. E esta fraternidade sobrepujava as barreiras sociais, transpondo os abismos que separavam as massas. Não somente tornou a sociedade mais pura, mas a fez mais forte e unida. As ministrações sociais, da religião não são sempre apreciadas como deviam sê-lo; e tais ministrações nunca acharam uma expressão mais feliz do que nas sociedades de Wesley.

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** (Esse texto corresponde ao capítulo XX, "Como se abrigaram os novos conversos", do livro Wesley e seu século – um estudo de forças espirituais, volume I, respectivamente nas páginas 250 a 258, Edição de 1916 publicada pela Typographia de Carlos Echenique, Porto Alegre, RJ).

OBS: Esse livro originalmente não usa parênteses. As notas explicativas dentro de parênteses são de iniciativa dessa edição on line do site da Igreja Metodista de Vila Isabel)

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