IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 31/3/2009
 

A chegada de João Wesley e do Metodismo à Irlanda, uma nação dominada pela Inglaterra com mão de ferro ** (Rev. W. H. Fitchett)

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A Irlanda era para João Wesley um campo novo, estranho, bravio e infeliz – um paradoxo da civilização; campo em que, não por qualquer crueldade da natureza ou por qualquer propósito de Deus, mas unicamente pelos ódios e tolices do gênero humano, as coisas boas se tornavam más. A lei inspirava crime. A religião alimentava ódios. A liberdade tornava-se autor da tirania. A Irlanda dos primeiros Georges e das leis penais! Havia outro pedaço qualquer do mundo civilizado onde a religião de Jesus Cristo, se avizinhasse tanto à derrota e onde o trabalho da religião parecesse tão desesperado?

Lord Hutchinson, recordamos, condensou a Irlanda de então numa sentença terrível: “Uma aristocracia corrupta, um vulgacho (povo) feroz, um governo anarquizado e uma nação dividida”. A sociedade cons¬tituía uma teia de ódios temíveis. Os protestantes detestavam e oprimiam aos católicos; os anglicanos detestavam e oprimiam aos não-conformistas (anglicanos e outros protestantes de outros segmentos e mesmo os independentes que não aceitaram o Ato de Uniformidade, em 1662, que exigia total aceitação do Livro de Orações anglicano); os romanistas (católicos) odiavam a ambos e, quando se lhes oferecia a oportunidade, os matavam. Green diz: “Depois da capitulação de Limerick todo o católico irlandês – e havia cinco vezes mais católicos irlandeses do que protestantes – foi tratado como estrangeiro e forasteiro na sua própria pátria“. (Short History, pág. 811).

O governo estava nas mãos da duodécima parte (uma pequena minoria) da população que o explorava a seu favor para encher os bolsos às expensas das outras onze partes. Os ódios de classe eram nutridos pela lei. O católico irlandês estava praticamente fora da lei em seu solo nativo; o presbiteriano irlandês vivia sob a ameaça do Ato de Prova (uma série de leis penais inglesas do século XVII que instauravam a revogação de diversos direitos cívicos, civis ou de família para os católicos e outros dissidentes religiosos não anglicanos, impondo, por exemplo, que toda pessoa que ocupasse um emprego público, civil ou militar, tinha que prestar juramento de lealdade à Igreja da Inglaterra e parcipar da eucaristia); e o próprio anglicano Irlandês tinha de tirar o chapéu e ficar com ele na mão (um ato de respeito e reverência) na presença do anglicano que possuísse o mérito de ser Inglês.

Mas é o paradoxo de negócios Irlandeses no século XVIII que mais impressiona o estudante no século XX. Representa uma inversão, quase sem paralelo na história, de toda a ordem natural. Os ingleses haviam ganho a liberdade na Irlanda somente para negá-la aos irlandeses da Irlanda. As duas forças mais nobres na sociedade humana são a autoridade da lei e a autoridade da religião. São, ou devem ser aliadas. Mas na Irlanda de então eram inimigos mortais. A principal finalidade da lei na Irlanda visava a eliminação daquilo que quatro em cada cinco de seus habitantes tinha por sua religião. Em parte alguma o protestantismo – ou melhor, o que se dizia ser protestantismo – se achava tão forte, e em parte alguma ele havia fracassado tão completamente. Em nenhum outro país o romanismo se achava tão vexado e coagido; e em nenhum outro país ele se vinha tão perto do triunfo! Foi perseguido e a perseguição converteu os seus sacerdotes em fanáticos, e lhes enobreceu em mártires.

O protestantismo que a Irlanda conheceu nesses tristes tempos havia tomado emprestado do antigo Império de Roma sua política de perseguição: a perseguição neste caso era irmã gêmea da avareza. Estava tão pronta em bater a carteira de suas vítimas ou em confiscar as suas fazendas, como em punir-lhes a teologia tão notavelmente corrupta. O povo irlandês por sua vez, estava casado com a sua religião, não simplesmente por forças espirituais – freqüentemente não tinham nada de espirituais – mas por um conjunto de forças que constituíam uma contradição do termo espiritual: ódio de classe; a lembrança de injustiças imperdoáveis, injustiças às vezes sofridas, às vezes cometidas; a lealdade a sua classe; a sua ignorância. Ou numa palavra: os seus ódios. E nunca houve ignorância tão completa, nem ódios tão amargos! Eram ódios raciais, que tinham as suas raízes na história, e que se conservavam vivos e fundos pela opressão.

E jamais o protestantismo pecou tão fatalmente contra o próprio gênio como na Irlanda desse tempo. O pároco protestante tirava o dízimo das batatas do povo romanista para o seu próprio sustento; mas não fazia esforço algum para convertê-lo, entendê-lo, falar a sua língua, ou para iluminar a sua ignorância. A descrição dada por Lecky da Igreja do Estado na Irlanda desse tempo tem um toque da ironia severa de Tácito:
“A Igreja do Estado na Irlanda era do pobre no sentido que foi ele que pagava o seu sustento mas em nenhum outro sentido. Os seus aderentes (adeptos da Igreja do Estado, ou seja, da Igreja Anglicana) constituíam menos do que a sétima parte da população e estes pertenciam quase exclusivamente à classe mais abastada. E este maravilhoso estabelecimento foi sustentado principalmente pelos dízimos. A missa dos católicos irlandeses que viviam em choupanas numa pobreza abjeta e miserável que dificilmente achava paralelo na Europa, e tiravam uma parca subsistência para si e para as suas famílias de pequenos lotes de terras que plantavam batatas, lotes estes que freqüentemente não excediam de 250 a 400 metros quadrados. O dízimo do produto destes pequenos lotes foi exigido rigorosamente do miserável inquilino em benefício de um clérigo que hostilizava-lhe violentamente a religião, clérigo que em muitos casos ele nunca tinha visto, e de cujas ministrações nunca recebia benefício algum.” (Lecky. Vol lI, pág. 197).

“Prosseguiu-se num sistema de meia perseguição”, diz Southey, “de odiosa injustiça e de condenável ineficácia. Bons princípios e sentimentos generosos foram, portanto, incitados a formarem aliança com a superstição e o sacerdotalismo; e os padres, que a lei somente reconhecia afim de castigá-los, caso desempenhassem as funções do seu ofício, estabeleceram um domínio mais absoluto sobre espírito do povo irlandês do que possuíam em qualquer outra parte do mundo. Seria difícil achar, nos limites da história, outro caso em que conspirassem forças tão variadas e poderosas em degradar o caráter e em destruir a prosperidade de uma nação”. (Southey, voi. lI, pág. 107)

Que tipo de caráter foi criado por estas condições perversas? Os irlandeses são notavelmente susceptíveis às influências que lhes advém da história, da legislação e da Igreja. Lecky diz:
“Jamais houve outro povo que meditasse mais sobre as injustiças passadas, ou que se apegasse mais tenazmente a hábitos velhos ou que se deixasse governar mais pela imaginação, associação ou costume”.

E a história, a lei e as Igrejas todas combinaram para corrompê-los. Citamos outra vez a Lecky:
“Estavam seminus, famintos, e de tudo destituídos de todas as coisas necessárias, de toda a educação, expostos a expulsões de seus lares a qualquer hora, moídos ao pó por três grandes encargos: 1 - os aluguéis que se pagavam, não aos proprietários, mas aos intermediários; 2 - os dízimos pagos ao clero - muitas vezes clero ausente - da Igreja de seus opressores; e 3 - as espórtulas (esmolas, donativos), pagas a seus próprios padres”. (Lecky; vol I, pág. 241)

E foi em campo tão pouco esperançoso, e semeado tão abundantemente de joio, que João Wesley e o metodismo iam entrar. Southey diz que “todas as circunstâncias eram tão favoráveis ao progresso do Metodismo em Irlanda quanto lhe eram adversas em Escócia”, e ele prossegue em citar o fracasso da Igreja estabelecida, etc. Mas isto é uma inversão absurda de fatos. Na Escócia Wesley pelo menos falava como protestante a protestantes. Não era visto ali como um represente de uma raça estranha e odiada (os ingleses invasores, colonizadores e opressores). Mas na Irlanda o ódio do romanista pelo protestante, a desconfiança do irlandês a respeito de tudo que se chamava (que tinha a ver) inglês, e a amargura nascida de injustiças políticas e ódios raciais, cuja origem remontava há séculos longínquos seriam todos colocados contra Wesley.

No entanto, grandes são as forças da religião simples e genuína! Pela maravilha da verdade, verdade com o amor por veículo e ministro, Wesley na Irlanda conseguiu um êxito que foi certamente maior do que aquele que teve na Escócia, e segundo unicamente ao êxito que conseguiu na Inglaterra.

Não se pode medir a obra do Metodismo na Irlanda pelas capelas construídas, os circuitos estabelecidos, ou as sociedades formadas. O Metodismo foi a primeira e a mais nobre entre as forças curativas que influíram na história irlandesa, e que têm feito tanto em transformá-la. Nele se encontrava uma forma de religião que não carregava a lança numa mão, e um processo de proscrição na outra. Aqui havia mensageiros do Evangelho de Cristo, cujo principal característico não era a fome insaciável pelos dízimos dos bolsos daqueles que odiavam tanto a eles como a seu credo.

O Metodismo salvou o protestantismo como força espiritual na Irlanda. Fez algo em obstar (impedir) o temível divórcio entre as classes que ameaçava destruir a própria sociedade. Quando ele passou para o solo Irlandês, tornou-se visível uma forma do protestantismo que sofria a perseguição em vez de infringi-la. Falava a linguagem do primeiro século cristão, e possuía algo, ao menos, do espírito desse século longínquo – do seu zelo heróico, de sua fé exultante, de sua simpatia terna e pronta.

João Wesley mesmo não trouxe para Irlanda qualquer cura política, e permanecia tão afastado das rixas partidárias dos irlandeses, quanto se afastava das lutas teológicas dos escoceses. Mas pelo menos deu um olhar, com a vista penetrante de estadista cristão, através da densa cerração da política irlandesa. Era “homem do rei e da Igreja”, com um pouco do toreyismo de Oxford no seu sangue. Entretanto no que tocava a Irlanda, era em juízo e simpatia um Pittiano antes de Pitt! Eis como ele descreve o romanismo da Irlanda:
“Pelo menos noventa e nove em cem dos Irlandeses nativos permanecem na religião de seus antepassados. Nem é de admirar-se que os que nascem papistas geralmente vivam e morram tais, quando o protestantismo não acha melhores meios de convertê-los do que as leis penais e os Atos do Parlamento”.

Ele relata como a cavalo pelas estradas da Irlanda, com o livro adiante de si, lia a obra pouco acurada de Sir João Davies: “Uma Narração Histórica Concernente à Irlanda”, e no seu Diário comenta:
“Ninguém, lendo estes dados, pode ficar surpreendido que, fértil como é a Irlanda, sempre permanecesse esparsamente habitada; porque ele faz bem patente – 1) Que o assassinato nunca foi crime capital entre os Irlandeses nativos; o assassino somente pagava uma pequena multa ao chefe da sua tribo. 2) Desde quando os ingleses se estabeleceram aqui, os irlandeses ainda não receberam benefício algum das leis Inglesas. Não podiam processar qualquer inglês; de modo que os ingleses lhes açoitavam, espoliavam e até lhes matavam a vontade. Daí, 3) vinham guerras contínuas entre eles, durante trezentos e cinqüenta anos consecutivos e desta maneira, tanto os Ingleses como os irlandeses nativos continuavam poucos e pobres “.

Wesley acrescenta que no massacre geral de 1641, e na guerra que seguiu, “mais de um milhão de homens, mulheres e crianças foram destruídos no espaço de quatro anos”, um pedaço de aritmética imaginaria que prova de novo quão difícil coisa para os que vivem perto de grandes acontecimentos históricos, apreciar o seu verdadeiro tamanho.

A missão de Wesley na Irlanda, entretanto, sempre foi espiritual, tanto nos métodos como nos fins. Chegou a Dublin aos 9 de agosto de 1747; era domingo, os sinos das igrejas estavam a repicar, e ele foi, como era do seu costume, diretamente ao serviço na Santa Maria, e pregou nessa igreja à noite. O Metodismo já havia achado lugar em Dublin. Um auxiliar leigo da Inglaterra, Thomas Williams, havia reunido uma sociedade ali, e alugara uma velha capela Luterana como lugar de pregação. Aqui Wesley pregou a multidões que enchiam o edifício e o terreno ao redor.

Passou quinze dias em Dublin, estudando atenciosamente o caráter de seus ouvintes irlandeses.

Não havia neles sinal algum da seriedade escocesa; e nada da estultícia do rústico inglês. Os novos ouvintes eram espirituosos, corteses e acessíveis; e como o mesmo Wesley anota: “Um povo imensamente amável”. Mais tarde Wesley descobriu que o converso (o novo convertido) irlandês, com a sua franqueza e generosidade céltica, a sua susceptibilidade a emoções, tinha os defeitos de suas qualidades. “As águas”, dizia ele em descrever uma congregação que se desfez em lágrimas sob um de seus sermões, “alar¬gavam-se demais para serem fundas”. Também registra, quão pouca relação a religião do povo irlandês freqüentemente tem com o seu entendimento. A ignorância no caso dele não estorva nem limita a devoção. Ele diz:
“Quanto mais converso com esta gente, tanto mais fico admirado. Que Deus tem feito uma grande obra entre ele é manifesto; entretanto a maioria deles, tanto crentes como incrédulos, não são capazes de fazer uma narração racional dos princípios mais simples da religião. É manifesto que Deus começa o seu trabalho no coração; então a inspiração do Todo-Poderoso dá entendimento”.

Depois de somente quinze dias de trabalho em Dublin, Wesley escreve:
“Se eu ou meu irmão pudesse estar aqui por uns poucos meses, não duvido que haveria aqui sociedade maior do que em Londres”.

Mas quinze dias depois de sua partida, o seu irmão Carlos, acompanhado por CarIos Perronet, chegou, e continuou o seu trabalho; e mesmo nesse curto intervalo, entre a partida de um irmão e a chegada de outro, a qualidade variável da tempera irlandesa e o ciúme inquieto dos padres romanistas se manifestaram. Os padres ficaram alarmados! Aqui se via uma nova espécie de protestantismo que exercia sobre os seus rebanhos uma magia estranha. Devia dar-lhe combate! Portanto aparecia um padre irlandês nos limites da multidão que escutava o auxiliar Metodista, e enxotava o povo com gestos e imprecações, qual cachorro de rebanho a perseguir as ovelhas que se haviam desviado a pastos proibidos.

Um motim papista assaltou a capela em Dublin, fazendo uma fogueira dos bancos e do púlpito, e ameaçando matar a qualquer um que ali assistisse. Este rompimento de violências do povo na Irlanda geralmente teve o apoio das autoridades locais, que eram protestantes, e que, não raras vezes, odiavam mais aos Metodistas do que aos papistas. O próprio Carlos Wesley foi apedrejado nas ruas de Dublin. Uma mulher foi morta a socos num assalto que o motim deu numa reunião Metodista. Um dos auxiliares de João Wesley, João Beard, morreu em conseqüência dos maus tratos recebidos, e foi o primeiro – mas não o último – mártir Metodista na Irlanda.

A segunda visita de Wesley à Irlanda (em 1748) durou três meses e foi assinalada por labor intenso, por alguns resultados triunfantes, e por muita perseguição. Wesley achou que os seus ouvintes irlandeses não tomavam muito a sério a sua religião. Não encontrou neles a convicção profunda, e o sobrepujante senso do pecado, que se manifestavam nos seus conversos ingleses e escoceses. Wesley registra: “Preguei os terrores da lei da maneira mais forte de que eu era capaz. Entretanto, os que estavam prontos a devorarem toda a palavra não pareciam digerir parte alguma dela”. Mas de algum modo, Wesley – o catito (elegante), intenso, metódico e calmo Inglês – possuía o segredo de cativar o amor de seus ouvintes irlandeses.

Em Athlone pregou para vasta multidão no mercado, e com dificuldade se separou dos admiradores que lhe rodeavam. Afinal partiu; mas uma milha distante da cidade, num outeiro no qual havia uma encruzilhada, achou outra multidão de crentes que o esperava para interceptá-lo. Abriu-lhe caminho até achar-se no meio, quando fecharam a seu redor e não o deixavam ir. A multidão cantava hino após hino, e quando, por fim, Wesley escapou, ele declara “que homens, mulheres e crianças ergueram as vozes num clamor que nunca antes ouvi”. “Entretanto, daqui a um pouco”, acrescenta ele, com uma repentina visão do mundo feliz, “havemos de nos encontrar para nunca mais separar-nos, e a tristeza e o choro fugirão para sempre”.

O mais violento motim do povo foi o de Cork. Ali o povo praticamente tomou conta da cidade sob a direção de um cantor ambulante de modinhas, que era meio tolo meio velhaco, por nome Butler, o qual costumava comparecer na rua mascarado de clérigo, com uma Bíblia numa mão e um pacote de modinhas na outra. Os magistrados simpatizavam-se com a multidão, e os Metodistas foram caçados nas ruas como se fossem bichos. Um apelo ao intendente resultou somente na resposta que os padres papistas eram protegidos, mas Metodistas não. Muitos Metodistas, tanto homens como mulheres, foram atacados a pau ou feridos à espada; as suas casas foram saqueadas e grandemente prejudicadas. Fizeram um informe contra Carlos Wesley como sendo “pessoa de má fama, vagabundo, perturbador ordinário da paz real, pedindo que fosse desterrado" (expulso da Irlanda). Uma queixa semelhante foi formada contra todo o auxiliar Metodista que nesse tempo se achava na Irlanda.

Quando o processo veio perante o tribunal o juiz indagou, onde estavam os acusados? Ele olhou sobre Carlos Wesley, com o grupo de seus pregadores em redor, enquanto eles vinham para frente, e ficou por algum tempo visivelmente agitado, e impossibilitado a proceder. Diante dele estava um grupo de curiosos réus! A primeira testemunha pelos acusadores foi o Butler, que sendo redargüido (indagado) a respeito do seu oficio respondeu que era cantor de modinha. Então o juiz levantou a mão em admiração e clamou: “Eis aqui seis cavalheiros acusados de vagabundagem; e o principal acusador é vagabundo de profissão”.

A perseguição ainda não matou qualquer credo ruim que fosse; não era, pois provável que obstasse (impedisse) a marcha do Metodismo. Na Irlanda os pregadores Metodistas tinham muitas experiências estranhas; muitos trabalhos; muitos conversos (novos convertidos) esquisitos; muitos seguidores descomunais; mas o seu êxito era grande. O próprio Wesley fez um sumário dos frutos do seu trabalho em Dublin. Diz ele:
“Em certas fases, a obra de Deus em Dublin era mais notável do que em Londres. 1) É muito maior, em proporção ao tempo e ao número de habitantes. 2) A obra é mais pura. Durante todo esse tempo, enquanto eram tratados com gentileza e bondade, não havia ninguém entre eles teimoso ou rebelde; ninguém que queria ser mais sábio do que os seus mestres; ninguém que sonhava em ser imortal ou infalível, ou incapaz de ser tentado; em suma, nenhuma pessoa desequilibrada ou entusiasta; todos eram calmos e pacíficas”. (Diário, 26 de Julho, 1762)

Pode-se acrescentar que Wesley adaptou os seus métodos às condições da sociedade irlandesa. Ele tinha de fortificar a moralidade de seus conversos em certos aspectos pela mais rígida disciplina. Ele expulsou sumariamente de suas sociedades àqueles que ajudaram a saquear a carga de um navio naufragado até que fizessem a restituição. O autor do rifão (provérbio) notório que “a limpeza vive às portas pegadas à santidade” naturalmente contemplava com severidade os hábitos relaxados e sujos de muitos dentre os seus conversos. Ele exigiu que seus pregadores, tanto no vestir como nos hábitos, fossem uma repreensão a todo o relaxamento. Assim escreve a um de seus pregadores irlandeses, instruindo-o, com franca clareza, a evitar toda a preguiça e indolência, toda a vileza, imundícia, relaxamento, etc: “Qualquer que seja a vossa roupa, que seja inteira: que não seja esburacada, rasgada, nem esfarrapada”. Achou necessário dizer-lhe: “Livrai-vos de piolhos. Curai a vós e a vossa família da sarna”.

Ganhou muitos conversos (convertidos) dentre os católicos romanos irlandeses, e um destes, por nome Thomaz Walsh, teria tido notabilidade em qualquer século e sob qualquer forma da sociedade.

Southey fala largamente sobre o caso de Walsh, visivelmente inclinado a um sentimento de admiração pela erudição que este estranho converso adquiriu. Aqui havia um irlandês, filho de carpinteiro, de pais romanistas fanáticos, que renunciara ao romanismo como resultado de uma revolta intelectual contra os seus erros. Ele fora trazido a uma vida espiritual plena e feliz enquanto escutava um pregador Metodista fazer exposição, numa rua de Limerick, das palavras de Cristo: “Venham a mim, todos os que andam em trabalhos, etc”. As palavras de Wesley sobre Walsh: “o homem se fez o melhor versado na Bíblia que tenho conhecido”. Sabia o hebraico e o grego tão bem como se fosse a sua língua nativa. Se fosse redargüido (indagado) de qualquer palavra hebraica ou grega na Bíblia, depois de pequena pausa, dizia quantas vezes e onde se encontrava, e o seu significado em cada lugar.

Mas Walsh era mais do que notável sábio em certas coisas. Ele possuía um gênio pela religião; e a sua vida, segundo Southey, “poderia bem convencer até um católico que santos se acham em outras comunhões bem como na Igreja Romana”. Walsh mesmo descreve as alturas, que se pode chamar de montanhosas, as quais foi elevado em virtude da sua conversão. EIe diz:
“Agora senti na verdade que a fé é a substância ou subsistência das coisas esperadas, a prova das coisas não vistas. Deus e as causas do mundo invisível, das quais eu ouvira apenas, agora me apareciam no seu verdadeiro aspecto como realidades substanciosas. A fé me deu a visão de um Deus reconciliado e de um Salvador todo suficiente. O reino de Deus estava dentro de mim. Eu tirava água das fontes da salvação, andando e falando com Deus todo o dia: tudo que eu cria ser a vontade dEIe isto eu fazia de todo o coração. Eu sabia amar sem fingimento aos que me odiavam e orar por aqueles que me maltratavam e perseguiam. Os mandamentos de Deus eram o meu prazer”. (Southey, voI. lI, pág. 119)

Walsh trouxe a piedade a seus estudos, e aqui está a oração que costumava servir de prefácio a cada hora que ele novamente se dedicava ao estudo:
“Senhor Jesus, deito a minha alma a teus pés para ser ensinada e governada por ti. Do mistério tira-lhe o véu e mostra-lhe a verdade como ela é em ti mesmo. Sê tu meu sol e minha estrela tanto no dia como de noite”.

A sua religião possuía algo que não era meramente da terra. Ele parecia, respirar ares estranhos. Seus pés pisavam a terra, mas o seu espírito estava nas regiões celestes. Southey diz:
“Os seus amigos lhe descreviam como semelhante a quem havia voltado de outro mundo, e talvez fosse esse jeito descomunal que fez o padre romano dizer a seu rebanho que aquele Walsh que se tornou herege e andou pregando morrera havia muito, e que quem agora pregava sob esse nome era o Diabo com as feições deIe. Dizem que eIe passava pelas ruas de Londres, dando tão pouca atenção às coisas em redor de si como se estivesse no deserto, cego a tudo que teria atraído a atenção de outros, e tão indiferente a todos os sons de excitação, reclame e exultação como aos ventos que sopravam. EIe mostrou a mesma influência de beIas paisagens e do sol. A única coisa na natureza de que eIe falava com animação foi o firmamento estrelado, porque ali contemplava o infinito... Às vezes ele parecia absorto, dizem, em meditação gloriosa, de joelhos, com o rosto virado para o céu e os braços cruzados sobre o peito, em tal sossego que quase não se percebia-lhe a respiração. A sua alma parecia absorta em Deus; e da serenidade e de algo que assemelhava-se ao resplendor que se notava no seu semblante e em todos os seus atos depois, facilmente se via o que tinha sido a sua ocupação. Ainda no sono predominava o hábito devocional, e a sua alma se elevava a Deus em gemidos, suspiros e lágrimas. Testemunham a seu transporte e êxtase, e registram circunstâncias que eles mesmos crêem ser provas da sua comunhão com o mundo invisível”. (Southey, vol. lI, pág. 122)

Se a religião de Walsh possuía um ardor que se aproximava ao nível de paixão, ainda era assinalada por uma bela caridade e sanidade. Eis como ele fala da Igreja Romana que eIe havia deixado:
“Eu lhes dou testemunho que têm zelo de Deus, porém não segundo o conhecimento. Muitos entre eles amam a justiça, a misericórdia e a verdade; e não obstante os seus erros em sentimento e, portanto, na prática – tal seja a majestade qual seja também a sua misericórdia ¬– podem ser assim tratados. Mas eu confesso abertamente que agora, desde que Deus me iluminou a inteligência e me deu a verdade tal como é em Jesus Cristo, se eu ainda permanecesse na Igreja de Roma, não poderia ter-me salvo. A respeito de outros nada digo; sei que todo o homem levará o seu próprio fardo e dará conta de si mesmo a Deus. Perante o mesmo Mestre tanto eles como eu permaneceremos de pé ou cairemos para sempre. Mas o amor e a terna compaixão me constrangem a fazer as minhas preces perante Deus a favor deles. Todas as almas são tuas, ó Senhor Deus; e tu queres que todos venham ao conhecimento da verdade e se salvem. Rogo-te, ó Deus eterno, a mostrar a tua terna misericórdia a essas pobres almas que por tanto tempo se enganaram pelo deus deste mundo, o Papa e o seu clero. Jesus, que amas as almas e que és o amigo dos pecadores, envia-Ihes a tua luz e verdade para guiá-las”. (Southey, vol. lI, pág. 116).

É quase divertido notar-se os contrastes entre os dois tipos que representam os extremos da longa fileira dos auxiliares de Wesley, João Nelson, o pedreiro de Yorkshire e Thomas Walsh, o filho de carpinteiro irlandês. O primeiro era Inglês típico: cabeça quadrada, forte de corpo, com pouca imaginação, mas muito humor; dotado do sal de bom senso e com o dom da palavra no Inglês caseiro que dá idéia de João Bunyan ou Guilherme Cobbett. O segundo, Walsh, é o tipo céltico com o seu ardor, e o seu toque de melancolia e seu parentesco com o mundo espiritual. Walsh não teve nem a força corporal, nem a sanidade de juízo, nem o constante bom senso de João Nelson. E Nelson nunca poderia ter sido douto, sonhador e místico como Walsh. Nunca subiu ao seu fervor nem foi tocado por sua melancolia. Mas os dois eram semelhantes na coragem, no fogo e zelo com que serviram o Metodismo, e proclamaram a mensagem até o fim de suas vidas às multidões. E um movimento religioso que criou, e serviu-se de tipos espirituais tão diversos, foi certamente mui notável.

Wesley visitou a Irlanda pela primeira vez em 1747, e entre esta data e a da sua morte ele atravessou o mar irlandês não menos de quarenta e duas vezes. Tão próspero foi o seu trabalho em solo irlandês que ele celebrou em 1752 a primeira Conferência Metodista Irlandesa; a qual reuniu-se em Limerick, durando dois dias, e os membros constituintes eram Wesley e nove de seus auxiliares. A primeira Conferência Irlandesa, à semelhança das primeiras Conferências Inglesas, gastou muito tempo num vigoroso exame da teologia e do ensino dos auxiliares; e as notas das “Conversações” são às vezes quase humorísticas em sua franqueza e pungência. “Até que ponto qualquer um entre nós crê na doutrina da Predestinação?” - diz uma das perguntas. A resposta é: “Ninguém entre nós a crê em sentido algum”. Certas perguntas e respostas têm um gosto local. As congregações irlandesas eram naturalmente dadas a conversas, dai vem a pergunta, “Como daremos exemplo ao povo de decoro no culto público? Primeiro, ajoelhemo-nos sempre em oração, fiquemos de pé durante o canto e enquanto se repete o texto. Segundo, sejamos sérios e quietos tanto durante o serviço (o culto), como enquanto estamos a entrar e sair”.

Há também um gosto do local numa outra pergunta e resposta. “Não devemos pregar mais expressamente e mais fortemente sobre a abnegação do que temos feito até aqui?”. Resposta: “Pois não; mais especialmente neste reino, onde quase nunca se fala nem pensa nela”. Outra pergunta: “Que devemos evitar quase tanto como o luxo?”. Resposta: “A vadiação (levar vida ociosa, não ter ocupação e responsabilidades) de outro modo destruir-se-ia a obra de Deus na alma; e para cortar essa vadiação, não passemos um dia sequer sem darmos pelo menos uma hora à oração particular.“

Este era exatamente o ensino pungente; forte e prático, que os conversos emocionados de Wesley no sul da Irlanda precisavam. E este ensino, em conexão com a doutrina evangélica do tipo mais fervoroso, e pregado na mais fervorosa maneira, deu na Irlanda frutos mui notáveis.

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** (Esse texto corresponde ao capítulo XXIII, "Como o Trabalho se Estendeu - Irlanda", do livro Wesley e seu século – um estudo de forças espirituais, volume I, respectivamente nas páginas 287 a 300, Edição de 1916 publicada pela Typographia de Carlos Echenique, Porto Alegre, RJ).

OBS: Esse livro originalmente não usa parênteses. As notas explicativas dentro de parênteses são de iniciativa dessa edição on line do site da Igreja Metodista de Vila Isabel).

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