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Páscoa |
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Rio,
1/4/2009
Ressurreição e Solidão
Elias Boaventura
Entre os males mais cruéis que atingem a humanidade em nossos dias, encontra-se a solidão coletiva cada vez mais atormentadora, generalizada, provocando sofrimentos e ranhuras de efeitos danosos e incontrolados. O grito – estamos tristes e solitários – brota de homens e mulheres, participantes deste perdido carrossel humano, na verdade desumano, que se acotovelam, se esbarram, se ferem até, mas não se comunicam, não se compreendem e vivem um doloroso desamparo numa tristeza sem fim. A solidão é de fato maléfica e demoníaca porque aniquila o ser humano, isola-o, compromete toda a malha de relacionamentos e faz gerar prejuízos emocionais irreversíveis na qualidade de vida dos vitimados, que se transformam em mortos-vivos que perdem o sentido do pleno viver e se entregam. Cristo, derramou suas lágrimas junto ao túmulo de Lázaro, sentiu a agonia do Getsêmani e sofreu o tremendo desamparo da Cruz, bradando “Pai por que me desamparaste?” Uma vez ressurreto, mostrou-se sensível às vítimas desta solidão mortífera, participou dela e procurou afastá-la da mente e do coração humanos. Dirigindo-se à chorosa e fragilizada Madalena, assustada com o drama da crucificação, ainda ao lado do túmulo, indagou “por que choras?” Aos abalados discípulos perdidos e desanimados na caminhada poeirenta de Emaús, perguntou “ por que estais tão tristes?” De modo semelhante agiu com os desesperados pescadores, que nada conseguiam e com os assustados discípulos, encurralados pelo medo e desânimo que sentiam. De quem Ele se aproximou se fez solidário. Aos fracassados pescadores ofereceu alimentos e valorizou o trabalho que faziam, estimulando-os. Aos amedrontados discípulos fechados em seus medos, encorajou. Às desamparadas mulheres protegeu, animou, convocou para tarefas nobres junto à Galiléia e as acompanhou na penosa caminhada. A todos Cristo afagou e devolveu a esperança, de todos se fez companheiro de viagem e devolveu-lhes o sentido da vida. De criaturas solitárias, estressadas e vazias, pela sua presença, fez homens e mulheres felizes, fortes e dispostos a participarem na construção do Novo Reino, onde todos possam viver solidários e felizes. Em nossos dias de tantas incertezas, de maléfico isolamento humano, neste planeta errante, recordar o sentido da ressurreição se faz tão necessário quanto oportuno para o renascimento de nossa esperança, neste universo vivo, onde tudo, a todo momento, ressurge em clara demonstração da vitória da vida sobre a morte. A ressurreição nos põe diante de um cristianismo enfaticamente social, dinâmico, voltado para as aflições existenciais deste nosso mundo aqui e agora e para relações concretas em que a cada momento a pergunta do Cristo vivo se faz ouvir: “Por que vocês andam a chorar e tão desanimados” como se não houvesse uma saída para a vida? Na ressurreição de Cristo, o universo também renasceu e celebrou a estrondosa vitória da vida sobre a morte, a pesada lápide que fechava o túmulo foi removida. Os trôpegos, os desapropriados ou como hoje dizemos, os excluídos, ameaçados de todos os lados, puderam perceber que não se encontravam sós ao ouvir a solene promessa, que de perto já sentiam, da parte de Cristo “ Todo o poder me é dado e eu estarei com vocês todos os dias até a consumação dos séculos.” Confortável constatação! Não estamos sós!
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