IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 16/4/2009
 

A Nova Comunidade de Discípulos: Fundação e Caminho (João 13:1-20)

Bispo Paulo Lockmann


 


Os discípulos, o grupo pequeno de Jesus


Conforme havíamos prometido, queremos refletir sobre a exigência bíblica do discipulado na expressão dos grupos pequenos. Não há como contestar a prioridade do discipulado. Nosso problema é com os diversos modelos propostos no meio evangélico. Muitos com estilos contrários aos Evangelhos, uns mais próximos aos modelos empresariais de equipes de treinamento em produção e eficiência (não que sejamos contra a eficiência), outros com modelos cabalísticos (simbolismo dos números) e alguns baseados em autoritarismo e manipulação.

Seguindo a ênfase do Plano Nacional, entendemos que toda a Igreja precisa tornar-se uma comunidade de discípulos e discípulas, isso “porque reconhecemos a precariedade com que, de modo geral, estamos tratando os novos cristãos, os recém-convertidos, em sua capacitação para o exercício da Missão. E admitindo, também, que temos deixado constantemente de nutrir os membros que há anos participam da Igreja, dos quais muitos não descobriram seus dons, nem frutificam num ministério, nem conseguem viver em conformidade com a Palavra de Deus.”1

Por isso, queremos convocar todos a um confronto com as Escrituras Sagradas, nossa vida diante da Palavra. Nossos caminhos no discipulado não serão determinados por terceiros, mas pela orientação da Palavra de Deus. Ainda que em nosso espírito ecumênico, dentro dos limites dado pelo Colégio Episcopal, sejamos abertos a aprender com os outros, confrontando sempre tudo com a Palavra e com nossa herança wesleyana.

Assim, inspirados pelo famoso texto do lava-pés, quero refletir mais uma vez sobre o discipulado de Jesus, sabendo que nele foi decisivo o grupo pequeno dos discípulos. Jesus começou com eles, ou seja, chamou os doze ao discipulado permanente, que, antes de sua morte, transformou-se em 11, com a traição de Judas. É evidente que Jesus começa seu ministério formando um grupo pequeno (Mc 3.13-15). Encerra seu ministério terreno, reunindo seu grupo pequeno e passando as últimas instruções (Mc 16.14-15). Diante dessas evidências bíblicas, não resta dúvida da prioridade do discipulado, nem da estratégia do grupo pequeno ter sido fundada no cristianismo pelo próprio Senhor Jesus. Nosso texto de estudo é um relato que antecede a celebração da Páscoa de Jesus.


As lições do lava-pés – Um testemunho de humildade.

“...ora, antes da Festa da Páscoa...” (Jo. 13.1).
Na época de Jesus, devido à opressão estrangeira, cada Páscoa era aguardada com grande expectativa, pois, nela, poderia manifestar-se o Messias Libertador de Israel. Na escola rabínica de Hilel2, avô de Gamaliel, mestre de Paulo e contemporâneo de Jesus, afirmava-se que o Messias deveria vir entre os dias 14 e 15 do mês de Nisan, por ocasião do sacrifício do Cordeiro Pascal, quando, também, fatos extraordinários deveriam marcar esse momento.

Curiosamente, não há no relato de João a celebração da ceia pascal. O texto que registra esse momento íntimo entre Jesus e seu grupo pequeno dos discípulos sublinha que ocorreu antes da festa da Páscoa. Isso porque, na cronologia de João, possivelmente a mais correta, conforme diversos estudiosos, Jesus é preso antes da Páscoa (Jo 19.14). Nesta Páscoa, Jesus será como anunciado no início do Evangelho: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.” (Jo 1.29). A ceia do Senhor, conforme descrita nos demais Evangelhos, foi, com certeza, comida antes da Páscoa judaica, propositalmente, porque Jesus sabia, todo o tempo, de suas iminentes prisão e morte (Mc 8.31; Lc 9.20-22; Jo 11.53-57).

“...sabendo Jesus que era chegada a sua hora...” (Jo. 13.1).
Como Filho de Deus, Jesus sabia o que não sabemos: a hora da sua morte, e isso por cumprir como Messias de Deus uma missão de salvação do mundo ( Jo 3.16). Aqui vem uma pergunta para orientar nosso discipulado: Quantos de nós temos na comunhão com Deus sua fonte de poder e direção na vida como fez Jesus? E, nessa comunhão, se submete em total obediência?

Não há forma de encarar a missão, a não ser na comunhão do Pai. Jesus repetiu isso diversas vezes: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10.30). Essa unidade entre o discípulo e o Deus Pai, Filho e Espírito Santo é definitivamente vital no discipulado. Só formamos uma comunidade de discípulos se mantemos comunhão com o Senhor e nEle, comunhão uns com os outros. Com isso, reconhecemos que é a comunhão com Deus nossa fonte de poder para realizar a missão, e até para enfrentar a morte. Paulo sabia disso. Por isso dizia: “Tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.13).

Assim, para conhecer os propósitos de Deus para nós, precisamos, como Jesus, ser um só com o Pai em amor.


“Levantou-se da ceia, tirou a vestimenta de cima e, tomando uma toalha, cingiu-se com ela” (Jo. 13.4).
Pelo pouco espaço que tenho, salto sobre outros temas do texto, para entrar no acontecimento propriamente dito. A expressão é “levantou-se da ceia”. Podemos dizer: deixou seu lugar de Senhor. Gene Wilkes, em seu livro O Último Degrau da Liderança3, conta uma interessante história ocorrida com ele: “Encontrei-me, certa vez, na mesa principal de um evento, aquela onde se sentam as pessoas importantes. Minha tarefa era apresentar o orador, depois de o músico ter cantado. Quando o orador começou a falar, todos, na mesa principal, levantaram-se e foram sentar-se entre os presentes à conferência. Todos, menos eu! O orador, que viu as pessoas saírem da mesa principal, disse: “Quem estiver na mesa principal e quiser sair, pode fazê-lo agora”. Fiquei de pé, sozinho, e declarei: “Eu gostaria muito!” Todos riram e, com o rosto vermelho, fui sentar-me à mesa dos funcionários da cozinha. Da mesa principal para a posição de funcionário da cozinha – na frente do grupo dos meus companheiros! Que decadência! Quando o sangue voltou ao resto do meu corpo, a história de Jesus sobre onde se sentar nos banquetes me veio à mente (Lc 14.8-11).
Aqui, vemos com que grande dificuldade nós, seres humanos, abrimos mão da posição de honra, para assumir a condição de servo, saber fazer esta trajetória quantas vezes seja necessário é o que distingue uma liderança igual à de Jesus de uma liderança autoritária, vaidosa, arrogante e nada bíblica, que busca, sim, os privilégios para si e para os seus. A verdade é que não há alternativa, é necessário fazer isso frequentemente e como líderes imitarmos a Jesus (1Co 11.1), descermos do lugar especial (púlpitos-altares) e pegarmos a toalha para servir.

Neste ato, Jesus estava restabelecendo o que era a prioridade na nova comunidade dos discípulos; ou seja, o amar a Deus acima de todas as coisas se expressava visivelmente no serviço amoroso uns aos outros. É necessário adquirir um coração de servo, algo definido por Paulo como: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, [...] antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo ( ...) a si mesmo se humilhou...” (Fp 2.5-8). Tenho crido que Paulo tinha em mente a passagem do lava-pés, e até os relatos da paixão e ressurreição, quando escreveu este belo texto.

d) “Compreendeis o que vos fiz? Vós me chamais o Mestre e Senhor, e dizeis bem; porque eu o sou. Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros” (Jo 13.12-14).

Jesus apela para o entendimento dos discípulos, porque, sem dúvida, eles ficaram perplexos com o que estava acontecendo. Prova disso é a expressão de Pedro: “Senhor, tu me lavas os pés a mim?... Nunca me lavarás os pés.” Foi necessário Jesus radicalizar: “Se eu não te lavar os pés, não tens parte comigo” (Jo 13.6-8).

A grande lição de humildade é dada aqui a cada um dos discípulos, membros daquele grupo pequeno. Verdade é que nós, seres humanos, não precisamos ser ensinados sobre orgulho, vaidade, arrogância, porque esses sentimentos nascem conosco. Nossa natureza humana nos faz ansiosos por reconhecimentos, por dominar sobre os outros; tais sentimentos estão na raiz da maioria dos nossos pecados. O fato é que humildade precisamos aprender. É virtude espiritual. Quando Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para exercitar o domínio sobre sua natureza humana carnal, aprendeu a depender do Pai. Vindo do deserto, foi a Nazaré e disse: “O Espírito de Deus está sobre mim” (Lc 4.16). Não há meios de nos tornarmos humildes, senão nos caminhos de Jesus, sujeitando nosso natureza terrena à direção do Espírito, como nas palavras de Paulo aos romanos (Rm 8.11).

O Senhor, lavando os pés dos discípulos e servos, criou um confronto, quebrou a prática usual e introduziu a ética do amor e do serviço como doação da sua vida em serviço ao mundo Isso queremos aprender e ensinar, e desenvolver através do discipulado, por meio de grupos pequenos.


Nossa missão através do discipulado

Queremos, nesta perspectiva de discipulado, envolver todos os metodistas da 1ª RE nessa tarefa de nos tornarmos homens e mulheres maduros no Senhor, capacitados, como diz Paulo em Efésio 3.16-19. Desse modo, seremos de fato uma Igreja de Dons e Ministérios. Onde todos estão integrados num grupo pequeno de santificação e evangelização. De modo a nos tornarmos efetivamente um sinal de esperança aos oprimidos, uma comunidade de resistência à corrupção e a todas as formas de heresias. E assim alcançando vidas, famílias, plantando novas igrejas, bairro a bairro, cidade a cidade, anunciando as boas-novas da graça, amor e salvação, tornando-nos, efetivamente, uma Comunidade Missionária a Serviço do Povo.

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