IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
Fundada em 15 de Junho de 1902

Boulevard Vinte e Oito de Setembro, 400
Vila Isabel - Rio de Janeiro - RJ
CEP: 20551–031     Tel.: 2576–7832


Igreja da Vila

Aniversariantes

Metodismo

Missão

Artigos e Publicações

Galeria de Fotos

Links


Metodismo
Rio, 15/7/2009
 

João Wesley como construtor eclesiástico ** (Rev. W. H. Fitchett)

ZZ Outros Colaboradores ZZ


 

Numa vida como a de Wesley chega-se afinal a um ponto onde a sua relação à história tem de ser determinada. A narração deixa de ser biografia e torna-se, em sentido largo e permanente, história. Contemplemos a Wesley no meio de sua carreira a pregar, suponhamos, a multidão de 10.000 pessoas em Moorfield, ou a de 20.000 pessoas em Gwennap Pit, visualizemo-lo, por exemplo, através dos olhos de João Nelson. O honesto yorkano (homem de York, na Inglaterra) não possuía qualquer dom de imaginação nem arte de invenção literária. Só sabia dizer aquilo que via, mas via com visão notavelmente direta e penetrante. Citamos da sua narração viva da primeira vez que ouviu a Wesley pregar:

“Logo que ele subiu à tribuna, passou as mãos pelo cabelo e virou-se com a cara na minha direção, e parecia-me a mim que me fitava os olhos. As suas feições me infundiram tamanho pavor, mesmo antes de falar, que o meu coração oscilava como se fosse pêndulo; e quando começou a falar eu imaginava que ele dirigia todo o discurso a mim. Quando terminou, eu disse comigo: Este homem sabe contar os segredos do meu coração”.

Isto, diz o historiador Southey, foi o segredo do poder de Wesley como orador. Ele nunca falava por atacado; não falava à multidão, mas ao indivíduo.

As palavras do pregador eram semelhantes aos olhos de um retrato que parecia fitar-se em todo o espectador. O pregador Wesley dizia:
"Que és tu, que agora vês e sentes a tua impiedade íntima e exterior? Tu és o homem! Eu te quero para o meu Senhor Deus! Eu te desafio para que te faças filho de Deus pela fé! O Senhor precisa de ti. Tu que te sentes só digno do inferno, és agora mesmo digno de promover a sua glória – a glória da sua graça livre, justificando ao ímpio e ao que não trabalha. Ó vem sem demora! Ore no Senhor Jesus Cristo, e tu, mesmo tu, estás reconciliado com Deus”.

Multipliquemos cenas e trechos como estes, durante meio século, e por toda a extensão do Reino Unido, e teremos um homem que, sob o poder de Deus, está visivelmente movendo uma nação. É também homem que sabe traduzir a sua mensagem em termos de literatura, e escrevê-la em palavras imperecíveis. Por exemplo, aqui damos uma passagem de seu “Apelo a Homens de Razão e Religião”, que se pode tomar como tipo do caráter e força do seu ensino:

“A fé em referência ao mundo espiritual ocupa o lugar que os sentidos têm no mundo natural. É a sensibilidade da alma pela qual o crente percebe a presença daquele em quem vive, move e existe e da realidade de todo o mundo invisível, de todo o sistema de coisas eternas. Por esta fé somos salvos de toda a inquietação da mente, de toda a angústia de espírito quebrantado, de toda a falta de contentamento, de todo o temor e tristeza de coração, do indizível cansaço e aborrecimento, tanto do mundo como de nós mesmos, em que, por tantos anos, labutamos impotentemente – especialmente quando nos achávamos fora das agitações do mundo, e nos dávamos à reflexão calma. Sabemos e sentimos, e não podemos senão declará-lo, que esta fé salva a todo o homem que a exerce, tanto do pecado como da miséria, de toda a infelicidade e de todo o mau gênio”.

"Soft peace she brings; wherever she arrives
She builds our quiet, as she forms our lives;
Lays the rough paths of pevish nature even,
And opens in each heart a little heaven".

Traduzido:

“Ela traz a doce paz; onde chega
ela constrói o nosso sossego, e forma as nossas vidas:
aplaina as veredas escabrosas da natureza irrequieta,
e abre em todo o coração um pequeno céu”.

Mas isso será simples retórica e palavras lançadas ao ar? O odiado entusiasmo tão suspeito e temido pela Inglaterra do século XVIII? Não! Wesley afirma que é a forma mais elevada da razão. Pertence ao domínio das certezas:

Concordamos convosco (homens da razão) em desejar uma religião fundamentada na razão e a ela conformada em tudo. Mas surge a pergunta: Que entendeis por razão? Suponho que quereis dizer a razão eterna, a natureza das cousas, a natureza de Deus, e a natureza do homem, com as relações necessariamente existentes entre eles. Pois, é justamente esta a religião que pregamos – religião evidentemente fundamentada e em tudo conformada à razão natural, à natureza essencial de cousas: à natureza de Deus, porque começa por conhecê-lo e termina em cumprir-lhe a vontade; à natureza do homem, pois começa pelo homem conhecer-se a si mesmo como realmente é, como tolo, viciado e miserável. Ela prossegue em apontar-lhe ao único remédio, fazendo-o verdadeiramente sábio, virtuoso e feliz, como toda a inteligência pensante deseja ser (talvez de alguma maneira recordando-se daquilo que era antes). Conclui restaurando tudo as relações devidas entre Deus e o homem; unindo para sempre o Pai amantíssimo e o filho obediente e grato, o grande Senhor de todos e o servo fiel, não fazendo a sua própria vontade, mas a vontade daquele que o enviou.

Tal homem, digamos – com uma mensagem tal, e uma tal energia em publicá-la – é de qualquer ponto de vista figura majestosa. Forçosamente há de impressionar a sua geração.

Não há nada necessariamente permanente em seu trabalho. Cala-se a voz do orador; dissipam-se as multidões, morrem as emoções que as suas palavras vibrantes despertaram. Quem lê hoje o “apelo”, ainda que não tenha igual em ponto de poder na literatura religiosa do seu século? Se Wesley não fizesse mais do que simplesmente pregar e escrever, talvez se apagasse a sua memória! Mas nesta época Wesley se liga por um grande feito, não simplesmente à história inglesa, mas à história da religião. Ele criou uma Igreja! Não o fez de propósito nem com premeditação. Pelo contrário, se esforçou para não fazê-lo; e protestou que não havia de fazê-lo nunca! Não obstante, a história mostra que o fez! E a história não sendo uma filosofia que ensina, por exemplo, mas antes é a interpretação que Deus faz de si mesmo na marcha dos eventos, assiste-nos a razão em dizermos que Wesley, ao deitar os alicerces de uma nova Igreja, fez algo, que sem dúvida, sobrepujou a própria visão humana, mas cumpriu um propósito Divino.

Destruir uma igreja é fácil. Mas construí-la é tarefa que exige não somente os dons mais elevados de inteligência e os mais ricos dotes de energia espiritual, mas uma combinação de circunstâncias e forças externas que raras vezes ocorrem na história humana.

Criar uma seita não é difícil. Homens medíocres podem fazer isto; as pequenas paixões o tornam possível. Um gênio irascível, uma voz alta, e uma falta de senso de humor bastante acentuada para fazer que o ator se tome a si mesmo a sério – a ponto de anunciar, por exemplo, que ele é a reencarnação de Elias ou de João Batista – tais são as qualidades e noções que, por algum tempo produzem uma seita.

Mas uma Igreja, uma verdadeira província no reino espiritual do Senhor Jesus Cristo, dentro de cujos limites podem viver milhões de almas devotas; uma Igreja que cria e educa um ministério, estabelece missões, constrói grandes instituições, e que leva uma vida cada vez mais rica com o passar das gerações – eis uma das maravilhas da história. Realmente a sua origem não pertence à categoria das forças humanas. O seu segredo e explicação se acham no domínio Divino. E o fato que Wesley, sem deliberadamente tencioná-lo construiu uma Igreja indestrutível, é o feito que dá à sua carreira a escala de história.

Cada Igreja é um esforço para traduzir o Cristianismo a uma fórmula viável; e Wesley acrescentou mais uma destas fórmulas a história espiritual da nossa raça; e é uma fórmula que perdura. Ninguém poderia escrever a história do Cristianismo do século dezenove e vinte e deixar fora o Metodismo.

Whitefield não alcançou este grande feito. Era maior pregador do que Wesley; mas era somente pregador, e por isso a sua biografia nunca tomou a escala e o escopo imperecíveis da história. Carlos Wesley vive nos seus hinos; achou um veículo para suas emoções religiosas que as Igrejas de todos os tipos e nomes aceitam e empregam, e continuarão a empregar até que o som do último hino terrestre se confundir nas harmonias eternas do Céu. Mas isto, no caso de Carlos Wesley, era somente acidente de gênio espiritual. Que lugar haveria na história para Inácio Loyola à parte da ordem religiosa que ele criou? A fama de Wesley é imperecível porque, de algum modo, ele criou uma instituição imperecível.

E na narrativa do trabalho de Wesley, não há nada mais notável, do que os limites estreitos do tempo nos quais o movimento, que ele inspirou, cristalizou-se em forma definitiva; forma que, como se fosse traçada por mãos invisíveis, para fins invisíveis, constituiu a profecia e o penhor de existência permanente. Wesley, como já vimos, passou treze longos, tristes e trabalhosos anos em resolver o problema da religião para si mesmo. Mas tendo resolvido essa questão, a sua vida logo ganhou uma certa celeridade e precisão de alvo que dificilmente acharia duplicata na história religiosa. E nos cinco anos breves e ligeiros – ¬anos cheios de polêmica e distrações – ele praticamente deu forma, estabelecendo por todo o tempo a Igreja que traz o seu nome. Manifestam-se duas maravilhas neste aspecto do trabalho de Wesley: a ausência de qualquer tenção de criar uma Igreja nova, entretanto, se notam a celeridade, a sagacidade e a certeza de golpe com que este trabalho foi levado a cabo.

Um agrupamento de datas no calendário – datas que são limitadas ao espaço de cinco anos – mostra com quão pequena demora e quão pouco dispêndio de experiências incertas e esforços desnecessários a grande Igreja se evoluiu.

1739
– 2 de Abril – Wesley prega o seu primeiro sermão ao ar livre em Kingswood.
– 2 de Maio – O lançamento do alicerce da primeira casa de culto Metodista em Bristol.
– Junho – O lançamento do alicerce de uma escola em Kingswood.
– 15 de Outubro – Wesley enceta viagem a Gales, dando começo a seu ministério itinerário.
– Novembro – Abre-se a primeira casa de culto Metodista, o Foundry, em Londres; a nomeação dos primeiros ecônomos Metodistas; a publicação do primeiro hinário; a formação da primeira sociedade Metodista; emprega-se o primeiro pregador leigo, Maxfield.

1740
– Wesley se separa dos Moravianos; começa a controvérsia entre Wesley e Whitefield sobre a Predestinação; a formação da teologia Metodista.

1742
– 15 de Fevereiro – As sociedades foram divididas em classes; primeira menção dos Guias de Classe.
– Abril – A primeira noite de Vigílias em Londres; é instituída a visitação trimensal das classes pelos pregadores; empregam-se cartões de membros.

1743
– 1° de Maio – A publicação das regras da sociedade.

1744
– 25 de Junho – A primeira Conferência reuniu-se em Londres.

Aqui temos o claro esboço do Metodismo, com todas as suas feições essenciais, comprimido em uma dúzia de linhas, e em cinco anos. Durante os 160 anos decorridos desde então, o Metodismo tem passado por muitas mudanças em forma, mas absolutamente em nada mudou de princípios. Estes grandes anos de modelação determinaram o que lhe é característico e vital. A primeira Conferência Metodista reuniu-se aos 25 de Junho de 1744. Era composta de somente dez homens. Nas Atas se descreve a “Sociedade e seus Oficiais” de uma maneira que, com certas mudanças de nomes, serviria de descrição do Metodismo Contemporâneo.

O segredo da evolução tão ligeira, definida e simétrica do Metodismo, em tão curto espaço de tempo, acha-se principalmente no próprio João Wesley; e é interessante quanta aptidão está no seu inconsciente gênio natural, bem como da aptidão que provém da sua igualmente inconsciente educação e preparo para o trabalho de construtor eclesiástico.

Estes cinco grandes anos de modelação, em primeiro lugar, encontraram a Wesley no apogeu de sua energia e forças. Cobrem os melhores anos de sua vida, digamos, desde os trinta e seis até os quarenta e um. Todas as experiências, aparentemente desperdiçadas, na sua carreira anterior, tornaram-se úteis e aproveitáveis. O seu preparo em conhecimentos foi notavelmente largo. A disciplina do lar piedoso, da grande escola e da antiga universidade foi aumentada pelas experiências na nova colônia da América, e pelo ensino dos Colonos Moravianos na Alemanha.

Notamos já que Wesley passara por todas as fases possíveis na experiência religiosa. Era familiar de todas as escolas de pensamento religioso. Conhecia o Protestantismo em suas grandes formas – o Anglicano e o Alemão. Era realmente familiar com todas as escolas teológicas e com toda a variedade de costumes eclesiásticos. Conhecia os homens, os livros, as igrejas e a história. Não havia desenvolvimento na natureza humana, nem volta na política eclesiástica que o tomaria de surpresa.

A têmpera (o temperamento) de Wesley, bem como a educação, o ajudava. Não era de tipo francês, mas inglês. Pouco se importava com as teorias, mas muito com os fatos. Sempre queria ser mais sábio hoje do que ontem. Tratava das dificuldades ao passo que vinham surgindo, e só então. Possuía muitos preconceitos e eram da espécie mais robusta; mas conservava um preconceito unicamente enquanto concordasse com os fatos.

Este aspecto de seu caráter acha exemplificação quase divertida no modo em que tratou com, o que era para ele, o fenômeno alarmante da pregação leiga. Ouviu em Bristol que o auxiliar, Maxfield, transpusera os “limites místicos” que separam entre a exortação e o sermão, e já contamos a história de Wesley, andando a galope a Londres para apagar as primeiras faíscas daquilo que poderia fazer-se em conflagração. O calmo olhar e as palavras meigas de sua mãe o faziam refletir. Ela fez o único apelo que, para a razão e a consciência de Wesley, era irresistível. Afinal, este fenômeno novo e alarmante deve ser julgado pela pergunta: “Deus se serve dele?”

Wesley olha diretamente aos fatos; estes se acham em conflito flagrante com os hábitos mentais de toda a sua vida anterior, e com a mais obstinada de todas as formas de preconceito humano, a do eclesiástico. Mas os fatos são mui claros. Deus manifestamente abençoa a pregação deste leigo e Wesley logo deixa de lado sua oposição à pregação pelos leigos. “É o Senhor”, diz ele, “faça Ele o que entender”. E foi deste modo que deu ao Metodismo um dos segredos principais de sua força, a participação dos leigos ao lado dos ministros no trabalho de pregação.

Não obstante a sua ousadia e entusiasmo, Wesley não possuía vestígio algum do desprezo de prudência que se nota no fanático. Tem havido poucos que lhe sobrepujassem na sabia adaptação dos meios aos fins. Na primeira Conferência Metodista em 1744, se discutia, o que se pode chamar, toda a estratégia do Avivamento. Fazia-se a pergunta: “Qual é a melhor maneira de estender o Evangelho?”. A resposta é: “Alargando-se pouco a pouco de Londres, Bristol, S.Ives, New Castle ou de qualquer outra sociedade, de modo que um pouco de fermento se estenda com mais resultado e menos ruído, estando sempre perto o socorro preciso”. Aqui fala o gênio prático do verdadeiro líder de homens! É claro que Wesley teria sido um grande soldado. Em termos militares, ele conservou-se em “comunicação com a sua base”. Não somente “invadia” um distrito qualquer; mas “tomava posse” e ali se “estabelecia”.

E não somente pela educação e pela inclinação prática do seu gênio, mas também pela natureza de suas crenças, Wesley, nesta época, foi admiravelmente preparado para a formação de uma nova Igreja. Na sua maioria os Cristãos têm uma crença fácil e descuidada que o Espírito Santo antigamente residia na Igreja e formava a sua história; mas o acréscimo inexpressivo a esta crença é que EIe não a habita mais. Os seus ofícios graciosos são distantes XIX séculos! Mas Wesley acreditava, com uma certeza entusiástica que o Espírito Santo estava no mundo do seu tempo, e que inspirava e dirigia no desenvolvimento da Igreja ao seu redor. A crença que os ofícios do Espírito não somente pertencem à historia, mas à biologia, é poderosa e frutífera, levando consigo conseqüências formidáveis; e é muito mais rara do que se costuma imaginar.

“Antiguidade” é palavra de autoridade quase irresistível a muita gente boa, mas não descobrem a antiguidade onde devem. No verdadeiro sentido a antiguidade está nos cercando! A Igreja de 1744, quando Wesley imprimiu a sua personalidade sobre a história religiosa, estava quase XVIII séculos mais velha do que a Igreja dos dias apostólicos; e a não ser que a educação por Deus ministrada à Sua Igreja tivesse falhado por completo, devia possuir uma iluminação mais rica, e devia achar-se mais perto do ideal divino. Certamente não se deve esperar que os ofícios do Espírito Santo na Igreja de hoje sejam mais escassos, mas mais amplos do que no primeiro século. E Wesley soube discernir os movimentos desse Espírito Divino nos acontecimentos ao seu redor, e nas experiências de seus conversos, nas forças descomunais que atraiam tão vastas multidões à pregação, e nas ondas de emoção que sobre elas rolavam. Ele também reconheceu a direção do Espírito Santo nos traços indistintos que dificilmente se viam na grande instituição – se era Sociedade ou Igreja, Wesley mesmo quase não sabia – tomando forma a seu redor.

Se contemplamos o movimento da história humana, claro é que muitas feições da obra de Wesley foram determinadas por forças fora de si mesmo, e que não representam a sua escolha, senão a imperativa compulsão dos acontecimentos. Por exemplo, foi a necessidade que o fez pregador ao ar livre. As igrejas estavam-lhe fechadas; não achava púlpito senão o campo aberto, o canto da rua, o túmulo de seu pai.

Repetidas vezes se vê o quanto a pregação ao ar livre feria os preconceitos eclesiásticos de Wesley e as suas suscetibilidades de douto. Ele pergunta a seus irmãos clérigos, que lhes poderia induzir a enfrentar os incômodos e perigos deste serviço descomunal:
"Quem entre vós, diz ele, está pronto (examinai bem os vossos corações!) mesmo, a tal preço, para salvar almas da morte? Antes não deixaríeis que mil almas perecessem, do que tentaríeis ser instrumentos em salvá-las assim? Podeis suportar o sol do verão sobre as vossas cabeças? Podeis agüentar a chuva e o vento do inverno, venham donde vierem? Sois capazes de expor-vos ao ar livre sem coberta e sem defesa, quando Deus espalha a neve como lã, e a geada come cinza? Entretanto é este o menor dos incômodos que atendem a pregação ao ar livre. Pois além de tudo isto está a contradição de pecadores, a mofa dos grandes, do povo e dos miseráveis; o desprezo e o vitupério de toda a sorte – freqüentemente mais do que afrontas verbais – a violência estúpida e brutal, às vezes pondo em perigo a saúde, o corpo e até a vida. Irmãos, estais nos invejando estas honras? Quero saber que compensação vos induziria a fazer-vos pregadores ao ar livre? Ou, que julgais, poderia induzir qualquer homem de bom senso a continuar com este serviço por um ano, a não ser que tenha a plena convicção em si mesmo de que seja a vontade de Deus a seu respeito? Com esta convicção nós agora fazemos para o bem das almas aquilo que vós não podeis nem quereis, nem ousais fazer “. (Southey, vol. I. pág. 292).

Do mesmo modo, pela mera compulsão de acontecimentos, Wesley tornou-se pregador itinerante, ainda que a maioria de seus hábitos, todas as suas prevenções, e alguns de seus mais arraigados instintos naturais fossem opostos. Havia no próprio sangue de Wesley um gosto de monge pela solidão, e se pelos acidentes de nascimento e educação tivesse sido Católico Romano, é certo que, pelo menos numa época de sua carreira, ele teria se refugiado numa cela (num mosteiro). Quando os irmãos voltaram da América, Carlos escreveu que “eles estavam resolvidos a retirar-se do mundo de uma vez, sendo aborrecidos do ruído, da pressa e da fadiga”. Tudo que eles pediam deste lado da eternidade era a solidão. “Nada queremos, nem esperamos cousa alguma deste mundo”. Whitefield insistiu fortemente que Carlos Wesley aceitasse um pastorado colegiaI.

Terem se tornado dois errantes eclesiásticos, correndo de vila em vila, e pregando a uma sucessão infinda de multidões acidentais, seria a última cousa que os irmãos sonhariam fazer. Wesley diz: “Repetidas vezes sentimo-nos como que arrastados a pregar num e noutro lugar e assim levados, sem sabermos como, sem qualquer outro propósito senão o principal, o de salvar almas, para uma situação que se nos fosse mencionada no começo, teria nos parecido muito pior do que a morte”.

Em suma, João Wesley foi um itinerante malgré lui. Havia, sem dúvida, grandes precedentes históricos pelo ministério itinerante, desde os primeiros bispos saxões até as ordens mendicantes da Igreja Romana e os capelães de Eduardo VI – entre os quais figura João Knox. No tempo de Cromwell o projeto de fazer todos os párocos da Inglaterra itinerantes fora vencido, no que se chama, “o pequeno parlamento”, por dois votos apenas. Entretanto, Wesley não foi movido a constituir um ministério itinerante por qualquer respeito a precedentes antigos, mas pelas necessidades reais do trabalho que empreendera.

Mas estas duas feições do trabalho – a pregação ao ar livre e a natureza itinerante do seu ministério – determinaram muitas outras cousas. Por exemplo, determinaram a questão geral da relação de Wesley com as ordens eclesiásticas. Por essas ordens ele fora, e ainda era mui zeloso; mas estava aprendendo lentamente, que havia causas mais preciosas e urgentes do que os meros costumes e práticas eclesiásticas. Por exemplo, a Inglaterra era dividida em paróquias; mas seria que as linhas indistintas, da demarcação eclesiástica, traçadas por mãos humanas, e encerrando direitos imaginários, haviam de por barreira, ao trabalho que Wesley começara? Eram quais teias de aranha no rumo de um tremor de terra! E muitas teias semelhantes do eclesiasticismo tinham de ser varridas para dar lugar à nova vida religiosa que começava agitar a Grã-Bretanha.

Wesley foi notavelmente ligeiro em aproveitar cada sugestão que os acontecimentos lhe ofereciam. Nunca corria adiante da Providência, e não andava muito atrás. A sua inteligência ativa, enquanto ele trabalhava, revirava toda a história, o seu largo saber, descobrindo auxílios, analogias e direção por toda a parte. Assim, quando a mais característica de todas as instituições Metodistas, a reunião de classe, surgiu de repente, como por acontecimento feliz, Wesley lhe reconheceu o valor e as possibilidades; mas também reconheceu as analogias históricas da instituição. Não foi simplesmente “a cousa desejada”, segundo as palavras de Wesley, que a Igreja precisava nesse momento; mas foi o reaparecimento, sob forma moderna, da comunhão que já existira na Igreja Apostólica (a Igreja chamada Primitiva descrita, por exemplo, no livro de Atos dos Apóstolos).

Em suma, quem estuda o gênio, a educação e as crenças de João Wesley não tem como não admirar que, em período tão curto, e aparentemente sem idéia da magnitude da obra que fazia, ele determinasse – e determinasse para sempre – as características da grande Igreja que traz o seu o nome.

Para o equipamento de uma Igreja, é necessário alistar grandes forças e formar grandes planos. Contemplado como igreja em processo de evolução o Metodismo precisava de uma teologia, de uma filosofia e de uma disciplina; e sem ter-se marcado formalmente a tarefa especial, Wesley se dedicou ao empreendimento.

Achou a sua teologia na Bíblia, a sua filosofia na concordância dos fatos bíblicos com o caráter humano, e sua disciplina na aplicação do bom senso aos fatos então atuais do movimento. Herbert Spencer define a ciência como «o saber organizado”. Por analogia, uma Igreja como Wesley a via e planejava, pode ser definida como a religião organizada.
______________________________________________________________
** (Esse texto corresponde ao capítulo I, "Wesley como construtor eclesiástico", do livro Wesley e seu século – um estudo de forças espirituais, volume II, respectivamente nas páginas 5 a 16, Edição de 1916 publicada pela Typographia de Carlos Echenique, Porto Alegre, RJ).

OBS: Esse livro originalmente não usa parênteses. As notas explicativas dentro de parênteses são de iniciativa dessa edição on line do site da Igreja Metodista de Vila Isabel).


Voltar


 

Copyright 2006® todos os direitos reservados.