IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
Fundada em 15 de Junho de 1902

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Metodismo
Rio, 15/7/2009
 

O rompimento de Joćo Wesley com os Moravianos ** (Rev. W. H. Fitchett)

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O primeiro equipamento de uma Igreja é a sua teologia. Ela representa uma interpretação do Cristianismo, e a sua teologia, por seu acento e perspectiva, dá expressão a essa interpretação. E pode-se dizer, em termos gerais, que, a diferença entre as teologias das varias Igrejas Cristãs, é principalmente, uma de acentuação, e de ponto de vista.

A teologia da Igreja Metodista se formou decisivamente em três grandes controvérsias que surgiram logo em seus primeiros anos. O estudante da história do trabalho de João Wesley logo verá que no seu início havia a certeza dessas controvérsias.

Wesley era filho devoto da Igreja Anglicana, ordenado a seu ministério, um crente convicto de suas doutrinas, e amava apaixonadamente seu ritual; mas devia aos Moravianos a sua vida espiritual. Whitefield era seu camarada mais íntimo, e, em certos ramos do trabalho, o seu guia. E em cada uma dessas relações estava escondida uma discórdia latente e profunda que forçosamente havia de se manifestar em controvérsia aberta.

Pela necessidade do seu gênio, e pelo selo que o caráter forte de Wesley lhe imprimiu, era certo que o Metodismo tomaria o tipo inglês, e não o alemão. Não podia ser uma Igreja de místicos e sonhadores. Pulsava-lhe no próprio sangue a energia de uma moralidade prática. Cedo ou tarde, portanto, tinha de romper com os Moravianos e seu misticismo, seu quietismo sonhador (de cultivo de uma espiritualidade mística segundo a qual a perfeição moral consiste na anulação da vontade, na indiferença absoluta e na união contemplativa com Deus), que se deslizava para a forma mais mortífera do Antinomianismo (doutrina que afirmava ser unicamente a fé – mesmo a fé totalmente descompromissada com as boas e atos concretos de amor ao próximo – a única condição de salvação, contrariando Tiago 2:26).

Também, Whitefield era Calvinista complacente e até exultante. Segundo as próprias palavras dele, a doutrina que Cristo não morreu por todos, “era o pão dos filhos“, que não lançaria aos cachorrinhos. Mas Wesley era Arminiano convicto e inteligente. A sua teologia neste ponto, fora determinada pelo bom senso e penetração espiritual de sua mãe. Era, para ele a primeira de todas as certezas, que todos os homens se acham incluídos nos limites do grande amor de Deus Pai e do propósito redentor de Cristo. Não tinha evangelho algum para si mesmo, nem para outro qualquer, se isto não fosse a verdade. A teologia de Metodismo havia de ser Calvinista ou Arminianista? Tinha de se resolver esta grande questão, e a discórdia entre os dois grandes camaradas, sobre este ponto, tornou inevitável a extensa controvérsia.

Também a Igreja Anglicana daquele tempo tinha se esquecido dos elementos espirituais do Cristianismo. Ela prezava mais as formas do que fatos. Resolvia a religião em simples sistema de ética humana sem qualquer força divina para sustentá-lo. Estava contente em ser uma Igreja de uma minoria abastada, mas diminuta. O clero cuidava muito das poucas ovelhas dentro do curral episcopal, e, também, muito da lã que traziam; mas tinham se esquecido das ovelhas no deserto. Todos os elementos mais divinos do Cristianismo – a sua compaixão pelos perdidos, e a sua fé exultante do sobrenatural tinham perecido. Como havia de se reconciliar extremos tão grandes? Como se podia reter o vinho forte e novo do Metodismo em odres tão secos e rotos?

Em suma, o Metodismo havia de ser do tipo inglês ou alemão? Arminiano ou Calvinista em teologia? Um mero sistema de moral decorosa ou religião viva, na qual se agitavam apaixonadamente as pulsações de uma vida sobrenatural? Sobre estes pontos era inevitável a controvérsia.

A desavença com os Moravianos foi uma luta entre a religião que se exprimia por uma moralidade enérgica e a mesma religião adormecida com narcóticos mais fortes e piores do que papoulas.

O longo debate com Whitefield foi um conflito entre duas interpretações irreconciliáveis do evangelho de Cristo.

A controvérsia com a Igreja Anglicana foi a luta de fogo com o gelo: significava afirmar que fatos espirituais são mais importantes do que formas eclesiásticas, que a religião não é uma mera forma de policiamento social, nem sistema daquilo que se pode chamar “moral chinesa”; antes era uma peleja pela interpretação espiritual do Cristianismo.

Quanto a Wesley mesmo, ele não olhou longe; contentava-se em fazer o trabalho de cada dia, a seu tempo, sem nunca se incomodar com os problemas do dia da manhã. Talvez não tivesse idéia clara das discórdias fundamentais que jaziam escondidas nas relações com os que o rodeavam, nem da teologia que esperava formulação na controvérsia. De modo que ficou, todo inconsciente, à beira de disputas inevitáveis; discussões com a Igreja de sua infância, com os guias que o trouxeram a Cristo e com o seu mais íntimo camarada no trabalho em que se achava empenhado. Estas controvérsias, como havemos de ver, determinaram para o Metodismo a têmpera da sua moral, a cor de sua teologia e a forma de sua ordem eclesiástica.

Em Outubro de 1739 chegou a Londres em caminho para Pensilvânia, o ministro Moraviano, Phi¬lippe Henrique Molther. Era homem de muitos dons e de intensa – se bem que estreita – piedade. E a sociedade em Fetter Lane – o centro comum do novo movimento espiritual – colocou-se logo sob a sua influência. Ele permaneceu em Londres até setembro do ano seguinte, e durante aqueles breves meses o Metodismo e o Moravianismo se separaram para sempre.

No gênio de Molther havia um fio de fundo místico. A sua visão da verdade evangélica era intensa, mas estreita, e até torcida. Freqüentemente a verdade é de uma escala grande demais para o pequeno horizonte da visão humana; e existe grande perigo numa verdade parcial. A própria heresia é freqüentemente a verdade vista de um só lado, ou então vista em perspectiva falsa. Os erros de Molther só indicam a falta de uma teologia equilibrada; mas os resultados práticos eram crassos e até mortíferos. Ele ensinava que Cristo, para o crente, é tudo; “o resto nada vale”. E no catálogo das cousas consideradas como nada – como sendo irrelevantes, e mais até – estavam os deveres comuns da moral Cristã, e os atos mais simples do culto Cristão.

Molther ensinou que não havia qualquer graduação em fé. Quem não tivesse fé perfeita não possuía fé alguma. O único dever do homem falto de fé era “ficar quieto”, sem fazer nada. Para ele, os meios de graça seriam estorvos para não dizer pecados. O descrente, ou quem não tivesse um coração puro, não deve usá-los de forma alguma; nem deve orar, nem examinar as Escrituras, nem comungar, mas “ficar quieto”; e assim com toda a certeza receberá a fé; que, enquanto não estiver quieto, não pode ter. (Diário - 22 de Junho de 1740).

No “silêncio”, o incrédulo tinha de esperar a entrada de Cristo na alma, não devia assistir na igreja, nem ler as Escrituras, nem se servir de oração particular, nem tentar fazer qualquer bem, quer material quer espiritual. Numa palavra, a alma devia permanecer numa inércia espiritual, imposta a si mesma, até que Cristo viesse salvá-la.

Sob essa teoria, todas as ordenanças cristãs perdiam a sua obrigação e a própria utilidade. Os que não possuíssem a fé não deviam usá-las; os que a possuíssem não as precisavam. Para os que estivessem fora da família espiritual, serviam de estorvo; para os de dentro eram impertinências.

É claro que esta doutrina, há um tempo, guerreia tanto o bom senso como as leis elementares da moralidade. A doutrina, como exposta pelo próprio Molther, e pelo grupo de místicos que o acompanhavam nesse tempo, talvez não produzisse qualquer quebra na moralidade prática; mas quando filtrada por inteligências de fibra mais crassa – e por corpos de apetites mais fortes – o risco moral de tal ensino seria inevitável e tremendo. De fato, o ensino de Molther produziu logo dano manifesto; perturbou a paz das Sociedades Metodistas. Carlos Wesley, descrevendo o efeito da nova teologia sobre os que a aceitavam, disse: “Preguiçosos e orgulhosos em si mesmos, ásperos e intolerantes para com os outros, pisam por cima das ordenanças e desprezam os mandamentos de Cristo”.

João Wesley voltou pressurosamente a Bristol a fim de obstar o curso deste mal. Achou a Sociedade dali cheia de porfia a confusão – os membros, em grande número, estavam tão perplexos que se achavam completamente desnorteados. Ele diz: “Fiquei de tudo perplexo quanto ao curso que eu devia seguir, não achando descanso algum para a planta do meu pé. Estas vãs discussões me perseguiam onde quer que eu fosse, e estavam a me soar aos ouvidos por toda a parte." Descreve no seu Diário a mudança prejudicial que Molther e seus ensinos haviam já operado nas reuniões em Fetter-Lane.

"A nossa Sociedade” diz ele, “reuniu-se às sete da manhã e continuou em silêncio até às oito.” Em outro lugar ele nota: “às oito a nossa Sociedade reuniu-se em Fetter-Lane. Permanecemos sem falar durante uma hora, o resto do tempo passou-se em disputas.” Outra vez escreve: “à noite a nossa sociedade reuniu-se, mas estava fria, cansada, desanimada, morta. Não achei vestígio algum do amor fraterno entre eles, mas um espírito áspero, seco, pesado e estúpido. Por duas horas contemplavam uns aos outros, isto é, quando se dignavam de levantar o olhar, como se uns tivessem medo dos outros.”

É quase divertido notar como João Wesley repugna o ser chamado das altas planícies do serviço espiritual, em que se achava empenhado, para tomar parte nesta triste controvérsia. E a heresia Moraviana chocou-se com o seu bom senso, pela pretendida espiritualidade superior. Voava em regiões elevadas demais para ele. Wesley escreve no seu Diário.
"A minha alma está enojada desta teologia sublime. Desejo pensar e falar como criancinha! Que a minha religião seja modesta, simples e sem arte alguma! Que sejam os meus mais preciosos talentos a mansidão, a temperança, a paciência, a fé e o amor; e as palavras mais sublimes que eu empregue em ensinar, sejam as que aprendo no Livro de Deus!“

Com a sua franqueza característica, João Wesley foi discutir com o próprio Molther os seus ensinos. Traduziu-lhe as idéias vagas e confusas para o inglês claro, na esperança que a natureza delas assustaria tanto a Molther como a seus seguidores, mas tudo era vão. É bem divertida a narração que Wesley faz da entrevista. Ele diz: “Ponderei todas as suas palavras com o maior cuidado, pedindo que me explicasse aquilo que eu não compreendesse. Perguntei freqüentemente: “Não estou enganado quanto a vossas afirmações? É isto o que quereis dizer ou não?” De modo que, se Deus tem me dado qualquer grão de entendimento, julgo que não poderia ter-me enganado muito quanto a seu ensino”.

No fim da entrevista Wesley escreveu o que se passara entre eles nas palavras mais claras, mas o processo todo foi como se alguém quisesse persuadir a um espírito a tornar-se carne e sangue.

Wesley pregou aos membros da Sociedade cada noite durante uma semana, mas os ouvintes estavam na condição em que o raciocínio não influi cousa alguma e a controvérsia somente endurece. Disseram-lhe abruptamente que estava pregando as obras da lei, que, como crentes, não eram mais obrigados a obedecer do que os súditos da Inglaterra são obrigados a obedecer às leis da França.

Um deles lhe disse quando ele explicava as Escrituras em público, que tanta gente ia ao inferno pelo orar como pelo furtar. Outro disse: “Perdestes o teu primeiro gozo; portanto, orais; é o Diabo. Ledes a Biblia; é o Diabo. Tomais a comunhão; é o Diabo”.

Finalmente, Wesley levou o negócio a uma culminação. O tratado espúrio de Dioníso, o Areopagita, era livro predileto entre os Moravianos. Corno diz o próprio Wesley, o livro “está cheio da super-essência das trevas, uma massa efervescente do caos da imbecilidade mística”. Wesley levou-o consigo para a Sociedade na noite de 16 de Julho de 1740, e leu dele alguns trechos mortíferos. Eis em seguida uma das passagens sobre a qual ele desafia a pequena reunião:
“São boas as Escrituras; é boa a oração: comungar é bom; é bom socorrer ao próximo; mas para o que não é nascido de Deus, nada disso é bom, mas tudo é muito mal. Para ele o ler as Escrituras, orar, comungar fazer qualquer outra obra exterior é veneno mortal. Primeiro, que seja nascido de Deus. Antes disso, que nada faça de todas estas, cousas; porque quem as fizer, se destruirá”.

Depois de ler este trecho duas ou três vezes, tão distintamente quanto me fosse possível”, diz ele, eu perguntei: “É verdade isto, meus irmãos, ou é falso?"
O Sr. Bell logo respondeu: "É verdade; a verdade certa. É muito certo. Temos todos de chegar, de outra forma, nunca chegaremos a Cristo”.
O Sr. Bray disse: "Creio que o nosso irmão Bell não ouviu bem o que lestes, ou pelo menos não o compreendeu devidamente”.
Mas o Sr. Bell respondeu secamente: "Sim, ouvi cada palavra e compreendo perfeitamente. Eu digo, que é a verdade; é a pura verdade; a verdade íntima”.

Logo chegou a crise do negócio, pois a doutrina repugnava tanto à consciência como ao bom senso de Wesley. Ao próprio Wesley não se lhe permitiu mais pregar em Fetter Lane. Disseram-lhe: “Este lugar está tomado para os alemães. Havia já obtido posse da Foundry – uma grande oficina, já abandonada, de Moorfields – e havia começado celebrar serviços ali. Tocado de Fetter-Lane, ele assim possuía um novo centro.

Na noite de Domingo, 20 de Julho daquele 1740, Wesley assistiu a Festa de Caridade em Fetter-Lane, e leu um discurso breve em que ele recitou as razões e a história das dissensões. O documento terminou:
“Afirmastes muitas vezes que examinar as Escrituras, orar, ou comungar, antes de ter-se essa fé, equivale buscar a salvação pelas obras; e que enquanto, tais obras não forem postas de lado, homem algum poderá receber a fé”.“Creio que estas asserções são flagrantemente contrárias à Palavra de Deus. Eu vos tenho advertido repetidas vezes, tenho vos exortado a voltarem para “a lei e o testemunho”. Tenho vos suportado por muito tempo, na esperança de que vos arrependeríeis. Mas como vos acho mais e mais confirmados no erro dos vossos caminhos, não me resta mais nada a fazer, senão entregar-vos a Deus. Peço que, aqueles que entre vós estiverem de acordo com o meu parecer, que me sigam”. (Diário, 20 de Julho de 1740)

Wesley diz: “eu então, sem dizer mais coisa alguma, retirei-me, e assim fizeram dezoito ou dez e nove da sociedade”.

Segundo os próprios Moravianos, o efeito dramático da retirada de João Wesley do edifício foi burlado por um pequeno, se bem que esperto logro. Quando os assistentes entraram no salão, puseram os chapéus todos juntos num canto sobre o chão; mas o chapéu de Wesley fora propositalmente removido do lugar. Quando concluíra o seu discurso e convidara a todos de acordo consigo que o seguissem, atravessou o salão, mas não achava o chapéu! A pausa e a busca que seguiu apagou a impressão de sua retirada, e como diz Southey: ”O astuto Molther e seus seguidores tiveram tempo para reter a muitos que de outra forma teriam sido levados atrás dele.”

Zinzendorf (o conde alemão que liderava o movimento moraviano) enviou outro representante mais sábio, Spangenberg, para conferenciar com o Wesley, e servir de mediador entre os partidos separados. Spangenberg decidiu que Molther e seus seguidores eram culpados, e que trataram a Wesley injustamente; mas isto não pôs termo à controvérsia. Pedro Bohler (que aconselhou e ajudou João Wesley a ter a sua experiência de fé, acontecida em 24 de maio de 1738), também foi enviado (da América, onde estava como missionário) a Londres para endireitar o negócio. Era homem de confiança, e calculava-se que as obrigações que Wesley lhe devia pessoalmente haviam de mais que contrabalançar todas as considerações contrárias. E ainda subsistia muito do encanto e da influência de Bohler sobre Wesley.

Depois de uma entrevista com Bolher, Wesley escreveu: “Admiro-me que ainda eu deixe de unir-me a estes homens. Apenas eu veja qualquer deles que meu coração me arde no intimo. Tenho deles saudades, entretanto, estou separado deles”.

Mas no tocante a moralidade prática, remota que fosse a relação, Wesley era inexorável, e o fundo da doutrina Moraviana, como Molther havia a envenenado, e como então se fermentava entre as Sociedades de Wesley, brigava com a moralidade. Wesley escreveu a seu irmão Samuel (pastor anglicano que não seguia as idéias de Carlos e João Wesley), cujo constante bom senso não obstante as largas diferenças em teologia tinham grande peso com o irmão menor.

“Até aqui não ouso, de forma alguma, me unir com os Moravianos; porque o seu sistema, em geral, é místico, não escriturístico; refinado em tudo acima de que está escrito, infinitamente além do simples Evangelho; porque há mistificação e segredos em todas as suas maneiras, e dolo em quase todas as suas palavras, porque não somente deixam de praticar, mas completamente desprezam e rejeitam a abnegação e a cruz diária. Principalmente, por estas razões, quero antes, Deus me ajudando, ficar inteiramente sozinho do que me unir com eles.”

Afinal, o próprio Zinzendorf veio à Inglaterra. Estava em jogo a questão, se o Moravianismo havia-se de enraizar na Inglaterra, e Zinzendorf se achava ansioso. Wesley teve com ele uma conversa memorável – não sob qualquer teto, mas nos passeios da Taverna-Gray – nesse tempo uma pequena quadra de verde no meio do pó e ruído das ruas de Londres.

Passeavam para cá e para lá – dois notáveis, o alto nobre Alemão e o catito (elegante) teólogo Anglicano. Conversavam em latim, e está registrado em latim no Diário de Wesley. Zinzendorf começou: “Por que mudastes de religião?” É de se ver que Wesley negaria que tal se fizesse. A conversa vagou por todo o domínio da teologia; mas a diferença entre os dois era fundamental:

“Zinzendorf disse: ”Vós afirmastes, em vossa carta, que os verdadeiros cristãos não são pecadores miseráveis; e isto é muito falso; porque os melhores entre os homens são pecadores misérrimos, até morrerem. Os que ensinam o contrário são impostores em absoluto, ou estão sob uma ilusão diabólica”. Em outra ocasião ele perguntou: “Que é a perfeição Cristã? É imputada – não inerente. Nunca somos perfeitos em nós mesmos”. Então prosseguiu: "Rejeitamos toda a abnegação própria; pisamo-la. Na fé, fazemos aquilo que desejamos e nada mais. Nós nos rimos de toda a mortificação; purificação alguma precede o amor perfeito”. (Southey, voI.1 pág. 220.)

Aos ouvidos de Wesley tais palavras eram teimosas, extravagantes e perigosas! A conversa deixou a brecha entre Wesley e os moravianos tão larga como sempre, e mais tarde Wesley formula e registra as diferenças fundamentais que separam o Metodismo do Moravianismo, e que têm de separá-los sempre, e mais tarde Wesley formula e registra as diferenças fundamentais que separa o Metodismo do Moravianismo, e que têm de separá-los sempre.

Zinzendorf respondeu por anúncios nos jornais, declarando que ele e seu povo não tinham conexão alguma com João e Carlos Wesley. Assim findou-se uma comunhão melhor do que aquela do Rei Arthur e os Cavalheiros da Mesa Redonda.

Deste rompimento os historiadores e críticos de Metodismo oferecem muitas explicações curiosas e até absurdas. Southey culpa a ambição de Wesley com a controvérsia. Ele diz: “João Wesley nunca poderia ter sido mais do que um membro da Igreja Moraviana; o primeiro lugar estava ocupado, e ele não nasceu para segundo lugar.” Coleridge diz que a verdadeira razão da dissensão acha-se na diferença de gênio entre os Ingleses e os Alemães. Em outro lugar diz que Zinzendorf era um metafísico sem lógica, e Wesley foi um lógico sem metafísica; dai sua dissensão irreconciliável. Ainda mais tarde – e com a inconsistência verdadeiramente “coloridgeana” – ele descobre a mais negra impiedade no espírito de Wesley durante, todo o negócio, e ataca seu amigo Southey por ter tratado a Wesley com demais urbanidade:
“Roberto Southey, diz ele, é historiador que vale o seu peso em diamantes, e se ele fosse (que o céu lhe defenda) tão gordo como eu e os diamantes tão grandes como ovos, ainda sustentaria a minha avaliação. Mas aqui, estou vexado com ele por não empregar palavras mais fortes e apaixonadas de reprovação moral desta mancha negra no coração e caráter de Wesley”.

Mas a causa da dissensão estava mais funda do que qualquer diferença de gênios entre Ingleses e Alemães, ou nos característicos de Wesley e de Zinzendorf. Realmente o ensino de Molther era aberração da doutrina Moraviana. Em última análise, declarava que a religião nada tem com a moralidade. E é por certo doutrina esquisita e temível!

Uma meia-verdade constitui muitas vezes uma heresia completa e Molther desencaminhou-se porque via a verdade somente em fragmentos, ou com perspectiva falsa. Em certo sentido, o Cristianismo muda a ordem ética. Dá à obediência um novo lugar, e lhe fornece novos motivos. A alma perdoada obedece porque é perdoada, e pelos motivos que o perdão gera. Mas Molther estava tão ansioso de sustentar que o perdão não se compra pela obediência, que se esqueceu de asseverar que obedecemos, e que devemos obedecer, sob a inspiração desse perdão.

O mal da doutrina de Molther manifestou-se logo, e por muito tempo perdurou. Envenenou o ensino de muitos dos auxiliares de João Wesley. Ensinou-Ihes o que Wesley chama “um estilo suave de pregar”. Ele diz: “Estes alimentam o seu povo com doces”. Falavam muito das promessas e pouco dos mandamentos. Outra vez, diz: “O que se chama vulgarmente de Sermões Evangélicos, tornou-se agora em frase cantada; eu desejaria que ninguém a empregasse em nossas Sociedades. Mal apareça um animal orgulhoso e ousado, que não possui nem juízo nem graça; berrando algo acerca de Cristo, ou de seu sangue, ou da justificação pela fé, e seus ouvintes clamam, Que lindo sermão evangélico, é certo que os Metodistas não aprenderam assim de Cristo”.

O fermento de Antinomianismo em tais ensinos produziu como foi inevitável – terrível forma de imoralidade, entre as quais se acha o caso notório de Wheatley, um dos auxiliares de Wesley, que corrompeu uma cidade inteira. Só temos de recordar a história dos Irmãos e Irmãs do Espírito Livre no século XIV, e dos Anabatistas de Munster, do século XVI, e a das Novas Luzes, na Inglaterra, nos últimos dias de Cromwell, para entendermos o perigo que pairava sobre o trabalho de Wesley nesta época.

O Diário de Wesley dá muitos exemplos do mal mortal que lavrava entre os seus conversos. Assim em Abril de 1746, em Birmingham, ele nos conta como um homem foi até ele “e me contemplando por cima do ombro, disse: “Não penseis que eu desejaria estar na vossa Sociedade, mas se quereis falar comigo, podereis!” Depois de alguma conversa, Wesley perguntou-lhe: ”Credes que não tendes nada que fazer com a lei de Deus?"
Homem: “Não tenho; não estou debaixo da lei; vivo pela fé”.
Wesley: “Tendes, em virtude da vida pela fé direito a gozar tudo que há no mundo?”
Homem: “Tenho: tudo é meu desde que Cristo seja meu.”
Wesley: “Podeis, então tirar o que quiseres, donde quiserdes, duma loja, suponhamos, sem o consentimento ou conhecimento do seu dono?”
Homem: “Posso, se eu quiser; pois, é meu; mas não quero fazer escândalo”.
Wesley: “Tendes também direito a todas as mulheres do mundo?”
Homem: “Sim, se elas consentirem”.
Wesley: “E isto não seria pecado?”
Homem: “Sim, para aquele que o julgue como pecado; mas não para aqueles cujos corações são livres.”
Wesley comenta: “Aquele miserável, Roger Ball, afirmou a mesma causa em Dublin. Certamente são os primogênitos de Satanás”.

Sete anos mais tarde, Wesley registra uma conversa que teve, também em Birmingham, com uma mulher que havia caído sob a influência Moraviana:
Ela disse: “Eu nunca faço oração, pois, que havia eu de pedir? Tenho tudo”. Perguntei lhe: “Então, não oreis a favor dos pecadores?” EIa disse: “Não; pois só conheço um. Há só dois no mundo, um é Deus e o outro é o Diabo”. Eu perguntei. “Adão não pecou antigamente; e os adúlteros e assassinos não pecam hoje?” Ela respondeu: ”Não, Adão nunca pecou; e ninguém entre os homens peca agora; só o Diabo peca”.
Wesley: “E ninguém será perdido jamais?
Mulher: “Ninguém jamais.”
Wesley: “Nem o Diabo?”
Mulher: “Não sei ao certo; mas creio que não.”
Wesley: “Recebeis a santa ceia?”
Mulher: “Não; nem quero.”
Wesley: “A palavra de Deus é a vossa regra?”
Mulher: “ Sim; a palavra que se fez carne, mas não a letra. Eu estou no Espírito“.

Wesley acrescenta:
“Indagando, eu soube que estes desregrados entusiastas eram seis em número – quatro homens e duas mulheres. Primeiro, tinham se metido no extremo de Antinomianismo, e depois foram entregues ao espírito de orgulho e blasfêmia”.

Ainda três anos mais tarde – tão perduráveis são as forças do mal! - em 1755, Wesley narra no seu Diário:
“Sexta-feira, 4 de Abril, em Birmingham, lugar estéril, seco e sem conforto. A semente que durante tanto anos tem-se semeado, foi destruída pelos javalis, os Antinomianos blasfemos, brutais, selvagens e imundos tem a destruído por completo. E as raposas místicas têm cuidado em destruir qualquer resto com o seu novo evangelho.”

Tudo isto mostra não somente quão mortífero, mas quão obstinado, era o mal efetuado pelo lapso dos Moravianos para o Antinomianismo.

Fletcher escreveu as suas famosas “Restrições” para combater o veneno que estava se insinuando no mesmo sangue das Sociedades. Estas “Restrições” são inigualáveis na força de sua lógica e na graça de seu estilo literário; mas quem as lê hoje? São quase esquecidas! Mas somente porque o mal que, as tornou necessárias, tem deixado de existir praticamente. O sangue do Cristianismo tem sido purificado do fio de Antinomianismo, e a consciência Cristã em peso tem se posto ao lado de Wesley.

João Wesley, deveras, fez mais do que salvar o seu próprio movimento da ruína e derrota, pela posição resoluta que tomou, nesta fase do seu trabalho. Ajudou a todas as Igrejas e para todo o tempo, em escapar do perigo que ameaçou a moralidade Cristã. E quão diferente teria sido a história religiosa da Inglaterra, se o grande avivamento do século XVIII tivesse sido capturado pelos místicos; se Zinzendorf, e não Wesley, tivesse determinado a sua teologia e sobre ela imprimisse o seu caráter!

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** (Esse texto corresponde ao capítulo II, "O Rompimento com os Moravianos", do livro Wesley e seu século – um estudo de forças espirituais, volume II, respectivamente nas páginas 17 a 29, Edição de 1916 publicada pela Typographia de Carlos Echenique, Porto Alegre, RJ).

OBS: Esse livro originalmente não usa parênteses. As notas explicativas dentro de parênteses são de iniciativa dessa edição on line do site da Igreja Metodista de Vila Isabel).

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