IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 16/7/2009
 

A controvérsia do calvinista George Whitefield e o seu rompimento com João Wesley ** (Rev. W. H. Fitchett)

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George Whitefield, como já vimos, era Calvinista convicto e exultante; crendo apaixonadamente no amor de Deus; entretanto, achava possível crer que esse amor, mais elevado do que se pode imaginar, mais fundo do que se pode sondar, ainda tivesse uma estreiteza misteriosa e trágica. Era indubitavelmente mais estreito do que a raça humana, pois deixava grande parte dessa raça nas trevas exteriores de uma reprovação, sem a iluminação de qualquer raio de misericórdia. A doutrina que Deus não amava a raça inteira e que Cristo não morrera por todos, era, aos olhos de Whitefield, “o pão dos filhos”, algo precioso e nutritivo; e, portanto, lançá-lo fora, deixá-lo sem ser proclamado, seria roubar a família de Cristo (o calvinismo defendia que Deus escolhia uns para serem salvos e deixava os demais morrerem sem salvação; os salvos não perdiam a salvação dada a eles por eleição divina).

Para Wesley tal doutrina significava a negação do Evangelho por completo, deixando-o sem mensagem alguma. Sobre este ponto, havia entre os líderes do grande avivamento, uma brecha (abismo) de crença doutrinal que era funda e insuperável. Entretanto, a grande regra de Wesley quanto às divergências teológicas era, “pensar e deixar que outros pensem”. Não tinha qualquer prova doutrinal para as Sociedades, e certamente não havia de separar-se de um camarada grande e leal como White¬field, que concordava consigo em tantas cousas essenciais, por causa das suas divergências teológicas sobre um ponto de ensino metafísico.

Entretanto a separação em doutrina era mais do que uma simples questão de metafísica; era fundamental. Penetrava até o íntimo do seu credo; levando consigo extensos resultados morais. Cedo ou tarde tinha de causar uma separação do seu trabalho. O simples impulso do polemista, o desejo natural de ganhar conversos e de refutarem oponentes, fazia que o silêncio ou a paz entre ambos fosse impossível como condição permanente.

O rompimento veio do lado de Whitefield. Ele não era lógico. As suas crenças e os seus sentimentos eram guardados em compartimentos diversos; o seu credo era espécie de mosaico formado de fragmentos diversos. Entretanto existem sinais que na sua consciência havia uma inquietação inconfessa. Era também consciente que Wesley possuía maior força intelectual e mais larga soma de conhecimentos do que ele. E o fato que o seu guia natural, o homem a cujos pés ele se sentara durante anos, divergisse tão profundamente dele, sobre ponto tão sério, era para WhitefieId uma inquietação enfadonha, se bem que inconfessa. Não podia deixar que o assunto ficasse somente entre eles; escreveu a Wesley suplicando-lhe que “por esta vez escutasse a uma criança que alegremente Iavar-lhe-ia os pés”.

Dizia Wesley a Whitefield: “Da doutrina da eleição, e da perseverança final dos que estão em Cristo, sou agora dez mil vezes mais convicto – se possível for – do que quando estive convosco recentemente. Pensais de outra forma; porque então, discutirmos quando não há possibilidade alguma de convencer?” (Southey, voI. I pág. 226).

Mas o próprio Whitefield não podia descansar; havia de convencer a Wesley; e da América lhe escreveu:
“Quanto mais examino os escritos dos homens mais experimentados e as experiências dos cristãos mais estabelecidos, tanto mais discordo da vossa negação da doutrina da eleição e perseverança final dos santos. Reluto em voltar à Inglaterra, a não ser que esteja disposto a combater estas verdades (do calvinismo) com menos calor do quando lá estive ultimamente. Reluto com a vossa vinda à América, porque a obra de Deus está sendo promovida aqui e isto da maneira mais gloriosa, por doutrinas inteiramente opostas àquelas que vós tendes. Que Deus me dirija, que eu saiba o que devo fazer. Talvez nunca mais tornarei a ver-vos até nos encontrarmos no Juízo; então, se não antes, sabereis que a graça soberana distinta e irresistível vos trouxe ao céu”.

Tem algo de divertido na resposta clara e calma que Wesley faz ao apelo agitado de Whitefield. Procura acalmar a sua agitação com umas poucas gotas de tinta paciente:
“A situação é muito clara: existem fanáticos tanto a favor da predestinação como contra. Deus está enviando uma mensagem aos dois partidos, mas nem um nem outro a receberá a não ser que seja à boca de alguém que é da sua opinião. Portanto, durante certo tempo, é permitido que vós sejais de uma opinião e eu de outra. Mas quando chegar a sua hora, Deus fará aquilo que os homens não podem – a saber, fará que ambos tenham o mesmo parecer” (Southey, voI. I. pág. 227).

A liberalidade intelectual de Wesley sobre este ponto era, da sua parte, tanto genuína como habitual. Seguiu sempre esta norma, dando prontamente a seus seguidores a mais larga liberdade em discordar dele sobre pontos abstratos, contanto que concordassem no domínio da prática.

Polemistas inferiores, entretanto, se intrometeram, e o seu zelo não estava temperado nem pela prudência nem pela caridade. Um dos principais membros da Sociedade de Londres, chamado Acourt, insistiu em converter a Sociedade em classe de debate sobre o assunto de predestinação, até que CarIos Wesley, no interesse do sossego, deu ordem que ele não fosse mais admitido. Aconteceu que João Wesley estivesse presente quando este teólogo, demasiado zeloso, se apresentou outra vez, e perguntou, se havia de ser expulso somente por estar de opinião diferente. Perguntou-lhe Wesley: “Que opinião?”. Ele respondeu: “A da eleição: Eu sustento que certo número de almas são eleitas desde a eternidade, e que estas necessariamente hão de ser salvas, e que o resto da humanidade forçosamente tem de ser condenado”. E afirmou que muitos na Sociedade pensavam do mesmo modo. Mas Wesley retrucou que, nunca havia indagado se era assim ou não: “Somente que não incomodem os outros com discussões a este respeito”. Acourt respondeu: ”Não, mas eu hei de discuti-lo”. Wesley então lhe inquiriu: ”Por que desejais entrar em nosso meio, sabendo que somos de outro parecer?” Acourt respondeu: “Porque estais todos errados e quero vos endireitar”. “Receio, disse Wesley, que a vossa vinda com esta idéia (da tal discussão) não aproveitaria nem a vós nem a nós”. Então, retrucou Acourt: “Vou contar a todo o mundo que vós e vosso irmão Carlos sois falsos profetas”.

Whitefield por sua vez, continuou a exortar a Wesley a manter um silêncio em seus discursos públicos sobre o assunto em que discordavam, e que o próprio Whitefield não observava.
“Por amor de Cristo” escreveu ele, “se for possível nunca faleis contra a eleição em vossos sermões. Ninguém pode dizer que a tenho mencionado em qualquer discurso público, quaisquer que sejam os meus sentimentos particulares”.

Entretanto, ao mesmo tempo, Whitefield registra no seu Diário a sua resolução, “daqui em diante, falar mais ousada e explicitamente sobre estes assuntos, como devo falar”. É claro que a sua memória lhe traiu quando escreveu Wesley!

Neste meio tempo a compulsão de eventos se tornou demasiado forte para ambos. Certo correspondente acusou a João Wesley de “não pregar o Evangelho”. Pois o Evangelho, segundo este teólogo especial, “nada mais que a doutrina (calvinista) da eleição”. A carta conseguiu perturbar o espírito de Wesley, calmo que era, e, como era seu costume em causas difíceis, consultou a Deus pela sorte. Esta deu como recado: ”Pregai e imprimi”. Portanto, em 1739, pregou e imprimiu o seu sermão imortal sobre a ”Livre Graça”, o terceiro discurso (sermão) de todos que publicou.

Este sermão, entre outras cousas, é a revelação das qualidades reais que João Wesley possuía como pregador. Diante dele, os outros sermões impressos que temos de Wesley são como que “ossos secos” da teologia. Ossos secos sobre os quais o espírito do profeta tem deixado de soprar. São os restos petrificados de sermões, faltos de tecidos vivos; não havendo neles latejo algum de paixão, nem sopro de vida. Mas neste sermão temos João Wesley como Pregador vivo; as suas sentenças ardem com fogo; e em cujas sílabas se sente a pulsação de energia. A lógica e a retórica em muitos aspectos possuem qualidades opostas e incompatíveis. A Lógica toma emprestado a frieza e clareza cristalina do zelo. A retórica toma do fogo o seu calor e clarão. Mas neste sermão Wesley, de algum modo, dá à sua lógica o ímpeto e o fogo da eloqüência, ou antes, ensina a impetuosidade fogosa de sua retórica a furtar da lógica a sua força compacta e ordenada. Lorde Liverpool, que permanecia impassível sob toda a eloqüência incomparável de Pitt e Fax, Burke e Sheridall, declarou que certos trechos do sermão de Wesley sobre a Livre Graça não são sobrepujados em qualquer discurso quer antigo quer moderno.

Eis um exemplo do seu fogo:
“EIa (esta doutrina da leição de uns poucos e da reprovação dos demais) representa o Santíssimo Deus como pior do que o Diabo; como mais falso, mais cruel, e mais injusto. Mais falso porque o Diabo, mentiroso que é, ainda nunca disse que deseja que todos os homens sejam salvos. Mais injusto porque o Diabo, ainda que quisesse, não podia ser culpado de tamanha injustiça como esta que atribuis a Deus, quando dizeis que Deus condenou milhões de almas ao fogo eterno, preparado para o Diabo e os seus anjos, por continuarem em pecado, que por falta da graça que Ele não quer lhes dar; não podem evitar. E mais cruel porque aquele espírito infeliz procura descanso, sem o achar, de modo que a sua própria miséria e inquietação constituem uma espécie de tentação para ele tentar a outros. Mas Deus descansa nas alturas do seu Santuário, e a suposição de que ele, do seu próprio querer, de sua mera vontade e beneplácito, feliz que é, condenaria à miséria interminável as suas criaturas, queiram elas ou não, seria imputar-lhe tamanha crueldade como não podemos imputar ao grande inimigo de Deus e do homem. É representar o Deus Altíssimo – quem tem ouvidos para ouvir, ouça! – como mais cruel mais falso e mais injusto do que o Diabo. Aqui fico em pé. Representais a Deus como pior do que o Diabo.

Mas dizeis, “hei de prová-lo pelas Escrituras”. Esperai! Que provareis pelas Escrituras? Que Deus é pior do que o Diabo? Não pode ser. Seja qual for a doutrina desta passagem, nunca pode ensinar isto; qualquer que seja o seu verdadeiro sentido, é certo que não significa isto. Perguntais: “Qual é o seu verdadeiro significado?” Se digo “não sei”, nada tereis ganhado; pois há muitas passagens cujo verdadeiro sentido nem eu nem vós conheceremos até que a morte seja tragada na vitória. Mas isto sei eu, melhor seria dizer que não tem sentido algum, do que dar-lhe esta interpretação. Qualquer que seja o seu sentido, nunca pode significar que o Deus da Verdade é mentiroso. Seja qual for o seu significado, não pode ensinar que o Juiz de toda a terra é injusto.”

Nesse tempo, também, Whitefield tinha se tornado mais asperamente admonitório (que admoesta, exorta). Diz ele:
“Permiti-me a exortar-vos, com toda a humildade, que não sejais tão rígidos em vos opor à doutrina da eleição e perseverança final, quando, segundo a vossa própria confissão, não tendes em vós o testemunho do Espírito, e conseqüentemente não sois juiz idôneo. Estou certo que Deus tem me outorgado este testemunho vivo na minha alma durante alguns anos já.” (Southey, vol. 1. pág. 228).

No fato de Wesley não encher as cartas com argumentos acerca de eleição, Whitefield acha razão de suspeitas. Ele escreve:
“Eu desejaria saber plenamente os vossos princípios. Se escrevêsseis com mais freqüência e franqueza, isto faria melhor efeito do que o silêncio e a reserva”.

O polemista Whitefield, em falta de argumentos, acha-se tentado a se refugiar em admoestações morais, dirigidas a seu adversário, a respeito da qualidade de seus motivos e conduta: e nesta época Whitefield descobre, que a má teologia de Wesley tem sua raiz na triste deficiência moral do próprio Wesley. Ele escreve a Wesley: “Meu querido irmão, cuidai-vos. Fugi da paz falsa. Lembrai-vos que sois apenas uma criancinha em Cristo, se sois tanto. Sede humilde. Falai pouco. Pensai e orai muito. Se tendes de discutir, espera e até que estejais versado no assunto”.

Outra vez se queixa: “Entretanto, não admitis a eleição, porque não podeis admiti-la sem crer na doutrina de reprovação”. E, com indignação, ele pergunta: “Que há, então, de tão horrível na reprovação?”. Southey, que em regra toma o lado de Whitefield contra Wesley, aqui se acha obrigado a responder a pergunta de Whitefield:
"A doutrina, diz eIe, significa que o Criador Onipresente e Onipotente tem chamado à existência a maior parte da raça humana afim de fazê-los, depois duma vida curta, pecaminosa e miserável, passarem para uma eternidade de tormentos indizíveis, sendo do agrado do seu Criador que não fossem habilitados a lhe obedecerem os mandamentos, e que ainda incorressem na pena da condenação eterna pela desobediência". (Southey, vol I. pág. 230.)

Os acontecimentos agora se desdobravam com ligeireza. Uma tão acentuada discordância em crença não deixaria de registrar-se na forma exterior. Wesley esforçou-se varonilmente, primeiro, para fugir ao debate, e quando isso não fosse possível, de conduzi-lo num espírito generoso. Mas Whitefield, por um momento, pelo menos, deixou-se cair para um plano inferior. Imprimiu e circulou particularmente uma carta amarga contra Wesley, na qual ele ridicularizou o hábito de Wesley em lançar a sorte, para determinar questões difíceis, e deu exemplos de uma espécie mui privada e confidencial. A carta foi impressa por alguns dos aderentes (seguidores) de Whitefield, e uns exemplares foram distribuídos à porta da Foundry. Um exemplar foi entregue a Wesley. Era evidentemente carta particular; Wesley ergue-a, dizendo: “Vou fazer justamente o que creio que Senhor Whitefield faria, se aqui estivesse”, e fê-la em pedaços; e todos os assistentes seguiram-lhe o exemplo!

Mas Wesley e Whitefield, certamente, tinham seguidores que eram mais veementes – mais solícitos pela vitória, e menos cuidadosos pela paz – do que eles mesmos. Em Kingswood, João Cennick, um dos primeiros conversos de Wesley, homem em quem Wesley muito confiava, foi empregado como professor. Era Calvinista de tipo talvez mais agressivo do que o próprio Whitefield. O Arminianismo (a crença na salvação pela graça de Deus que é destinada a todas as pessoas indistintamente) dos dois Wesley geraram nele um espírito de franca animosidade e desconfiança. Ele escreveu a Whitefield, então na América, pedindo que se apressasse em voltar à Inglaterra:
“Eu me assento”, diz ele, “qual Eli, solícito pela sorte da arca... Quão gloriosamente em outros tempos, o Evangelho parecia florescer em Kingswood! Eu falava do sempiterno (eterno) amor de Cristo com grande poder. Mas agora ao irmão Carlos é permitido a abrir a boca contra a verdade (ou seja, o calvinismo), enquanto as ovelhas assustadas olham em resposta... Com a redenção universal o irmão Carlos agrada ao mundo; o irmão João lhe segue em tudo. Eu creio que não haja ateu que seja capaz de pregar mais contra a predestinação do que eles... Apressai-vos, querido irmão! Estou no meio da peste. Se Deus vos permitir, apressai-vos.”

O humor tem um papel salutar na própria teologia, e um vivo senso humorístico teria salvado a Igreja de muitas discussões e não poucas heresias. “Um ateu pregando contra a predestinação” é uma concepção bastante humorística. E quando João Cennick via no “irmão Carlos” nada senão esta aparição, é sinal que perdera momentaneamente todo o sal de humor.

A carta de Cennick acabou chegando às mãos de Wesley. Ele possuíra o instinto disciplinar de um verdadeiro líder de homens. Não era questão de liberdade, mas de lealdade. Havia de consentir que o seu próprio ensino fosse atacado por um dos seus professores, e sob o teto de sua própria escola?

Carlos Wesley expôs o caso com força irresistível ao próprio Cennick:
“Viestes a Kingswood ao convite do meu Irmão. Servistes sob a sua direção como filho no Evangelho. Não vos necessito dizer como ele vos amava. Empregastes a autoridade que ele vos deu para subverter a sua doutrina. Por toda a parte vós a contradissestes a doutrina –se verdadeira ou falsa, não é do caso. Mas antes devíeis ter-lhe dito com lealdade: “Eu prego contrário a vós. Estais prontos, não obstante isto, que eu continue em vossa casa, vos contradizendo? Se não estais, eu não tenho lugar algum nesta região. Tendes direito a este trato aberto. Agora vos aviso plenamente. Devo ficar aqui, fazendo-vos oposição, ou devo sair?” Meu irmão Cennick, tendes tratado com João deste modo honesto e aberto? Não. Mas lhe furtastes o coração do seu povo. E quando alguns trataram com vileza a seu melhor amigo, abaixo de Deus, com que paciência vós os suportastes! Quando nos vindicastes a nós como vos fizemos a vós? Porque não dissestes com clareza, que sois eternamente obrigado a estes homens?” (Southey, Vol. I. pág. 236)

Neste tempo Cennick já formara uma Sociedade separada; e Wesley, que sempre acreditava em medidas retas, teve uma Conferência com um grupo dos revoltosos, e perguntou-lhes: “Quem vos disse que nós pregamos uma doutrina falsa?”
Cennick respondeu: “Eu disse, e ainda o digo. Entretanto, estamos dispostos a reunirmo-nos convosco; mas também teremos outras reuniões separadas de vós”.
Wesley lhe disse: “Devíeis ter-me dito antes, o não me suplantar na minha própria casa... por meio de acusações particulares, separando bons amigos.”
Cennick negou que havia feito acusações particulares contra Wesley.
Wesley disse aos presentes à reunião: “Julgai-o vós”; e então tirou a carta que Cennick tinha escrito a Whitefield.

A reunião então se dissolveu para congregar-se outra vez dali a uma semana. Mas quando se reuniram Wesley não lhes ofereceu argumentos, não era mais tempo para debates – mas autoridade. Ele se levantou e calmamente leu um breve escrito:
“Por muitas testemunhas se estabelece que vários membros da Sociedade em Kingswood estão acostumados a mofarem (zombarem) da pregação dos Srs. João e Carlos Wesley; que têm lhes censurado e intrigado na sua ausência, ao mesmo tempo em que lhes professam amor e estima quando presentes; que têm assiduamente procurado intrigar outros membros da Sociedade contra eles, e a fim de fazer isso, têm lhes representado falsamente, até mentindo, por várias ocasiões; por tanto, não por causa de suas opiniões, nem por qualquer uma delas – sejam verdadeiras ou não –, mas pelas causas acima especificadas, a saber; por terem mofado (zombado) da palavra e dos ministros de Deus, por seus mexericos, intrigas e maledicências, por suas dissimulações, mentiras e acusações falsas, eu, João Wesley com o consentimento e aprovação da Sociedade em Kingswood, declaro que as pessoas acima mencionadas não são mais membros dela. Nem serão mais recebidas como tais, a não ser que confessem publicamente as suas faltas, e deste modo façam o que puderem para destruir o escândalo que ocasionaram”. (Sou¬they, vol. 1. pág. 237).

Um dos partidários de Cennick disse: “A nossa crença na eleição é a verdadeira causa da vossa separação de nós”. João Wesley respondeu: “Sabeis na vossa consciência que não é assim: há diversos predestinarianos (pessoas que acreditam na doutrina calvinista da predestinação) em nossas sociedades, tanto em Londres como em Bristol, e nunca expulsei de nenhuma delas, a qualquer pessoa por ela ser desta opinião”. “Então, disse o contestante, dissolveremos a nossa sociedade (que Crennick criara em separado), com a condição de receberdes e empregardes ao Sr. Cennick e como antes fizestes". Wesley respondeu: “Meu irmão Cennick me fez uma grande injustiça, mas não diz ‘eu me arrependo’.” Cennick então tomando a palavra disse: “A não ser por deixar de falar em vossa defesa, não vos fiz injustiça alguma”. Wesley replicou: “Parece que só nos resta, a cada um, escolher a Sociedade que lhe aprouver”.

Logo depois Whitefield chegou da América. Ele se achava carregado das dificuldades financeiras criadas pelo orfanato que criara na colônia da Geórgia, e também sofria uma perda momentânea da sua popularidade. Estava de espírito amargurado. Disse a Wesley que estavam a pregar “Evangelhos diferentes”; portanto não poderia unir-se com ele; antes havia de pregar contra ele publicamente, se ainda tornasse a pregar. Se em qualquer tempo prometesse não fazê-lo, era “devido à fraqueza humana”, mas agora se achava de uma têmpera mais heróica.

A correspondência entre os dois amigos tornou-se áspera e a disputa vagava em regiões tristes – o número de velas usadas em Bristol, a qualidade de mobília no quarto de Wesley. Wesley lhe perguntou: “A isto me invejais? – um sótão no qual se acha uma cama. É esta a voz do meu irmão, do meu filho (na fé) Whitefield?"

Whitefield disse a Wesley com áspera acentuação: “Infiéis de toda a espécie estão ao vosso lado no assunto (oposição ao calvinismo); deistas, arianos, Socinianos falam contra a soberania de Deus e estão a favor da redenção universal”. Mas convenhamos, não se precisa de grau algum de erudição para saber que deistas (que acreditam na existência de Deus, mas não há necessidade de um relacionamento pessoal com ele; Deus é impessoal, uma “força” do universo), arianos (que acreditavam em uma heresia condenada em 325 d.C. pelo Concílio de Éfeso na qual Teodoro Ário e seus seguidores afirmavam que Cristo era uma criatura de natureza intermediária entre a divindade e a humanidade, não era Deus, mas subordinado a Deus como a primeira e a mais excelsa de suas criaturas ) e socinianos (que acreditam na doutrina baseada na teologia de Fausto Socino, falecido na Polônia em 1604, que era antitrinitária, rejeitava o batismo e a ceia do Senhor como meios de graça e o pecado original e afirmava que Jesus de Nazaré era apenas um homem) não crêem em redenção alguma; que todos são “necessitarianos" filosóficos. Não, erudição não era a especialidade de Whitefield.

Talvez, nenhum dos dois partidos (Wesley e Whitefield) neste grande debate apreciou devidamente os pontos fortes na posição do oponente. Aqui está o fato que constitui a tragédia do universo, e parece impugnar à bondade ou ao poder de Deus: algumas de suas criaturas estão em oposição aberta a suas leis. Amam ao que Ele odeia, e odeiam ao que Ele ama; e estando em guerra com o seu universo, hão de perecer. Portanto, qualquer sistema de teologia tem de fazer alguma explicação deste fato temível e triste.

Coleridge nos dá uma resposta bastante vaga: resposta que não oferece explicação alguma da dificuldade, antes lhe foge:
Na questão de eleição em relação do Divino Eleitor, somente temos de contestar a faculdade judicial como incompetente para julgar o caso; e isto prova de uma vez, mostrando a incapacidade do entendimento humano em formular, para si mesmo, a idéia como realmente é, e a conseqüente necessidade, a ele imposta, de substituir a concepção antropomórfica determinada pelo acidente de lugar e tempo (pré, posto, e futuro) como fracas analogias e aproximações. Tendo assim desqualificado, tanto a faculdade que tem de julgar, como as proposições que devem ser julgadas, a conclusão perece per abortem.” (Southey, vol. 1, pág. 227.)

É claro que isto não resolve o problema, mas simplesmente anuncia que não tem solução. Realmente Coleridge afirma que a razão humana não tem competência para julgar o caso; não tem ação em terreno tão elevado! Que significa isto, senão proclamar a falência da razão?

Num sentido, o Calvinismo de Whitefield teve uma raiz nobre. Em parte, pelo menos, nasceu da humildade. Ele era tão plenamente consciente de desmerecimentos pessoais, que lhe parecia incrível que qualquer ato ou condição sua pudesse constituir elemento algum na sua aceitação por Deus. Mas Whitefield foi atirado para o Calvinismo nú por um pedacinho de lógica, que lhe parecia sem falta. Dizer que Deus queria salvar alguém que visivelmente, não se salvava, significava que Deus sofrera uma derrota moral no seu próprio mundo! Negava-lhe a onipotência. Ele perguntava: “Como poderiam, todos serem resgatados universalmente, sem que todos fossem universalmente salvos?” Whitefield antes preferia dizer que Deus não queria, a dizer que não podia salvar. O próprio Calvino chamou esta doutrina de “tremendum, horrendum, incomprehensibile, et verissirnum...” e era “verissimum” (tremenda, horrenda, cinompereensível, e verdadeira) porque negá-la parecia ser a negação da onipotência de Deus.

Wesley, com uma lógica mais nobre recusou salvar a onipotência de Deus à custa de seu caráter moral. Seria melhor lhe negar a onipotência do que a sua bondade! A doutrina de Whitefield só poderia ser verdade sob a teoria de que a justiça e a injustiça não são imutáveis, universais e eternas, percorrendo todas as ordens de seres no universo até o próprio Deus, de cujo caráter são transcrições. Mas seria possível de imaginar que a mentira, se Deus a dissesse, se tornasse, por isso, em verdade santa. Que aquilo que seria cruel e odioso, quando encontrado na conduta humana, se tornasse, apreciável e bom unicamente por ser ato de Deus! Isto seria derrocar toda a moralidade! Como diz Miss Wedgwood:
“O ente humano que se aproximaria mais perto do Deus (segundo a concepção) dos Calvinistas seria o pai que determinasse que alguns dentre os seus filhos, fossem arremessados da sua vista logo ao nascerem, para algum antro de iniqüidade, para serem ali criados; e que depois tomasse parte ativa em trazê-los à força (de volta para si). Entretanto, homens que teriam morrido, qualquer número de vezes, para salvar uma só alma do inferno, têm contemplado o decreto, pelo qual a maior parte da raça foi consignada ao inferno, antes de haver mundo. Não meramente com reverente admiração, mas com certo prazer” (Wedgwood, pág. 230.)

Mas a teologia de João Wesley “salvou” o caráter de Deus à custa de Sua onipotência? Certamente que não! A chave do problema acha-se na mesma natureza da própria bondade moral. A liberdade moral é condição essencial ao caráter moral. A bondade significa a escolha da obediência quando era possível a desobediência. E quando Deus criou o caráter moral Ele assumiu os riscos tremendos e inevitáveis daquele grande ato. No domínio de caráter a onipotência não tem ofício; e Deus tem nos posto neste reino exaltado. Mas isto não significa a derrota da onipotência de Deus, mas unicamente declara as limitações que Ele impôs a si mesmo.

“Thought conscience wiII - to make them alI thime own
He rent a pilIar from th'eternal throne.
Made in His image, thou must nobly dare
The thorny crown of sovereignty to wear.
Think not too meanly of thy low estate;
Thou hast a choice; to choose is to create."

Traduzindo:

"Pensamento, consciência, vontade - para fazê-los todos teus.
Ele arrancou uma coluna do trono eterno.
Feito à Sua imagem, deves ousar cingir-te
da coroa espinhosa da soberania.
Não consideres como demasiado baixo o teu estado humilde:
tens escolha; escolher é criar”.

A negação desta verdade furta de todos os termos morais o seu significado, e teríamos de reconstruir a língua humana. Se a alma humana é somente uma máquina que tem de obedecer ao impulso para a voluptuosidade ou a pureza, para o amor ou a crueldade que o Criador lhe deu, que utilidade tem a fraseologia de louvor ou de censura? E como acontece que uma máquina conceba um pensamento de bondade que não é dela própria?

Não salvamos o caráter moral de Deus pela negação da livre vontade do homem (livre arbítrio). Negando o livre arbítrio somente transferimos a vergonha e culpa do pecado humano ao próprio Deus, pois Deus seria o autor do pecado; pois Deus o planejou-o e o ordenou (se não há livre arbítrio o homem vive como Deus o predetermina viver). Ele determinou a prostituta bem como ao santo; ao traidor bem como ao mártir; a Judas bem como a João, e a Domiciano bem como o apóstolo Paulo. E depois persegue a sua própria criatura com ira por todos os esconderijos do universo, e por todos os séculos da eternidade, por serem eles justamente o que Deus determinara que fossem. Podemos variar os temíveis epítetos de Calvino. Tal doutrina na realidade é “tremendum, horrendum, incomprehensibile, et falsissimum” (tremenda, horrenda, imcompreensível e falsa).

É certo que na sociedade humana temos de agir sob a consciência que os homens são responsáveis por seus atos, e que sejam justiçados ou recompensados por eles. É certo, também, que Deus age sob esta afirmativa; e se não fosse assim, então, não somente a sociedade humana, mas todo o universo moral estaria edificado sobre uma mentira. Se a bondade é necessária e involuntária, deixa de ser bondade. E se o pecado é necessário e involuntário, por toda a autoridade da consciência humana, é declarado como não sendo pecado algum. A teoria que nega este fato está em conflito com os juízos mais certos e mais fundos da alma humana.

Deus tem erguido na alma humana a faculdade augusta de uma livre vontade moral; vontade que tem o poder de dizer “sim” ou “não”, inclusive de dizer “sim” ou “não” ao próprio Deus. E a chave da glória bem como da tragédia do universo se acha ali.

Como já dissemos, a consciência geral da raça humana tem-se alinhado finalmente ao lado de Wesley, contra a interpretação religiosa dos Moravianos (que defendiam uma espiritualidade mística segundo a qual a perfeição moral consiste na anulação da vontade, na indiferença absoluta e na união contemplativa com Deus). E tanto a consciência como a razão da humanidade tem se declarado do lado de Wesley contra a teologia perversa e horrível de Whitefield.

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** (Esse texto corresponde ao capítulo III, "A Controvérsia com Whitefield", do livro "Wesley e seu século – um estudo de forças espirituais, volume II", respectivamente nas páginas 30 a 43, edição de 1916 publicada pela Typographia de Carlos Echenique, Porto Alegre, RJ).

OBS: Esse livro originalmente não usa parênteses. As notas explicativas dentro de parênteses são de iniciativa dessa edição on line do site da Igreja Metodista de Vila Isabel).

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