IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 22/7/2009
 

O Ataque dos Bispos Anglicanos aos Metodistas, "o pior dos inimigos" ** (Rev. W. H. Fitchett)

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Thomas Babington Macaulay (1800-1859), político e historiador inglês, numa passagem famosa, discute a maneira em que a Igreja Católica Romana teria se utilizado de João Wesley. Certamente Roma conhece o valor do entusiasmo, e sabe a arte de utilizar-se de entusiastas. Que é o segredo do estranho estacionamento da Reforma do século XVI, de modo que, enquanto o Norte da Europa se tornou Protestante, o Sul permaneceu e ainda permanece católico romano? É certo que a explicação se acha principalmente no aparecimento da grande Ordem da Companhia de Jesus. Ignácio Loyola foi o campeão que Roma moveu contra Lutero. Ele era um entusiasta do tipo mais fanático, mas a Igreja Romana, em vez de romper com ele, utilizou-se dele, permitindo que criasse uma ordem, e depois converteu a ele e a sua ordem em armas, das mais formidáveis, contra os seus inimigos.

Macaulay diz:
“Em Roma a condessa de Huntingdon teria alcançado lugar no calendário como Santa Selina; Joana Southcote teria fundado uma ordem de Carmelitas descalças; Mrs. Fry teria sido a primeira superiora da Sagrada Ordem das Irmãs das Cadêas.Ignácio Loyola em Oxford teria encabeçado uma revolta. João Wesley em Roma teria se feito o primeiro general de uma nova Sociedade destinada a promover os interesses e a honra da Igreja.”

Este trecho nos fornece com uma das generalizações pitorescas e fáceis que são o encanto – e o perigo – dos escritos históricos de Macaulay.

Loyola era espanhol, fanático; com uma inteligência tão estreita e dura como a própria espada. Wesley era Inglês, erudito, lógico e santo. Os dois, de forma alguma, poderiam ter trocado papéis. Ainda mais, a Igreja de Roma é um despotismo espiritual. Na ordem dos Jesuítas, a sua expressão mais elevada, a escravidão se acha cristalizada em sistema. A Igreja e a Ordem correspondem uma a outra; porque o despotismo e a escravidão são eternamente correlatos. Mas a Igreja Anglicana, não obstante todos os seus defeitos, representa a liberdade espiritual. Ela não achou lugar para Wesley, e isto constitui o escândalo e a tragédia de sua história. Justifica a descrição do Anglicanismo como “Igreja que perdeu a sua oportunidade”. Mas de forma nenhuma a Igreja Anglicana poderia ter produzido um Ignácio Loyola, nem dele se ter servido.

Mas como foi que a Igreja Anglicana não achou lugar para Wesley e seus grandes camaradas? Estes homens eram mais do que filhos dela. Eram em sentido especial, uma grande dádiva que Deus lhe fez. Possuíram uma fé implícita em suas doutrinas, e eram fanaticamente zelosos por seu ritual e serviços. Whitefield, se julgarmos os seus sermões, pelos efeitos imediatos, foi, talvez, o maior pregador que o povo inglês produziu. João Wesley possuía inexcedíveis dons de liderança. Carlos Wesley é um dos hinologistas imortais da religião cristã. Qual a Igreja que não poderia ter dado boas vindas a tais homens como constituindo uma dádiva divina?! Também estes homens trouxeram para a religião do século XVIII exatamente o que lhe faltava: a nota de paixão, a energia contagiosa de um entusiasmo intenso. E eram especialmente preparados para prestarem o serviço principal que a vida social e religiosa de então precisava – o serviço de fechar o abismo que rapidamente ia se abrindo entre a Igreja e o populacho. De um lado eram eruditos e cavalheiros; de outro lado, eles mesmos tinham sido criados na pobreza, e sabiam falar a língua da plebe. João Wesley podia pregar do púlpito da Santa Maria em Oxford aos diretores dos colégios, aos lentes, estudantes e procuradores, e contê-los pasmados. Mas também podia pregar a 10.000 mineiros incultos, em Gwennap Pit, ou ao lado do morro de Kingswood, e ver as lágrimas correrem pelas faces de um número quase igual.

Por que foi que a Igreja Anglicana desse tempo fechou as portas a homens como estes, fazendo-lhes, não obstante a sua boa vontade cismáticos? Eram os próprios filhos dela, batizados à sua pia, alimentados à sua mesa, instruídos nas suas universidades. Foi ela que evoluiu estes homens, educou-os, ordenou-os, e então – lançou-os fora!

O tocante clamor de Newman, quando finalmente rompeu com a Igreja Anglicana, está ainda na memória.
“Oh! Minha Mãe! De onde te vem isto, que tu tens boas causas derramado sobre ti, mas não podes guardá-las e dás a luz filhos, entretanto não ousas dizer que são teus? Como é que todo o que for generoso em propósito, e terno ou profundo em devoção, a tua flor e a tua promessa, recai do teu seio sem achar esperança alguma nos teus braços?”

Com mais razão, do que o próprio Newman, Wesley poderia ter escrito essas palavras.

A história dos passos vagarosos, relutantes e forçados com que João Wesley se separou formalmente – ou preparou os seus seguidores para a separação – da Igreja Anglicana, será narrada mais tarde. Mas já está visível, nesta época inicial da sua história, a inabilidade fatal por parte da Igreja Anglicana em entender o novo movimento; uma falta absoluta de simpatia com ele; um espírito de suspeitas zangadas a seu respeito, que logo se endureceu em desprezo, e finalmente acendeu em ódio.

Um dos líderes Anglicanos desse tempo escreveu: “Não podemos senão vos considerar como nossos mais perigosos inimigos.” Entretanto, a Igreja de então tinha muitos inimigos – gigantescos vícios nacionais, um ateísmo triunfante, uma indiferença espiritual que, à semelhança de uma geleira ártica, jazia sobre a nação inteira.

Os lentes do Colégio de Madalena exigiam que os candidatos aos prêmios da universidade assinassem um papel, renunciando “às praticas e aos princípios do povo chamado Metodista.” Os bispos descarregaram sobre os infelizes Metodistas. O clero, muitas vezes, inspirou, e, às vezes, publicamente dirigiu, os motins contra eles. Era-lhes proibido pregarem nas igrejas, e então foram tratados como criminosos por pregarem ao ar livre. Wesley diz: “Eles nos empurraram para o lamaçal, e então se queixaram porque ficamos sujos”.

Por sua vez, Wesley e seus camaradas, no principio, eram quase apaixonados pela obediência. Somente quando a obediência eclesiástica queria dizer desobediência a uma obrigação espiritual – quando o dever inferior estava em conflito com o superior – que houve rompimento.

Há uma narração divertida de uma entrevista entre Edmund Gibson, o bispo de Londres – versado em antiguidades, homem de negócios, e avesso ao zelo impetuoso do reformador e do ardor flamejante do evangelista – e os dois irmãos Wesley. Gibson era um lindo tipo do clero hanoveriano daquele tempo; erudito e político – era conhecido familiarmente como o “papa” de Horace Walpole, o primeiro ministro, e era um homem que cuidava muito da paz secular e pouco de ideais espirituais. Cada qual dos irmãos Wesley tinha dificuldades especiais a submeter ao Bispo Gibson. João Wesley, o espírito mais sério dos dois, com a mente cheia do novo movimento espiritual que começava fervilhar, perguntou ao Bispo se, caso ele pregasse um sermão numa da suas sociedades, seria dissidência, assim fazendo a reunião ilegal. Carlos Wesley, sempre o High-Churchman, começou a pleitear o re-batismo dos Dissidentes (da Igreja Anglicana). E a sua lógica era irresistível! Se for verdade a teoria dos ritualistas – se o batismo leva consigo conseqüências tão tremendas, e se destinos tão vastos dependem do emprego de dedos idôneos – não seria razoável colocar a salvação de um pobre dissidente fora de toda a dúvida pelo processo de re-batismo? Carlos Wesley disse a seu Bispo que “certeza e incerteza não significam a mesma cousa”.

Bispo Gibson contemplou os dois irmãos com inquietação, e não satisfez nem um nem outro. Sem dúvida, era necessário que um Bispo do século XVIII, à semelhança dos Bispos modernos, se balançasse bem para poder andar numa corda esticada; e Gibson era simplesmente o Lorde Melbourne de um século mais tarde, em mangas e avental de linho. O seu ideal, a respeito de tudo, acha a sua expressão na famosa pergunta de Melbourne: “Não podes deixá-lo como está?”.

João e Carlos Wesley eram jovens entusiastas e o “entusiasmo” constituía a ofensa mais mortífera e imperdoável com que se podia tachar um teólogo do século XVIII. Uma mera suspeita a este respeito influiria em todos os líderes Anglicanos daquele tempo, como a repentina elevação de temperatura poderia afetar uma companhia de arquitetos que acabavam a edificação de um palácio de gelo. Era auguro certo da ruína repentina e inevitável!

Mas a Igreja Inglesa é também um fecho de convênios teológicos. Na variedade do seu conteúdo, os trinta e nove artigos parecem com o lençol que o Apóstolo Pedro, em visão, viu baixado do céu. Mas o entusiasmo é sempre fatal a convênios. Assim os artigos, para o clero daquele dia, eram atenuados em metáfora ou congelados às gotinhas. Mas o Metodismo lhes ofereceu a aparição surpreendente desses mesmos artigos, repentinamente, voltando a vida, trasladados das abstrações decorosas para a conduta vital; visitando as cadeias, pregando ao ar livre, falando a língua da plebe. E os guias do novo movimento, quando os Bispos Ihes fizeram cara feia e Ihes fecharam as portas das igrejas, e Ihes recusaram os símbolos do sacrifício de Cristo (a Ceia do Senhor), em vez de se retirarem na Igreja, tornando-se dissidentes, insistiram em permanecer dentro dela, e em procurar concertá-la! Os clérigos exasperados daquele tempo clamaram: “Não podemos senão os considerar como nossos mais perigosos inimigos”.

A Igreja Anglicana do século XVIII era espécie de mar de Sargaço, sobre cujas águas mortas vegetavam e boiavam instituições e artigos como navio derelito (abandonado) naquelas latitudes tépidas. O movimento, originado por João Wesley e seus companheiros, se assemelhava a uma corrente do Golfo, repentinamente Iibertada naquelas profundezas estagnadas, uma viração de ares mais frescos que soprava através da atmosfera imóvel, e que muito incomodava todos os cascos cobertos de vegetação que boiavam tão pacificamente ali.

Por parte da Igreja Anglicana não houve qualquer ato de expulsão formal. Mas havia um repúdio inexpressivo, mais meio consciente (meio inconsciente), mas terminante, do novo movimento, e de tudo que ele significava; rejeição esta que constitui um dos capítulos mais trágicos na história dessa Igreja. E é claro que essa rejeição foi devida a uma discordância fundamental de temperamento: a guerra inevitável e eterna entre o fogo e o gelo.

Quatro bispos anglicanos acabaram sendo vistos com má fama pelo trato que deram a Whitefield e aos irmãos Wesley. Gibson de Londres começou por tolerar politicamente o novo movimento, e terminou por lançar todo o seu peso na balança contra ele. Publicou um tratado notável contra os Metodistas, onde ele lamenta, por páginas inteiras que os Metodistas recusassem emigrar da Igreja estabelecida. O Ato de Tolerância de 1689 isentou de certos castigos penais, as pessoas que eram dissidentes da Igreja Anglicana; e quem quisesse adquirir esta liberdade mais rudimentar da consciência e ação tinha de pagar o preço de declarar-se dissidente. Mas os Metodistas recusaram rotular-se com este título. Eles se afluíram aos serviços da Igreja; apinharam-se ao redor da mesa de comunhão em tão grande número que, Gibson lamenta, quase chorando, “o clérigo não tinha tempo de jantar antes do serviço da tarde!” Ele acrescentou com indignação, que os Wesley “tiveram a ousadia de pregar nos campos e em outros lugares livres, e por anúncios públicos têm convidado um populacho para serem seus ouvintes”; e ainda, segundo a queixa deste Bispo singular, eles recusaram emigrar da Igreja – Igreja esta que certamente não tinha mensagem alguma para o vulgo (povo, populacho, os pobres), e nem desejava ser dele encarregada.

Gibson se ofendeu gravemente com o lugar dado ao Espírito Santo na teologia ativa destes novos mestres religiosos. Ele, como muitos entre o seu clero, mantinha teoria curiosa que o Espírito Divino agia em todo o lugar, geralmente, mas em parte alguma, particularmente; ao passo que os Metodistas iludidos atualmente ensinavam a doutrina incrível que o Espírito Santo operava em almas individuais, e manifestava a sua influência em momentos determinados. Whitefield respondeu ao Bispo com bastante felicidade:

"Não é freqüentemente o caso, meu Senhor, que o conforto e a felicidade de nossa vida inteira depende de uma só ação? E como será absurdo dizer-se que o Espírito Santo possa, mesmo nas circunstâncias mais diminutas, dirigir e governar os nossos corações? Não afirmei eu, ao ser-me ordenado diácono, que eu era intimamente movido pelo Espírito Santo para empreender aquele ofício e ministério? E o Bispo de Gloucester, quando me ordenou presbítero, não me disse: ‘Recebe o Espírito Santo com que agora te dotamos pela imposição das mãos’? E isto não oferece, Senhor bispo, evidência racional que estou agindo por ação divina? Se não for assim, não será que todos os ordenados por vossa senhoria ajam simplesmente por comissão humana?

Um dos clérigos de Gibson, Thomas Church, o prebendeiro (arrematante das rendas do Bispo, que tinha pouco trabalho e grandes rendas, recursos) de São Paulo, publicara um panfleto em abono do seu diocesano, declarando que os Metodistas estavam “destruindo o que restava da piedade e devoção nos fracos e nos de boa fé”. João Wesley, que sempre era sensível a qualquer ataque aos resultados práticos do seu trabalho, caiu sobre o infeliz prebendeiro com a fúria e a força de um raio. Church escrevera: “O povo prosseguia regularmente na prática pacífica dos seus deveres antes que vós os iludistes”.

João Wesley respondeu:
“Reduzamos esta questão aos limites mais estreitos possíveis. Quanto ao tempo, limitemo-nos aos sete anos próximos passados; quanto ao lugar, tomemos somente a cidade de Londres e as partes adjacentes: quanto aos personagens, consideremos a mim e a ti – João Wesley a pregar uma doutrina e Thomas Church outra. Pois, então, consideremos, com mansidão e temor, quais as conseqüências de cada doutrina. Eu te peço que consideres no íntimo do teu coração quantos pecadores tens convertido a Deus. Pelos seus frutos os conhecereis. Que sejam estimados por esta prova. Quantos ímpios habituais e flagrantes tens trazido aos hábitos regulares da santidade manifesta? É pensamento temível. Podes citar cem? Cinqüenta? Vinte? Dez? Se não, vela sobre ti e sobre o teu ensino. Não pode ser que ambos sejam direitos diante de Deus. Considera agora, não quero falar, mas não ouso calar-me, quais as conseqüências da minha pregação da outra doutrina? Pelos frutos conheceremos àqueles de quem vou falar, do tão grande número de testemunhas que nesta hora experimentam, na doutrina que eu prego, o poder de Deus para a salvação.

O bêbado habitual de outros tempos, agora se acha em tudo temperado. O fornicário agora foge da impureza. Quem furtava, não furta mais, mas trabalha com as próprias mãos. Aquele que imprecava, e praguejava, talvez com cada sentença, agora tem aprendido servir ao Senhor com temor, e a regozijar-se nele com reverência. Tais são os fatos demonstráveis. Posso declinar os nomes com os respectivos lugares de residência. (Wedgwood, pág. 306).

Wesley continuava tratar aos Bispos com respeito, mas uma acusação escrita pelo Bispo Gibson em 1747, provocou-Ihe a indignação. Gibson acusou a Wesley de doutrinas que favoreciam um baixo tipo de moralidade, e advertiu a seu clero que prevenissem a humanidade em geral, contra os Metodistas. Wesley respondeu em palavras que vibram de indignação grave e nobre:
“Eis aqui um anjo da Igreja de Cristo, uma estrela na destra de Deus, convocando a todos os pastores subordinados, pelos quais ele terá de prestar contas a Deus, e lhes mostrando em nome do Grande Pastor das ovelhas, o Primogênito dentre os mortos, o Príncipe dos reis da terra, como devem exercer plenamente o seu ministério, que assim se livrem do sangue de todos; como apascentarem o rebanho de Deus, o qual Ele adquiriu com seu próprio sangue! Para este fim, estão todos reunidos. E qual é a substância de toda a sua instrução? "Reverendos Irmãos, eu vos exorto a todos, levantai a vossa voz, qual trombeta, prevenindo, armando e fortificando a todo o gênero humano contra a gente que se chama de Metodistas”.

É possível que a vossa Senhoria não pudesse descobrir outro qualquer inimigo do Evangelho de Cristo? Não existem nem Papistas nem Deistas na terra? Os Metodistas – assim chamados – têm monopolizado a todos os pecados, bem como a todos os erros, da nação? O Metodismo será o único pecado que lavra fora da regra da mortalidade? (Wedgwood, pág. 310).

O Bispo Lavington, Bispo de Exeter Canterbury, se ajuntou mais tarde ao coro dos bispos que erguiam as vozes em repreender o Metodismo, e a sua contribuição para a música irritada era de uma espécie mui áspera. Bispo Lavington, diz Wedgwood, com energia feminina, “merecia ser considerado juntamente com os homens que arremessaram gatos mortos e ovos podres aos Metodistas e não, com os que Ihes assaltavam as doutrinas com argumentos, ou com uma admoestação séria”. A pedra especial que Lavington arremessou contra o Metodismo, foi a acusação de ser ele “o Catolicismo Romano pobremente disfarçado”. Afirmava que o Metodismo reproduzia todas as más qualidades do Romanismo: a sua intolerância, o seu fanatismo e a sua falsidade. O Bispo Lavington fez uma excursão aos domínios do paganismo, em procura de um paralelo do Metodismo, e o achou nos mistérios Eleusianos. Na interpretação mais vil desses mistérios o Bispo descobre o que julga ser a explicação final do Metodismo: é a obra dum espírito maligno, espécie de magia diabólica.

Tanto João Wesley como George Whitefie!d responderam ao Bispo Lavington. Wesley em tom de severidade, Whitefield com nota mais branda; e sesta vez Whitefield se mostrou o adversário mais formidável. A gentileza é às vezes mais eficaz do que a ira. Ele mostrou, por uma lógica linda e irresistível, que o ataque do Bispo Lavington sobre o entusiasmo do novo movimento era, antes, um assalto dirigido contra o Cristianismo do que contra o Metodismo. A lógica episcopal que condenava a Wesley e a Whitefield golpeava com igual fúria aos apóstolos Pedro e Paulo.

O Bispo Horne, de Norwich, mostrou melhor espírito do que os seus colegas, mas a sua lógica era tão fraca e esquisita como a deles, e o seu aborrecimento do Metodismo foi tão acentuado, também. Num sermão que pregou perante a Universidade de Oxford, acusou “as novas luzes do tabernáculo e da Foundry” de doutrinas perversas a respeito da fé e de ensinos relaxados a respeito da moralidade.

João Wesley responde: “Já lestes os escritos de que falais?” E de fato, Horne não julgara necessário ler os escritos de Wesley antes de refutá-os. Para Horne, como para muitos outros polemistas, a refutação das opiniões de um oponente se tornava muito mais fácil por tomar-se a precaução de não conhecê-las. Wesley diz: “Se tivésseis tomado o incômodo de ler um só tratado – O Apelo aos Homens de Razão e de Religião – teríeis visto que a maior parte daquilo que afirmais é algo que nunca neguei.” E prosseguiu em demonstrar, o que era deveras claro, que todos os seus ensinos se achavam nos Artigos de Religião da Igreja Anglicana e na Bíblia.

Warburton, o grande valentão literário do tempo, caiu sobre os Metodistas com pauladas. Warburton era originalmente advogado; profissão que a natureza indubitavelmente lhe marcara, mas a má fortuna, tanto para ele como para a Igreja, fê-lo Bispo – se bem que De Quincey sugere que, por Warburton ter-se metido em avental e mangas cumpridas (ter se tornado um Bispo), salvou os doze juízes desse tempo de se enlouquecerem com os seus surpreendentes dons de controvérsia militante. Bently se exprime a respeito da erudição de Warburton por dizer que, “era homem de notável apetite, mas de digestão doentia”; e um crítico competente descreve suficientemente o seu estilo militante, em dizer, que o principal argumento de Warburton é “a promessa de pau para quem lhe contrarie a opinião.”

A arrogância de Warburton subiu a altitudes estranhas. Leslie Stephen diz que o seu credo bem se pode resumir nas palavras: “Não há senão um Deus, e Warburton é o seu procurador geral!”. Durante anos levou a vida de cão rateiro em viveiro de ratos, incomodando a toda a classe de bichos teológicos. Era seu hábito agradável descrever os oponentes como ”miseráveis, detestabilíssimos nos fatos e infernalíssimos na moral”. E este rateiro, de mangas cumpridas e de avental episcopal, tratava os Wesley como tantos camundongos para serem judiados com um certo gosto canino.

È fácil adivinhar de que maneira um teólogo deste temperamento havia de atacar homens como Whitefield e os Wesley. Declarou que o Espírito Santo completara o seu trabalho quando completou o cânon das Escrituras. Era mero fanatismo pretender-se à graça desse Espírito em tempos modernos; “como se” – exclamou Warburton em tons de indignação –“ainda houvesse necessidade do auxílio do Espírito Santo para explicar suas próprias palavras”. Então este “pai em Deus” caiu sobre João Wesley pessoalmente, taxando-o de covarde, falso, vingativo; como convidando à perseguição e então fugindo dela; como hipócrita astuto e perverso, etc. Tais são as palavras mais brandas que um Bispo da Igreja anglicana achava para descrever um filho dessa Igreja que trabalhava com uma intensidade de zelo sem paralelo – a não ser nos dias apostólicos – para trazer os perdidos, tanto homens como mulheres, ao Reino de Cristo.

Os que lêem esses panfletos e cartas desbotadas, em que ainda dormitam as brasas de controvérsias longínquas e amortecidas, acham-se infalivelmente ao lado de João Wesley; e isto não porque escreve melhor inglês, emprega melhor lógica e se porta com um espírito mais suave do que os seus oponentes; mas porque visivelmente ocupa plana (lugar, terreno) mais elevada do que eles, e representa outro clima religioso. Aqui temos um homem que conhece a vera razão pela existência de todo o mecanismo eclesiástico; e que não há de sacrificar os grandes propósitos por uma questão pequena e irrelevante – para não dizer impertinente – acerca do mecanismo. Para ele, os fins significam mais do que os meios, e são mais nobres.

Moorfields, onde tão grandes multidões assistiam ao ar livre, a pregação de Wesley, estava na paróquia eclesiástica de certo Dr. Buckley – só este fato o livrou de ser inteiramente desconhecido na historia – e o Bispo de Londres, que muito cuidava dos direitos de seu clero e pouco das tristes multidões fora de todas as Igrejas, chorou lágrimas de retórica por toda a sua diocese, sobre as injustiças que Dr. Buckley sofrera com a pregação de Wesley ao ar livre dentro dos limites de sua paróquia. Eis umas poucas sentenças da resposta de Wesley:
Existem, nas vizinhanças de Moofields dez mil almas pobres por quem Cristo morreu, que estão se apressando (caminhando a passos largos, apressadamente) para o inferno. Será que o pároco, Dr. Buckley, possa ou queira contê-las? Se for assim, que o faça e eu não terei mais o que fazer aqui. Vou chamar outros pecadores ao arrependimento. Mas, se depois de tudo que ele tem feito e de tudo por fazer, ainda elas se acham no caminho largo que conduz à destruição, vamos ver se, até na minha boca, Deus não ponha uma palavra.

Mais tarde havemos de discutir a questão das relações de Wesley com a Igreja Anglicana, e os acontecimentos que lhe obrigaram a formar o que se tornou Igreja separada. Mas a atitude geral da Igreja Anglicana, em referência ao avivamento, pode ser conhecida a julgar pelas palavras de seus lideres, como já citamos. E o exemplo dos Bispos, como é de imaginar, provocou uma imitação grosseira. Os Bispos escreveram tratados contra os Metodistas; os párocos pregaram sermões contra eles; e o motim arremessou pedras. Cada classe serviu-se das armas próprias. Mangas de linho nos palácios episcopais, quando traduzidas à língua vulgar, tornaram-se barro e cacetes. Pode-se dizer, também, que o clero, não poucas vezes, levava o seu ódio do avivamento até a mesa da comunhão.

Carlos Wesley anota no seu Diário:
Domingo 27 de Julho – Ouvi um sermão miserável no Templo, que recomendava a religião como sendo a melhor maneira de arrumar fortuna. Após o sermão se fez o anúncio que todos os estranhos à paróquia se afastassem. Enquanto se estavam enxotando os cordeiros, eu permaneci, nada suspeitando, até que me veio o secretário, e me disse: “o Senhor Beecher manda que vades embora; pois ele não vos dará a comunhão”. Fui à porta da sacristia e calmamente pedi que o Senhor Beecher me admitisse. Ele perguntou: “Sois desta paróquia?” Eu respondi: “Vós estais vendo que sou clérigo”. Deixando do seu primeiro disfarce, ele me acusou de rebelião em explicar as Escrituras sem autoridade, e disse, em termos expressos: “Eu vos repilo da comunhão”. Respondi: “Cito-vos a responder por este ato diante de Jesus Cristo no Dia de Juízo”. Isto lhe enraiveceu sobre modo. Ele gritou: “Venham tirar este homem daqui!”. Solicitavam a assistência dos oficiais da justiça; suponho que receavam que os mineiros furiosos participassem da comunhão à força. Mas eu lhes poupei o trabalho de “tirar este homem”, e retirei-me sem ruído.

Que proveito há em relembrar à memória humana desses conflitos infelizes, remotos, velhos e esquecidos? Mas esta controvérsia, à semelhança daquela com os Moravianos (capítulo II) , e daquela com o Whitefield (capítulo III), ajudou em formar a sua história. E a história que resultou na Igreja Metodista de hoje não pode ser entendida sem a narração desta disputa.

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** (Esse texto corresponde ao capítulo IV, "O Ataque dos Bispos"", do livro "Wesley e seu século – um estudo de forças espirituais, volume II", respectivamente nas páginas 44 a 56, edição de 1916 publicada pela Typographia de Carlos Echenique, Porto Alegre, RJ).

OBS: Esse livro originalmente não usa parênteses. As notas explicativas dentro de parênteses são de iniciativa dessa edição on line do site da Igreja Metodista de Vila Isabel).

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