IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
Fundada em 15 de Junho de 1902

Boulevard Vinte e Oito de Setembro, 400
Vila Isabel - Rio de Janeiro - RJ
CEP: 20551–031     Tel.: 2576–7832


Igreja da Vila

Aniversariantes

Metodismo

Missão

Artigos e Publicações

Galeria de Fotos

Links


Metodismo
Rio, 10/8/2009
 

A importância e o papel da Conferência (Concílio) na administração da Igreja Metodista ** (Rev. W. H. Fitchett)

ZZ Outros Colaboradores ZZ


 

Era claro que, já quase com a primeira respiração, o trabalho de Wesley se achava carregado com forças descomunais e com possibilidades inesperadas, e, como já vimos, logo tomou grande escala. Dentro do breve período de cinco anos (1739-44) estava visivelmente agitando a Inglaterra. Achou por todas à parte ouvintes em multidões; os seus conversos se contavam aos milhares. Desenvolvia-se, não tanto um avivamento, mas uma revolução religiosa.

Nesta época, o próprio João Wesley parece vagamente consciente da energia das forças que começavam a fervilhar ao seu redor. Ele vê novos instrumentos que lhe surgem às mãos. Apanha uma visão vaga e indeterminada das possibilidades do seu trabalho. E com o vero instinto de um grande líder, ele se incumbe da criação de uma espécie de centro governante para o movimento. Era necessário dar clareza a sua teologia, método a seu zelo, ordem a suas energias, disciplina a seus resultados.

João Wesley, por gênio natural, era intolerante da confusão. Tinha de tecer num só plano compacto e metódico todas as forças e instrumentalidades das quais era ele o centro pessoal. Portanto, aos 25 de Junho de 1744, convocou a sua primeira Conferência; um Concílio no qual, com uns poucos espíritos mais afeiçoados ao seu, pudesse formular planos para a campanha espiritual que agora se estava desenvolvendo. Era composta de dez homens apenas, Carlos e João Wesley e mais quatro clérigos – Hodges, reitor de Wenvoe; Piers, pároco de Bexley; Taylor, pároco de Quintin, e João Merriton. Com estes se ajuntaram mais tarde quatro pregadores leigos que não tinham o grau de ministros: Thomas Maxfield, João Downs, Thomas Richards e João Bennett. Esta pequena companhia reuniu-se na Foundry. Num sentido, os seus membros não constituíram grupo pitoresco, e ninguém, na ocasião, poderia ter descoberto na reunião qualquer significado especial. Reuniram-se à sombra de grandes acontecimentos: o país estava em guerra com a França; o jovem Pretendente se preparava para a invasão da Escócia; estava preste a rebentar uma guerra civil. O Habeas Corpus estava suspenso. Um gabinete estava cambaleante e outro preste a se formar.

Era o momento quando grandes acontecimentos desta escala estavam no ar, e foi entre o choque e a poeira da política mais tempestuosa, que este pequeno grupo, pela maior parte, homens completamente desconhecidos, reuniu•se, dia após dia, para discutir questões de teologia. Aparentemente não podia haver reunião mais insignificante. Entretanto, julgado por suas conseqüências históricas, aquele ajuntamento despretensioso na Foundry é o mais importante acontecimento do ano 1744. Era a primeira Conferência Metodista. Criou inconscientemente o mais notável, e, em certo sentido, o mais poderoso concílio eclesiástico conhecido no Cristianismo moderno. Um mecanismo que é hoje (início do Século XIX, quando esse livro foi escrito) o instrumento efetivo no governo de uma Igreja com quase 30.000.000 almas.

Quem contempla com olhos meditativos a este pequeno grupo de homens sérios enxergará nele um reflexo curioso do trabalho de João Wesley nesse tempo, e uma profecia do seu desenvolvimento futuro.

O Metodismo, nesse tempo (século XVIII), era um movimento interno na própria Igreja Anglicana. Era um avivamento espiritual que achava a sua inspiração e liderança num grupo de ministros anglicanos. Assim, dos dez homens que formaram a primeira Conferência Metodista, seis eram, mui propriamente, ministros anglicanos. Mas o movimento era destinado a ir muito além dos limites da Igreja Anglicana. Havia de dar novo desenvolvimento ao ministério cristão e conferir aos leigos uma participação na vida e trabalho eclesiásticos até então desconhecida. E assim, como próprio à profecia, dos dez homens, quatro eram pregadores leigos, cujas cabeças ainda não haviam recebido a imposição de quaisquer mãos em ordenação.

É verdade que os leigos estavam nesta primeira Conferência só, por um especial favor. Os seis clérigos reuniram-se primeiro. A primeira pergunta que se fez foi: “Quaisquer dos nossos irmãos leigos devem ser admitidos a esta Conferência?”. Contemplados através os “óculos eclesiásticos” (olhar clericalista), os auxiliares de Wesley eram ainda somente “irmãos leigos”, embora estivessem entregues inteiramente ao trabalho da pregação. Foi registrada a resposta bastante cautelosa: “Concordamos em convidá-los de tempos em tempos quando julgarmos melhor”. Então veio a pergunta: “Quais deles devemos convidar hoje?” A resposta indica os quatro nomes já mencionados.

Quando a segunda Conferência foi celebrada em Bristol, um ano mais tarde, era composta também de dez homens e sete destes eram leigos, e um deles nem era pregador, nem nunca chegou a ser tal. Durante largo espaço, em tempos mais recentes, os leigos não tiveram lugar algum nas Conferencias Metodistas; mas nunca se deve esquecer que os leigos formaram parte da sua constituição original.

A primeira Conferência aparece entre os fervores de um grande trabalho espiritual, e, como era se de esperar, o seu espírito foi intensamente sério. A primeira resolução registrada reza:
“Que todos os assuntos sejam tratados como se estivéssemos na presença de Deus mesmo. Que reunamos com propósito singelo, e como criancinhas, que ainda têm de aprender tudo. Que todas as questões propostas sejam examinadas até os alicerces”. (Myles, pág. 36.).

Perguntou-se também, como se pode fazer o tempo desta Conferência ainda mais eficazmente um tempo para vigiarmos em oração? A resposta é:
“1 - Enquanto estivermos conversando, cuidemos especialmente que sempre tenhamos Deus diante de nós.
2 - Nas horas intermediárias, visitemos a ninguém senão aos doentes, e passemos todo o tempo restante em retiro.
3 - Então entreguemo-nos à oração, uns pelos outros, e por uma bênção sobre este nosso trabalho”.

É certo que essa Conferência não era um simples clube de debate. Tinha de trabalhar, bem como discutir!

A primeira parte da Conferência que durou seis dias, foi dada à discussão de uma mui minuta e sincera da pergunta: “Que se deve ensinar?” E aqueles que lêem as conversas que seguem, que versam de grandes assuntos tais como, a justificação, a fé, a santificação, etc., bem podem deduzir que esta primeira, de todas as Conferências Metodistas, andava em busca de um credo.

Aqui estava um grupo de clérigos ocupados penosamente em redescobrir o Cristianismo! Mas tal não é a verdade. Esses clérigos e leigos sérios não tinham teologia alguma que fosse fora dos limites dos trinta e nove artigos da Igreja Anglicana. Mas aquilo que faziam tinha o seu significado; estavam experimentando e definindo, de novo, essas doutrinas à luz de uma experiência consciente e espiritual. As definições de justificação, arrependimento, fé, etc., que eles registram são notavelmente simples e diretas:
“Pergunta: Que significa ser justificado?
Resposta: Ser perdoado, e recebido no favor de Deus, estado em que, se continuarmos nele, seremos salvos no fim.
Pergunta: A fé é a condição da salvação?
Resposta. Sim; porque todo o que crê é justificado.
Pergunta: Que é a fé?
Resposta: Fé, em geral, é uma elenchos (demonstração) sobrenatural e divina de cousas que não se vêem, isto é, de cousas passadas, futuras ou espirituais; é uma visão espiritual de Deus e das cousas de Deus. Portanto o arrependimento é uma baixa espécie de fé – isto é, uma percepção sobrenatural de um Deus ofendido. Então o pecador está convencido pelo Espírito Santo de que “Cristo me amou e deu-se a si mesmo por mim”. É esta a fé pela qual ele é justificado ou perdoado no momento que a recebe. Imediatamente o mesmo Espírito testemunha: “Tu estás perdoado. Tu tens redenção mediante o Seu sangue”. E é esta a fé salvadora mediante a qual o amor de Deus é derramado no coração. (Myles, pág. 27)

Aqui temos a teologia, não na forma da metafísica, mas verificada na experiência humana. Cada sílaba destas definições fora experimentada por este grupo de homens, no alambique da consciência.

É ainda divertido notar como aquela primeira Conferência tentava guardar um equilíbrio teológico no meio dos choques da controvérsia. Assim ela se interroga cuidadosamente, na forma de perguntas e respostas, acerca da correção de suas próprias opiniões:
“Pergunta: Não temos, inconscientemente, nos inclinado demais para o Calvinismo?
Resposta: Receamos que sim.
Pergunta: Não temos também nos inclinado para o Antinomianismo?
Resposta: Receamos que sim”.

Mas a segunda Conferência reuniu-se quando os horizontes estavam mais limpos e o calor da controvérsia começava a acalmar-se. Acha que o pêndulo havia oscilado longe demais numa direção. É necessário agora enfatizar mais os pontos de concordância. E temos uma nova declaração:
“Pergunta: Não será que a verdade Evangélica esteja bem perto tanto ao Calvinismo como ao Antinomianismo?
Resposta: Deveras está, por assim dizer, à distancia da grossura de um cabelo. De modo que se torna de tudo fútil e pecaminoso, por não concordarmos com um ou outro, afastarmo-nos deles tão longe quanto nos for possível.
Pergunta: Em que é nos permissível chegarmos à própria beira do Calvinismo?
Resposta: 1) Em atribuirmos todo o bem à livre graça de Deus. 2) Na negação de toda a vontade livre natural, e toda a habilidade antecedente da graça; e 3) Na exclusão de todo o mérito humano; mesmo alquilo que faz pela graça de Deus.
Pergunta: Em que é nos permissível chegarmos à própria beira do Antinomianismo?
Resposta: 1) Na exaltação dos méritos e do amor de Cristo. 2) Por sempre regozijarmos.
Pergunta: A fé suplanta a santidade ou as boas obras, (tornando desnecessária?
Resposta: De modo algum. Pelo contrário, abrange a ambas, como a causa ao efeito.”

Onde, na história, se encontra uma companhia de teólogos, tão pouco tempo saídos de uma controvérsia, mas tão sinceramente ansiosos em suavizar as suas próprias teorias deste modo?! Quão intensamente práticos, e ainda quão intimamente pessoais, foram as experiências pelas quais estes primeiros pregadores metodistas provavam a sua teologia, se pode ver num fragmento das conversas na Conferência de 1745, em Bristol:
“Pergunta: Esvaziamos aos homens de sua própria justiça como fizemos no começo?
Resposta: No começo era este um dos nossos pontos capitais. E ainda o deve ser, porque até que forem subvertidos todos os mais alicerces, não podem edificar sobre Cristo.
Pergunta: Não tentávamos propositalmente produzir neles convicções? Tristeza e temor profundos? E não nos esforçávamos para fazê-los inconsoláveis, recusando a se consolarem?
Resposta: Sim, e ainda devemos fazer o mesmo; porque mais forte for a convicção, quanto mais depressa virá o livramento. E ninguém recebe tão de pronto a paz de Deus como aqueles que recusam todos os mais confortos.
Pergunta: Consideremos um caso individual. Tu, Jonathão Reeves, antes de teres recebido a paz de Deus, estavas convicto não obstante tudo que fizestes, ou que poderias fazer, ainda permanecias no estado de condenação?
Resposta de Jonathão Reeves: Senti-me tão convicto disso como me sinto hoje de achar-me vivo.
Pergunta: Tens certeza que aquela convicção vinha de Deus?
Resposta de Jonathão Reeves: Não posso duvidá-lo.
Pergunta: Que entendes por um estado de condenação?
Resposta de Jonathão Reeves: Um estado em que, se alguém morrer, perecerá eternamente.
Pergunta: De que maneira terminou esta convicção?
Resposta de Jonathão Reeves: Primeiro, tive uma grande esperança que Deus me livraria, e isto me trouxe um certo grau de paz; mas não alcancei a paz sólida de Deus até que Cristo se revelou em mim. (Myles, pág. 47)

Evidentemente são teólogos de um tipo inteiramente novo. Baseiam-se em terreno sólido. Os artigos de sua fé marcam passo com os fatos conscientes. Entretanto, reconhecem mui francamente a lei de desenvolvimento em suas crenças. Assim a segunda Conferência pergunta:
“Pergunta: Em que diferi agora a nossa doutrina daquela que pregamos em Oxford?
Resposta: Principalmente nestes dois pontos: 1) Naquele tempo nada sabiamos dessa justiça da fé, da justificação; 2) nem da natureza da mesma fé, como trazendo-nos a consciência do perdão.”

A primeira Conferência discutiu certas questões que pertencem ao domínio casuístico, tais como: “Até que ponto o Cristão pode submeter o seu juízo a outro?” “Se é licito servir em armas?” “Até que ponto é o nosso dever obedecer ao Bispo?”, etc. Discutiu-se demoradamente acerca da “Sociedade e seus oficiais,” e preparou ali as regras que são praticamente as ordens de marcha para a soldadesca metodista em todo o tempo. Em termos espirituais, podemos chamá-las de “uma tradução da caderneta do Soldado de Lorde Wolsey”. Mas discutiu-se um assunto que se pode chamar de importância profética: a relação do novo movimento com a Igreja Anglicana, e os desenvolvimentos prováveis dessas relações, futuramente. O debate ia com admirável direção a este, o mais importante de todos os problemas:
"Pergunta: Estamos nós separados da Igreja Anglicana?
Resposta: Achamos que não: por amor da consciência temos comunhão com ela por uma constante assistência, tanto na pregação da palavra, como na administração dos sacramentos.
Pergunta: Que pretendem aqueles que dizem: "Estais vos separando da Igreja?”
Resposta: Não podemos dizer com certeza. Talvez eles não têm um significado determinado, a não ser que entendam, por Igreja, eles mesmos – isto é, aquela parte do clero que nos acusa da pregação de doutrinas falsas. E é certo que nisto nos separamos deles, mantendo aquilo que eles negam.
Pergunta: Não é provável que depois da vossa morte, os vossos ouvintes sejam espalhados por todas as seitas e partidos? Ou, que eles se formem numa seita distinta?
Resposta: 1) Somos persuadidos que a massa dos nossos ouvintes, mesmo depois da nossa morte, permanecerá na Igreja a não ser que seja expulsa. 2) Entretanto, cremos que será expulsa. Ou levedarão a Igreja inteira. 3) Fazemos, e continuaremos a fazer, o possível para obstar as conseqüências que se supõem prestes a acontecerem depois da nossa morte. 4) Mas, não podemos, em boa consciência, negligenciar a oportunidade presente de salvar almas enquanto vivermos, pelo temor das conseqüências que são possíveis ou prováveis depois da nossa morte. (Myles, pág. 47)

Seria difícil sobrepujar a sabedoria prática e bem pensada das palavras dessa resolução final.

Ninguém pode ler as atas dessa primeira Conferência sem ver que já, embora mui inconscientemente no tocante às pessoas mais interessadas no assunto, estava cristalizando a forma de uma Igreja notavelmente prática e completa na sua organização. Todas as feições permanentes da organização metodista são claramente visíveis nos cinco anos que se seguiram ao primeiro sermão de Wesley ao ar livre. Por exemplo, aquela primeira Conferência fez a pergunta: “Quais os oficiais pertencentes a esta Sociedade?” E a resposta mostra quão completa, mesmo nesta época, era a organização do metodismo.

Tão cedo como 1747 Wesley havia prescrito as “Regras para os Ecônomos das Sociedades Metodistas”, e estas constituem um lindo reflexo, não somente de seu tino administrativo, mas de sua consideração dos pobres. Bem poderiam governar os negócios eclesiásticos do Metodismo hodierno:

“1) Deveis ser homens cheios do Espírito Santo, e de sabedoria, que possais fazer tudo de uma maneira aceitável a Deus. 2) Deveis tratar semanalmente dos negócios temporais da Sociedade. 3) Deveis começar e terminar cada reunião com oração sincera, pedindo que Deus abençoe a todos os vossos empreendimentos. 4) Não façais cousa alguma sem o consentimento do ministro, atualmente dada ou razoavelmente presumida. 5) Quando reunirdes haveis de lembrar: “Deus está aqui”. Portanto sêde sérios. Não faleis com aspereza. Falai como na presença de Deus, para a glória do seu grande nome. 6) Quando houver qualquer causa em discussão que um se levante e fale, e os outros prestem atenção. E que só fale em voz suficientemente alta para ser ouvido, em amor e no espírito de mansidão. 7) Em todas as discussões deveis vigiar o vosso espírito, evitando, qual o fogo, todo o clamor e contenda, estando pronto para ouvir, comedidos no falar; na honra dê cada um de vós preferência aos outros. E se não puderdes aliviar aos pobres, ao menos não os entristeçais. Dai-lhes palavra brandas, se nada mais, abstendo-vos tanto de feições repulsivas como de palavras ásperas. Que venham com alegria, ainda que tenham de ir embora vazios. 9) Colocai-vos no lugar de todo o pobre, e tratai-o como quereis que Deus vos trate a vós. (Myles, pág. 36)

Algumas das primeiras agências do Metodismo não sobreviveram à experiência do tempo. Por exemplo, a reunião dos bandos representa o oscilar do pêndulo espiritual em direção perigosa. Esses bandos avizinhavam demais perto o confessionário, e encerravam alguns dos males do confessionário. Já desapareceram. Mas as principais feições do Metodismo – como Wesley mesmo, nessa época tão nova, de seu trabalho, lhes formava – sobrevivem ainda, e entre estas, a mais notável é a Conferência (os Concílios), cuja gênesis se descreve aqui. Uma grande irmandade de tais Conferências se acha em operação ativa hoje; e cada qual continua em substância (essência), se não em detalhes, fiel ao tipo original.

De fato, a Conferência, como peça de mecanismo eclesiástico, é talvez a contribuição mais original que o Metodismo tem feito à história eclesiástica. O próprio Metodismo seria hoje somente uma conglomeração de fragmentos sem nexo se não tivesse este grande tribunal, que é a um tempo o símbolo e o instrumento da sua união. No sistema metodista a Conferência é o órgão pensante da Igreja; o instrumento governante; o centro nervoso que coordena todas as forças do organismo espiritual colocando-as sob o governo de um único propósito. Não há outro Concilio conhecido na história religiosa que possui todas as funções da Conferência Metodista. É um parlamento revertido de todas as funções de legislação; um gabinete de administração; um tribunal de disciplina; o mecanismo pelo qual o grande sistema da itinerância, que é característico do pastorado das Igrejas Metodistas, se regula. Também se pode dizer que na itinerância pastoral, se acha escondido um instrumento silencioso e pouco reconhecido, se bem que mui efetivo, de disciplina; uma força que preenche todos os fins sem a forma de processo disciplinar, e que explica em grande parte a pureza doutrinária da Igreja Metodista.

Existem hoje em todos os países Igrejas Metodistas, e naturalmente são afetadas em muitos detalhes pelo meio social e geográfico. Por exemplo, na Grã-Bretanha, a própria Conferência mãe está ocorrendo risco de sofrer, em ordem e energia, pela mera congestão de números. Uma reunião de quase mil homens, todos peritos no falar, é o pior instrumento para o despacho de negócios que a inteligência humana jamais inventou, ou que a paciência humana jamais suportou. Teremos de ir à Polônia com o seu “liberurm veto” para vermos cousa análoga. Na Conferência Britânica, pela simples necessidade da sua escala, o trabalho tem de se fazer por comissões; e a própria Conferência, senão nos largos negócios da política, é praticamente mero instrumento registrador de suas próprias comissões. Não constitui isto uma condição mui salutar, pois representa um divórcio entre o poder e a responsabilidade; a Conferência tem responsabilidade sem poder. Numa palavra, o sistema está apto para tornar-se veneziano, dando poder a uns poucos que se reúnem e determinam sem o tônico da publicidade.

Nos Estados Unidos o sistema episcopal modifica a Conferência; entretanto os bispos são as criaturas da Conferência e continuam como servos dela. No Canadá e na Austrália a mera escala geográfica tem modificado a estrutura e as funções da Conferência. Por exemplo, na Austrália as Conferências Anuais são apenas corporações administrativas. A Conferência Geral, que se reúne de quatro em quatro anos, é uma corporação delegada que age como tribunal de revisão, e é o único depositário de poder legislativo. A separação de funções representa, cientificamente, o desenvolvimento mais elevado de um organismo. E na prática a separação das funções legislativas e administrativas nas Conferências tem sido produtiva de muitos resultados felizes. A administração é mais eficaz do que sob o sistema anterior; ao passo que a legislação, sendo limitada a uma corporação que se reúne somente de quatro em quatro anos, tem vantagens evidentes. A oportunidade de fazer experiências legislativas só vem com intervalos longos.

Mas em todos os climas, e sob todas as condições sociais e geográficas, a Conferência Metodista ainda traz o selo do impulso providencial que lhe deu origem, e da vontade dominante, e da inteligência de estadista, do grande líder que lhe deu forma. Não é um simples clube de debates. Não é um fragmento de democracia indeterminada. Não obstante, leigos, no que toca aos interesses financeiros e seculares da Igreja, têm sido admitidos à sociedade com a maior franqueza; mas, falando em termos gerais, o ofício pastoral tem sido zelosamente conservado, e tudo que se relaciona com a educação e a disciplina dos ministros, e a sua distribuição nos cargos pastorais da Igreja, está nas mãos dos ministros.

E onde, em toda a história eclesiástica pode-se achar um instrumento governante tão eficaz!? Os grandes concílios da Idade Média à semelhança de tantas assembléias eclesiásticas, em tempos modernos eram principalmente grandes sociedades de debates. Surge na crise de uma heresia qualquer; determinam alguma dissensão a respeito de doutrina, e então desaparecem. Sob a forma de governo episcopal, um Concílio não pode ter outra função senão a de debate. Também Igreja do tipo Congregacional ou Presbiteriano, com pastorados fixos, não podem ter um tribunal governante com o escopo, tanto de autoridade como de ação prática, que pertence à Conferência Metodista.

Na Sua Conferência, o sistema metodista alcança a sua expressão mais elevada e natural. É uma corporação que não reina somente, ela governa. E governa efetivamente e sem delongas.
______________________________________________________________
** (Esse texto corresponde ao capítulo V, "A Conferência", do livro "Wesley e seu século – um estudo de forças espirituais, volume II", respectivamente nas páginas 57 a 67, edição de 1916 publicada pela Typographia de Carlos Echenique, Porto Alegre, RJ).

OBS: Esse livro originalmente não usa parênteses. As notas explicativas dentro de parênteses são de iniciativa dessa edição on line do site da Igreja Metodista de Vila Isabel).

Voltar


 

Copyright 2006® todos os direitos reservados.