IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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João Wesley
Rio, 1/9/2009
 

Wesley e os Pobres

Bispo Paulo Lockmann


 


1. Os pobres como herança bíblica

Este pequeno artigo é tão-somente uma recordação, nos termos que os Apóstolos em Jerusalém passaram a Paulo: “E, quando conheceram a graça que me foi dada, Tiago, Cefas e João, que eram reputados colunas, me estenderam, a mim e a Barnabé, a destra de comunhão, a fim de que nós fôssemos para os gentios, e eles, para a circuncisão; recomendando-nos, somente, que nos lembrássemos dos pobres, o que também me esforcei por fazer.” (Gl 2.9-10).

Conforme essa lembrança, os pobres são eixo de leitura na Bíblia, pois, nela, Deus faz repetidas vezes uma opção pelos pobres. A frase célebre é a de Êxodo: “Disse, ainda, o Senhor: Certamente, vi a aflição do meu povo, que está no Egito, e ouvi o seu clamor por causa dos seus exatores. Conheço-lhe o sofrimento.” (Êx 3.7).

Tal compromisso foi reiterado diversas vezes pelos profetas, pelo Senhor Jesus e pela Igreja primitiva, a ponto de dois elementos decisivos serem sublinhados; o primeiro, que diz: “Pois nenhum necessitado havia entre eles, porquanto os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam os valores correspondentes e depositavam aos pés dos apóstolos; então, se distribuía a qualquer um à medida que alguém tinha necessidade.” (At 4.34-35). E, mais adiante, sabemos que os diáconos são instituídos para que as viúvas fossem atendidas em suas necessidades.

Sabemos que esses momentos na vida da Igreja primitiva têm sido questionados, como fundamento para uma opção pelos pobres, ou mesmo de um socialismo cristão. Pois, conforme uma exegese liberal e burguesa, que diz que esse momento foi historicamente muito curto, e gerou uma grande miséria para as igrejas da Judéia, para as quais Paulo teve de fazer coletas. (cf. 1Co16.1-3) (1). Isto é no mínimo abstrair-se do fato de que a pobreza era uma dura realidade em todo o Império Romano, especialmente na terra de Israel.

Outros argumentam corretamente que esta opção de vida em comum, eliminando a pobreza do meio cristão, tinha, como pano de fundo teológico, a escatologia. Ainda que estes argumentos exegéticos sejam verdadeiros, não invalidam o fato de que o eixo de leitura, os pobres, na Bíblia, é decisivo do Pentateuco ao Apocalipse.

Nesta mesma direção, os pobres continuaram como sujeitos históricos no fazer teologia em toda a História da Igreja, com conhecidos momentos de silêncio.

Desse modo, João Wesley representa, junto com o avivamento espiritual que ele liderou, um dos momentos onde o eixo bíblico, os pobres, foi recuperado como decisivo na vida da Igreja e no seu modo de fazer teologia e missão.

Sendo assim, nosso artigo tem limites, os quais são: primeiro, o espaço disponível; segundo, é que ainda é pouca a bibliografia sobre o tema traduzida para o português. Por isso, me limitarei ao disponível. Vou ocupar mais tempo com as referências de Wesley aos pobres.

2. A Inglaterra de João Wesley
Deve-se dizer algo da nação inglesa em tempos de Wesley. As descrições são severas; era um país rude, onde a maldade e a impiedade condenava a maioria da população à mais vergonhosa miséria.

O século XVIII, sendo um tempo de grande desenvolvimento econômico, de expansão colonial para a corte inglesa, foi também de gritante contraste social. Ao mesmo tempo que começou tendo Irlanda, Escócia e Inglaterra separados, encerrou com eles unidos em um único reino, perdeu a colônia americana, mas alcançou a Índia, Austrália e Canadá. O governo de Guilherme Pitt foi de grandes conquistas econômicas, sob o reinado de George III (2).

Apesar disso, a classe trabalhadora, tanto na lavoura como na indústria, ganhava muito pouco. Um homem do campo ganhava de quinze a trinta reais por semana (3). A tendência, nesse tempo, já era de migração para os centros urbanos, e para os centros de minas de carvão, onde havia serviço, ainda que fosse sob condições extremamente desumanas. Carecia o país de meios de transporte, pois o transporte por diligência era raro e precário. Lembramos aqui as condições precárias em que Wesley fazia suas viagens missionárias, o que refletia a falta de infra-estrutura básica no país.

Vejamos a descrição que o professor Paul E. Buyers fez sobre as condições de vida do povo inglês em tempos de Wesley: “Havia a classe dos abastados e ricos que não se importavam com os operários e negociantes. Não se importavam com os pobres e ignorantes, não porque se julgassem melhores, mas porque eram indiferentes ao bem-estar dos seus semelhantes. Portanto, havia gente perecendo diante dos seus olhos e eles não se importavam com isso. Não sentiam qualquer responsabilidade em promover a alegria dos seus semelhantes menos favorecidos. Estavam no caso do rico da parábola do rico e de Lázaro.

A respeito dos pobres, o número deles, na Inglaterra, naquela época, era enorme. Os mendigantes se encontravam em Londres, nas vilas e nas zonas rurais. O pequeno salário dos operários é uma explicação disso, mas havia outras razões também: falta de serviço, crises e indolência.

Em face de tanta pobreza, havia um espírito benévolo entre os abastados e da parte do governo. O governo não deixava de atender às necessidades dos pobres, porém, havia muita fraude na administração da caridade. E, fato notável, quanto maior verba se destinava ao socorro da pobreza, tanto mais pobres se apresentavam.” (4)

Neste quadro histórico resumido, é necessário sublinhar a realidade das prisões inglesas, pois sua crueldade e imundícia só são comparáveis com algumas prisões atuais do terceiro mundo. Os presos morriam em quantidade por desnutrição e doenças de todo o tipo. Por ser esse um grande desafio, foi que Wesley, desde Oxford, cultivou o ministério entre os presos, sendo esta uma pastoral tipicamente wesleyana entre os pobres.

3. Wesley e os Pobres
Aqui caberia uma longa exposição sobre a abordagem de Wesley sobre os pobres, assim como acerca das várias iniciativas pastorais missionárias que Wesley teve em atenção aos pobres.

a) O que disse Wesley acerca dos pobres?
Devemos lembrar uma das expressões de Wesley tomadas das notas do Novo Testamento, a qual é sobre a expressão de Jesus em Lucas 7.22: “Então, Jesus lhes respondeu: Ide e anunciai a João o que vistes e ouvistes: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres, anuncia-se-lhes o evangelho.”

Diz Wesley acerca do final sobre os pobres: “Aos pobres é pregado o Evangelho: O qual é a maior misericórdia e o maior milagre” (5) .

Wesley reflete brevemente acerca da pobreza em seu sermão sobre: “A tristeza através de muitas tentações”. Diz ele: “A pobreza não traz consigo coisa pior que o fazer com que os homens se tornem sujeitos à mofa... Mas não é a falta de alimento pior do que isso? Deus proclamou como maldição sobre o homem o fato de que ele deveria “ganhar o pão com o suor do seu rosto”. Mas quantos há neste país cristão que trabalham e suam e, afinal, não têm senão que lutar contra a tristeza e a fome? Não é triste para alguém, depois de um dia pesado de trabalho, chegar a sua casa pobre, suja e sem conforto, e não encontrar pelo menos o alimento necessário à reparação de suas energias gastas? Refleti, vós que tendes vida tranqüila na terra e de nada tendes necessidade, senão de olhos para ver e de ouvidos para ouvir e de coração para entender o quanto Deus vos tem feito, quão terrível é o procurar o pão diariamente e não achá-lo! Talvez o encontrar o conforto de 5 ou 6 filhos, clamando por aquilo que não podeis dar! Não é porque o homem é contido por mão invisível que ele, desde logo, não “amaldiçoa a Deus e morre”? Oh, falta de pão! Falta de pão! Quem pode dizer o que isso significa enquanto não o sente em si mesmo? Fico atônito, porque isso não causa mais do que tristeza mesmo naqueles que crêem.” (6)

Ou, ainda, num sermão pregado no dia 2 de julho de 1789, sobre a “ineficácia do Cristianismo”, Wesley, a certa altura, reflete, usando o exemplo citado por nós da Igreja primitiva, dizendo: “Rogo a Deus que me permita, antes de morrer, levantar a voz mais uma vez, como um toque de trombeta, para alertar os que acumulam dinheiro e não dão tudo o que podem. Muitos irmãos nossos, amados de Deus, não têm comida, roupas, nem onde recostar a cabeça. Por que sofrem tanto? Vejam os membros pobres de Cristo, traspassados de fome, tremendo de frio, quase nus! Enquanto isso, vocês desfrutam da abundância das coisas deste mundo, como carne, bebida e roupa. Será possível atender a todos os pobres de nossa sociedade? A Igreja primitiva de Jerusalém conseguiu fazer isso. “Não havia nenhum necessitado e se repartia a cada um segundo sua necessidade” (At 4.34-35). Temos provas suficientes de que, ainda hoje, isso pode ser feito. Vejam os quakers e os moravianos. Por que não podemos fazer o mesmo?” (7).

Muito mais poderia ser recolhido nos diversos sermões de João Wesley acerca do pobre e da pobreza, mas, sem dúvida, o que anotamos já nos permite extrair lições para o Metodismo brasileiro, especialmente referências históricas e teológica para a nossa ação missionária.

Em tempos em que no meio evangélico absorvemos a linguagem competitiva do mundo capitalista, usando terminologia bíblica para justificar aspirações de ascensão social e de enriquecimento, quando expressões como “sou filho do Rei” deixa de ser confissão teológica, de uma fé serva de Deus e do próximo, para justificar o tomar posse de bens, tornando-se um slogan da doutrina da prosperidade. Diante disso, temos as palavras de João Wesley: “Durante a semana seguinte, viajei por Kent e Essex, onde alguns irmãos estão prosperando no trabalho com a terra. Prosperam também na graça? Se não, tomem cuidado que não pereçam juntos com o dinheiro” (8) . Aqui, Wesley acompanha o conselho do Apóstolo Paulo: “Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores.” (1Tm 6.9-10). Muito se poderia dizer, mas a verdade é que nosso compromisso com o Reino nos termos paulino e wesleyano nos apontam outro compromisso, os pobres, o Evangelho, e estes compromissos nos impedem de aspirar a riqueza e prosperidade.

b) O que Wesley fez em favor dos pobres?
Aqui está a mais extensa das ações de João Wesley, pois ele criou cooperativas, incursionou na medicina popular, criou uma escola para os filhos dos mineiros em Kingswood, sempre motivado no zelo pela causa dos pobres. É verdade que muitos esforços foram assistenciais, motivados pelo profundo amor pelo ser humano, que Deus, pelo seu Espírito, pôs no coração de Wesley. Vejamos alguns depoimentos dele mesmo sobre tais iniciativas a favor dos pobres.

Vejamos suas notas tomadas de diferentes datas em seu diário: “Quinta-feira, 22 de março de 1744 - Relatei à Sociedade o que temos feito em prol dos pobres. De contribuições e coletas, arrecadamos a quantia de cento e setenta libras, importância que foi gasta em socorrer com roupas a mais de trezentas e trinta pessoas; ficaram ainda trinta ou quarenta sem auxílio, e também uma dívida pela roupa já distribuída. No dia seguinte, sendo sexta-feira, levantamos uma coleta que rendeu cerca de vinte e seis libras; tal tesouro, ao menos, não será atacado pela ferrugem ou traça, nem pelos ladrões.”

“Segunda-feira, 15 de outubro de 1759 – Andei a pé até Knowle, boa milha distante de Bristol, para visitar os prisioneiros franceses. Mais de mil e cem, segundo fomos avisados, estavam reunidos num pequeno espaço, sem cousa alguma em que deitar, senão colchões de palha, e sem cobertores; para se cobrirem, só tinham alguns trapos; quer de dia quer de noite, portanto, morreram como se fossem ovelhas atacadas de morrinha. Fiquei horrorizado; à tarde preguei sobre Êxodo 23.9: “Não oprimirás o peregrino; pois vós conheceis o coração do peregrino, visto que fostes peregrinos na terra do Egito”. Levantou-se uma coleta que rendeu dezoito libras, e no dia seguinte chegou a vinte e quatro. Com esta quantia compramos roupa de cama, cobertores, e pano, que foi convertido em camisas e calças; compraram-se também algumas dúzias de meias, e tudo isso foi distribuído entre aqueles mais necessitados. Logo depois, a Congregação de Bristol mandou grande número de colchões e cobertores; e não demorou para chegarem de Londres outras contribuições; e ainda mais: vieram contribuições de várias partes do reino. Portanto, creio que, daqui em diante, os soldados serão mais bem servidos.” (9)

Neste propósito, Wesley organizou e apoiou albergues para crianças; vejamos como fala de um deles em seu diário: “Quinta-feira, 14 de fevereiro de 1771 – “Visitei o Albergue de Londres, e vi tudo no andar térreo e sobrado. Há cerca de cem crianças ali, e são bem tratadas, como se em casa particular de família. Todo o Albergue é tão limpo nos dois andares que mais parece casa de cavalheiro. E por que não estão assim conservados todos os albergues em Londres? Simplesmente porque os encarregados, ou não têm juízo, ou não são honestos, ou são preguiçosos.” (10)

Saiu em defesa dos doentes e de uma pobre mulher atormentada de dores no estômago, refletindo sobre o que considerava os limites da medicina; por isso certamente escreveu seu manual de medicina popular: “Refletindo hoje sobre o caso de uma pobre mulher que sofre continuamente de dor no estômago, pude observar a negligência indesculpável da maioria dos médicos nos casos dessa natureza. Prescrevem drogas e mais remédios, sem saberem um jota da natureza de tais desordens. Não a conhecendo, não podem curar, embora possam matar o paciente. De onde vem a dor dessa mulher (ela nunca teria dito coisa alguma se não fosse perguntada)? Ela vem do desgosto pela morte do seu filho. De que adiantará o remédio, enquanto permanecer a tristeza? Por que então não consideram todos os médicos até onde as desordens físicas são causadas ou influenciadas pela mente, e por que não pedem a assistência de um ministro para os casos que fogem à sua alçada? Pois os ministros pedem a ajuda do médico quando descobrem que a mente está afetada pelas complicações corporais. Mas por que fogem tais casos da sua alçada? Porque não conhecem a Deus. Segue-se que nenhum homem poderá ser bom médico, sem que seja um cristão experimentado. (Diário: “Sábado, 12 de maio de 1759” (IV, 313). (11)

Essas ações em favor dos sofredores alcançaram especial momento em sua carta de estímulo a William Wilberforce, em sua luta contra a escravidão: “Não vejo como o senhor poderá levar avante a sua gloriosa empresa, opondo-se àquela execrável vilania – a escravidão, que é o escândalo da religião, da Inglaterra e da natureza humana. Se Deus não o levantou para esta tarefa, o senhor será gasto pela oposição dos homens e dos demônios. Mas se Deus for consigo, quem será contra o senhor? São eles, juntos, mais fortes do que Deus? Oh, não se entristeça de fazer o bem! Continue em nome de Deus e no seu poder, até que mesmo a escravatura americana, a mais vil que o sol já viu, desapareça.” (Cartas: “A William Wilberforce” (VIII, 265). (12)

Hoje, nós seguimos sendo desafiados a incursionar em ações que alcancem os pobres, caminhando em direção de pastorais específicas que alcancem os marginalizados e empobrecidos, especialmente quando o neoliberalismo e a globalização transformam dois terço da população mundial em marginais do grande mercado, por não serem competitivos. Mais do que nunca, o eixo hermenêuticos os pobres torna-se o desafio a uma pastoral missionária, que, apoiada na Bíblia, e inspirada na paixão wesleyana pelas “almas”, especialmente dos empobrecidos, chega a nós com um clamor veemente.


CITAÇÕES:
1) Giordani, Mario C. História de Roma. Petrópolis: Vozes. 1968. p. 189.
2) Fitchett, W.H. Wesley e seu Século. São Paulo, Imprensa Metodista. 1927. P. 19.
3) Idem. P. 20.
4) Buyers, Paul Eugene. História do Metodismo. São Paulo, Imprensa Metodista. 1945. p. 13.
5) Wesley, John. Explanatory Notes upon the New Testament. London, Epworth Press. 1977. P. 227.
6) Burtner e Chiles – Coletânea da Teologia de João Wesley. Rio de Janeiro, Editora Bennett. 1995. p 229-230.
7) Barbosa, José Carlos. Adoro a Sabedoria de Deus. Piracicaba, Editora Unimep. 2002. P. 194.
8) Buyers, Paul E. Trechos do Diário de João Wesley. São Paulo, Jugec. 1965. p. 139.
9) Buyers, Paul E. Trechos do Diário de João Wesley. op cit. p. 108 e 109.
10) Idem op cit. p. 110.
11) Burtner e Chiles, op cit. P . 234 e 235.
12) Burtner e Chiles, op cit. p. 238.

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