IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 27/10/2009
 

O título de Declaração: o Metodismo inglês torna-se uma pessoa jurídica ** (Rev. W. H. Fitchett)

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O fracasso do esforço, em 1764, para conseguir o auxílio continuado do clero evangélico na Igreja Anglicana afetou profundamente o futuro desenvolvimento do Metodismo. João Wesley leu um relatório a Conferência Metodista de 1769, historiando o apelo ao clero e o seu fracasso. Ele disse: “Dos cinqüenta ou sessenta, aos quais escrevi, somente três se dignaram de responder-me, de modo que os larguei. Nada mais posso fazer. Constituem corda de área, e tais permanecerão. A única resposta que Wesley recebeu nessa época, veio em forma de um pedido, que ele pusesse as sociedades nas diversas paróquias sob a direção dos respectivos párocos, e que deixasse de enviar os seus auxiliares a qualquer lugar onde houvesse um ministro piedoso. Importava isto em proposta de suicídio espiritual para o movimento.

Foi justamente nesta ocasião, que João Wesley sentiu uma grande. Os seus primeiros camaradas não se achavam mais a seu lado. George Whitefield era simplesmente evangelista viandante (itinerante) absorto no seu trabalho em terreno americano. Não possuía propriamente quaisquer planos ordenados, nem se achava capaz de tomar parte alguma nos planos ordenados de outro qualquer. Ainda mais, achava•se separado de Wesley por uma divergência perdurável e fatal em doutrina. João Wesley tinha de descontar (desconsiderar) Whitefield como força permanente no Avivamento. Carlos Wesley já deixara praticamente do itinerário (a itinerância), e os irmãos estavam divergindo entre si em questões eclesiásticas. Para Carlos Wesley a “Igreja” tornava-se cada vez maior do que o Avivamento; ao passo que João Wesley, embora recusando tomar um só passo voluntário na direção de separação, via, no entanto, que esta separação, fazia-se inevitável. A Igreja Anglicana não lhe dava mais auxiliares, e, era evidente, que ela não tinha quaisquer tenções amistosas a respeito de suas sociedades.

Ele agora contava quase setenta anos de idade. O fim de seus labores terrenos se aproximava. Não era homem de grande imaginação. Ele não olhava longa; via claramente apenas as cousas logo ao redor, mas pouca visão tinha para a paisagem. Mas afinal lhe chegara uma apreciação da grandeza e continuidade de seu trabalho. Havia de perpetuar-se. Já desenvolvera além de seus sonhos, e ainda havia de crescer. E ele precisava de algum modo dar ao movimento ordem, disciplina, e continuidade de método depois da sua morte. Era preciso que ele cristalizasse em forma orgânica as agências e forças enleadas que constituíram o Metodismo dessa época. O homem morre, mas a instituição que é sabiamente planejada torna-se imorredoura. Era imperativamente necessário que o Metodismo neste ponto tomasse uma forma definida em direito permanente.

Pelo momento, João Wesley volveu-se para a sua própria Conferência e a grande ordem de pregadores itinerantes. Eram homens de dons experimentados e de zelo heróico. Eram fieis à mensagem que levavam e leais ao próprio Wesley. Não constituíram corda de área, assim lhes diz:
“Sois presentemente um corpo. Agis em concerto uns com os outros e por conselhos unidos. Chegou a hora para considerarmos o que se pode fazer para perpetuar esta união."

Enquanto Wesley mesmo vivesse, ele seria centro suficiente desta união. Toda a lealdade centralizava-se nele. O seu intelecto planejava, e a sua vontade determinava tudo. Os seus auxiliares achavam-se relacionados entre si, porque estavam todos relacionados. Mas Wesley era mortal; e teria de morrer num futuro não muito remoto, e possivelmente, a qualquer momento. Onde se acharia cousa agregadora que substituiria a sua influência pessoal? Onde se encontraria uma base de união que não dependeria de uma única vida incerta?

Tornava-se evidente que a primeira condição de uma união que seria indestrutível pelo tempo e empregnável ao embate dos acontecimentos seria lealdade a um ideal comum de espiritualidade, e isto sem dúvida já existia. Wesley escreveu:
“Tomo por fato admitido que a união não pode subsistir permanentemente entre os que não tenham um propósito simples, quaisquer que sejam os meios empregados para mantê-la. Os que visam quaisquer causa que não seja a glória de Deus e a salvação dos homens, que desejam, ou buscam qualquer cousa deste mundo, seja honra, lucro ou comodidade, não querem nem podem continuar na conexão: não convirá a seus planos. Alguns, talvez, procurarão posição na Igreja (Anglicana). Outros tornar-se-ão (pregadores ou ministros de igrejas) independentes, e arranjarão congregações separadas como João Edwards e Carlos Skelton. Podeis contar com isso, e não fiqueis surpreendidos se alguns que agora não suspeiteis, sejam deste número”.

Mas é necessário que seja ideado (pensado, criado) algum meio prático para concretizar a união espiritual que existe; e que seja combinada previamente uma política, como preparo para a morte de Wesley. E Wesley sugere um plano:
"Ao receberem notícia da minha morte, que todos os pregadores da Inglaterra e Irlanda sigam a Londres dentro de seis semanas. Que busquem a Deus em solene jejum e oração. Que preparem artigos de um contrato para ser assinado por aqueles que quiserem agir em concerto. Que sejam despedidos aqueles que não desejarem fazer assim, da maneira mais amistosa possível. Que os restantes (os que assinarem o contrato), por voto, escolham uma comissão de três, cinco, ou sete, cada um destes servindo de moderador em sucessão. Que a comissão faça o que eu faço agora: Propor pregadores à experiência, à admissão ou à exclusão. Fixar os lugares de todos os pregadores para o ano seguinte e marcar o tempo para a próxima futura Conferência “ (Myles, pág. 129)

Já se vê que este era governo do tipo Veneziano; por uma comissão, que havia de tornar-se panela. Nunca seria adequado como base de governo para uma grande Igreja livre. O lugar da Comissão de três, cinco ou sete foi tomado mais tarde pelo “Cento Legal”; e mesmo este arranjo teria sido demasiado rígido se não fosse a interpretação liberal que se lhe deu.

Mais tarde Wesley pediu que os seus auxiliares assinassem um “Concerto de aliança solene”. Rezava como segue:
“Nós abaixo-assinados, convencidos da necessidade de estreita união entre aqueles que Deus se digna empregar como instrumentos nesta obra gloriosa, a fim de conservar esta união entre si mesmos, estamos resolvidos, Deus nos ajudando, 1) a consagrarmo-nos inteiramente a Deus, negando-nos a nós mesmos, tomando a nossa cruz diariamente; constantemente alvejando uma só cousa, salvar as nossas próprias almas e as daqueles que nos ouvem; 2) pregar as doutrinas reconhecidas do Metodismo contidas nas Atas da Conferência e mais nada; 3) observar e por em execução toda a disciplina Metodista, como ensinada nas Atas. (Myles, pág. 130)

Wesley nunca se achava com pressa; e com o sábio instinto de grande líder, ele se contentava em esperar até os espíritos mais vagarosos de seus seguidores viessem a uma harmonia perfeita com o seu (dele). Portanto, estes artigos de concerto foram apresentados a três Conferências Metodistas sucessivas, e todos os pregadores assistentes nelas, em número de cento e um, lhes subscreveram. Aqui, finalmente, se formulava uma política e um laço que visavam a permanência orgânica do Metodismo depois da morte do seu fundador. Felizmente este plano nunca foi posta à prova real.

O governo de João Wesley era necessariamente pessoal. Era um autocrata espiritual se bem que destituído da têmpera e dos métodos despóticos de uma autocracia. E não contente com a aliança de seus auxiliares por um compacto formal, que havia de projetar-se além da sua própria vida, ele procurou ao redor por um sucessor pessoal. É de duvidar que fosse prudente tal busca. Não podia haver um segundo Wesley. Mesmo que se descobrisse outro líder igual a Wesley quanto aos dotes intelectuais, estes não lhe assegurariam o lugar ou a autoridade de Wesley. Tal autoridade era o produto da história. Nascera, não pelos dotes pessoais de Wesley, mas dos eventos, e de sua relação pessoal com seus auxiliares. Eram seus filhos espirituais, e o seu poder sobre eles era a autoridade intransferível de um pai.

Entretanto, Wesley, em busca dum auxiliar, volveu para Fletcher. Numa carta que lho dirigira, com data de Junho de 1773, eIe diz: “Vejo, com cada vez mais clareza, que se não houver um líder, a obra nunca poderá prosseguir. O corpo de pregadores é unido, e nenhum partido entre eles há de se sujeitar aos demais. Ou tem de haver um para presidir sobre todos, ou, ao contrário a obra tem de acabar.” Notemos que isto se deu depois dos “Artigos de Concerto”, serem formulados e assinados! Ainda existia grande porção de depravação na natureza humana, mesmo nesta ordem de homens santos!

Wesley prossegue na descrição, com detalhes quase divertidos, a espécie de homem que seu sucessor tem de ser:
“Tem de ser homem de fé e amor, possuindo o único propósito de adiantar o Reino de Deus. Tem de possuir uma compreensão clara; um conhecimento de homens e de fatos, especialmente acerca da doutrina e disciplina Metodista; uma facilidade de compreensão; diligência e atividade, com saúde regularmente boa. A estas qualidades temos de acrescentar o favor do povo, e especialmente dos Metodistas. Porque se Deus não inclinar os seus corações e vistas para o guia, ele se achará incapaz de fazer o trabalho. Semelhantemente, ele precisa ter certo grau de instrução; pois existem muitos adversários, instruídos bem como ignorantes, que precisamos fazer calarem. Mas isto não se pode fazer se não formos capazes de combatê-los no próprio terreno deles”.(Smith, pág. 456)

Então, escrevendo a Fletcher, Wesley pergunta: “Deus já proveu alguém assim qualificado? Quem é? Tu és o homem!”, diz ele. Pede que Fletcher, "sem consultar com carne e sangue, venha a fortalecer as mãos, confortar o coração, e compartilhar do trabalho de seu verdadeiro irmão e amigo.”

Wesley estimava a Fletcher num grau que agora parece desmedido. Comparou-o a Whitefield - com desprestígio a Whitefield:
“Era tão plenamente chamado para soar o alarme por toda a nação como o próprio Whitefield; sim, e se achava muito melhor qualificado para este trabalho importante. Era personagem muito mais atrativo; igualmente bem educado; discurso tão cativante; junto com uma imaginação ainda mais rica; uma inteligência mais forte; e um tesouro de conhecimentos muito maior, tanto nas línguas, como na filosofia, e na teologia; e acima de tudo, uma comunhão mais profunda e constante com o Pai, e com o Filho Jesus Cristo.”(Tyrman, III. pág. 456).

É certo que o corpo franzino de Fletcher não teria agüentado por uma só semana as fadigas dos trabalhos que Whitefield suportou durante quase quarenta anos; nem era capaz de mover as multidões da maneira surpreendente em que Whitefield o fez. Mas é fácil de entender perfeitamente como Fletcher encantava a Wesley. Ele possuía dotes espirituais que faltavam a Wesley - um calor extático, um fervor de adoração, um fogo ardente e constante de emoção espiritual, que Wesley nunca teve.

Em mais de uma passagem bem conhecida, Wesley descreve a sua própria experiência calma e permanente na vida espiritual. Para o homem de seu temperamento os ardores de Fletcher serviram de fogo alegre e consolador. Trazia consigo o calor de um verão espiritual. Também Fletcher reforçava o lado espiritual do caráter de Wesley por uma atmosfera estranha, como de outros mundos, que lhe assistia. Ainda existe a descrição da visita memorável que Fletcher fez a uma das Conferências, ilustrando, mesmo que não explique, a estranha influência espiritual que parecia radiar de sua pessoa. Fletcher, emagrecido, fraco e pálido, entrou na Conferência encostado no braço do seu hospedeiro, Senhor Treland.

"Num instante toda a assembléia ficou de pé, e Wesley adiantou-se ao encontro de seu amigo quase seráfico (relativo aos serafins: angelical, sublime, místico). O homem aparentemente moribundo começou a falar aos heróicos itinerantes, e, antes de ter pronunciado uma dúzia de sentenças, todos se achavam banhados de lágrimas. Wesley, receando que Fletcher excedesse as forças, abruptamente ajoelhou-se a seu lado e começou a orar. Todos os pregadores de Wesley caíram de joelhos, e uniram-se na devoção com o seu grande líder". (Tyerman, III, pág. 247)

Não é de se admirar, pois, que Wesley desejasse a camaradagem permanente de uma alma como a de Fletcher, e que o considerasse como sendo o homem melhor qualificado para lhe servir de sucessor. Deveras, a reconhecida modéstia de Fletcher, bem poderia fazer que recuasse diante da pretensão à posse do esplêndido catálogo de dons e graças que Wesley dizia ser necessário a seu sucessor. Mas outra combinação de virtudes – a sua lealdade a qualquer chamada do dever, o seu hábito de obediência intelectual a Wesley – fê-lo atento à chamada do seu grande líder.

A resposta de Fletcher ao chamado de Wesley rezava:
"Se a Providência vos chamar primeiro, farei o que puder, com a ajuda de Deus, para auxiliar o vosso irmão em obstar (impedir) o naufrágio e em conservar junto àqueles que não estiverem absolutamente resolvidos a abandonarem a doutrina e a disciplina Metodista”.

Mas estas palavras talvez não significassem tudo que aparentem. Fletcher estava pronto a fazer-se o coadjutor itinerante de Wesley, mas refletindo sobre a tarefa de fazer-se seu herdeiro eclesiástico, a sua natureza modesta ficou alarmada. Aos 9 de Junho de 1776, ele escreve a Wesley dizendo-lhe:
“O vosso passo em recomendar-me às sociedades como sendo quem talvez vos seja o sucessor é cousa que eu não posso de maneira alguma aceitar. Isto me faria tomar cavalo para fugir”.

Fletcher não havia de ser o sucessor de Wesley. Casou-se com a Miss Bosanquet aos 12 de Novembro de 1781, e casamento para ele, como para Carlos Wesley, era fatal a qualquer larga extensão de seus trabalhos como evangelista. Os começos de consupção (definhamento progressivo e lento do organismo provocado por doença) estavam já no seu sangue, e morreu somente quatro anos depois.

Mas justamente quando a saúde precária e a invencível relutância de Fletcher em empreender, tão grande tarefa indicaram claramente que ele nunca seria nem o coadjutor nem o sucessor de Wesley, a Providência levantou outro coadjutor que, durante o resto da vida de Wesley, havia de partilhar com ele o grande trabalho na administração da disciplina e na formação da política do Metodismo.

Em 1776 Wesley, enquanto dirigia uma série de reuniões no Oeste inglês, encontrou-se com o Dr. Coke, que havia pouco tinha sido despedido da sua paróquia por ter empregado nela muitos métodos do próprio Wesley. Coke possuía um temperamento ardente e generoso, com algo mais do que a simples aparência de gênio natural. Era um gaulês de pescoço e corpo curtos, e de cérebro grande; era cavalheiro douto, e tinha recursos. Possuía uma fortuna pessoal que rendia 1.200 libras por ano. Casou-se duas vezes, e tanto a primeira como a segunda mulher lhe trouxe uma fortuna. Quando se ordenou era ritualista árido que não permitiria que um dissidente lhe corrompesse a casa por entrá-la. Mas um colega clérigo lhe emprestou os Sermões e o Diário de Wesley e eles lhe moveram profundamente. Constituíram para ele uma revelação de possibilidades na religião, que até então não alcançara nem adivinhara. Coke, em estado de inquietação, veio a Londres. Veio sob a influência de Maxfield, e achava-se suficientemente quebrantado de coração para aprender de um leigo santo o segredo da fé em Cristo. Ele possuía todo o fogo e ardor do gênio gaulês, e a religião tornou-se para ele uma ardente chama espiritual – uma repreensão para todos que eram menos fervorosos. Voltou para sua paróquia em Somersetshire, e nela trabalhava com um zelo demais impetuoso para seus paroquianos surpreendidos. Estes conseguiram, afinal, afogar a voz dele na Igreja da paróquia com o auxílio do repicar dos sinos. E logo depois foi despedido do seu lugar. Dai um pouco se encontrou com João Wesley. “Tive com ele muita conversa”, diz Wesley, "e começou-se então uma união que quero pensar há de ser indissolúvel”.

Coke era admiravelmente dotado para ser o alter ego de Wesley. Como este, ele era universitário, com os hábitos do douto e a educação do cavalheiro. Como Wesley, também, era evangelista incansável, e achava-se capacitado duma energia constante no trabalho que aproximava, se não rivalizava àquela do próprio Wesley. E o aparecimento de Coke tem algo dramaticamente oportuno. Não somente era exatamente o homem necessário, mas apareceu exatamente no momento próprio. Muitos dos grandes problemas do Metodismo já estavam resolvidos. Já achara e formulara a sua teologia. Depois de 1771 as Atas da Conferência não registram qualquer excursão em doutrina alguma. As suas formas e políticas eclesiásticas, também, já foram formadas pela força das circunstâncias. Possuía uma hinologia inexcedível. Mas ainda restava para determinar se o Metodismo havia de ser provincial ou imperial (universal, mundial), limitado a um grupo de ilhas ou uma força tocando todos os países. Naquela ocasião estava visivelmente em perigo de tornar-se paroquial. Wesley se achava tão absorto nos três reinos que não tinha praticamente visão alguma por aquilo que se achava fora de seus limites.

Mas Coke possuía as qualidades que faltavam a Wesley. Era o complemento de Wesley. Não era simplesmente um evangelista ardente, mas uma capacidade na direção de homens; ele tinha o que faltava a Wesley - a imaginação. Ele viu antes que o próprio Wesley, e com visão mais certa e larga, aquilo que o Metodismo viria ser. Via mais de que os três reinos. Via a América, a Índia e as Índias Ocidentais. Assim tornou-se o que se tem chamado de ”o ministro dos negócios estrangeiros do Metodismo”. Ele fundou as suas missões, e durante anos deu feição a sua política.

Wesley lhe confiou missões de grande responsabilidade. Por exemplo, o enviou, em 1782, a Irlanda para presidir a Conferência etodista ali, e durante anos não foi Wesley, mas Coke que presidia sobre aquela Conferência. Coke fazia itinerário em campo ainda mais largo do que Wesley. Wesley ou não podia ou não queria visitar a América, mas mandou Coke para lá diversas vezes como seu enviado e representante; e este cruzou o Atlântico, naqueles dias de pequenos navios e viagens cumpridas, não menos de dezoito vezes, e sempre fazendo a sua própria despesa. Ele foi enviado para formular, com o auxílio de Asbury, os esboços de uma Igreja Metodista na América destinada a exceder em escala ao próprio Metodismo Britânico.

Mas nem o grande campo dos Estados Unidos era bastante grande para o zelo de Coke. Ele plantou missões nas Índias Ocidentais, e antes da sua morte elas contavam com 15.000 membros. Ele sobreviveu a Wesley por vinte anos, e quando velho com setenta anos, compareceu diante da Conferência Wesleyana e pediu que lhe enviassem à Índia para fundar uma missão ali. Não havia dinheiro para começar tal missão, mas Coke forneceu 6.000 libras da sua fortuna particular para este fim. Ele partiu com uma pequena companhia de auxiliares, e morreu na viagem a caminho de lá. Acharam-no morto no seu camarote uma manhã com um sorriso plácido no rosto. E mui propriamente, o corpo daquele incansável e ousado servo do Evangelho de Cristo achou jazigo naquele “vasto e errante túmulo” - o mar.

O metodismo é o produto de muitas forças. Whitefield lhe deu o exemplo de uma agressão heróica, Fletcher lhe deu cor à teologia, Carlos Wesley lhe ensinou a cantar, João Wesley era a chama central do seu zelo, e a inteligência que lhe deu feição às formas eclesiásticas. Mas Coke lhe deu a escala geográfica. Ele lhe obstou (impediu) de fazer-se insular (uma religião só da Grã-Bretanha).

Neste meio tempo era necessário determinar uma grande questão legal, sobre a qual pendurava o futuro do Metodismo. Em 1784 havia 359 capeIas Metodistas no Reino Unido. Qual foi o título legal à posse desta grande massa de propriedade e qual foi a relação legal que Wesley sustinha ao uso deIa? Os planos de Wesley raramente iam além do futuro imediato. Quando, em 1739, se construiu a primeira casa de pregação em Bristol, propôs-se fazer a escritura sob “o plano Presbiteriano”, isto é, dando aos depositários o direito para determinar quem poderia utilizar-se do edifício. Isto se vê, afetava todo o sistema de nomeações ministeriais para as capelas; e Whitefield, mais alerta neste caso do que o seu grande camarada escreveu a Wesley dizendo-lhe: “Se os depositários têm de nomear os pregadores, pode ser que até vos excluam a vós da casa que edificastes. Rogo-vos que façais cancelar a escritura”. Isto se fez, e assim se escapou de um grande fracasso.

Mas era necessário que João Wesley adaptasse alguma regra de aplicação geral para as capeIas Metodistas. Preparou-se uma escritura estipulando que os depositários permitissem ao próprio Wesley, ou as pessoas por ele nomeadas, terem acesso livre a estas propriedades. Carlos Wesley e Guilherme Grimshaw, se sobrevivessem a Wesley, teriam o mesmo direito. Depois da morte destes as capelas haviam de ser reservadas para o uso único dos pregadores que fossem nomeados pela “Conferência Anual do povo que se chama Metodista”. Esta escritura era considerada como efetiva e final, mas, de fato, continha um erro fatal: “A Conferência Anual do povo que se chama Metodista” não tinha qualquer existência ou definição legal. Não era pessoa jurídica. Era corporação flutuante composta dos pegadores que Wesley escolhia de ano em ano para conferir consigo. Wesley diz: “Todo este tempo dependia unicamente de mim, não somente a determinação das pessoas que constituíam a Conferência, mas também se teríamos Conferência ou não. Isto estava tudo no meu próprio coração, e nem os pregadores nem o povo tinha; qualquer parte ou voz no negócio”.

Mas, é claro que uma corporação de natureza tão vaga e instável não seria uma corporação jurídica. Pouco melhor seria do que um acidente anual. Como poderia um ajuntamento desta espécie, inteiramente indeterminado, exercer o poder tremendo de determinar, de ano em ano, quais os homens que deveriam exercer a autoridade pastoral, e desempenhar as funções pastorais, em todas as capelas do Metodismo? Era essencial não somente para a paz, mas para a existência continuada do Metodismo, que a Conferência, o centro de todo o poder, o instrumento supremo de governo, fosse legalmente definida.

Sugeriam-se muitos planos de direito: a criação de uma única junta de depositários a qual se poderia dar a posse legal de todas as capelas; a coleção de todas as escrituras de posse num só escritório, etc. Mas tais planos não supriram a necessidade suprema do caso, a continuidade e a existência incorporada¬ de uma assembléia viva.

A própria Conferência era mais sábia do que o Wesley nesta matéria, e lhe pediu que mandasse preparar uma pública forma, que definisse e constituísse “a Conferência do povo que se chama Metodista” em entidade jurídica. Até aqui, era muito pouco melhor do que uma simples frase. Devia ser substituída por uma corporação permanente.

Portanto, aos 28 de Fevereiro de 1784, Wesley fez um documento legal sobre o qual o Metodismo permanece – “A Escritura Modelo” ou “O Titulo de Declaração”. Cem pregadores, devidamente nomeados, foram designados como constituindo a Conferência. Nesta corporação se depositou o poder de nomear todos os ministros a seus respectivos campos de trabalho, poder este que o próprio Wesley havia exercido até então. “O Cento Lega!”, que é o nome que se dá à corporação, tem o poder de preencher as vagas nas suas fileiras de ano em ano. Assim constitui uma entidade contínua, e assegura a continuidade de existência legal no corpo diretor da Igreja. Todas as capelas são possuídas em depósito para o uso desta corporação, e sujeitas a sua autoridade. Em outros lugares fora da Grã-Bretanha as várias Conferências Metodistas são constituídas por Ato do Parlamento. Mas na Grã-Bretanha “O Cento Legal” de Wesley constitui ainda o instrumento pelo qual a Conferência está conservada em existência efetiva.

O “Título de Declaração” resolveu para sempre as grandes dificuldades legais; mas criou, no momento, algumas contendas pessoais bem amargas.

Por exemplo, Wesley hesitou por muito tempo a respeito do número de pregadores que devia constituir a Conferência Legal. Afinal o número foi fixado em cem. Então surgiu a questão quem seriam os incluídos na lista. Finalmente Wesley com o próprio punho escreveu cem nomes. Mas este arranjo deixou fora muitos pregadores, e os excluídos se indignaram. Cem homens foram nomeados no Título e noventa e um foram deixados fora, e a relação entre os dois grupos era tal que facilmente contribuía para o alarme. Até então todos tinham tido lugares iguais na Conferência, mas o Titulo parecia romper o corpo em dois, deixando um homem em cada dois fora do abrigo da lei.

Certos auxiliares, entre eles os dois Hampsons, ficaram tão profundamente ofendidos que por isso deixaram a Wesley. Houve suspeitas de Coke haver conseguido que Wesley incluísse somente cem no Título, e como resultado, temporariamente Coke perdeu a popularidade. A acusação chegou aos ouvidos de Wesley, e ele respondeu em latim enfático: “Non vult, non potuit!” Fez-se um esforço para organizar os descontentes entre os excluídos em revolta declarada. Circulares foram enviadas aos pregadores, convidando-os a tomar medidas na Conferência seguinte. Mas quando a Conferência se reuniu, Wesley se levantou, com as feições santas, cabelos brancos e palavras francas, e fez uma explicação calma e persuasiva do seu ato e das razões porque fê-lo. E então chegando diretamente ao ponto alvejado, pediu que todos que se achavam (concordavam, aprovavam) do seu parecer ficassem em pé. Todos, sem a exceção de ninguém, se levantaram!

A natureza humana é uma potência grande, mesmo em homens bons; e havia um perigo real que os cem membros da Conferência dotados de todo o poder legal, pretendessem a proeminência sobre os outros cem, que estavam deixados sem apoio legal. De modo que o mesmo documento que visava a ligação da Conferência numa união perpétua poderia fazê-la em fragmentos. Nos fins de 1785, Wesley escreveu uma carta que foi lida na Conferência reunida depois da sua morte. Assim veio com a persuasão e a autoridade de mensagem de além túmulo. Rezava a carta:
“Eu vos rogo pelas misericórdias de Deus que nunca vos prevaleçais do “Título de Declaração” para assumir qualquer superioridade sobre os vossos irmãos, mas que tudo continue, entre os itinerantes que quiserem continuar junto, exatamente na mesma maneira como quando eu estive convoco, até onde permitirem as circunstâncias.

“Eu vos rogo, especialmente, se é que me tendes amado a mim, e se agora amais a Deus e a vossos irmãos, que não tenhais qualquer respeito a pessoa alguma (que não tenhais parcialidades ou falta de temor) em nomear os pregadores, em escolher os discípulos para a escola de Kingswood, em dispor das contribuições anuais e do Fundo dos Pregadores, ou de quaisquer outro dinheiro público; mas que façais tudo com visão simples como eu tenho feito desde o princípio”.

Aquela carta de Wesley chegou à primeira Conferência depois da morte de Wesley depois que ela já estivera em sessão durante algumas horas e já adotara uma resolução encerrando quase as mesmas palavras. E, de fato, o espírito da mensagem de Wesley tem governado a administração dos negócios da Conferência Britânica desde então. Tem se tornado em tradição que tem a força de lei. O “Cento Legal” não pretende a qualquer destaque (sobressair-se, sobrepor-se) do resto da Conferencia. Não exerce qualquer poder independente. É praticamente uma simples máquina de registro que traduz as decisões da Conferência em termos legais.

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** (Esse texto corresponde ao capítulo IX, "O Título de Declaração", do livro "Wesley e seu século – um estudo de forças espirituais, volume II", respectivamente nas páginas 104 a 118, edição de 1916 publicada pela Typographia de Carlos Echenique, Porto Alegre, RJ).

OBS: Esse livro originalmente não usa parênteses. As notas explicativas dentro de parênteses são de iniciativa dessa edição on line do site da Igreja Metodista de Vila Isabel.

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