IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
Fundada em 15 de Junho de 1902

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Rio, 27/10/2009
 

A visão de João Wesley sobre a separação do Metodismo da Igreja Anglicana ** (Rev. W. H. Fitchett)

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Poucas cousas há mais estranhas na história eclesiástica do que o fato que, um século depois da morte de João Wesley, quando uma das maiores Igrejas Protestantes do mundo tem o seu nome e é o resultado direto do seu trabalho, ainda seja intrincado assunto de debate se ele jamais teve tenção de criar uma Igreja. Era - ou não era - o seu propósito que o Metodismo permanecesse como uma ordem dentro da Igreja Anglicana?

É fácil desfazer-se da pergunta com a observação que aquele que planta a bolota (semente) evidentemente visa a produção do carvalho. Mas entender a João Wesley e o seu empreendimento, contemplados por certos ângulos, não é fácil! Wesley é verdade, era homem de inexcedível franqueza. Não tinha segredo algum. Em volume, a sua correspondência iguala à de Horácio Walpole, e é infinitamente mais franca e honesta. Além disso, Wesley, no seu Diário, tem feito retrato, não meramente o seu próprio caráter e trabalho, mas as mudanças que quase todos os dias se davam em seus sentimentos. Entre a sua conversão em 1738 e a sua morte em 1791 havia o longo período de quase 53 anos, e durante todo esse tempo Wesley vivia num clarão de publicidade (visibilidade, transparência). Todos os seus atos são registrados, quase toda a palavra é audível, quase todas as cartas são conservadas. Entretanto, depois de ler tudo que Wesley escreveu, e de estudar tudo que fez, ainda é possível que haja dúvida em muitas almas sinceras se o Metodismo fazendo-se Igreja (autônoma, separada da Anglicana da qual Wesley era pastor) destruiu os ideais do seu fundador ou se os cumpriu. Se João Wesley voltasse outra vez à carne (a viver entre nós), seria capaz de reconhecer no Metodismo de hoje o seu próprio trabalho? E se o fizesse, aceita-lo-ia ou rejeita-lo-ia?

É fácil citar muitas frases de Wesley, que podem ser empregadas como refutações e argumentos contra a Igreja de Wesley por polemistas solícitos em provar que ela não tem razão de ser. E estas frases incomodativas se acham não somente nas palavras de seus primeiros anos, quando lhe corria nas veias o sangue quente e quando os preconceitos ritualistas lhe obscureciam a visão, mas podemos descobri-las também nos anos de sua madureza, quando a razão se achava calma, e quando o seu trabalho como evangelista alcançara o seu auge.

Foi em 1787, quatro anos antes de sua morte, que Wesley escreveu a sentença muito citada que pelo menos prova que não tinha a visão de profeta: “Quando os Metodistas deixarem a Igreja Anglicana Deus lhes deixará a eles”. Um ano mais tarde ele declara: “A glória dos Metodistas está em não constituírem um corpo separado”; e que, ‘tanto mais penso quanto mais fico convicto que os Metodistas não devem deixar a Igreja (Anglicana)”. E ainda um ano depois, em 1785, ele declara que “por meu juízo ou conselho ninguém, separar-se-ia da Igreja Anglicana”. Onde se encontraria cousa mais enfática do que essas frases? Se as citações pudessem parar aqui o caso seria resolvido”.

É verdade que na época dessas declarações a Igreja Anglicana se esquecera, em grande medida pelo menos, o seu primeiro escárnio pelo avivamento Metodista. Já começara a reconhecer vagamente a grandeza de Wesley e o esplendor de seus serviços à religião. As portas das Igrejas por tanto tempo fechadas contra ele se achavam por todos os lados abertas de par em par. O próprio Wesley, com a cabeça embranquecida com as neves de quase noventa invernos, e coroada com as honras espirituais de uma carreira tão memorável, foi recebido com veneração por toda a parte. Wesley, um tanto admirado, diz: “De alguma maneira, não sei como, tenho alcançado a honra dos outros”. Os bispos não lhe molestavam mais. Os clérigos não encabeçavam (lideravam) mais as turbas (as multidões) para perturbar os seus serviços. Nunca mais um pároco bêbado havia de enxotá-lo da mesa de comunhão, como acontecera uma vez em Epworth. E este novo espírito por parte do clero anglicano poderia mui naturalmente aumentar o desejo sempre forte em Wesley para manter os seus seguidores na Igreja.

Mas isto de modo algum explica as palavras enfáticas acerca de separação da Igreja que temos citado. Estas frases são talvez as únicas palavras de Wesley que grande número de clérigos ritualistas conhecem de cor, e delas tiram satisfação infinita, ao passo que provavelmente produzam não pouca inquietação em certos metodistas ao ouvi-las serem citadas.

Mas é igualmente fácil citar uma corrente de frases de um caráter exatamente oposto dos lábios e da pena de Wesley. Ele declara: “A sucessão (apostólica) ininterrupta, eu conheço por uma fábula que homem algum jamais provou ou pode provar”. “Que as Escrituras a prescrevam - a forma de governo Episcopal - não o creio”. “De tal opinião, que antes sustentava zelosamente, tenho me envergonhado cordialmente desde o dia que li o Irenicon, do Bispo Stilingflect”. Em outro lugar, diz: “Quer haja Igreja quer não haja, temos de nos dedicar a obra de salvação das almas”.

Às vezes a sátira de datas é mais cruel. Assim, aos 27 de Dezembro de 1745, Hall, o cunhado de Wesley, lhe escreveu uma carta extensa, incitando-o a renunciar (desligar-se) a Igreja Anglicana. Wesley, em resposta, escreve uma carta na qual o ritualista está saliente. Ele declara:
“Cremos que não seria direito que administrássemos nem o batismo nem a Ceia do Senhor se não tivéssemos uma comissão para fazermos assim, recebida dos bispos que reconhecemos serem de sucessão apostólica. Cremos as três ordens de ministros não somente se acham autorizadas por sua instituição apostólica, mas também pela Palavra escrita. Entretanto estamos prontos a ouvir e considerar quaisquer razões que tiverdes em contrário”.

Em menos de quatro semanas depois, ele escreve o seguinte (aos 20 de Janeiro de 1746):
“Empreendi viagem a Bristol. De caminho, li outra vez a história da Igreja Primitiva de Lorde King. Não obstante a prevenção veemente da minha educação sou obrigado a crer que é uma representação justa e imparcial; mas se é assim, segue-se que os bispos e presbíteros constituem essencialmente uma só ordem, e que originalmente cada congregação Cristã constitui a Igreja independente de todas as outras”. (Diário, pág. 216).

Freqüentemente se descobre a ironia de datas até nos atos e escritos de Wesley. Em Abril de 1790, por exemplo, ele escreveu o trecho famoso que tem sido citado contra a Igreja Metodista por sacerdotalistas contrários desde então:
“Nunca tive qualquer propósito de separar-me da Igreja. E não tenho tal propósito agora. Não creio que os Metodistas em geral tenham este propósito quando não me verem mais. Faço e continuarei fazer, tudo ao meu alcance, para obstar tal acontecimento. Não obstante, tudo que eu possa fazer, muitos hão de separar-se – mas estou inclinado a julgar que nem a metade, talvez nem a terça parte deles. Estes serão tão ousados e imprudentes que hão de formar um partido separado. Em oposição direta a tais, mais uma vez declaro que hei de viver e morrer como membro da Igreja Anglicana, e que ninguém por meu juízo ou conselho separar-se-ia dela.”

Mas somente dois meses mais tarde, em Junho do mesmo ano, ele escreve ao Bispo de Londres:
“Tenho de falar com franqueza, nada tenho eu que esperar ou temer neste mundo, que estou nas vésperas de deixar. Os Metodistas em geral, meu senhor, são membros da Igreja Anglicana. Aceitam as suas doutrinas, assistem a seus serviços e participam de seus sacramentos. Não querem fazer mal a ninguém, mas procuram fazer todo o bem possível a todos. Para se animarem nisso, eles freqüentemente passam uma hora reunidos em oração e exortação mútua. Permiti-me, pois, a perguntar, cui bono?, que razão vós teríeis em enxotar essa gente da Igreja? Mas isto estais fazendo, e da maneira mais cruel; sim, e da maneira mais desajeitada. Eles desejam o privilégio de adorar a Deus segundo manda a sua própria consciência. Mas lhes recusais a licença, e então Ihes castigais por não ter tal licença! Assim vós lhes deixais a única alternativa, sair da Igreja ou morrer à fome. E será um cristão – sim, um bispo Protestante – que assim persegue o seu rebanho? Digo perseguir, pois é a perseguição, em tenção e propósito. É verdade que não lhes queimais, mas estais lhes fazendo morrer de fome, e quão insignificante é a diferença! E isto fazeis sob a proteção de uma lei vil e execrável, em nada melhor do que a de herético comburendo (decreto de 1401 da Igreja Católica que permitiu que se queimasse numa fogueira em praça pública os considerados hereges pelo Tribunal da chamada Santa Inquisição) .”

Aqui, pelo próprio testemunho de Wesley, um bispo da Igreja Anglicana está enxotando os infelizes Metodistas da Igreja, e isto “da maneira mais cruel”. Como poderia o próprio Wesley esperar que permaneceriam na Igreja Anglicana?

Mas o melhor comentário sobre as fortes palavras de Wesley acerca da separação da igreja Anglicana acha-se em seus próprios atos nesse mesmo tempo em que elas foram escritas e faladas. Ao mesmo tempo em que falou assim, ele tomou passos, e os tomou sob a irresistível compulsão de acontecimentos, que tendiam à separação, e eram praticamente atos de separação. Em 1784, Como já vimos, ele constituiu o Metodismo em entidade jurídica, assim lhe assegurando a continuidade de existência. Isto é, transformou o Metodismo em uma Igreja autônoma. No mesmo ano ordenou a Coke, Whatcoat e Vassey como ministros para atenderem ao metodismo na América, e isto com pleno conhecimento da frase de Lorde Mansfield que a “ordenação é separação”. Em 1785 ordenou alguns auxiliares para a Escócia, justificando o seu ato pelas manifestas necessidades de suas sociedades ali, e pela circunstância que o Episcopado Anglicano não ia além da divisa (da fronteira). Em 1787 tirou licença (junto às autoridades governamentais) para (o funcionamento de) muitos de seus edifícios sob o Ato de Toleração como capelas dissidentes (da Igreja oficial, a saber, a Anglicana). Em 1789 ordenou alguns auxiliares para a Inglaterra.

Todos estes eram atos de separação. Constituíram o Metodismo em igreja autônoma. Entretanto, enquanto Wesley praticava esses atos falava ou escrevia palavras que proibiam a separação pelo menos durante a sua vida! A primeira vista o enigma parece bem difícil. Podemos resolvê-lo por taxar simplesmente a Wesley de inconsistente ou de insincero? Mas tal explicação é, de tudo, incrível (inverídica). É refutada completamente pelo caráter e pela carreira de João Wesley.

A explicação se acha naquela teoria da Igreja que Wesley, desde a sua conversão pelo menos, sempre mantinha, mas que nem sempre fora clara à sua própria consciência, ou permitida a dar feição a sua fala ou determinar a sua política. Já mostramos como, quase até o dia de sua conversão naquela noite de 24 de maio de 1738 em Aldersgate, Wesley era ritualista do tipo mais severo. O seu sacerdotalismo (clericalismo) possuía um elemento de ascetismo; e ardia com o fogo do fanatismo. Recusava-se administrar a Ceia do Senhor a todos que não fossem batizados por um ministro com ordens regulares (ou seja, devidamente autorizados pela Igreja Anglicana). Re-batizava os filhos de Dissidentes (em relação à Igreja Anglicana); aceitava a teoria de sucessão apostólica em sua forma mais extrema.

Mas a sua conversão mudou completamente a sua perspectiva, não somente quanto à vida, mas a respeito de sua teologia, e de suas opiniões eclesiásticas. Todas as suas teorias ritualistas foram proscritas (renegadas, abandonadas, superadas). A religião para ele não era mais mecânica, mas espiritual. As formas e métodos eclesiásticos não eram senão palha e farelo quando comparados com as realidades espirituais.

Wesley viu agora que Cristo estava presente na sua própria Igreja, governando-a. A sua graça não gotejava exclusivamente através de um pobre, incerto e solitário cano humano; não dependia do toque de uma classe especial de mãos humanas impostas (o ordenamento) sobre certas cabeças humanas (que garantiam assim a suposta sucessão apostólica que vinha desde os tempos apostólicos). Antes era a dádiva direta de Cristo à alma pessoal. O Espírito Santo, na Nova Teologia de Wesley, não estava relegado a qualquer tempo distante na história da Igreja primitiva. A vontade desse Espírito não se achava expressa exclusivamente em certos usos eclesiásticos da antiguidade. O Espírito Divino, o Senhor e Doador de Luz, estava tão certamente presente na Igreja do século XVIII como na Igreja Apostólica. Com esta interpretação da história, o Dia de Pentecostes não está limitado a um certo grupo de vinte e quatro horas em Jerusalém há muitos séculos. Mas o Pentecostes acontece hoje também! Os homens ainda nele vivem. Os ventos de Pentecostes não sopram mais, não são mais visíveis as línguas de fogo; mas não obstante os sinais visíveis aos sentidos humanos naquele dia longínquo em Jerusalém terem-se desaparecido, a presença do Espírito Santo na Igreja ainda continua. Assim, para Wesley, a teoria mecânica do ritualista não era mais aceitável.

Mas a nova idéia de Wesley a respeito da Igreja não achou logo a sua plena expressão. Nem sempre estava clara a sua consciência. Ele continuou, com intervalos, a falar a língua do ritualista muito tempo depois de ter renunciado toda a teoria sacerdotal (clericalista). A sua mente sobre este assunto era espécie de palimpsesto (palavra grega surgida no século V a.C, depois da adoção do pergaminho para o uso da escrita, e designava um pergaminho do qual se apagou a primeira escritura para aproveitamento por outro texto, mas onde a raspagem de um texto não conseguia apagar todos os caracteres antigos dos textos precedentes, que se mostravam, por vezes ainda visíveis, possibilitando uma recuperação). A teoria evangélica a respeito da Igreja acha-se escrita sobre ela larga e indelevelmente, para ser lida por todos. Mas escondidos embaixo, visíveis para os que procurassem, estavam fragmentos, em sílabas quebradas e falhas, da velha doutrina ritualista que já renunciara.

A chave da aparente contradição nas palavras e atos de João Wesley em relação à Igreja Anglicana se acha nas suas famosas Doze Razões contra a Separação, publicadas em 1758. A sentença inicial nesse documento define a posição de Wesley: “Se for lícito ou não, que em si pode-se contestar, não sendo causa tão clara como alguns imaginam, não é de modo algum expediente para nós nos separarmos da Igreja Estabelecida.” Isto é, Wesley fez da expediência (vantagem) – a questão de eficiência, mais ou menos prática – a prova suprema de formas eclesiásticas; e esta posição é fatal a toda a teoria ritualista.

As Doze Razões que seguem pertencem todas a categoria de expediências e inexpediências. A razão Nº 8, por exemplo, reza: “Porque para formar a planta de uma nova Igreja exigiria uma infinidade de tempo e cuidado – que poderia ser dedicada com muito mais proveito – com muito mais sabedoria e maior profundidade e extensão de pensamento do que qualquer entre nós lhe pode dar.” A razão N° 10 reza: “Porque já tem se feito a experiência tantas vezes, e o êxito nunca correspondeu às expectativas.”

Carlos Wesley acrescentou uma nota dizendo que as “razões do seu irmão contra a nossa separação da Igreja Anglicana são as minhas também. Eu as subscrevo de todo o coração. Somente a respeito da primeira; eu estou muito certo que nem é expediente nem lícito para mim o separar-me”. (Smith pág. 275).

A data dessas Doze Razões é significante, mostrando que, nesta época tão primitiva de seu trabalho, os dois irmãos achavam-se separados um do outro por divergências fundamentais sobre questões eclesiásticas. João Wesley considerava a separação como inexpediente (desvantajosa). Se era lícito ou não, não quis dizer.

Carlos Wesley está muito certo que a separação “nem é expediente nem lícito”, e aquela sentença é o marco da divisa entre dois sistemas eclesiásticos que são irreconciliáveis. Para Carlos Wesley a separação era pecado.

É certo que a sua própria conduta não foi consistente com esta doutrina heróica. De fato foi réu de mil ações que a contrariaram. Ele era o primeiro dos irmãos que administrou a Santa Ceia em edifício que não fora consagrado (que não era templo oficial da Igreja Anglicana). Pregou e administrou os sacramentos por anos na capela de City Road; entretanto julgava que o edifício fosse uma tal ofensa que deu ordens que os seus restos não fossem enterrados ali.

João Wesley, por sua vez, recusa dizer se a separação é licita, dizendo secamente, “que não é cousa tão manifesta quanto alguns imaginam”. Não estava disposto a discutir esse assunto abstrato no momento; pois isto teria chamado (provocado) uma controvérsia que poderia ter destruído completamente a boa camaradagem que ele tinha com os seus companheiros. Mas a teoria que João Wesley apresentou a respeito da Igreja, mesmo nesse tempo, era distintamente anti-sacerdotal.

É possível citar dos escritos de Wesley uma corrente de expressões, calmas, bem raciocinadas e positivas, e que percorrem toda a extensão de sua vida pública, em abono de suas idéias sobre as ordens eclesiásticas.

Por exemplo, o Novo Testamento nos dá um só modelo autoritativo (autorizado, aprovado) sobre o governo eclesiástico que é obrigatório sobre a consciência universal do Cristianismo, e fora do qual se acham somente aquelas misericórdias de Deus que são independentes da graça propiciatória? Wesley diz:
“Ao meu juízo, ainda creio que o forma do governo Episcopal é escriturística e apostólica. Quero dizer que ela concorda bem com a prática e os escritos dos Apóstolos, mas que as Escrituras a prescrevam não o creio. O Bispo StillingfIeet tem irrefutavelmente provado que nem Cristo nem seus Apóstolos prescrevem qualquer forma particular de governo eclesiástico; e que nunca houve na Igreja Primitiva a idéia do direito divino da episcopado diocesano. (Obras, Vol. XIlI, pág. 211)

Pela interpretação sacerdotal da ordem eclesiástica, é necessária a doutrina da sucessão desde os Apóstolos a fim de constituir o ministério Cristão; mas tal doutrina, Wesley rejeita em absoluto, e ele nota com clareza característica onde a teoria falha:
“Eu nego que os bispos romanos vieram por sucessão ininterrupta desde os Apóstolos. Nunca o vi provado; e, estou persuadido que nunca hei de vê-lo. Mas, ainda mais é a doutrina da vossa Igreja que a intenção do oficiante é essencial ao valor dos sacramentos por ele administrados. Se sois reputado por sacerdote, estais certo da intenção do bispo que vos ordenou? Se não, pode ser que não sejais sacerdote algum, e desta forma todo o vosso ministério não tem valor algum, pois pela mesma regra pode ser que ele não seja bispo algum. E quem poderá dizer quantas vezes isto tem se dado? Mas, se tem havido somente um caso tal (de falha na sucessão apostólica) em mil anos, onde está a vossa sucessão ininterrupta? (Obras, Vol. III, pág. 44).

Durante cinqüenta anos os escritos de Wesley estão atravessados por uma corrente de expressões enfáticas que provam que a teoria ritualista constituía uma ofensa para a sua razão e consciência. Mil prevenções lhe prenderam à Igreja em que nasceu e na qual se educou; e todo o caráter do seu gênio era adverso a uma mudança desnecessária. Ele se cingiu a formas históricas mesmo quando estava fazendo delas veículos para novas forças, e cingiu-se também a frases veneráveis quando estavam carregadas de novas significações. Mas nunca admitiu que a separação estivesse na categoria de pecado. Era apenas questão de vantagem ou desvantagem prática, para ser determinada pelas circunstâncias do momento. Aquilo que hoje é inexpediente (desvantajoso) que representaria um fracasso poderia ser amanhã tão expediente (vantajoso) que se tornaria em obrigação.

Ele declara que o seu povo, “mesmo depois da minha morte, continuarão na Igreja a não ser que sejam enxotados para fora”. E aquela temível e cruel contingência se tornou fato. Foram enxotados! Estavam sendo enxotados mesmo durante a vida de Wesley. E, entretanto Wesley foi contido de um rompimento declarado com a Igreja Anglicana por forças que não tinham relação alguma com a consciência, e, às vezes, nem com a razão. Ele previu as possibilidades de uma separação desde os começos de sua obra. Essa possibilidade, afinal tornou-se certeza. Mas para o próprio Wesley era sempre coisa que não se desejava; a qual ele havia de se aproximar com os passos mais lentos, e somente quando fosse compelido pela lógica dos fatos.

Deveras, é quase divertido notar-se, como já vimos, por quanto tempo Wesley usava a linguagem do sacerdotalista (clericalista) depois de ter lançado ao mar toda a teoria ritualista. As suas prevenções eclesiásticas deram acentuação a sua fala e governaram os seus gostos por anos depois de serem renunciadas por sua razão e consciência. Mas a sua conversão, precisamos enfatizar, mudou todo o centro de sua teologia. Desde aquele momento João Wesley viu que as formas eclesiásticas eram apenas questões de expediência (vantagem). As expediências e as inexpediências tinham de ser pesadas ao mesmo tempo; às vezes a balança poderia inclinar-se para um lado, às vezes para o outro. Que finalmente inclinou-se para o lado de separação a história demonstra. Enquanto Wesley mesmo nunca formalmente deixou a Igreja Anglicana, ele deu ao Metodismo a forma e os poderes que indicavam uma separação.

Não se pode duvidar que Wesley está exposto a acusação de inconsistências verbais. Tudo que se pode dizer é que os velhos hábitos mentais lhe apegaram, as velhas formas verbais vieram-lhe aos lábios e deslizava-se de sua pena (através do que ele escreveu) por muito tempo depois de serem esvaziadas do seu significado. A influência do seu irmão Carlos constituía sempre uma força que o puxava na direção de ritualismo. Assim sucedeu que, às vezes, ele ainda falava como ritualista, quando estava ao mesmo tempo fazendo cousas – cousas para ele urgentes, inevitáveis e sagradas – que eram fatais a toda a teoria ritualista.

Assim se vê que as relações de Wesley com a Igreja Anglicana constituem a história de uma educação. Temos o retrato de um caráter solícito, lógico e intimamente sincero, quebrando, fio por fio, os laços feitos na sua primeira educação, nas suas crenças primitivas, e nas apaixonadas prevenções eclesiásticas, e dando lugar, se bem que vagarosa e relutantemente, a sua convicção mais profunda. A nota prática (pragmática) no gênio de Wesley, o seu hábito em fazer vistas curtas (de não planejar a médio e longo prazos), e em tratar das dificuldades somente quando eram urgentes e concretas, fazia vagaroso o processo; ao passo que a sua franqueza e clareza no falar, a cada frase do processo, nos fornecem uma corrente de expressões que muitas vezes parecem estar em conflito entre si.

De fato cada expressão tem de ser interpretada por sua data, e entendida na luz de uma ordem particular de circunstâncias com as quais ela tratava. A sua própria honestidade ao espírito e à circunstância momentâneos é às vezes a explicação real de certa frase que contradiz outra expressão quando trata de outra ordem de condições. E não se pode negar que Wesley reteve, pelo menos em fragmentos, o vocabulário do sacerdotalismo (clericalismo ritualista) por muito tempo depois de ter ele lançado ao mar toda teoria sacerdotal.

Numa palavra, quem estuda este, o aspecto mais severamente criticado, do trabalho de Wesley, acha nele o retrato de um homem com uma obstinada inclinação para o ritualismo puxando-o numa direção e inclinação que se deve ao nascimento e à educação, bem como ao temperamento; enquanto, passo a passo, está sendo guiado pela Providência divina e compulsionado (compelido, empurrado, rebocado) pelos fatos, para andar numa vereda que guia a um destino muito diferente, destino que ele não deseja, mas que não é de todo imprevisto.
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** (Esse texto corresponde ao capítulo X, "A Teoria de Wesley a respeito da Igreja", do livro "Wesley e seu século – um estudo de forças espirituais, volume II", respectivamente nas páginas 119 a 130, edição de 1916 publicada pela Typographia de Carlos Echenique, Porto Alegre, RJ).

OBS: Esse livro originalmente não usa parênteses. As notas explicativas dentro de parênteses são de iniciativa dessa edição on line do site da Igreja Metodista de Vila Isabel.

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