IGREJA METODISTA EM VILA ISABEL
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Rio, 5/12/2009
 

A intolerância anglicana aos metodistas no Século XVIII levou João Wesley a preparar o indesejado caminho da separação ** (Rev. W. H. Fitchett)

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A questão se João Wesley tinha a intenção de que seus seguidores permanecessem uma simples sociedade ou tornassem em Igreja é, como já dissemos, de interesse puramente acadêmico, ou até antiquado. A relação do Metodismo para com a Igreja Anglicana afinal foi decidida por forças estranhas à vontade de João Wesley. Algumas dessas forças se acham no caráter do clero de então e na política que adotara. O Cura (sacerdote) bêbado em Epworth que uma vez negou a João Wesley a comunhão (Ceia do Senhor) na própria Igreja que seu pai servira; o clero que inspirou (promoveu) os motins para atacarem os Metodistas, e às vezes guiou nos assalto eram, sem dúvida, indignas exceções da sua classe. Mas o caráter inteiramente falto de espiritualidade do clero fê-lo impossível deixar-se-lhe nas mãos descuidadas os conversos (os convertidos, os metodistas) ganhos pelo avivamento. Fazer-se isso teria sido crime contra almas humanas. Ainda mais, a grande massa do clero, desde os bispos para baixo, estavam resolutamente resolvidos a enxotarem (expulsarem) os primeiros Metodistas da Igreja. O Thomas Church, prebendeiro (arrematante das rendas do Bispo, que tinha pouco trabalho e grandes rendas, recursos) do Bispo anglicano de Londres, escreveu a Wesley em 1744: “Vós sois nossos maiores inimigos”. E esta terrível sentença torna audível aquilo que, por muitos anos tristes, era a opinião geral do clero acerca do avivamento.

Miss Wedgwood diz: “Não estava ao alcance dos bispos (da igreja anglicana) esmagarem a nova ordem, mas anomalias esquisitas nas leis inglesas deixaram-lhes o poder de obrigá-la a fazer-se seita.” Reuniões religiosas fora dos serviços gerais da Igreja não podiam ser celebradas sem uma licença sob a autorização do Ato de Toleração (o Ato de Tolerância publicado pelo rei inglês que permitia a existência dos cristãos e movimentos dissidentes da Igreja oficial); e os que tomavam parte em tais reuniões, a fim de terem o direito de celebrá-las, tinham de registrar-se como “dissidentes” (o que lhes tirava uma série de benefícios oferecidos aos súditos ligados à Igreja oficial). Esta lei era extensiva à América do Norte também, e por isso a primeira Igreja Metodista nos Estados Unidos foi enfeitada com uma peça de arquitetura pouca eclesiástica - uma chaminé. Quando se construía um templo Metodista era necessário que se disfarçasse em casa de moradia a fim de ter o direito de existir.

É fácil de ver que arma formidável esta lei seria nas mãos do clero anglicano. E era empregada contra os Metodistas com uma severidade intensa. A última carta de importância que João Wesley escreveu, diz Miss Wedgwood, “era um protesto dirigido ao Bispo que, por dar informações contra todas as reuniões Metodistas em casas não licenciadas, conseguindo que fossem multados, obrigava-os a pedirem uma licença como dissidentes”.

A condição da lei, e o espírito do clero anglicano em valer-se da lei, obrigaram a João Wesley, mesmo nas primeiras fases do seu trabalho, a tomar providências que realmente constituíram atos de separação do movimento Metodista da Igreja Anglicana. Ele conseguiu para seus auxiliares as mais rudimentares liberdades da palavra somente por rotulá-los de Dissidentes; e, portanto, em 1749, o novo salão em Bristol foi licenciado e os Metodistas que o ocupavam eram descritos na licença como “Súditos Protestantes dissidentes da Igreja Anglicana”.

Desde 1778, a CapeIa de City Road tornou-se no quartel general de João Wesley, e era em si mesma o símbolo visível da relação do movimento Metodista para com a Igreja Anglicana. Era edifício que não fora consagrado; mas ali se celebravam serviços (cultos) nas horas de serviços nas igrejas anglicanas, e ali se administravam sistematicamente os sacramentos. O próprio edifício assim constituía uma peça de dissidência concreta, um símbolo da nova Igreja que já começara existir, mas que ainda não havia alcançado a consciência de si (de tal fato). Em 1784, João Wesley escreveu no seu Diário: “Já tem se realizado uma espécie de separação, e inevitavelmente há de se entender, embora vagarosamente”. Em outro lugar ele diz: “Os seus inimigos (dos cristãos metodistas) lhes provocam a isso, especialmente o clero anglicano, que pela maior parte, longe de agradecer-lhes a continuação (permanência) na Igreja Anglicana, emprega todos os meios a seu alcance, leais ou desleais, para enxotá-los de lá”.

Entretanto, a questão dos sacramentos tornou-se em ponto crucial nas relações entre o Metodismo e a Igreja Anglicana. O Exército de Salvação de hoje trata do sacramento da Santa Ceia como se fosse, quando muito, cousa de luxo, e não faz qualquer arranjo para congregar os seus conversos ao redor da mesa do Senhor; e isto constitui defeito fatal na sua organização. Mas João Wesley ensinou que a administração dos sacramentos era obrigatória sobre a consciência cristã, e ele exigiu que os seus conversos os observassem como cousa de dever e os avaliassem como meios de graça. Mas tinham de ir à Igreja anglicana da paróquia onde residiam a fim de assistirem (participarem) na Ceia do Senhor; e ali, com demasiada freqüência, se achava um clérigo anglicano cujo caráter constituía-se em ofensa à moral, ou então um fanático intolerante que Ihes enxotavam (expulsavam) da mesa de Cristo como intrusos. Os próprios irmãos Carlos Wesley e João Wesley repetidas vezes sofreram esta indignidade nas suas próprias pessoas. Em Bristol, muito cedo, em 1740, os conversos de Wesley foram repelidos pelo clero anglicano, sob plano concertado, e com severidade desapiedada, da mesa do Senhor, e isto explica porque o salão ali foi licenciado tão cedo como lugar de culto dissidente.

Mas o instinto de João Wesley pela ordem fez que a administração dos sacramentos por qualquer pessoa, senão um ministro ordenado, fosse intolerável. Em Bristol e Londres ele podia, com o auxílio de uns poucos clérigos anglicanos que lhe apoiavam, manter a administração regular dos sacramentos. Mas fazer isso por toda a parte dos três reinos era cousa praticamente impossível; e na América do Norte, a geografia bem como a história tornaram a situação incomparavelmente mais difícil.

Na América do Norte se achavam uns poucos clérigos quase acidentais espalhados em pontos distantes sobre a extensão de um continente. As paixões políticas ardiam quais chamas por toda a parte e, de nove casos em dez, esses clérigos estavam em luta aberta com os próprios rebanhos. O esforço para conservar as Sociedades Metodistas, que desenvolviam com tanta ligeireza, dependentes, pelos sacramentos, de um punhado de clérigos anglicanos sob essas condições geográficas e políticas, era fútil! Então veio a guerra de independência das colônias, e qual um tufão, enxotou (expulsou) todos os clérigos anglicanos (que eram ingleses e devotos do rei inglês) do campo americano.

João Wesley, como já vimos, apelou aos Bispos Anglicanos que ordenassem, pelo menos, a um de seus auxiliares a fim de administrar os sacramentos na América, mas o seu apelo foi rejeitado. Os Bispos descuidavam de seus próprios rebanhos nas colônias revoltadas. Eram políticos, mais do que pastores, e não se achavam dispostos a qualquer esforço pelos interesses espirituais de simples rebeldes. Sob a teoria ritualista, os sacramentos são essenciais à salvação e somente podem ser administrados por pessoas devidamente ordenadas, e na sucessão apostólica. Recusar, ou protelar a presença de um clérigo devidamente ordenado a uma comunidade, segundo a lógica sacerdotal, é pôr em perigo o bem estar eterno de almas imortais. Entretanto, quando um delegado veio desde os Estados Unidos à Inglaterra, em procura da ordenação Episcopal, a fim de voltar às almas moribundas de um continente com a graça mística de que se supõe a ordenação seja o canal exclusivo, ele tinha de bater às portas dos palácios episcopais por dois anos. Benjamin Franklin escreveu com o bom senso que lhe era característico sobre a situação: “Daqui a cem anos, quando o povo estiver mais esclarecido, será cousa de admirar, que homens na América, qualificados por sua instrução e piedade para ensinar os seus vizinhos e orar por eles, não fossem permitidos a fazer assim até que tivessem feito uma viagem de 6000 milhas para pedir a permissão do rabugento e velho cavalheiro de Canterbury”.

João Wesley descobriu que tinha de prover por seu rebanho na América. Os sacramentos tinham de ser mantidos, e deviam ser administrados por ministros devidamente ordenados. Mas Wesley se considerava a si mesmo como sendo um episcopo, e tão plenamente autorizado a ordenar, como qualquer Bispo na terra. EIe diz: “A história da Igreja Primitiva por Lorde King, convenceu-me, há muitos anos, que os Bispos e Presbíteros são da mesma ordem, por conseguinte tem o mesmo direito de ordenar.” Ele já se abstivera demais tempo, grandemente prejudicando as Sociedades na América, e incorrendo o risco do esfacelamento do Metodismo nesse país. Portanto, aos 10 de Setembro de 1784, João Wesley ordenou a Coke como Superintendente ou Bispo, e Whatcoat e Vasey como presbíteros, para a América. Este ato claramente pronunciou o rompimento aberto de relações entre o Metodismo e a Igreja Anglicana.

Carlos Wesley se tornou francamente recalcitrante (teimoso, obstinado). EIe escreveu:
Quase não acredito que o meu irmão, velho e íntimo companheiro e amigo, com os seus oitenta e dois anos, assumisse o caráter episcopal, e ordenasse presbíteros, sagrasse um Bispo, enviando-o para ordenar os nossos pregadores leigos na América. Como foi ele levado de surpresa para uma ação tão impensada? Lorde Mansfield me disse no ano próximo passado que a ordenação constitui a separação. Isto, meu irmão não vê, nem quer ver; a não ser que ele tenha renunciado os princípios e a prática de sua vida inteira; tenha agido contrariamente a todas as suas declarações, protestos e escritos; desarmado a seus amigos de seus protestos; realizado uma ordenação fictícia; e deixado uma mancha indelével sobre o seu nome, enquanto for lembrado. Assim a nossa sociedade (parceria) aqui termina, mas não a nossa amizade. Eu o tenho-o tomado por melhor, ou pior, até que a morte nos separar; ou, antes, nos reunir em amor inseparável.”

Ele escreveu em termos de desespero e sentimento ao próprio João Wesley:
Antes de destruirdes a ponte por completo, detende-vos a considerar. Descei para o vosso túmulo em paz, ou pelo menos deixai que eu vá antes desta ruina. Eu acho que deveis, ao menos, isto a meu pai, a meu irmão e a mim, portanto, abstende-vos até que eu for tirado deste mal. Estou à beira do túmulo. Não me empurreis para dentro, nem me amargureis os últimos momentos. Esta carta é em pagamento daquilo que devo a nossos pais, e ao nosso irmão e a vós”.

A resposta de João Wesley, escrita aos 19 de Agosto de 1785, era calma, mas firme:
“Digo-vos os meus pensamentos com toda a simplicidade. Se concordardes comigo, bem, se não, podemos, como o Sr. Whitefield dizia, “concordar em discordar”. Durante estes quarenta anos tenho estado com dúvidas acerca da obediência que se deve "a sacerdotes pagãos e a ateus mitrados” (clérigos e bispos cristãos sem fé verdadeira). De tempos em tempos tenho exposto as minhas dúvidas aos mais piedosos e sábios clérigos que conheço; mas eles não me deram satisfação alguma, antes, parecem achar-se tão perplexos como eu. Tenho sempre prestado obediência aos bispos segundo as leis do país; mas não posso ver que eu tenha obrigação alguma de obedecer em mais do que essas leis exigem”.
“Em obediência a essas leis nunca exerci na Inglaterra o poder que, segundo creio, Deus me deu. Creio firmemente que sou um episcopos escriturário, tanto como qualquer outro na Inglaterra ou na Europa. Porque a sucessão ininterrupta (da imposição das mãos desde o tempo dos apóstolos até aquele século XVIII) eu reconheço por uma fábula (um mito), que ninguém jamais provou, nem poderá provar. Mas isto em nada me obsta de permanecer na Igreja Anglicana, da qual não tenho agora mais desejo de separar-me do que tive há cinqüenta anos .... Não estou mais separado dela agora do que estive no ano de 1758. Eu ainda me submeto – mas às vezes com uma consciência duvidosa – a “ateus mitrados”. Ainda ando pelo mesmo padrão que tem me servido pelos últimos quarenta ou cinqüenta anos. Nada faço levianamente. Nem é de imaginar que eu fizesse outra cousa; pois, tempo de sangue quente já passou. Se quiserdes me acompanhar de mãos dadas, bem. Mas não me impeçais, se não quereis me ajudar.”

Carlos Wesley escreveu mais outra vez, confessando-se alarmado com “um cisma próximo tão destituído de causa ou de provocação como a Revolução Americana, e que constitui para vós um escândalo eterno”. “Quanto a mim, diz ele, continuo a trilhar o velho caminho no qual encetamos a viagem, e espero continuar nele até o fim da minha carreira”. Então se manifesta nele o irmão. “Nós temos tomado um ao outro por melhor, ou pior, até que a morte nos separar; ou, antes, nos reunir eternamente. Nisto está o amor que nunca desfalece, sou o vosso amigo e irmão cordial”.

João Wesley terminou a correspondência dizendo: “Não vejo utilidade em nossa discussão, pois, não é provável que qualquer de nós convença ao outro”. Carlos Wesley renegara a sua linha juvenil acerca “dos sacerdotes pagãos e ateus mitrados”, mas João Wesley prossegue: “O vosso verso encerra uma triste verdade. Eu vejo cinqüenta vezes mais daquilo que passa na Inglaterra do que vós, e acho poucas exceções àquela declaração.” Então acrescenta: “Se não quereis ou não podeis ajudar-me pessoalmente, não impeçais aqueles que podem e querem. Eu devo e quero salvar tantas almas quantas puder enquanto eu viver, sem cuidar muito daquilo que possivelmente aconteça depois da minha morte.”

Neste meio tempo, João Wesley publicára uma declaração, explicando e justificando as ordenações feitas por ele para as terras americanas. Ela reza:
Bristol 10 de Setembro de 1784 – Ao Dr. Coke, Mr. Asbury, e outros irmãos nossos na América do Norte. Por uma descomunal corrente providencial, muitas das províncias da América do Norte são totalmente separadas da mãe pátria, e constituídas em Estados independentes. O Governo Inglês não exerce autoridade sobre eles, nem no sentido civil nem no eclesiástico, mais do que sobre os Estados da Holanda. A autoridade civil é exercida sobre eles, em parte pelo Congresso, e em parte pelas Assembléias Provinciais. Mas ninguém exerce, nem pretende exercer, sobre eles qualquer autoridade eclesiástica. Nesta situação especial alguns milhares dos habitantes desses Estados desejam o meu conselho; e, em atenção a esse desejo, tenho feito um pequeno esboço.

“... O caso é bem diferente entre Inglaterra e a América do Norte. Aqui há Bispos que exercem jurisdição legal. Na América não há ninguém. Nem há ministros paroquiais. De modo que, por centenas de milhas, não há ninguém nem para administrar o batismo nem a Ceia do Senhor. Aqui, portanto, terminam os meus escrúpulos e eu me considero com plena liberdade, visto que não violo qualquer ordem, nem invado os direitos de ninguém, em designar e enviar trabalhadores para a ceara. Portanto, tenho nomeado ao Dr. Coke e ao Sr. Francis Asbury como Superintendentes sobre os nossos irmãos na América do Norte; e igualmente Richard Whatcoat e Thomas Vasey para servirem de presbíteros entre eles, para administrarem o batismo e a Ceia do Senhor... "

"Se alguém quer nos indicar um meio mais racional e escriturístico para apascentar e guiar a essas pobres ovelhas no deserto, eu o aceitaria de bom grado. Presentemente, não vejo melhor método do que aquele que tenho escolhido” (Smith, pág. 512).

É para se notar que Wesley ordenou a Coke como “Superintendente”, e não como Bispo. Ele sabia o poder de palavras, e desejava evitar o emprego de um termo que certamente havia de provocar controvérsia. Com o conservantismo (conservadorismo) obstinado de seu tipo, também, cuidava em conservar as velhas formas verbais, mesmo quando se achassem carregadas de novos significados. Mas Coke e Asbury na América não viram necessidade alguma em disfarçar fatos reconhecidos, por qualquer arranjo verbal, e eles adotaram o termo Bispo. É ainda divertido ler-se o comentário alarmado de João Wesley sobre esta circunstância.

Ele escreve a Asbury:
“Sobre um ponto, meu caro irmão, eu me receio um pouco, tanto vós como o doutor diferem de mim. Eu procuro ser pequeno; vós procurais ser grande. Eu me rastejo; vós andais com orgulho. Eu estabeleço uma escola; vós um colégio! Sim, e o chamais por vossos nomes! Oh! Cuidai, não procureis ser algo! Que eu seja nada, e Cristo seja tudo em todos!”

“Um exemplo desta vossa grandeza tem me dado muito pensar. Como podeis, como ousais, permitir que vos chamem de Bispo? Eu fico arrepiado e pasmado com o pensamento! Os homens podem me chamar de tratante ou de tolo, de velhaco ou de perverso, não me importo, mas nunca com o meu consentimento, hão de chamar-me de Bispo! Por amor de mim, por amor de Deus, por amor de Cristo. Acabai com isso! Que os Presbiterianos façam o que quiserem; mas que os Metodistas saibam melhor a sua missão.”

Esta carta mostra quão completamente, em certos assuntos, Wesley era escravizado a palavras nesse período da sua madureza. Ele achava-se capaz de fazer cousas ousadas, cousas revolucionárias; mas à moda característica dos ingleses, ele queria rotulá-las com frases domesticadas e convencionais.

Tendo adotado, sob princípios evidentes e racionais, a política de ordenar os seus próprios auxiliares, João Wesley assiduamente prosseguiu em dar-lhe uma aplicação mais larga. Ele ordenou a outros auxiliares, mas sempre sob a lógica da necessidade; fazia aquilo que os fatos de cada caso incontestavelmente exigissem; mas ainda com tão pouca perturbação da ordem existente, e com tão pouco abalo às prevenções de outros, quanto fosse possível. Em 1785, ele escreve: “Tendo eu, com uns poucos amigos, considerado o negócio com deliberação, cedi ao seu juízo, ordenei a três dos nossos pregadores bem experimentados, João Pawson, Thomas Hanby e José Taylor, para ministrarem na Escócia.” Ele ainda recomendou aos Metodistas Escoceses o uso do abreviado Livro de Oração Comum, circunstância que demonstra que Wesley ainda não compreendia o caráter Escocês.

Wesley conta as razões que o levaram a ordenar esses três auxiliares para a Escócia. Não podia haver qualquer conflito de jurisdição, visto que nenhum Bispo Anglicano tinha qualquer cargo espiritual além da divisa. As outras razões são: 1) O desejo de fazer um bem maior; 2) a absoluta necessidade do caso, como os ministros escoceses haviam repetidas vezes recusado aos Metodistas a Santa Ceia a não ser que deixassem as Sociedades Metodistas.

Em 1786 ele ordenou a Auxiliares para a Irlanda e as Índias Ocidentais. Aos 3 de Novembro de 1787, no seu último Diário, encontra-se a seguinte narração:
Tive uma longa conversa com o Senhor Clulow – como advogado – sobre o Ato execrável, chamado o Ato Conventicular. Depois de comparar o Ato de Toleração (Ato de Tolerância), com aquele do décimo ano da Rainha Anna, ficamos ambos claramente convencidos que o modo mais seguro seria licenciar todas as nossas capelas e todos os nossos pregadores itinerantes; e que nenhum juiz ou tribunal, tem autoridade alguma para recusar o licenciamento nem das casas nem dos pregadores”.

Aos 27 de Fevereiro de 1788, João Wesley ordenou a Alexandre Mather como Superintendente ou Bispo, e Thomas Rankin e Henrique Moore como presbíteros, para a Inglaterra. Ele lhes revestiu com autoridade para apascentar o rebanho de Cristo, e para administrar os sacramentos do Batismo e da Ceia do Senhor, segundo o costume da Igreja Anglicana, e dentro dos limites da Inglaterra. E ordenou a Mather como Superintendente ou Bispo que pudesse ordenar a outros auxiliares, e desta forma fosse mantido um ministério regular na Igreja Metodista, mesmo depois da morte de Wesley (Vida de Carlos Wesley, por Jackson, pág. 431).

E ele fez tudo isso, sabendo, como diz o Lorde Mansfield, que “a ordenação é a separação”. Nestes fatos claros e salientes, não nas frases destacadas que se apanham de suas cartas e do seu Diário, se acha o verdadeiro propósito de Wesley acerca do Metodismo.

Alexandre Knox explica as ordenações feitas por João Wesley, numa carta que Southey publicou como apêndice a sua biografia, como devidas a caduquice de suas faculdades racionais. Mas esta explicação prova demais para os críticos ritualistas que a citam. Wesley ordenou a Coke, Vasey e Whatcoat em 1784, e, sob a teoria de Knox, a sua memória e inteligência estavam então padecendo de decadência senil. Mas o famoso sermão de Korah, que é uma prazenteira mina de citações para os críticos sacerdotais do Metodismo, foi pregado em 1789, cinco anos depois, e, segundo a lógica de Alexandre Knox, representaria, ainda mais completamente do que as impugnadas ordenações, a decadência das faculdades racionais de Wesley!

O Sermão Korah – um sermão sobre o ofício ministerial – é perfeitamente consistente com toda a política de João Wesley. Foi pregado em Cork aos 4 de Maio de 1789, a fim de repreender certos auxiliares Irlandeses que haviam arrogado para si a autoridade de administrar a Santa Ceia sem o consentimento de Wesley. Ele pergunta: “Onde vos designei para fazer isso? Nenhures. Em fazê-lo renunciastes o primeiro princípio do Metodismo, que é só e exclusivamente pregar o Evangelho”. Wesley estava pronto a ordenar a seus auxiliares para administrar os Sacramentos, quando julgasse isso necessário, mal; não toleraria que os auxiliares ordenassem a si mesmos. Devemos lembrar que um pouco menos de três meses antes de pregar o Sermão de Korah, ele ordenara a Mather como Superintendente ou Bispo, e Rankin e Moore como presbíteros, para a Inglaterra,

Freqüentemente se diz que, não obstante, fatos aqui citados, João Wesley nunca tencionou que o Metodismo fosse mais do que uma Sociedade dentro da Igreja Anglicana; que ele planejara o Metodismo como uma Sociedade e deixou-o como Sociedade; e proibiu que fosse Igreja. É claro que deve ser a resposta, qualquer que fosse as tensões de Wesley, que a história tem demonstrado que o Metodismo é uma Igreja no sentido mais lato (amplo, largo); e que o seu fundador, à semelhança dos homens que deitaram os alicerces da Grande República Americana, edificou mais sabiamente do que pensava.

Mas João Wesley se enganava com uma frase? Ele contemplava o grande sistema espiritual que toma forma ao redor dele, com a sua organização perfeita e flexível, como sendo uma mera “sociedade”, um grupo acidental, ou pelo menos temporário, de átomos sem nexo? No seu famoso sermão sobre o cisma, Wesley trata minuciosamente da questão: “que é a Igreja?”. Ele diz: “Palavra mais ambígua do que esta - a Igreja - seria difícil de achar na língua Inglesa”. Mas com a sua lógica penetrante, a sua linguagem clara e nervosa, Wesley tirou da palavra toda a sua ambigüidade. Ele diz: “A Igreja Católica ou Universal consiste de todas as pessoas no universo que Deus tem chamado dentre o mundo. Uma Igreja Nacional é aquela parte da Igreja Universal que habita qualquer reino ou nação particular”. A Igreja Anglicana era Igreja Nacional neste sentido. Mas quando reduzido aos elementos mais simples e imperecíveis, o que constitui uma Igreja? Wesley responde: “Dois ou três crentes Cristãos unidos, constituem uma Igreja. Uma Igreja qualquer pode ser constituída de qualquer número de indivíduos quer sejam dois ou três quer sejam dois ou três milhões”.

Em suma, João Wesley traçou uma distinção profunda e clara entre o Estabelecimento Nacional e,uma Igreja. Não eram termos idênticos. O Metodismo não constituía uma Igreja nacional; mas submetido às experiências da ordem espiritual a qual ele pertencia, era uma Igreja verdadeira. De fato, Wesley freqüentemente emprega os termos “sociedade” e “Igreja” como sendo uma e a mesma cousa. O seu obstinado, e pela maior parte, sábio hábito mental de empregar termos velhos, mesmo quando carregados de novos significados, esconde este fato de muitos críticos. Mas não obstante é fato indiscutível. Tão cedo como 1749 ele está discutindo na Conferência daquele ano um plano para a união das Sociedades. Ele pergunta: “Não será permissível que aquela de Londres, a Igreja mãe, consulte com as outras por amor de todas as Igrejas?” (Atas da Conferência, 1749, pág. 44).

As Sociedades, já eram, aos olhos de João Wesley, verdadeiras Igrejas no exato sentido da definição de Igreja que acabamos de citar.

Para os próprios Metodistas a questão se o Metodismo era ou não uma verdadeira Igreja não se determina pelos trabalhos em antigalhas (antiqualhas, antiguidades, costumes ou hábitos antigos) nem por citações e datas tiradas do Diário de Wesley. O assunto pertence a um domínio mais nobre, e é determinado por experiências mais sérias. Lembremo-nos das características essenciais do avivamento Metodista. Era o renascimento dos elementos espirituais do Cristianismo; a nova manifestação do seu poder espiritual; a volta para as suas formas mais simples. Não suscitou, nem suscita, qualquer questão a respeito das cousas meramente exteriores de religião. Rompeu do domínio espiritual: operou em virtude de forças espirituais, e para fins espirituais. E uma filosofia verdadeira e profunda, que com isso harmonizava, formava a base de todo o movimento e determinava as formas eclesiásticas que davam expressão à nova vida espiritual.

Naquilo, que se pode chamar “a gramática do Metodismo”, a ênfase se dava, não aos credos, símbolos, ou questões da política e ordem eclesiásticas; mas às qualidades espirituais; à relação da alma pessoal ao Salvador pessoal.

A sua teologia está em relação direta com a vida espiritual. A sua política eclesiástica constitui um consórcio (associação, união) entre doutrinas vitais e experiência prática. A Igreja, segundo a sua definição, é a vida espiritual – a vida espiritual de almas individuais – arregimentada e entrelaçada em formas orgânicas que visam o culto e o serviço. Todas as formas, símbolos, métodos e credos são a isto subordinados, e só têm valor à medida que a isto contribui.

Perguntemos, porque foi que um tão grande escritor como Isaac Taylor, um historiador que é também filósofo, e que, em certo sentido, é crítico severo do Metodismo, entretanto, declara que “O Metodismo é o ponto de partida para a história religiosa dos tempos modernos”, e que “Os eventos entre os quais nasceu a época religiosa agora corrente datam do começo das pregações ao ar livre por Whitefield e Wesley em 1739”? É porque o Metodismo pôs em relevo, vero e espiritual, tudo que se refere à Igreja e à religião. Na Igreja daquele triste século XVIII as causas secundárias ocupavam o primeiro lugar. O exterior era mais do que o espiritual. Ritos, símbolos e credos não eram simples meios para um fim superior a si mesmos – a criação de uma vida espiritual – eram fins em si mesmo.

O Metodismo foi precedido pela Reforma alemã de Lutero, e pela Reforma Inglesa de Cranmer, mas ambas eram incompletas. A Reforma Luterana ficou prejudicada pelos traços papais que ainda nela restavam. Existe um elemento sacramentariano (clericalista) em sua teologia. Um crítico inteligente diz que “ela começou em ideais e findou-se na força”. Era indubitavelmente uma reforma que se estacionou em meio caminho. A Reforma Inglesa do século XVI era principalmente uma reforma política. Deixou o estado e a Igreja ligados, para o prejuízo de ambos. Quão imperfeito foi o seu divórcio do Papa se vê pelos relapsos freqüentes para a doutrina papal que enchem a história. Eduardo VI foi seguido por Maria a sanguinária, Elizabeth por Carlos I, CromweIl por Tiago lI, e Carlos lI, dos quais um morreu Papista, e outro inverteu a política de Henri Quatre, e vendeu um reino por uma missa.

Numa palavra, o Anglicanismo com a sua teologia sacramentariana e governo episcopal, e o Puritanismo da República, com a sua têmpera fogosa e fermento político, representam a oscilação do pêndulo para extremos opostos. Ao contrário, o Metodismo, com todas as suas limitações, visa unicamente uma interpretação pura e espiritual do Cristianismo. Para ele as formas são de importância secundária. Pode-se empregar bispos e pode-se passar sem eles. A teoria presbiteriana ou a episcopal de governo eclesiástico pode ser igual, ou desigualmente, efetiva; mas nenhuma delas é mandatária. A mais fogosa (ardorosa) controvérsia doutrinal da vida de João Wesley era a que se relacionava com o Calvinismo; mas quando abreviou os Artigos de Religião para as Sociedades na América, os formulou de modo a não tocarem naquela grande controvérsia, fazendo possível que Calvinistas e Arminianos cantassem juntos os mesmos hinos e adorassem debaixo do mesmo teto. Wesley uma vez disse a seus pregadores: “Não tenho mais direito a obstar que alguém tenha opinião diversa da minha do que tenho para brigar com alguém por cobrir a cabeça com cabeleira postiça enquanto eu prefiro empregar o meu próprio cabelo, se bem que tenho direito a opor-me a que qualquer um tente me atirar poeira aos olhos”.

João Wesley era, portanto, um grande líder religioso para o qual os fatos espirituais eram tudo e as formas eclesiásticas eram nada. Era inevitável que ficasse descuidado quanto à exata definição eclesiástica do seu movimento. O Metodismo já durante a sua vida era Igreja? Ou havia de tornar-se Igreja? Se assim, que rótulo traria? Qual seria a forma do seu governo? Tais eram as perguntas que Wesley não se sentiu disposto a propor nem a responder. Protelou-as a fim de escapar à controvérsia; deixou-as para serem respondidas pela história. Os críticos das gerações anteriores mantêm debate interminável sobre estes pontos. Ao próprio Wesley a única importância do debate era devido à persistência e tirania de velhos hábitos mentais. Para sua Igreja o debate não tem nem realidade nem significação. Representa apenas uma discussão de negociatas em antigalhas (costumes ou hábitos antigos) eclesiásticas , questão que a história já determinou – ou antes Deus, que opera através a história e da forma.

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** (Esse texto corresponde ao capítulo XI, "Os Passos Finais", do livro "Wesley e seu século – um estudo de forças espirituais, Volume II", respectivamente nas páginas 131 a 145, edição de 1916 publicada pela Typographia de Carlos Echenique, Porto Alegre, RJ).

OBS: As notas explicativas dentro de parênteses são de iniciativa dessa edição on line do site da Igreja Metodista de Vila Isabel.

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